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05 março 2014

Rio de fumaça, de Amitav Ghosh

"É um pecado entre nós faltar com a palavra para com aqueles cujo sal comemos". (p. 507)

115870647SZ Amitav Ghosh Credit Jerry Bauer

Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir sinceras desculpas aos leitores deste blog pelo tempo exageradamente longo que passei sem publicar uma única resenha. Aconteceu o contratempo de sempre, do qual inclusive já me desculpei em outras ocasiões: faltou-me tempo e, não minto, alguma disposição para atualizar o Gato Branco. Além disso, no meu cotidiano, a boa literatura ficcional andou perdendo espaço para a leitura obrigatória de livros técnicos da faculdade. Suplico à Providência que jamais chegue o dia em que os ensaios acadêmicos e os artigos científicos obstruam totalmente minha dedicação à literatura.

O fato é que, hoje, estou aqui para comentar sobre um magnífico livro que li há mais de três meses e do qual guardo ainda saborosas impressões. Trata-se de Rio de fumaça (River of smoke, 2011), do escritor indiano Amitav Ghosh, um dos meus autores contemporâneos favoritos desde que li seu ótimo Maré voraz – que aborda o singular encontro entre uma jovem bióloga e um intérprete de negócios no coração de um arquipélago esquecido do Índico.

Rio de fumaça é a continuação direta de Mar de papoulas e o segundo volume da Trilogia Ibis, que Ghosh concebeu para contar a história do panorama político, econômico e social da Baixa Ásia durante o século XIX. Para isso, o autor criou personagens pitorescos que atravessam a trilogia e vivem os desdobramentos da movimentada vida urbana e marítima daquela época – como é o caso do marinheiro Zachary, do magnata Neel e da jovem Paulette, só para citar alguns exemplos.

As lacunas deixadas na trama e o destino incerto de todo mundo no final do primeiro romance dão margem a grandes aventuras a serem narradas em Rio de fumaça. Ciente da qualidade de Ghosh como escritor e refém da ânsia de reencontrar os antigos personagens, adquiri imediatamente o segundo livro da trilogia, assim que ele foi lançado.


Sinopse: Rio de fumaça é um livro grandioso, que capta um momento crucial na história da expansão do comércio marítimo – o tráfico do ópio na China no século XIX e seus desdobramentos mundiais. As relações entre as diferentes nações, que podem definir o futuro econômico do Império Britânico, as guerras pelo controle das rotas e o romances proibido entre um indiano e uma chinesa são os fios desta trama.


Entre 1839 e 1860, o sul da China foi palco de uma das guerras que melhor ilustram a força da ganância humana em assuntos de comércio internacional – e que revelam como essa ganância pode sobrepujar o bom-senso e levar nossa civilização à barbárie.

Servindo-se do argumento do Livre-Comércio (segundo o qual toda e qualquer relação comercial é válida, desde que a demanda pelo produto seja espontânea), os comerciantes britânicos tutelados pela Companhia das Índias Orientais insistiram em exportar ópio para a China, contrariando as leis proibitivas do então Império Chinês, que impediam a entrada da droga no continente no início do século XIX.

Na época, Cantão era o único porto da China aberto a comerciantes estrangeiros. Desde o fim das guerras napoleônicas, a Europa expandia sua política de exportação até o Extremo Oriente – e a China, já com uma das maiores populações do mundo, constituía um mercado consumidor bastante chamativo. Muito cedo descobriu-se que o ópio, essa pesada droga entorpecente derivada da papoula, era um produto adorado por grande parte da população local. Valendo-se de técnicas de contrabando que permitiam a entrada clandestina do ópio no país, os comerciantes europeus desafiaram as leis do imperador chinês e continuaram a realizar o comércio por baixo dos panos, ainda que isso significasse a degradação e a perdição dos que consumiam o produto.

Finalmente, chegou o momento em que essa realidade nociva não poderia mais ser ignorada pelas autoridades locais. A ira do imperador e dos comissários chineses contra os comerciantes estrangeiros foi tal que, em 1839, após vários alertas, o governo local apreendeu e queimou cerca de 20 mil caixas de ópio, propriedade dos britânicos. Aconteceu que a Inglaterra não tolerou o aparente abuso de poder chinês, que ia contra as leis "naturais" do Livre-Comércio, e declarou guerra à China.

Hoje, esse episódio é conhecido como as Guerras do Ópio.

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Rio de fumaça utiliza este complexo e tenso pano de fundo histórico para desenvolver a sua trama – ela própria complexa e cheia de tensão. Além de instruir o leitor e ensiná-lo sobre o passado, Ghosh consegue arrebatá-lo para a narrativa que está sendo desenrolada: consegue fazer com que nos importemos com o destino de comerciantes estrangeiros, de políticos locais e de impérios inteiros. De todos os romancistas históricos que povoam minha estante, Ghosh certamente consegue ser o mais fascinante e inventivo.

