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06 junho 2011

A tendência do uso de aspas em diálogos

Travessão ficará obsoleto?

Os leitores que gostam de se ater aos pequenos detalhes técnicos dos livros podem ter percebido que, desde o início deste ano, muitas editoras nacionais incorporaram o uso de aspas nos diálogos dos romances que publicam. Agradável ou desagradável, bonita ou feia, acredito que essa seja a tendência do atual mercado editorial brasileiro; daqui a uns dez anos, quem sabe, todos os livros nas livrarias do nosso país terão as aspas como pontuação principal em diálogos.

Por mais banal que o assunto possa parecer para algumas pessoas, ele é de extrema importância para mim, pelo menos. Espero que alguém me entenda.

Assim como muitos outros leitores que conheço, eu cresci folheando livros e vendo travessões nas falas dos personagens. Antes de tudo, achava enigmático e imponente aquele traço enorme que precedia a voz de um personagem. Aprendi nas escolas em que estudei que essa é a pontuação formalmente adequada para expressar a fala de uma pessoa em uma narrativa. Nas redações de português, quem colocasse aspas no lugar do travessão perderia ponto.

aspas

Os melhores livros que li na vida têm o travessão. Ou seja, os melhores diálogos que já tive a oportunidade de ler vieram com um travessão antes. Os romances esquisitos que eu costumava escrever quando criança usaram o travessão como recurso, e, inclusive, eu perdi algumas noites na época procurando aprender todas as regras que essa pontuação exigia.

Por essas e por outras coisas, não é de admirar que eu encare as aspas com um certo receio. Sempre gostei do travessão: acho-o mais expressivo, mais energético mesmo, mais adequado que as aspas.

Bem, quem já teve a oportunidade de folhear um livro importado, deve ter percebido que o uso de aspas é consensual no exterior. Todos os livros de fora são publicados com esse tipo de pontuação em diálogos, e, até ano passado (acredito eu), as editoras brasileiras traduziam essas aspas para travessões, que era a pontuação tradicional aqui. No entanto, hoje, os livros lançados estão sendo traduzidos para cá com as aspas intactas.

Lamento esse fato. Como eu disse, é provável que, daqui a alguns anos, a maioria ou a totalidade dos livros daqui estejam com as tais aspas. A editora Companhia das Letras, por exemplo, parece ter incorporado essa prática para valer: quase todos os romances lançados por ela (que não são poucos) já vêm com aspas para designar o diálogo entre os personagens. 

tipografia

Além da questão puramente estética, há também o forte fator expressivo da pontuação. Eu sempre achei que o uso de aspas deixa o romance mais silencioso, mais contido, mais fechado. Não sei quem concorda comigo, mas eu penso que as aspas dão a impressão de que aquela fala do personagem é uma reprodução. Algo como uma transcrição. Não sinto como se o personagem estivesse realmente dizendo qualquer coisa. Conseqüentemente, o texto não nos faz crer que a história esteja acontecendo agora – é mais como um relato de um evento que já ocorreu.

Por outro lado, o travessão deixa o diálogo mais vivo, mais direto, mais aberto. É como se o personagem realmente falasse, como se pudéssemos ouvir sua voz. Dá a impressão de que ele abre a boca sem a permissão do autor, de forma espontânea. E, assim, o romance deixa transparecer a idéia de que está acontecendo agora. Essa concepção sempre foi muito forte em mim.

Mas, com a nova tendência, o que os admiradores do travessão podem fazer? Dar de ombros. Reeducar os sentimentos. E, como a literatura é puro sentimento, acredito que essa seja uma tarefa importante.

20 comentários:

  1. eu e minha esposa concordamos plenamente com tudo que foi escrito. parabéns pelo artigo.

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  2. Olá!

    Sejam bem-vindos! Fico imensamente feliz em receber seu comentário. É muito agradável saber que você e sua esposa concordam com o ponto de vista colocado no artigo.

