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29 dezembro 2014

A Festa do Bode, de Mario Vargas Llosa

"O país estava afundando, isolado e de quarentena por causa dos desmandos de um regime que, embora tivesse prestado serviços valiosíssimos no passado, havia degenerado em uma tirania que causava repulsa universal." (p. 353)

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Ontem eu finalizei a leitura do livro A Festa do Bode (La Fiesta del Chivo, 2000), um dos grandes romances históricos escritos pelo peruano Mario Vargas Llosa, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 2010. Eu já conhecia o autor através de duas ótimas obras que li há muito tempo, Travessuras da menina má e Tia Julia e o escrevinhador, que me revelaram o excelente contador de histórias que é este latino-americano – cujo domínio do espaço narrativo e cuja capacidade de construir personagens sólidas me impressionaram bastante desde o início.

Em A Festa do Bode, temos narrados os últimos dias do general Rafael Leonidas Trujillo Molina, ditador da República Dominicana entre 1930 e 1961, período em que governou o insular país do Caribe com mãos de ferro, perseguindo seus opositores e humilhando seus colaboradores para manter a autoridade. Paralelamente a isso, dois outros eixos compõem a narrativa: a visita de Urania Cabral a Santo Domingo, capital da República, já décadas após a queda do regime; e os minutos que antecedem o atendado ao ditador, orquestrado por um grupo de conspiradores ligados a Trujillo.

Cada eixo narrativo pertence a um tempo diferente, e assim o leitor encontra várias referências de um capítulo no capítulo seguinte, por exemplo, muitas vezes vendo o mesmo acontecimento ser narrado duas vezes – sob ângulos diferentes, a depender da personagem em questão. Longe de embaralhar a mente de quem lê, esse recurso coloca o romance sob uma tensão constante, tornando mais impressionantes algumas revelações e mais justificadas as ações de determinadas personagens. Muito apegado também à técnica do flashback, Vargas Llosa transforma a primeira metade de A Festa do Bode em um enredo de reminiscências, a fim de explicar a trajetória de cada personagem até o momento presente. Feito isto, a trama descamba para um thriller frenético – e assustador – sobre perseguição e tortura.


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O Oldsmobile 1956 usado pelos conspiradores para emboscar Trujillo repousa no Museo Nacional de Historia y Geografía de Santo Domingo


Do ponto de vista da técnica, o que mais me impressionou no livro foi justamente a narração formada por temporalidades fragmentadas, recurso que o autor utiliza com sabedoria para extrair o máximo proveito e contar da melhor forma possível uma história cheia de intrigas e reviravoltas. Do ponto de vista do conteúdo propriamente dito, o romance impressiona pela relevância do que é contado, pela necessidade de denunciar um regime totalitário assombroso que reinou durante 31 anos e que foi responsável por tanta dor e privação na vida de tantos dominicanos. E, assim, o que parecia ser uma nota-de-rodapé esquecida na História da América Latina acaba se transformando em uma interessantíssima abordagem literária sobre a tirania e as consequências do poder político absoluto.

Li A Festa do Bode em pouco mais de duas semanas e posso dizer seguramente que ele é um dos melhores livros do Llosa. É arriscado falar isso de um autor prolífico e muito bem recebido pela crítica, mas a verdade é que eu finalizei ontem a leitura de um dos melhores trabalhos deste que é considerado o melhor escritor latino-americano vivo. (Só não li o livro ininterruptamente, sem largá-lo, porque eu gostava de saborear a escrita requintada do autor em várias passagens, e esses momentos de deleite me consumiram bastante tempo.) No mais, embora o romance tenha um foco bastante político e isso afaste alguns leitores que não gostam do tema, A Festa do Bode dá espaço para o suspense e a intriga melodramática, o que o torna extremamente popular e prazeroso de ler, além de muito instrutivo. Llosa coloca o drama humano acima de tudo, inserindo-o num contexto em que decisões políticas extremas têm um enorme peso na vida das pessoas comuns.

Depois deste livro, considero Mario Vargas Llosa um dos mais fascinantes e inventivos autores que repousam na minha estante. Que venham os próximos títulos.

P.S.: Para ler meus comentários sobre os dois outros livros que li do autor, clique aqui (Travessuras da menina má) e aqui (Tia Julia e o escrevinhador).

Feliz Ano-Novo aos leitores do Gato Branco!

03 março 2013

Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago

"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara." (p. 9)

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Uma das principais e mais elogiadas obras contemporâneas sobre a condição humana (reduzida à busca pela sobrevivência) chegou até mim quando eu ainda estava cursando o 2º ano do Ensino Médio. Ensaio sobre a cegueira (1995), romance de ficção escrito pelo português nobelizado José Saramago, era leitura paradidática obrigatória naquela época, quase às portas do vestibular – e por aí podemos ter uma vaga ideia sobre como aquela literatura visceral, nua e crua, foi recebida por alunos mais preocupados em decorar fórmulas de Física do que em refletir sobre as questões existenciais da nossa sociedade.

Como eu me irritava facilmente com toda aquela educação pragmática do pré-vestibular, que prepara os estudantes não para a vida, mas para a competição desmedida e a memorização de conteúdos insignificantes, mergulhei de cabeça naquele livro do qual eu nem mesmo sabia o que esperar. Apenas me agradava qualquer coisa distante da ideia de ter um professor à minha frente tentando fazer com que briófitas e pteridófitas soassem como um assunto muitíssimo interessante, por meio de piadas bestas e falsa empolgação. No final das contas, ao entrar no universo de Saramago, o que eu encontrei naquelas páginas foi muito mais do que um cano de escape: foi a constatação precoce de que o mundo é um lugar potencialmente horrível; no tempo de um simples piscar de olhos, ele pode ir da rotina alegre ao desespero absoluto. E descobri que há alguma beleza sutil nisso.


Sinopse: Um motorista parado no sinal se descobre subitamente cego. É o primeiro caso de uma "treva branca" que logo se espalha incontrolavelmente. Resguardados em quarentena, os cegos se perceberão reduzidos à essência humana, numa verdadeira viagem às trevas. O Ensaio sobre a cegueira é a fantasia de um autor que nos faz lembrar "a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam". José Saramago nos dá, aqui, uma imagem aterradora e comovente de tempos sombrios, à beira de um novo milênio, impondo-se à companhia dos maiores visionários modernos, como Franz Kafka e Elias Canetti.