A Trilogia Ibis representa não somente um vasto painel sócio-histórico de praticamente todo o Oceano Índico durante o século XIX, mas, também, representa uma mudança de estilo na obra do próprio autor: menos conservador na estética, Ghosh agora abre mão de travessões e, quando não utiliza aspas, simplesmente joga os diálogos em meio ao texto – tal como Cormac McCarthy, por exemplo. Isso confere à sua escrita uma dinâmica e uma criatividade que convêm às sutilezas da trama de seus romances recentes, como é o caso de Rio de fumaça.

(Gosto de falar sobre a escrita de Ghosh porque, para mim, ela é um destaque do autor. Sempre clara, fluida e muito agradável, a sua prosa conduz o leitor a eventos e personagens que, nas mãos de outro, poderiam soar terrivelmente enfadonhos. Em Rio de fumaça temos uma escrita primorosa, leve e capaz de entreter um vasto público: e nas mãos de Ghosh as Guerras do Ópio e todo o seu subtexto político e econômico parecem uma grande aventura, e não uma aula maçante de História.)

Neste segundo livro da trilogia, o leitor é informado de alguns detalhes que ficaram em aberto no final de Mar de papoulas, quando o navio Ibis se encontrava em meio a uma tempestade e uma espécie de rebelião interna. Após uma surpreendente e fascinante abertura nas Ilhas Maurício, a narrativa passa para a jornada dos navios mercantes carregados de ópio rumo a Cantão, cidade onde, depois, se desenrola basicamente toda a trama principal.

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Prolixo sem ser cansativo, Ghosh descreve em detalhes a vida nesta cidade portuária de meados do século XIX, quando os estrangeiros eram proibidos de entrar no continente propriamente dito e ocupavam o chamado Enclave Estrangeiro – ou Fanqui-town, um pedaço de terra litorâneo de onde não poderiam sair. A descrição desse lugar se dá principalmente através das palavras do personagem Robin, que envia cartas extensas à sua amiga de longa data, Miss Paulette (a mesma jovem de Mar de papoulas pela qual me apaixonei). Robin é uma espécie de contraponto cômico e original na história, e sua juventude transborda em empolgação e sede de viver o curioso mundo no qual se encontra.

Todos os personagens apresentados ao longo do livro estão ligados entre si através de várias conexões novelescas (algumas delas um pouco forçadas, vamos admitir) que unem as histórias passadas e os destinos dessas pessoas. Dentre tais personagens está Ah Fatt, que no primeiro livro da trilogia ocupou um lugar à margem e, agora, é explorado às fartas, revelando toda uma interessante história de amor, fidelidade e abandono. A propósito, é curioso notar que o personagem principal de Rio de fumaça é o pai de Ah Fatt, alguém que jamais imaginamos que poderia ocupar tal lugar central no segundo livro.

Com um universo exótico tão repleto de personagens dos mais variados tipos, Ghosh exercita este que é um de seus maiores apetites: a polifonia. Romance narrado em terceira pessoa, mas cheio de vozes que emergem do texto com suas próprias particularidades, Rio de fumaça constitui uma espécie de colagem que se assemelha a um quebra-cabeça fácil de montar: não é difícil estabelecer as conexões entre os personagens e os eventos da trama, mas essas conexões só poderão ser feitas a partir dos diferentes narradores que compõem o estofo da obra – e com o necessário mergulho do leitor. O mais notável desses narradores certamente é o jovem Robin, que mencionei mais acima: a fim de apresentar a cidade de Cantão para Paulette, este alegre pintor (com seu estilo afetado e cômico) escreve à moça cartas nas quais mostra o seu entusiasmo com a cidade e atualiza algumas fofocas políticas.

Dinâmico, ambicioso, denso e surpreendente, Rio de fumaça reflete o esforço de um autor que faz uma meticulosa pesquisa bibliográfica e mescla fatos verídicos com uma trama envolvente. Premiadíssimo ao longo de sua carreira, Amitav Ghosh consolidou um reconhecimento internacional e firmou-se como uma das autoridades mais respeitadas em ficção histórica na literatura contemporânea.

