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20 novembro 2017

Hollywood, de Charles Bukowski



"O filme aparecia numa pequena tela que parecia um aparelho de TV. Passavam os créditos. Depois, vinha meu nome. Eu fazia parte de Hollywood, pelo menos por um pequeno instante. Era culpado."

Vivendo tempos atarefados que sugam toda a minha disposição para escrever o que quer que seja, descobri que a leitura de um bom Charles Bukowski é suficiente para me devolver alguma motivação para continuar alimentando este blog. O velho maldito alcoólatra ainda consegue me maravilhar com as suas palavras sinceras e diretas, e é somente um escritor do seu calibre que me faz sentar – depois de tanto tempo parado – diante de um editor de textos em um domingo à noite para esboçar uma resenha breve sobre um livro.

O Bukowski que terminei de ler hoje foi Hollywood (Hollywood, 1989), o seu último romance protagonizado pelo carismático (mas às vezes não tão simpático) Henry Chinaski, alter ego mundialmente famoso do velho Buk, tão alcoólatra, tão pervertido e tão ferino com as palavras quanto o seu criador de carne e osso.

A trama do romance é baseada nas experiências que Bukowski viveu enquanto escrevia o roteiro do filme Barfly, lançado em 1987, dirigido por Barbet Schroeder e protagonizado por Mickey Rourke e Faye Dunaway. Suas experiências como roteirista, na vida real, incluíram lidar com produtores e atores excêntricos, adaptar-se aos cortes de orçamento e encarar a nostálgica sensação de revisitar, através do próprio roteiro com traços autobiográficos, uma parte já distante de sua vida – os anos de alcoolismo mais pesados, a pobreza cruel, a incerteza de um futuro que só parecia querer condená-lo à miséria. Hollywood é basicamente sobre essa experiência de escrever um filme nos bastidores do cinema marginal de Los Angeles. No livro, temos Chinaski escrevendo o roteiro do filme A dança de Jim Bean, mas parece ser Bukowski quem está falando sobre ter escrito o roteiro de Barfly para a indústria do cinema.

Aliás, arrisco dizer que, em Hollywood, Chinaski e Bukowski se confundem mais do que em qualquer outro romance do escritor. Aqui, Chinaski é a transcrição literária exata do próprio autor que lhe dá vida: as loucuras feitas na jovem idade adulta são virtualmente as mesmas, o amor pela bebida é o mesmo, a relação com a escrita é semelhante. Frequentemente, o leitor se pega lendo “Bukowski” no lugar de “Chinaski”. Para quem conhece a obra do autor, essa simbiose nunca precisou ser disfarçada ou negada: é justamente a semelhança clara entre Bukowski e Chinaski que dá o sentimento necessário para que seus livros sejam adorados. E para que soem realmente autênticos.

"O roteiro ia bem. Escrever nunca foi trabalho para mim. Sempre fora assim, desde quando me lembrava: ligar o rádio numa estação de música clássica, acender um cigarro ou charuto, abrir a garrafa. A máquina fazia o resto. Eu só precisava estar ali. Todo o processo me permitia seguir em frente quando a vida oferecia tão pouco, quando a própria vida era um espetáculo de horror. Sempre havia a máquina para me acalmar, conversar comigo, me entreter, salvar meu rabo. Basicamente, era por isso que eu escrevia: para salvar meu rabo, salvar meu rabo do asilo de doidos, das ruas, de mim mesmo."

Faye Dunaway, Charles Bukowski e Mickey Rourke nos bastidores de Barfly, em 1987

Entre as relações conturbadas – e algumas até amistosas – com produtores, diretores, atores e atrizes caprichosos e geniosos, o Chinaski que salta das páginas é um velho simpático, reservado, bondoso e finalmente sossegado. Ele vive sua vida pacata entre a máquina de escrever, as garrafas de vinho, o hipódromo, sua esposa e os gatos de estimação, aparentando – como sempre aparentou – não querer mais nada além do que já tem. Ele está visivelmente equilibrado financeiramente e sua carreira como escritor maldito parece consolidada. Quando o diretor underground Jon Pinchot surge já na primeira página lhe pedindo para começar a escrever um roteiro para o cinema, Chinaski reage com desinteresse e até com certo desdém diante da proposta, mas a aceita, relutante, meio que curioso para ver aonde essa empreitada pode levar – os 20 mil dólares prometidos, claro, ajudam a convencê-lo.

E acaba que a aventura rende bons episódios. Dentre as situações mais hilárias certamente estão as visitas de Chinaski e Sarah – sua esposa – à casa de Jon Pinchot e François Racine, um ator decadente. Ambos moram durante um tempo em um casebre localizado num bairro periférico de Los Angeles com altos índices de criminalidade, cujos vizinhos delinquentes e perigosos perturbam a sanidade de François. Há também as engraçadíssimas entrevistas que Chinaski concede a emissoras locais e internacionais, durante a produção do filme, nas quais o escritor zomba descaradamente da vida bizarra e até certo ponto falsa que artistas e críticos vivem em Hollywood. Está presente também o apego tragicômico de Chinaski ao álcool – o que sempre rende as situações mais inusitadas dos seus livros – e uma hilária e surreal ameaça de automutilação por parte de um dos personagens centrais. Hollywood é um legítimo romance de Bukowski, e seus leitores não sentirão falta da atmosfera pegajosa, engraçada e vulgarmente humana encontrada nos outros livros do autor.

"Voltei ao hipódromo. Às vezes me perguntava o que fazia ali. E às vezes sabia. Entre outras coisas, aquilo me permitia ver grande número de pessoas sob a pior luz, e isso me mantinha em contato com a realidade do que era feita a humanidade. A ambição, o medo, a raiva, tudo estava ali."



Leio Bukowski há mais de uma década. Nesses quase dez anos, acompanhei um Chinaski à deriva, perdido entre mulheres, empregos, idas ao hipódromo e fugas viscerais da realidade auxiliadas por uma máquina de escrever. Hoje, em Hollywood, encontrei um Chinaski diferente: um cara que vive sem sobressaltos, apoiado em alguma sabedoria extraída das experiências que teve ao longo da vida – ainda uma figura excêntrica, mas mais assentada, mais adaptada ao sistema. O que dá humanidade aos escritos de Bukowski/Chinaski é precisamente a sua capacidade de humanizar o trágico lado imundo da vida – de dar sentido à sarjeta, voz aos desajustados, graça à marginalidade. Em diversas passagens de Hollywood, Chinaski fala que odeia as pessoas, mas, bem feitas as contas, a força de sua literatura reside exatamente na paixão com que ele observa todos que circulam ao seu redor e na espontaneidade com que relata seus encontros com a humanidade.

Me parece curioso que tenhamos nos encontrado, eu e esse personagem, em momentos de mais maturidade para ambos. Há livros e autores que são lidos em momentos certos, sem que tenhamos planejado isso. É uma das magias da literatura. Viva Chinaski. Agora, me resta lamentar ter lido o último romance de Bukowski que faltava.

Vai o autor, ficam os livros – e as lembranças.

13 abril 2014

Nos bastidores do Pink Floyd, de Mark Blake

"(…) o rock estava desesperado para ser levado a sério como forma de arte." (p. 200)

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Era uma manhã de sábado quando minha ex-namorada me telefonou e disse que tinha uma notícia capaz de me deixar muito feliz. Sem conseguir deduzir que notícia era essa, pedi que ela rompesse com o suspense e me contasse logo. "Finalmente lançaram uma biografia do Pink Floyd", ela revelou. "Acabei de ver na televisão. Um jornalista conceituado norte-americano publicou um livro em que conta a história da banda desde os primórdios até pouco depois do Division Bell." E ela encerrou a ligação dizendo: "Bom, achei que você gostaria de saber."

Mas é claro que eu gostei de saber. Como grande admirador da banda britânica de Cambridge desde criança (lembro de ouvir meu pai colocando os clássicos Time e Wish You Were Here para tocar em casa, durante bons domingos modorrentos), a notícia de que alguém finalmente havia se dado ao trabalho de contar a história do Pink Floyd me encheu de animação. Há anos reunindo discografia, bootlegs, DVDs e pequenos documentários na internet, eu senti que com o advento daquele livro uma grande parte da minha sede de informações sobre os bastidores da banda seria saciada; havia algo naquela biografia que poderia ser chamado de definitivo.

Sendo assim, eu deveria colocar minhas mãos nela o quanto antes. No Brasil não havia até então um livro completo sobre a história do Pink Floyd, e por isso a perspectiva de entrar em contato com um trabalho profundo como esse era agradável.

