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21 dezembro 2015

Resenhas em notas - #1



Depois de tanto tempo abandonado – mais precisamente, 11 meses e 20 dias –, este blog retorna à vida com uma nova seção sobre livros: a "Resenhas em Notas". Ela irá trazer pequenos parágrafos acerca das últimas leituras que andei fazendo. Através destas postagens, os leitores do Gato Branco poderão conhecer um pouco das minhas impressões sobre determinadas obras, e a ideia é fazer com que estes leitores ao menos se sintam contagiados pelas minhas experiências, narradas aqui da forma mais sucinta possível.

Penso em incluir em uma mesma postagem as últimas três leituras que fiz. Acho que é um bom número, mas vamos acompanhar o andar da carruagem. Nada de pôr os carros na frente dos bois – nada de criar muitas expectativas, principalmente se formos levar em conta que entrarei no mestrado no próximo ano e isso significará menos tempo disponível para a Literatura. Mas planos futuros são planos futuros.

Ao que interessa!


À noite andamos em círculos, de Daniel Alarcón



O jovem peruano Daniel Alarcón foi um escritor que conheci por acaso, o mesmo acaso que está tão presente na minha relação com os livros. Eu estava em uma livraria qualquer, andando a esmo, quando esbarrei no seu romance À noite andamos em círculos (At night we walk in circles, 2013). Já na metade da sinopse eu estava fisgado: o romance narra a história de um aspirante a ator de teatro que subitamente é contratado pela companhia que ele admirava muito desde a adolescência. Os anos de ouro desta companhia de vanguarda, o Diciembre, eram os anos 1970 – época em que criticar a ditadura local através da arte era um ato de ousadia necessária capaz de custar a vida.

Atualmente esquecido, o Diciembre parece estar fadado às memórias dos artistas de rua que fizeram parte daquela época. Com o intuito de reviver os seus tempos de glória artística – ao mesmo tempo em que é preciso superar alguns traumas do passado –, dois integrantes da antiga companhia decidem iniciar uma nova turnê pelo país, agora machucado pelas consequências de uma guerra civil. E é para esta nova turnê que Henry – o ex-líder do coletivo – e Patalarga – seu antigo colega – chamam o nosso protagonista. Juntos, os três reencenarão a peça sarcástica escrita por Henry décadas antes, que fizera tanto sucesso nos anos da ditadura, e atravessarão o país em busca de uma redenção para seus próprios fantasmas.

Genialmente escrito, o romance cativa o leitor já nas primeiras páginas e mantém em suspense uma trama cujo desfecho se espera sempre na página seguinte. É uma história feita de camadas, como muito bem disse o The New York Times, na qual elementos vitais são adicionados aos poucos, dando uma sensação de crescente deliciosa e perturbadora nos personagens e no enredo. Alarcón entrega aos poucos os pontos centrais da trama, com muita paciência. E quanto mais o leitor percebe sua própria ignorância diante do que está sendo narrado, mais ele se sente atraído pela história e maior é a sua vontade de virar as páginas.


Um adivinho me disse, de Tiziano Terzani


Foi na primavera de 1976 que Tiziano Terzani visitou – por acaso – um adivinho em Hong Kong e recebeu o seguinte aviso: "Não viaje de avião ou de helicóptero no ano de 1993. Se o fizer, você muito provavelmente sofrerá um acidente. Não voe." Quando o fatídico ano finalmente chegou, Terzani estava com 55 anos de vida e, nas suas palavras, procurava algo com que pudesse sair da mesmice de sua profissão de jornalista e experimentar uma coisa nova, que desse um colorido diferente à sua rotina. Nunca tendo esquecido o que ouvira em Hong Kong, ele decidiu que em 1993 se locomoveria apenas via terra e mar, abdicando completamente dos aviões e dos helicópteros. A partir de Bangkok, na Tailândia, ele cobriria acontecimentos históricos na Indochina e escreveria artigos sobre os mais variados temas da cultura asiática – pela qual sempre fora apaixonado.

Um adivinho me disse (Un indovino mi disse, 1995) é um dos relatos de viagem mais deliciosos que já li. Ele ficou alguns anos abandonado na minha estante mas, quando o peguei para ler, simplesmente não o larguei mais. Fascinado pela Ásia, Terzani nos fornece um detalhado panorama da Indochina do início dos anos 1990, observando como o estilo de vida ocidental estava varrendo e apagando as tradições históricas dos povos desta parte do mundo. Levados pelo afã de acompanhar o progresso econômico europeu e americano, os asiáticos abraçaram a causa da modernidade em que os fins justificam os meios e, sem perceberem – ou percebendo e ignorando –, seu modelo cultural milenar era colocado à extinção.

O relato de Terzani, contudo, é embalado pela brincadeira de não tomar aviões neste ano fatídico, motivo pelo qual ele decide investigar o universo do "oculto" e do "sobrenatural", tão presentes no Oriente. Nas cidades da Ásia que ele visitou – e foram muitas, da Cingapura à Mongólia – Terzani sempre procurava o adivinho local e pedia-lhe para ler sua sorte. Neste exercício, o autor elabora uma visão de mundo sobre o poder do ocultismo e da astrologia e a compartilha com o leitor, tecendo bem-humoradas e inteligentes reflexões.


O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação, de Haruki Murakami

   

Nos anos de colégio, Tsukuru era membro de um grupo de amigos que tinham uma característica peculiar: todos eles possuíam o nome de uma cor distinta. Havia os homens, Azul e Vermelho, e as mulheres, Branca e Preta. E Tsukuru, que não possuía nenhuma cor associada ao seu nome. Mas o fato é que todos se davam muito bem e compartilhavam uma amizade intensa típica da adolescência. Porém, já no final do que no Brasil seria considerado o Ensino Médio, Tsukuru é subitamente expulso do grupo: seus amigos, aparentemente decepcionados, embaraçados e irritados, comunicam seu desligamento, dizem que vão cortar relações a partir de então e nunca mais entram em contato com o incolor Tsukuru. Sem saber o motivo desse afastamento forçado, mas com a impressão de que fizera algo de terrível para os amigos, o nosso protagonista se isola em si mesmo e vive os anos seguintes atormentado pelo episódio, até que decide ir atrás de cada antigo colega e, pessoalmente, tentar entender o que acontecera no passado.

