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27 dezembro 2013

5 livros que eu li em 2013 e que você gostará de ler em 2014

Seguindo a tradição do Gato Branco, nos últimos dias do mês de dezembro de cada ano eu elaboro a lista dos cinco livros que mais me impressionaram como leitor, desde janeiro até então. Ou seja, escolho cinco obras cuja leitura superou (ou atendeu) minhas expectativas nos últimos 12 meses e as coloco aqui, acompanhadas de um breve comentário.

Naturalmente, isso não significa dizer que, dentre todas as leituras de 2013, considerei apenas estas cinco como boas. Muitos livros passaram pelas minhas mãos ao longo deste ano, e muitos deles maravilhosos; mas, por uma questão de seleção quase arbitrária, separo apenas cinco para trazer para cá.

E, então, a minha lista de 2013 é esta:


O silêncio contra Muamar Kadafi | Andrei Netto

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Que o jornalista brasileiro Andrei Netto viveu uma aventura impressionante no coração da Líbia, durante a guerra civil que depôs o ditador Muamar Kadafi em 2011, disso não restam dúvidas. Entrando clandestinamente no país junto com um colega de profissão iraquiano, Netto buscou o epicentro da revolução popular que ansiava por derrubar um regime totalitário sangrento de mais de 40 anos. Entrevistando líderes do movimento insurgente, refugiados e estrangeiros, o jornalista disseca a Primavera Árabe na Líbia e, graças à excelência de sua escrita, faz o leitor se imaginar nos desertos áridos do Norte da África, acompanhando os passos da rebelião popular.

Netto chegou a ser preso pelas autoridades líbias durante sua estada no país, acusado de ajudar o movimento insurgente. Passou vários dias em uma cela pequena, imunda, e foi liberado somente com a intervenção da diplomacia brasileira. Essa passagem no livro é uma das mais interessantes.

Narrado em forma de thriller (o que o torna incrivelmente atraente e fluido, como um grande romance de aventura), O silêncio contra Muamar Kadafi foi, sem dúvida, o melhor livro de jornalismo que li em 2013. Vale conferir, sem ressalvas.

Clique aqui para ler a resenha de O silêncio contra Muamar Kadafi no Gato Branco.


1Q84 – Vol. I | Haruki Murakami

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Desde Norwegian Wood e Kafka à beira-mar, venho acompanhando os romances do japonês Haruki Murakami com dedicação, ainda que os dois primeiros que li continuem a ser os meus favoritos. De um modo geral, os romances do autor são muito semelhantes entre si e, como falou uma amiga minha, a sensação é a de que você está lendo sempre o mesmo livro, o que não é propriamente ruim – já que os enredos criados por Murakami sempre nos envolvem.

1Q84 inicia a trilogia que é considerada a obra máxima do autor. Publicada entre 2009 e 2010 no Japão, 1Q84 vendeu dezenas de milhões de cópias no mundo inteiro (aliás, coisa nem um pouco rara em se tratando de Murakami) e reafirmou o japonês como um dos escritores cult mais populares da atualidade.

Este primeiro volume apresenta os dois personagens principais a partir dos quais a trama é costurada: Tengo, um jovem professor de matemática do Ensino Médio, aspirante a romancista, recebe do seu amigo editor o desafio de reescrever um livro enigmático de autoria de uma garota mais enigmática ainda – e, de repente, coisas estranhas começam a acontecer no mundo real, de algum modo ligadas a esse processo de reescrita; Aomame, uma professora de educação física que esconde sua segunda ocupação, a de fazer justiça contra homens que violentam mulheres. Como não poderia deixar de ser, a trajetória desses dois vai convergindo aos poucos para um único ponto, clímax da série.

Com seus pontos altos e baixos, a trilogia é ainda assim um grande exercício de imaginação e um excelente entretenimento para os fãs de Murakami. Sem a carga emocional e a densidade psicológica de Norwegian Wood, e sem o enredo orquestrado de Kafka à beira-mar, 1Q84 se sustenta pela criatividade e pela fantasia non-sense, que tem agradado muito o público em toda a carreira do autor.