Para escrever Nos bastidores do Pink Floyd (Pigs might fly: the inside history of Pink Floyd, 2007) Mark Blake fez um trabalho digno de um bom jornalista documental e realizou entrevistas extensas com os integrantes da banda, com produtores, colegas de trabalho, amigos, namoradas, críticos musicais e até mesmo outros músicos ligados aos rapazes de Cambridge. O resultado é um livro de 450 páginas que esmiúça detalhes da trajetória do Pink Floyd desde as formações iniciais na década de 1960 até os álbuns pós-Waters, passando pelas conturbadas turnês e pelas famosas brigas judiciais. Blake encerra a obra momentos depois da morte de Syd Barrett, em 2006, descrevendo um evento em que o ex-fundador do conjunto é homenageado por amigos e pelos ex-colegas de banda.


Sinopse: Criada em Cambridge, na Inglaterra, Pink Floyd é considerada uma das bandas de rock progressivo mais influentes do mundo. Famosa por suas letras contestadoras e shows bem elaborados, a banda que vendeu mais de 230 milhões de álbuns em todo o mundo também ficou muito conhecida pela desordem e pelo desentendimento dos integrantes, que algumas vezes chegaram a sobrepujar as conquistas. Interessada em desvendar os mistérios que cercam a polêmica história da banda, a Editora Évora, pelo selo Generale, traz ao Brasil Nos Bastidores do Pink Floyd, a mais completa e detalhada biografia deste ícone do rock moderno.


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O início do livro é um verdadeiro convite à atmosfera psicodélica e criativa dos anos 1960, quando teve início a história daquela banda que viria a ser conhecida no mundo todo. "Leitura prazerosa e informativa" é uma boa expressão para qualificar esta biografia. Fãs de Pink Floyd irão encontrar na obra de Blake muitas informações que, de alguma maneira, já são lugares-comuns na história do conjunto, mas que aqui adquirem um tom formal e vêm acompanhadas de detalhes muito interessantes e até então inéditos. Por exemplo, a substituição de Barrett por Gilmour nos palcos – e, depois, na formação oficial da banda – é rica em testemunhos e relatos pessoais, o que nos dá uma compreensão mais ampla da história. Cada membro dá a sua visão sobre os acontecimentos que afetaram a trajetória da banda, e o autor costura esses depoimentos com grande habilidade, construindo uma cronologia perfeita.

Para clarear um pouco os momentos turbulentos do Pink Floyd, Blake chega a citar episódios controversos como, por exemplo, a ira de Roger Waters ao cuspir no rosto de um homem sentado na primeira fileira da plateia, durante a turnê de Animals em 1977, fato que o impulsionou a criar a obra-prima The Wall – amargurado, o álbum é praticamente uma retrospectiva de sua vida. Como não poderia deixar de ser, temos também detalhes acerca da elaboração de The Dark Side of the Moon, divisor de águas na carreira do grupo, e tudo o que levou a banda a começar a se desentender a partir da década de 1970. São constantes as referências às outras bandas da época – como Yes e Beatles – e às revistas que opinavam sobre a performance do Floyd nos estúdios e nos palcos.

Juntando tudo isso, chegamos a uma conclusão óbvia: muito mais do que um amontoado de curiosidades sobre o Pink Floyd, o livro de Blake é um documento extremamente detalhado e lúcido sobre a biografia da banda como um todo – além de conter longos trechos que também lançam luz sobre os passos de cada membro fora da banda, seja nas suas carreiras solo, seja na sua vida pessoal. Destaque para a cobertura que o autor nos fornece acerca de Syd Barrett – após ser demitido do grupo no final da década de 1960, ele esboçou uma carreira solo e viveu uma vida reclusa e enigmática.

Para os fãs que leem o livro, é muito agradável e empolgante acompanhar a ascensão do Pink Floyd, que começou tocando em clubes noturnos locais regados a ácido lisérgico e, depois, em sua fase madura, lotava estádios e produzia shows pirotécnicos dignos de deixar qualquer cético abalado – gerando, claro, milhões de dólares no processo. Talvez mais empolgante ainda é acompanhar, passo a passo, a produção e a elaboração de todos os CDs de estúdio da banda, incluindo aí o mítico encontro do Floyd com os Beatles durante a gravação de The Piper at the Gates of Dawn, no lendário Abbey Road.

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A biografia tem o grande mérito de não se perder em detalhes técnicos enfadonhos sobre o mundo corporativo da música e, assim, consegue alcançar uma escrita leve, embora densa pela quantidade de informações que traz consigo. De fato, o livro parece priorizar mais as questões humanas da vida pessoal de cada membro e da experiência deles enquanto quarteto de rock. Tanto é que grande parte da primeira metade da obra conta com os testemunhos de Libby Gausden, namorada de Barrett na época em que o Pink Floyd era ainda uma ideia difusa. Valendo-se de uma visão em retrospecto quase nostálgica, Libby revela um pouco da atmosfera dos anos 1960 e conta casos específicos envolvendo o ex-namorado, além de detalhes da personalidade de Syd.

É fácil perceber como o grupo começou a criar tensão depois do sucesso de The Dark Side of the Moon. Como diria Nick Mason, a popularidade do álbum clássico da banda fez todo aquele dinheiro e toda aquela fama surgirem de repente – e os rapazes de Cambridge não sabiam muito bem como lidar com isso, o que acabou levando todos a disputarem mais acirradamente seu espaço na banda. De modo que, além de descrever a produção dos álbuns de estúdio do Floyd nos anos 1980, a segunda metade da biografia aborda detalhes do que seria a principal preocupação do grupo naquela época: questões judiciais envolvendo os direitos de cada membro, sobretudo de David Gilmour e Roger Waters. O clima de fim de festa nessa altura do livro não passa despercebido: é como se, realmente, o Pink Floyd devesse admitir que o melhor que tinham a oferecer já havia ficado para trás há muito tempo.

A escrita do autor chega a ser quase neutra ao relatar polêmicas e acontecimentos turbulentos, o que dá ao livro um caráter bem-vindo de seriedade. Rico em informações de todo tipo, fiel ao seu objetivo de detalhar o surgimento e a trajetória da banda, Nos bastidores do Pink Floyd é leitura obrigatória para os fãs de carteirinha do conjunto.

22 março 2014

O Torreão, de Jennifer Egan

"A gente estava aqui achando que não tinha nada em comum além do lugar em que a gente veio parar e, durante todo o tempo, estávamos fazendo a mesma coisa: captando sinais de fantasmas." (p. 102)

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Os olhos do mundo inteiro estão voltados para a escritora norte-americana Jennifer Egan desde que ela lançou um romance chamado A visita cruel do tempo, já resenhado aqui no blog, e ganhou o Pulitzer de Ficção 2011 por causa dele. Muito cedo o público e a crítica reconheceram Egan como uma autora tipicamente pós-moderna, capaz de subverter gêneros, moldar as técnicas narrativas a seu bel-prazer e, mesmo assim, apresentar ao leitor uma história que vale a pena ser lida.

Isso é raro hoje em dia – colocar a técnica a serviço de uma boa história. A visita cruel do tempo, por exemplo, é um livro que assusta os leitores desavisados pela aparente ruptura com qualquer estilo de narração convencional: nesse romance, a autora escreve capítulos em primeira, terceira e segunda pessoa, insere uma extensa apresentação de Power Point no meio da trama e segue uma cronologia totalmente embaralhada. De fato, esses são ingredientes que poderiam resultar em um grande fiasco experimentalista, mas Egan é talentosa demais para se deslumbrar com o que ela mesma escreve: em vez disso, lúcida, revela que para além de toda aquela aparente subversão do texto existe uma história emocionante que toca a todos nós. A técnica ousada não está ali para desconstruir a história, mas, pelo contrário, para ajudar a contá-la.

O Torreão (The Keep, 2006) segue o mesmo estilo. Nele, Jennifer Egan utiliza seu malabarismo de técnicas para manter um certo suspense e construir com cuidado as bases da sua proposta. A primeira palavra que me vem à cabeça para classificar este livro é "inventivo", porque, aos poucos, na medida em que vamos virando as páginas, os elementos inseridos pela autora na trama vão tomando proporções enormes e mostrando o quanto a história é mesmo surpreendente.


