Pesquisar neste Blog

Mostrando postagens com marcador Michael Crichton. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Michael Crichton. Mostrar todas as postagens

15 julho 2013

Micro, de Michael Crichton e Richard Preston

"Foi difícil suportar os ecos e as reverberações daqueles dois gigantes." (p. 107)

Michael_Crishton_030213 michael crichton Prestonupdated

Em novembro de 2008, aos 66 anos, o escritor e cineasta Michael Crichton faleceu em decorrência das complicações de um câncer, deixando para trás 17 livros publicados e uma legião de fãs ao redor do mundo. Dentre todos os títulos lançados pelo autor, apenas para citar alguns dos mais conhecidos, estão O Parque dos Dinossauros (1990) e Linha do Tempo (1999), considerados pela crítica como expoentes da carreira de Crichton.

Embora os livros do autor sejam, de um modo geral, tematicamente díspares entre si – dinossauros, jornadas no tempo, enigmas espaciais, manipulação midiática, épicos, tramas corporativas etc. –, toda a sua obra compartilha algo em comum: a fascinação pela tecnologia, a fascinação do homem pela tecnologia, o que os cientistas podem fazer com a tecnologia e, finalmente, o que pode dar errado nesta tecnologia quando alguma coisa sai do controle. Este é o cerne do chamado gênero techno-thriller que, se Crichton não inaugurou, pelo menos ajudou a popularizar.

Após a sua morte, até agora, pelo menos no Brasil, dois livros inéditos foram publicados em seu nome: Latitudes Piratas (que o autor escrevera ainda no início da carreira, mas engavetara) e Micro (o romance que ele estava redigindo quando faleceu). Quanto ao primeiro, sabemos que Crichton não o publicou na época porque, no final das contas, considerou-o de baixa qualidade, incompatível com os títulos que vinha publicando até então. Quanto a Micro, foi selecionado um escritor chamado Richard Preston, especialista em epidemias e bioterrorismo, considerado capaz de trabalhar sobre os esboços deixados pelo autor original e finalizar o romance.

Terminada a leitura, posso dizer que Micro é uma homenagem vintage a Michael Crichton – sem a qualidade dos livros do autor original, infelizmente.


Sinopse: Na exuberante floresta de Oahu, uma tecnologia inovadora inicia uma era revolucionária de prospecção biológica. São descobertos trilhões de micro-organismos e milhares de espécies de bactérias, um material que alimenta pesquisas para medicamentos inigualáveis e para aplicações além de tudo o que já se imaginou. Quando um grupo de jovens cientistas sofre um acidente com tal tecnologia e tem seu tamanho diminuído para 1 centímetro de altura, eles encontram uma natureza hostil e a cada instante deparam com perigos intensos e surpreendentes. Armados apenas com o conhecimento do mundo natural, de repente se veem como cobaias de um poder radical e desenfreado.


No site Skoob, avaliei o livro em duas estrelas, em um total de cinco. Se houve alguma decepção da minha parte, essa decepção deriva do fato de que eu esperava um romance à altura dos anteriores publicados por Crichton – cuja carreira é repleta de obras verossímeis e consistentes. O marketing em torno de Micro, sobretudo, frisara que Richard Preston trabalhava para deixar a aura da obra semelhante à atmosfera de O Parque dos Dinossauros, e ninguém poderia esperar pouca coisa quando se faz uma promessa como essa.

O fato é que as comparações com os livros anteriores de Crichton deixaram o leitor na expectativa de encontrar um romance no mínimo ótimo, dado o histórico de excelentes best-sellers produzidos por ele no passado. Mas, finalizado o trabalho, mesmo a expressão "muito bom" talvez não faça jus ao resultado que foi Micro. Não que não seja um bom livro. Afinal, é uma obra que tem seus aspectos originais e que consegue, em grande medida, captar a atenção do leitor. Mas não se pode dizer que o livro tenha qualidades intrínsecas.


DSC00253_edited-1-e1330636998451


Vou ser insistente neste ponto: como homenagem póstuma, Micro é um bom romance. Preston joga muito bem com o suspense e a ação do enredo. Há detalhes que lembram Michael e isso traz para o leitor uma serena sensação de saudosismo – como, por exemplo, na cena em que uma das personagens desce ao ninho de uma vespa para resgatar um companheiro. Mas, mesmo que o romance tenha sido escrito por outra pessoa e que seja natural existirem diferenças estruturais, acabei ficando com a incômoda impressão de que Preston tentou imitar o estilo de Crichton sem sucesso. Em alguns momentos a história soa boba e exagerada, numa espécie de simulação mal-sucedida das ideias do autor falecido. De todo modo, Micro está longe de ser a "obra-prima sofisticada e revolucionária" que a editora Rocco anuncia em sua sinopse.

Digo isso porque Preston escorrega justamente onde o homenageado nunca escorregava, que é na questão da verossimilhança. Você lê O Parque dos Dinossauros acreditando que dinossauros podem ser clonados; lê Linha do Tempo jurando que é possível ir para o passado; lê Esfera acreditando plenamente que uma nave espacial pode ser descoberta no oceano e ter poderes mágicos. Com Micro isso não acontece – você não lê o romance acreditando que pessoas de fato possam ser encolhidas ao tamanho de uma unha. As explicações científicas são superficiais e muito didáticas (mais didáticas do que já são habitualmente nos livros de Crichton), os personagens são também superficiais, os eventos não convencem. Tudo é narrado de maneira muito rápida, como se o foco não fosse, acima de tudo, a ideia por trás do romance, mas apenas a ação, a correria. As motivações de alguns personagens, seu histórico e suas atitudes às vezes soam tão incoerentes que beiram o absurdo.


{FB39B719-D8A8-465D-AA2E-771DA8AA8543}Img100 micro


Bem feitas as contas, temos aqui um livro que explora algo que tanto Richard Preston quanto Michael Crichton amavam: a natureza selvagem, o estado natural dos seres humanos que lutam para sobreviver. O diferencial é que esta natureza é vista agora a partir de outra perspectiva: da visão micro, sob a ótica de seres humanos do tamanho de uma unha, perdidos em uma densa floresta. O que decorre dessa situação é o esperado, ou seja, uma miríade de perigos que se apresentam para a infelicidade do grupo de pesquisadores encolhidos graças à tecnologia da Nanigen, a companhia presidida pelo personagem Vincent Drake.

Mistura de ação com suspense e conteúdo científico, as obras de Crichton apresentavam sempre uma possível fronteira que a ciência conseguia alcançar. É possível clonar dinossauros. É possível viajar no tempo. É possível patentear genes. É possível controlar os fenômenos da natureza, e assim sucessivamente. A pedra angular do enredo de seus livros estava em como essa tecnologia era usada, por quem e com que finalidade. Isso Preston conseguiu captar e reproduzir em Micro. Se foi feito de maneira decente e bem-elaborada, bem, é melhor deixar este veredicto para os leitores.

04 junho 2012

Estado de medo, de Michael Crichton

"É claro, sabemos que o controle social é mais bem exercido através do medo." (p. 471)

1058931_4 michael-crichton-jurrasic-park-cancer

Na falta de um livro inédito sobre o qual comentar esta semana, resolvi escolher aleatoriamente da minha estante um romance que eu já tivesse lido há algum tempo, a fim de escrever sobre ele e, em suma, revisitá-lo. É sempre bom, se não reler, pelo menos revisitar os bons livros de nossa coleção; assim, impedimos que eles caiam no esquecimento e fiquem apenas acumulando poeira. Emprestá-los também é uma excelente opção para evitar isso.

