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01 março 2011

A cura de Schopenhauer, de Irvin D. Yalom

"A maior sabedoria é ter o presente como objeto maior da vida, pois ele é a única realidade, tudo o mais é imaginação." (p. 76)

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Foi depois do sucesso de Quando Nietzsche chorou que eu comecei a ver os outros livros do autor Irvin D. Yalom serem lançados por aqui pelo Brasil.

Na semana passada, contrariando meu hábito de não ler nenhum tipo de literatura no período de aulas, eu comecei o romance A cura de Schopenhauer (The Schopenhauer cure, 2005), e o terminei ontem.

A leitura foi feita em conjunto com minha queridíssima amiga Gleici Ketlem, leitora de livros tão voraz quanto eu. Te adoro, Gle! :)


Sinopse: Ao descobrir-se portador de um câncer fatal, Julius Hertzfeld faz uma avaliação de sua longa carreira como psicoterapeuta e decide procurar seu maior fracasso – um antigo paciente chamado Philip Slate, viciado em sexo que curou a si mesmo seguindo as doutrinas de Schopenhauer – e o convida a participar de sua terapia em grupo.

A presença de uma ex-conquista de Philip, que o odeia pela frieza com que a descartou, obriga-o a encarar o passado e desencadeia conflitos entre os pacientes e acirradas discussões filosóficas com Julius.


De Irvin D. Yalom eu só havia lido Quando Nietzsche chorou, que recebi de presente do meu amigo padre Alfred – alemão que estuda comigo na universidade. A história é um misto de ficção e fato, em que o analista Joseph Breuer (mentor e amigo de Sigmund Freud) trata um paciente mais que extraordinário: ninguém menos que o filósofo Friedrich Nietzsche, portador de uma angst terrível. Enquanto o maduro Breuer analisa Nietzsche sessão após sessão, vemos um Freud jovem e cheio de expectativas ter os seus primeiros insights sobre a teoria do inconsciente.

Em A cura de Schopenhauer, temos um enredo bem menos ambicioso. Não é um épico, e as personagens não são figuras importantíssimas das ciências humanas, como ocorre no Quando Nietzsche chorou. Estamos diante de um enredo mais linear que o do best-seller do autor, mais enxuto, talvez, mais descomplicado. Mesmo assim, mesmo com essa simplicidade aparente, digo que gostei mais deste, A cura de Schopenhauer.

O livro é ótimo. Mas sou de certa forma suspeito para falar isso, porque, na condição de estudante de Psicologia, me interesso por temas que nem sempre interessam a terceiros. Isso não significa, óbvio, que quem não é do ramo da Psicologia não vai gostar do livro que acabei de ler ontem. No entanto, é aconselhável que o leitor tenha pelo menos um mínimo de interesse por psicoterapias, psicologia, filosofia e coisas afins.


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Capa de Quando Nietzsche chorou e foto de Arthur Schopenhauer


Um dos maiores atrativos do livro são os capítulos em que Yalom conta a vida de Schopenhauer, de maneira resumida e voltada para curiosidades sobre esse excêntrico filósofo alemão. Esses capítulos são como que inseridos à parte na história, geralmente alternando com os capítulos em que se narra o enredo propriamente dito. A biografia de Schopenhauer é destilada com leveza e graça, e isso é um ótimo ponto de apoio para quem está lendo o livro, além de ser fonte cheia para quem está atrás de saber algo sobre a vida desse homem.

De um modo geral, A cura de Schopenhauer é um livro que só se passa em um único cenário, salvo na ocasião em que se narra a viagem de Pam à Índia. Fora isso, todo o drama dos personagens tem lugar na sala da terapia de grupo, o que, para uns, pode ser extremamente monótono e desinteressante. Realmente, acho que Yalom poderia ter expandido mais o palco e ter mostrado a vida dos personagens mais para além do grupo terapêutico. Erro dele? Não necessariamente. Apenas uma preferência em dar ênfase à psicoterapia.

Cada capítulo é iniciado com um trecho da obra de Schopenhauer, todos muito bonitos e reflexivos. Um que achei bastante especial foi o seguinte:

A vida pode ser comparada a um bordado que, no começo, vemos pelo lado direito e, no final, pelo avesso. O avesso não é tão bonito, mas é mais esclarecedor, pois deixa ver como são dados os pontos. p. 238

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Em suma, adorei A cura de Schopenhauer, livro que achei mais interessante do que Quando Nietzsche chorou, best-seller de Irvin D. Yalom. Agora fiquei com mais vontade de ler os escritos de Schopenhauer; eu já tinha lido A arte de escrever, que achei belíssimo. Talvez eu vá atrás de O mundo como vontade e representação.


Conclusão: interessantíssimo para quem quer ler algo sobre psicoterapia ou filosofia. Nesse aspecto, recomendadíssimo.