Narrado com a melancolia e a nostalgia típica do autor, O incolor Tsukuru Tazaki… (Shikisai o motanai Tazaki Tsukuru to, kare no junrei no toshi, 2013) é o segundo romance de Murakami que não inclui o seu sempre esperado realismo fantástico. Tal como Norwegian Wood, sua obra-prima, este romance finca os pés no chão e narra uma bela história sobre amizade e o peso dos anos em cima dos relacionamentos. Tazaki, que só possui o defeito técnico de se parecer absurdamente com todos os outros protagonistas dos livros do autor, é um jovem em busca do sentido da vida, um rapaz que procura – como todos nós – superar a árdua passagem da inocência da juventude para a áspera vida adulta, repleta de amores efêmeros, profissões monótonas e dias desperdiçados. Com uma narrativa simples e elegante e com um desfecho que surpreende o leitor, O incolor Tsukuru Tazaki… certamente vale o investimento e mostra por que Murakami é tomado como o porta-voz da mocidade nipônica.


Um lugar chamado Liberdade, de Ken Follett


Primeiro livro de Ken Follett que leio, Um lugar chamado Liberdade (A place called Freedom, 1995) conta a história de Mack McAsh, um rapaz que nasceu em uma família de escravos na Escócia e foi obrigado a trabalhar desde criança nas minas de carvão da poderosa família Jamisson. Paralelamente ao seu drama, somos apresentados a Lizzie Hallim, uma bela e esperta moça nascida no berço de uma decadente burguesia escocesa, presa aos ditames patriarcalistas que submetem as mulheres aos caprichos dos homens. Sedentos por liberdade, inconformados com as posições sociais nas quais foram criados, ambos buscarão superar os mais diversos obstáculos em busca dos seus sonhos.

Adepto das tramas folhetinescas, cujos enredos se assemelham aos roteiros de telenovelas épicas, Follett utiliza um pano de fundo histórico grandioso para narrar uma história empolgante mas superficial. O autor é cuidadoso em recriar os detalhes da época em que se passa seu romance – o que certamente se espera de um narrador de sua envergadura –, mas a intenção de escrever um livro para o grande público acaba fazendo com que tudo pareça contemporâneo demais, desde os diálogos até as situações vividas por seus personagens. A impressão que tive foi a de que a história, embora muito boa e interessante, estava fadada ao estilo contemporâneo de um best-seller fácil de digerir, e isso, para um romance histórico, compromete a experiência.

Um lugar chamado Liberdade possui reviravoltas que sem dúvida prendem o leitor às páginas do livro, e algumas de suas passagens são pertinentes como crítica social, mas não convém esperar da obra uma poderosa criação literária. Ela é um passatempo empolgante e instrutivo, e portanto válido, mas nada além.


Rádio Cidade Perdida, de Daniel Alarcón


Depois de ficar inebriado com a qualidade de À noite andamos em círculos, busquei os trabalhos antigos de Daniel Alarcón e me deparei com seu romance de estreia, Rádio Cidade Perdida (Lost City Radio, 2007). O tema dos dois únicos romances escritos pelo autor é o mesmo: um país latino-americano arrasado por uma guerra civil resultante de uma violenta repressão ditatorial, e as vidas comuns que foram afetadas por esse cenário dilacerante.

Nesta obra somos apresentados a Norma, uma radialista que ficou famosa após a guerra civil, quando inaugurou um programa de rádio destinado a fazer com que pessoas desaparecidas durante os conflitos reencontrassem seus familiares. Dona de uma voz extremamente acalentadora pela qual é reconhecida na rua, Norma vive seus dias atormentada por um episódio trágico: o desaparecimento do próprio marido dez anos antes, já nos momentos finais da guerra entre soldados do governo e rebeldes. Sua rotina muda completamente quando o pequeno Victor chega à cidade vindo de uma aldeia muito distante e, com ele, a promessa de informações inéditas sobre Rey, o marido ausente da protagonista.

Escrito com a mesma genialidade do outro romance, Rádio Cidade Perdida é um mosaico intrincado de flashbacks que não obedecem a uma cronologia linear mas que, quando somados, começam a fazer surgir a imagem nítida da trama principal. Para a literatura, este romance é o que 21 gramas é para o cinema: uma obra que destoa da narrativa tradicional, que oferece ao público uma miríade de recortes que fazem sentido na medida em que a história ganha corpo. Não é um livro fácil de ser lido, portanto, mas aqui isto não é um ponto negativo, porque qualquer leitor interessado capta o desenvolvimento da história sem grande esforço.

E a profundidade da obra, sua eloquência, sua riqueza reflexiva e seu primor estético envolvem o leitor já nos primeiros momentos e evidenciam o grande talento que Alarcón possui como contador de histórias. A América Latina, desde já, com sua gente pobre, com sua vida política conturbada e perigosa, mostra-se como a fonte da qual este escritor peruano bebe. Rádio Cidade Perdida é um romance de estreia, mas não de um iniciante.

27 dezembro 2013

5 livros que eu li em 2013 e que você gostará de ler em 2014

Seguindo a tradição do Gato Branco, nos últimos dias do mês de dezembro de cada ano eu elaboro a lista dos cinco livros que mais me impressionaram como leitor, desde janeiro até então. Ou seja, escolho cinco obras cuja leitura superou (ou atendeu) minhas expectativas nos últimos 12 meses e as coloco aqui, acompanhadas de um breve comentário.

Naturalmente, isso não significa dizer que, dentre todas as leituras de 2013, considerei apenas estas cinco como boas. Muitos livros passaram pelas minhas mãos ao longo deste ano, e muitos deles maravilhosos; mas, por uma questão de seleção quase arbitrária, separo apenas cinco para trazer para cá.

E, então, a minha lista de 2013 é esta:


O silêncio contra Muamar Kadafi | Andrei Netto

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Que o jornalista brasileiro Andrei Netto viveu uma aventura impressionante no coração da Líbia, durante a guerra civil que depôs o ditador Muamar Kadafi em 2011, disso não restam dúvidas. Entrando clandestinamente no país junto com um colega de profissão iraquiano, Netto buscou o epicentro da revolução popular que ansiava por derrubar um regime totalitário sangrento de mais de 40 anos. Entrevistando líderes do movimento insurgente, refugiados e estrangeiros, o jornalista disseca a Primavera Árabe na Líbia e, graças à excelência de sua escrita, faz o leitor se imaginar nos desertos áridos do Norte da África, acompanhando os passos da rebelião popular.