Quem conhece alguma coisa sobre José Saramago, ou mesmo quem já leu algum de seus livros, sabe que o estilo do autor é um espetáculo fascinante à parte, algo que desafia a paciência e a concentração de qualquer leitor, mesmo os mais experientes. Lançando mão apenas de vírgulas e pontos finais, o texto deste português, visto de longe, é um denso e complexo emaranhado de palavras que vão se conectando meio que forçosamente, tecendo às vezes parágrafos de várias páginas, numa das mais originais construções textuais de toda a história da Literatura. (Coincidentemente ou não, outro escritor que revoluciona o modo de escrever livros é português e "rival" de Saramago, António Lobo Antunes.)

Passada a inquietude fundamental com o texto excêntrico de Saramago – algo que, se ocorrer, será apenas para além da metade do livro – o leitor começa a perceber uma história que é absurda e assustadora justamente pelo fato de ser tão banal: num belo dia de sol, aparentemente do nada, todas as pessoas de uma cidade normal começam a ficar cegas, uma após a outra, em rápida sucessão. A princípio, apesar do susto e da incerteza que assola as vítimas, as pessoas agem com civilidade e educação; mas, em questão de horas, o verniz dos bons-modos começa a descascar e a humanidade começa a mostrar sua face mais autêntica e mais próxima da barbárie. Isolados em uma instalação do governo que passa a funcionar como depositório de cegos, todos os que são acometidos pela "doença" ficam em quarentena, vigiados pelas autoridades sob condições estritamente rígidas. Ao cabo de algumas semanas, a situação neste lugar se torna tão insuportável – com agravantes de superlotação, falta de comida e abundância de violência – que em tudo lembra os presídios mais hediondos do Brasil.


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Cartaz norte-americano e brasileiro do filme dirigido por Fernando Meirelles, baseado no livro


Desnecessário dizer que Ensaio sobre a cegueira é um romance metafórico. Quando eu tinha 16 anos e li o livro pela primeira vez, custei a perceber isto, por alguma razão – talvez pelo fato de que eu nunca houvesse lido um romance essencialmente alegórico. No início, acreditava que os personagens da história estavam ficando cegos por algum problema oftalmológico, mesmo, e que o ponto alto da trama seria quando descobrissem o que causara a epidemia. O fato é que compreendi a metáfora da obra quando comecei a olhar ao meu redor e a me dar conta de que, de uma maneira ou de outra, todos nós somos cegos – cegos que, vendo, não veem. Somos cegos que aparentemente enxergamos os outros mas que, quando a situação aperta nosso pescoço, tendemos a olhar apenas para nosso próprio umbigo e nossos pequenos propósitos. Cegos que não enxergam a verdadeira natureza da vida em comunidade e que são reféns dos medos e das exigências dos outros. Uma cegueira branca, como a do livro, diferente da cegueira negra, fisiológica.

A grande mensagem que retirei da obra-prima de Saramago foi justamente esta: a de que podemos perder o controle sobre nós mesmos a qualquer hora, podemos perder nossa autonomia, podemos deixar de exercitar nosso senso crítico e nos tornar mais uma ovelha no rebanho em questão de segundos, sem que possamos nos dar conta disso. E que, quando isso acontecer, entraremos todos numa espécie de espiral descendente que nos levará à perdição, e sofreremos ao percebermos nossa própria imbecilidade. Não é um quadro que anima ninguém, mas a Literatura está cheia de exemplos de obras que causam um profundo mal-estar nas pessoas precisamente pelo fato de trazerem perspectivas reais e cruéis.

Ensaio sobre a cegueira não é um livro que fará você se sentir melhor, mas certamente trará alguma dose de maturidade, seja ela qual for.

14 dezembro 2012

Tia Julia e o escrevinhador, de Mario Vargas Llosa

"O futuro era um assunto tacitamente abolido de nossas conversas, sem dúvida porque, tanto ela como eu, estávamos convencidos de que nossa relação não tinha nenhum." (p. 122)

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Tia Julia e o escrevinhador (La tía Julia y el escribidor, 1977) era um livro que estava na estante do meu irmão há alguns anos e eu nunca tinha tido a oportunidade de pegá-lo para ler. Já havia devorado o romance Travessuras da menina má antes, que é de Mario Vargas Llosa também, e inclusive comecei a pensar em ler os outros títulos deste escritor peruano, mas nessa época uma série de leituras mais prementes estavam se colocando entre eu e Tia Julia.

A verdade é que, depois de muitos títulos do Murakami, alguns de Amitav Ghosh e outros tantos de Erico Verissimo, finalmente pulei por cima de alguma espécie de obstáculo invisível e puxei da prateleira do meu irmão este pitoresco romance de Llosa (vencedor do Nobel de Literatura em 2010, convém lembrar), me divertindo do início ao fim com as aventuras sentimentais de Marito e as extravagâncias artísticas do radionovelista Pedro Camacho.


Sinopse: Tia Julia e o escrevinhador é um dos livros mais originais de Vargas Llosa. Mesclando humor e romance, o escritor narra a história de Varguitas, um jovem peruano com ambições literárias que se apaixona por uma tia com quase o dobro da sua idade. Em paralelo a esse romance proibido, na Lima dos anos 50, Varguitas conhece Pedro Camacho, autor excêntrico de radionovelas cujos enredos mirabolantes fascinam os peruanos. As novelas vão muito bem, até o dia em que Pedro Camacho, sobrecarregado, começa a confundir enredos e personagens. E, ao mesmo tempo, o romance entre Varguitas e tia Julia é descoberto pela família.


Mario Vargas Llosa é um daqueles escritores com os quais tenho uma estreita relação de afeição e repulsa. Me afeiçoei ao seu trabalho porque ele é, de fato, sem sombra de dúvidas, um exímio contador de histórias, um artista das letras verdadeiramente ímpar – basta lembrar da sua longa incursão na literatura engajada, em que transformava em romance grandes eventos da política latino-americana, como nos clássicos A festa do bode e Lituma nos Andes. Sua importância literária (e não só a importância como também a qualidade real de sua escrita) faz de Llosa um dos maiores escritores da América do Sul. Por outro lado, pessoalmente falando, acho-o bastante aborrecido e desagradável como sujeito. Mas isso é uma opinião pessoal demais, e não convém ao caso falar sobre ela.