Sinopse: Nos confins da Europa Oriental, um misterioso castelo resistiu a centenas de anos, apoiado no orgulho e na tradição de uma família. Até que Danny, um cínico nova-iorquino de trinta e seis anos que raramente vai a algum lugar que não tenha conexão wi-fi, chega para ajudar seu enigmático primo a reformar o castelo e transformá-lo em um hotel de luxo. Mas as coisas começam a ficar estranhas. Uma baronesa sinistra, um trágico acidente em uma piscina mal-assombrada, um traiçoeiro labirinto subterrâneo... Quando o pânico toma conta de Danny, ele descobre que a "realidade" pode ser algo em que ele não consegue mais acreditar.


Com O Torreão aconteceu exatamente a mesma coisa que ocorreu com A visita cruel do tempo: virei a última página do livro e tive vontade começar a leitura de novo, desde o início. Ambos são livros que nos deixam com esse desejo de uma releitura imediata. É difícil explicar por que isso acontece, mas tenho um palpite: O Torreão é um desses romances que podem ser visualizados como um quebra-cabeça. Eis que, quando chegamos ao último capítulo – ou seja, quando montamos a peça inteira – tudo parece fazer um sentido tal que nos deslumbra a ponto de querermos desmontar tudo e voltar à estaca zero, agora munidos de uma compreensão mais completa da figura a ser formada. E essa releitura nos fornece um tipo de deleite, pois estamos agora certos do que vamos encontrar pelo caminho, e então podemos nos ater aos detalhes que deixamos escapar antes.

O livro é, do início ao fim, um exercício de metalinguagem que nos coloca ora ao lado do narrador, ora ao lado do personagem principal, ora ao lado de um terceiro elemento. E no final das contas ficamos nos perguntando quem é de verdade o "personagem principal" de O Torreão, se é que ele existe mesmo. Seria Danny, com a sua personalidade egocêntrica e quase infantil? Howard, o transformado primo do passado? Ray, que parece fazer as vezes de um deus ex machina? A propósito, aqui Jennifer Egan pratica este que é um dos seus maiores apetites: a polifonia. Cada personagem central do romance parece ter a sua vez de contar a história, e a impressão que dá é a de que o texto está sendo sempre manipulado por alguém. Nisso reside uma grande parte da inteligência da obra: fazer o leitor acompanhar não apenas o que está se passando com os personagens, mas, também, quem está contando essa história.

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É curioso notar como o tempo é um elemento sempre presente nos livros de Jennifer Egan. Se na obra-prima da autora essa preocupação com o tempo é explícita, em O Torreão ela é mais sutil, deixando-se perceber apenas nas entrelinhas. Danny, um dos personagens principais, é um viciado em internet que está sempre a perceber o tempo da sua vida escorrendo por entre seus dedos, e não raro ele se questiona sobre o que conseguiu fazer de relevante até agora. Howard, outro personagem central, só tem seu peso na trama por causa da passagem do tempo – da mudança que se operou nele desde os anos da infância até agora. Ray é um presidiário que, como todos os presidiários, está preso a um evento do seu passado – e o que ele pode fazer com o seu presente é algo de que depende sua própria redenção.

Por fim, O Torreão é um romance que declaradamente presta homenagens à Imaginação, essa capacidade que pode nos abrir portas, reais ou abstratas, e fazer a realidade material parecer apenas uma nota de rodapé. Neste romance, Jennifer Egan utiliza vários artifícios que nos fazem enxergar o poder da imaginação: seja pela atmosfera gótica que a autora constrói nos primeiros capítulos (e que lança o leitor numa espécie de aventura surreal), seja pela metalinguagem do texto, seja pelo fato de que tudo aquilo que estamos observando agora pode ser fruto da cabeça de uma única pessoa. Nesse caso, o que fazer? Em que personagem acreditar?

O Torreão mexe com o leitor de alguma maneira – e pelo que pude perceber até agora, o objetivo dos livros de Egan é esse mesmo.

05 março 2014

Rio de fumaça, de Amitav Ghosh

"É um pecado entre nós faltar com a palavra para com aqueles cujo sal comemos". (p. 507)

115870647SZ Amitav Ghosh Credit Jerry Bauer

Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir sinceras desculpas aos leitores deste blog pelo tempo exageradamente longo que passei sem publicar uma única resenha. Aconteceu o contratempo de sempre, do qual inclusive já me desculpei em outras ocasiões: faltou-me tempo e, não minto, alguma disposição para atualizar o Gato Branco. Além disso, no meu cotidiano, a boa literatura ficcional andou perdendo espaço para a leitura obrigatória de livros técnicos da faculdade. Suplico à Providência que jamais chegue o dia em que os ensaios acadêmicos e os artigos científicos obstruam totalmente minha dedicação à literatura.

O fato é que, hoje, estou aqui para comentar sobre um magnífico livro que li há mais de três meses e do qual guardo ainda saborosas impressões. Trata-se de Rio de fumaça (River of smoke, 2011), do escritor indiano Amitav Ghosh, um dos meus autores contemporâneos favoritos desde que li seu ótimo Maré voraz – que aborda o singular encontro entre uma jovem bióloga e um intérprete de negócios no coração de um arquipélago esquecido do Índico.

Rio de fumaça é a continuação direta de Mar de papoulas e o segundo volume da Trilogia Ibis, que Ghosh concebeu para contar a história do panorama político, econômico e social da Baixa Ásia durante o século XIX. Para isso, o autor criou personagens pitorescos que atravessam a trilogia e vivem os desdobramentos da movimentada vida urbana e marítima daquela época – como é o caso do marinheiro Zachary, do magnata Neel e da jovem Paulette, só para citar alguns exemplos.

As lacunas deixadas na trama e o destino incerto de todo mundo no final do primeiro romance dão margem a grandes aventuras a serem narradas em Rio de fumaça. Ciente da qualidade de Ghosh como escritor e refém da ânsia de reencontrar os antigos personagens, adquiri imediatamente o segundo livro da trilogia, assim que ele foi lançado.


Sinopse: Rio de fumaça é um livro grandioso, que capta um momento crucial na história da expansão do comércio marítimo – o tráfico do ópio na China no século XIX e seus desdobramentos mundiais. As relações entre as diferentes nações, que podem definir o futuro econômico do Império Britânico, as guerras pelo controle das rotas e o romances proibido entre um indiano e uma chinesa são os fios desta trama.


Entre 1839 e 1860, o sul da China foi palco de uma das guerras que melhor ilustram a força da ganância humana em assuntos de comércio internacional – e que revelam como essa ganância pode sobrepujar o bom-senso e levar nossa civilização à barbárie.

Servindo-se do argumento do Livre-Comércio (segundo o qual toda e qualquer relação comercial é válida, desde que a demanda pelo produto seja espontânea), os comerciantes britânicos tutelados pela Companhia das Índias Orientais insistiram em exportar ópio para a China, contrariando as leis proibitivas do então Império Chinês, que impediam a entrada da droga no continente no início do século XIX.

Na época, Cantão era o único porto da China aberto a comerciantes estrangeiros. Desde o fim das guerras napoleônicas, a Europa expandia sua política de exportação até o Extremo Oriente – e a China, já com uma das maiores populações do mundo, constituía um mercado consumidor bastante chamativo. Muito cedo descobriu-se que o ópio, essa pesada droga entorpecente derivada da papoula, era um produto adorado por grande parte da população local. Valendo-se de técnicas de contrabando que permitiam a entrada clandestina do ópio no país, os comerciantes europeus desafiaram as leis do imperador chinês e continuaram a realizar o comércio por baixo dos panos, ainda que isso significasse a degradação e a perdição dos que consumiam o produto.

Finalmente, chegou o momento em que essa realidade nociva não poderia mais ser ignorada pelas autoridades locais. A ira do imperador e dos comissários chineses contra os comerciantes estrangeiros foi tal que, em 1839, após vários alertas, o governo local apreendeu e queimou cerca de 20 mil caixas de ópio, propriedade dos britânicos. Aconteceu que a Inglaterra não tolerou o aparente abuso de poder chinês, que ia contra as leis "naturais" do Livre-Comércio, e declarou guerra à China.

Hoje, esse episódio é conhecido como as Guerras do Ópio.

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Rio de fumaça utiliza este complexo e tenso pano de fundo histórico para desenvolver a sua trama – ela própria complexa e cheia de tensão. Além de instruir o leitor e ensiná-lo sobre o passado, Ghosh consegue arrebatá-lo para a narrativa que está sendo desenrolada: consegue fazer com que nos importemos com o destino de comerciantes estrangeiros, de políticos locais e de impérios inteiros. De todos os romancistas históricos que povoam minha estante, Ghosh certamente consegue ser o mais fascinante e inventivo.