Netto chegou a ser preso pelas autoridades líbias durante sua estada no país, acusado de ajudar o movimento insurgente. Passou vários dias em uma cela pequena, imunda, e foi liberado somente com a intervenção da diplomacia brasileira. Essa passagem no livro é uma das mais interessantes.

Narrado em forma de thriller (o que o torna incrivelmente atraente e fluido, como um grande romance de aventura), O silêncio contra Muamar Kadafi foi, sem dúvida, o melhor livro de jornalismo que li em 2013. Vale conferir, sem ressalvas.

Clique aqui para ler a resenha de O silêncio contra Muamar Kadafi no Gato Branco.


1Q84 – Vol. I | Haruki Murakami

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Desde Norwegian Wood e Kafka à beira-mar, venho acompanhando os romances do japonês Haruki Murakami com dedicação, ainda que os dois primeiros que li continuem a ser os meus favoritos. De um modo geral, os romances do autor são muito semelhantes entre si e, como falou uma amiga minha, a sensação é a de que você está lendo sempre o mesmo livro, o que não é propriamente ruim – já que os enredos criados por Murakami sempre nos envolvem.

1Q84 inicia a trilogia que é considerada a obra máxima do autor. Publicada entre 2009 e 2010 no Japão, 1Q84 vendeu dezenas de milhões de cópias no mundo inteiro (aliás, coisa nem um pouco rara em se tratando de Murakami) e reafirmou o japonês como um dos escritores cult mais populares da atualidade.

Este primeiro volume apresenta os dois personagens principais a partir dos quais a trama é costurada: Tengo, um jovem professor de matemática do Ensino Médio, aspirante a romancista, recebe do seu amigo editor o desafio de reescrever um livro enigmático de autoria de uma garota mais enigmática ainda – e, de repente, coisas estranhas começam a acontecer no mundo real, de algum modo ligadas a esse processo de reescrita; Aomame, uma professora de educação física que esconde sua segunda ocupação, a de fazer justiça contra homens que violentam mulheres. Como não poderia deixar de ser, a trajetória desses dois vai convergindo aos poucos para um único ponto, clímax da série.

Com seus pontos altos e baixos, a trilogia é ainda assim um grande exercício de imaginação e um excelente entretenimento para os fãs de Murakami. Sem a carga emocional e a densidade psicológica de Norwegian Wood, e sem o enredo orquestrado de Kafka à beira-mar, 1Q84 se sustenta pela criatividade e pela fantasia non-sense, que tem agradado muito o público em toda a carreira do autor.

Clique aqui para ler a resenha de 1Q84 – Vol. I no Gato Branco.


Anna Kariênina | Liev Tolstói

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A Felicidade Conjugal foi o primeiro livro que li do escritor russo Liev Tolstói. Sua escrita primorosamente refinada, o conteúdo introspectivo e o enredo belo e surpreendente fez com que este autor ocupasse o lugar da minha estante que é destinado aos grandes gênios da literatura. Suas obras são como um espelho que reflete nossa condição humana: todas as nossas dúvidas, nossos temores e nossos desejos são sugeridos de forma sutil – e às vezes nem tão sutil – em obras como, por exemplo, Anna Kariênina, publicado originalmente em 1877.

Anna Kariênina é o tipo do livro que, não importa se foi escrito na distante Rússia do século XIX, o leitor de hoje certamente vai se identificar com algum personagem da galeria de Tolstói e constatar que sentimentos – no sentido estrito da palavra – são universais em larga medida. Este foi um livro que li com deleite. Não era raro me deter por mais de dez minutos na mesma página, apreciando um determinado diálogo, um determinado parágrafo descritivo, uma determinada reflexão, e constatando como Tolstói escrevia de forma maravilhosa.

Gosto de me referir a Anna Kariênina como "o romance definitivo sobre o Amor". Afinal de contas, é uma obra que pondera o que somos capazes de fazer por causa dele: do que podemos abrir mão e o que podemos abraçar como causa. E, quando me refiro a Amor, estou me referindo a esse sentimento em suas múltiplas manifestações: o amor entre amantes, entre pai e filha, entre mãe e filho, entre irmãos, entre desconhecidos. Como não poderia deixar de ser, é também um romance sobre as aparências: sobre se relacionar buscando algo não no outro, mas em si mesmo; uma afirmação não para o outro, mas para si, afirmação com a qual você tenta construir sua identidade. Afinal de contas, quando dizemos "Eu te amo", não estaríamos sugerindo algo como "Eu preciso dizer que te amo"?

Livro monumental que faz justiça às suas 800 páginas, Anna Kariênina é o romance do qual ninguém pode escapar. Leitura mais que obrigatória para os fãs dos russos.

Clique aqui para ler a resenha de Anna Kariênina no Gato Branco.


A visita cruel do tempo | Jennifer Egan

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Escrito à mão, A visita cruel do tempo foi o romance vencedor do Prêmio Pulitzer de Ficção 2011 e, também, o ganhador de outros prêmios importantes nos EUA. Recebeu elogios desmedidos de vários suplementos literários norte-americanos (e do restante do mundo) pela criatividade da autora, seu domínio técnico e prosa envolvente. Ganhei o livro do meu irmão e, no início, antes de começar a lê-lo, eu tinha minhas reservas quanto a todo aquele experimentalismo literário, que parecia, ao mesmo tempo, ambicioso demais e relevante de menos.

Mas me enganei com prazer quando iniciei a leitura. A visita cruel do tempo é um texto engenhoso, de fato envolvente, complexo, cujas histórias e personagens se entrelaçam de modo criativo e até inesperado. Foi certamente uma das leituras mais acertadas do ano.

O livro possui uma cronologia embaralhada que conta, através da passagem do tempo, a juventude e a vida adulta de um grupo de pessoas que estão no mesmo círculo afetivo e profissional. É o caso de Bennie Salazar – talvez o eixo central desse círculo –, um executivo da indústria fonográfica que acompanha desde a explosão dos roqueiros independentes, nos anos 70 e início de 80, até a superficialidade do ramo na era digital.

Navegando pelos mares da internet, encontrei um leitor do livro chamado Daniel que se deu ao trabalho de identificar o local e a época em que cada capítulo transcorre. Segue abaixo o que ele garimpou. (Se alguém quiser ler o livro pela segunda vez, fica aí uma sugestão de acompanhar a cronologia real.)