Tia Julia e o escrevinhador foi redigido entre duas grandes obras: Conversa na catedral e A guerra do fim do mundo. Por essa razão, corria o sério risco de ser tratado como um trabalho menor do escritor, mero passatempo ou divertimento literário, por abordar um assunto engraçado e tecnicamente superficial: o amor autobiográfico entre um menino de 18 anos e sua tia distante. No entanto, bem feitas as contas, percebe-se que Tia Julia é um romance que, além de divertidíssimo e muito bem humorado, é também uma obra de arte não menos ambiciosa que as duas citadas acima. Vargas Llosa tem o dom de transformar cada pequeno acontecimento em uma situação envolvente, além de abordar os eventos da história sob uma ótica antropológica genial.

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Capa da Coleção Folha de Literatura Ibero-Americana e pôster do filme norte-americano baseado no romance, estrelado por Keanu Reeves

Não é à toa que o escritor é festejado bastante aqui na América Latina: cada livro seu faz uma referência completa a todo panorama do continente, traçando uma espécie de painel sócio-histórico que faz a América abaixo do hemisfério norte parecer de fato uma grande e coesa comunidade, com seus dramas pessoais, suas nuances políticas, suas mesquinharias e suas virtuosidades. Em Tia Julia isso fica muito claro: percebe-se como Llosa teve o cuidado de inserir praticamente todos os países latinos na história, nem que seja como uma simples menção.

O livro é dividido basicamente em dois eixos centrais: a história de amor entre o personagem Mario Vargas e Julia (sim, há muito de autobiográfico nesta história, porque na vida real o autor também se envolveu com a própria tia, anos mais velha que ele, chamada Julia) e as radionovelas escritas pelo pitoresco artista boliviano Pedro Camacho. Os capítulos são alternados – ou seja, depois de um capítulo sobre as peripécias de Mario, há um capítulo de radionovela escrito por Camacho. Aqui cabe um parêntese: embora seja um recurso literário muito interessante, esse movimento de troca de capítulos cansa um pouco o leitor, porque a quebra do fio da meada da história é uma constante. Nada que torne o livro menos bom, claro, mas o fato é que isso pode deixar a leitura um pouco enfadonha em alguns pontos.

Os vários personagens que orbitam ao redor de Mario, Tia Julia e Pedro Camacho são sujeitos riquíssimos e muito bem construídos, principalmente Javier – melhor amigo de Mario –, Grande Pablito e Pascual. Aliás, essa é uma das muitas qualidades de Llosa como novelista, saber criar personagens secundários interessantes e memoráveis (o auge desse tipo de criação foi em Travessuras da menina má, sem dúvida, porque até hoje me lembro com ternura do inesquecível Menino Sem Voz).

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Da esquerda para a direita: Vargas Llosa, Carlos Fuentes e García Márquez

Assim como Travessuras da menina má, Tia Julia e o escrevinhador é um dos romances mais leves de Mario Vargas Llosa: "leve" não no sentido de superficial, mas de mais facilmente identificável com o leitor, mais próximo da nossa realidade emocional cotidiana e, em suma, mais novelesco. O escritor peruano destila toda a sua capacidade de contar uma boa história, narrá-la de uma maneira que parece descompromissada mas que, na verdade, carrega toda uma bagagem social nas páginas; uma literatura compromissada, sim, compromissada a todo momento com seu povo, seus eventos e suas particularidades. Ler Tia Julia e entender seu contexto deixa qualquer um com uma pontinha de orgulho por ser latino-americano, no final das contas.

06 agosto 2012

O Elogio ao Ócio, de Bertrand Russell

"As desgraças públicas e privadas só podem ser dominadas por meio da interação entre a vontade e a inteligência." (p. 46)

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Se debruçar sobre os artigos e ensaios que envolvem a Teoria do Ócio sempre é uma atividade muito enriquecedora e empolgante, na minha opinião. Primeiramente porque o ócio, tal como a maioria dos estudiosos no assunto o formulam, é uma das necessidades mais intrínsecas ao ser humano – não para mantê-lo vivo biologicamente falando, mas para preservar sua saúde mental e mesmo corporal. Em segundo lugar, estudá-los é empolgante porque uma enorme parte dos teóricos do ócio escreve de forma tão agradável, tão limpa e direta, que entrar em contato com eles é sempre muito bem-vindo.

Minhas atividades de pesquisa na Universidade de Fortaleza fazem referência ao estudo da Teoria do Ócio no mundo contemporâneo, dentro de um contexto que envolve Lazer, Trabalho e Tempo Livre. Como dá para imaginar, é um campo de estudo muito próximo da realidade fora dos muros do campus, justamente porque tende a analisar tudo aquilo que fazemos quando estamos inseridos no cotidiano comum, trabalhando ou curtindo nosso tempo livre.

Com o intuito de aprimorar um pouco mais o conhecimento que tenho a respeito do Ócio, aluguei da biblioteca da Universidade o livro O Elogio ao Ócio (In Praise of Idleness, 1935), do escritor Nobel de Literatura Bertrand Russell, um inglês muito culto que, em sua época, tinha autoridade para falar de quase todos os campos que envolviam as atividades humanas.


Sinopse: O filósofo Bertrand Russell analisa os problemas sociais do século XX nos ensaios que compõem este livro, cujo propósito é o de lutar por um mundo em que todos possam se dedicar a atividades agradáveis e compensadoras, usando seu tempo livre não só para se divertir como também para ampliar seu conhecimento e capacidade de reflexão.


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O Elogio ao Ócio é um livro que pretende levantar discussões sobre vários pontos sociais e científicos presentes na sociedade da época em que ele foi escrito. Na verdade, é um conjunto de 15 ensaios, e seus temas variam desde a discussão sobre a origem do fascismo até a leve reflexão sobre a ameaça dos insetos para os seres humanos. Há textos longos e textos muito pequenos, todos escritos de forma limpa, sem excessos teóricos e sem intenções científicas muito profundas. Acima de tudo, trata-se da visão de mundo que Bertrand Russell adquiriu ao longo de sua vida e que resolveu compartilhar com os seus leitores – acreditando, não sem razão, que estava contribuindo para a construção de um mundo melhor.

