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21 dezembro 2015

Resenhas em notas - #1



Depois de tanto tempo abandonado – mais precisamente, 11 meses e 20 dias –, este blog retorna à vida com uma nova seção sobre livros: a "Resenhas em Notas". Ela irá trazer pequenos parágrafos acerca das últimas leituras que andei fazendo. Através destas postagens, os leitores do Gato Branco poderão conhecer um pouco das minhas impressões sobre determinadas obras, e a ideia é fazer com que estes leitores ao menos se sintam contagiados pelas minhas experiências, narradas aqui da forma mais sucinta possível.

Penso em incluir em uma mesma postagem as últimas três leituras que fiz. Acho que é um bom número, mas vamos acompanhar o andar da carruagem. Nada de pôr os carros na frente dos bois – nada de criar muitas expectativas, principalmente se formos levar em conta que entrarei no mestrado no próximo ano e isso significará menos tempo disponível para a Literatura. Mas planos futuros são planos futuros.

Ao que interessa!


À noite andamos em círculos, de Daniel Alarcón



O jovem peruano Daniel Alarcón foi um escritor que conheci por acaso, o mesmo acaso que está tão presente na minha relação com os livros. Eu estava em uma livraria qualquer, andando a esmo, quando esbarrei no seu romance À noite andamos em círculos (At night we walk in circles, 2013). Já na metade da sinopse eu estava fisgado: o romance narra a história de um aspirante a ator de teatro que subitamente é contratado pela companhia que ele admirava muito desde a adolescência. Os anos de ouro desta companhia de vanguarda, o Diciembre, eram os anos 1970 – época em que criticar a ditadura local através da arte era um ato de ousadia necessária capaz de custar a vida.

Atualmente esquecido, o Diciembre parece estar fadado às memórias dos artistas de rua que fizeram parte daquela época. Com o intuito de reviver os seus tempos de glória artística – ao mesmo tempo em que é preciso superar alguns traumas do passado –, dois integrantes da antiga companhia decidem iniciar uma nova turnê pelo país, agora machucado pelas consequências de uma guerra civil. E é para esta nova turnê que Henry – o ex-líder do coletivo – e Patalarga – seu antigo colega – chamam o nosso protagonista. Juntos, os três reencenarão a peça sarcástica escrita por Henry décadas antes, que fizera tanto sucesso nos anos da ditadura, e atravessarão o país em busca de uma redenção para seus próprios fantasmas.

Genialmente escrito, o romance cativa o leitor já nas primeiras páginas e mantém em suspense uma trama cujo desfecho se espera sempre na página seguinte. É uma história feita de camadas, como muito bem disse o The New York Times, na qual elementos vitais são adicionados aos poucos, dando uma sensação de crescente deliciosa e perturbadora nos personagens e no enredo. Alarcón entrega aos poucos os pontos centrais da trama, com muita paciência. E quanto mais o leitor percebe sua própria ignorância diante do que está sendo narrado, mais ele se sente atraído pela história e maior é a sua vontade de virar as páginas.


Um adivinho me disse, de Tiziano Terzani


Foi na primavera de 1976 que Tiziano Terzani visitou – por acaso – um adivinho em Hong Kong e recebeu o seguinte aviso: "Não viaje de avião ou de helicóptero no ano de 1993. Se o fizer, você muito provavelmente sofrerá um acidente. Não voe." Quando o fatídico ano finalmente chegou, Terzani estava com 55 anos de vida e, nas suas palavras, procurava algo com que pudesse sair da mesmice de sua profissão de jornalista e experimentar uma coisa nova, que desse um colorido diferente à sua rotina. Nunca tendo esquecido o que ouvira em Hong Kong, ele decidiu que em 1993 se locomoveria apenas via terra e mar, abdicando completamente dos aviões e dos helicópteros. A partir de Bangkok, na Tailândia, ele cobriria acontecimentos históricos na Indochina e escreveria artigos sobre os mais variados temas da cultura asiática – pela qual sempre fora apaixonado.

Um adivinho me disse (Un indovino mi disse, 1995) é um dos relatos de viagem mais deliciosos que já li. Ele ficou alguns anos abandonado na minha estante mas, quando o peguei para ler, simplesmente não o larguei mais. Fascinado pela Ásia, Terzani nos fornece um detalhado panorama da Indochina do início dos anos 1990, observando como o estilo de vida ocidental estava varrendo e apagando as tradições históricas dos povos desta parte do mundo. Levados pelo afã de acompanhar o progresso econômico europeu e americano, os asiáticos abraçaram a causa da modernidade em que os fins justificam os meios e, sem perceberem – ou percebendo e ignorando –, seu modelo cultural milenar era colocado à extinção.

O relato de Terzani, contudo, é embalado pela brincadeira de não tomar aviões neste ano fatídico, motivo pelo qual ele decide investigar o universo do "oculto" e do "sobrenatural", tão presentes no Oriente. Nas cidades da Ásia que ele visitou – e foram muitas, da Cingapura à Mongólia – Terzani sempre procurava o adivinho local e pedia-lhe para ler sua sorte. Neste exercício, o autor elabora uma visão de mundo sobre o poder do ocultismo e da astrologia e a compartilha com o leitor, tecendo bem-humoradas e inteligentes reflexões.


O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação, de Haruki Murakami

   

Nos anos de colégio, Tsukuru era membro de um grupo de amigos que tinham uma característica peculiar: todos eles possuíam o nome de uma cor distinta. Havia os homens, Azul e Vermelho, e as mulheres, Branca e Preta. E Tsukuru, que não possuía nenhuma cor associada ao seu nome. Mas o fato é que todos se davam muito bem e compartilhavam uma amizade intensa típica da adolescência. Porém, já no final do que no Brasil seria considerado o Ensino Médio, Tsukuru é subitamente expulso do grupo: seus amigos, aparentemente decepcionados, embaraçados e irritados, comunicam seu desligamento, dizem que vão cortar relações a partir de então e nunca mais entram em contato com o incolor Tsukuru. Sem saber o motivo desse afastamento forçado, mas com a impressão de que fizera algo de terrível para os amigos, o nosso protagonista se isola em si mesmo e vive os anos seguintes atormentado pelo episódio, até que decide ir atrás de cada antigo colega e, pessoalmente, tentar entender o que acontecera no passado.

Narrado com a melancolia e a nostalgia típica do autor, O incolor Tsukuru Tazaki… (Shikisai o motanai Tazaki Tsukuru to, kare no junrei no toshi, 2013) é o segundo romance de Murakami que não inclui o seu sempre esperado realismo fantástico. Tal como Norwegian Wood, sua obra-prima, este romance finca os pés no chão e narra uma bela história sobre amizade e o peso dos anos em cima dos relacionamentos. Tazaki, que só possui o defeito técnico de se parecer absurdamente com todos os outros protagonistas dos livros do autor, é um jovem em busca do sentido da vida, um rapaz que procura – como todos nós – superar a árdua passagem da inocência da juventude para a áspera vida adulta, repleta de amores efêmeros, profissões monótonas e dias desperdiçados. Com uma narrativa simples e elegante e com um desfecho que surpreende o leitor, O incolor Tsukuru Tazaki… certamente vale o investimento e mostra por que Murakami é tomado como o porta-voz da mocidade nipônica.


