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24 julho 2018

A Costa do Mosquito, de Paul Theroux


"O mar verde estava calmo. A terra que se via adiante era uma cordilheira de montanhas negras e azuis, envoltas em nevoeiro. Navegamos na direção do cais e percebemos que as nuvens estavam baixas, pouco acima das copas das árvores. Acima delas, erguia-se uma cadeia de picos. Alguns eram como espinhos no dorso de lagartos monstruosos. Outros pareciam dentes molares."

Certos livros são facilmente reconhecíveis como clássicos da literatura. 

Uma história original, uma narrativa vigorosa e autoral, um estilo de escrita belo e profundo, um personagem emblemático e um enredo que nos sugere metáforas sobre a condição humana são alguns dos elementos de um bom livro. Quer dizer, quando você encontra uma ou duas dessas características em uma obra, podemos dizer que você tem em mãos uma ótima leitura. Mas quando você tem a sorte de encontrar todos esses elementos juntos, então podemos dizer, sem medo de errar, que se trata de um clássico - se não já consolidado, ao menos em potencial. A Costa do Mosquito (The Mosquito Coast, 1982) possui todas essas qualidades que eu citei; foi o livro mais recente que li que pode ser chamado de clássico. 

Paul Theroux disserta ao longo do romance, de modo muito consistente, o seu modo particular de enxergar a cultura norte-americana e a verve expansionista e imperialista estadunidense que rendeu aos ianques a fama de "xerifes do mundo" ou "modelo de desenvolvimento e progresso". Essa visão de Theroux sobre o próprio país possibilita as várias metáforas sociais que pululam pelo texto, todas circulando ao redor do elemento principal da história: Allie Fox, um inventor obsessivo e irascível, que vende tudo o que possui nos Estados Unidos e faz a família sair da pacata Hatfield, em Massachussets, para começar tudo do zero nas selvas opressivas de Honduras - um lugar isolado que, para ele, remete a uma espécie de paraíso em que se pode finalmente fundar uma sociedade funcional baseada na técnica e no trabalho árduo.

Fox não encontra grandes dificuldades para efetuar essa mudança repentina de vida porque nenhum dos demais membros da sua família - quatro crianças e uma mulher submissa - tem voz suficiente para contestar os planos notoriamente descabidos do homem. Todos o seguem como se ele fosse uma espécie de salvador penitente, como se, ao fazer aquilo - ao promover uma mudança de vida tão violenta a si e à família -, ele estivesse deixando para trás um mundo de horror e idiotia em prol do sacrifício de fundar uma sociedade livre, honesta e naturalista da qual todos irão gozar posteriormente. Certos da infalibilidade do patriarca, ninguém o contesta. 

É pensando nessa sociedade tecnicamente eficiente e em um estilo de vida próprio que Allie Fox compra um vilarejo decrépito no meio da floresta hondurenha, às margens de um rio barrento. Lá ele busca dar início ao seu projeto para afirmar, talvez para si mesmo, que estava certo: que uma vida liberta é uma vida em que o trabalho prático e a engenhosidade se unem em prol do conforto. Logo que chega ao terreno, Fox se põe a trabalhar e distribui obrigações à sua família e aos diversos nativos que acabam tomando parte de sua empreitada.

A Costa do Mosquito foi adaptado para os cinemas em 1986, pelas mãos do diretor Peter Weir (Sociedade dos Poetas Mortos, O Show de Truman), estrelando Harrison Ford, River Phoenix e Helen Mirren nos papéis principais

Acompanhamos a história pelos olhos de Charlie Fox - o filho mais velho, de treze anos -, que se vale de uma visão em retrospecto para pincelar com certa sabedoria os contornos da personalidade do pai, da mãe e dos irmãos - muito embora as situações sejam todas narradas como se estivessem acontecendo no calor do momento. O fato de a narrativa se desenrolar através das palavras de Charlie é um dos elementos principais do romance, pois é através desse recurso que Theroux explora com beleza a relação contraditória e conflituosa entre pai e filho, o peso do patriarcado autoritário e a descoberta da fragilidade e dos defeitos dos genitores. Charlie dá ao leitor a chance de conhecer Allie Fox pela sua própria ótica, e ele consegue enxergá-lo, apesar de tudo, a certa distância, perscrutando sua personalidade imprevisível.