Se eu tivesse que resumir a ideia central do livro de Russell em poucas palavras, diria que ele tem como objetivo mostrar a importância da reflexão antes do movimento: a importância que existe no ato de ponderar antecipadamente sobre as nossas atitudes e, assim, pensar a longo prazo, atendendo melhor às necessidades coletivas. Ele procura mostrar basicamente como conseguimos chegar a um ponto em que aparentemente não raciocinamos mais sobre o que fazemos, especialmente no nível econômico e político: estamos apenas seguindo a linha de algo que foi começado há muito tempo e que não funciona mais hoje em dia.


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Mas o que acontecerá quando se chegar à situação em que o conforto seja acessível a todos sem a necessidade de tantas horas de trabalho? (…) Essa ideia choca as pessoas abastadas, que estão convencidas de que os pobres não saberiam o que fazer com tanto lazer (p. 30)


Os dois primeiros ensaios da obra foram os que mais me chamaram a atenção, talvez porque sejam os que mais têm a ver com o que pesquiso atualmente. São eles O Elogio ao Ócio (que dá título ao livro) e O Conhecimento "Inútil". No primeiro, Russell elabora uma conexão prática entre o tempo de trabalho e o tempo livre, no qual, em uma sociedade ideal, as pessoas tratariam de fazer florescer suas inclinações para a arte e a cultura de um modo mais genuíno. Segundo o autor, numa sociedade que reduz a jornada de trabalho para quatro horas diárias (e ele diz que hoje é possível reduzi-la para tal), as pessoas não chegariam em casa exaustas do labor cotidiano, e, assim, estariam mais propensas a realizar atividades nas quais sentissem pleno prazer, em vez de serem meras telespectadoras passivas da televisão. Essas (e muitas outras) reflexões são apresentadas no texto-título do livro.

Em O Conhecimento "Inútil", por sua vez, Russell critica o senso de educação utilitária que hoje permeia uma parcela gigantesca das escolas e até mesmo das universidades do mundo. Segundo ele, as crianças geralmente são condicionadas a aprender e a valorizar somente aquele conhecimento técnico que, no futuro, será útil em sua escalada social, garantindo-lhes um emprego que, de tão especializado, destaca-as das demais. Sem espaço para descobrir outras maravilhas do mundo que não somente as "úteis", as crianças não estão sendo encorajadas a cultivar um senso exploratório de pesquisa, e isso as leva na maioria dos casos a aceitar o que os professores lhe impõem como a única verdade que interessa.


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Eu acho que se trabalha demais no mundo de hoje, que a crença nas virtudes do trabalho produz males sem conta e que nos modernos países industriais é preciso lutar por algo totalmente diferente do que sempre se apregoou. (p. 23)


E assim os demais ensaios vão sendo apresentados: sempre muito críticos, sempre apontando falhas na estrutura social e econômica sem rodeios, sempre muito bem escritos e articulados – o que rendeu ao autor popularidade não somente na Inglaterra e na Europa, mas em várias partes do globo, como Ásia e África. Embora Russell apresente aspectos de apologia a uma sociedade que beira a utopia em sua perfeição funcional, suas ponderações e sugestões devem ser encaradas como práticas, como possibilidades concretas, que não se encontram no plano do impossível.

O Elogio ao Ócio é, portanto, um livro multi-temático, que discorre não somente sobre as experiências de ócio e saúde mental, mas também sobre quase todas as vertentes da produção humana. Escrevendo com leveza e grande autoridade sobre tudo o que critica, Bertrand Russell firma-se como um dos grandes intelectuais políticos que existiram no século XX, atento às demandas de uma sociedade que, naquela época, seguia com rigor os preceitos do imperialismo capitalista moderno. Leitura recomendada para quem deseja lançar um olhar eclético sobre os problemas do que mais tarde viria a ser a base da chamada pós-modernidade.

Bertrand Russell foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1950, em reconhecimento à excelente desenvoltura com que lidava com diferentes campos do conhecimento humano.

30 julho 2012

Claraboia, de José Saramago

"A vida deve ser interessada, interessada a toda a hora, projetando-se para lá e para além." (p. 252)

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José Saramago tinha pouco mais de 30 anos de idade quando finalizou a redação de um romance intitulado Claraboia (1953). Pode-se dizer que ele já gozava de certo reconhecimento como escritor nessa época, ainda que mínimo, uma vez que publicara um romance (Terra do pecado, de 1947) e alguns contos curtos em revistas e jornais portugueses – nos quais às vezes utilizava um pseudônimo, "Honorato".

Auxiliado por um amigo jornalista, Saramago conseguiu que seu romance recém acabado fosse parar nas mãos de uma editora de Lisboa. Ansioso por vê-lo logo publicado e ganhar as livrarias, deixou o original lá e aguardou uma resposta – que nunca veio. Os editores não entraram mais em contato com o futuro prêmio Nobel de Literatura, nem para lhe dizer que o livro não seria publicado por eles. E o datiloscrito original de Claraboia permaneceu, dessa maneira, esquecido dentro de um arquivo durante quase três décadas.

Em meados dos anos 1980, José Saramago – agora um dos nomes mais importantes da literatura mundial – recebeu um comunicado da mesma editora que o havia deixado sem resposta no passado. Haviam encontrado o livro de 1953 perdido nas gavetas dos editores e queriam a permissão do autor para publicá-lo. Ouviram um convicto "Não" de Saramago – seja porque o romance não mais correspondia à sua visão de mundo, seja porque ele ficou ressentido, mesmo, como qualquer escritor ficaria ao ver um de seus primeiros filhos ser tratado com tanta vulgaridade.

O fato é que terminei de ler este livro hoje, e agora venho aqui compartilhar com vocês minhas impressões sobre ele.


Sinopse: Um prédio de seis apartamentos numa rua modesta de Lisboa é o cenário principal das histórias simultâneas que compõem este romance da juventude de José Saramago. Os dramas cotidianos dos moradores – donas de casa, funcionários remediados, trabalhadores manuais – tecem uma trama multifacetada, repleta de elementos do consagrado estilo da maturidade do escritor, em especial a maestria dos diálogos e o poder de observação psicológica.