A Trilogia Ibis representa não somente um vasto painel sócio-histórico de praticamente todo o Oceano Índico durante o século XIX, mas, também, representa uma mudança de estilo na obra do próprio autor: menos conservador na estética, Ghosh agora abre mão de travessões e, quando não utiliza aspas, simplesmente joga os diálogos em meio ao texto – tal como Cormac McCarthy, por exemplo. Isso confere à sua escrita uma dinâmica e uma criatividade que convêm às sutilezas da trama de seus romances recentes, como é o caso de Rio de fumaça.

(Gosto de falar sobre a escrita de Ghosh porque, para mim, ela é um destaque do autor. Sempre clara, fluida e muito agradável, a sua prosa conduz o leitor a eventos e personagens que, nas mãos de outro, poderiam soar terrivelmente enfadonhos. Em Rio de fumaça temos uma escrita primorosa, leve e capaz de entreter um vasto público: e nas mãos de Ghosh as Guerras do Ópio e todo o seu subtexto político e econômico parecem uma grande aventura, e não uma aula maçante de História.)

Neste segundo livro da trilogia, o leitor é informado de alguns detalhes que ficaram em aberto no final de Mar de papoulas, quando o navio Ibis se encontrava em meio a uma tempestade e uma espécie de rebelião interna. Após uma surpreendente e fascinante abertura nas Ilhas Maurício, a narrativa passa para a jornada dos navios mercantes carregados de ópio rumo a Cantão, cidade onde, depois, se desenrola basicamente toda a trama principal.

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Prolixo sem ser cansativo, Ghosh descreve em detalhes a vida nesta cidade portuária de meados do século XIX, quando os estrangeiros eram proibidos de entrar no continente propriamente dito e ocupavam o chamado Enclave Estrangeiro – ou Fanqui-town, um pedaço de terra litorâneo de onde não poderiam sair. A descrição desse lugar se dá principalmente através das palavras do personagem Robin, que envia cartas extensas à sua amiga de longa data, Miss Paulette (a mesma jovem de Mar de papoulas pela qual me apaixonei). Robin é uma espécie de contraponto cômico e original na história, e sua juventude transborda em empolgação e sede de viver o curioso mundo no qual se encontra.

Todos os personagens apresentados ao longo do livro estão ligados entre si através de várias conexões novelescas (algumas delas um pouco forçadas, vamos admitir) que unem as histórias passadas e os destinos dessas pessoas. Dentre tais personagens está Ah Fatt, que no primeiro livro da trilogia ocupou um lugar à margem e, agora, é explorado às fartas, revelando toda uma interessante história de amor, fidelidade e abandono. A propósito, é curioso notar que o personagem principal de Rio de fumaça é o pai de Ah Fatt, alguém que jamais imaginamos que poderia ocupar tal lugar central no segundo livro.

Com um universo exótico tão repleto de personagens dos mais variados tipos, Ghosh exercita este que é um de seus maiores apetites: a polifonia. Romance narrado em terceira pessoa, mas cheio de vozes que emergem do texto com suas próprias particularidades, Rio de fumaça constitui uma espécie de colagem que se assemelha a um quebra-cabeça fácil de montar: não é difícil estabelecer as conexões entre os personagens e os eventos da trama, mas essas conexões só poderão ser feitas a partir dos diferentes narradores que compõem o estofo da obra – e com o necessário mergulho do leitor. O mais notável desses narradores certamente é o jovem Robin, que mencionei mais acima: a fim de apresentar a cidade de Cantão para Paulette, este alegre pintor (com seu estilo afetado e cômico) escreve à moça cartas nas quais mostra o seu entusiasmo com a cidade e atualiza algumas fofocas políticas.

Dinâmico, ambicioso, denso e surpreendente, Rio de fumaça reflete o esforço de um autor que faz uma meticulosa pesquisa bibliográfica e mescla fatos verídicos com uma trama envolvente. Premiadíssimo ao longo de sua carreira, Amitav Ghosh consolidou um reconhecimento internacional e firmou-se como uma das autoridades mais respeitadas em ficção histórica na literatura contemporânea.

27 dezembro 2013

5 livros que eu li em 2013 e que você gostará de ler em 2014

Seguindo a tradição do Gato Branco, nos últimos dias do mês de dezembro de cada ano eu elaboro a lista dos cinco livros que mais me impressionaram como leitor, desde janeiro até então. Ou seja, escolho cinco obras cuja leitura superou (ou atendeu) minhas expectativas nos últimos 12 meses e as coloco aqui, acompanhadas de um breve comentário.

Naturalmente, isso não significa dizer que, dentre todas as leituras de 2013, considerei apenas estas cinco como boas. Muitos livros passaram pelas minhas mãos ao longo deste ano, e muitos deles maravilhosos; mas, por uma questão de seleção quase arbitrária, separo apenas cinco para trazer para cá.

E, então, a minha lista de 2013 é esta:


O silêncio contra Muamar Kadafi | Andrei Netto

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Que o jornalista brasileiro Andrei Netto viveu uma aventura impressionante no coração da Líbia, durante a guerra civil que depôs o ditador Muamar Kadafi em 2011, disso não restam dúvidas. Entrando clandestinamente no país junto com um colega de profissão iraquiano, Netto buscou o epicentro da revolução popular que ansiava por derrubar um regime totalitário sangrento de mais de 40 anos. Entrevistando líderes do movimento insurgente, refugiados e estrangeiros, o jornalista disseca a Primavera Árabe na Líbia e, graças à excelência de sua escrita, faz o leitor se imaginar nos desertos áridos do Norte da África, acompanhando os passos da rebelião popular.

Netto chegou a ser preso pelas autoridades líbias durante sua estada no país, acusado de ajudar o movimento insurgente. Passou vários dias em uma cela pequena, imunda, e foi liberado somente com a intervenção da diplomacia brasileira. Essa passagem no livro é uma das mais interessantes.

Narrado em forma de thriller (o que o torna incrivelmente atraente e fluido, como um grande romance de aventura), O silêncio contra Muamar Kadafi foi, sem dúvida, o melhor livro de jornalismo que li em 2013. Vale conferir, sem ressalvas.

Clique aqui para ler a resenha de O silêncio contra Muamar Kadafi no Gato Branco.


1Q84 – Vol. I | Haruki Murakami

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Desde Norwegian Wood e Kafka à beira-mar, venho acompanhando os romances do japonês Haruki Murakami com dedicação, ainda que os dois primeiros que li continuem a ser os meus favoritos. De um modo geral, os romances do autor são muito semelhantes entre si e, como falou uma amiga minha, a sensação é a de que você está lendo sempre o mesmo livro, o que não é propriamente ruim – já que os enredos criados por Murakami sempre nos envolvem.

1Q84 inicia a trilogia que é considerada a obra máxima do autor. Publicada entre 2009 e 2010 no Japão, 1Q84 vendeu dezenas de milhões de cópias no mundo inteiro (aliás, coisa nem um pouco rara em se tratando de Murakami) e reafirmou o japonês como um dos escritores cult mais populares da atualidade.

Este primeiro volume apresenta os dois personagens principais a partir dos quais a trama é costurada: Tengo, um jovem professor de matemática do Ensino Médio, aspirante a romancista, recebe do seu amigo editor o desafio de reescrever um livro enigmático de autoria de uma garota mais enigmática ainda – e, de repente, coisas estranhas começam a acontecer no mundo real, de algum modo ligadas a esse processo de reescrita; Aomame, uma professora de educação física que esconde sua segunda ocupação, a de fazer justiça contra homens que violentam mulheres. Como não poderia deixar de ser, a trajetória desses dois vai convergindo aos poucos para um único ponto, clímax da série.

Com seus pontos altos e baixos, a trilogia é ainda assim um grande exercício de imaginação e um excelente entretenimento para os fãs de Murakami. Sem a carga emocional e a densidade psicológica de Norwegian Wood, e sem o enredo orquestrado de Kafka à beira-mar, 1Q84 se sustenta pela criatividade e pela fantasia non-sense, que tem agradado muito o público em toda a carreira do autor.

Clique aqui para ler a resenha de 1Q84 – Vol. I no Gato Branco.


Anna Kariênina | Liev Tolstói

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A Felicidade Conjugal foi o primeiro livro que li do escritor russo Liev Tolstói. Sua escrita primorosamente refinada, o conteúdo introspectivo e o enredo belo e surpreendente fez com que este autor ocupasse o lugar da minha estante que é destinado aos grandes gênios da literatura. Suas obras são como um espelho que reflete nossa condição humana: todas as nossas dúvidas, nossos temores e nossos desejos são sugeridos de forma sutil – e às vezes nem tão sutil – em obras como, por exemplo, Anna Kariênina, publicado originalmente em 1877.