1. Achados e perdidos – NY, 2009
2. Ouro que cura – NY, 2006
3. Não estou nem aí – São Francisco, 1979 (narradora: Rhea)
4. Safári – África, 1973
5. Vocês – São Francisco, 2006 (narradora: Jocelyn)
6. Xis-zero – NY, 1997
7. De A a B – NY, 2003
8. Como vender um general – NY, 2008
9. Um almoço em 40 min – NY, 1999
10. Fora do corpo – NY, 1994 (narrador: Rob)
11. Adeus, meu amor – Nápoles, 1993
12. Grandes pausas do rock – Deserto da Califórnia, 2020?
13. Linguagem pura – NY, 2022

Clique aqui para ler a resenha de A visita cruel do tempo no Gato Branco.


Cartas na rua | Charles Bukowski

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Nesse ano, tiquei mais um Charles Bukowski da minha lista de "Obras Indispensáveis". O livro foi Cartas na rua, romance publicado em 1971 que traz ao leitor pela primeira vez o protagonista Henry Chinaski, alter-ego de Bukowski – também inclinado aos porres, às mulheres e aos empregos sem perspectiva nenhuma.

Aqui, ao contrário de Factótum (1975), Chinaski não se vê pulando de trampo em trampo para ganhar uns trocados. Na verdade, o personagem mais conhecido de Bukowski está há 14 anos trabalhando no mesmo lugar: os Correios norte-americanos. Ele intercala sua vida monótona e estressante com as mulheres com as quais se envolve, umas mais novas, outras mais velhas, mas todas sempre muito excêntricas e desconcertantes. No final das contas, temos pintado um quadro sobre a desilusão do american way of life e sobre como o estofo da sociedade americana é, também, composto pelos marginalizados.

Primeiro romance de Bukowski, Cartas na rua é o início da obra de um escritor que foi muito além da literatura: transformou a própria vida em arte, desafiou tradições e abriu um novo caminho para os romances malditos. Não por acaso, o Velho Buk é um dos artistas mais celebrados e copiados desde os anos 80.

Clique aqui para ler a resenha de Cartas na rua no Gato Branco.



Menção honrosa:

Momo e o senhor do tempo | Michael Ende

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Eis um livro que foi parar na minha estante de modo completamente inesperado e que, sim, me surpreendeu muito. Um professor da Universidade de Fortaleza me indicou este livro no início do ano e, assim que comecei a lê-lo, percebi por que o alemão Michael Ende é tão querido na Europa e em alguns lugares do restante do mundo: sua prosa fluida está a serviço não da técnica, mas do conteúdo – e este conteúdo, voltado para o público infanto-juvenil, é sempre inspirador, carregando mensagens que o público adulto parece já ter esquecido.

Digo que o livro foi parar de modo inesperado na minha estante porque, até meu professor aparecer com ele, eu não tinha a menor intenção de lê-lo (sequer sabia da sua existência), embora conhecesse bem a reputação de Ende. E como valeu a pena!

Momo e o senhor do tempo conta a história de Momo, uma menina de aproximadamente 10 anos de idade que se vê na tarefa de devolver o tempo roubado das pessoas. Ela percebe a existência de um grupo de homens misteriosos que está atuando nos bastidores e que, de modo mal-intencionado, negocia com os cidadãos o uso do seu próprio tempo de vida.

Momo certamente é um lembrete do que o tempo representa nas nossas vidas e o que fazemos para preservá-lo (ou desperdiçá-lo).

Clique aqui para ler a resenha de Momo e o senhor do tempo no Gato Branco. 


É isso. E que venham novas e excelentes leituras em 2014!

09 maio 2013

1Q84 | Tomo II, de Haruki Murakami

"O que estou querendo dizer é que no mundo há coisas que é melhor não saber." (p. 168)

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No último final de semana eu finalizei a leitura do segundo volume da obra 1Q84 (1Q84, 2009), trilogia esta que é até o presente momento o trabalho mais elogiado do escritor japonês Haruki Murakami, autor de clássicos como Norwegian Wood e Caçando carneiros. Murakami, conhecido pelo estilo limpo e cosmopolita, em cujos livros faz várias referências ao mundo pop ocidental, ingressa em 1Q84 nos universos fantásticos que os personagens Tengo e Aomame habitam e lutam por compreender.

Repleta de obras originais que se situam entre o cult e o popular, a bibliografia do autor alcança em 1Q84 o seu ponto mais ousado. Não só pela extensão do livro, enorme, mas por recorrer a uma complexa trama que mais deixa dúvidas no espírito do leitor do que traz respostas. Aliás, leitores que buscam histórias de fácil assimilação devem correr longe de 1Q84, que nos faz mergulhar em um mundo denso onde qualquer coisa é possível de acontecer e onde não há horizontes nítidos.

Até agora, depois de ler 1Q84 I e 1Q84 II, sinto que os dois livros poderiam ser um pouco melhores, principalmente este segundo. Mesmo assim – como grande admirador dos trabalhos de Murakami – aguardo ansiosamente a chegada do tomo final da história.


Sinopse: 1Q84 é um mundo real, mas as coisas não são exatamente como antes. Para começar, duas luas agora pairam no céu: uma grande, cinzenta, e outra menor, irregular, de tom levemente esverdeado. E há também o chamado Povo Pequenino, cujas intenções permanecem ocultas. Nesse mundo, paralelo a 1984, o destino de duas pessoas, Tengo e Aomame, está intimamente ligado. Cada um, à sua maneira, está fazendo algo perigoso, que pode colocar sua vida – e a de outras pessoas – em risco.

Para ler a resenha sobre o primeiro tomo, clique aqui.


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Uma jovem que desaparece na Grécia sem deixar vestígios, um velho capaz de conversar com gatos, uma garota que se encontra há meses dormindo profundamente, um homem misterioso que se veste de carneiro… Essas são algumas das personagens de livros anteriores de Haruki Murakami, que sempre primou pela inventividade e originalidade para tentar explicar o mundo das relações humanas normais. Em 1Q84 não poderia ser diferente, e aqui encontramos o jovem Tengo, professor de matemática do pré-vestibular que se encarrega clandestinamente de reescrever Crisálida de ar, um misterioso romance que narra uma história surreal e ao mesmo tempo verídica; e também temos Aomame, uma personal trainer solitária fria e metódica que esconde a sua segunda ocupação: assassinar por encomenda homens que maltratam mulheres.