05 fevereiro 2012

Mar de papoulas, de Amitav Ghosh

"Era normal, nesses tempos, ser tão pródigo sem um motivo oculto?" (p. 198)

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Um autor que pretende escrever um romance que traga ao leitor, ao mesmo tempo, um denso contexto histórico-político-cultural e uma boa dose de entretenimento e aventura (de modo que nenhuma das duas partes saia perdendo), esse autor precisa ter uma imaginação muito fértil e um bom-senso geral que não é reservado a todos os escritores. Em todos os aspectos, é um trabalho admirável, porque o leitor não só é presenteado com uma história cheia de bagagem intelectual, como também toma parte em grandes aventuras, cheias de ação e suspense.

Foi por esse talento perspicaz que o suplemento literário do The Observer comparou o indiano Amitav Ghosh aos célebres Alexandre Dumas, Liev Tolstói e Charles Dickens; segundo o jornal, Ghosh possui o viés aventuresco do francês, a penetração psicológica do russo e o apelo emocional do inglês. Isso tudo por conta do romance Mar de papoulas (Sea of poppies, 2008), primeiro volume da ambiciosa "trilogia do Ibis", que se propõe a mergulhar o leitor no conturbado comércio do ópio perpetrado nas Índias Orientais do século 19.


Sinopse: É um romance épico, cujo pano de fundo são as guerras do ópio na China e no Extremo Oriente do século XIX. Ele narra a jornada do navio Ibis – uma embarcação inglesa que se envolve no perigoso comércio do ópio com a China – e sua inusitada tripulação, formada por oficiais ingleses, um americano mestiço, escravos libertos, fugitivos e condenados – cada qual com suas ambições e seus dramas pessoais. Ghosh descreve desde as dificuldades dos plantadores de papoula na Índia – com sua tradição e seus amores proibidos - até as lutas e os desejos dos inusitados tripulantes do navio.


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Amitav Ghosh é conhecido no mundo inteiro pela sua extrema dedicação ao contexto histórico em que suas histórias estão inseridas. Invariavelmente, ele passa vários anos estudando um assunto antes de escrever sobre o que quer que seja – e seu interesse já foi dos conflitos políticos na Birmânia ao exótico arquipélago das Sundarbans. No caso do romance em questão, consultando os mais diversos estudiosos, cronistas, linguistas e pesquisadores, Amitav reconstruiu a Índia da metade do século 19, imersa no mais exploratório mercado colonialista britânico. Lugares, costumes e eventos são tão fielmente retratados que é impossível não se deixar impressionar pela riqueza de detalhes que o autor se dispõe a relatar. A densidade desse contexto é tão profunda que faz de Mar de papoulas não só um romance, mas também uma espécie de documento histórico.

É comum achar que o excesso de detalhes factuais torna um livro enfadonho e monótono, porque não dá margem à criação de personagens envolventes e enredos originais. Isso não é verdade, principalmente quando o nome de Ghosh está no meio. Sua imaginação é tão larga e inventiva que, não raro, o leitor se surpreende com os caminhos que seus enredos geralmente tomam. Sua capacidade para envolver é muito grande, e mesmo nas passagens mais densas (que em Mar de papoulas não são muitas, aliás) nós somos levados a acompanhar o que ele escreve com o maior dos entusiasmos. Tudo o que passa pela pena do indiano parece se transformar em algo incrivelmente atraente.

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Esse talento de Ghosh em envolver o leitor nos mais diversos assuntos tem uma explicação: sua escrita. Dotada de uma beleza que não é comum de encontrar nos autores anglo-indianos, ela possui uma espécie de técnica característica do autor: sempre clara, sempre cristalina, sem hermetismos, sem turvar as suas águas para sugerir profundidade. Amitav Ghosh é um autor que sempre procura se fazer entender, e é isso o que o torna tão envolvente em muitos aspectos. Nada de meias-palavras, nada de buracos na trama; tudo é dito e explicado da maneira mais elegante possível, o que não deixa de pôr o leitor para pensar em muitas passagens.

A propósito, em Mar de papoulas Amitav Ghosh adquiriu um hábito que pode irritar alguns leitores: embora sua escrita seja lúcida e fluente, no livro ele não hesita em colocar uma centena de verbetes nativos entre os personagens, e nem sempre esse vocabulário excêntrico vem acompanhado de uma explicação, de modo que resta ao leitor pesquisar na internet ou tentar seguir adiante. A presença dessas palavras obscuras não interfere no andamento geral da história, necessariamente, mas pode ocasionar muitas paradas na leitura no caso dos leitores que não gostam de deixar nada passar batido. Para o bem ou para o mal, a verdade é que esses vernáculos só tornam a história mais verossímil e fascinante ainda.