Um lugar chamado Liberdade, de Ken Follett


Primeiro livro de Ken Follett que leio, Um lugar chamado Liberdade (A place called Freedom, 1995) conta a história de Mack McAsh, um rapaz que nasceu em uma família de escravos na Escócia e foi obrigado a trabalhar desde criança nas minas de carvão da poderosa família Jamisson. Paralelamente ao seu drama, somos apresentados a Lizzie Hallim, uma bela e esperta moça nascida no berço de uma decadente burguesia escocesa, presa aos ditames patriarcalistas que submetem as mulheres aos caprichos dos homens. Sedentos por liberdade, inconformados com as posições sociais nas quais foram criados, ambos buscarão superar os mais diversos obstáculos em busca dos seus sonhos.

Adepto das tramas folhetinescas, cujos enredos se assemelham aos roteiros de telenovelas épicas, Follett utiliza um pano de fundo histórico grandioso para narrar uma história empolgante mas superficial. O autor é cuidadoso em recriar os detalhes da época em que se passa seu romance – o que certamente se espera de um narrador de sua envergadura –, mas a intenção de escrever um livro para o grande público acaba fazendo com que tudo pareça contemporâneo demais, desde os diálogos até as situações vividas por seus personagens. A impressão que tive foi a de que a história, embora muito boa e interessante, estava fadada ao estilo contemporâneo de um best-seller fácil de digerir, e isso, para um romance histórico, compromete a experiência.

Um lugar chamado Liberdade possui reviravoltas que sem dúvida prendem o leitor às páginas do livro, e algumas de suas passagens são pertinentes como crítica social, mas não convém esperar da obra uma poderosa criação literária. Ela é um passatempo empolgante e instrutivo, e portanto válido, mas nada além.


Rádio Cidade Perdida, de Daniel Alarcón


Depois de ficar inebriado com a qualidade de À noite andamos em círculos, busquei os trabalhos antigos de Daniel Alarcón e me deparei com seu romance de estreia, Rádio Cidade Perdida (Lost City Radio, 2007). O tema dos dois únicos romances escritos pelo autor é o mesmo: um país latino-americano arrasado por uma guerra civil resultante de uma violenta repressão ditatorial, e as vidas comuns que foram afetadas por esse cenário dilacerante.

Nesta obra somos apresentados a Norma, uma radialista que ficou famosa após a guerra civil, quando inaugurou um programa de rádio destinado a fazer com que pessoas desaparecidas durante os conflitos reencontrassem seus familiares. Dona de uma voz extremamente acalentadora pela qual é reconhecida na rua, Norma vive seus dias atormentada por um episódio trágico: o desaparecimento do próprio marido dez anos antes, já nos momentos finais da guerra entre soldados do governo e rebeldes. Sua rotina muda completamente quando o pequeno Victor chega à cidade vindo de uma aldeia muito distante e, com ele, a promessa de informações inéditas sobre Rey, o marido ausente da protagonista.

Escrito com a mesma genialidade do outro romance, Rádio Cidade Perdida é um mosaico intrincado de flashbacks que não obedecem a uma cronologia linear mas que, quando somados, começam a fazer surgir a imagem nítida da trama principal. Para a literatura, este romance é o que 21 gramas é para o cinema: uma obra que destoa da narrativa tradicional, que oferece ao público uma miríade de recortes que fazem sentido na medida em que a história ganha corpo. Não é um livro fácil de ser lido, portanto, mas aqui isto não é um ponto negativo, porque qualquer leitor interessado capta o desenvolvimento da história sem grande esforço.

E a profundidade da obra, sua eloquência, sua riqueza reflexiva e seu primor estético envolvem o leitor já nos primeiros momentos e evidenciam o grande talento que Alarcón possui como contador de histórias. A América Latina, desde já, com sua gente pobre, com sua vida política conturbada e perigosa, mostra-se como a fonte da qual este escritor peruano bebe. Rádio Cidade Perdida é um romance de estreia, mas não de um iniciante.

08 outubro 2013

Perto demais da redenção?

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Quando tinha 22 anos de idade, Christopher Johnson McCandless abandonou os estudos e a família e fugiu para o gelado estado norte-americano do Alasca, onde morreu dentro de um ônibus abandonado, aos 24 anos, no meio de uma floresta ensolarada, após ter ingerido por acidente uma planta venenosa que corroeu parte do seu estômago. Deixou para trás uma história confusa cheia de dor, mágoas e senso de liberdade. Sua jornada pelos Estados Unidos é lembrada ainda hoje por muitos jovens como símbolo de resistência e paixão pelas coisas simples da vida – à maneira de Walden, do escritor inglês Henry David Thoreau. As pessoas que o conheceram pessoalmente se referem a ele, hoje, como alguém que carregava nas costas uma carga de sonhos mais pesada do que a que ele próprio poderia suportar.

Eu tinha aproximadamente 16 anos quando conheci a história de Christopher – ou "Alex", como ele mesmo passou a se chamar depois de abrir mão de tudo o que tinha antes de meter o pé na estrada. Naquela época, 22 anos representava para mim uma idade em que as pessoas eram velhas e, por essa razão, pareciam ter consciência plena do que faziam e das decisões que tomavam – de modo que eu, adolescente recém-saído da infância, vi na atitude de Christopher um exemplo de iniciativa que materializava todos os meus desejos pela liberdade, fosse lá o que essa palavra significasse.

No mais, falar sobre liberdade não é a intenção desse texto. Meus 22 anos vieram na semana passada e eu acabei me lembrando hoje da aventura de Alex, o jovem norte-americano que eu mesmo admirava tanto há seis anos. Parece difícil acreditar que ele tinha a mesma idade que eu tenho agora quando decidiu fugir do mundo em busca dos sonhos que tanto cultivava. Parece difícil porque não tenho mais as ambições e os projetos que Christopher tinha, quais fossem, o de viver da natureza compartilhando alguns princípios universais de amor e culto à estética. Sou apenas um rapaz latino-americano sem muito dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo de uma capital.

Já escrevi bastante aqui no blog sobre a história de Christopher, o que inclui a resenha do livro de Jon Krakauer, Na Natureza Selvagem. Escrevi também, no início das atividades do Gato Branco, uma espécie de crônica que destilava algumas ideias minhas acerca da saga de Chris. Ainda assim, acho que ele merece mais uma postagem: acima de tudo porque, pensando sobre como os jovens de hoje vivem suas vidas, acho que dá para entender um pouco do ato impulsivo de Alex.

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Vivemos em uma época em que os jovens não parecem mais ter tempo ou disposição para refletirem sobre a sua condição fundamental: sobre como o tempo da juventude significa o tempo de uma passagem árdua da infância segura para a vida adulta imprevisível. Ser jovem hoje significa possuir um crédito de gozo ilimitado disponibilizado pela própria sociedade, que cobra o preço exigindo da juventude dedicação integral e precoce aos assuntos da vida adulta. Talvez porque, afinal de contas, os jovens se tornaram o símbolo sócio-econômico da energia, do dispêndio e da propensão para o usufruto de tudo o que é novidade. São aqueles em que se depositam todas as fichas, todas as promessas e todas as esperanças, o que faz com que assumam precocemente um papel para o qual não estão preparados – nem nunca deverão estar.