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Claraboia, segundo romance de José Saramago, foi publicado aqui no Brasil em 2011 pela Companhia das Letras, com a autorização dos herdeiros do autor – para os quais ele concedera o direito sobre a obra. A verdade é que a decisão de trazê-lo a público foi mais que sensata e, sobretudo, um verdadeiro presente aos leitores que conhecem a qualidade da bibliografia deste português tão notável. Em Claraboia temos uma grande amostra do que Saramago foi em sua iniciação à literatura, em seus primeiros passos como escritor. A obra é simplesmente recomendadíssima: obrigatória para os fãs do autor português e uma sugestão apetitosa para quem gosta dos romances urbanos escritos na primeira metade do século XX.

Servindo-se da famosa técnica do contrapontoiniciada por Aldous Huxley no romance que deu nome a este estilo literário –, Claraboia não possui personagem principal e nem enredo único: é um livro que conta a história de seis núcleos familiares situados em um prédio pequeno e modesto de Lisboa. Cada capítulo narra, de modo progressivo, os pequenos dramas de cada conjunto de personagens: cada capítulo se detém no que acontece aos moradores de um apartamento específico.

Às vezes as histórias se tocam, mas esse toque é muito leve, por assim dizer, e o romance todo se mostra fiel ao que acontece na vida real: embora haja seis apartamentos um ao lado do outro no mesmo edifício, as pessoas que neles habitam raramente entram em contato entre si – permanecendo, na maior parte do tempo, isoladas em seus próprios territórios. E quando esses dramas se cruzam, não se pode esperar outra coisa que não falsidade e jogo de aparências.


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"Quando fores crescido, hás de querer ser feliz. Por enquanto não pensas nisso e é por isso mesmo que o és". (p. 104)


Claraboia segue o ritmo e a ideia geral dos romances urbanos escritos entre 1920 e 1950: retratos vivos do cotidiano citadino, mosaicos nos quais são destacadas certas personagens que compõem alguns dos tipos mais comuns naquela época: o trabalhador artesanal que vive sua vida simples e feliz com a esposa (Silvestre), o empresário inescrupuloso e pervertido para o qual os fins justificam os meios (Paulino Morais), o senhor de família honrado e correto (Anselmo), a adolescente sonhadora que está tirando o pé da inocência da infância (Maria Cláudia) e a prostituta bela que guarda noções de respeito e bom-senso (Lídia), além de tantas outras figuras que aparecem na obra. A propósito, qualquer semelhança com as personagens de Caminhos cruzados, de Erico Verissimo, não é mera coincidência: ambos os romances floresceram na mesma época e são, portanto, reflexos da mesma sociedade.

Minha avaliação em uma palavra: o livro é excelente. Foi uma das melhores leituras que fiz neste ano. Embora o conteúdo de Claraboia seja aparentemente simples e suas personagens sejam todas moldadas em estereótipos já vistos na literatura da época, o romance consegue cativar e fazer refletir bastante – principalmente nos capítulos em que o sapateiro Silvestre e o andarilho Abel discutem alguns princípios humanos de conduta. De um modo geral, o livro é extremamente prazeroso de se ler, muito bem escrito. E como é surpreendente ver Saramago usando travessões nos diálogos! Sim: estamos falando de Saramago, o sujeito que escreve parágrafos de páginas e páginas, diálogos emendados uns nos outros… Aqui utilizando a mais convencional das escritas, com todas as pontuações adequadas!


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Um edifício simples na Lisboa da década de 1950: cenário do romance Claraboia


Considero sempre saudável entrar em contato com essas obras literárias que escancaram a vida diante dos olhos do leitor – a vida crua e mazelada do cotidiano real, cheia de incertezas, injustiças, desavenças e esperanças. E tentativas de se alcançar a tão almejada liberdade. Porque todos os personagens de Claraboia lutam, cada qual à sua maneira, para conseguir pôr as mãos nessa ideia que chamamos de liberdade. E ela aqui é retratada sob diversas facetas – isolamento, independência, poder, autoridade, significado. Afinal de contas, cada um dos personagens parece ter uma noção diferente do que seria a liberdade – mas todos a procuram com o maior dos esforços. Este foi um dos grandes pontos que o livro mostrou para mim: que, acima de tudo, acima mesmo da sugestão de felicidade, há a tentativa desesperada de ser livre. Mas livre de quê? De quem? São esses alguns dos questionamentos do romance.

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"A manhã estava clara, o céu limpo, o sol quente. Os prédios eram feios e feias as pessoas que passavam. Os prédios estavam amarrados ao chão e as pessoas tinham um ar de condenadas. Emílio riu outra vez. Era livre. Com dinheiro ou sem dinheiro, era livre. Ainda que nada mais pudesse fazer que repetir os passos já dados e ver o que vira, era livre." (p. 350)

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Nota: Quem sugeriu a leitura deste romance foi minha namorada, Gleici Centinari. Lemos juntos. A propósito, ler um bom livro em conjunto com uma pessoa que se ama é um exercício que devemos praticar regularmente! :)

12 fevereiro 2012

A infância do mago, de Hermann Hesse

"Por muito tempo vivi no paraíso, ainda que meus pais tenham me apresentado bem cedo à serpente."

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Entrei na livraria e lá estava ele, meio abandonado, entre uma edição enorme de um livro de gastronomia e um atlas colorido do corpo humano. Estava na pilha de livros que em breve seriam despachados para as suas respectivas estantes, de onde, cedo ou tarde (ou nunca), os clientes da loja os tirariam e os levariam para casa. Havia outros romances em meio àquele monte de livros aleatórios empilhados – inclusive romances de outros autores consagrados – mas foi A infância do mago (1922) que me chamou mais atenção.

Quem escreveu este conto singelo foi o alemão Hermann Hesse, bem conhecido da comunidade literária mundial, que o considera como um dos melhores autores de todos os tempos. Hesse recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1946, poucos meses depois de ser agraciado com outra prestigiada condecoração, o Prêmio Goethe.

Eu nunca havia lido nada do autor e, por pura curiosidade – que não deixa também de ter algo místico, pois senti como que uma força direcionando minha mão para resgatar o livro daquela pilha – sentei-me numa das poltronas da livraria e comecei a lê-lo. Terminei a leitura meia hora depois, com a sensação premente de que preciso conhecer mais desse escritor tão talentoso.


Sinopse: 'A infância do mago' conta, em poucas páginas, os primeiros passos de um garoto que nasce e cresce em meio a uma região bucólica, cercada por bosques e animais, onde convive com seu pai – inteligente e correto –, sua mãe – que esconde uma ponta de mistério – e seu avô – figura que encanta ao máximo o menino. O livro é, acima de tudo, uma ode à infância despreocupada e ingênua.