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Ao longo do livro, somos apresentados a uma galeria de personagens tão díspares quanto originais, que amamos ou odiamos, dependendo de quais são as suas motivações e interesses. Particularmente, me afeiçoei muito à personagem Paulette Lambert, uma adolescente de origem francesa que nasceu em Calcutá e que é filha de um botânico amante de Rousseau. Existe algo de extremamente cativante em sua inocência, que aos poucos dá espaço a um amadurecimento mais perceptível, na medida em que o livro prossegue. Também gostei muito de Kalua, um simplório camponês que começa a história ganhando a vida como transportador de pessoas da aldeia para a cidade.

Ainda que seja dinâmico e fluído em sua linguagem e em sua história, acredito que o livro deva ser lido da maneira mais devagar possível; só assim somos capazes de assimilar a maior parte dos detalhes, a atmosfera e as sutilezas presentes na obra. É um livro apaixonante, sem dúvida, desde o capítulo inicial até a última linha: o tipo do romance que deixa uma espécie de saudade no leitor, fazendo-o rememorar constantemente determinadas cenas e diálogos. Finalmente, pela primeira vez na vida, posso dizer que estou ansioso pelo próximo título de uma trilogia que ainda está sendo escrita.


Mar de papoulas foi finalista do prestigiado Booker Prize, tendo sido eleito um dos melhores livros do ano pelos jornais The Washington Post, Economist e San Francisco Chronicle.


Mar de papoulas (2008)

Amitav Ghosh

536 páginas

Editora Alfaguara

Nota: 10/10

16 janeiro 2011

5 livros que eu li em 2010 e que você gostará de ler em 2011

Agora que eu estou ouvindo Bob Dylan, meu espírito se soltou, se desprendeu de todos os preconceitos e me sinto apto – de corpo e alma – a listar as minhas leituras preferidas do ano passado.

A cada ano, faço aqui no blog uma pequena lista dos melhores livros que li nos últimos 12 meses. É sempre uma tarefa penosa, como podem imaginar, escolher cinco dentre tantas boas leituras; mas, seguindo as antigas conclusões de Darwin, faço questão de que as mais destacadas prevaleçam.

Então, vamos lá. Embora estejam numeradas, as indicações não seguem nenhuma ordem de preferência.


1) À espera de um milagre, de Stephen King

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Envolvente, elegante, belíssimo, misterioso e, como quase todas as obras de King, sobrenatural. Estamos falando de À espera de um milagre, tido pelo Boston Globe como a conjugação de tudo o que existe de melhor nos livros de Stephen King.

Neste romance, acompanhamos o drama de Paul Edgecombe, o chefe dos guardas de uma ala penitenciária onde ficam os condenados à cadeira elétrica. A cruel, mas normal, rotina de Paul e seus colegas de trabalho muda quando chega à ala um gigante negro de nome John Coffey – portador de uma assombrosa habilidade, a de curar doenças irreversíveis somente usando as mãos.

Reflexões sobre morte, velhice, justiça e até mesmo amor são inevitáveis. Um livro emocionante e cativante.


2) Não há silêncio que não termine, de Ingrid Betancourt

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Última ótima leitura de 2010. Não há silêncio que não termine é o relato pessoal de Ingrid Betancourt sobre o seu penoso cativeiro de quase 7 anos nas mãos das Farc – Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia.

Seqüestrada por motivos políticos, Ingrid passou fome e sofreu grandes humilhações, vivendo em condições humanas precárias como prisioneira na selva amazônica. Narrado em forma de thriller de aventura (e aí está o diferencial da obra), o livro é um convite à reflexão sobre as questões sociais que afligem o continente sul-americano.

Com uma linguagem belíssima e poética, clara e contundente, Ingrid mostra aos seus leitores que, mesmo em condições de extrema penúria, a esperança é a última que morre. E, tal como Nando Parrado, nos mostra que o oposto da morte não é a vida, mas o amor.


3) Templo, de Matthew Reilly

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Aqui está um tipo de livro de aventura que eu não via desde a época antiga de Michael Crichton. Aliás, como disse um conceituado jornal americano (que agora esqueci o nome), "Reilly é o Michael Crichton da Austrália".

Pois bem. Templo é um thriller despretensioso que tem como personagem principal um jovem professor de latim, William Race, chamado às pressas para compor uma equipe organizada pelo governo. Missão: seguir as instruções de um manuscrito lendário e, assim, encontrar um ídolo perdido na selva inca, ídolo esse talhado em uma pedra que possui uma substância propícia à construção de uma arma de destruição global, etc. E isso deve ser feito antes que um grupo neo-nazista ponha as mãos no artefato.

No entanto, à medida que a aventura se desenrola, Race percebe que o governo americano está de sacanagem e lhe esconde alguma informação importante.