    Voltem sempre que quiserem, e fica o meu muito obrigado pela visita. :)

    Abraços!

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  3. Marlo, acho corretíssimas as tuas observações sobre o valor expressivo do travessão, muito mais que as aspas usadas para introduzir as falas do diálogo. Sinto, como você, que o diálogo fica mais vivo, o leitor consegue "esquecer" o narrador, dispensar a sua mediação, e colocar-se frente a frente com o personagem.
    Aliás, é bom lembrar que tal uso do travessão não é exclusivo da língua portuguesa, faz parte também da tradição francesa e da espanhola. O que está acontecendo com essas editoras é um descaso inaceitável com a tradição editorial brasileira - talvez mesmo por ignorância. No afã de se mostrarem "modernas", não obstante a importante contribuição que possam estar dando em matéria de design gráfico inovador, elas sucumbem ao gosto dos países anglófonos e tentam pasteurizar tudo, nessa época de globalização, sem atentar que a arte é feita de sutilezas. É mais um exemplo do velho e renitente colonialismo cultural, nem sempre imposto pela cultura "colonizadora", mas abraçado como ideal supremo por colonizados babacas, alheios às singularidades da sua própria cultura, que se expressa também nesses detalhes aparentemente ínfimos. Devemos, sim, protestar contra tal absurdo.

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  4. Enoc,

    É ótimo saber que estamos de acordo! Antes eu imaginava que essa interpretação das aspas e do travessão era algo puramente pessoal, mas vejo que muitas pessoas compartilham desse ponto de vista. É muito interessante saber que existem vários leitores realmente atentos ao menor detalhe estilístico das Letras.

    Encaro a tendência do uso de aspas aqui no Brasil como uma espécie de "querer ser o mais fiel possível à obra original". Nisso, as editoras traduzem o livro e o estilo do livro fica intacto - no caso, as aspas. Eles não levam em conta que o Brasil é um país onde se utiliza o travessão, culturalmente falando. E querem mudar isso de uma hora pra outra.

    Obrigado pela visita, sinta-se à vontade no Blog! Abraços!

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  5. Concordo plenamente!
    Pra mim, os travessões são "falas" e as aspas, "pensamentos", algo interior a personagem.
    Gostei da sua definição: com as aspas os diálogos ficam silenciosos, perdem a força.

    Certa vez, indignada com as traduções brasileiras, mandei uma mensagem para a companhia das letras falando sobre isso e obtive uma resposta muito boba, basicamente dizendo que "o uso das aspas não estão erradas". Bom, não era isso que eu queria debater... Resposta de que quem não é leitor, mesmo trabalhando com livro... uma decepção, ainda mais se tratando da cia das letras.

    Eu prefiro o uso do travessão!

    Abcs

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  6. Olá, Fernanda!

    Nunca pensei em mandar um e-mail para as editoras a fim de criticar esse recurso estilístico, mas, agora, vendo o seu insucesso e a resposta estéril que recebeu, realmente perdi as esperanças...

    A tendência atual é traduzir o livro com as aspas, pois os originais vêm com elas - e as editoras imaginam que, conservando-as, seus produtos ficam mais dignos de respeito. Acontece que não enxergam que a questão está muito além da simples estética e da mera regra ortográfica.

    É uma pena, de fato!

    Obrigado pela visita, sinta-se sempre à vontade no Blog! :)

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  7. Oi, Marlo!

    Adorei o seu artigo, foi muito bem colocado e definiu perfeitamente os meus sentimentos em relação ao uso de aspas no lugar do travessão, de uma forma que antes eu não sabia explicar ao certo em palavras.

    Sempre que lia livros em inglês essa diferenciação me incomodava um pouco, mas eu relevava por ser uma padronização internacional. Mas ler livros em português, com padrões internacionais, me irrita bastante. Pode ser exagerado, mas o sentimento que tenho é de que estamos jogando parte de nossa cultura fora em favor de padrões estrangeiros, como se ela não valesse nada.