Clique aqui para ler a resenha de 1Q84 – Vol. I no Gato Branco.


Anna Kariênina | Liev Tolstói

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A Felicidade Conjugal foi o primeiro livro que li do escritor russo Liev Tolstói. Sua escrita primorosamente refinada, o conteúdo introspectivo e o enredo belo e surpreendente fez com que este autor ocupasse o lugar da minha estante que é destinado aos grandes gênios da literatura. Suas obras são como um espelho que reflete nossa condição humana: todas as nossas dúvidas, nossos temores e nossos desejos são sugeridos de forma sutil – e às vezes nem tão sutil – em obras como, por exemplo, Anna Kariênina, publicado originalmente em 1877.

Anna Kariênina é o tipo do livro que, não importa se foi escrito na distante Rússia do século XIX, o leitor de hoje certamente vai se identificar com algum personagem da galeria de Tolstói e constatar que sentimentos – no sentido estrito da palavra – são universais em larga medida. Este foi um livro que li com deleite. Não era raro me deter por mais de dez minutos na mesma página, apreciando um determinado diálogo, um determinado parágrafo descritivo, uma determinada reflexão, e constatando como Tolstói escrevia de forma maravilhosa.

Gosto de me referir a Anna Kariênina como "o romance definitivo sobre o Amor". Afinal de contas, é uma obra que pondera o que somos capazes de fazer por causa dele: do que podemos abrir mão e o que podemos abraçar como causa. E, quando me refiro a Amor, estou me referindo a esse sentimento em suas múltiplas manifestações: o amor entre amantes, entre pai e filha, entre mãe e filho, entre irmãos, entre desconhecidos. Como não poderia deixar de ser, é também um romance sobre as aparências: sobre se relacionar buscando algo não no outro, mas em si mesmo; uma afirmação não para o outro, mas para si, afirmação com a qual você tenta construir sua identidade. Afinal de contas, quando dizemos "Eu te amo", não estaríamos sugerindo algo como "Eu preciso dizer que te amo"?

Livro monumental que faz justiça às suas 800 páginas, Anna Kariênina é o romance do qual ninguém pode escapar. Leitura mais que obrigatória para os fãs dos russos.

Clique aqui para ler a resenha de Anna Kariênina no Gato Branco.


A visita cruel do tempo | Jennifer Egan

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Escrito à mão, A visita cruel do tempo foi o romance vencedor do Prêmio Pulitzer de Ficção 2011 e, também, o ganhador de outros prêmios importantes nos EUA. Recebeu elogios desmedidos de vários suplementos literários norte-americanos (e do restante do mundo) pela criatividade da autora, seu domínio técnico e prosa envolvente. Ganhei o livro do meu irmão e, no início, antes de começar a lê-lo, eu tinha minhas reservas quanto a todo aquele experimentalismo literário, que parecia, ao mesmo tempo, ambicioso demais e relevante de menos.

Mas me enganei com prazer quando iniciei a leitura. A visita cruel do tempo é um texto engenhoso, de fato envolvente, complexo, cujas histórias e personagens se entrelaçam de modo criativo e até inesperado. Foi certamente uma das leituras mais acertadas do ano.

O livro possui uma cronologia embaralhada que conta, através da passagem do tempo, a juventude e a vida adulta de um grupo de pessoas que estão no mesmo círculo afetivo e profissional. É o caso de Bennie Salazar – talvez o eixo central desse círculo –, um executivo da indústria fonográfica que acompanha desde a explosão dos roqueiros independentes, nos anos 70 e início de 80, até a superficialidade do ramo na era digital.

Navegando pelos mares da internet, encontrei um leitor do livro chamado Daniel que se deu ao trabalho de identificar o local e a época em que cada capítulo transcorre. Segue abaixo o que ele garimpou. (Se alguém quiser ler o livro pela segunda vez, fica aí uma sugestão de acompanhar a cronologia real.)