Mesmo com essa sinopse clichê e tendenciosa, Templo é um livro que vale a pena por causa da história divertidíssima. Entretenimento garantido, cheio de reviravoltas, suspense e surpresas…


4) Quando só restar o mundo, de Mauro Pinheiro

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Desiludido com o trabalho e com as pessoas, deprimido por ter sido abandonado pela namorada que caiu na estrada e foi embora para a Bahia, Pedro Paulo pede demissão do emprego de corretor financeiro e embarca numa jornada de carro através do Brasil.

Seu objetivo, inicialmente, é sair do Rio de Janeiro e reencontrar Dalva, a ex-namorada que fugiu para a Bahia; acontece que, durante o percurso, Pedro Paulo conhece Serena, uma atraente mulher que vaga pelas estradas com o filho pequeno e que tem um passado misterioso. A partir desse encontro com Serena, a história do protagonista toma um novo e surpreendente rumo.

Quando só restar o mundo é a afirmação da maturidade artística de Mauro Pinheiro, autor elogiado por Antônio Houaiss e que traz em seus livros sempre um viés poético e filosófico, além de um vasto panorama do território brasileiro.


5) O Palácio de Espelho, de Amitav Ghosh

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Mestre consumado em evocar épocas e civilizações passadas, Amitav Ghosh escreveu O Palácio de Espelho a fim de contar, em forma de romance, todo o processo que levou a Birmânia, a Índia e a Malásia à modernidade, abarcando um período que vai desde o final do século XIX até meados dos anos 2000.

É difícil traçar uma sinopse precisa desta monumental e ambiciosa obra, porque são várias as histórias que regem o enredo. Mesmo assim, o eixo central parece girar em torno do personagem Rajkumar Raha. O livro tem início com Rajkumar ainda criança, já órfão, trabalhando na casa de uma senhora na Birmânia. É aí nesse país que ele, por acaso, entra em contato com Dolly, uma bela pajem da rainha.

Depois que a Grã-Bretanha ocupa a Birmânia e Dolly é obrigada a acompanhar a Família Real no exílio à Índia, Rajkumar adere ao crescente negócio de exportação de madeira, se torna um homem rico e, nunca tendo esquecido seu amor de infância, parte em busca de Dolly.

Dono de uma linguagem com clareza primorosa, Ghosh consegue transformar um romance épico romântico em algo extremamente interessante e rico, perfeitamente explorado por todos os lados, recheado de detalhes históricos.


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O Cubo de Rubik solucionado, enfim! (Foto tremida, eu sei)


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Cubo de Rubik, estante nacional e o pingüim natalino que perdeu o chapéu


É isso! E que venham ótimas leituras em 2011! Aliás, este é um ano que promete coisas boas… Mar de papoulas, Latitudes piratas e, provavelmente, algum romance de Haruki Murakami traduzido pela Alfaguara.

E um Feliz Ano-Novo atrasado para todos! :P

26 junho 2010

O Palácio de Espelho, de Amitav Ghosh

"Uma vez conquistada, sua lealdade era dada com sinceridade, sem nenhuma daquelas condições não-expressas com que as pessoas geralmente se protegem da traição." (p. 57)

O Palácio de Espelho Amitav Ghosh

Aproveitando que a tarde de hoje estava silenciosa e fria, ótima para se sentar em uma poltrona, eu finalizei a leitura do romance épico O Palácio de Espelho (The Glass Palace, 2001), escrito pelo indiano Amitav Ghosh, autor também dos livros Maré voraz e O Cromossomo Calcutá.

Adorei. Simplesmente não conseguia desgrudar os olhos das páginas. Como diria um jornalista do suplemento The Times: "De tirar o fôlego. Não consigo imaginar outro escritor contemporâneo com quem seria tão estimulante ir tão longe."

Sendo assim, hoje eu não posso deixar de escrever uma resenha relativamente grande…

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Sinopse: Romance épico do indiano Amitav Ghosh, O Palácio de Espelho segue os passos de um menino órfão e pobre, Rajkumar Raha, surpreendido em meio à invasão britânica da Birmânia, em 1885. Às vésperas da expulsão da Família Real birmanesa, o menino se descobre apaixonado por uma bela pajem da rainha. Numa arrebatadora história de amor e guerra, a trama acompanha a trajetória de três famílias cujos destinos se entrelaçam, numa saga familiar que nos transporta a culturas distantes e nos transforma em testemunhas do fim da monarquia birmanesa e da ascensão e queda do império britânico.

NOVO! Leia capítulos do livro aqui neste link.

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Como eu já disse anteriormente, em resenhas passadas, Ghosh é um dos meus escritores preferidos, desde que o descobri no início do ano através do ótimo Maré voraz. Ele é dono de uma linguagem cristalina, refinada, poética e profunda (sim, todos esses adjetivos juntos) e, além disso, detém um poder imaginativo fora de série.