É curioso notar como Theroux conseguiu criar um personagem sólido e muito profundo usando apenas a ótica de outro personagem - no caso, do narrador, Charlie. Tudo o que conhecemos de Allie é fruto do relato de seu filho primogênito, mas não é preciso muito tempo para que o leitor perceba que o protagonista da história é ele mesmo, Allie. A maneira como o patriarca governa a própria família e os nativos da floresta - como se estivesse governando um país -, a sua eficiência ao gerenciar recursos e obras e a sua loquacidade perturbadora, cheia de personalidade, são o grande destaque de tudo o que salta das páginas. Allie Fox é um sujeito genioso, ríspido, inconstante, mas todos o seguem como se sua autoridade fosse naturalmente incontestável - como se ele de fato soubesse o que é melhor para todos.

E o mais impressionante é como podemos ser seduzidos pelos discursos de Allie. Ao longo do romance, o personagem faz várias preleções breves, a maioria delas girando em torno da mesma temática: o conformismo americano, as contradições de uma sociedade que parece cada vez mais doente - "os dentistas são acionistas de fábricas de doces!" -, a capacidade que todos nós devemos ter de tocar nossas vidas com nossos próprios recursos, sem excessos e de maneira eficiente, o consumismo nocivo, o desperdício de materiais que podem ser reaproveitados etc. São discursos simples, sempre exagerados e inflamados, mas com um fundo de sensatez que nos faz compreender um pouco as motivações de um personagem tão complexo.

"Naquela noite, abri os olhos no escuro e senti que o Pai não estava em casa. A sensação de que falta alguém é mais forte do que a sensação da presença de alguém. (...) Foi uma sensação de vazio solitário, como se, em algum lugar da casa, um buraco de ar estivesse no lugar onde seu corpo deveria estar. Meu medo era de que aquele homem imprevisível estivesse morto, ou, pior que morto, estripado e assombrando a propriedade."

Cena do filme A Costa do Mosquito (1986)

A Costa do Mosquito é o romance mais conhecido de Paul Theroux não somente porque é o mais audacioso e acertado dos seus livros de ficção, mas também porque ele sintetiza de forma muito precisa toda a visão que o autor tem sobre o estilo de vida vaidoso norte-americano e sobre a própria missão geopolítica dos Estados Unidos. Não por acaso Allie Fox encarna o sujeito que, nas suas palavras, vai trazer a civilização para a selva de um país esquecido da América Central e, com ela, a esperança, o desenvolvimento social e a inteligência necessária para que os nativos caminhem por sua conta. Este é, afinal, o modelo de algumas das estratégias imperialistas do país: o mesmo país que o personagem tanto odeia e do qual está fugindo, aliás. Invadindo vilarejos sem ser convidado e ignorando a cultura local, Allie difunde - ou acha que difunde - sua ideologia pessoal, considerando-a tão certa que ele sequer cogita a possibilidade de ser contestado. O que está em jogo aqui não é a validade de sua teoria ou de seus propósitos, mas a capacidade do personagem de fazer com que ela seja assimilada pelos nativos - e pela sua própria família - que ele julga proteger e ajudar.

Contundente, violento e sufocante, A Costa do Mosquito não deixa de ser belíssimo, tanto em sua forma quanto em seu conteúdo, graças ao talento notável de Paul Theroux com as palavras. As surpresas do mundo exótico descrito pelo autor - das florestas de Honduras ou de suas praias desertas - estão escondidas em cada página e são reveladas aos poucos, como quando alguém abre um pop-up bookÉ um livro que, após fechado, imediatamente cava seu lugar na nossa memória: seja pelo choque do percurso, pela simples beleza da escrita do autor ou - mais provavelmente - pelos dois.