1. Achados e perdidos – NY, 2009
2. Ouro que cura – NY, 2006
3. Não estou nem aí – São Francisco, 1979 (narradora: Rhea)
4. Safári – África, 1973
5. Vocês – São Francisco, 2006 (narradora: Jocelyn)
6. Xis-zero – NY, 1997
7. De A a B – NY, 2003
8. Como vender um general – NY, 2008
9. Um almoço em 40 min – NY, 1999
10. Fora do corpo – NY, 1994 (narrador: Rob)
11. Adeus, meu amor – Nápoles, 1993
12. Grandes pausas do rock – Deserto da Califórnia, 2020?
13. Linguagem pura – NY, 2022

Clique aqui para ler a resenha de A visita cruel do tempo no Gato Branco.


Cartas na rua | Charles Bukowski

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Nesse ano, tiquei mais um Charles Bukowski da minha lista de "Obras Indispensáveis". O livro foi Cartas na rua, romance publicado em 1971 que traz ao leitor pela primeira vez o protagonista Henry Chinaski, alter-ego de Bukowski – também inclinado aos porres, às mulheres e aos empregos sem perspectiva nenhuma.

Aqui, ao contrário de Factótum (1975), Chinaski não se vê pulando de trampo em trampo para ganhar uns trocados. Na verdade, o personagem mais conhecido de Bukowski está há 14 anos trabalhando no mesmo lugar: os Correios norte-americanos. Ele intercala sua vida monótona e estressante com as mulheres com as quais se envolve, umas mais novas, outras mais velhas, mas todas sempre muito excêntricas e desconcertantes. No final das contas, temos pintado um quadro sobre a desilusão do american way of life e sobre como o estofo da sociedade americana é, também, composto pelos marginalizados.

Primeiro romance de Bukowski, Cartas na rua é o início da obra de um escritor que foi muito além da literatura: transformou a própria vida em arte, desafiou tradições e abriu um novo caminho para os romances malditos. Não por acaso, o Velho Buk é um dos artistas mais celebrados e copiados desde os anos 80.

Clique aqui para ler a resenha de Cartas na rua no Gato Branco.



Menção honrosa:

Momo e o senhor do tempo | Michael Ende

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Eis um livro que foi parar na minha estante de modo completamente inesperado e que, sim, me surpreendeu muito. Um professor da Universidade de Fortaleza me indicou este livro no início do ano e, assim que comecei a lê-lo, percebi por que o alemão Michael Ende é tão querido na Europa e em alguns lugares do restante do mundo: sua prosa fluida está a serviço não da técnica, mas do conteúdo – e este conteúdo, voltado para o público infanto-juvenil, é sempre inspirador, carregando mensagens que o público adulto parece já ter esquecido.

Digo que o livro foi parar de modo inesperado na minha estante porque, até meu professor aparecer com ele, eu não tinha a menor intenção de lê-lo (sequer sabia da sua existência), embora conhecesse bem a reputação de Ende. E como valeu a pena!

Momo e o senhor do tempo conta a história de Momo, uma menina de aproximadamente 10 anos de idade que se vê na tarefa de devolver o tempo roubado das pessoas. Ela percebe a existência de um grupo de homens misteriosos que está atuando nos bastidores e que, de modo mal-intencionado, negocia com os cidadãos o uso do seu próprio tempo de vida.

Momo certamente é um lembrete do que o tempo representa nas nossas vidas e o que fazemos para preservá-lo (ou desperdiçá-lo).

Clique aqui para ler a resenha de Momo e o senhor do tempo no Gato Branco. 


É isso. E que venham novas e excelentes leituras em 2014!