Em outras palavras, salvo exceções felizes, me parece que a juventude contemporânea é formada simplesmente por um conjunto de moços e moças que, ávidos por aquilo que a sociedade do consumo oferta, são lançados abruptamente no mundo dos adultos, instados a produzir, e esse processo acelerado impede que qualquer momento de reflexão sobre a própria juventude seja levado em consideração. Na minha opinião, que não conta tanto assim, um rapaz ou uma moça de 14 ou 15 anos de idade não deveria se preocupar tanto com cursos profissionalizantes, carreiras e mercado de trabalho, embora seja isto o que eu mais tenha visto ultimamente. 

Somente isso não seria um problema tão insolúvel se não viesse acompanhado de um fato triste: os jovens que "param no tempo" e se permitem estar em um momento de reflexão improdutiva são, muitas vezes, considerados ultrapassados, quando não patológicos mesmo. Christopher McCandless foi um desses jovens vítimas do mal-estar que eles próprios despertam nos outros: entrou em crise e tentou encontrar-se, tentou compartilhar seus questionamentos, mas não foi compreendido porque esperava-se dele – assim como se espera de todos os rapazes de sua idade – algo que ele não estava preparado para dar. Foi rotulado de louco por uns e de depressivo por outros.

Mas o que se esperava dele? O que se espera de todos os jovens? Que se lancem sem intervalo da infância e da adolescência diretamente para a rotina adulta? No mundo adulto espera-se que você seja produtivo e que tenha sucesso profissional. Na infância e na pré-adolescência, muita coisa acontece fora do seu controle, e muitas vezes não somos nós que resolvemos nossos próprios problemas, sejam eles de que ordem forem. Não me convenço de que essas duas fases da vida, tão díspares, possam ser unidas imediatamente, mas é o que parece estar acontecendo.

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Mais ou menos até a década de 1970, entrar em crise na adolescência era uma espécie de ritual. Provava que o jovem estava preocupado com a sua vida e que, no fundo, tinha consciência do seu lugar no plano das coisas. Era-lhe permitido isso: ele passava por essa angústia e essa crise e era até bem visto pelos colegas, que compartilhavam dos mesmos questionamentos. Ninguém era considerado depressivo ou desajustado. Simplesmente estavam pensando sobre sua condição e entendendo o que aquele processo de tornar-se adulto significava (ou não entendendo, o que também fazia parte do processo). Quem leu O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger, deve ter enxergado esse fenômeno. E, se alguma dúvida persistir, leiam Depressão e Imagem do Novo Mundo, de Maria Rita Kehl.

Christopher McCandless representa, de certa forma, um tipo de resistência jovem – que alguns podem considerar como a rebeldia por excelência da juventude. Ele se negou a fazer parte do processo de mergulhar diretamente em um mundo que não era o dele. Vivendo meus 22 anos agora, vejo que este momento de pensar sobre nossa própria condição transacional não deve ser nunca descartado: ele é fundamental para quem quer cultivar um mínimo de postura crítica sobre o mundo.

Hoje entendo Chris nesse sentido porque penso que estou vendo o que ele via na sua época. Mas, como sempre, posso estar enganado.

10 abril 2013

O que realmente nos toca?

Algumas reflexões sobre experiências cotidianas autênticas.

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Quem acompanha o Gato Branco em Fuligem de Carvão com alguma regularidade já deve ter percebido que entra semana, sai semana, e continuo não atualizando as postagens do blog. Nada de resenhas sobre livros, nada de críticas sobre filmes (que sempre foram poucas, convém lembrar), nada de comentários sobre CD's de música – nada de nada. O motivo desta ausência, que é a correria e a pressa do dia-a-dia, me levou a pensar algumas coisas sobre como o ser humano da cidade grande anda perdendo qualquer coisa da sensibilidade, e é cada vez mais incapaz de ser tocado emocionalmente por algo trivial. Como estamos cada vez mais fazendo mais coisas e tendo cada vez menos tempo para nós mesmos e nossos botões.

É comum nós acharmos que a palavra experiência pode designar todo tipo de fenômeno que nos acontece, sem entrarmos nos detalhes que o significado do substantivo tem a oferecer. Geralmente chamamos de experiência aquilo que fazemos, aquilo que aprendemos de modo geral e aquilo que chega até nós em forma de estímulo. Mas a experiência propriamente dita, no sentido em que estou falando aqui, carrega um significado bem mais profundo, que está para além daquilo que meramente nos acontece. A experiência autêntica é aquela que nos toca como sujeitos. E, para que isto ocorra, é necessária uma grande dose de sensibilidade – ser passional sem ser passivo, oferecer-se sem precisar anular-se.

Na semana passada, afetado pelo calor noturno de Fortaleza, acordei em meio à madrugada e não consegui mais dormir de jeito nenhum. Na escuridão do quarto, consultei o relógio e vi que passava pouco das quatro horas da manhã. Impossibilitado de pegar no sono outra vez, e cansado de ficar sobre a cama, levantei-me e comecei a passear pela casa – cozinha, sala, corredores –, até que enfim me permiti ficar parado na varanda, em pé. Quando coloquei meus olhos sobre o céu que se descortinava à minha frente, não consegui mais pensar em absolutamente nada – ali estava um céu que parecia ter saído de um quadro de Edward Hopper, lindo e soturno ao mesmo tempo. Havia uma pequena sugestão de claridade que começava a se infiltrar pelas nuvens do horizonte. Pessoas isoladas transitavam pela rua, e era possível mesmo ouvir o som dos seus passos no asfalto, o barulho da corrente da bicicleta de alguns e o ruído distante dos canos de escapamento do carro de outros.

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Em determinado momento, um bando de periquitos passou voando a mais ou menos um quarteirão de distância, e sua algazarra característica me fez lembrar instantaneamente dos tempos de infância em Belém do Pará, tardes nas quais eu caminhava pela Praça da República e ouvia esse som natural tão marcante. Foi uma espécie de viagem no tempo que durou não mais que 5 segundos, porém intensa o suficiente para que eu passasse vários minutos refletindo sobre ela. Enquanto isso, aos poucos, o sol ia surgindo por detrás dos prédios. De repente, me senti unido – conectado – a tudo aquilo que eu estava vendo da varanda da minha casa: o sol aparecendo de pouquinho em pouquinho, os ruídos urbanos que começavam a se intensificar, as pessoas na rua que começavam a crescer em número. Era estranho, mas acabei sentindo como se tudo aquilo me pertencesse e, por extensão, pertencesse ao mundo.

Comecei a sentir um conforto muito grande, que, julguei, só poderia se justificar por essa sensação de posse e pela apreensão da beleza da paisagem. Quando começou a chover, percebi, de maneira bem mais clara, que tudo aquilo que eu estava presenciando ali – e vivendo intensamente – era melancólico sem ser triste, era atraente sem ser necessariamente bonito. Era uma experiência única e singular como todas as experiências autênticas são. Descobri que duas experiências podem ser semelhantes, mas nunca iguais. Eu já havia muitas vezes, no passado, acordado em meio à madrugada e, sem sono, ido até a varanda de casa – mas daquela vez era diferente. Era igual às outras vezes, mas diferente.

A experiência autêntica, para existir e ser assimilada, necessita encontrar um indivíduo sensibilizado com o que o cerca. Porque, afinal, milhares de coisas nos acontecem todos os dias, mas somente poucos de nós têm a capacidade de identificar aquilo que nos toca. Para que possamos exercer um certo treino nesse sentido, ou seja, para que tenhamos essa capacidade de discernimento aflorada, precisamos nos lançar no mundo, nos projetar, escolher experimentar. Somente o sujeito que experimenta os fenômenos sem preconceito é capaz de viver uma experiência autêntica, porque ele sempre se surpreenderá com a novidade da vida.