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Seguramente não é à toa que uma editora resolve publicar um único conto em formato de livro, com capa, introdução, posfácio e tudo o mais a que um grande romance tem direito. Em vez de pertencer a uma coletânea, a editora José Olympio decidiu que A infância do mago teria uma edição própria. É difícil encontrar um conto publicado isoladamente, por mais que o autor que o escreveu seja consagrado nos meios literários e tenha a graça da boa recepção do público. De qualquer forma, a edição do conto pertence a uma coleção intitulada Sabor Literário, cujas obras não ultrapassam as 200 páginas.

A verdade é que este conto de Hermann Hesse é apaixonante. O único ponto negativo é que ele não possui mais que 40 páginas, e quando o leitor está se familiarizando com o protagonista, com sua vida e o contexto que o rodeia, a história termina. A única coisa concreta que posso dizer é que a premissa de A infância do mago daria um ótimo romance, se fosse desenvolvida de acordo. Mas a idéia mesma do autor é apenas mostrar ao leitor um alento de vida, um flash da infância de um personagem aleatório (que tem muito do autor, diga-se de passagem) e o paradoxo de se tornar adulto aos poucos.

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A essência do conto gira justamente em torno dessa idéia: a agonia de se tornar adulto, desprender-se das fantasias da infância, ser forçado a aceitar uma realidade com a qual não se concorda. O protagonista, no início da história, narra a sua vida despreocupada de menino que vive em uma cidadezinha rural afastada da metrópole, com seus celeiros, seus bosques, seus rios e seus animais. Uma das belezas do conto está na riqueza dos detalhes da vida infantil do menino, com suas suposições, seus sonhos, suas aspirações e suas vivências. Experiências que são compartilhadas, se não universalmente, pelo menos por boa parte da população mundial.

Aos poucos, o garoto vai crescendo e deixando de lado as experiências infantis, até que adquire a consciência de que está de fato entrando na realidade – ou, como ele mesmo gosta de dizer, no mundo dos adultos, que antes lhe parecia ridículo. Eu diria que a segunda beleza do conto está nesse processo de amadurecimento, que põe lado a lado o mundo das crianças (com sua despreocupação aberta) e o mundo dos adultos (com suas regras "ridículas" e aborrecidas). As reflexões que partem daí são excelentes e, embora rápidas, deixam o leitor pensando no assunto por um bom tempo.

Se os livros no Brasil não fossem absurdamente caros, eu teria levado o volume para casa na mesma hora. Mas, realmente, não deu. De qualquer maneira, fica a dica para quem quer gastar alguns minutos lendo um dos melhores contos que tive a oportunidade de ler esse ano.

19 setembro 2011

O Senhor das Moscas, de William Golding

"A verdade é que o medo não pode machucar vocês mais do que um sonho." (p. 92)
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Durante a madrugada deste dia, finalizei a leitura do livro O Senhor das Moscas (The Lord of the Flies, 1953), escrito pelo britânico William Golding, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1983, dado pelo conjunto de sua obra. Numa incrível coincidência, acabo de descobrir que Golding completaria 100 anos de idade hoje, caso não tivesse morrido de insuficiência cardíaca há quase duas décadas.

Ele deixou para trás uma obra famosíssima: O Senhor das Moscas. Às vezes, o glamour de um clássico se dá mais pelo mito que se criou em volta dele do que pela qualidade da obra em si. É o que eu percebo em alguns livros que são tidos como "imortais" e "um dos melhores de todos os tempos": pouca qualidade artística e muito confete jogado em cima deles, tanto pela crítica quanto pelo público.

O Senhor das Moscas se situa numa espécie de meio-termo entre os clássicos que são bons pela qualidade que possuem e os clássicos que são lembrados apenas por sua excentricidade. No balanço geral, entretanto, considero a obra-prima de Golding de fato um ótimo romance, que deve ser lido por todos aqueles que se interessam por análises sociais fornecidas pela literatura.


Sinopse: Um avião lotado de crianças e adolescentes cai numa ilha deserta. Os jovens sobrevivem e, aos poucos, vão se reunindo num grande grupo. Em assembléia, os meninos designam um líder. Longe dos códigos que regulam a sociedade dos adultos, esses jovens terão de inventar uma nova civilização, alicerçada exclusivamente nos recursos naturais da ilha e em suas próprias fantasias.

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Edição de 1983 da Nova Fronteira e edição no original inglês


Quando o livro foi lançado pela primeira vez, na metade do século passado, não tardou muito para que a crítica o rotulasse como uma parábola moderna sobre as relações primitivas entre seres humanos, ou como uma fábula política que retratava as várias facetas (ou máscaras) que o Homem pode assumir quando em contato com seus semelhantes.

De fato, vários elementos da história fazem referência a elementos da nossa sociedade: é o caso da fogueira dos meninos, que simboliza a civilização e o bom-senso; da concha, que faz referência à ordem e à democracia; do Bicho, que, nos dias atuais, bem que poderia ser relacionado ao medo que as pessoas têm do terrorismo invisível que está em todas as partes. Diversos detalhes que Golding pôs em sua trama seguem o exemplo de leis específicas que regem o comportamento humano em grupo, e, nesse caso, O Senhor das Moscas é um estudo perfeito para os interessados no tema.

É interessante acompanhar os personagens com cuidado, já que todos eles têm uma personalidade bem própria de cada um, e essa personalidade varia de acordo com os contatos que são feitos entre os garotos. O líder Ralph, por exemplo, vai amadurecendo ao longo dos capítulos, e sua postura é alterada dependendo do grupo ao qual ele se dirige – se se dirige aos "pequenos", Ralph fala tal qual um político querido ao seu povo; se está com Jack, suas palavras tornam-se mais cautelosas e breves.


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Cena da primeira adaptação cinematográfica do livro (1963)

Os diálogos entre os personagens são pra lá de excelentes, responsáveis pela maior parte da qualidade do livro. Eu sempre achava interessantíssimo quando Ralph convocava uma reunião de emergência entre os meninos, adotando uma postura séria e às vezes demagoga que pode ser percebida hoje em dia em muitos líderes de Estado. Nessas horas, Porquinho (personagem mais notável do livro) servia como uma espécie de conselheiro e braço direito de Ralph. Não dá para deixar de fazer um paralelo com o nosso distorcido sistema democrático.