Hoje, venho aqui compartilhar com vocês minhas idéias acerca de um dos mais polêmicos romances do escritor norte-americano Michael Crichton (que, como seus leitores sabem, escreveu algumas obras belicosas no fim de sua carreira). Estado de medo (State of fear, 2004) é um desses romances controversos, tendo lhe rendido muitas críticas negativas por parte de grupos ambientalistas, uma vez que, na sua análise de dados, a existência do aquecimento global é mais pautada em exagero do que em provas concretas. Uma afirmação ácida, sem dúvida.


Sinopse: A história do livro gira em torno de uma ação contra a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos. Os habitantes da ilha Vanutu, localizada no Pacífico, corriam o risco de ter de evacuar o país por causa da elevação do nível do mar, resultado do aquecimento global provocado pelo maior e mais descuidado emissor de dióxido de carbono do mundo, os EUA. Os moradores da ilha tinham grandes chances de ganhar o caso, especialmente depois que o Fundo Nacional de Recursos Ambientais se ofereceu para ajudá-los. No entanto, o processo jurídico nunca foi levado a cabo, e as circunstâncias da ação processual foram encobertas por uma rede de mistérios e assassinatos calculados.

Para uma resenha bem mais completa (site da Rocco), clique aqui.


DSC02611

Estado de medo é um dos muitos livros de Michael Crichton que eu senti prazer em reler: não só porque alguns detalhes do enredo ficaram mais claros na segunda leitura, mas também porque pude curtir outra vez a intrincada e emocionante trama do livro, que inclui excursões à Antártica, cenas na França, na Malásia e em uma remota ilha insular do Oceano Pacífico, a nação fictícia de Vanutu. Outra obra de Crichton que gostei muito de reler foi Next (o último e mais irônico livro do autor), que oferece um panorama sombrio de como as coisas podem ficar no mundo caso a engenharia genética continue seguindo os caminhos inescrupulosos que parece estar tomando.

Eu diria que a leitura de Estado de medo não fica nem um pouco comprometida se você abrir mão de suas visões pré-formadas e se deixar espantar com algumas das informações divulgadas no livro –receptividade esta que nem todos tiveram, já que a principal crítica dirigida à obra diz respeito à reação furiosa das pessoas diante da negação do aquecimento global. Embora o romance seja de ficção, todos os dados apresentados nele são verídicos e comprovados em agências de investigação climática – como, por exemplo, o fato de a Antártica vir esfriando paulatinamente nas últimas duas décadas.

DSC02612

A opinião de Michael Crichton (que, verdade seja dita, não pode ser considerado um homem conservador) é bem embasada e interessante se for analisada sem estarmos antes com pedras nas mãos, apenas esperando o livro terminar para arremessá-las. Receptividade e abertura à opinião do autor é a chave para o bom aproveitamento da leitura desse romance.

Mesmo assim, ler o livro sem um julgamento prévio na cabeça não implica necessariamente concordar com tudo o que o autor afirma. Em certo momento, por exemplo, Crichton parece ser simpático à idéia absurda de que a Natureza não está sofrendo tanto com o processo de industrialização como se costuma supor. Essa hipótese é facilmente subjugada pelos argumentos da teoria sistêmica capriana, que enfatiza claramente e comprovadamente a influência maléfica do ser humano no meio natural nesta virada de século.

DSC02614

De um modo mais amplo, a mensagem fundamental que Estado de medo traz ao leitor é a de que muitos dispositivos sociais maquiam e enfeitam a realidade cotidiana para deixar a população em um perpétuo "estado de medo", que garante a docilidade e a cooperação das pessoas no mundo todo. Cita-se a Guerra Fria, o medo da poluição ambiental e alguns aspectos do medo do terrorismo; de fato, realmente há o que temer nesses assuntos, mas as agências de maior relevância que operam no Sistema (mídia em especial) manipulam os dados a fim de obter aquilo que se quer. É um discurso maquiavélico meio batido que, aqui, adquire uma roupagem nova e interessante quando aplicado às questões climáticas.

Costumo dizer que eu recomendo Estado de medo para as pessoas que gostam de debater sobre assuntos polêmicos de maior importância nesse nosso início de século. Em meio a essa reflexão bem-vinda, somos mergulhados em uma trama que mistura ciência, suspense e ação, bem ao estilo dos melhores livros do autor, tais como Jurassic Park e Linha do tempo. O entretenimento sem dúvida é garantido. Estar de acordo com o que Crichton apresenta, talvez não. Mas o que importa é o percurso: os debates, os pontos de vista e, sobretudo, a reflexão levantada sobre o tema. É melhor do que ficar calado e aceitar tudo o que vem da televisão como verdade.

27 março 2011

Esfera, de Michael Crichton

"Não precisava de lembranças do desastre. Sabia que nunca mais ia se esquecer." (p. 376)

Esfera crichton_430_1108

Eu lembro que passei muitos anos da minha vida procurando por este livro.

Houve uma certa época em que cheguei mesmo a fazer uma espécie de campanha pessoal: ia a livrarias, sebos, bibliotecas cujo acervo pudesse barganhar, vasculhava a Internet – que, naquela época, não ajudava muito – e nunca encontrava Esfera (Sphere, 1987), de Michael Crichton, para vender. Eu já tinha lido o livro muitos anos atrás, e no momento eu ficara fascinado a tal ponto que desejava adquirir o romance a todo custo para compor minha biblioteca particular.

Mas não o achava de jeito algum. Então, há uns dois ou três anos, eu estava sozinho em casa quando meu pai me ligou e disse: "Renan, achei uma edição de Esfera aqui num sebo do centro da cidade. Posso comprar pra você?"


Sinopse: Adormecida no Oceano Pacífico, uma gigantesca nave espacial carrega em seu interior uma esfera impenetrável. Por meio de um estranho código, ela comunica-se com seis cientistas encarregados de investigar sua origem. O misterioso ser pode ser dócil e amistoso, mas também pode tornar-se uma entidade ameaçadora, pondo em risco a vida dos cientistas. Transcendendo o gênero Ficção Científica, no qual Crichton é especialista, "Esfera" traz suspense e emoção do começo ao fim.


Na faculdade, muitas pessoas costumam me perguntar o que me levou a fazer o curso de Psicologia. De minha parte, eu costumo responder que faço Psicologia porque li Esfera, e o protagonista do thriller, Norman Goodman, psicólogo, me arrebatara de um modo tal que minha carreira não poderia ser outra que não a mesma do personagem.

Eu era uma criança impressionável na época em que li o livro pela primeira vez. Mesmo assim, eu tinha certeza de que Norman era realmente um cara fantástico, e o seu raciocínio de psicólogo destilado ao longo do romance só fazia aumentar minha admiração por ele. Todas as suas deduções e suposições eram sempre muito cerebrais (em contraste com as dos outros personagens, em especial Harry e Beth), e o fato de Norman ser uma pessoa modesta e calada fez com que minha identificação com ele fosse total.