HopperCCMorning Hopper, Edward (1882-1967): People in the Sun. 1960. . Washington DC, Smithsonian American Art Museum, Washington DC *** Permission for usage must be provided in writing from Scala. May have restrictions - please contact Scala for details. ***

Eu diria que o sujeito capaz de experiência é um sujeito que carrega consigo uma pequena dose de melancolia e uma grande dose de humildade. A melancolia está presente porque, ao vivermos uma experiência desse tipo, saímos do nosso lugar certo no mundo e passamos a ocupar um lugar que não pode ser definido com exatidão, e isso, embora não suscite necessariamente tristeza, gera a nostalgia e a sensação de que estamos sozinhos. O sujeito da experiência é o sujeito que, naquele momento de fluxo e sensibilidade, está sozinho – sozinho porque finalmente compreendeu a singularidade do fenômeno da existência, mesmo que essa compreensão dure apenas alguns instantes.

A humildade está presente na experiência porque o sujeito capaz de vivenciá-la entende que é preciso lançar-se e oferecer-se à vida, abrindo mão de todos os pressupostos de que dispõe. Não é tarefa fácil. Precisa-se entender que o que possuímos não é definitivo, que existe uma fluidez na existência capaz de colocar de cabeça para baixo tudo o que construímos até então – e essa reviravolta pode ocorrer em um momento autêntico, surpreendente, singular. Pode ser uma reviravolta muito, muito boa, como uma viagem a um país distante, que quebra em pedaços todos os nossos preconceitos, um por um.

Em uma palavra, ser capaz de viver a experiência é ser capaz de perceber o mundo em toda a sua complexidade e extensão, e saber extrair disso o prazer de estar presente. Como diria Alberto Caeiro, heterônimo poético de Fernando Pessoa, "às vezes eu acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido".

Uma vida rica em experiências a todos nós.

18 março 2013

O silêncio contra Muamar Kadafi, de Andrei Netto

"Nossas cabeças estiveram sob a alça de mira de Kadafi por muitos anos. Agora chegou a hora da liberdade." (p. 96)

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Finalizei hoje a leitura do livro O silêncio contra Muamar Kadafi (2012), escrito pelo jornalista brasileiro Andrei Netto, correspondente em Paris do jornal O Estado de S. Paulo. Na obra, que possui pouco mais de 350 páginas, Netto relata toda a experiência que viveu como repórter na Líbia assolada pela revolução de 2011, cujos desdobramentos culminaram na queda da ditadura de Muamar Kadafi, responsável por governar opressivamente o país durante 42 anos. A Guerra Civil Líbia, iniciada em fevereiro de 2011 com movimentos populares pacíficos reprimidos com violência pelas tropas kadafistas e terminada no final do mesmo ano, fez parte da chamada Primavera Árabe – termo usado para designar uma série de levantes populares em diferentes países árabes, com o intuito de derrubar o regime vigente, caso da Tunísia e do Egito.

Li O silêncio em uma época abarrotada de trabalhos da universidade e do estágio, e foi por esse motivo que, dado o pouco tempo disponível para leitura, demorei quase o triplo de dias que usualmente levaria para terminá-lo. O fato é que, mesmo lendo aproximadamente exíguas 10 páginas diárias, em meio a uma série de outros compromissos, a obra de Netto conquistou minha atenção logo no primeiro dia e revelou-se, com o passar das semanas, uma das melhores publicações jornalísticas brasileiras dos últimos anos, verdadeira referência para quem se interessa pela vertente investigativa do jornalismo à la Jon Krakauer.


Sinopse: Em 10 de março de 2011, familiares, amigos e colegas suspiraram aliviados após vários dias sem notícias do jornalista Andrei Netto no interior da Líbia, então conflagrada pela revolução. O repórter do jornal O Estado de S. Paulo acabava de ser entregue pelas autoridades do claudicante regime líbio aos cuidados do embaixador brasileiro em Trípoli, de onde retornou a sua casa em Paris. Netto, na companhia de um jornalista iraquiano do Guardian, havia sido sequestrado no início do mês por militantes kadafistas na pequena cidade de Sabratha, no oeste do país, e levado para uma prisão secreta nos arredores de Trípoli. A detenção lhe rendeu oito dias de isolamento e deflagrou uma campanha internacional por sua libertação, felizmente bem-sucedida.


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Insurgentes comemoram os avanços da ofensiva rebelde nas principais cidades líbias


Dono de um texto agradabilíssimo de ler, dotado de um grande senso de narrativa de aventura, Netto inicia o livro relatando os momentos cruciais da prisão de Kadafi por uma tropa rebelde, já nos últimos instantes da revolução, quando os oposicionistas invadem definitivamente a cidade de Sirte, na qual o ditador se escondia. Depois deste prólogo emocionante – no qual o autor comenta sua própria participação nos acontecimentos da capital, Trípoli, na condição de jornalista – tem início a história propriamente dita, desde a contextualização histórica da Líbia, passando pelos primeiros anos da ditadura de Kadafi, os primeiros movimentos contra o regime, a guerra, as experiências vividas como jornalista e a captura do temível governante no final (ou seja, o início do livro).

Entre o prólogo e o epílogo, toda a revolução é contada em detalhes claros e surpreendentes por Netto, que se coloca na narrativa como personagem, ao lado de outro jornalista extremamente carismático com o qual ele divide as 200 primeiras páginas: Ghaith Abdul-Ahad, repórter iraquiano do The Guardian. Ao lado deste colega de profissão, Netto invade a Líbia clandestinamente, ultrapassa postos de controle sem visto oficial, é abrigado em uma cidade perigosíssima pró-Kadafi, e o resultado dessas e de muitas outras peripécias é um livro que se lê como um thriller de ação, intercalado por numerosas e valiosíssimas informações jornalísticas sobre o conflito no norte da África – muitas delas inéditas.


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Detalhe do caderno de fotos


O silêncio contra Muamar Kadafi é um livro fascinante porque consegue envolver completamente o leitor da primeira à última página; é uma obra de não-ficção narrada com uma estrutura de romance, sem parecer piegas, boba ou com fins puramente alarmistas. É um trabalho jornalístico sério, e o profissionalismo de ponta do autor é visível em cada página. Acompanhando de perto toda a movimentação dos insurgentes, Netto colhe depoimentos dos quais extrai as estratégias militares dos rebeldes, a sua visão de política e as perspectivas para uma Líbia pós-revolução. Tudo trabalhado com muito esmero e dedicação, o que confere ao livro um indiscutível material de primeiríssima qualidade.

Especialmente interessante é o capítulo "Traição", no qual Andrei narra seus dias de penúria nos calabouços do regime kadafista, após ser preso por tropas leais ao ditador na cidade de Sabratha, semanas antes da intervenção da OTAN no conflito. Libertado graças a um jogo diplomático brasileiro, com a condição de que deveria deixar a Líbia, Netto retorna ainda duas vezes ao país, ocasiões que usaria para cobrir os momentos finais da insurgência.

O livro conta ainda com um interessantíssimo caderno de fotos que contém registros da guerra urbana nas cidades de Sirte, Trípoli e Misrata, importantes pontos estratégicos disputados durante os confrontos entre oposicionistas e governistas.