30 agosto 2013

Anna Kariênina, de Liev Tolstói

"Você nem acredita que delícia é, para mim, essa indolência rural. Nenhum pensamento na cabeça, um vazio completo." (p. 243)

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Para mim, ler o que Liev Tolstói escrevia é não apenas uma experiência literária agradável, mas, principalmente, é também uma experiência estética humana que, boa ou ruim, faz você voltar os olhos para dentro de você mesmo e observar, nos recantos mais ocultos da sua alma, coisas que ninguém – nem mesmo você – sabia que existiam. Este é o poder que Tolstói tem e que tantos outros autores consagrados compartilham. A propósito, essa qualidade de destrinchar a alma humana é normalmente encontrada nos clássicos da literatura: naquelas obras que as pessoas não somente comentam, mas de fato leem. E leem porque é fascinante, em qualquer época e em qualquer lugar, descobrir naquelas páginas os segredos que estão por trás da nossa luta cotidiana contra os fantasmas de nosso espírito.

Anna Kariênina (Anna Kariênina, 1877) é um desses clássicos que roubam a alma do leitor. Tolstói, exímio escritor, incansável paladino dos textos claros e inteligíveis, parece contar neste romance uma verdade universal a cada frase. A começar pela primeira sentença da obra, uma frase famosíssima, que diz que todas as famílias felizes se parecem, mas que cada família infeliz é infeliz à sua maneira. Ler Anna Kariênina não é uma experiência que passa batida. Ninguém que lê o romance de cabo a rabo, com atenção, pode dizer que chegou ao final com uma sensação de indiferença; não porque o livro mude completamente sua forma de pensar, mas porque é impressionantemente belo constatar que as mesmas questões de amor que moviam as pessoas há mais de um século são as mesmas que movem as pessoas de hoje.

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Cartaz do filme estrelado por Greta Garbo no papel de Kariênina, em 1935

Anna Kariênina é um livro sobre amor e eu me arrisco a dizer que talvez seja a obra definitiva sobre o assunto até hoje. Que me perdoem os imbatíveis Romeu e Julieta, que me perdoe o sonhador Gatsby, que me perdoe a dissimulada Lady Chatterley – e tantas outras figuras emblemáticas desse gênero tão visceral – mas a pulsante e sedutora Kariênina e toda a vasta gama de personagens deste livro de Tolstói nos explicam, em palavras simples e pontuais, o que é o amor e o que o amor pode fazer conosco. São 800 páginas que não falam de outra coisa que não o amor e, ao mesmo tempo, longe de cair em uma mesmice piegas e enfadonha, falam sobre praticamente todos os assuntos que ecoam muito interessantes e importantes até hoje – como a relação entre patrão e empregado, os dilemas metafísicos da existência, a vida de aparências na sociedade, as sutis particularidades do casamento, as guerras, e assim por diante.

Dizer que essas quase mil páginas são bem escritas é desnecessário porque, como Rubens Figueiredo conta na apresentação do livro, Tolstói era capaz de reescrever um mesmo parágrafo à exaustão até que, em seu entendimento, ele ficasse coerente, belo e profundo, digno de ser lido. E não somente isso: a própria estrutura do romance, sua arquitetura, revela um esmero particular, pois é dividida em 8 partes de praticamente mesmo tamanho, através das quais a obra destila toda a sua sincronia. Observar com cuidado a parte técnica de Anna Kariênina nos faz perceber que estamos diante de uma obra de arte, no sentido palatável do termo.

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Cena do filme dirigido por Joe Wright, adaptação de 2012

Anna aparece pela primeira vez no romance muito depois da primeira página, mas, quando ela aparece, o leitor entende por que o título do livro leva seu nome. Anna é uma mulher absolutamente apaixonável, se podemos dizer assim. Convidada pelo irmão para resolver um assunto de família em Moscou, Kariênina mostra-se ao leitor sob uma luz quase celestial: é forte, decidida, independente até onde uma mulher do século XIX poderia ser, simpática e, acima de tudo, linda. A partir de sua aparição, o principal grupo de personagens da história começa a despontar, e o narrador, sempre cadenciado, sempre sereno, revela ao leitor os dilemas e as dificuldades que atormentam estes personagens. E as angústias dessas figuras fictícias soam tão reais e palpáveis quanto poderiam soar as angústias de pessoas de carne e osso.