Por mais que o leitor não simpatize com nenhum personagem logo no início do livro, uma hora ou outra ele vai tomar o partido de alguém. É extremamente difícil ficar neutro durante os debates entre os garotos; sempre aparece aquele do qual você discorda e com o qual você concorda. A frase que abre esta resenha, de longe a melhor frase do romance, foi tirada do diálogo de um desses debates entre os personagens.

A parte mais interessante da história acontece quando o grupo de selvagens é criado, em resposta ao grupo civilizado e organizado. Não vou falar muito sobre isso para não estragar a surpresa de quem vai ler o livro. Mas, sem dúvida, posso garantir que é a parte que ilumina a obra e, de quebra, cria toda a ação dos três últimos capítulos.

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Cena do remake do primeiro filme baseado no livro (1990)

O único fato relativamente negativo de O Senhor das Moscas é que ele é um romance descritivo demais. Várias páginas no decorrer do livro procuram pintar um quadro exato da natureza claustrofóbica da ilha, e isso toma o lugar das descrições psicológicas dos personagens, muitas vezes. Não que seja algo totalmente ruim; definir o cenário da trama é, aliás, imprescindível. Mas fiquei com a sensação de que ele poderia ter feito a mesma coisa com os personagens. Não raro eu sentia falta de um aprofundamento psicológico, de um parágrafo intimista, de um diálogo mais extenso.

E é aí que entra a minha colocação de que o livro é, em parte, dotado de uma certa aura mística que ajuda a consumar sua fama. Há uma espécie de lacuna na obra que é preenchida pela boa vontade e entusiasmo antecipado do leitor, sem dúvida. Não quero, com isso, dizer que o romance é ruim. Não mesmo! Adorei tê-lo lido. Apenas prefiro classificá-lo como uma aventura dotada de muitos elementos sociológicos, e não como um estudo social digno de figurar nos compêndios do tema.

Mesmo assim, a qualidade literária da obra não é prejudicada nem um pouco. O romance continua sendo uma referência no campo ficcional dos livros de naufrágios, com mérito. De acordo com o prefaciador Santiago Nazarian, quando William Golding escreveu O Senhor das Moscas, livros que retratavam pessoas perdidas em ilhas não eram nenhuma novidade. No entanto, o que fez com que a obra do inglês se destacasse das demais foi a maneira com que ele abordou o tema – até então, inédita – na qual podemos vislumbrar um estudo tímido sobre a invenção da selvageria.


O Senhor das Moscas (1953)

William Golding

220 páginas

Editora Nova Fronteira

Nota: 8,5 / 10

06 junho 2010

Beleza e tristeza, de Yasunari Kawabata

"Mas um romance tem de ser necessariamente uma coisa bela?" (p. 72)

Beleza e tristeza Yasunari Kawabata

Mais uma vez, venho a escrever um artigo a título de tapa-buraco, visto que tenho de atualizar o blog regularmente e não tenho nenhum livro inédito para resenhar por enquanto. O livro que estou lendo atualmente possui quase 800 páginas em formato tradicional, e, até que eu o acabe, muitas semanas ainda se passarão.

Sendo assim, para que elas (as semanas) não passem sem atualizações no Artigos Efêmeros, estou sorteando livros da minha estante que merecem uma resenha aqui no site.

Dessa vez, indo contra as expectativas, o livro sorteado foi Beleza e tristeza (Ustukushisa to kanashimi to, 1961), escrito pelo japonês prêmio Nobel de Literatura Yasunari Kawabata, cujo famoso suicídio com gás de cozinha chocou toda a comunidade literária.

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Sinopse: Nesta história de paixão, ao mesmo tempo lírica e aterradora, narrada com a mais desconcertante serenidade, Oki Toshio, um escritor de meia-idade, faz uma viagem nostálgica a Kyoto para ouvir os sinos dos templos soarem na noite de Ano-Novo. É movido também por outro desejo: reencontrar Otoko, que fora a sua amante vinte e quatro anos antes e que agora é uma pintora de renome.

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Antes de tudo, quero fazer uma correção sobre algo que eu disse na resenha do livro Infância, de algumas semanas atrás. Eu disse que Coetzee era o segundo prêmio Nobel de Literatura que eu tinha lido, depois de Saramago. O problema foi que esqueci de contar com Kawabata, que conquistou o título em 1968, e o qual eu havia lido antes mesmo de Coetzee. Pois é.

Li Beleza e tristeza numa época em que eu ainda estava sendo muito influenciado pelos livros de Haruki Murakami e Natsume Soseki, dois autores que considero excelentes e, até certo ponto, muito parecidos entre si, embora pertençam a épocas e estilos tão distintos. Surfando ainda nessa mesma onda de obras nipônicas, flertei com esse último romance escrito por Kawabata (Beleza e tristeza) e pensei que fosse encontrar algo que lembrasse Murakami ou Soseki. Não encontrei.

Que os fãs do autor e a banca julgadora da Academia me desculpem, mas Beleza e tristeza foi um romance que me decepcionou. Embora a história tenha, sem dúvida, uma premissa interessante, Kawabata a tratou de uma forma maçante, obstruída, lenta. Posso estar cometendo uma heresia literária ao falar isto, mas nunca fui fã de romances essencialmente densos, essencialmente subjetivos. Valorizo bastante a ação calculada, valorizo o comportamento dos personagens, e não unicamente o que eles pensam ou deixam de pensar. (Será isso um sinal da minha preferência pela Análise do Comportamento na Psicologia?) Enfim, valorizo mais os textos de autores que abordam as coisas objetivamente.

Não quero dizer que Beleza e tristeza seja um desses romances absolutamente subjetivos, mas nota-se, desde as primeiras páginas, uma preferência pelo psicológico, pelo interior das personagens. Há também o fato de que as muitas passagens referentes a arquitetura e a pintura, ao longo do texto, chateiam o leitor, principalmente porque vêm acompanhadas de notas de rodapé explicativas (coisa que atrapalha a leitura, na minha opinião). Kawabata sonhou ser um pintor reconhecido, mas, frustrado, decidiu transportar técnicas de pintura (e referências à pintura) para os livros.