Em suma, O silêncio contra Muamar Kadafi é não somente um excelente livro que mistura entretenimento com informação de ponta, mas, também, um dos principais lançamentos editoriais do ano, escrito por um jornalista extremamente competente que, pode-se dizer, esteve no "olho do furacão" da Primavera Árabe na Líbia. Leitura recomendadíssima.


"Então fui assaltado pela impressão de que meu destino poderia estar selado, e que eu viraria mais um corpo atirado ao deserto, desaparecido para sempre, como Lúcia advertira. Foram breves instantes intermináveis, nos quais o soldado que me empurrava continuou a rezingar algo cujo significado eu não entendia, enquanto outros gritavam ao fundo. Me preparei para a execução sentindo uma tristeza imensa, a mesma que sentira dez anos antes, no Brasil, ao ser assaltado. Nesse instante eterno, me senti só. Um buraco se abriu em meu peito, e senti um vazio profundo. O medo que eu tinha experimentado em outros momentos se dissipara por completo; sabia que, se acontecesse, seria ali, rápido, sem torturas, sem sofrimento. Lamentei a dor eventual da minha família e das pessoas mais importantes da minha vida. Pensei em Lúcia e pedi desculpas a ela. Mas não lamentei nada além do sofrimento alheio, nem me arrependi das decisões que tomara. Me senti digno e seguro das minhas escolhas, de todas. E tive a certeza de que assumiria todos os riscos de novo, sem hesitar, porque aqueles riscos fazem parte da vida que escolhi." [p. 190-1]

14 fevereiro 2013

Viagem de autocarro, de Josep Pla

"Viaja-se, geralmente, para ver as chamadas coisas inúteis do mundo – que são as únicas importantes." (p. 16)

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Quando estive em Portugal durante a última semana de janeiro deste ano, fiz um breve passeio de mochileiro pela cidade de Lisboa, e por "passeio de mochileiro" quero dizer que andei a esmo durante um dia completo, perambulando nas imediações do Rio Tejo e do Shopping Center Vasco da Gama. O Rio Tejo exercia um grande fascínio sobre mim não só porque é um dos rios mais famosos do mundo, mas também porque sempre foi uma das principais fontes de inspiração para o poeta Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa.

Nesse meu turismo descompromissado com visitas a monumentos históricos e outros pontos de interesse genérico (tão apreciados pelos pacotes de agências turísticas, cujos programas acabam minando o verdadeiro prazer da viagem), fui parar na Estação Oriente, que é uma das estações ferroviárias mais próximas do aeroporto de Lisboa. Graças a uma coincidência milagrosa, ocorria nesse dia uma feira de livros nos subsolos da estação, e os volumes eram vendidos a preços bem mais baixos do que os que constavam nos catálogos das livrarias. Quando pus minha mochila no chão e comecei a folhear Viagem de autocarro (Viaje en autobús, 1942-1991), percebi que aquele livrinho escrito pelo catalão Josep Pla tratava exatamente do que eu estava vivendo naquele momento: viagens sem compromisso com o turismo comercial, viagens nas quais a principal preocupação é buscar a própria identidade.


Sinopse: Josep Pla percorre a Catalunha de autocarro. Vai de aldeia em aldeia, numa geografia rural onde a paisagem se impõe como motor para reflexões, divagações e devaneios. É uma viagem pessoalíssima, onde uma conversa aparentemente banal se transforma numa reflexão sobre a condição humana. As intuições de Josep Pla são sempre extraordinariamente agudas, e é esse um dos encantos deste livro. O que faz actualíssima esta «Viagem de Autocarro» é a escrita de Pla: de uma clareza sem um pingo de superficialidade, sempre temperada pelo sal da ironia, por vezes tocada por uma ligeira amargura que nunca se confunde com rancor. Josep Pla tinha a obsessão do adjectivo certo, e o rigor com que descreve paisagens e pessoas corresponde à capacidade rural de nomear com exactidão cada árvore, cada planta, cada elemento da natureza. Saber sempre a palavra exacta para cada coisa é um poderoso meio de transporte. É nele que Pla nos conduz ao território a que chamamos literatura.


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O livro, ainda inédito no Brasil, traz o relato pessoal das excursões de autocarro que Josep Pla realizou pela bucólica região da Catalunha, na Espanha ("Autocarro" é a palavra lusitana usada para designar o que no Brasil nós chamamos de "ônibus"). O resultado dessa viagem é contada no pequeno livro de capa verde que comprei no subsolo da Estação Oriente e li ao longo das minhas próprias viagens de autocarro, trem e metrô: fascinado pelo encanto que as paisagens da natureza despertam no viajante, Pla é levado a imergir em um mundo de reflexões sobre a condição humana e o espírito ganancioso das pessoas que trocam as experiências subjetivas mais enriquecedoras em troca de simples aquisição material.

A escrita de Josep Pla transpira a sensação de leveza, auto-ironia e aventura que perpassa pelo espírito de todo viajante itinerário. Ao longo das páginas somos convidados a participar dos diálogos entre Pla e motoristas de ônibus, jovens nativos e outros transeuntes que captam a atenção do escritor – fala-se sobre a vida no campo, a vida nas cidades grandes, os conceitos de amor, vida e morte. Dividido em capítulos curtos que, embora sejam independentes entre si, possuem uma certa ordem cronológica, a obra vai traçando um roteiro tortuoso que é pontilhado de provocações e indagações sobre a existência em geral e sobre as viagens, em particular.

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Viagem de autocarro é basicamente um livro de cunho arqueológico, na medida em que o autor busca "desenterrar" as próprias origens e mostrar ao leitor o percurso da própria identidade. É a típica obra de auto-conhecimento que visa imprimir um interesse universal nas vivências particulares do escritor – e esta é uma das vertentes da literatura de que mais gosto, tal como visto em Álbum de viagens, de Michael Crichton.

Depois de comprar o livro de Pla em Lisboa, voltei de trem para a cidade de Aveiro no final do dia. Comprei os bilhetes na própria Estação Oriente, esperei o trem chegar à plataforma e, quando ele finalmente chegou, despejei minha mochila no bagageiro acima da poltrona e comecei a ler a obra que havia acabado de adquirir. Observando os campos e as aldeias desfilarem sob a luz mortiça do final da tarde através da janela, tive a nítida sensação de que estava vivendo exatamente aquilo que Pla descreve no livro – sendo tocado pelas mesmas questões fundamentais e levado a suscitar o mesmo tipo de reflexão. Foi uma experiência muito enriquecedora.

A seguir, meu trecho favorito de toda a obra, grifado por mim:

"Tem de se viajar para se descobrir, com os próprios olhos, que o mundo é muito pequeno e que é portanto absolutamente necessário fazer um esforço para dignificar a visão até se acabar por ver as coisas em grande. Tem de se viajar para nos darmos conta de que uma paixão, uma ideia, um homem só são importantes quando resistem a uma projeção no tempo e no espaço. Não há nada como nos afastarmos um pouco para nos curarmos da psicose da proximidade, da deformação da proximidade, que nos atacou a todos. Tem de se viajar para se aprender – apesar de tudo – a conservar, a aperfeiçoar, a tolerar." (p. 17)

As fotografias que ilustram esta postagem foram batidas na cidade de Aveiro, em Portugal.

