Pesquisar neste Blog

Mostrando postagens com marcador Leticia Wierzchowski. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Leticia Wierzchowski. Mostrar todas as postagens

14 março 2010

5 livros que eu li em 2009 e que você gostará de ler em 2010

Sei que já é meio tarde para eu escrever um tópico desse tipo, mas, mesmo assim, na falta do que postar aqui, vou listar a seguir 5 livros que li em 2009 e que recomendo sem ressalvas para serem lidos em 2010 – ou em qualquer outro ano, obviamente. São livros que me fizeram passar a noite acordado, lendo com avidez, e que, mesmo depois de terminados, ficaram ecoando pela minha cabeça durante muitos dias. Um livro assim precisa ser recomendado, não é mesmo?

Então, vamos lá. Vale ressaltar que a lista não segue uma ordem de preferência. (Odeio listar coisas por ordem de preferência, principalmente livros.)

~~

   Um Lugar ao Sol Erico Verissimo

1) Um Lugar ao Sol, de Erico VerissimoNaturalmente, meu escritor favorito não poderia deixar de figurar aqui. Tenho vontade de indicar mais de um livro seu nesta lista, mas, como isso soaria algo parcial demais, vou me conter. Portanto, indico somente este, que ainda é o meu preferido.

Um Lugar ao Sol dá prosseguimento à história iniciada em Clarissa e Caminhos Cruzados, mas, mesmo assim, não é necessário estar a par das obras anteriores para poder ler a obra presente, tamanha é a independência entre elas.

No romance em questão, temos uma trupe de personagens jovens lutando pela sobrevivência financeira na árdua Porto Alegre da década de 30: os primos Vasco e Clarissa, que vieram da pequena cidade interiorana de Jacarecanga; o casal Fernanda e Noel, espécie de Romeu e Julieta moderno; e mais uma miríade de personagens secundários ricamente elaborados, cujas tramas se entrelaçam ao longo do texto, que toma um rumo surpreendente.

Um Lugar ao Sol é o mais belo romance nacional que eu já li. E, por que não dizer, um dos mais belos do mundo.

~~

Jurassic Park Michael Crichton

2) Jurassic Park, de Michael Crichton – Na verdade, li esse livro pela primeira vez há muito tempo, quando criança ainda, mas reli-o oficialmente no ano passado, com uma mente muito mais amadurecida. Como todos sabem, a idéia central da história gira em torno da (trágica) visita de alguns cientistas à sombria Ilha Nublar, que é um território particular situado no litoral da Costa Rica, onde um ambicioso empresário recria dinossauros com a ajuda da tecnologia de manipulação genética e onde, futuramente, ele pensa em abrir um parque temático.

Longe de ser um enredo absurdo, Jurassic Park trata com assustadora verossimilhança uma idéia que, nos dias de hoje, ganha proporções cada vez mais factíveis. Este tecno-thriller é indispensável para os fãs de aventura e tecnologia.

~~

Kafka à Beira-mar Haruki Murakami

3) Kafka à Beira-mar, de Haruki MurakamiSegundo livro que li do japonês Murakami; fascinou-me totalmente, a ponto de eu virar uma noite lendo capítulo depois de capítulo, acompanhado por minha indefectível xícara de café. A história, originalíssima (embora inspirada livremente em uma peça de Sófocles, Édipo Rei), é contada através de uma narrativa elegante e precisa, além de poética, marca registrada do autor.

No romance, conhecemos Kafka Tamura, um menino de 15 anos que foge da casa do pai para trilhar os caminhos do mundo, em busca da mãe e da irmã, que o abandonaram ainda na infância. Na sua viagem, ele chega até uma biblioteca misteriosa que revelará, aos poucos, a sua identidade. A jornada do jovem Tamura encontrar-se-á inevitavelmente com a de Nakata, um homem idoso que adquiriu poderes sobrenaturais depois de um estranho acidente na infância.

Kafka à Beira-mar é um livro altamente recomendável, sem dúvida, para os amantes da literatura de qualidade.

~~

Os Aparados Leticia Wierzchowski

4) Os Aparados, de Leticia Wierzchowski – Ainda é de se admirar que tenhamos aqui nesta lista dois escritores nacionais, uma vez que até o ano retrasado eu considerava os autores brasileiros maçantes, por parecerem pretensiosos demais com os seus livros. Triste engano: alguns escritores do Brasil merecem ser levados muito, muito a sério.

Neste romance original (e quase profético, levando-se em conta as notícias dos últimos tempos), Wierzchowski narra a história de Marcus e sua neta, Débora, durante os primeiros meses que antecedem um fim de mundo paulatino. Enquanto cidades são submergidas pelas águas do mar e pessoas morrem ou desaparecem, Marcus leva Débora para um refúgio particular construído sobre as serras gaúchas. Lá em cima, longe do núcleo das catástofres naturais, ambos terão de rever a vida pessoal e lidar com questões afetivas difíceis e dramas familiares insistentes.

~~

Os Sobreviventes Piers Paul Read

5) Os Sobreviventes, de Piers Paul Read – Dotado de uma maestria poucas vezes vista no gênero romance não-ficcional (difundida pelo americano Truman Capote), Piers Paul Read narra em Os Sobreviventes a trágica história do time uruguaio de rugby que, em 1972, após fretar um avião que o levaria ao Chile, despencou em meio à Cordilheira dos Andes e por lá ficou 72 dias, antes de os sobreviventes serem resgatados.