Em 1Q84 II os acontecimentos e personagens do primeiro livro são aprofundados de forma mais aguçada, e a trama paralela dos dois protagonistas começam a se unir com grande força, aos poucos mas de modo veemente. No entanto, esse aprofundamento é lento e ladeado por situações que não parecem acrescentar muito à história, o que faz com que as 370 páginas do livro custem um pouco a passar. Prolixo, Murakami incrementa tanto o seu universo que ele parece ser ofuscado por situações banais e sem maior sentido, de modo que os grandes momentos da obra ficam esmaecidos e sufocados. Não entro em detalhes para não entregar spoilers.

É neste segundo volume que conhecemos melhor a história de Fukaeri, enigmática garota cujo passado permanecia envolto em grande mistério. Sua infância, recheada de elementos surreais, é narrada no livro Crisálida de ar, que Tengo reescreveu e que faz o maior sucesso comercial nas livrarias do Japão. O capítulo que narra a vida na comunidade Sakigake e o que ocorreu com a Fukaeri de 10 anos de idade está entre um dos melhores momentos de 1Q84 II. Além disso, a essência e as intenções do sinistro Povo Pequenino são melhor exploradas, mesmo que ainda estejamos cheios de dúvidas a seu respeito; porque na mesma medida em que Murakami tira alguns questionamentos do leitor, ele fornece mais e mais enigmas e becos aparentemente sem saída – o que dá uma certa agonia, não minto.

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Um bom exemplo de desenvolvimento é da personagem Aomame, que parece estar bem mais solitária e deprimida neste segundo episódio do que no primeiro. Em 1Q84 II ela é uma jovem com graves crises existenciais e uma densa sensação de vazio, agravada pelo fato de partir para uma missão cujos detalhes desconhece totalmente. Acho muito interessante a sua história pregressa, uma infância mergulhada no fanatismo religioso que para ela, criança de 10 anos, não fazia sentido – ser uma Testemunha de Jeová.

De modo geral, gostei muito de poder conhecer mais a fundo a essência das personagens, suas dúvidas e suas posturas. Por exemplo, é excelente o capítulo no qual Tengo desvenda alguns dos mistérios de sua própria vida na visita que faz ao pai, em uma casa de repouso que funciona como sanatório, à beira da praia. 

Tirando os vícios de sempre do autor – como inserir cenas de sexo sem sentido e várias referências eróticas, bem como lançar mão do mesmo estilo limpo e seco na fala de todos os personagens – o livro é bom e prende muito a atenção, fazendo mesmo jus ao adjetivo "envolvente". Mesmo que minhas obras favoritas de Murakami sejam Norwegian Wood (1987) e Kafka à Beira-mar (2005), admito que este japonês continua despertando o meu interesse por tudo o que ele escreve e publica. Recomendo seus livros para os leitores que gostam de sair da rotina literária de sempre, surpreendendo-se com uma literatura mais excêntrica.

E que venha o terceiro tomo de 1Q84.


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16 janeiro 2013

1Q84 | Tomo I, de Haruki Murakami

"Não se deixe enganar pelas aparências. A realidade é sempre única." (p. 22)

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No primeiro dia de 2013, finalizei a leitura do volume 1 de 1Q84 (1Q84, 2009-2010), romance surrealista escrito pelo japonês pop Haruki Murakami. É o mesmo autor do clássico Norwegian Wood (1987), que encantou uma geração de jovens no mundo inteiro ao narrar a trágica história de amor entre Watanabe e Naoko em uma nostálgica Tóquio de 1969. Dono de uma linguagem clara e, até certo ponto, simplificada, Murakami é um dos autores mais lidos da atualidade; consegue atingir em questão de poucos meses a assustadora marca de 4 milhões de exemplares vendidos apenas no Japão.

Dividido em três tomos no Brasil pela editora Alfaguara, 1Q84 é apontado pela crítica especializada como o trabalho mais ambicioso do escritor – não só pelo seu número de páginas, que no total chega a quase 1.500, mas pela estrutura narrativa das duas histórias principais que, aos poucos, vão ganhando contornos cada vez maiores e mais profundos, levantando reflexões sobre os bastidores editoriais no universo da literatura e a violência à mulher.


Sinopse: Tóquio, Japão. Um mundo aparentemente normal. Duas personagens – Aomame, uma mulher independente, e Tengo, professor de matemática – que não são o que aparentam e ambos se dão conta de ligeiros desajustamentos na realidade à sua volta, que os conduzirão fatalmente a um destino comum. Um universo romanesco dissecado com precisão orwelliana, em que se cruzam histórias inesquecíveis e personagens cativantes.


Certa vez, uma amiga minha me disse que, ao ler Murakami, a impressão que ela tem é a de que está lendo sempre o mesmo livro – ou seja, independentemente da obra em questão, ela encontra os mesmos tipos de personagens, situações relativamente iguais, cenários parecidos, e assim por diante. Não se pode negar que isso seja verdade: Murakami é bastante repetitivo na elaboração dos seus personagens, e a semelhança entre, por exemplo, Tengo e K. (de Minha querida Sputnik) é significativa demais para passar despercebida. Mas… meu puxão de orelha pára por aí. Porque embora o escritor traga à luz elementos que são muitíssimo comuns em seus livros, e embora haja essa coisa da escrita simplificada, ele sempre traz suas idéias de maneira diferente da vez anterior, e isso confere a cada livro uma essência particular.

Em 1Q84, por exemplo, Murakami atinge um ponto muito profundo ao retratar a violência à mulher de modo cruel e complexo. Aomame, segunda protagonista do livro, está no eixo central dessa violência, e sua profissão oculta a torna responsável por fazer justiça com as próprias mãos. Paralelamente a isso, temos a história de Tengo, um aspirante a escritor que se vê envolvido com a adolescente Fukaeri, misteriosa autora de uma obra que ele precisa reescrever para agradar o editor de uma revista.