A trama que ele constrói e desenvolve em seus livros é sempre tão verossímil, tão coesa e ao mesmo tempo tão densa, que é como se ele já soubesse desde a primeira página tudo o que quisesse colocar nas próximas – como se a história já viesse previamente montada em sua cabeça e ele apenas a passasse para o papel. Seus personagens têm vida própria e quase ouço as vozes dos diálogos vindo do livro; quanto às paisagens narradas e os lugares evocados, quase os vejo diante dos meus olhos.

Existe ainda uma característica peculiar muito interessante presente nas obras desse indiano, pelo que eu pude perceber: todos os seus livros baseiam-se em extensos episódios históricos, e o que conduz a trama em larga medida são esses eventos verídicos que ocorreram em algum lugar do planeta, em algum momento da história da humanidade. No caso de O Palácio de Espelho, esse episódio histórico é a invasão britânica à Birmânia, no final do século XIX; o sucessivo sistema colonial; a Segunda Guerra, anos depois; e, por último, a ditadura implantada em Myanmar.

Porque a história se passa em vários lugares exóticos e diferentes (Índia, Birmânia e Malásia principalmente), não consigo imaginar os romances de Amitav Ghosh sem um mapa. Certamente a maioria dos seus leitores também não, e é por isso que o autor sempre nos brinda com um mapa bem legal no início de todos os seus romances. Eles são de uma necessidade mesmo enorme; sem eles, eu me perderia facilmente na geografia complicada daqueles países do sul da Ásia. Eu sempre parava a leitura quando surgia um nome de cidade desconhecido, para então recorrer ao tal mapa. Aí está o dito cujo:

Mapa que acompanha o livro

O enredo de O Palácio de Espelho é bem grandioso e detalhado, embora na sinopse da contracapa as editoras foquem apenas a questão do romance entre Rajkumar (personagem principal?) e Dolly, a fiel e belíssima pajem da Rainha. O escopo é muito maior do que o que essa história de amor aparenta oferecer; na verdade, ela é tratada apenas nas primeiras das sete partes. Depois, o livro toma outros rumos. Antigos dramas chegam ao fim e novos conflitos surgem, para serem resolvidos mais tarde, quando então novas tramas surgirão.

Aliás, esta é uma das melhores sensações que temos quando lemos um livro longo: sentimos o tempo passando, o peso das decisões, as personagens amadurecendo, as coisas ao redor sumindo e se transformando. Lembramos dos episódios passados já com certa saudade, nos simpatizamos com personagens, sentimos profundamente a perda de alguém. E os episódios narrados às vezes se situam tão distantes um do outro que nos pomos a pensar: "Como fulana era tola nessa época!" ou "Nossa, beltrano nem imaginava que isso poderia acontecer mais lá na frente!"

O Palácio de Espelho também se torna um romance particularmente interessante porque possui várias passagens surpreendentes. Ghosh é bom em dar reviravoltas e em espantar seus leitores. Fiquei muito surpreso nos momentos finais do livro, diga-se de passagem. Muito bons.

Curioso… navegando agora pela Internet, eu descobri umas fotos de Daw Aung San Suu Kyi, uma ativista política extremamente influente em Myanmar (por sinal, recebeu o Nobel da Paz em 1991). Ela aparece em uma passagem de O Palácio de Espelho, e seu discurso é ouvido na ocasião por duas personagens.

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Curiosidade: a música Walk On, do U2, foi feita em homenagem a ela.

Infelizmente, o autor de O Palácio de Espelho é pouco difundido aqui no Brasil, e os seus livros sequer chegam ao conhecimento do público como um todo. Tiro por mim: se não fosse o acaso, eu jamais entraria em contato com Maré voraz.

Conclusão: Amitav Ghosh é um escritor genial, e O Palácio de Espelho é, com certeza, a sua obra-prima. Não é apenas um livro que você lê: é um universo no qual você mergulha.

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Abaixo, um trecho que descreve a ditadura de Myanmar:

"A cada ano os generais pareciam ficar mais poderosos, enquanto o resto do país se enfraquecia; os militares eram como íncubos, sugando a vida de seu hospedeiro. (…) morreu na prisão de Insein, em circunstâncias que não foram explicadas. Seu corpo foi levado para casa com marcas de tortura e a família não teve direito a um enterro público. Um novo regime de censura foi instalado, desenvolvido a partir dos alicerces do sistema deixado pelo velho Governo Imperial. Todo livro e revista tinha de ser apresentado a um Comitê de Exame de Imprensa para ser lido por um pequeno exército de capitães e majores." (p. 558)

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Por fim:

Aí embaixo eu relacionei um vídeo caseiro do Youtube, que faz uma propaganda colorida do mais novo romance do autor, Mar de papoulas. Uma vez que o vídeo é português lusitano, o título aparece como Mar de papoilas. Como todos os outros livros de Ghosh, este recebeu vários elogios dos mais diversos periódicos literários do mundo. Vale conferir.