Embora o romance tenha um número bastante elevado de páginas, tem-se a impressão de que não há uma única palavra fora do lugar. O narrador observador, onisciente e onipresente, não é autoritário e, assim, não desrespeita a existência dos personagens: ele é apenas pontual, objetivo, descrevendo emoções, sensações, fatos e conflitos com a precisão de um cirurgião. Cheguei a ficar 30 minutos segurando o livro na mesma página, incapaz de virá-la porque o que eu tinha acabado de ler era tão belo e tão marcante que eu tinha a certeza de que não conseguiria me concentrar mais em outra coisa.

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Não quero estragar a experiência dos futuros leitores de Anna Kariênina e, por isso, paro esta resenha por aqui. Falar muito sobre o livro seria um desserviço. O que quero dizer é que não há resenha de tamanho adequado para comentar todos os pontos dessa obra – nem isso é desejável. Existe um suave prazer em ser surpreendido a cada nova passagem e acompanhar o lento caminhar da história. E, ao chegar à última página, compreender que aquele romance tão pesado e tão preciso agora faz parte de nós, pelo resto da vida.

16 dezembro 2009

A Última Estação, de Jay Parini

“Tentou localizar o seu costumeiro medo da morte e não conseguiu. Onde estava a morte? (…) Não sentiu medo algum, porque a morte não existia.” (p. 397)

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Hoje, pelo final da tarde, finalizei a leitura do segundo livro da minha lista de férias: A Última Estação (The Last Station, 1991), escrito pelo norte-americano Jay Parini. Recorrendo aos diários de Tolstói, de sua família e de seus amigos, Parini remonta, na forma de romance, os últimos e conturbados acontecimentos na vida do célebre escritor russo.

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Sinopse: O ano é 1910. Liev Tolstói é o escritor mais famoso de toda a Rússia e um dos mais lidos em todo o mundo. Mas, quase a chegar aos 82 anos, o autor de “Guerra e Paz” almeja apenas um pouco de sossego, longe dos repórteres e fotógrafos e dos conflitos no lar. Baseado nos diários daqueles que integraram o seu círculo mais próximo e também no legado do próprio Tolstói, este livro recria o último ano da vida do grande vulto das letras russas até aos derradeiros momentos que se seguem à sua dramática e desesperada fuga de casa, em outubro de 1910.

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Aclamado pela crítica e pelo público (elogiado inclusive por Gore Vidal como “um dos melhores romances históricos escritos nos últimos vinte anos”), A Última Estação ganhou recentemente uma adaptação aos cinemas, estrelada por Paul Giamatti (A Dama na Água) e Helen Mirren (A Rainha). Além disso, venceu o prêmio George Washington Kidd Award e foi editado em mais de 20 países.

Deve-se admitir: o livro merece essa pompa toda. Jay Parini reconta, com uma grande fidelidade aos fatos e com uma notável força narrativa, um dos mais intrigantes e surpreendentes episódios da vida literária: Liev Tolstói, de Janeiro de 1910 a Dezembro do mesmo ano, sofreu uma pressão psicológica fortíssima, proveniente de todos os lados – de sua irascível e implacável esposa, Sofia; de seu discípulo mais devoto e exigente, Tchertkov; de seu frágil estado de saúde; dos controversos filhos, Tânia, Sacha e Andrei, e de todas as outras pessoas que esperavam dele mais do que um homem aos 82 anos pode fornecer.

O livro prende tanto a atenção do leitor que, por incrível que pareça, consegui ler em um único dia nada menos que 185 páginas, o que é o meu recorde atual. Normalmente sou uma pessoa que lê 60, 70 páginas (no máximo) em um mesmo dia.

A intriga fundamental de A Última Estação é a seguinte: com a notável chegada de Tolstói aos seus últimos dias de vida, Sofia Andreiêvna, esposa do escritor, quer assegurar-se de que terá, para ela e para os filhos, todos os direitos autorais do marido, o que garantirá a vida econômica da família para sempre (para se ter uma idéia do que está em jogo: uma poderosa editora da época ofereceu a quantia de um milhão de rublos pelos direitos literários de Tolstói. Um milhão de rublos é mais do que podemos imaginar.) Sofia sente que merece tal recompensa do marido porque, nos seus primeiros anos de casados, era ela a pessoa que dedicadamente ajudava Tolstói a transcrever e a alterar seus manuscritos de, por exemplo, Guerra e Paz.