Considero Esfera um dos romances mais profundos de Michael Crichton. Profundo no sentido de que os personagens são bem construídos, bem diferenciados, e o fato de terem os seus medos psicológicos manifestados no mundo real dá um caráter mais amplo a esse aprofundamento psicológico. Fora isso, acho a história em si uma coisa brilhante: uma nave desconhecida é encontrada a 300 metros no fundo do mar; seu interior comporta uma esfera reluzente enorme, e quem entra nessa esfera tem o poder de materializar seus pensamentos. 


6552142_1

Capa do DVD do filme – Edição Especial


O trunfo do livro está nessa idéia de que os cientistas, enviados para o Pacífico para estudar essa nave, podem entrar acidentalmente na Esfera e ficar refém dos próprios pensamentos. Uma coisa que, se você parar para pensar, é assustadora: ser vítima dos próprios medos.

Quando a coisa começa a ficar feia no abrigo submarino em que os personagens estão alojados (algo como falta de ar ou vazamentos), todos começam a pensar nas piores coisas que podem acontecer ali dentro. Paralelamente a isso, fatos absurdos começam a surgir, incluindo a presença misteriosa e aterrorizante de uma lula gigantesca.

É aí que o grupo de pesquisadores começa a ficar dividido, uns culpando os outros pela manifestação dessas bizarrices, e percebendo que alguns dos membros da equipe entraram na Esfera sem permissão. Norman, por conta própria, começa a deduzir quem manifesta o quê, a partir da personalidade de cada um – tudo isso inserido num suspense que deixa o leitor na beira da poltrona.

É por isso que eu digo que Crichton pôde ter a liberdade de arte-finalizar melhor seus personagens. Ou, para ser mais sincero, ele teve a obrigação de aprofundar a subjetividade de cada um, já que o andamento do livro dependia exclusivamente da personalidade de todos os indivíduos ali presentes.


esfera1998 esfera_1998

Cenas do filme, com Sharon Stone e Dustin Hoffman


Esfera é, de longe, um dos meus livros preferidos de Michael Crichton. A narrativa desse autor deixa todos os leitores tensos, omitindo o que quer, revelando o que quer, e assim mantendo sempre um suspense indescritível.

O filme também é digno de nota e merece bons aplausos. Lançado em 1998, com um trio de astros (Dustin Hoffman, Sharon Stone e Samuel L. Jackson), o longa é extremamente fiel ao livro, e nada deixa a desejar, pelo menos para mim. O diretor Barry Levinson teve um bom palpite quando decidiu adaptar a obra.

Item obrigatório na estante de qualquer fã de Michael Crichton, Esfera também é um livro recomendadíssimo para quem quer entrar no universo do autor.

31 janeiro 2011

Latitudes piratas, de Michael Crichton

"(…) uma pessoa nunca compreendia realmente como era a vida no Novo Mundo, até se confrontar com a verdadeira e rude experiência." (p. 17)

7915ee52-8560-4352-af4b-8134a7820b1f michael_crichton240

Hoje de manhã, fui à universidade fazer minha matrícula semestral, como sempre. Quando voltei para casa, exausto, sentei em uma cadeira da bancada da cozinha e finalizei a leitura do romance Latitudes piratas (Pirate latitudes, 2009). O livro foi escrito pelo norte-americano Michael Crichton, um renomadíssimo autor de thrillers, falecido em novembro de 2008.

Eu lembro quando os noticiários anunciaram sua morte. Foi lamentável. Mais impactante do que a morte de Saramago. Como eu cresci lendo Crichton, minha ligação com esse escritor era bem mais consistente.


Sinopse: A história do livro se passa em 1665 e começa em Port Royal, Jamaica, quando o corsário inglês Charles Hunter é contratado pelo governador local para liderar uma expedição a Matanceros, fortaleza espanhola localizada em uma ilha do Caribe.

Segundo informações que chegaram a Port Royal, um galeão espanhol repleto de tesouros está ancorado na ilha, aguardando uma escolta para levar seus tesouros a Espanha. Hunter não hesita: ouro nas mãos dos espanhóis é ouro para ser roubado.

O resultado é uma aventura irresistível, uma clássica história de conquistas e traições.


Uma palavra sobre este livro antes de começar a resenha propriamente dita:

Os fãs de Michael Crichton que leram seu caderno de memórias, Álbum de viagens, se depararam com uma curta mas intrigante passagem no capítulo Jamaica: o autor diz que, por volta da década de 1970, ele vinha trabalhando "há muitos anos" em um livro ambientado no Caribe do século XVII. O estranho é que esse livro nunca fora publicado em lugar nenhum, e ninguém, até pouco tempo, sabia qualquer coisa a mais dele.

Obviamente, por motivos que eu ainda não consigo entender direito, Crichton decidiu não publicar o romance. Mas mesmo depois de sua morte, em 2008, o arquivo com o manuscrito completo de Latitudes piratas continuou em seu computador, que foi vasculhado pelo seu assistente – e o arquivo, encontrado.

O resultado… bem, estamos diante dele. Se é ético ou não publicar um texto que o autor preferiu manter guardado, isso já é outra história.

Mas agora chega de lingüiça e vamos falar sobre o livro em si, se merece ou não ser lido. (Merece.)


P6160062

Meu fiel (e detonado) marcador de páginas do Che Guevara!


Podemos não ter aqui piratas com pernas de pau, tapa-olhos ou papagaios tagarelas nos ombros, mas certamente uma grande parcela dos clichês de histórias de corsários está presente em Latitudes piratas. Isso inclui marinheiros excêntricos (um deles é mudo, outro possui apenas dois dedos numa das mãos), um tesouro imenso em jogo, batalhas navais, duelos com indígenas, galeões seqüestrados e até mesmo a aparição de "monstros" marinhos.

Ainda assim, o que eu quero dizer é que a existência desses clichês não constitui um defeito no livro. Nenhum romance que se comprometa a narrar uma aventura corsária está livre desses elementos, e, se não os tiver, perde mesmo a graça. Portanto, o que Crichton fez foi apenas resgatar essas fantasias que compõem o imaginário idealizado por cineastas e por pessoas como Robert Louis Stevenson.

Pelo fato de ter sido escrito na década de 1970 – portanto, no período em que a literatura do autor ainda estava engatinhando –, o leitor percebe traços característicos do começo da carreira de Michael Crichton. E, também, percebe pontos que ele mais tarde desenvolveria e aprimoraria nos livros futuros; como, por exemplo, o suspense dos "preparativos para a jornada propriamente dita", coisa que seria culminantemente bem feita em O Grande Roubo do Trem.

P6160069

Depois da Parte I – Port Royal, a ação do livro é ininterrupta. Aliás, ela só é interrompida porque o leitor provavelmente vai passar alguns minutos com um dicionário nas mãos, desvendando o significado de uma série de termos marítimos – joanete, tombadilho, escaler, bombordo, estibordo, proa, popa etc. Fora isso, a leitura é dinâmica, segue em ritmo acelerado, e, mesmo sem compreender os termos, é possível visualizar o cenário com facilidade.

Os personagens são bastante cativantes, se não pela sua personalidade (analisada de modo superficial pelo autor), pela sua aparente excentricidade. Lezue é uma mulher que se traveste de homem e atua como tal, Enders é um barbeiro-cirurgião que possui um exímio controle sobre o timão de um navio, Bassa é um gigante negro que perdeu a língua, e o Judeu é um velho com três dedos de uma mão faltando.

