
Foi ontem pela noite que finalizei a leitura do romance Coração (Kokoro, 1914), do escritor nipônico Natsume - Kinnosuke - Soseki. Já é o quarto livro japonês que leio em menos de quatro meses, depois de ter começado o hábito com o popular Haruki Murakami, em dezembro de 2008.
Na verdade, Coração assinalou definitivamente a minha paixão pela literatura japonesa. Percebi com ele que as obras oriundas do país dos olhos puxados são verdadeiramente algo que me atrai; é fácil gostar de seus personagens, porque eles são simples, frugais, e estão sempre às voltas com questões existencialistas concernentes à própria vida que levam - como se estivessem sempre buscando a sabedoria absoluta, beatífica, através de diálogos reveladores motivantes.
Sinopse: O livro é narrado em 1ª pessoa por um estudante universitário (de área não determinada) que observa, em um dia de veraneio, na praia, um homem que lhe chama a atenção. O jovem sente-se então atraído pelo jeito enigmático do outro, e passa a chamá-lo simplesmente de "professor", embora ele não tenha nenhuma função catedrática. Com o passar do tempo, ambos cultivam uma amizade simpática - porém um tanto desconcertante, em virtude da grande diferença de idade -, até que, em determinado momento, para apreender certos ensinamentos do professor, o jovem pede que ele lhe conte toda a história da sua vida. No entanto, sempre adiando o pedido, o professor deixa que seu passado seja envolto em grande mistério.
Curioso notar que algumas editoras do Brasil lançaram o livro com o título de Os Sentimentos, tendo em vista que o romance é, de fato, uma história que fala sobretudo disso. O jovem universitário - que não tem seu nome revelado, como todos os outros personagens, excetuando-se um - posta-se na condição de aprendiz e passa a receber valorosas "lições de vida" do seu professor (que está na condição de mestre); e então, os dois passam a discutir com freqüência os sentimentos que emanam da traição, da cupidez, do amor, da amizade e de outros assuntos humanos do gênero romanesco.
Eu diria que Coração é uma história bastante terna, bastante real e bastante simples, longe no entanto de parecer piegas. Os personagens falam sobre coisas de que todas as pessoas do mundo falam, ainda mesmo as pessoas contemporâneas. Na realidade, o linguajar da obra me pareceu muito atual, moderno, o que aproxima Soseki dos dias de hoje - mesmo com o livro tendo sido escrito no começo do século passado, em 1914.
Por exemplo: "Parece que os jovens de hoje só sabem como gastar o dinheiro sem jamais pensarem em como consegui-lo." [página 129]. Acho impressionante a visão periférica dos bons escritores. Frases como essa conseguem ultrapassar a barreira do tempo (no caso, do século) e são cabíveis em todos os lugares do planeta, em praticamente todas as épocas.
De resto, tenho somente duas críticas a fazer. Uma delas é referente à história em si; um detalhe que eu achei desnecessário. Trata-se da carta final escrita pelo professor. Apesar de interessante e efetivamente reveladora, julguei-a longa demais, prolixa demais. Para se ter uma idéia, tal carta possui 120 páginas. Natsume Soseki poderia tê-la encurtado um pouco, abreviado os acontecimentos nela descritos. (Ou, pensando melhor, talvez não. Quem sabe.)
A segunda crítica refere-se à Editora Globo, que publicou o livro. Eu gostaria muito de saber por que cargas d'água ela resolveu colocar o final da história escrito na orelha. Isso mesmo: o final do livro está na orelha e, ainda por cima, na orelha da capa da frente. Impressionante. A mesma coisa aconteceu com o livro de Norwegian Wood, onde, embora de forma sutil, a editora Alfaguara revelou o final do romance na orelha traseira. Não entendo qual é o objetivo delas duas fazendo isso. Vou tomar mais cuidado a partir de hoje, toda vez que pegar em algum livro.
Bem, de todos os muitos trechos interessantes, selecionei um deles de que gostei bastante. É uma conversa entre o jovem estudante e o professor:
- Em quantos irmãos vocês são? - ele me perguntou.
Ele me perguntou ainda sobre o número dos membros da minha família, a existência de parentes, sobre tios e tias e outros. Por fim, disse:
- São todos de bom caráter?
- Não me parece que tenha gente má. São todos interioranos.
- Não me parece que tenha gente má. São todos interioranos.
- Por quê? Os interioranos não são maus?
Essa inquisição me deixou em apuros. Mas o professor não me deu espaço para pensar na resposta:
- Os interioranos são até piores do que os moradores da cidade. E você falou agora que entre os seus parentes não parece haver pessoas de índole má. Mas você acha que só há um tipo de pessoas más neste mundo? É claro que não existe um modelo de pessoas más. Normalmente são pessoas boas. Pelo menos, são todos pessoas normais. Mas, numa dada circunstância, tornam-se más, o que é apavorante. Por isso, não podemos nos descuidar.