Mas Sofia Andreiêvna não está lutando à toa. Também com a intenção de pôr a mão no testamento de Tolstói está o dedicado e controverso discípulo Tchertkov, que alega que o maior gesto que o escritor poderá fazer para a humanidade é o de colocar todos os seus livros ao alcance do povo, transformando-os em total domínio público; e, conseqüentemente, não deixando um vintém para a esposa e para os filhos. Naturalmente, com este rumo de acontecimentos, Tchertkov sairá ganhando: terá a oportunidade de reeditar as obras do famoso escritor russo a seu bel-prazer.

Uma das características marcantes do livro é a narrativa polifônica, em que as várias personagens narram as suas impressões em capítulos diferentes, numa espécie de diário, fazendo o leitor oscilar entre aceitar os seus motivos particulares ou não. Essa é, mais ou menos, a mesma técnica utilizada em clássicos como Drácula, de Bram Stoker, e Frankstein, de Mary Shelley.

Em suma, A Última Estação fornece um entretenimento garantido e empolgante, além de encerrar uma série de informações valiosas sobre os derradeiros momentos de Liev Tolstói.

Especialmente recomendado aos fãs de romances históricos.

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Abaixo, dois dos trechos que achei mais interessantes.

“A maioria dos dias lembra outros dias. Vão-se enfileirando, ceifados pelo tempo. Não se lamenta muito sua perda. Mas alguns dias gloriosos se destacam na memória, dias em que cada momento brilha isoladamente, como seixos numa praia. Anseia-se para tornar a possuí-los e se lamenta a sua distância.” (p. 63)

“Em minha adolescência fui atraído para imagens e pensamentos indecentes. Percebo, agora, que a questão da decência é fictícia. É decente o tsar forçar jovens russos a matar jovens de outros países, das maneiras mais brutais? É decente a sociedade permitir que as pessoas morram de fome nas ruas, morram sozinhas, em miseráveis isbás, que vivam como ratos (…)? Mas a atividade sexual, a forma como homens e mulheres decidem combinar suas partes físicas, é completamente neutra. É, simplesmente, a energia empregada nisso – o tempo roubado do trabalho mental e espiritual adequado – que a torna vil.” (p. 121)

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PARINI, Jay. A Última Estação. Rio de Janeiro / São Paulo: Record. (1991)

Postado ao som de: Heat of the Moment, by Asia

24 setembro 2009

A Felicidade Conjugal / O Diabo, de Leon Tolstói

"Queria emoções, perigo e auto-sacrifício. Havia em mim excesso de energia que não encontrava escoadouro naquela nossa vida tranqüila."

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Hoje pela manhã -- antes de assistir ao ótimo filme A Testemunha, do mesmo diretor de Sociedade dos Poetas Mortos --, eu finalizei a leitura da edição dupla de A Felicidade Conjugal (Semeynoye Schast'ye, 1859)  e O Diabo (Dyavol, 1916). As duas, publicadas pela L&PM Pocket, são novelas do renomadíssimo escritor russo Leon Tolstói (ou seria Liev? Liv? Leão Tolstói?)

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Sinopse: Em "A Felicidade Conjugal", Tolstói demonstra sua habilidade ao retratar a meninice despreocupada da princesinha Macha, sua aproximação e o posterior relacionamento com Serguêi Mikháilovitch. Em "O Diabo", Evguêni, um bacharel em Direito, se envolve com uma bela camponesa da região, num caso que teria tudo para ser esquecido e relegado às loucuras de juventude -- mas Evguêni é jovem, e não percebe que está criando armadilhas para si mesmo.