Uma coisa interessante é que o leitor inevitavelmente é levado a ficar do lado de Charles Hunter, o corsário que lidera a expedição, principal personagem do livro – este, normal, sem nada de excêntrico. Ou seja, ficamos do lado do "fora-da-lei", causador da baderna toda. Me surpreende que, no final das contas, o leitor nem se dê conta disso!

P6160065

Latitudes piratas é um romance de aventura com um interessante pano de fundo histórico e um envolvente enredo, mas eu tenho algumas hipóteses de por quê Crichton o deixou na gaveta. Não é preciso muito esforço para ver que o romance é o mais simples de todos do escritor e, sim, bastante previsível. Uma vez publicado na época em que fora escrito, certamente receberia críticas negativas.

Além disso, é provável que o arquivo encontrado no computador de Crichton fosse apenas um esboço, que ele desistiu de arte-finalizar. Aliás, essa hipótese é bem viável, uma vez que no próprio Álbum de viagens o escritor diz, após o capítulo Jamaica, que estava feliz porque acabara de "finalizar o esboço de um romance". Portanto, embora esteja finalizado e coerente, o Latitudes piratas publicado recentemente pode não passar de um esboço.

No mais, me diverti imensamente lendo o livro. Não me arrependi em nenhum momento de tê-lo comprado. Foi bom ver o lado "antigo" do autor, descompromissado, despretensioso, bem diferente dos seus últimos e polêmicos livros, como Estado de medo e Next. Fico contente com o fato de ter acabado as férias lendo este romance.


Conclusão: Muito recomendado, não só para os fãs do autor, mas para quem gosta de aventuras sem grandes pretensões.

11 outubro 2010

O homem terminal, de Michael Crichton

"As máquinas estão em toda parte. Elas costumavam ser os servos do homem, mas agora começam a dominar, de forma muito sutil." (p. 84)

O homem terminalMichael Crichton

Hoje pela manhã eu finalizei a leitura do romance O homem terminal (The terminal man, 1972), assinado pelo famosíssimo escritor norte-americano Michael Crichton, vítima de um câncer que levou sua vida no final de 2008. Para trás, ele deixou obras como o best-seller Jurassic Park e o intrigante Esfera.

Já li praticamente toda a obra desse autor, incluindo o seu primeiro romance, Um caso de necessidade, feito sob o pseudônimo de Jeffery Hudson. Até agora, possuo mais livros dele do que de qualquer outro autor.

~~~~

Sinopse: Uma lesão cerebral, resultado de um acidente automobilístico, causa sérios danos ao especialista em ciência da computação Harry Benson. Ele começa a apresentar sintomas de uma doença que provoca súbitos ataques de violência, a Lesão Desinibitória Aguda (LDA).

Numa tentativa de controlar esses impulsos de agressão, Benson é submetido a um revolucionário método cirúrgico em que eletrodos são implantados em seu cérebro. O objetivo do time de cirurgiões de Los Angeles, responsáveis pela experiência, é conter através de um microcomputador as perigosas crises homicidas do paciente. A cirurgia, porém, não é bem-sucedida.

~~~~

O homem terminal é o segundo romance de Crichton e o primeiro que realmente mistura medicina pura com ficção científica. Eu consegui trocá-lo no site Trocando Livros (www.trocandolivros.com.br) por um que eu tinha e não gostava muito, O jogo das horas, de David Baldacci. Valeu a pena. Crichton é mais instigante.

O homem terminal é um livro de começo lento, paulatino, em que muitas explicações são dadas e quase nenhuma ação é narrada. No entanto, isso não é problema; as coisas explicadas no começo são muito interessantes, principalmente para quem é ligado à área de medicina ou psicologia.

Além do mais, esse "começo lento" só faz o livro ficar mais verossímil, na minha opinião. A ação propriamente dita, que só tem início um pouco após a metade do romance, parece mais realista depois que o autor expôs uma série de detalhes teóricos acerca da doença de Harry Benson e do tratamento que fora realizado nele – ou seja, no começo da obra.

Edição norte-americanaPôster do filme

Edição norte-americana e pôster do filme

Os pensamentos do personagem McPherson sobre um super-computador composto por tecido orgânico, por exemplo, colocam o leitor para refletir um pouco sobre a tecnologia atual e até onde ela é capaz de ir. O que mais me impressiona nos livros de Crichton – e no O homem terminal em especial – é que eles foram escritos há muito tempo e falam sobre coisas que para nós, leitores do século XXI, ainda parecem absurdas, embora verossímeis.

Esse é um dos poderes dos livros de Crichton: falam sobre coisas que achamos absurdas mas, lá no fundo, sabemos que é só uma questão de tempo para vê-las surgir no mundo.

Gostei bastante da dra. Janet Ross, a psiquiatra que cuida de Benson. Sua personalidade é agradável e nota-se que o autor a tem como sua criação preferida da história. O próprio Harry Benson também me pareceu um vilão digno de nota, o tipo do vilão que é vilão por uma causa externa, não-intencional.

Por fim, acho que o leitor aproveita mais a obra de Crichton se souber da relação do autor com a medicina. Em resumo, pode-se dizer que Crichton abandonou a faculdade de medicina porque não gostava do método frio e distante dos médicos durante o tratamento de seus pacientes, vendo-os mais como objetos do que como pacientes. E é a essa crítica aos médicos que o escritor pareceu dar mais importância nos seus primeiros livros. Para maiores detalhes, basta conferir seu livro Álbum de viagens.