20 novembro 2017

Hollywood, de Charles Bukowski



"O filme aparecia numa pequena tela que parecia um aparelho de TV. Passavam os créditos. Depois, vinha meu nome. Eu fazia parte de Hollywood, pelo menos por um pequeno instante. Era culpado."

Vivendo tempos atarefados que sugam toda a minha disposição para escrever o que quer que seja, descobri que a leitura de um bom Charles Bukowski é suficiente para me devolver alguma motivação para continuar alimentando este blog. O velho maldito alcoólatra ainda consegue me maravilhar com as suas palavras sinceras e diretas, e é somente um escritor do seu calibre que me faz sentar – depois de tanto tempo parado – diante de um editor de textos em um domingo à noite para esboçar uma resenha breve sobre um livro.

O Bukowski que terminei de ler hoje foi Hollywood (Hollywood, 1989), o seu último romance protagonizado pelo carismático (mas às vezes não tão simpático) Henry Chinaski, alter ego mundialmente famoso do velho Buk, tão alcoólatra, tão pervertido e tão ferino com as palavras quanto o seu criador de carne e osso.

A trama do romance é baseada nas experiências que Bukowski viveu enquanto escrevia o roteiro do filme Barfly, lançado em 1987, dirigido por Barbet Schroeder e protagonizado por Mickey Rourke e Faye Dunaway. Suas experiências como roteirista, na vida real, incluíram lidar com produtores e atores excêntricos, adaptar-se aos cortes de orçamento e encarar a nostálgica sensação de revisitar, através do próprio roteiro com traços autobiográficos, uma parte já distante de sua vida – os anos de alcoolismo mais pesados, a pobreza cruel, a incerteza de um futuro que só parecia querer condená-lo à miséria. Hollywood é basicamente sobre essa experiência de escrever um filme nos bastidores do cinema marginal de Los Angeles. No livro, temos Chinaski escrevendo o roteiro do filme A dança de Jim Bean, mas parece ser Bukowski quem está falando sobre ter escrito o roteiro de Barfly para a indústria do cinema.

Aliás, arrisco dizer que, em Hollywood, Chinaski e Bukowski se confundem mais do que em qualquer outro romance do escritor. Aqui, Chinaski é a transcrição literária exata do próprio autor que lhe dá vida: as loucuras feitas na jovem idade adulta são virtualmente as mesmas, o amor pela bebida é o mesmo, a relação com a escrita é semelhante. Frequentemente, o leitor se pega lendo “Bukowski” no lugar de “Chinaski”. Para quem conhece a obra do autor, essa simbiose nunca precisou ser disfarçada ou negada: é justamente a semelhança clara entre Bukowski e Chinaski que dá o sentimento necessário para que seus livros sejam adorados. E para que soem realmente autênticos.

"O roteiro ia bem. Escrever nunca foi trabalho para mim. Sempre fora assim, desde quando me lembrava: ligar o rádio numa estação de música clássica, acender um cigarro ou charuto, abrir a garrafa. A máquina fazia o resto. Eu só precisava estar ali. Todo o processo me permitia seguir em frente quando a vida oferecia tão pouco, quando a própria vida era um espetáculo de horror. Sempre havia a máquina para me acalmar, conversar comigo, me entreter, salvar meu rabo. Basicamente, era por isso que eu escrevia: para salvar meu rabo, salvar meu rabo do asilo de doidos, das ruas, de mim mesmo."

Faye Dunaway, Charles Bukowski e Mickey Rourke nos bastidores de Barfly, em 1987

Entre as relações conturbadas – e algumas até amistosas – com produtores, diretores, atores e atrizes caprichosos e geniosos, o Chinaski que salta das páginas é um velho simpático, reservado, bondoso e finalmente sossegado. Ele vive sua vida pacata entre a máquina de escrever, as garrafas de vinho, o hipódromo, sua esposa e os gatos de estimação, aparentando – como sempre aparentou – não querer mais nada além do que já tem. Ele está visivelmente equilibrado financeiramente e sua carreira como escritor maldito parece consolidada. Quando o diretor underground Jon Pinchot surge já na primeira página lhe pedindo para começar a escrever um roteiro para o cinema, Chinaski reage com desinteresse e até com certo desdém diante da proposta, mas a aceita, relutante, meio que curioso para ver aonde essa empreitada pode levar – os 20 mil dólares prometidos, claro, ajudam a convencê-lo.