Como numa bela ficção, Read mostra todo o contexto do acidente, a angústia dos familiares dos jovens jogadores de rugby e os esforços desesperados que fizeram para tentar resgatar a equipe o quanto antes das gélidas cordilheiras; tudo isso além de detalhar todos os 72 dias passados nas montanhas.

Outro livro altamente recomendável, sem dúvida.

02 dezembro 2009

Os Aparados, de Leticia Wierzchowski

“Deus salvou o homem uma vez, mas a descendência de Noé não fez valer tal honra. Agora Deus perdeu a paciência.”

Os Aparados  Leticia W.

Hoje pela manhã, antes de começar a estudar alguns pontos de Análise do Comportamento que ficaram faltando, finalizei a leitura do romance nacional Os Aparados (2009), escrito pela gaúcha Leticia Wierzchowski, autora também do tão famigerado A Casa das Sete Mulheres.

~~

Sinopse (Record): Em um tempo não identificado, num mundo em agonia e totalmente alagado, personagens inesquecíveis vivem uma trama inquietante – e cheia de surpresas. Para proteger a neta adolescente – grávida de 7 meses – das catástrofes naturais que assolam a cidade grande, Marcus decide levá-la para um lugar afastado, no alto das serras gaúchas. Lá, o frágil relacionamento de avô e neta será testado, e os dois terão que aprender a ceder para sobreviver em um mundo à beira do caos.

~~

O livro possui 240 páginas e eu as li em três dias, o que é um grande feito. E poderia tê-las lido em menos tempo ainda, dois dias talvez, mas acabei estendendo em três mesmo por causa de uma esquisita e inesperada visita que recebi aqui em casa. De qualquer modo, quero dizer que, quando é lido em um fôlego só, Os Aparados fornece um excelente e empolgante entretenimento, tão empolgante que faz você virar página depois de página em um ritmo que nem percebe.

Os Aparados é tratado, desde o início, como uma história de fim de mundo. Mesmo assim, o leitor não pode se precipitar e esperar encontrar um livro em que catástrofes naturais medonhas são narradas, como ondas imensas inundando cidades inteiras, carros sendo arrastados pelas ruas e gente morrendo sem parar, à la 2012. Não. Se fosse para relacioná-lo com algum tipo de filme, eu diria que Os Aparados se parece bastante com Sinais, de M. Night Shyamalan. Os personagens são pouquíssimos, a trama é linear e – o que torna o livro original – o teor dramático, humano, é bem acentuado e restringido, ocupando o lugar da tragédia coletiva, tão comum nas histórias do gênero. Além de tudo, tal como em Sinais, em Os Aparados os personagens só têm contato com as catástrofes que acontecem lá fora através de noticiários dados na televisão.

No mundo lá em cima, nas serras gaúchas, enquanto Porto Alegre submerge lentamente nas águas do Guaíba, Marcus e Débora (os dois protagonistas) vivem seu drama dentro das quatro paredes do sítio isolado. Lá, embora o efeito das catástrofes quase não se faça notar, o que está em jogo é a relação avô/neta, uma relação frágil que revela um abismo entre os dois.

Uma das coisas que chamam a atenção em Os Aparados é a quantidade de elementos tecnológicos/modernos na história. Aliás, a tecnologia lá assume um papel crucial, principalmente para o personagem Arthur Medelli. Não se vê muito isso nos livros, essa coisa de colocar as pessoas usando laptops toda hora, iPods, sites de busca e até mesmo Orkut (ele é rapidamente mencionado em uma das páginas). Antes eu era um pouco avesso a essa idéia, mas agora vi que essa inserção de tecnologia popular na literatura pode ser bem aproveitada.

Bem, posso dizer que gostei muito do livro. Muito, mesmo. É um romance de história fácil, frugal, mas que faz o leitor pensar nas conseqüências do enredo. Os personagens ficam na mente por alguns dias, o que é agradável. E o suspense é sempre levado com habilidade através das páginas.

Os Aparados não é um livro pretensioso, mas eu já soube que em breve vai virar filme (aliás, ele já foi escrito com base no pedido de uma produtora de marketing). Tudo bem. A história tem um excelente potencial para o cinema. Se cair nas mãos de um diretor e de um roteirista competentes, pode se transformar em um muito agradável longa-metragem.

P.S.: A primeira coisa que eu me perguntei quando vi a capa do livro, ainda empoleirado na estante da livraria, foi: O que essa chave tem a ver com a história? Terminei a leitura e até agora não sei. A única explicação que tenho, e que acho mais coerente, é a de que a silhueta do corte da chave remete à silhueta das montanhas gaúchas. E, ainda, que o nome aparados, que remete ao nome das serras, lembra o modo como as chaves são feitas.

Aceito mais sugestões.

~~

Abaixo, um trecho interessante que destaquei.

“Ele se afasta pensando que tem que fazer alguma coisa. Sem saber para onde ir, segue no rumo do pomar. (…) Ele caminha pelo terreno íngreme, afundando os pés na terra fofa e úmida. Está nervoso. Não pode simplesmente ficar ali parado à espera de que os acontecimentos sigam seu rumo. Vai chover outra vez. Mais terra vai cair, isolando o alto da montanha: ele e a neta ficarão separados do mundo. É engraçado, foi isso o que sempre quis, sair do mundo. (…) Aquele mundo lá de baixo não serve mais, está podre, doente, exaurido. E, agora que aconteceu, sente medo. Este pequeno universo que criou é tão frágil quanto todo o resto.” (p.159)

~~

WIERZCHOWSKI, Leticia. Os Aparados. Rio de Janeiro/São Paulo: Record. (2009)