25 dezembro 2012

Estado de graça, de Ann Patchett

"Agora que Marina estava no Amazonas, parecia infindável a lista de coisas que poderiam matar uma pessoa sem que a culpa fosse atribuída a alguém (…)" (p. 86)

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Lá estava eu na livraria que costumo visitar praticamente todos os dias, cheia de gente neste fim de ano, quando vejo ao lado de uma montanha de edições de O Hobbit alguns exemplares do livro Estado de graça (State of wonder, 2011), escrito pela norte-americana Ann Patchett. Fui direto para a estante em que eles estavam, querendo pôr as mãos naquele livro e folheá-lo a qualquer custo. Não que eu já tivesse escutado algo a respeito da obra, nem mesmo a respeito da autora: eram ambos completamente inéditos para mim. O que me chamou a atenção imediatamente, e o que me fez querer investigar Estado de graça, foi a arte da capa. Sim, às vezes ninguém consegue fugir disso, nem mesmo os leitores mais conservadores: somos reféns de algumas capas maravilhosamente trabalhadas.

Através de uma rápida olhada na sinopse da orelha, descobri que o livro é uma espécie de romance de aventura que envolve pesquisa científica, excursões pela Amazônia indígena e uma espécie de "busca pela fonte da juventude" – metaforicamente falando. Descobri também que Patchett foi a vencedora do Prêmio Orange de Literatura pela obra Bel Canto, que estou esperando sair em português para conferir.

Quanto a Estado de graça, foi certamente uma das melhores leituras que fiz neste ano.


Sinopse: A Dra. Marina Singh trabalha para uma empresa norte-americana que financia o desenvolvimento de uma nova droga na Amazônia. À frente da pesquisa está a Dra. Annick Swenson, que descobriu uma tribo isolada na floresta Amazônica. As mulheres desta tribo permanecem férteis por toda a vida e dão à luz filhos saudáveis depois dos 60 anos, graças ao hábito de mascarem a casca de determinada árvore. Um medicamento feito a partir dessa substância significaria a solução para os problemas de fertilidade de mulheres em todo o mundo. Implacável e intransigente, a Dra. Swenson faz de tudo para proteger sua pesquisa dos olhos ambiciosos da indústria farmacêutica e manter em segredo as informações sobre o progresso com os estudos. Após a morte de um colega de laboratório, Marina é enviada ao Brasil com o objetivo de encontrar respostas.


Acredito que seja sempre um desafio, para o escritor, redigir uma história que se passa em um país diferente do seu: no caso dos escritores que se prezam, é preciso viajar a fim de coletar informações in loco, ouvir e estudar a língua nativa, investigar a cultura do povo e todas as suas particularidades. Me parece que Patchett cumpriu essas exigências ao se propor a escrever sobre o Brasil – mais especificamente, sobre Manaus e a Amazônia. Não existe em seu texto algo que revele leviandade ou ingenuidade: apenas os fatos, tais como são, crus. A população da zona portuária de Manaus, as características do clima da região, a população indígena. Se às vezes a autora parece cair em um lugar-comum, seja ao dizer que o menino vestia uma camisa da Copa do Mundo ou que os vendedores ambulantes brasileiros empurram suas bugigangas aos turistas sem piedade, basta olharmos em volta e perceber que isso não é mera ficção estereotipada. É a realidade que se apresenta no cotidiano brasileiro.

Uma das características mais chamativas de Estado de graça é a própria escrita de Ann Patchett, escrita esta que foi inclusive largamente elogiada pelo suplemento literário do The New York Times. Não sem razão: o texto da norte-americana possui fluidez, estofo, do tipo que não subestima a inteligência do leitor. Explora psicologicamente todos os lados da condição em que os personagens se encontram, explora seus sentimentos contraditórios e convida o leitor a tomar parte dessas contradições. Não é propriamente uma linguagem de best-seller à qual estamos acostumados hoje em dia, meramente descritiva e superficial quando trata de conteúdos abstratos. Portanto, embora a sinopse sugira algo bem próximo da aventura descompromissada, a autora que narra essa aventura mostra estar preocupada, também, com os aspectos mais profundos de sua trama – como a ética na pesquisa científica, o poder da empresa que a patrocina e o exotismo das populações indígenas.

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Diferentes edições em inglês de Bel Canto, a mais conceituada obra de Ann Patchett

A propósito, Estado de graça é uma mistura muito bem sucedida dos gêneros drama, aventura e investigação policial. No início da história, muitos personagens são apenas citados, de modo que o leitor não sabe o que é feito deles, onde estão e o que realmente fazem: paira uma atmosfera de chão movediço e mistério em que pululam muitas perguntas e não há quase nenhuma resposta plausível – e esse enigmático estado de coisas é uma das razões pelas quais a protagonista, Marina Singh, viaja para o Brasil e vai conferir as coisas pessoalmente. Desde a primeira página, quando os enigmas e as poucas explicações já começam a intrigar o leitor, somos levados a ir virando as folhas quase ininterruptamente, acompanhando os desdobramentos imprevisíveis da trama.

"Envolvente" e "inteligente" são as duas palavras que, creio, definem melhor o que se pode esperar de Estado de graça. Estamos vivendo em uma época na qual poucos livros conseguem unir de forma realmente satisfatória elementos aparentemente díspares como excursões ao estilo da aventura clássica e discussões sobre a condição e os relacionamentos humanos. A mais recente obra de Ann Patchett consegue trazer isso à tona. Uma boa dose de literatura inteligente: consegue colocar o leitor para refletir e, além disso, entretê-lo.

Leia o primeiro capítulo do livro aqui.


Marina, surpresa pela força da ordem e pelo olhar enlouquecido de frustração no rosto de Barbara Bovender, obedeceu e bebeu todo o líquido em um longo gole. Não era exatamente líquido, sendo mais denso no fundo, viscoso, e com pequenos pedaços de algo duro como gravetos arranhando sua garganta. A canoa onde estavam era um tronco e virava de lado, e ela era jogada para dentro d'água com o pai. A água entrava em seus olhos, no nariz e na boca. Ela afundou antes que pudesse nadar e tudo o que conseguia sentir era o gosto do rio. Ela havia se esquecido, até aquele momento, do gosto do rio. (p. 103)

03 novembro 2012

A arte de viajar, de Alain de Botton

"O que consideramos exótico no exterior pode ser aquilo a que aspiramos em vão em casa." (p. 80)

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Meus amigos mais próximos sabem que, quanto mais sinto prazer em ler um livro, mais demoro para terminar de lê-lo; mais vagarosamente saio de um capítulo para o outro, mais tempo costumo gastar para ler um parágrafo, com mais lentidão me detenho numa página específica. Alguns colegas até se exasperam com isso, não compreendem o porquê, como foi o caso de uma amiga minha que me via diariamente com A arte de viajar (The art of travel, 2002) nas mãos e sempre dizia: "Você ainda não terminou de ler este livro? Não acredito!" E, três dias depois, ela me encontrava com o mesmo livro aberto sobre o colo, praticamente na mesma página de antes.

Se no passado eu já tinha ouvido falar em Alain de Botton, foi somente como uma menção vaga que não marcou nenhuma impressão na minha mente. Essa leve sensação de familiaridade com o nome desse escritor suíço foi despertada quando, num belo dia, passeando os olhos por uma revista publicitária, vi um de seus livros mais elogiados em preço de promoção: era A arte de viajar, que, pela capa e pelo título, conseguiu atrair minha atenção e me fazer querer lê-lo imediatamente. Não titubeei: fui à livraria, comprei o volume (que foi baratíssimo, diga-se de passagem) e me deliciei com uma das leituras mais prazerosas que lembro ter feito.