E acaba que a aventura rende bons episódios. Dentre as situações mais hilárias certamente estão as visitas de Chinaski e Sarah – sua esposa – à casa de Jon Pinchot e François Racine, um ator decadente. Ambos moram durante um tempo em um casebre localizado num bairro periférico de Los Angeles com altos índices de criminalidade, cujos vizinhos delinquentes e perigosos perturbam a sanidade de François. Há também as engraçadíssimas entrevistas que Chinaski concede a emissoras locais e internacionais, durante a produção do filme, nas quais o escritor zomba descaradamente da vida bizarra e até certo ponto falsa que artistas e críticos vivem em Hollywood. Está presente também o apego tragicômico de Chinaski ao álcool – o que sempre rende as situações mais inusitadas dos seus livros – e uma hilária e surreal ameaça de automutilação por parte de um dos personagens centrais. Hollywood é um legítimo romance de Bukowski, e seus leitores não sentirão falta da atmosfera pegajosa, engraçada e vulgarmente humana encontrada nos outros livros do autor.

"Voltei ao hipódromo. Às vezes me perguntava o que fazia ali. E às vezes sabia. Entre outras coisas, aquilo me permitia ver grande número de pessoas sob a pior luz, e isso me mantinha em contato com a realidade do que era feita a humanidade. A ambição, o medo, a raiva, tudo estava ali."



Leio Bukowski há mais de uma década. Nesses quase dez anos, acompanhei um Chinaski à deriva, perdido entre mulheres, empregos, idas ao hipódromo e fugas viscerais da realidade auxiliadas por uma máquina de escrever. Hoje, em Hollywood, encontrei um Chinaski diferente: um cara que vive sem sobressaltos, apoiado em alguma sabedoria extraída das experiências que teve ao longo da vida – ainda uma figura excêntrica, mas mais assentada, mais adaptada ao sistema. O que dá humanidade aos escritos de Bukowski/Chinaski é precisamente a sua capacidade de humanizar o trágico lado imundo da vida – de dar sentido à sarjeta, voz aos desajustados, graça à marginalidade. Em diversas passagens de Hollywood, Chinaski fala que odeia as pessoas, mas, bem feitas as contas, a força de sua literatura reside exatamente na paixão com que ele observa todos que circulam ao seu redor e na espontaneidade com que relata seus encontros com a humanidade.

Me parece curioso que tenhamos nos encontrado, eu e esse personagem, em momentos de mais maturidade para ambos. Há livros e autores que são lidos em momentos certos, sem que tenhamos planejado isso. É uma das magias da literatura. Viva Chinaski. Agora, me resta lamentar ter lido o último romance de Bukowski que faltava.

Vai o autor, ficam os livros – e as lembranças.

25 dezembro 2016

A Revolução dos Bichos, de George Orwell

"Não está, pois, claro como água, camaradas, que todos os males da nossa existência têm origem na tirania dos humanos?"



Quem poderia imaginar que, mesmo setenta anos após seu lançamento, uma pequena fábula sobre a administração de uma fazenda pelos próprios animais que a habitam constituiria um dos principais argumentos contra a tirania de uma ditadura socialista? Certamente não os leitores ingleses contemporâneos de George Orwell, que acreditavam que A Revolução dos Bichos era apenas uma boba e tediosa história em que porcos, ovelhas, cavalos e patos falavam sobre a necessidade de se verem livres dos cruéis e inescrupulosos fazendeiros. Para a comunidade intelectual britânica da década de 1940 - e isso é o próprio Orwell quem diz -, este livro não passava de um lastimável desperdício de papel e tinta, dada a aparente infantilidade da trama. No entanto, pouco tempo foi necessário para que se descobrisse que essa fábula, que nada tem de tediosa e muito menos de boba, constitui um ensaio literário genial e muito preciso sobre quando as coisas começam a dar errado no socialismo.