Anna Kariênina é o tipo do livro que, não importa se foi escrito na distante Rússia do século XIX, o leitor de hoje certamente vai se identificar com algum personagem da galeria de Tolstói e constatar que sentimentos – no sentido estrito da palavra – são universais em larga medida. Este foi um livro que li com deleite. Não era raro me deter por mais de dez minutos na mesma página, apreciando um determinado diálogo, um determinado parágrafo descritivo, uma determinada reflexão, e constatando como Tolstói escrevia de forma maravilhosa.

Gosto de me referir a Anna Kariênina como "o romance definitivo sobre o Amor". Afinal de contas, é uma obra que pondera o que somos capazes de fazer por causa dele: do que podemos abrir mão e o que podemos abraçar como causa. E, quando me refiro a Amor, estou me referindo a esse sentimento em suas múltiplas manifestações: o amor entre amantes, entre pai e filha, entre mãe e filho, entre irmãos, entre desconhecidos. Como não poderia deixar de ser, é também um romance sobre as aparências: sobre se relacionar buscando algo não no outro, mas em si mesmo; uma afirmação não para o outro, mas para si, afirmação com a qual você tenta construir sua identidade. Afinal de contas, quando dizemos "Eu te amo", não estaríamos sugerindo algo como "Eu preciso dizer que te amo"?

Livro monumental que faz justiça às suas 800 páginas, Anna Kariênina é o romance do qual ninguém pode escapar. Leitura mais que obrigatória para os fãs dos russos.

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A visita cruel do tempo | Jennifer Egan

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Escrito à mão, A visita cruel do tempo foi o romance vencedor do Prêmio Pulitzer de Ficção 2011 e, também, o ganhador de outros prêmios importantes nos EUA. Recebeu elogios desmedidos de vários suplementos literários norte-americanos (e do restante do mundo) pela criatividade da autora, seu domínio técnico e prosa envolvente. Ganhei o livro do meu irmão e, no início, antes de começar a lê-lo, eu tinha minhas reservas quanto a todo aquele experimentalismo literário, que parecia, ao mesmo tempo, ambicioso demais e relevante de menos.

Mas me enganei com prazer quando iniciei a leitura. A visita cruel do tempo é um texto engenhoso, de fato envolvente, complexo, cujas histórias e personagens se entrelaçam de modo criativo e até inesperado. Foi certamente uma das leituras mais acertadas do ano.

O livro possui uma cronologia embaralhada que conta, através da passagem do tempo, a juventude e a vida adulta de um grupo de pessoas que estão no mesmo círculo afetivo e profissional. É o caso de Bennie Salazar – talvez o eixo central desse círculo –, um executivo da indústria fonográfica que acompanha desde a explosão dos roqueiros independentes, nos anos 70 e início de 80, até a superficialidade do ramo na era digital.

Navegando pelos mares da internet, encontrei um leitor do livro chamado Daniel que se deu ao trabalho de identificar o local e a época em que cada capítulo transcorre. Segue abaixo o que ele garimpou. (Se alguém quiser ler o livro pela segunda vez, fica aí uma sugestão de acompanhar a cronologia real.)

1. Achados e perdidos – NY, 2009
2. Ouro que cura – NY, 2006
3. Não estou nem aí – São Francisco, 1979 (narradora: Rhea)
4. Safári – África, 1973
5. Vocês – São Francisco, 2006 (narradora: Jocelyn)
6. Xis-zero – NY, 1997
7. De A a B – NY, 2003
8. Como vender um general – NY, 2008
9. Um almoço em 40 min – NY, 1999
10. Fora do corpo – NY, 1994 (narrador: Rob)
11. Adeus, meu amor – Nápoles, 1993
12. Grandes pausas do rock – Deserto da Califórnia, 2020?
13. Linguagem pura – NY, 2022

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Cartas na rua | Charles Bukowski

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Nesse ano, tiquei mais um Charles Bukowski da minha lista de "Obras Indispensáveis". O livro foi Cartas na rua, romance publicado em 1971 que traz ao leitor pela primeira vez o protagonista Henry Chinaski, alter-ego de Bukowski – também inclinado aos porres, às mulheres e aos empregos sem perspectiva nenhuma.

Aqui, ao contrário de Factótum (1975), Chinaski não se vê pulando de trampo em trampo para ganhar uns trocados. Na verdade, o personagem mais conhecido de Bukowski está há 14 anos trabalhando no mesmo lugar: os Correios norte-americanos. Ele intercala sua vida monótona e estressante com as mulheres com as quais se envolve, umas mais novas, outras mais velhas, mas todas sempre muito excêntricas e desconcertantes. No final das contas, temos pintado um quadro sobre a desilusão do american way of life e sobre como o estofo da sociedade americana é, também, composto pelos marginalizados.

Primeiro romance de Bukowski, Cartas na rua é o início da obra de um escritor que foi muito além da literatura: transformou a própria vida em arte, desafiou tradições e abriu um novo caminho para os romances malditos. Não por acaso, o Velho Buk é um dos artistas mais celebrados e copiados desde os anos 80.

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Menção honrosa:

Momo e o senhor do tempo | Michael Ende

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Eis um livro que foi parar na minha estante de modo completamente inesperado e que, sim, me surpreendeu muito. Um professor da Universidade de Fortaleza me indicou este livro no início do ano e, assim que comecei a lê-lo, percebi por que o alemão Michael Ende é tão querido na Europa e em alguns lugares do restante do mundo: sua prosa fluida está a serviço não da técnica, mas do conteúdo – e este conteúdo, voltado para o público infanto-juvenil, é sempre inspirador, carregando mensagens que o público adulto parece já ter esquecido.

Digo que o livro foi parar de modo inesperado na minha estante porque, até meu professor aparecer com ele, eu não tinha a menor intenção de lê-lo (sequer sabia da sua existência), embora conhecesse bem a reputação de Ende. E como valeu a pena!

Momo e o senhor do tempo conta a história de Momo, uma menina de aproximadamente 10 anos de idade que se vê na tarefa de devolver o tempo roubado das pessoas. Ela percebe a existência de um grupo de homens misteriosos que está atuando nos bastidores e que, de modo mal-intencionado, negocia com os cidadãos o uso do seu próprio tempo de vida.

Momo certamente é um lembrete do que o tempo representa nas nossas vidas e o que fazemos para preservá-lo (ou desperdiçá-lo).

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É isso. E que venham novas e excelentes leituras em 2014!

07 dezembro 2013

Sobre a brevidade da vida, de Sêneca

"Muito breve e agitada é a vida daqueles que esquecem o passado, negligenciam o presente e temem o futuro." (p. 70)

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Na semana passada, finalizei a leitura de Sobre a brevidade da vida (De brevitate vitae), tratado epistolar escrito pelo filósofo, dramaturgo e político Lúcio Sêneca.

Sêneca nasceu em Córdoba, na Espanha, por volta do ano 4 a.C. Mudou-se para Roma ainda jovem, a fim de estudar retórica e Filosofia, e lá exerceu durante grande parte da sua vida trabalhos em altos cargos políticos, ao lado de, dentre outros, Calígula e Nero – deste último tendo recebido a ordem para cometer suicídio, após ter sido acusado de conspirar contra o então imperador. Seus trabalhos, que envolvem tragédias, ensaios e diálogos filosóficos, são conhecidos por abordar de maneira direta e prática temas comuns ao cotidiano das pessoas, tais como amizade, educação, vida e morte.

Sobre a brevidade da vida é um conjunto de cartas direcionadas a um homem chamado Paulino, funcionário público que muitos estudiosos acreditam ter sido sogro do filósofo. Nas epístolas que compõem a obra, sempre se dirigindo a Paulino, Sêneca discorre sobre a vida fútil e vazia dos sujeitos ocupados com tudo aquilo que não lhes diz respeito de fato: políticos preocupados com seu cargo, nobres preocupados com sua posição social, cidadãos preocupados com o julgamento do seu semelhante, e assim sucessivamente.