Assim, O homem terminal trata da mesma coisa: pacientes que são tratados como objetos da medicina, como "coisas" interessantes para o meio médico acadêmico.

~~~~

Conclusão: Um romance instigante. Altamente recomendado.

09 abril 2010

Vale a pena ler de novo: Álbum de Viagens, de Michael Crichton

“Sentia uma real necessidade de rejuvenescimento, de experiências que me afastassem das coisas que fazia habitualmente, da vida rotineira que levava.” (p. 9)

Principal característica do post: conversa descontraída.

Álbum de Viagens Michael Crichton

O quadro Vale a Pena Ler de Novo é um tópico novo do blog que se destina a mostrar às pessoas (leia-se: meus amigos) aqueles livros que eu li e que são interessantes para uma releitura posterior. Existem vários títulos por aí afora que demandam uma nova leitura, seja para uma melhor assimilação do conteúdo ou simplesmente porque o leitor o achou muito bom e quer lê-lo uma segunda vez. O objetivo do Vale a Pena Ler de Novo é servir de guia para mostrar que livros são esses e falar um pouco sobre a minha experiência pessoal com eles.

Partindo do princício de que os blogs são espécies de diários virtuais, tão pessoais, eu devo bater na tecla que diz que os livros aqui expostos são expostos por conta do meu gosto pessoal, e não necesseriamente fazem parte dos títulos que eu julgo universalmente clássicos.

~~

Eu tenho o costume de dizer para os meus amigos e familiares que foi Michael Crichton quem me ensinou a ler livros de literatura. Como eu já andei dizendo por aqui, Jurassic Park foi o primeiro livro “para adultos” que li, e ele foi o bastante para que depois viessem, em rápida sucessão, os outros volumes do autor: Mundo Perdido, Linha do Tempo, Esfera, Estado de Medo, Next, Um Caso de Necessidade, etc.

Pode-se dizer que é por conta de Michael Crichton que, até hoje, eu gosto de livros de aventura. Certas coisas surgem na nossa infância e não mudam nunca. Se eu pegar um livro hoje e constatar que ele tem boas doses de aventura, eu logo associo o gênero a Crichton.

Li Álbum de Viagens pela primeira vez quando tinha 16 anos, e posso dizer que ele mudou uma parte significativa da minha filosofia de vida. (Que filosofia de vida um cara de 16 anos pode ter? Mas tudo bem.) Naquela época, todos os relatos de Crichton – suas idas ao Oriente, seus mergulhos em águas de Bornéu, suas escaladas em pirâmides astecas no México, suas jornadas nas savanas africanas – tudo isso abriu meus horizontes até então diminutíssimos, resumidos às paredes do meu quarto e da sala de aula.

Eu lia o livro avidamente e, à medida que o lia, via quão insignificante a minha vida iria continuar sendo até que eu tomasse a resolução de não deixar que ela seguisse esse curso monótono de rotinas e hábitos. Essa idéia persiste até hoje dentro da minha cabeça, e posso dizer que ela veio junto com esse livro. Lendo as excurssões perigosas de Crichton – que já era meu ídolo literário há seis anos – eu sentia invejas e ansiava por ter uma existência cambiante como a dele.

Inclusive, embriagado pelo desejo de viver experiências novas e arriscadas, cheguei a convidar minha namorada da época para uma excurssão até o litoral do estado via ônibus, onde daríamos um passeio tal qual o passeio de Crichton pelas praias de Cingapura. (O plano obviamente não deu certo, por vários motivos; dentre eles, o da consciência de que uma viagem de ônibus não seria nem um pouco empolgante).

Embora hoje eu continue achando que as aventuras de Crichton realmente foram empolgantes e epifânicas, passei a interpretá-las por um outro ângulo (isso depois da releitura do livro). Vejo-as agora como viagens feitas por um escritor de best-sellers bem sucedido e cheio da grana, que, junto com um punhado de outros turistas estribados, brincava de Indiana Jones. Pode parecer uma visão talvez cruel e sem dúvida decepcionante, e vocês podem ainda estar se perguntando “Se Marlo Renan se decepcionou em parte com a releitura do livro, por que a recomenda?” mas a verdade é que, mesmo com o defeito que indiquei no começo deste parágrafo, uma segunda leitura de Álbum de Viagens vale a pena.

Eu poderia citar vários motivos para explicar isso, porém vou me deter apenas aos principais: (a) Crichton é dono de uma escrita cristalina e perfeita, e dar uma reolhada no jeito como ele escrevia não é demais, não mesmo. (b) O livro não conta apenas as peripécias do autor ao redor do mundo, mas também mostra o que Crichton pensava durante a universidade de medicina, como lidava com os professores carrascos e, o mais legal de tudo, como ele abandonou a faculdade perto do final para se tornar escritor. (c) Essa é a obra mais estritamente pessoal dele. E isso, por si só, é impressionante, porque Michael Crichton era autor de best-sellers conhecidíssimos e era tido como alguém destituído de vida pessoal. É como se, nos dias de hoje, um Dan Brown da vida lançasse um livro falando sobre suas experiências pessoais e fosse totalmente sincero contando-as.

Mesmo achando agora que as excursões de Crichton eram, na verdade, “passeios” de alguém rico, a releitura do livro Álbum de Viagens vale a pena para se deparar outra vez com as belas lições que o autor extraía de cada experiência.

Acho que a idéia é essa, mesmo.

~~

“Freqüentemente, tenho a impressão de que busco uma região distante no mundo para me lembrar de quem realmente sou. Não há qualquer mistério sobre a razão dessa atitude. Deslocado do seu ambiente habitual, privado de seus amigos, de suas rotinas diárias, de sua geladeira cheia de comida, de seu armário cheio de roupas – destituído de tudo isso, você é compelido à experiência direta.” (p. 10)

14 março 2010

5 livros que eu li em 2009 e que você gostará de ler em 2010

Sei que já é meio tarde para eu escrever um tópico desse tipo, mas, mesmo assim, na falta do que postar aqui, vou listar a seguir 5 livros que li em 2009 e que recomendo sem ressalvas para serem lidos em 2010 – ou em qualquer outro ano, obviamente. São livros que me fizeram passar a noite acordado, lendo com avidez, e que, mesmo depois de terminados, ficaram ecoando pela minha cabeça durante muitos dias. Um livro assim precisa ser recomendado, não é mesmo?

Então, vamos lá. Vale ressaltar que a lista não segue uma ordem de preferência. (Odeio listar coisas por ordem de preferência, principalmente livros.)

~~

   Um Lugar ao Sol Erico Verissimo

1) Um Lugar ao Sol, de Erico VerissimoNaturalmente, meu escritor favorito não poderia deixar de figurar aqui. Tenho vontade de indicar mais de um livro seu nesta lista, mas, como isso soaria algo parcial demais, vou me conter. Portanto, indico somente este, que ainda é o meu preferido.

Um Lugar ao Sol dá prosseguimento à história iniciada em Clarissa e Caminhos Cruzados, mas, mesmo assim, não é necessário estar a par das obras anteriores para poder ler a obra presente, tamanha é a independência entre elas.

No romance em questão, temos uma trupe de personagens jovens lutando pela sobrevivência financeira na árdua Porto Alegre da década de 30: os primos Vasco e Clarissa, que vieram da pequena cidade interiorana de Jacarecanga; o casal Fernanda e Noel, espécie de Romeu e Julieta moderno; e mais uma miríade de personagens secundários ricamente elaborados, cujas tramas se entrelaçam ao longo do texto, que toma um rumo surpreendente.

Um Lugar ao Sol é o mais belo romance nacional que eu já li. E, por que não dizer, um dos mais belos do mundo.

~~

Jurassic Park Michael Crichton