Autores como Soseki, por exemplo, conseguem levar o leitor para dentro da história; conseguem fazê-lo se identificar com os pensamentos dos personagens, com o que eles fazem e com o que eles sentem. Haruki Murakami também consegue isso, em maior grau até. Mas no caso de Beleza e tristeza, a história parece não engatar mesmo.

O.K., basta de falar mal do livro. Ele não chega a ser tão decepcionante assim; para quem gosta do estilo e da técnica de Kawabata, é um prato cheio. Não sei por quê, sempre chego a me arrepender um pouquinho por criticar um livro (a frase da página 72, lá em cima, não foi escolhida por acaso). Sendo assim, que tal citar os pontos positivos da obra? Kawabata escreve bem, tem ótimo domínio sobre as palavras e seus personagens possuem personalidade forte.

Por fim, resta dizer que a capa da edição brasileira da Globo está muito bonita (mas muito bonita mesmo). É umas das capas mais bonitas que possuo aqui em casa. Esse desenho nostálgico que parece ter saído de algum mangá da década de 60 é mesmo belo e bem traçado. Embelezou e muito a obra.

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Conclusão: Que o leitor se informe melhor antes de lê-lo.

21 maio 2010

Infância, de J. M. Coetzee

"O coração dele é velho, sombrio e duro, um coração de pedra. Esse é o seu segredo desprezível." (p. 113)

Infância J. M. Coetzee

Hoje pela manhã, antes de sair para almoçar um delicioso peixe frito com minha melhor amiga, eu finalizei a leitura do romance Infância (Boyhood – scenes from provincial life, 1997), cujo autor, o africânder John Maxwell Coetzee, recebeu o Nobel de Literatura em 2002 pelo conjunto de sua obra.

Coetzee é o segundo Nobel que leio. O primeiro foi Saramago ("Saramargo", como diz Natália, minha amiga), com os romances Ensaio sobre a cegueira (1995) e Intermitências da morte (2005). Gostei dos dois, mas o estilo do português não me animou muito, e acabei deixando os demais para a outra vida, se é que ela existe. (Azar o meu se não existir.)

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Sinopse: 'Infância' narra em terceira pessoa o processo de formação da personalidade de John, um jovem cuja infância é solapada pela presença de um pai falastrão e perdulário, uma mãe apática e a realidade hostil e violenta da África do Sul pós-Segunda Guerra Mundial. Refugiado nos livros e na introspecção, John procura sobreviver à própria infância.

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Infância é o primeiro livro da trilogia ficcional autobiográfica que se segue com Juventude (2002) e Verão (2009), este último lançado recentemente pela Cia. das Letras. Só li o primeiro, e ainda estou pensando em ler os outros. Talvez valha a pena. Pelo que pude perceber através da leitura de Infância, Coetzee é um daqueles autores que, embora não tenham uma narrativa sublime, pelo menos fisgam o leitor de uma maneira diferente e fazem com que ele se fixe nos seus livros.

Ainda que as primeiras páginas não tenham me atraído da forma como eu esperava, me identifiquei bastante com inúmeras passagens da história. São coisas que aconteceram na minha infância e também na de Coetzee, e que estão lá no livro, retratadas todas de uma maneira fria, imparcial e quase masoquista. Coetzee sofrendo com os colegas truculentos da escola, Coetzee enfrentando obstáculos para tomar a decisão de que religião seguir, Coetzee tendo dificuldades de relacionamento com a família. Com essas e com outras passagens é inevitável o leitor se identificar.

Um ponto forte da obra é a sinceridade com que o autor conta aquela infância: uma criança relativamente mimada, detentora de poderes maiores do que o normal, que, embora seja ocasionalmente rude com a mãe, o pai e o irmão, sempre se vê em apuros fora de casa. O tipo de criança que tem imponência sobre o lar, mas, fora dele, está sujeita às outras crianças.

Algo interessante de se notar é que, ainda que seja comum em livros do gênero "desenvolvimento da puberdade", neste as reflexões sobre sexo são mínimas. Coetzee parece muito mais inclinado a relatar uma infância em que o principal marco foi a falta de referências dentro de uma sociedade, e não pensamentos povoados por delírios eróticos e atos masturbatórios, como geralmente encontramos em obras cujo objetivo é narrar a saga pubertária de alguém.

Quem conta a história é um narrador em terceira pessoa distante e onisciente, impiedoso, sempre pondo os verbos no presente. Uma das coisas bem originais e interessantes do livro é que o protagonista é sempre referido como "ele", nunca pelo nome, John (mencionado apenas uma única vez durante um diálogo). Isso prova que, quando um escritor quer ser excêntrico e inovar na maneira de contar histórias, pode fazê-lo sem grosseria, de modo fluido, cujo ritmo o leitor acompanha numa boa. Mas o escritor tem que ser realmente bom para tanto.

Outra característica muito chamativa de Infância é a quase ausência de diálogos. Alguém poderia parafrasear Alice e dizer: "De que servem livros sem gravuras ou diálogos?", mas aqui Coetzee nos mostra outra excentricidade que ele faz o leitor acompanhar sem sofrimento. Cedo você descobre que o diálogo não é exatamente o melhor que o livro oferece; descobre que o melhor está nas descrições dos sentimentos e dúvidas do protagonista, naquilo que ele faz e que um dia você também fez quando criança.

A melhor parte, sem dúvida, é quando ele está na fazenda Voëlfontein!

Conclusão: Um livro que vale a pena ser lido.

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Natália parte uma posta do peixe com o garfo, olha para mim e pergunta: "Você vai ler os outros dois, Juventude e Verão?"

"Talvez", respondo com o copo de refrigerante na mão. "Esse que eu acabei de ler foi um livro muito bom, mas ainda estou pensando no que fazer com o restante da trilogia. Para ser sincero, nem sei que qualificação dar-lhe no Skoob. Estou em dúvida entre 4 estrelas e 5 estrelas."

Ela franze o cenho. Pensa um pouco com os olhos voltados para o prato, e depois os põe sobre mim, sorrindo. Vai dizer algo importante, imagino. E diz mesmo:

"Se você está na dúvida, é melhor colocar mesmo 4 estrelas. Se fosse para colocar a nota máxima, você não estaria pensando nisso."

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Abaixo, disponibilizo o trailer do filme Desonra, baseado no livro homônimo de Coetzee. O filme é estrelado por John Malkovich e, pela prévia, eu me interessei bastante. (Atenção para a ótima fotografia geral da película.)

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