Sinopse: Em A arte de viajar, Alain de Botton, autor de As consolações da filosofia, nos propõe uma excursão pelas satisfações e decepções do ato de viajar. Aeroportos, tapetes exóticos, emoção das férias e frigobares de hotel; esse livro bem-humorado, esclarecedor e instigante revela as motivações filosóficas, expectativas e complicações ocultas em nossas viagens pelo mundo afora.


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Cafeteria automática (1927), de Edward Hopper: uma das muitas pinturas analisadas em A arte de viajar


Fartamente ilustrado com imagens de pinturas famosas, fotografias tiradas pelo próprio autor e desenhos clássicos, A arte de viajar é um verdadeiro deleite para quem gosta da vertente da Literatura que se propõe a transmitir para os leitores as vivências, experiências significativas e memórias pessoais do escritor. Eu diria, inclusive, que A arte de viajar é o livro de memórias por excelência, não somente porque o autor narra suas reflexões sobre o mundo e tem toda uma concepção de vida, mas porque ele ilustra essas reflexões de forma incrivelmente pessoal. Imaginem aquelas fotografias que nós batemos no meio da rua, capturando o telhado torto de uma casa, uma nuvem solta ou um transeunte qualquer: essas imagens amadoras De Botton também faz, e, mais ainda, ele as usa para ilustrar, de forma muito própria, aquilo que quer passar para os seus leitores.

O resultado disso é um livro muito bonito, modesto e ao mesmo tempo elegante, porque Alain de Botton – embora sempre escrevendo de forma muito pessoal – se apoia nas ideias de uma miríade de outras personalidades: filósofos como Nietzsche, pintores como Van Gogh, poetas como Baudelaire, ensaístas como John Ruskin. Provando que possui uma extensa sabedoria sobre a obra de todas essas pessoas, De Botton as utiliza para ilustrar e explicar vários aspectos inerentes ao exercício de viajar. Em outras palavras, ele transforma a filosofia que nós consideramos erudita e distante do cotidiano em algo totalmente próximo e útil.


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Gasolina (1940), outra tela de Hopper sobre a qual De Botton comenta de forma brilhante


Uma coisa é certa: você vai ficar com vontade de pegar o primeiro avião (ou o primeiro trem, ou o primeiro navio, ou o que quer que seja) e ir em direção a qualquer lugar. Lendo A arte de viajar você sente aquela vontade intensa de viver novas experiências em um lugar bem diferente daquele que você costuma ver todos os dias, no qual você costuma estar sempre. E esse desejo tem origem nas reflexões que De Botton traz para nós em seu livro, ideias que encontram suporte na Arte de um modo geral, na poesia, na arquitetura, e em todas as coisas que a Filosofia pode nos oferecer. Um verdadeiro banho de inteligência bem-humorada, útil e reflexiva.

O mais interessante desta obra é que o autor discorre sobre vários aspectos relacionados à atividade de viajar, e esses aspectos podem se estender à vida cotidiana de um modo mais amplo. Por exemplo, ele escreve sobre a expectativa antes de partir, sobre a curiosidade, sobre o exotismo, sobre o sublime, a posse da beleza e o hábito – neste último capítulo, o autor nos brinda com uma hilária mas construtiva análise da obra de Xavier de Maistre, Viagem ao redor do meu quarto. Todas as considerações sobre esses temas são extremamente bem-vindas, e a linguagem de De Botton, elegante e harmoniosa, envolvente, faz com que adoremos cada passagem, cada trecho.


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"No contato com esses elementos, leitores que em outras áreas de suas vidas seriam capazes de ceticismo e prudência regrediam ao otimismo e à inocência primordiais." (p. 16)


Se há uma coisa que eu repito com constância aqui no Blog, é esta: nunca consigo escrever uma boa resenha sobre os livros de que mais gosto. Sempre sai uma coisa canhestra, comentários volúveis, e nas releituras eu invariavelmente penso: "não era bem isso o que eu queria dizer sobre a obra". Já com isso em mente, selecionei um trecho do próprio A arte de viajar que, na minha opinião, resume bem as reflexões que o livro se propõe a fazer. Nas palavras do próprio Alain de Botton, eis:

"Se nossas vidas são dominadas pela busca da felicidade, talvez poucas atividades revelem tanto a respeito da dinâmica desse anseio – com toda a sua empolgação e seus paradoxos – quanto o ato de viajar. Ainda que de maneira desarticulada, ele expressa um entendimento de como a vida poderia ser fora das limitações do trabalho e da luta pela sobrevivência. Mas raramente se considera que as viagens apresentem problemas filosóficos – ou seja, questões convidando à reflexão além do nível prático. Somos inundados por recomendações sobre os lugares para onde viajar, mas pouco ouvimos sobre como e por que deveríamos ir." (p. 17)

A arte de viajar nada tem de manual ou de guia; sua proposta não é dar ao leitor conselhos do tipo "Faça isso, experimente aquilo". É muito importante frisar isso, ainda mais em se tratando de Alain de Botton, que ganhou a fama errada de autor de auto-ajuda filosófica. O que ele realmente propõe é uma conversa, uma abertura de olhar, estar atento às experiências do mundo cotidiano, o que pode facilitar e muito a nossa existência, transformando em arte e em beleza uma coisa que às vezes soa aparentemente mesquinha e desinteressante.

Boa viagem!


Abaixo, um trecho do livro que achei muito significativo:

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"A fotografia não pode, por si só, garantir o alimento necessário para a alma quando esta se encontra em contato com paisagens belas. A verdadeira posse de uma paisagem depende de um esforço consciente no sentido de observar elementos e entender a sua construção. Podemos muito bem ver a beleza apenas abrindo os olhos, mas sua sobrevivência na memória depende de quão intencionalmente a apreendemos. A câmera fotográfica embaça a distinção entre olhar e notar, entre ver e possuir; pode oferecer-nos a alternativa de um autêntico conhecimento, mas também pode, inadvertidamente, fazer parecer supérfluo o esforço dessa aquisição – porque sugere que já fizemos todo o trabalho ao meramente tirar a fotografia." (p. 219)

11 setembro 2012

Aquecimento: "A arte de viajar", de Botton

"Uma obra elegante e sutil, sem igual. Encantadora."

The Times

Para que o Gato Branco não fique de novo sem uma atualização por mais de 20 dias (coisa que, detesto admitir, vem ocorrendo com certa frequência), venho aqui compartilhar as primeiras impressões de uma das futuras leituras que pretendo realizar nos próximos meses; uma leitura que, sobretudo, promete uma deliciosa viagem literária que envolve reflexões sobre arte, filosofia, cultura e, claro, mochilão nas costas.

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Contrariando minhas expectativas de começar a estudar a sério nos próximos meses, acaba de chegar pelo correio este belíssimo livro do escritor suíço (mas crescido na Inglaterra) Alain de Botton: A arte de viajar. Presente de minha mãe! Pela lida que dei na sinopse da orelha e pela folheada sagrada que costumo dar nos livros antes de começá-los de fato, pude ver que Botton mistura aqui relatos pessoais de viagem com reflexões extremamente agradáveis sobre música, pintura e filosofia – criando, assim, um caderno riquíssimo de experiências de vida que ele apresenta ao leitor. O livro já havia sido lançado pela Rocco em 2003, mas agora ganha novo tratamento pela Editora Intrínseca.