    Para mim, um simples sinal pode fazer muita diferença entre um texto bom e um lixo. E não digo isso apenas em relação ao uso de aspas. Afinal, escrever é uma arte que não envolve somente palavras, e a forma de se escrever um texto, o uso correto dos sinais, das palavras, etc., é que ajuda a definir o sentimento que o autor deseja passar ao seu leitor.

    Torço para que sua predição não se realize, porque mudar sinais é fácil, o difícil é mudar os sentimentos.

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  8. Olá, Sonia!

    Muito obrigado pela visita e pela contribuição em forma de comentário. Excelente!

    Concordo com você no que diz respeito ao incômodo de ver nossa cultura - nossa padronização editorial, pelo menos - ser desprezada. Como sabemos, o travessão é um sinal extremamente expressivo, e fico bastante contrariado quando o vejo substituído por aspas, que dão bem menos vida ao diálogo. Sinceramente, é muito doloroso testemunhar essa mudança geral de sinalização em diálogos... Há uma diferença enorme entre os dois sinais, muito mais subjetiva que estética.

    E, sim, os pequenos detalhes editoriais de um livro também não passam despercebidos por mim! Me apego demais aos detalhes, fico imaginando por que o autor colocou os três pontos no final daquela frase, por que o ponto e vírgula está ali e não noutro lugar... Essas coisas! Concordo com você.

    Em suma, tomara mesmo que minha predição não se realize! Aliás, se eu tivesse escrito este texto hoje, nem teria colocado aquele último parágrafo!

    Abraços. :)

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  9. Desde o fim do ano passado (bem depois da data de publicação do seu post), venho reparando neste detalhe. Os romances que tenho lido tornaram-se, digamos, menos emocionantes. Eu não havia ligado os fatos, até ler o seu artigo e concluir juntamente ao seu raciocínio: as aspas dialogais estão matando os romances em português. E eu não haveria de perceber a falta que um travessão me faz, se não fosse a ausência dele.

    Tristemente, tento me conformar. Seremos todos órfãos dos travessões.

    Parabéns pelo post muito bem escrito.
    Abraços

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  10. Olá, Eduardo!

    A substituição dos travessões pelas aspas faz uma diferença tão grande, não é? Faço um grande esforço para achar nas aspas a mesma emoção que eu sentia ao ler um texto com travessão em diálogos. De fato, é que questão de se conformar... Não acho que as editoras pensem em voltar atrás, pelo menos não tão cedo.

    "Órfãos dos travessões" é uma boa expressão... rs.

    Muito obrigado pela visita, pelo comentário e pelo elogio!

    Abraços! :)

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  11. De certa forma concordo com voce, mas vou falar aqui em nome de alguém que é acostumado com as aspas , leio muita literatura extrangeira, principalmente os romances de Anne rice , consegui achar quase todos na lingua original. a maioria dos livros de Anne são narrados em primeira pessoa , e acho que no final das contas a forma como as palavras são apresentadas não importa , é tudo pscologico , está tudo na sua cabeça , o livro poderia estar em japones ou codigo morse , ou de qualquer outra forma. oque importa é a informação que ela passa e oque voce faz com ela. a importancia de uma fala ou a proximidade entre leitor e personagem depende apenas do leitor. eu por exemplo sempre fui acostumado com aspas, o travessão fez parte apenas da minha infancia , então hoje quando leio um livro com travessão pareçe que estou lendo um livro infantil, com recursos para fazer o leitor joven identificar mais facil oque é fala e oque não é e aprender a separar na sua mente , mas depois de um tempo lendo com aspas esse processo de separação entre oque é fala e oque não é , é feito dentro de sua cabeça e voce nem repara mais nas letras e pontuações. apenas no que elas representam. alias estou escrevendo um livro e sim.. estou usando aspas, dá menos trabalho rsrsrs

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  12. Olá, Cristiano! Muito obrigado pela visita.