Como ele mesmo escreve:

Certamente, miserável é a condição de todas as pessoas ocupadas, mas ainda mais miserável é a daqueles que sobrecarregam a sua vida de cuidados que não são para si, esperando, para dormir, o sono dos outros, para comer, que o outro tenha apetite, que caminham segundo o passo dos outros e que estão sob as ordens deles nas coisas que são as mais espontâneas de todas – amar e odiar. (p. 81)


Sinopse: Sobre a brevidade da vida é a obra mais difundida do filósofo Sêneca (4 a.C.? – 65 d.C.) e um dos textos mais conhecidos de toda a Antiguidade latina. São cartas dirigidas a Paulino (cuja identidade é controversa), nas quais o sábio fala da natureza finita da vida humana. No correr das páginas, vão sendo apresentadas maneiras de prolongar a vida e livrá-la de mil futilidades que a perturbam sem, no entanto, enriquecê-la. Estas cartas compõem uma leitura inspiradora para todos os homens, a quem ajudam a avaliar o que é uma vida plenamente vivida.


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A persistência da memória, de Salvador Dalí

O que está em jogo, portanto, é a brevidade da vida dos sujeitos que se ocupam com coisas alheias a eles mesmos. Logicamente, a brevidade a que Sêneca se refere não é temporal, cronológica, mas subjetiva: vive pouco quem não vive para si. Nesse sentido, seu conselho geral a Paulino não poderia deixar de ser outro que não "afastar-se do vulgo" e "procurar um porto mais tranquilo", experimentando o que poderia ser feito nos momentos de ócio. Segundo o filósofo, um homem pode viver por 70 anos ou mais, mas não poderá dizer que viveu realmente se ele não tiver gasto a maior parte do seu tempo com assuntos que lhe dizem respeito de forma direta. Por outro lado, quem dedica seu tempo a si mesmo vive uma vida longa, não importa quantos anos tenha vivido no calendário.

Aquele que utiliza todo o tempo apenas consigo mesmo, que organiza todos os dias como se fosse o último, não deseja, nem teme o amanhã. (…) Não julgues que alguém viveu muito por causa de suas rugas e cabelos brancos: ele não viveu muito, apenas existiu por muito tempo. (p. 43)

É impressionante constatar que um livro escrito há quase dois mil anos aborde uma temática que continua a ser urgente nos dias de hoje – aliás, nos dias de hoje mais urgente do que nunca, ao que parece. Como integrante de um laboratório de pesquisa que estuda trabalho, ócio e tempo livre na sociedade contemporânea, eu vejo cientistas sociais de renome relatando como a ideia de tempo para si é cada vez mais escassa na nossa era. Cada vez trabalhando mais para conquistar status e altos salários, as pessoas são tomadas pelo meio e esquecem o fim – este, inadiável, tendo em vista que todos nós vamos morrer um dia. Como Sêneca diria, ocupam sua vida com o trabalho que realizam, mas esquecem de saborear o presente, antecipando sempre o futuro com agonia e rememorando o passado com insatisfação.

O filósofo tem uma palavra sobre isso também:

Pobre daquele que, cansado mais de viver do que de trabalhar, sucumbe às suas próprias ocupações. (p. 83)


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A morte de Sêneca, de Luca Giordano


Uma das grandes mensagens que podemos tirar de Sobre a brevidade da vida diz respeito ao quanto nos sentimos desconfortáveis com nossas próprias ocupações e tempos livres. Ou seja, diz respeito a como nós usamos o nosso tempo. Curioso notar que é possível se sentir feliz e realizado trabalhando em algo que nos dá felicidade e, ao mesmo tempo, se sentir letárgico e inútil em um tempo vago – o que desconstrói nossa ideia de que viver sem ter que trabalhar é um prazer garantido. De acordo com Sêneca, há aqueles que não usufruem do ócio, mas são eles mesmos ociosos "doentes", que vagam pelo mundo sem objetivo e não sabem discernir seus próprios interesses. Estes, incapazes de arquitetar um plano de vida de acordo com suas inclinações, "mortos-vivos" nas palavras do filósofo, contrastam com aqueles sujeitos que se dedicam a uma ocupação elevada, que lhes rende bons frutos e sabedoria existencial.

Dentre todos, somente são ociosos os que estão livres para a sabedoria, apenas estes vivem, pois não só controlam bem sua vida, como também lhe acrescentam a eternidade. (p. 64)

Sobre a brevidade da vida é uma leitura rápida que nos faz refletir sobre o que realmente estamos fazendo para garantir uma vida satisfatória e plena – ou, como isso é praticamente impossível, garantir uma vida mais satisfatória e mais plena. Ocupar-se com dedicação e prazer a assuntos que nos tocam como seres humanos é o primeiro passo para construir uma vida baseada em tranquilidade e alegria, e não permitir que sejamos consumidos pela máquina que suga a energia vital que possuímos, que poderia muito bem ser dedicada à nossa efêmera e valiosíssima passagem pela Terra. Por esse lado, o livro de Sêneca é uma leitura rápida, mas muito, muito profunda.

10 novembro 2013

Nada, de Janne Teller

"(…) um calafrio percorreu meu corpo enquanto eu pensava em quantas pessoas diferentes podem haver dentro de uma só pessoa." (p. 85)

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Durante a tarde de ontem eu finalizei a leitura do romance Nada (Intet, 2000), escrito pela dinamarquesa Janne Teller. Embora já tenha admitido que nunca escreve seus romances com a intenção de provocar o leitor, o fato é que este livro de título curioso fez o maior barulho na Escandinávia, chegando inclusive a ser censurado temporariamente na região por conta da mensagem cruel e visceral da história. Aclamado pela crítica como digno sucessor do clássico O Senhor das Moscas, do Nobel William Golding, Nada chega ao Brasil depois de treze anos do seu lançamento original.

Foi um amigo da universidade que me indicou o romance. Assim que bati meus olhos na capa e li as duas primeiras páginas, me veio à cabeça a ideia de que eu deveria lê-lo na íntegra o quanto antes. Não é muito difícil acontecer esse tipo de coisa comigo: com Os devaneios do caminhante solitário e Templo, por exemplo, aconteceu a mesma coisa, bati os olhos no livro e senti que deveria tê-lo comigo. Não se pode ignorar uma sensação dessas. Pelo menos eu não consigo.


Sinopse: Pierre Anthon está no sétimo ano e tem a certeza de que nada importa na vida. Por isso, passa os dias sobre os galhos de uma ameixeira, tentando convencer seus companheiros de classe a pensar do mesmo modo. No entanto, diante da recusa do menino de descer da árvore, seus colegas decidem fazer uma pilha de objetos dotados de significado, e com isso esperam persuadi-lo de que está errado. Mas aos poucos a pilha se torna um monumento mórbido, colocando em xeque a fé e a inocência da juventude.


O livro é narrado por uma moça de 13 ou 14 anos chamada Agnes. Ela estuda com os amigos na cidade onde mora, uma bucólica comunidade periférica que possui um bairro chamado Taering, e cursa o equivalente ao final do Ensino Fundamental brasileiro. No primeiro dia de aula após as férias de verão, um dos amigos mais velhos de Agnes, Pierre Anthon, fica de pé minutos antes de a aula começar e diz que nada no mundo tem a menor importância na vida de quem quer que seja. Mesmo com o professor já presente, Pierre Anthon profere quatro frases curtas, coloca o seu material novamente dentro da mochila e sai.

Nada importa. Disso eu já sei faz muito tempo. Então não vale a pena fazer nada. Acabo de descobrir isso.

Cá entre nós, esse é o tipo de pensamento que eu constantemente tinha quando estava na mesma situação que Pierre Anthon: tendo que estudar assuntos que, para mim, não tinham importância alguma e batalhando para me tornar alguém na vida. A propósito, o que significa "se tornar alguém"? Ninguém percebe o perigo que corremos quando naturalizamos uma frase como essa? Quer dizer que, se não temos um emprego que renda um alto salário, se não conseguimos passar os nossos dias nos importando com coisas que não são de fato importantes, não somos ninguém? Nada?

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Depois de dizer que nada na vida é importante e abandonar a escola como quem simplesmente dá de ombros, Pierre Anthon sobe na ameixeira do quintal da sua casa e, de lá, grita para os passantes alguns dos melhores trechos do livro. Entre irritado, irônico e fleumático, o garoto diz que todos nós vamos morrer no final das contas e que, por essa razão específica, as coisas do universo não passam de besteiras irrisórias com as quais não vale a pena gastar o tempo. Seus pequenos discursos são totalmente crus e podem causar um desconforto extremo por causa da verdade fria de suas palavras. Os amigos de classe de Pierre Anthon, que são praticamente os únicos transeuntes a passar na frente da ameixeira, não estão devidamente preparados para ouvir as palavras do garoto, e é aí que a história realmente começa: quando eles ocupam uma serralheria abandonada e decidem fazer lá uma pilha com os objetos que têm mais significado para cada um, a fim de mostrar para o amigo misantropo que, sim, a vida tem algum significado.