A edição é linda, com dezenas e dezenas de fotografias em preto e branco, gravuras antigas e ilustrações clássicas, além de quadros de autores como Van Gogh e Loutherbourg – só para citar dois. No meio desse caleidoscópio de imagens de extremo bom-gosto e muito bem selecionadas, há a prosa elegante e requintada de Botton, reflexiva, ampliadora, que faz um passeio incrível de corpo e alma com o leitor. Fica a recomendação para quem está procurando um livro bom. Aliás, fica aqui a prova da sua qualidade: em magros cinco minutos, li a esmo uns poucos parágrafos que me deixaram uma impressão indelével, além de uma forte ideia para meditações. Eis um desses fragmentos que pesquei em pouco tempo, com apenas algumas rápidas passadas de página:

(...) vi pela primeira vez o Homem por meio de objetos grandes ou belos; pela primeira vez comunguei com ele com a ajuda deles. E assim fundou-se uma proteção e defesa seguras contra o peso da perversidade, as preocupações egoístas, modos rudes, paixões vulgares que nos agridem por todos os lados do mundo ordinário em que transitamos diariamente.

- William Wordsworth


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Alguém consegue adivinhar de quem é esse quadro reproduzido aí, na parte inferior da página direita? Boa leitura para todos! :)

09 julho 2012

Robinson Crusoé, de Daniel Defoe

"Todos os males devem ser avaliados junto com o bem que neles se encontra, e comparados com o que lhes poderia ser pior." (p. 117)

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Andando despretensiosamente por entre as estantes da minha livraria predileta, sem outra intenção que não fosse o simples passar a vista pelos títulos recém-lançados, me deparei com a novíssima edição do clássico Robinson Crusoé (Robinson Crusoe, 1719), que desde o seu lançamento original já conta com mais de 700 edições, traduções e imitações ao redor do mundo. A obra, escrita pelo inglês Daniel Defoe em uma época na qual os textos impressos ainda eram a grande novidade, possui agora uma tradução assinada pelo experiente Sergio Flaksman, cujo trabalho em O amante de Lady Chatterley muito me agradou.

Depois de ler as 70 páginas iniciais do romance, adquiri o livro e o trouxe para casa. E o mais curioso de tudo é que, acima do fato de eu ter encontrado uma leitura riquíssima em aventuras, encontrei também um impressionante documento histórico. Porque ler Robinson Crusoé hoje, no início deste século XXI, significa estudar um registro impecável de como a sociedade humana – ou, antes, européia – via o mundo há quase 300 anos.


Sinopse: Defoe narra em primeira pessoa as peripécias do engenhoso náufrago inglês ao longo de quase trinta anos de isolamento numa ilha deserta. Desobedecendo aos conselhos paternos, o jovem Crusoé se lança ao mar e inicia uma carreira repleta de infortúnios, que inclui uma decisiva passagem pelo Brasil antes da solidão na Ilha do Desespero.


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Robinson Crusoé é um livro que, embora estivesse no rol das leituras mais leves e simples da época (ao narrar de modo entusiasmado a história daquele estóico homem que passou quase três décadas em uma ilha do Pacífico), hoje é encarado como um romance que permite inúmeras reflexões e interpretações, e lê-lo é quase como estudar um livro de antropologia. Seja analisando a interação de Crusoé com os "selvagens", seja observando as palavras que ele usa para descrever o Brasil, seja percebendo como o livro todo, de um modo geral, é uma ode à civilização e ao Iluminismo, o leitor fatalmente terá um encontro com História.

As primeiras páginas cativam de imediato. Fugindo da vida de conforto e do curso de Direito que os pais queriam lhe impor desde cedo, Robinson Crusoé sai de Londres e embarca em uma jornada que mudaria para sempre a sua vida: passando por graves tormentas em alto-mar, vendo-se depois reduzido à condição de escravo em Marrocos, resgatado por um capitão português, tornando-se proprietário de terras no Brasil, Crusoé (sempre insatisfeito com o conforto e a bonança) não parou quieto até naufragar perto do Chile durante uma excursão ilegal à África, em busca de escravos para sua casa de engenho brasileira.


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"Quando me avistou, veio correndo em minha direção, tornando a se estender no solo com todos os sinais possíveis de gratidão mais humilde (…)" (p. 284)


O fato é que esta viagem à África acabou tendo um trágico final para o protagonista: pego de surpresa por uma tempestade violenta, o navio de Crusoé naufragou perto de uma ilha, e ele foi o único homem a escapar com vida do acidente. Lutando contra as fortes ondas do Pacífico, o inglês acabou pondo os pés em terra, num lugar que ele ficaria isolado do mundo por 28 anos.

Uma das características técnicas que mais chamam a atenção no livro é o relato em si de Crusoé, escrito de um fôlego só. Não há capítulos, não há pausas de leitura entre parágrafos, não há diálogos convencionais, nada: apenas 400 páginas escritas de modo ininterrupto. Esse borbotão de palavras se torna maçante quando (e somente quando) Crusoé começa a descrever, detalhe por detalhe, seus primeiros anos de estadia na ilha, a partir dos quais, aos poucos, começou a transformar o lugar em uma verdadeira fortaleza pessoal.

É interessantíssimo analisar o forte apelo iluminista nesse período do romance. Utilizando a razão como carro-chefe de todas as suas ações, Crusoé constrói ferramentas, prepara comidas e ergue habitações com os restos do que tirou da carcaça do navio naufragado. Até que, finalmente, isola-se no seu "castelo", em um individualismo notável: Minha área estava completamente cercada: dentro dela eu tinha espaço bastante, e nada podia me atingir de fora. (p. 137) Se formos encarar o espaço físico que Crusoé constrói para si como uma alegoria à consciência, não há nada mais cartesiano que esta frase, não é?


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"Sem mantimentos para comer, saí com minha arma, mas descobri que estava fraco demais." (p. 145)


Outro detalhe que julguei como sendo um dos mais pertinentes do livro é a interpretação de Defoe sobre as culturas. Às vezes o autor se mostra muito inclinado a adotar uma visão relativista, harmônica, observando em vários trechos que os costumes perpetrados nas diferentes civilizações são fruto de educações e visões de mundo distintas – porém, mais adiante, ele nos faz lembrar que estamos lendo um romance do século XVIII e traz à tona o eurocentrismo que estamos acostumados a ver nas aventuras clássicas. Defeito? Preconceito? Claro que não. Todo leitor que leva a sério o seu ofício (porque ler é um ofício) sabe que mergulhar em uma obra tão antiga quanto Robinson Crusoé significa, também, despir-se de sua visão de mundo contemporânea e entrar na pele de um autor que viveu imerso em outro paradigma, totalmente diferente do atual.

A verdade é que a obra-prima de Daniel Defoe permite inúmeras reflexões de cunho histórico. A relação do protagonista com os selvagens da costa da América, ou mesmo com os espanhóis, é interessantíssima do ponto de vista antropológico. E o bom é que, além de tomar parte nessa intelectual viagem no tempo (sim, ler um livro escrito há 300 anos é uma viagem no tempo), o leitor se entretém com uma aventura clássica que atravessou gerações merecidamente.