2) Jurassic Park, de Michael Crichton – Na verdade, li esse livro pela primeira vez há muito tempo, quando criança ainda, mas reli-o oficialmente no ano passado, com uma mente muito mais amadurecida. Como todos sabem, a idéia central da história gira em torno da (trágica) visita de alguns cientistas à sombria Ilha Nublar, que é um território particular situado no litoral da Costa Rica, onde um ambicioso empresário recria dinossauros com a ajuda da tecnologia de manipulação genética e onde, futuramente, ele pensa em abrir um parque temático.

Longe de ser um enredo absurdo, Jurassic Park trata com assustadora verossimilhança uma idéia que, nos dias de hoje, ganha proporções cada vez mais factíveis. Este tecno-thriller é indispensável para os fãs de aventura e tecnologia.

~~

Kafka à Beira-mar Haruki Murakami

3) Kafka à Beira-mar, de Haruki MurakamiSegundo livro que li do japonês Murakami; fascinou-me totalmente, a ponto de eu virar uma noite lendo capítulo depois de capítulo, acompanhado por minha indefectível xícara de café. A história, originalíssima (embora inspirada livremente em uma peça de Sófocles, Édipo Rei), é contada através de uma narrativa elegante e precisa, além de poética, marca registrada do autor.

No romance, conhecemos Kafka Tamura, um menino de 15 anos que foge da casa do pai para trilhar os caminhos do mundo, em busca da mãe e da irmã, que o abandonaram ainda na infância. Na sua viagem, ele chega até uma biblioteca misteriosa que revelará, aos poucos, a sua identidade. A jornada do jovem Tamura encontrar-se-á inevitavelmente com a de Nakata, um homem idoso que adquiriu poderes sobrenaturais depois de um estranho acidente na infância.

Kafka à Beira-mar é um livro altamente recomendável, sem dúvida, para os amantes da literatura de qualidade.

~~

Os Aparados Leticia Wierzchowski

4) Os Aparados, de Leticia Wierzchowski – Ainda é de se admirar que tenhamos aqui nesta lista dois escritores nacionais, uma vez que até o ano retrasado eu considerava os autores brasileiros maçantes, por parecerem pretensiosos demais com os seus livros. Triste engano: alguns escritores do Brasil merecem ser levados muito, muito a sério.

Neste romance original (e quase profético, levando-se em conta as notícias dos últimos tempos), Wierzchowski narra a história de Marcus e sua neta, Débora, durante os primeiros meses que antecedem um fim de mundo paulatino. Enquanto cidades são submergidas pelas águas do mar e pessoas morrem ou desaparecem, Marcus leva Débora para um refúgio particular construído sobre as serras gaúchas. Lá em cima, longe do núcleo das catástofres naturais, ambos terão de rever a vida pessoal e lidar com questões afetivas difíceis e dramas familiares insistentes.

~~

Os Sobreviventes Piers Paul Read

5) Os Sobreviventes, de Piers Paul Read – Dotado de uma maestria poucas vezes vista no gênero romance não-ficcional (difundida pelo americano Truman Capote), Piers Paul Read narra em Os Sobreviventes a trágica história do time uruguaio de rugby que, em 1972, após fretar um avião que o levaria ao Chile, despencou em meio à Cordilheira dos Andes e por lá ficou 72 dias, antes de os sobreviventes serem resgatados.

Como numa bela ficção, Read mostra todo o contexto do acidente, a angústia dos familiares dos jovens jogadores de rugby e os esforços desesperados que fizeram para tentar resgatar a equipe o quanto antes das gélidas cordilheiras; tudo isso além de detalhar todos os 72 dias passados nas montanhas.

Outro livro altamente recomendável, sem dúvida.

20 agosto 2009

De Cabeça Para Baixo, de Fernando Sabino

"Eu nunca ouvira falar em Yosemite. Nem sabia da existência desse parque com nome de doença". (pág. 166, 7ª edição)

cabeça sabino

Ontem pela manhã, antes de trocar a água do aquário da Mila (minha peixe-espada de estimação), finalizei a leitura do livro De Cabeça Para Baixo (1989), que é o relato das viagens do escritor mineiro Fernando Sabino pelos quatro cantos do mundo. Além de ser o reconhecido autor do romance O Grande Mentecapto (1979), Sabino tem o status de ser um dos nossos melhores cronistas contemporâneos.

---------------------------

Sinopse (Record): Desde a sua descoberta da Europa em 1959 até se ver de cabeça para baixo no Extremo Oriente, Fernando Sabino relata o melhor de suas andanças, tropelias e trapalhadas por este mundo afora em quase trinta anos. E o faz na linguagem ágil, viva e quase sempre hilariante que o consagrou como um dos prosadores mais lidos do Brasil.

---------------------------

(Pequeno parêntesis: Algumas pessoas sabem que, desde que eu me entendo como mortal, sempre tive certo receio para com a literatura brasileira: ou a achava sem graça ou muito pretensiosa. E o motivo de agora eu estar buscando tantos livros nacionais, nos últimos dias, se deve ao fato de que fui "traumatizado" há uns quatro ou cinco meses, quando li duas versões distintas de Jurassic Park - portanto, duas traduções diferentes. O livro é magnífico, como todos sabem, mas, ao ler as duas traduções separadas, vi quão diferente pode se tornar um romance no que depender do tradutor. Essa perspectiva me deixou desconfortável, tanto que agora estou preferindo buscar aqueles livros que já foram originalmente escritos no meu idioma: português-BR.)

Bem, devo admitir que demorei um éon (isto é, uma verdadeira eternidade) para finalizar a leitura de De Cabeça Para Baixo. Geralmente eu demoro cinco ou seis dias para terminar um livro de 320 páginas (como é o caso deste), mas, pelo fato de não ter gostado tanto do estilo do Sabino, demorei algo em torno de um mês e meio para finalizar esse seu relato de viagens.

E os motivos para a minha falta de vontade são simples. Primeiro, De Cabeça Para Baixo se arrasta em uma narrativa que me deixa bastante desanimado: é metida a moderna, do tipo que engole vários verbos e abusa dos gerúndios. É o caso de por exemplo "A viagem mal começou e eu já inaugurando esta caderneta." (pág. 9). Cabe a reflexão: Qual é o problema em inserir a palavra "estou", entre "já" e "inaugurando"?

Sabino também tem o desagradável costume de escrever as suas frases pela metade. Pode-se notar isso no início do capítulo 3. Diz ele: "Série de reportagens para o JB sobre o que está acontecendo nas grandes cidades do mundo." O que há de errado em dizer "Estou fazendo uma série de reportagens para o JB sobre..."? Ou "Fui incubido de fazer uma série de reportagens para o JB sobre..."? O jeito incompleto com que ele escreve como que desloca o leitor, interrompendo o fluxo intuitivo da leitura.

Pode parecer birra da minha parte, mas a verdade é que eu não gosto desses invencionismos literários. Honestamente, não gosto desse tipo de estilo narrativo. Para mim, um livro que se preze deve conter antes de tudo uma linguagem consistente, articulada e, sobretudo, clássica. É lógico que não estou me referindo a um clássico rebuscado e difícil, do tipo de Dostoiévsky, mas a um clássico tradicional, talvez do tipo de Michael Crichton, por exemplo, que dá prazer ao leitor por conta da gramática e das construções impecáveis das frases. (Aliás, Crichton escreveu um relato de suas andanças que até hoje tenho como o melhor de todos: Álbum de Viagens, editora Rocco.)

O segundo motivo do meu desgosto para com a leitura do livro do Sabino, além da linguagem da narrativa, é a própria ausência de significância dos acontecimentos narrados. Sabino nos conta sobre as suas viagens rocambolescas ao Peru, à Alemanha, à Cuba, ao Irã, ao México e a tantos outros lugares do mundo, mas, ao final de cada capítulo, não transmite nenhuma conclusão definitiva e consistente para os leitores. Isso me decepcionou um pouco, porque, tendo em vista que Fernando Sabino é um dos nossos melhores prosadores, senti falta de uma mensagem à altura em seu relato; os acontecimentos lá são apenas narrados, e não dão margem a nenhuma outra interpretação subjetiva.