E quando essa crítica vem de um escritor e jornalista como George Orwell, que se inclinava com simpatia para o socialismo de Karl Marx, o livro só pode se tornar uma coisa mais interessante ainda. 

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Sinopse: O sonho de um velho porco de criar uma granja governada por animais, sem a exploração dos homens, concretiza-se com uma revolução. Mas, como geralmente acontece com as revoluções, a dos bichos também desemboca para uma tirania, com a ascensão de uma nova casta ao poder. Neste conto feito sob medida para a Revolução Russa, “todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais do que os outros”.

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Qualquer leitor atento aos detalhes históricos emulados em A Revolução dos Bichos perceberá que a genialidade da obra consiste precisamente em ilustrar, da forma mais simples e objetiva possível, todo o percurso que uma ditadura socialista trilha desde sua gênese até seu declínio, sem que para isso o autor tenha precisado recorrer a uma trama política complexa que enfastie o leitor. Talvez por isso mesmo o livro tenha se tornado tão célebre e tão poderoso, já na década de seu lançamento: porque desenha, com traços que beiram o didático, algo que escapa à compreensão da maioria das pessoas. E esse desenho, simples em sua forma mas extremamente profundo em seu conteúdo, foi a maneira que Orwell encontrou para desmitificar ao mundo ocidental a experiência soviética com o socialismo.

O autor, que costumava se mostrar sóbrio em seus posicionamentos políticos e ideológicos, disse a certa altura (e esta afirmação está registrada no posfácio da edição da Companhia das Letras) que "A destruição do mito da URSS é essencial para conseguirmos reviver o movimento socialista". Isto explica porque uma pessoa como Orwell, declaradamente pró-socialismo, escreveu uma obra tão carregada de críticas ásperas a esse movimento político-ideológico: era necessário dizer ao mundo que Stálin não pôs em prática o socialismo com que todos os seguidores de Marx sonhavam; pelo contrário, que o Ocidente soubesse que o ditador russo transformou aquele país em uma oprimida sociedade cega pelo trabalho e pela obediência ao líder. Que George Orwell tenha encontrado em uma fazenda e nos animais que a habitam uma maneira de escrever uma história que atingisse esse objetivo, isso só pode ser explicado pelo talento brilhante que ele tinha como jornalista e escritor.




Depois de enfrentar certa resistência por parte de editoras que não queriam publicar o livro porque o consideravam atrevido e perigoso demais (uma editora norte-americana chegou a dar a desculpa de que na América não havia lugar para histórias com animais, em pleno apogeu de Walt Disney, e sabe-se lá porque uma editora norte-americana não queria a publicação de um livro anticomunista para a década de 1950), finalmente A Revolução dos Bichos encontrou o público e ganhou, aos poucos, o espaço destinado aos grandes clássicos da literatura. (Mais tarde, inclusive, a CIA utilizou a obra como propaganda contra o comunismo, chegando ao ponto de criar uma animação para resumir a história e transmiti-la na televisão.)

É curioso notar como as figuras que povoam a fazenda são rapidamente associadas a estereótipos indispensáveis para a compreensão de um sistema socialista totalitarista: Napoleão, o enorme porco que comanda a fazenda, é o ditador irredutível que faz ser cultuada a própria imagem e usa de estratagemas os mais deploráveis para manipular a massa alienada que está a seu serviço; Bola-de-Neve, também porco, representa o líder guerrilheiro carismático que ajudou a pôr a revolução em prática e que, mais tarde, acaba sofrendo golpes estratégicos dos próprios camaradas; Garganta, o porta-voz do governo, é o encarregado de dourar a pílula amarga nos tempos difíceis, ludibriando a população ao apresentar gráficos e tabelas falsos que mostram o quanto a granja está progredindo, apesar de tudo; Sansão, o cavalo proletário que não vê alternativa senão dedicar-se de corpo e alma ao trabalho exaustivo nas lavouras, conferindo total respeito e obediência ao líder; os próprios seres humanos, que são a encarnação mesma do capitalismo, a serem evitados a qualquer custo pelos animais... e assim por diante. 