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Edições de 1Q84 pela Casa das Letras, editora portuguesa

E a parte realista do romance acaba por aí. Conhecido no mundo todo como um autor de livros de realismo fantástico, Murakami mescla em suas tramas mundanas uma boa pitada de surrealismo, com o qual procura expandir a visão dos leitores e lhes mostrar que a realidade às vezes é bem mais bizarra do que pode parecer. Geralmente ele usa os elementos fantásticos para distorcer o cotidiano a fim de abarcar o Universo inteiro em seus livros, e é por isso que eles são, sempre, imprevisíveis do início ao fim, cheios de imaginação e possibilidades.

Aomame, por exemplo, parece ser transportada para uma espécie de realidade alternativa ao simplesmente descer a escada de emergência de uma avenida movimentada; no início, acha estranho que os guardas policiais tenham mudado o estilo dos seus uniformes, e depois descobre que há duas luas no céu. Abismada com essas mudanças estranhas, Aomame decide rebatizar o ano de 1984 para 1Q84 – "com um quê de interrogação, de dúvida".

O maior barato nos trabalhos do Murakami é que essas bizarrices não são aleatórias. Alguém pode se perguntar o que há de interessante em simplesmente inserir uma lua a mais no céu, ou mudar a roupa dos guardas policiais. Mas Murakami sempre faz esse tipo de coisa com um propósito, e não como uma mera brincadeira; ele usa certos elementos de fantasia às vezes não para confundir o leitor ou inserir um mistério, mas, pelo contrário, para deixar as coisas mais claras. Não entro em detalhes para não cair em spoilers. Porém, afirmo: na viagem de Murakami, o que importa é ir associando os elementos fantásticos e curtir o caminho que vai sendo trilhado.

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À direita, capa da edição norte-americana, com película maleável

No início do livro, a história de Tengo soava muito mais interessante que a de Aomame, pelo menos para mim. Achava os capítulos da jovem muito repetitivos e monótonos, sem grande inserção de informações relevantes. No entanto, à medida que as páginas iam avançando e as histórias iam se tocando, achei soberbo o conjunto como um todo. A história de Aomame ganha uma profundidade ímpar, talvez até maior que a de Tengo. E a trama toda começa a adquirir um tom muito sério, que só faz atiçar a curiosidade. De repente, o livro termina, deixando as pontas todas soltas para o próximo volume.

O tomo 2 de 1Q84 chega às livrarias brasileiras em março de 2013. Se existe sofrimento em esperar pelo lançamento do próximo volume, há um sutil prazer em estar acompanhando a obra no momento em que ela é trazida ao público. No Japão, a obra foi lançada também em três volumes, entre 2009 e 2010.

23 abril 2012

Norwegian Wood, de Haruki Murakami

"Nós somos seres imperfeitos vivendo num mundo imperfeito". (p. 330)

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Há exatos 25 anos, em 1987, o escritor japonês Haruki Murakami publicava aquele que seria o seu livro mais arrebatador, mais famoso e mais vendido de todos os tempos: Norwegian Wood (Norwegian Wood, 1987), já considerado pela crítica como uma espécie de O apanhador no campo de centeio oriental. Embora o autor não goste muito dessa comparação – pelo fato de ser super fã de J. D. Salinger, talvez – ela não é aleatória: ambas as obras giram ao redor do mesmo tema, a passagem tortuosa da adolescência para a vida adulta e os dilemas e contradições que essa transição carrega consigo.

Murakami é reconhecidamente o autor oriental mais ocidentalizado de que se tem notícia na contemporaneidade. Seus livros, ainda que se passem exclusivamente em localidades japonesas, fazem referência a tantos ícones da cultura ocidental moderna que o leitor percebe de cara a influência da globalização nos escritos do autor. O próprio título do livro, extraído da famosa canção dos Beatles, já nos mostra essa consciência globalizada. E, talvez pelo fato de serem mesmo bem "universais" – saindo do hermetismo das tradições japonesas, tão caras à literatura desse país – os livros de Murakami são traduzidos para dezenas de idiomas. E vendem bem. Só no país de origem do autor, Norwegian Wood vendeu 4 milhões de cópias.


Sinopse: Toru Watanabe é um jovem estudante de teatro que vive uma vida aparentemente normal em Tóquio, onde mora em um alojamento exclusivo para universitários e tem de conviver com colegas excêntricos. No entanto, seu universo pacato é abalado depois que ele reencontra uma antiga e tímida amiga. Essa garota, Naoko, era a namorada do seu melhor amigo, que, aos 17 anos, suicidou-se. Esse é praticamente o único fato que une os dois, e ambos tentarão viver uma espécie de amor proibido, cheio de encontros e desencontros, tendo ainda que suportar a perda do ente em comum. Nesse meio-tempo, Midori, uma energética e sensual amiga de Toru, entra em cena para completar o frágil triângulo amoroso.


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Norwegian Wood e Kafka à beira-mar, respectivamente: talvez as duas maiores obras de Haruki Murakami


Todo escritor possui um livro que, atingindo sucesso inesperado no período pós-publicação, concede ao seu autor a oportunidade de fazer da literatura uma profissão para o resto da vida. No caso de Murakami, essa obra-prima é justamente Norwegian Wood. Curiosamente, ela é a que mais destoa de toda a sua bibliografia. Reconhecido por escrever romances pertencentes ao gênero do realismo fantástico, em que uma história aparentemente banal e cotidiana ganha contornos fantasiosos e surreais, Murakami tem em Norwegian Wood o momento mais "equilibrado" de sua carreira: um livro cuja história é completamente real, no sentido mais acadêmico do termo.

Sem lançar mão de nenhum evento fantástico (em Kafka à beira-mar, por exemplo, um dos protagonistas tem a habilidade de conversar com gatos), o autor conseguiu aproximar os leitores que se sentem mais atraídos por um enredo pé-no-chão, mesmo que essa não tenha sido sua intenção ao escrever o livro. De qualquer forma, o amor trágico e inocente entre Watanabe e Naoko, ambientado no já depressivo final da década de 60, conquistou leitores no mundo inteiro e fez com que milhares de jovens se identificassem com os personagens principais – e esse é mais um ponto em comum com Salinger.