(Lembramos que Mar de papoulas será lançado aqui no Brasil pela Alfaguara, com data prevista para fevereiro de 2011. Informação exclusiva!)

29 março 2010

O Cromossomo Calcutá, de Amitav Ghosh

“(…) o único modo de escapar da tirania do conhecimento é voltá-lo para si mesmo.” (p. 275)

O Cromossomo Calcutá Amitav Ghosh

Hoje pelo início da manhã eu finalizei a leitura do romance O Cromossomo Calcutá (The Calcutta Chromosome, 1996), escrito pelo indiano Amitav Ghosh e vencedor do Prêmio Arthur C. Clarke, nos Estados Unidos. Ghosh passou a infância em Bangladesh e Sri Lanka, estudou em Nova Délhi e Oxford e atualmente é professor em Colúmbia, Nova York.

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Sinopse: Na Índia devastada pela malária do final do século XIX, cientistas ingleses se mobilizam em busca da cura para a terrível doença. À frente está o médico militar Ronald Ross, que por seu trabalho receberia o Nobel de Medicina em 1902. Enquanto pesquisa, Ross torna-se vítima de uma seita de fanáticos religiosos interessados em desvendar os segredos de uma desconhecida e surpreendente mutação genética que está ligada à doença e que promete a imortalidade da alma.

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Impulsionado pela qualidade extraordinária do romance Maré Voraz (o qual ganhou a honra de figurar como destaque do mês aqui no Artigos Efêmeros), eu fiquei com uma insaciável vontade de adquirir outros títulos do autor. Ghosh é dono de uma escrita cristalina e atraente ao extremo, e suas histórias são verdadeiras amostras de como a imaginação de alguém pode ser livre, poderosa e estonteante.

Infelizmente, aqui no Brasil existem apenas três livros seus traduzidos para o português: Maré Voraz, O Cromossomo Calcutá e O Palácio de Espelho. Este último livro, inclusive, é um verdadeiro tijolão, uma espécie de monumento editorial mesmo, e talvez seja por isso que eu ainda esteja avaliando-o melhor. Afinal de contas, não seria agradável comprar um livro caríssimo, gigantesco, para depois se decepcionar.

De qualquer modo, seria difícil se decepcionar com Amitav Ghosh. Em O Cromossomo Calcutá, por exemplo, o autor revela uma qualidade interessante que poucos outros escritores  conseguem apresentar quando se trata de expor um assunto árido e de difícil compreensão: clareza. Esse é o trunfo de Ghosh, a sua característica mais diferenciadora. Percebe-se o cuidado e a preocupação que ele tem em não deixar o leitor “boiando” enquanto lê; toda passagem que exige uma explicação mais exigente é escrita de modo claro, limpo e interessante. O resultado disso é que você não se perde em nenhum momento da trama.

Mesmo assim, é fácil perceber por que a maioria dos leitores não apreciou o romance. O enredo de O Cromossomo Calcutá beira o delírio literário. Ghosh realmente pôs sua imaginação para correr solta, e isso é evidente quando o livro vai avançando e tomando proporções assustadoras. Não é uma história nem um pouco convencional. Aliás, é muito diferente de tudo o que eu já tinha lido até hoje. Achei-a de fato originalíssima e surpreendente, além de muito imaginativa. Vale a pena os fãs de ficção científica e suspense darem uma olhada. No entanto, que a ressalva seja feita: prepare-se para um livro totalmente fora do padrão imaginado.

Particularmente, eu adorei o livro. Embora o final tenha deixado um pouco a desejar (é confuso e abrupto), todo o desenvolvimento da história compensa, na minha opinião. Personagens e acontecimentos que parecem não ter nenhuma importância na trama vão ganhando um papel cada vez mais proeminente, e isso é muito interessante.

Só como comparação, O Cromossomo Calcutá lembra muito os romances iniciais de Michael Crichton: ficção científica e suspense mesclados em uma trama em que não se sabe onde termina a realidade e onde começa a fantasia.