    O que você falou é verdade: depois de um tempo, não importam muito os tipos de pontuação que são trabalhados naquele livro específico. Após uma semana de leitura, ou menos, as ideias vão se formando na nossa cabeça sem que para isso precisem da ajuda de pontuações. É um processo muito interessante.

    Desde a publicação desta postagem até hoje, andei me acostumando com as aspas. Não posso dizer que já as prefiro aos travessões, mas com certeza elas me são bem mais familiares.

    Obrigado pelo comentário, volte sempre!

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  13. Oi Cristiano.
    Sabe o pior disso tudo? É ter que ensinar crianças do 5º ano do fundamental que já têm dificuldades com o travessão, a usar aspas em seu lugar. O livro indicado pela secretaria de educação de minha cidade traz o uso da aspa no lugar do travessão mas não traz nenhuma regra de como usá-las. É por isso que estou procurando na net uma forma simples de ensiná-los mas está difícil. É, nos dias atuais fica difícil ser professor. Gostei de sua colocação. Obrigada. Eliana

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  14. Marlo, muito providencial teu comentário, bem argumentado e nada radical, como me parece soar muitos vindos do meio acadêmico ou amante de erudições. Creio que estejamos vivendo um instante muito diluído, e a aplicação, por exemplo, de aspas e travessão, ganham sentido se o autor tem intensão declarada com seu uso, e é isso que muito me agrada na língua portuguesa, ao contrário da rigidez da inglesa.
    Me permite um exemplo, se a personagem principal é, de fato, quem narra a história, sua própria história, e durante a narração ocorrem tanto diálogos como fluxos de consciência e até cartas ou mensagens eletrônicas, por tudo ser fruto de uma lembrança, onde em parte alguma da história se revela quem é o narrador, me parece, nesse caso, muito justo o uso das aspas onde for. O que me diz?
    O travessão, ao que me parece, e seus dois pontos, é excelente onde o narrador se posiciona diretamente, ou onde ele se pronuncia, dizendo esse sou eu e estou contando a seguinte história em que fulano diz isso e sicrano aquilo. Logo, como bem disseste, é algo explícito, enfático. O que não é o caso das aspas.


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  15. Olá, Paulo! Antes de tudo, muito obrigado pela visita e pelo comentário!

    Penso exatamente o mesmo que você. As aspas cabem em textos reflexivos, memorialísticos, recordativos. Porque as aspas nos dão essa impressão de uma fala contida, uma fala reproduzida, não diretamente vocalizada. O travessão é o símbolo que dá vida ao diálogo, dá urgência e, principalmente, som.

    Obrigado pelos elogios! Grande abraço.

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  16. Ola, Marlo! Fiz um curso de revisão textual e o professor disse que o uso das aspas no diálogo é exigência expressa por alguns escritores às editoras. Qdo não há a exigência, os tradutores utilizam o travessão.

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  17. Ola, Marlo! Fiz um curso de revisão textual e o professor disse que o uso das aspas no diálogo é exigência expressa por alguns escritores às editoras. Qdo não há a exigência, os tradutores utilizam o travessão.

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  18. Olá, Rosana! Muito obrigado pelo esclarecimento!

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  19. Prezado Marlo, permita-me discordar de você, embora deva dizer que o entendo. Sou da opinião de que o travessão por vezes implica em problema de entendimento, sobretudo em diálogos carregados de intermitências. Ao adotar-se as aspas, reserva-se o travessão para cumprir a elegante função de parênteses na narrativa ou mesmo nos diálogos, quando estes se fazem necessários.
    A meu ver, a pontuação também sofre esteticamente com o travessão, mas, como disse, essa é apenas minha opinião.

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  20. Olá, Humbas! Sinta-se à vontade para discordar de mim, este espaço é voltado especialmente para discussões! E obrigado pela visita e pela opinião.

    Abraço!

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Muito obrigado pela visita ao Gato Branco! Seu comentário será extremamente bem-vindo! :)