É como ler o diário da minha prima, eu acho. Não há nenhum subjetivismo admirável - apenas os acontecimentos narrados com uma objetividade enfadonha.

No entanto, cabe agora um grande "porém". Apesar dos dois motivos supracitados, que me deixaram com o cenho franzido em relação ao livro, devo admitir uma coisa. Nunca ri tanto lendo um relato de viagens. Isso é verdade.

São hilários os momentos em que o autor se vê às voltas com problemas na comunicação entre ele e as pessoas dos países para os quais viaja. Por exemplo, na manhã em que ele acorda em um hotel da Alemanha, trôpego de sono, ergue o interfone que está tocando e ouve alguém perguntar do outro lado da linha: "Pode soltarrr o gato?"

Pelo menos foi o que eu entendi. Respondi que sim, não tinha dúvida: no que dependesse de mim, podia soltar o gato. E fui direto para o banheiro lavar o rosto. (...)

Só mais tarde juntei as pontas e me ocorreu que devia ser o alemão da portaria me acordando, conforme instrução minha deixada na noite anterior.

Além dessas piadinhas da vida cotidiana que me fazem rolar de rir, há também os cômicos comentários do amigo de Fernando Sabino, Otto Lara Resende, ao longo do texto. Quando Sabino, a certa altura, faz uma de suas trapalhadas durante a viagem, ele próprio escreve: "E ainda há quem me ache inteligente..."

Em uma nota de rodapé, lá está o Otto: "Quem?"

Então, pode-se dizer isto: o livro que terminei de ler ontem pela manhã, antes de trocar a água do meu peixe, tem os seus altos e baixos - altos muito altos, e baixos muito baixos. Se um marginal pusesse um revólver na minha cabeça e dissesse "Dê uma nota para o De Cabeça Para Baixo, do Fernando Sabino, agora!" (apenas dou nota para os livros em casos de extrema necessidade), eu diria: "Cinco! Agora por favor, não me mate!" Cinco porque é uma avalição meio-termo. Os momentos hilários do livro compensam os outros momentos, os que não têm nenhum viés literário digno de um escritor internacionalmente reconhecido como Sabino.

P.S.: Fernando Sabino é também autor do livro O Encontro Marcado (1956), obra que li no ano passado e de que gostei bastante.

--------------------------------

Abaixo, segue-se uma das passagens engraçadas que me fizeram rir a valer:

"Antes de voltar para Bruxelas, eu e o Otto conseguimos ver o famoso 'Agneau Mystique' de Van Eyke na Igreja de Saint Bavon, conforme recomenda o Guia. Num de seus acessos de insensatez, Otto me fez subir com ele a torre da igreja, para apreciar a paisagem lá de cima. São quatrocentos degraus! O equivalente a 22 andares. Meu desvairado companheiro riscou nosso nome no parapeito do terraço com a chave do carro, para ficar eternamente comprovado que estivemos lá.

De volta ao carro verificamos que ele havia esquecido a chave lá em cima. Teve que voltar para buscar. Sozinho, é claro."

(SABINO, Fernando. De Cabeça Para Baixo, pág. 14, 7ª edição, Record.)

11 maio 2009

Next, de Michael Crichton

Neste exato instante de uma noite chuvosa de segunda-feira, termino a leitura do sem dúvida mais polêmico livro escrito pelo romancista norte-americano Michael Crichton: Next (Next, 2006), que já rendeu boas controvérsias por parte da crítica, assim como o antecessor e ousado Estado de Medo. Por ora, o que acontece comigo é isso mesmo: enquanto o livro de Haruki Murakami não chega pelo correio, passo o meu tempo relendo as obras de Michael Crichton.

Sinopse (site Siciliano): Entremeando a narrativa com notícias de jornal e artigos científicos, Michael Crichton trata com ironia e perplexidade o atual universo da pesquisa genética, traçando uma visão sombria da vida humana hoje, negociada em bancos de óvulos e esperma na Internet ou em testes capazes de identificar parceiros ideais para gerar descendentes perfeitos. "Next" traz um inescrupuloso mundo novo, no qual a genética torna-se um escuso negócio de bilhões de dólares.

Na minha singela opinião, Next é um livro muito bom - e que isso fique bem claro ao longo de toda a resenha. Eu apenas diria que ele tem dois pontos fracos. O primeiro é que, nos quase 100 capítulos do livro, é-nos apresentada uma miríade de histórias cujas tramas possuem outra miríade de personagens, tornando-as, assim, muito superficiais e mal-elaboradas. O autor não se preocupa em tratar bem o enredo do romance, criando uma vasta seqüência de narrativas paralelas das quais ele acaba perdendo o controle. Acho que existem mais de 50 personagens em todo o livro. Sério. O outro ponto fraco é que muitos termos técnicos são utilizados no texto e, embora eles sejam colocados de maneira meio didática, isso acaba tornando algumas partes maçantes e de difícil compreensão. Como é o caso de "A patente reivindica efeitos potenciais sobre os neurotransmissores no giro do cíngulo".

De qualquer modo, sustento a idéia de que Next não tenha sido escrito para entreter os leitores. Pelo menos não entreter da forma tradicional, criando uma história que segue um determinado ritmo "contagiante". Suponho que a verdadeira intenção de Crichton tenha sido a de tecer um amplo panorama dos absurdos da ciência corporativa no mundo atual, escrevendo pequenas histórias paralelas que mexem com bizarras situações envolvendo experiências genéticas, evidenciando, assim, o quanto a humanidade está extrapolando os limites da razão nas pesquisas científicas.

Exemplos dessas bizarras situações são: um papagaio africano transgênico que fala fluentemente como um ser humano. Um orangotango poliglota experimental largado na selva da Sumatra. Um chimpanzé gerado a partir de sêmem humano que se comporta como uma criança. Uma tartaruga-marinha cujo casco foi alterado para que exibisse propagandas comerciais de grandes empresas. Uma orelha minúscula criada em laboratório por renomados cientistas. Universidades patenteando células de uma pessoa viva, que perde completamente os direitos sobre o próprio corpo.

Fica evidente que o autor escreveu este livro na tentativa de alertar as pessoas para o caos no qual o mundo está se transformando, graças às experiências científicas mal-planejadas, não-autorizadas ou desnecessárias. Pelas obras anteriores de Michael Crichton, podemos perceber que ele realmente teme um pouco esse avanço desenfreado da ciência, especulando que uma má política administrativa sobre o campo científico de fato poderá acabar com todos nós. Não é nem um pouco difícil constatar isso pelos seus romances anteriores: todos eles tratam de inovações científicas que deram errado, e todos os administradores das grandes empresas são sempre uns bons filhos-da-mãe. (Esse é outro aspecto curioso em Next: todos os seus personagens são sempre sacanas, corruptos ou devassos.)

É interessante, também, perceber o quanto Michael Crichton distancia-se de sua narrativa habitual para escrever Next. Neste livro, o autor usa-se de uma linguagem que não lhe é muito comum: insere palavrões às pampas, sem rodeios, e uma amarga ironia quase incurável está presente em todo o texto. Parece até que o escritor pensou: "Sabe de uma coisa? Quero que essa humanidade estúpida se f***. Vou escrever um livro mostrando toda a verdade sórdida por trás dela e esculachar todo mundo". Eh, aquele humilde (e tão bom) narrador de aventuras não está presente aqui em Next. Infelizmente. No seu lugar, aparece um irascível escritor desiludido com as pessoas.

Mesmo assim, Next não faz feio e acaba sendo uma boa mistura de cômico e bizarro. É uma daquelas histórias que, de tão absurdas, chegam a ser engraçadas. No entanto, basta nos lembrarmos de que tudo o que está escrito ali é perfeitamente factível para que ela então deixe de ser engraçada - e passe a ser assustadora. Porque, afinal de contas, são esses absurdos científicos retratados no livro que um futuro próximo nos reserva. Bem próximo.