Encarregado de transmitir às pessoas a ideia de que um sistema socialista pode ser uma péssima ideia se for mal executado, A Revolução dos Bichos descreve com uma habilidade indiscutível o quadro sinistro que pode surgir quando a sede pelo poder e pelos privilégios sobe à cabeça dos responsáveis por uma revolução que prometia igualdade, liberdade e abundância de recursos. Através da história destes animais, George Orwell nos mostra que uma sociedade pode derrubar um sistema que permite que uma elite enriqueça às custas do povo e, em seu lugar, instaurar um sistema que dá margem ao mesmo tipo de exploração, mas com uma aparência e um discurso ideológico diferente.

21 dezembro 2015

Resenhas em notas - #1



Depois de tanto tempo abandonado – mais precisamente, 11 meses e 20 dias –, este blog retorna à vida com uma nova seção sobre livros: a "Resenhas em Notas". Ela irá trazer pequenos parágrafos acerca das últimas leituras que andei fazendo. Através destas postagens, os leitores do Gato Branco poderão conhecer um pouco das minhas impressões sobre determinadas obras, e a ideia é fazer com que estes leitores ao menos se sintam contagiados pelas minhas experiências, narradas aqui da forma mais sucinta possível.

Penso em incluir em uma mesma postagem as últimas três leituras que fiz. Acho que é um bom número, mas vamos acompanhar o andar da carruagem. Nada de pôr os carros na frente dos bois – nada de criar muitas expectativas, principalmente se formos levar em conta que entrarei no mestrado no próximo ano e isso significará menos tempo disponível para a Literatura. Mas planos futuros são planos futuros.

Ao que interessa!


À noite andamos em círculos, de Daniel Alarcón



O jovem peruano Daniel Alarcón foi um escritor que conheci por acaso, o mesmo acaso que está tão presente na minha relação com os livros. Eu estava em uma livraria qualquer, andando a esmo, quando esbarrei no seu romance À noite andamos em círculos (At night we walk in circles, 2013). Já na metade da sinopse eu estava fisgado: o romance narra a história de um aspirante a ator de teatro que subitamente é contratado pela companhia que ele admirava muito desde a adolescência. Os anos de ouro desta companhia de vanguarda, o Diciembre, eram os anos 1970 – época em que criticar a ditadura local através da arte era um ato de ousadia necessária capaz de custar a vida.

Atualmente esquecido, o Diciembre parece estar fadado às memórias dos artistas de rua que fizeram parte daquela época. Com o intuito de reviver os seus tempos de glória artística – ao mesmo tempo em que é preciso superar alguns traumas do passado –, dois integrantes da antiga companhia decidem iniciar uma nova turnê pelo país, agora machucado pelas consequências de uma guerra civil. E é para esta nova turnê que Henry – o ex-líder do coletivo – e Patalarga – seu antigo colega – chamam o nosso protagonista. Juntos, os três reencenarão a peça sarcástica escrita por Henry décadas antes, que fizera tanto sucesso nos anos da ditadura, e atravessarão o país em busca de uma redenção para seus próprios fantasmas.

Genialmente escrito, o romance cativa o leitor já nas primeiras páginas e mantém em suspense uma trama cujo desfecho se espera sempre na página seguinte. É uma história feita de camadas, como muito bem disse o The New York Times, na qual elementos vitais são adicionados aos poucos, dando uma sensação de crescente deliciosa e perturbadora nos personagens e no enredo. Alarcón entrega aos poucos os pontos centrais da trama, com muita paciência. E quanto mais o leitor percebe sua própria ignorância diante do que está sendo narrado, mais ele se sente atraído pela história e maior é a sua vontade de virar as páginas.