17 setembro 2009

Quando Nietzsche Chorou, de Irvin D. Yalom

"Agora sei o que é assumir o controle de meu destino. É terrível e maravilhoso."

Quando Nietzsche Chorou Irvin D. Yalom

Hoje pelo início da tarde, após um grande debate que tive com o meu pai sobre a origem do Universo, eu finalizei a leitura do romance Quando Nietzsche Chorou (When Nietzsche Wept, 1992), escrito pelo eminente psiquiatra Irvin D. Yalom, norte-americano filho de imigrantes russos.

O livro foi o presente de aniversário que recebi do meu amigo Alfred, o padre alemão que estuda Psicanálise comigo na universidade.

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Sinopse: De férias em Veneza, o clínico-geral Josef Breuer encontra a jovem russa Lou Salomé, que lhe pede um favor excêntrico: tratar da depressão suicida de seu amigo Friedrich Nietzsche.

O que se estabelece entre ambos é uma relação na qual as funções de médico e paciente se confundem, pois Breuer encontra na filosofia de Nietzsche algumas respostas para suas próprias dores existenciais.

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As primeiras vinte ou trinta páginas do livro me empolgaram de verdade. "Parece ser realmente uma história muito boa", eu disse para a Natália, uma amiga minha que, assim como eu, é absolutamente aficcionada por literatura. "É mesmo?", ela retorquiu. "Sim", respondi, "pode ser uma boa maneira de mergulhar na filosofia de Fritz Nietzsche e na psicoterapia. Estou gostando do começo: há uma espécie de mistério envolvente."

Porém, quando cheguei à primeira centena de páginas, confesso que não me motivava mais tanto a idéia de pegar o livro novamente e lê-lo. Acho que o tempo escasso proveniente do absurdo de trabalhos na universidade atrapalhou muito a leitura, sim, mas a verdade é que perdi a empolgação subitamente. A trama do livro não conseguia mais despertar o meu interesse; o enredo, para mim, se tornou muito linear, pouco complexo, baseado apenas em extensos e por vezes enfadonhos diálogos entre Breuer e Nietzsche.

Além disso, o estilo narrativo da linhagem "best-seller" me desgostou um pouco. O ritmo da leitura então começou a se arrastar.

No entanto, outra guinada ocorreu de repente, desta vez para cima de novo, como no começo. À altura da página 200, mais ou menos, a trama começou a se intrincar e os personagens começaram a ganhar uma importância maior na história; de modo que a falta de ânimo que eu sentira no desenvolvimento foi compensada pelos momentos agitados do final do livro. E o resultado absoluto foi este: gostei muito, e o recomendo para qualquer pessoa que se interesse pelo assunto.

Tecnicamente, o que temos aqui é um romance que mistura realidade e ficção de uma maneira tal que, se não fosse pela nota do autor nas últimas páginas, não saberíamos precisar onde termina o fato e onde começa a imaginação. Lou Salomé, por exemplo, foi uma jovem que realmente existiu e que realmente se envolveu com Nietzsche, ao passo que o cunhado de Breuer, Max - que eu imaginava ter existido na realidade -, era fruto da criação do autor. Tendo essa confusão em vista, pode-se muito bem abandonar a tentativa de dizer o que é real e o que não é, e simplesmente curtir a história.

Uma coisa que eu achei bem interessante no livro foi ver o papel totalmente secundário de Sigmund Freud, o próprio fundador da Psicanálise. Os únicos momentos em que ele aparece são nas rápidas lições médicas com Breuer, dentro da biblioteca da mansão deste. No restante do enredo, o grande Freud praticamente não dá as caras, mas ainda é curioso ver que as formulações que ele tem com Breuer são a base do que mais tarde viria a ser seu estudo dos sonhos e do inconsciente.

Enfim, Quando Nietzsche Chorou é um ótimo romance. Apesar de ter me faltado ânimo no miolo do livro, devo dizer que isso não se deveu a alguma qualidade ruim da história, mas antes a uma exigência meio elevada da minha parte. É um livro bem didático, também: a explanação da Teoria do Eterno Retorno, por exemplo, é bastante clara e provocadora, e me fez pensar muito sobre as coisas.

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A seguir, um dos trechos do livro que têm relação com a Teoria do Eterno Retorno. Não sei se esta passagem surte o mesmo efeito tanto nas pessoas que não leram o livro, quanto nas que o leram.

"Cada vez que você escolhe uma ação, deve estar disposto a escolhê-la por toda a eternidade. O mesmo se dá com cada ação não realizada, cada pensamento natimorto, cada escolha evitada. Toda a vida não vivida ficará latejando dentro de você, invivida por toda a eternidade. A voz ignorada de sua consciência continuará clamando para sempre. (...) Este momento existe para sempre e você sozinho é a sua platéia."

(YALOM, Irvin D. Quando Nietzsche Chorou, página 306, editora Agir; 35ª edição.)