As proporções que esse pequeno fato ganha chocam o leitor bem cedo. Com uma linguagem muito bonita que carrega em si certos traços trágicos, Agnes (que narra o romance em retrospecto, na verdade) mostra ao leitor a face oculta e assustadora da infância que o nosso bom-senso faz de tudo para esconder. Em termos gerais, a mensagem é similar à de O Senhor das Moscas: um grupo de crianças que, abandonadas à própria sorte, começam a revelar aspectos sádicos e vingativos de sua personalidade. Se no livro de Golding os meninos estavam sozinhos por conta do acidente de avião que os isolou na ilha, na história de Teller essas crianças (ou adolescentes, dependendo do seu ponto de vista) se vêem sozinhas sob um prisma mais emocional, e é na tentativa de construir um monumento cheio de significado que elas procuram se afirmar – ou, em outras palavras, se diferenciar dos adultos.

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Mesmo aparecendo muito pouco no decorrer da história, Pierre Anthon é um dos personagens mais notáveis do romance e cumpre bem o seu papel de provocador. Em termos de metáfora, podemos dizer que ele simboliza as nossas preocupações mais sérias, que são justamente aquelas que fazemos questão de esconder de nós mesmos. Não é por acaso que seus amigos se irritam com suas provocações e, tapando os ouvidos, começam a arremessar pedras em direção à ameixeira em que o garoto está empoleirado. Pierre Anthon é a nossa voz interna que estamos sempre calando, para o bem de nossa própria sobrevivência social. Hoje mesmo acordei de manhã e, no silêncio típico dos domingos, fiquei pensando com meus botões se as pessoas consideradas loucas não são por acaso as mais lúcidas – tão lúcidas que se tornaram perigosas, como Pierre Anthon. E, quando essa voz interna (incômoda e lúcida) começa a nos atormentar, a primeira coisa que fazemos é nos cercar de coisas que, para nós, têm alguma importância. Nada veio justamente para que nos perguntemos se essas coisas com as quais nos cercamos são, de fato, importantes ou não.

O tom do livro é aterrorizante porque a escrita de Teller prima por uma objetividade minimalista que, no fundo, faz os acontecimentos da história parecerem mais confusos e inacreditáveis ainda. Há morbidade nas palavras de Agnes, algo que assusta porque a garota é capaz de narrar coisas fortes na maior naturalidade possível. Se existe um fato verdadeiramente desagradável neste livro, esse fato é a constatação empírica de que o horror está na condição humana. Quando essa condição humana é retratada com crueza, sem eufemismos, ficamos chocados – em nada diferente de quando alguém segura um espelho na nossa frente para constatarmos, com surpresa, alguma imperfeição inesperada na pele. Nada é um desses romances que fazem as vezes de espelho. E ele nos pega pelo pescoço ao evidenciar que a infância, base da construção de nossa subjetividade, pode ser mais instável e imprevisível do que gostaríamos de admitir.

350 mil exemplares vendidos mostram que Nada não apenas chocou seus leitores como os fez pensar sobre a vida e compartilhar o livro com outras pessoas, transformando a obra de Teller no sucesso que é agora. Colocar em menos de 150 páginas uma ideia relevante que, de tão forte, precisa ser banida das livrarias, é algo que cabe apenas aos escritores de talento. Quem está acostumado a romances pesados, como Ensaio sobre a cegueira ou Pobre George, não se sentirá tão mal com as palavras de Pierre Anthon, mas isso pode ser algo que varie de pessoa para pessoa. A verdade é que não há como passar por Nada sem sentir uma incômoda sensação de que o mundo pode ser um lugar bastante insignificante – e mais incômoda é a sensação de que essa verdade aparece quando você tenta construir uma pilha com o que existe de mais importante na sua vida.

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Sobre os motivos da censura do livro na Dinamarca, a autora dá a sua opinião:

"Geralmente se diz que há muita violência nele, o que eu realmente não acho que seja verdade. Comparado a qualquer estória de crime, não há nada no livro; a violência propriamente dita é descrita em muitos lugares. Além do mais, algumas pessoas disseram que meu livro torna alguns jovens depressivos e os leva a cometer suicídio. Eu fiquei muito chocada com isso (…). Eu nunca escrevo para provocar. Aqui não há conteúdo sexual, não há linguagem de baixo calão. Eu penso que ela é uma estória muito normal. Na verdade, eu escrevo para aprender. Eu escrevo sobre coisas que eu não entendo. [tradução minha, livre]

Para conferir a entrevista completa com a autora, clique aqui.

15 setembro 2013

Cartas na rua, de Charles Bukowski

"Tudo começou como um erro." (p. 11)

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Na semana passada eu finalizei a leitura do livro Cartas na rua (Post Office, 1971), primeiro romance publicado do celebrado escritor underground Charles Bukowski, que é o senhor dos porres inacreditáveis e o escritor marginal por excelência. Bukowski, que nasceu na Alemanha mas mudou-se ainda criança para os Estados Unidos, viveu a vida difícil das pessoas que não têm perspectivas de um futuro confortável sustentado por uma carreira de sucesso no mundo capitalista americano. Graças a essa falta de ambição, guiado apenas por aquilo que o dia trazia, Bukowski sentiu na pele a crueza da realidade suburbana e desenvolveu uma sutil capacidade de captar a humanidade dos indivíduos rejeitados.

Assim como a maioria dos romances do autor, Cartas na rua é um livrinho pequeno que sintetiza, em uma narrativa direta e sem floreios (mas bem humorada e muito bem conduzida), as desventuras do protagonista Henry Chinaski, espécie de persona literária do próprio Bukowski, também alemão de nascença, também dado à bebedeira, também chegado às mulheres, também aficionado pelas corridas de cavalo. No livro, Chinaski arranja um emprego burocrático nos Correios norte-americanos e, sem se dar conta, vai passando os dias (e, depois, os anos) nesse trabalho degradante, balanceado com as bebidas freqüentes, com as mulheres complicadas e com a amargura geral com que o personagem encara a vida em sociedade.


Sinopse: Em Cartas na Rua (primeira novela publicada de Charles Bukowski), um beberrão simpático, cheio de ceticismo, nostalgia e humor passeia pela monotonia burocrática dos Correios e nos mostra a América com a visão de alguém que está sempre à margem.


Gostei de Cartas na rua tanto quanto de Factótum, que já li duas vezes e ainda hoje é um dos meus preferidos de Bukowski. Não sei quanto aos outros leitores, mas eu sou capaz de memorizar várias passagens dos livros do autor e lembrar delas sempre que uma cena do cotidiano me remete às experiências de Chinaski. Às vezes me pego pensando no que o personagem principal de Bukowski faria se estivesse na minha situação – e sempre me divirto com os possíveis resultados. E essa é uma das proezas deste escritor: ele nos faz enxergar o lado humano e sensível de situações nas quais jamais imaginaríamos ter algo de humano e sensível.

Depois que o leitor de primeira viagem supera o choque inicial causado pela torrente de palavrões e termos escatológicos que Bukowski coloca em seus livros, emerge no texto uma clara simpatia pelas pessoas desvalidas – pelos desempregados, pelos incapazes, pelos bêbados, pelos mendigos, pelas prostitutas, e assim por diante. Em Cartas na rua, Henry, já quase aos cinquenta anos, vive uma vida desprezível de funcionário público e tenta conciliar com ela a sua vida cotidiana, esta atravessada pela tentativa de suportar a faina do trabalho. Se em Factótum Chinaski muda de emprego como se muda de roupa – aliás, acho que nem eu mudo de roupa tanto quanto ele mudava de ocupação –, em Cartas na rua o mesmo Chinaski sobrevive nos Correios ano após ano, sem a menor perspectiva de sair dali ou melhorar a posição na empresa.

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Da esquerda para a direita: Faye Dunaway, Charles Bukowski e Mickey Rourke nos bastidores do filme Barfly, roteirizado pelo escritor

As mulheres que Chinaski arranja em Cartas na rua são bem simpáticas, e o relacionamento do protagonista com elas é ligeiramente diferente daquele visto em outros romances. Se no livro Mulheres, por exemplo, é Chinaski quem bagunça a vida de suas companheiras, em Cartas na rua parece ocorrer o contrário: são elas que bagunçam a vida dele. Me pareceu que Chinaski aqui é perceptivelmente mais romântico, mais sensível, e procura tocar seus relacionamentos sempre com a perspectiva de ser agradável às suas parceiras. Não é algo que não pareça acontecer também nas outras obras do autor, mas aqui este detalhe é mais perceptível – pelo menos o foi para mim.