Um adivinho me disse, de Tiziano Terzani


Foi na primavera de 1976 que Tiziano Terzani visitou – por acaso – um adivinho em Hong Kong e recebeu o seguinte aviso: "Não viaje de avião ou de helicóptero no ano de 1993. Se o fizer, você muito provavelmente sofrerá um acidente. Não voe." Quando o fatídico ano finalmente chegou, Terzani estava com 55 anos de vida e, nas suas palavras, procurava algo com que pudesse sair da mesmice de sua profissão de jornalista e experimentar uma coisa nova, que desse um colorido diferente à sua rotina. Nunca tendo esquecido o que ouvira em Hong Kong, ele decidiu que em 1993 se locomoveria apenas via terra e mar, abdicando completamente dos aviões e dos helicópteros. A partir de Bangkok, na Tailândia, ele cobriria acontecimentos históricos na Indochina e escreveria artigos sobre os mais variados temas da cultura asiática – pela qual sempre fora apaixonado.

Um adivinho me disse (Un indovino mi disse, 1995) é um dos relatos de viagem mais deliciosos que já li. Ele ficou alguns anos abandonado na minha estante mas, quando o peguei para ler, simplesmente não o larguei mais. Fascinado pela Ásia, Terzani nos fornece um detalhado panorama da Indochina do início dos anos 1990, observando como o estilo de vida ocidental estava varrendo e apagando as tradições históricas dos povos desta parte do mundo. Levados pelo afã de acompanhar o progresso econômico europeu e americano, os asiáticos abraçaram a causa da modernidade em que os fins justificam os meios e, sem perceberem – ou percebendo e ignorando –, seu modelo cultural milenar era colocado à extinção.

O relato de Terzani, contudo, é embalado pela brincadeira de não tomar aviões neste ano fatídico, motivo pelo qual ele decide investigar o universo do "oculto" e do "sobrenatural", tão presentes no Oriente. Nas cidades da Ásia que ele visitou – e foram muitas, da Cingapura à Mongólia – Terzani sempre procurava o adivinho local e pedia-lhe para ler sua sorte. Neste exercício, o autor elabora uma visão de mundo sobre o poder do ocultismo e da astrologia e a compartilha com o leitor, tecendo bem-humoradas e inteligentes reflexões.


O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação, de Haruki Murakami

   

Nos anos de colégio, Tsukuru era membro de um grupo de amigos que tinham uma característica peculiar: todos eles possuíam o nome de uma cor distinta. Havia os homens, Azul e Vermelho, e as mulheres, Branca e Preta. E Tsukuru, que não possuía nenhuma cor associada ao seu nome. Mas o fato é que todos se davam muito bem e compartilhavam uma amizade intensa típica da adolescência. Porém, já no final do que no Brasil seria considerado o Ensino Médio, Tsukuru é subitamente expulso do grupo: seus amigos, aparentemente decepcionados, embaraçados e irritados, comunicam seu desligamento, dizem que vão cortar relações a partir de então e nunca mais entram em contato com o incolor Tsukuru. Sem saber o motivo desse afastamento forçado, mas com a impressão de que fizera algo de terrível para os amigos, o nosso protagonista se isola em si mesmo e vive os anos seguintes atormentado pelo episódio, até que decide ir atrás de cada antigo colega e, pessoalmente, tentar entender o que acontecera no passado.

Narrado com a melancolia e a nostalgia típica do autor, O incolor Tsukuru Tazaki… (Shikisai o motanai Tazaki Tsukuru to, kare no junrei no toshi, 2013) é o segundo romance de Murakami que não inclui o seu sempre esperado realismo fantástico. Tal como Norwegian Wood, sua obra-prima, este romance finca os pés no chão e narra uma bela história sobre amizade e o peso dos anos em cima dos relacionamentos. Tazaki, que só possui o defeito técnico de se parecer absurdamente com todos os outros protagonistas dos livros do autor, é um jovem em busca do sentido da vida, um rapaz que procura – como todos nós – superar a árdua passagem da inocência da juventude para a áspera vida adulta, repleta de amores efêmeros, profissões monótonas e dias desperdiçados. Com uma narrativa simples e elegante e com um desfecho que surpreende o leitor, O incolor Tsukuru Tazaki… certamente vale o investimento e mostra por que Murakami é tomado como o porta-voz da mocidade nipônica.