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Edições do livro em português: à esquerda, capa da Ed. Objetiva; à direita, lançamento da Ed. Civilização


A bem da verdade, o sucesso de Norwegian Wood não se deve exclusivamente à história e aos fatos que nela se desenvolvem; antes de tudo, o livro é excelente porque é excepcionalmente bem escrito. A história, em si, talvez não possuísse força suficiente para chegar até onde chegou se não fosse a habilidade ímpar do autor com as palavras. Mesmo que a criatividade de Murakami seja um claro diferencial, histórias de amor com pitadas de nostalgia e tragicidade não fazem parte dos enredos mais originais da literatura; a diferença está, sim, no modo como ela é contada. E nisso Murakami é mestre, como qualquer pessoa que lê seus livros pode constatar. 

Alguns livros necessitam ser lidos em momentos bem específicos de nossas vidas, para que possam mexer completamente com nossa consciência e visão de mundo. Nesse aspecto, sempre costumo dizer que eu li Norwegian Wood um pouquinho antes do momento-chave, mas que, mesmo assim, seu efeito não foi menor. Eu havia acabado de ingressar na universidade e ainda estava um pouco alienado com relação a certas coisas da vida, além de muito mergulhado na veia romântica da literatura. Entrar em contato com este livro foi, a priori, uma espécie de choque: meio que a contragosto, entendi que a boa literatura é aquela que nos deixa um pouco contrariados, que é ousada o suficiente para nos mostrar que nem tudo são flores e que estávamos enganados acerca de diversos aspectos da vida cotidiana.


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Cena do filme homônimo baseado no livro, dirigido por Anh Hung Tran: segundo os leitores, produção aquém da obra literária


Norwegian Wood me proporcionou essa abertura de olhos para algumas coisas que antes eu não conseguia – ou não admitia – enxergar. É um romance cru, em vários aspectos, doloroso e real demais para aquilo a que eu estava acostumado na época. Na trama, por exemplo, o sexo é um fator de destaque, e sua aparente banalização e frugalidade tem um sentido que só pude perceber algum tempo depois. Toru Watanabe talvez seja o tipo do personagem com o qual milhares de jovens da mesma faixa etária – 19, 20 anos – se identificam: solitário, pensativo, leitor voraz, possui um círculo fechado de amigos, que ele conquistou na base mesma do acaso.

Em suma, eu poderia escrever durante horas e horas sobre todos os detalhes do livro que fizeram de mim uma pessoa diferente daquela que eu era antes de sua leitura, mas sei que isso não se faz. Vou deixar que os possíveis leitores de Norwegian Wood se sintam eles mesmos abalados pela obra, para que possam tirar dela suas próprias conclusões e repensar alguns aspectos de sua própria vida. Porque, se você tem entre 15 e 25 anos de idade, isso certamente vai acontecer. E quem já passou por essa idade vai sentir na pele um sentimento bem gostoso – e amargo, quem sabe – de nostalgia.

12 maio 2010

Minha querida Sputnik, de Haruki Murakami

“No avesso de tudo que acreditamos identificar perfeitamente, esconde-se uma quantidade igual do desconhecido.” (p. 148)

Minha querida Sputnik Haruki Murakami

Ontem pela noite eu finalizei a leitura do romance japonês Minha querida Sputnik (Sputnik Sweetheart, 2001), que era o último livro do Murakami que restava para eu ler em português brasileiro.

Depois de ter iniciado a maratona de leitura de suas obras no início do ano passado, e ter lido inclusive todos os livros em rápida sucessão, me pergunto por que motivo protelei tanto a leitura de Minha querida Sputnik, a ponto de só tê-lo lido agora. Não faço a menor idéia do motivo. Não mesmo.

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Sinopse: O livro, com mais de 600 mil exemplares já vendidos no Japão, conta a história de Sumire, uma jovem de 22 anos que se apaixona pela primeira vez. Uma paixão avassaladora que tem como alvo Miu, uma mulher casada e 17 anos mais velha. Mas, enquanto Miu é uma mulher glamorosa e bem-sucedida negociante de vinhos, Sumire é uma aspirante a escritora que se veste e se comporta como um personagem de Jack Kerouac mas que, em nome do desejo, é obrigada a dar outro rumo a sua trajetória.

NOVO! Leia capítulos do livro aqui neste link.

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Tenho uma teoria literária. Na verdade, não se trata bem de uma teoria, mas de uma obviedade. Posso resumi-la assim: quando você lê muitos livros de um mesmo autor, começa a perceber aquilo que se repete em sua obra. Em outras palavras, começa a perceber o que não é original nele próprio (ou seria isso a sua "marca registrada"?) Foi assim com Michael Crichton, com Dan Brown, com Charles Bukowski etc. E foi assim com Haruki Murakami.

Na verdade, desde Caçando carneiros eu já percebera que existe algo que se repete muito em seus livros, e, quando o leitor se dá conta disso, começa a se sentir um pouco incomodado: em Murakami, os personagens principais que narram a história são sempre muito parecidos entre si. Parecidos a ponto de terem quase a mesma aparência (posso imaginar isso), vivenciarem quase as mesmas coisas e terem praticamente a mesma filosofia de vida.

Não que isso seja um erro. Não é. Mas faz com que os livros que ficaram para o final da lista percam o seu brilho, a sua originalidade. A prova disso é que achei Norwegian Wood e Kafka à beira-mar seus melhores livros, e foram os dois primeiros que li. Também achei Após o anoitecer muito bom, mas porque não repete a dose de narrador-protagonista. Os outros, desde Caçando carneiros até Minha querida Sputnik, tiveram o brilho esmaecido por conta da repetição da personalidade do protagonista. Se eu os tivesse lido antes, teria-os achado bem mais marcantes.

Mas, enfim, apesar disso, Minha querida Sputnik é um livro que adorei. Carrega todo aquele estilo característico do Murakami (muita música, muitos livros, muita referência ao sexo) e é um dos mais densos do autor, suponho. Depois do "Documento 1", escrito pela personagem Sumire, o leitor é convidado a uma série de reflexões complexas que penetram fundo na alma e vão até o final do romance.

O elemento fantástico, tão caro na obra do autor, foi bem explorado aqui. Adoro a inserção de elementos fantásticos nos livros do Murakami porque eles não são colocados ali aleatoriamente, a esmo, embora assim pareça sempre; não, eles sempre carregam um sentido, que o leitor decifra por si mesmo no final. O absurdo nunca é posto nas histórias de Murakami sem que haja, cedo ou tarde, um lampejo de compreensão por parte do leitor.

Conclusão: recomendadíssimo.