Outra coisa curiosa de observar é que, em Cartas na rua, Chinaski ainda não leva uma vida de escritor. Nos romances seguintes, o protagonista está sempre dividindo seu tempo entre empregos temporários, mulheres, álcool e a atividade de escrevinhador desconhecido. Aqui, porém, Chinaski ainda não se enxerga como escritor nem faz da máquina de escrever sua companheira inseparável – marca registrada dos outros romances. Temos, na verdade, um personagem que está descobrindo sua vocação e descobrindo que pode transformar a penúria em que vive numa produção literária.

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Matt Dillon vivendo Henry Chinaski na adaptação cinematográfica Factótum, filme de 2005

Sempre que chego à última página de um livro do Bukowski, sinto uma estranha sensação de consolo e bem-estar. Me parece que Bukowski esteve o tempo todo tentando nos mostrar que os problemas que nós enfrentamos na vida são, simplesmente, a vida. Talvez seja um engano nosso pensar que a vida de verdade esteja para além dos nossos desgostos e problemas: o que de fato constitui a existência não é outra coisa que não os tapas que recebemos na cara e as situações difíceis pelas quais passamos de vez em quando. Charles Bukowski conseguiu transformar sua vida miserável em obra de arte e clássico da literatura, e fez isso apenas narrando cruamente as coisas que lhe aconteciam, dando a elas o desenho da sensibilidade.

Não teve sucesso nas corporações em que trabalhou, não galgou posições, não conquistou prestígio nas empresas em que prestou serviço, mas foi seguramente um dos escritores mais bem sucedidos de todos os tempos.

15 agosto 2013

Crônica: Bússola

Das coisas que temos e não possuímos

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Posso estar bastante enganado ao dizer isso, mas, geralmente, quando nos decepcionamos com uma pessoa, ou com uma circunstância específica, saímos à procura discreta de um breve consolo capaz de manter acesas em nós a chama da confiança e aquela consciência particular sem a qual não é possível enxergar a beleza das coisas. Decepcionar-se não é senão acreditar que algo poderia ser de determinado jeito e, no final das contas, constatar que o que recebemos como resposta não correspondeu àquilo em que acreditávamos com tanta convicção.

Por isso pode-se dizer que, em um episódio decepcionante, não há culpados nem vítimas: há esperança em excesso, apenas. Uma esperança tão grande que, por vezes, pode engolir a realidade dos fatos. O desejo de que algumas pessoas continuem a nos fazer bem, pelo resto de nossas vidas, pode ser conveniente para nós na medida em que é exatamente essa confiança e essa certeza que sustentam o edifício dos nossos relacionamentos. Não acreditar que os outros nos farão bem é minar as bases desse edifício, por si só tão frágil. Se os decepcionados são as vítimas por cultivarem uma confiança enorme e se os decepcionantes são os culpados por terem traído a confiança alheia, isto é somente uma questão de perspectiva.

* * *

Na minha primeira experiência de atendimento a um paciente, constatei que nossa efêmera existência é pontilhada de pequenas decepções que, aos poucos, à força, nos ajudam a enxergar o mundo de uma maneira diferente – e, acima de tudo, nos ajudam a perceber que não temos controle sobre nada relacionado à nossa interação com as outras pessoas. A única coisa que temos sobre os outros é uma ligeira sensação de influência, que pode variar – e varia, sempre – ao longo do tempo. É essa influência exercida por nós sobre os outros que confere aos nossos relacionamentos uma tênue sugestão de controle.

Na ficha de entrada do serviço de psicologia não havia muitos detalhes: apenas um nome, Fernanda, a informação de que ela era recém-divorciada e que tinha um filho pequeno de três anos de idade, diagnosticado precocemente como hiperativo por um psiquiatra. Achei que o caso poderia ser interessante e, de alguma maneira, achei que ele poderia ajudar a formar o início de minha experiência profissional.

Quando Fernanda se sentou à minha frente, a um convite meu, ela respirou pesadamente e disse, sem rodeios: "Não sei muito bem por que estou aqui. Sempre achei que eu poderia resolver os meus conflitos pessoais de maneira particular, sozinha, sem precisar da ajuda de ninguém. Sou uma pessoa forte e sempre dei conta das minhas dificuldades. Existem muitas pessoas aqui que provavelmente precisam mais da sua ajuda do que eu." E, então, começou a chorar.

Lá fora fazia um dia claro. Lembro de ter passado pelos jardins da universidade e de ter dito a mim mesmo algo sobre como as tulipas e as orquídeas estavam vistosas e sadias em seu desabrochar atravessado pelo orvalho da manhã. Agora, ali naquela sala, naquele momento, o filho de três anos de Fernanda brincava com uma coleção de carrinhos de metal que eu havia trazido para a sala do consultório, junto com um balde cheio de dinossauros coloridos. Tudo parecia natural e, até certo ponto, tranquilo. Mas aquela mulher bonita de 36 anos de idade estava chorando na minha frente porque, naquela manhã de sol, decidiu admitir que havia se decepcionado com alguém (por acaso, com seu ex-esposo), e que decepcionar-se era um fenômeno que ela nunca, ou quase nunca, tinha experimentado.

Quando cheguei em casa, no fim do dia, me pus a procurar alguns documentos acadêmicos nas gavetas bagunçadas da minha escrivaninha. De forma absolutamente inesperada (ou assim me pareceu), encontrei uma bússola em formato de chaveiro, com o metal da presilha um pouco desgastado pelo tempo. A bússola estava no fundo da última gaveta, ao lado de um controle remoto de televisão velho. Com a bússola, dentro de uma caixinha de plástico transparente, havia um bilhete escrito à mão, em caligrafia feminina: Seu chá de bússola diário. Não esqueça. A direção da Beleza, da Justiça e da Sinceridade é apenas uma, e ela, essa direção, está debaixo do nosso nariz. Inútil procurar em outro lugar. Beijo, Gabi.

Sou capaz de passar dezenas de minutos olhando para uma bússola sem me cansar. Naquele momento, esqueci completamente o que eu estava buscando, que documentos estava garimpando, e fiquei a revirar aquele pequeno e simbólico objeto nas mãos até perceber que o que eu estava procurando nas gavetas, desde o começo, não eram os documentos, mas a bússola. E me dei conta de que eu não falava com Gabriela há mais de três anos porque tínhamos, contrariando todas as nossas expectativas, nos decepcionado um com o outro.

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Na nossa última sessão de avaliação psicológica (cujo paciente era, na verdade, o filho hiperativo de três anos), Fernanda me confidenciou que se sentia melhor. Nas últimas semanas, havia pensado sobre sua circunstância, sobre suas amarguras, e disse que o principal consolo que recebera viera da constatação de que as decepções, todas, se devem ao nosso esforço desmedido de construir uma imagem fantasiosa dos outros de acordo com os nossos interesses. De um modo geral, sua aparência estava bem melhor: havia um sorriso tímido no rosto, seus cabelos, volumosos e ondulados, estavam soltos, suas mãos não se remexiam nervosamente e pude perceber, com um certo alívio, uma atenção maternal sincera e afetuosa para com o pequeno garoto.

A excessiva atividade que o filho de Fernanda apresentava, diariamente, tanto no colégio quanto em casa e na rua, poderia ser vista como uma espécie de reação funcional à insegurança da mãe e à ausência do pai, que o havia ignorado desde o divórcio com a esposa. Era uma hipótese que valia a pena ser levada em consideração, mas os nossos encontros semanais acabaram quando o semestre letivo chegou ao fim. De qualquer modo, até hoje, tenho a sensação nítida de que aprendi mais com Fernanda e seu filho do que ambos aprenderam comigo.

Se o estofo de nossas decepções continua a ser um mistério, pelo menos temos a sutil garantia de que elas não duram para sempre. Ou porque percebemos que nosso controle sobre tudo à nossa volta é muito mais limitado do que gostaríamos de admitir, ou porque, à força, somos instados a perceber o nosso universo particular de outra forma, o fato é que, um dia, alguma coisa se parte dentro de nós.

No final do ano, tirei a bússola de dentro da caixinha de plástico e a coloquei em cima da minha mesa, para me lembrar, ainda que remotamente, que a bússola aponta o caminho, mas quem caminha somos nós.

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Esta crônica foi escrita para o site Lupa Cultural, parceiro do Gato Branco.