Um lugar chamado Liberdade, de Ken Follett


Primeiro livro de Ken Follett que leio, Um lugar chamado Liberdade (A place called Freedom, 1995) conta a história de Mack McAsh, um rapaz que nasceu em uma família de escravos na Escócia e foi obrigado a trabalhar desde criança nas minas de carvão da poderosa família Jamisson. Paralelamente ao seu drama, somos apresentados a Lizzie Hallim, uma bela e esperta moça nascida no berço de uma decadente burguesia escocesa, presa aos ditames patriarcalistas que submetem as mulheres aos caprichos dos homens. Sedentos por liberdade, inconformados com as posições sociais nas quais foram criados, ambos buscarão superar os mais diversos obstáculos em busca dos seus sonhos.

Adepto das tramas folhetinescas, cujos enredos se assemelham aos roteiros de telenovelas épicas, Follett utiliza um pano de fundo histórico grandioso para narrar uma história empolgante mas superficial. O autor é cuidadoso em recriar os detalhes da época em que se passa seu romance – o que certamente se espera de um narrador de sua envergadura –, mas a intenção de escrever um livro para o grande público acaba fazendo com que tudo pareça contemporâneo demais, desde os diálogos até as situações vividas por seus personagens. A impressão que tive foi a de que a história, embora muito boa e interessante, estava fadada ao estilo contemporâneo de um best-seller fácil de digerir, e isso, para um romance histórico, compromete a experiência.

Um lugar chamado Liberdade possui reviravoltas que sem dúvida prendem o leitor às páginas do livro, e algumas de suas passagens são pertinentes como crítica social, mas não convém esperar da obra uma poderosa criação literária. Ela é um passatempo empolgante e instrutivo, e portanto válido, mas nada além.


Rádio Cidade Perdida, de Daniel Alarcón


Depois de ficar inebriado com a qualidade de À noite andamos em círculos, busquei os trabalhos antigos de Daniel Alarcón e me deparei com seu romance de estreia, Rádio Cidade Perdida (Lost City Radio, 2007). O tema dos dois únicos romances escritos pelo autor é o mesmo: um país latino-americano arrasado por uma guerra civil resultante de uma violenta repressão ditatorial, e as vidas comuns que foram afetadas por esse cenário dilacerante.

Nesta obra somos apresentados a Norma, uma radialista que ficou famosa após a guerra civil, quando inaugurou um programa de rádio destinado a fazer com que pessoas desaparecidas durante os conflitos reencontrassem seus familiares. Dona de uma voz extremamente acalentadora pela qual é reconhecida na rua, Norma vive seus dias atormentada por um episódio trágico: o desaparecimento do próprio marido dez anos antes, já nos momentos finais da guerra entre soldados do governo e rebeldes. Sua rotina muda completamente quando o pequeno Victor chega à cidade vindo de uma aldeia muito distante e, com ele, a promessa de informações inéditas sobre Rey, o marido ausente da protagonista.

Escrito com a mesma genialidade do outro romance, Rádio Cidade Perdida é um mosaico intrincado de flashbacks que não obedecem a uma cronologia linear mas que, quando somados, começam a fazer surgir a imagem nítida da trama principal. Para a literatura, este romance é o que 21 gramas é para o cinema: uma obra que destoa da narrativa tradicional, que oferece ao público uma miríade de recortes que fazem sentido na medida em que a história ganha corpo. Não é um livro fácil de ser lido, portanto, mas aqui isto não é um ponto negativo, porque qualquer leitor interessado capta o desenvolvimento da história sem grande esforço.

E a profundidade da obra, sua eloquência, sua riqueza reflexiva e seu primor estético envolvem o leitor já nos primeiros momentos e evidenciam o grande talento que Alarcón possui como contador de histórias. A América Latina, desde já, com sua gente pobre, com sua vida política conturbada e perigosa, mostra-se como a fonte da qual este escritor peruano bebe. Rádio Cidade Perdida é um romance de estreia, mas não de um iniciante.