Next.

-------------------------

P.S.: Acabei de ver aqui que Michael Crichton é o escritor mais lido do mundo. Eu sempre soube que ele era bem popular no planeta inteiro, mas não ao ponto de conquistar esse título. Pensei que esse status de "best-read" pertencesse a J. K. Rowling ou a Barbara Bradford Taylor.

P.S. 2: Depois da morte do autor, no final do ano passado, a editora americana que publicava os seus livros disse que editará Pirate Latitudes, um romance que Crichton nunca pensou em publicar em vida. Nota mental: dado isso, então, seria moralmente correto publicá-lo?

13 abril 2009

O Parque dos Dinossauros (Parque Jurássico), de Michael Crichton


Hoje cedo pela manhã - antes de esquentar a cabeça por causa de um Haruki Murakami que chegou com defeito pelo correio - terminei a leitura do ultra-famosíssimo O Parque dos Dinossauros (Jurassic Park, 1991), do renomado escritor norte-americano Michael Crichton. É a segunda vez que leio esse livro. A primeira foi ainda na época em que ninguém sabia o que era Big Brother Brasil, e ainda no tempo em que um jovem de 15 anos nem sonhava possuir um telefone celular.

Piadinhas sem-graça à parte, vamos ao que interessa. Como a edição que eu possuo é bem antiga (capa dura e páginas amareladas!) e, por isso, não possui sinopse, acho que vou escrever um pequeno resumo com minhas próprias palavras, muito embora eu acredite que todos já conheçam a história.

Sinopse: Um velho magnata chamado John Alfred Hammond reúne quase 1 bilhão de dólares e ergue uma empresa que trabalha com engenharia genética (InGen Inc.), na ousada tentativa de recriar animais pré-históricos através da clonagem e inseri-los em uma espécie de parque temático, situado em uma distante e remota ilha da Costa Rica. Um punhado de cientistas é convocado para dar um passeio pela ilha e dizer suas opiniões acerca do grandioso feito, estudando o comportamento de dinossauros ao vivo e a cores, recriados a partir da milagrosa empresa genética. Todo o programa do passeio corre bem, até que um descuido faz com que os responsáveis pelo parque percam o controle e o lugar vire um caos terrível na luta pela sobrevivência.

O Parque dos Dinossauros foi uma história que alterou profundamente a minha infância e, por tabela, a minha vida. Lembro-me como se fosse ontem. Eu tinha apenas 12 anos de idade e estava deitado no sofá da sala quando o meu irmão, sentado na mesa e folheando a revista da programação da TV a cabo, dissera: "Olha, Renan, hoje vai passar Jurassic Park. É um clássico." Foi esse filme, e conseqüentemente o livro, que me lançaram de cabeça no mundo do cinema e da literatura. E até hoje eu ainda não consegui sair desse maravilhoso mundo. Culpa do meu deslumbramento pelo O Parque dos Dinossauros.

Pode parecer exagero, mas considero esse romance a melhor obra literária de ficção científica/aventura da contemporaneidade. É verdade, acho isso mesmo, e os fãs de Cory Doctorow que me desculpem. Michael Crichton parece ter no sangue o dote de narrador ficcionista, mesclando sempre uma idéia fabulosa com um incrível e maestral poder de narração, capaz de tirar o fôlego de qualquer um. Foi esse excelente estilo de escrita, também, que me inspirou a ser escritor.

No mais, acho fascinante a maneira com que Michael Crichton construiu a história de O Parque dos Dinossauros: usou um elemento que repousa ainda firmemente no mundo da fantasia (recriação genética de dinossauros) inserindo-o em um contexto surpreendentemente palpável e verossímel (construção de um parque temático para abrigar as criaturas, regido por um velho ambicioso e salafrário). O resultado é que, durante a leitura, diante de inúmeros argumentos convincentes, o leitor de fato acredita que os dinossauros podem ser recriados geneticamente através da paleo-clonagem. E a história toda do livro, apesar de aparentemente "absurda", ecoa no nosso cérebro de uma forma real e assustadoramente factível.

Na verdade, não é a primeira vez que isso acontece comigo ao ler um livro de Crichton. Depois de Linha do Tempo, por exemplo, eu podia jurar de pés juntos que uma viagem temporal envolvendo seres humanos era possível. Crichton faz isso mesmo, em todos os seus livros: compartilha conosco uma de suas idéias inauditas, e lança-nos em um contexto tão real que achamos que aquela história de fato é praticável. Como viajar no tempo. Como clonar dinossauros. E por aí vai.

Como eu já disse em um post anterior, é extremamente desagradável para mim falar sobre um livro de que gostei tanto. Muitos detalhes vêm à minha cabeça, e nem sempre os dedos conseguem acompanhar o ritmo da enxurrada de opiniões que se formam na minha cabeça. De qualquer forma, caso estejam procurando um bom livro para ler, indico O Parque dos Dinossauros sem restrições. É uma leitura fascinante, garanto. (Mesmo sendo uma obra rara atualmente, não se preocupem: a editora Rocco irá relançá-lo em parceria com a editora L&PM Pocket).

O trecho do romance que eu colocaria aqui no final certamente seria uma das falas do cientista matemático Ian Malcolm, que, apesar de ser um evidente pessimista, discorre sobre assuntos que são pertinentes no mundo de hoje.

- Testemunhamos o fim da era da ciência. A ciência, como qualquer outro sistema fora de moda, está se destruindo. Conforme adquire mais poder, mais se mostra incapaz de lidar com esse poder. Porque as coisas estão acontecendo muito depressa atualmente. Há 50 anos, todos ficaram de queixo caído por causa da bomba atômica. Aquilo sim era poder. Ninguém poderia imaginar algo além dela. No entanto, menos de uma década depois da bomba, começamos a ter poder genético. E o poder genético é muito mais potente que o poder atômico. E estará ao alcance de todos. (...)

Ou:

- Todas as grandes mudanças são como a morte - Malcolm afirmou. - A gente só enxerga o outro lado quando chega lá.

08 janeiro 2009

Adeus, Michael Crichton


Sei que já é tarde para escrever sobre isso - e só hoje me ocorreu a idéia -, mas realmente tenho de dedicar uma parte do meu tempo para comentar sobre esse excelentíssimo contador de histórias que faleceu no final do ano passado. Trata-se de Michael Crichton, cujas obras me transportaram para outro mundo quando criança e cujas viagens ao redor do mundo me inspiraram quando adolescente.

São de sua autoria o famosíssimo "Jurassic Park", "Mundo Perdido", "Linha do Tempo", "Presa", "Estado de Medo", "Esfera" e "Next", só para citar alguns. O primeiro livro "para adultos" que li na minha vida foi Jurassic Park, aos 13 anos, e nem é preciso comentar muita coisa sobre ele; basta dizer que o livro é uma fabulosa aventura eximiamente bem escrita e bem embasada, transposta magistralmente para o cinema por Steven A. Spielberg.

O que cativa na narrativa de Crichton é sua capacidade de abordar temas científicos de modo quase didático, e com isso criar um thriller cheio de aventura e questões pertinentes. Dono de uma linguagem enxuta e concisa, ele conduz o leitor de modo agradável e imperceptível até as últimas páginas dos seus mais excitantes romances - basta ler "Esfera", por exemplo, para saber do que estou falando.
Crichton podia ser um escritor ousado, até irreverente, quando expressava suas idéias. Mesmo assim, nunca criticou uma entidade individual. Referia-se sempre ao todo, à humanidade e às pessoas de uma maneira generalizada. Apesar de ter sido enquadrado na linhagem dos escritores best-sellers - o que espanta alguns leitores sisudos - sua obra merece ser lida e devidamente apreciada.

Adeus, Michael Crichton. Obrigado por ter encutido na minha cabeça a idéia de querer ser escritor.