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Foram 12 reais muitíssimo bem gastos. Livro comprado na impulsividade (como geralmente acontece comigo), mas não sem antes de eu ter feito as contas e me certificado de que poderia terminar de lê-lo ainda no final de semana, para assim poder dedicar os próximos dias úteis às provas da universidade.

Achei as duas histórias fascinantes. No entanto, senti uma afeição muito maior pela primeira, A Felicidade Conjugal, não apenas por ser a que aparece citada no filme Na Natureza Selvagem, mas por ser aquela com a qual eu mais me identifiquei. E é por isso que eu vou me dedicar somente a ela nesta resenha.

(De qualquer modo, a história O Diabo também é digna de apreço, e vale a pena ser lida juntamente com a primeira e logo após esta.)

A idéia que Tolstói procura transmitir em A Felicidade Conjugal é justamente aquela que ele tanto prezava e sobre a qual ele tanto refletia: o papel do homem e da mulher em uma vida matrimonial. Não sei se ele levaria esse assunto às últimas conseqüências no seu livro Anna Kariênina (que possui mais de 1.000 páginas e o qual estou pensando em comprar), ou se a temática do amor e das obrigações morais entre marido e mulher se limitou somente à esta história do início de sua carreira.

Algumas pessoas podem achar que a novela seja enfadonha por, talvez, tratar de um assunto meio maçante. Afinal de contas, convenhamos, uma novela russa do século XIX discorrendo sobre a vida e os conflitos de um casal soa desagradável aos olhos de gente ávida por leituras profundas. Mas a verdade é que a história cativa qualquer leitor -- seja ele ávido por leituras profundas ou não -- logo na primeira página, quando a personagem Macha fala sobre a solidão que ela, Kátia e Sônia passavam nos dias de inverno da aldeia de Pokróvskoie.

É tudo muito interessante também porque Tolstói narra em primeira pessoa sob o ponto de vista de uma personagem feminina, coisa que não acontece assim com freqüência na literatura. Sequer me lembro da última vez que li um livro que possuía um escritor de determinado sexo falando por uma personagem do sexo oposto.

Quanto à história propriamente dita de A Felicidade Conjugal: trata-se basicamente da vida de uma camponesinha que se casa com um amigo da família, Serguêi, e decide doravante construir uma vida de alegria plena, apesar dos pesares. A partir daí, Tolstói tece toda uma filosofia que ele defendia sobre o papel do homem e da mulher enquanto cônjugues. É realmente cativante.

Enfim, foi com boa surpresa que li o famoso trecho do texto que fala "Eu já vivi o bastante e agora sei o que é necessário para ser feliz..." Aquela mesma que aparece no filme Na Natureza Selvagem.

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Abaixo segue-se uma das passagens mais bonitas que encontrei em A Felicidade Familiar. Eu poderia ter transcrito várias outras do texto, mas esta realmente chamou a minha atenção; não por ser filosófica ou logosófica, mas por ter me transmitido uma sensação agradável na hora em que a li:

"Naquele verão, muitas vezes eu ia para cima, para o meu quarto, deitava na cama e, em lugar da melancolia da primavera, de desejos e esperanças para o futuro, a ansiedade pela felicidade no presente tomava conta de mim. Não conseguia dormir, ia me sentar na cama de Kátia, dizia que estava completamente feliz e lembro que isso era inteiramente desnecessário, pois ela mesma podia vê-lo. Ela falava que também era muito feliz e que nada lhe faltava e me beijava. Eu acreditava e achava necessário e justo que todos estivessem felizes. Kátia às vezes dizia que estava com sono, fingia estar zangada e me mandava embora de sua cama, adormecendo em seguida; eu ficava ainda ali durante muito tempo, repassando na mente tudo o que me fazia alegre. (...)

(...) O que eu achava pior era a sensação de que a cada dia os hábitos aprisionavam nossa vida de uma determinada forma, e que nossos sentimentos já não eram livres, estavam subordinados ao curso monótono e impassível do tempo."

(TOLSTÓI, Leon. A Felicidade Conjugal, págs. 40 e 125; editora L&PM)