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Abaixo, transcrevo um pequeno trecho do livro que achei interessante, embora não tenha trazido nenhuma revelação para mim (era algo que eu já sabia):

“Os biólogos sofrem uma pressão muito grande para que suas descobertas acompanhem as ideologias políticas. Os políticos de direita querem que eles descubram os genes responsáveis por tudo, desde a pobreza até o terrorismo, a fim de obter um álibi para castrar os pobres ou jogar uma bomba nuclear no Oriente Médio. Já a esquerda fica em pé de guerra se disserem qualquer coisa, não importa o quê, sobre expressão biológica de características humanas (…)” (p. 227)

30 janeiro 2010

Maré Voraz, de Amitav Ghosh

“(…) as palavras são como o vento que faz ondular a superfície da água. O verdadeiro rio corre por baixo, sem ser visto nem ouvido.” (p. 357)

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Hoje pela noite, depois de voltar de uma cerimônia literária da qual não fui o vencedor do prêmio maior, eu finalizei a leitura do romance Maré Voraz (The Hungry Tide, 2005), escrito pelo indo-americano Amitav Ghosh, que se revelou um grandessíssimo contador de histórias para mim nessas férias.

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Sinopse: Em Maré Voraz, o escritor indiano Amitav Ghosh cria um universo fascinante ao retratar o conflito entre a civilização e o mundo selvagem, através de uma Índia desconhecida e perigosa. Em meio a uma exótica região formada por um labirinto de ilhas pequenas e selvagens, apelidadas de Sundarbans, três pessoas de mundos diferentes — uma pesquisadora, um jovem pescador e um empresário indiano — irão se encontrar, com interesses diferentes e resultados imprevisíveis.

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Maré Voraz entrou para a gloriosa lista dos livros que me encantaram profundamente durante a leitura e que, sem restrições, recomendo a todos. E essa lista não é tão grande assim: tenho certos critérios que fazem alguns romances bons ficarem do lado de fora.

A primeira coisa que me encantou no livro de Ghosh foi o estilo de escrita que ele adotou, e que parece adotar em todos os seus textos: leve, tradicional, sem invencionismos literários, do tipo prático que, sem rodeios, vai direto ao assunto – mas que, ainda que seja bem objetivo, não perde a elegância. Ghosh tem a invejável capacidade de escrever de uma maneira limpa, charmosa, fazendo com que o leitor não desgrude os olhos das páginas pelo simples fato de elas serem muito bem escritas.

Como se o seu impecável estilo de escrita não bastasse, Ghosh conseguiu reunir, em Maré Voraz, uma miríade de aspectos sociais, políticos e ambientais de forma incrivelmente atraente. Ele imerge esses assuntos em uma história repleta de aventura e suspense, mesclando ficção com fatos verídicos e, no final das contas, dando fruto a uma trama intrincada que é atraente até em seus mínimos detalhes.

Outro feito notável de Ghosh, no romance em questão, foi o de conseguir transformar uma região longínqüa da Índia em algo particularmente interessante e universal. A região das Sundarbans abriga um arquipélago com inúmeras ilhas de nomes e costumes exóticos para nós, mas, apesar da aparente incompreensão que disso poderia surgir, lá está Amitav Ghosh a nos explicar detalhe por detalhe tudo o que cerca o lugar – incluindo os costumes do seu povo, a origem dos nomes complicados e outras coisas.

Fiquei particularmente interessado no incidente de 1970 em Morichjhãpi, que é descrito no livro e que faz a história parecer mais verossímil ainda, isso porque alguns dos personagens se envolvem com o acontecimento. Um enorme grupo de refugiados que, por causa de um bombardeio, foram expulsos das regiões da fronteira, caminha a esmo pelo país das marés até resolver se fixar em uma ilha isolada e desabitada: Morichjhãpi. Nela, os refugiados começam a construir a sua nova sociedade, limpa e organizada; mas, infelizmente, acabam criando problemas com o governo local, pois a área é reservada à preservação ambiental. Daí resulta-se uma violenta guerra civil, da qual um personagem de Maré Voraz participa ativamente.

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Fiquei com vontade de ler outros títulos do autor – na verdade, os únicos restantes, que foram publicados aqui no Brasil –, chamados O Palácio de Espelho e O Cromossomo Calcutá. Mas, antes, quero confirmar se Ghosh realmente repete a dose de dinamismo presente no livro que acabei de ler.

“(…) O que ele queria não era diferente do que todos os sonhadores sempre quiseram. Queria construir um lugar onde ninguém explorasse ninguém, e onde as pessoas vivessem juntas sem distinção e diferenças mesquinhas de classe. Sonhava com um lugar onde homens e mulheres pudessem ser lavradores de manhã, poetas à tarde e carpinteiros à noite.

Kanai começou a rir.

”E olhe o que ele conseguiu – disse. – Estas ilhas devoradas por ratos.” (p. 65)