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Minha querida Sputnik traz, como sempre em Murakami, personagens que navegam à margem da sociedade, solitários, em busca de uma relação sólida a que se agarrar. Um trecho do livro que ilustra isso muito bem é o seguinte:

“Então me ocorreu que, apesar de sermos companheiras de viagem maravilhosas, no fundo, não passávamos de duas massas solitárias de metal em suas próprias órbitas separadas. A distância, parecem belas estrelas cadentes, mas, na realidade, não passam de prisões, em que cada uma de nós está trancada, sozinha, indo a lugar nenhum. Quando a órbita desses dois satélites se cruzam, acidentalmente, podemos estar juntas. (…) Mas só por um breve momento. No instante seguinte, estaremos na solidão absoluta. Até nos queimarmos completamente e nos tornarmos nada.” (p. 132)

14 março 2010

5 livros que eu li em 2009 e que você gostará de ler em 2010

Sei que já é meio tarde para eu escrever um tópico desse tipo, mas, mesmo assim, na falta do que postar aqui, vou listar a seguir 5 livros que li em 2009 e que recomendo sem ressalvas para serem lidos em 2010 – ou em qualquer outro ano, obviamente. São livros que me fizeram passar a noite acordado, lendo com avidez, e que, mesmo depois de terminados, ficaram ecoando pela minha cabeça durante muitos dias. Um livro assim precisa ser recomendado, não é mesmo?

Então, vamos lá. Vale ressaltar que a lista não segue uma ordem de preferência. (Odeio listar coisas por ordem de preferência, principalmente livros.)

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   Um Lugar ao Sol Erico Verissimo

1) Um Lugar ao Sol, de Erico VerissimoNaturalmente, meu escritor favorito não poderia deixar de figurar aqui. Tenho vontade de indicar mais de um livro seu nesta lista, mas, como isso soaria algo parcial demais, vou me conter. Portanto, indico somente este, que ainda é o meu preferido.

Um Lugar ao Sol dá prosseguimento à história iniciada em Clarissa e Caminhos Cruzados, mas, mesmo assim, não é necessário estar a par das obras anteriores para poder ler a obra presente, tamanha é a independência entre elas.

No romance em questão, temos uma trupe de personagens jovens lutando pela sobrevivência financeira na árdua Porto Alegre da década de 30: os primos Vasco e Clarissa, que vieram da pequena cidade interiorana de Jacarecanga; o casal Fernanda e Noel, espécie de Romeu e Julieta moderno; e mais uma miríade de personagens secundários ricamente elaborados, cujas tramas se entrelaçam ao longo do texto, que toma um rumo surpreendente.

Um Lugar ao Sol é o mais belo romance nacional que eu já li. E, por que não dizer, um dos mais belos do mundo.

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Jurassic Park Michael Crichton

2) Jurassic Park, de Michael Crichton – Na verdade, li esse livro pela primeira vez há muito tempo, quando criança ainda, mas reli-o oficialmente no ano passado, com uma mente muito mais amadurecida. Como todos sabem, a idéia central da história gira em torno da (trágica) visita de alguns cientistas à sombria Ilha Nublar, que é um território particular situado no litoral da Costa Rica, onde um ambicioso empresário recria dinossauros com a ajuda da tecnologia de manipulação genética e onde, futuramente, ele pensa em abrir um parque temático.

Longe de ser um enredo absurdo, Jurassic Park trata com assustadora verossimilhança uma idéia que, nos dias de hoje, ganha proporções cada vez mais factíveis. Este tecno-thriller é indispensável para os fãs de aventura e tecnologia.

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Kafka à Beira-mar Haruki Murakami

3) Kafka à Beira-mar, de Haruki MurakamiSegundo livro que li do japonês Murakami; fascinou-me totalmente, a ponto de eu virar uma noite lendo capítulo depois de capítulo, acompanhado por minha indefectível xícara de café. A história, originalíssima (embora inspirada livremente em uma peça de Sófocles, Édipo Rei), é contada através de uma narrativa elegante e precisa, além de poética, marca registrada do autor.

No romance, conhecemos Kafka Tamura, um menino de 15 anos que foge da casa do pai para trilhar os caminhos do mundo, em busca da mãe e da irmã, que o abandonaram ainda na infância. Na sua viagem, ele chega até uma biblioteca misteriosa que revelará, aos poucos, a sua identidade. A jornada do jovem Tamura encontrar-se-á inevitavelmente com a de Nakata, um homem idoso que adquiriu poderes sobrenaturais depois de um estranho acidente na infância.

Kafka à Beira-mar é um livro altamente recomendável, sem dúvida, para os amantes da literatura de qualidade.

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Os Aparados Leticia Wierzchowski

4) Os Aparados, de Leticia Wierzchowski – Ainda é de se admirar que tenhamos aqui nesta lista dois escritores nacionais, uma vez que até o ano retrasado eu considerava os autores brasileiros maçantes, por parecerem pretensiosos demais com os seus livros. Triste engano: alguns escritores do Brasil merecem ser levados muito, muito a sério.

Neste romance original (e quase profético, levando-se em conta as notícias dos últimos tempos), Wierzchowski narra a história de Marcus e sua neta, Débora, durante os primeiros meses que antecedem um fim de mundo paulatino. Enquanto cidades são submergidas pelas águas do mar e pessoas morrem ou desaparecem, Marcus leva Débora para um refúgio particular construído sobre as serras gaúchas. Lá em cima, longe do núcleo das catástofres naturais, ambos terão de rever a vida pessoal e lidar com questões afetivas difíceis e dramas familiares insistentes.

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Os Sobreviventes Piers Paul Read

5) Os Sobreviventes, de Piers Paul Read – Dotado de uma maestria poucas vezes vista no gênero romance não-ficcional (difundida pelo americano Truman Capote), Piers Paul Read narra em Os Sobreviventes a trágica história do time uruguaio de rugby que, em 1972, após fretar um avião que o levaria ao Chile, despencou em meio à Cordilheira dos Andes e por lá ficou 72 dias, antes de os sobreviventes serem resgatados.

Como numa bela ficção, Read mostra todo o contexto do acidente, a angústia dos familiares dos jovens jogadores de rugby e os esforços desesperados que fizeram para tentar resgatar a equipe o quanto antes das gélidas cordilheiras; tudo isso além de detalhar todos os 72 dias passados nas montanhas.

Outro livro altamente recomendável, sem dúvida.