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02 janeiro 2013

5 livros que eu li em 2012 e que você gostará de ler em 2013

Dessa vez, temos um pouco de tudo: romance autobiográfico, romance premiado, livro de Filosofia…

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Agora que o ano de 2012 chegou ao fim e o ano de 2013 está surgindo repleto de possibilidades, chegou a hora de escrever uma das postagens mais conhecidas aqui do Gato Branco: as indicações de leitura para os 12 meses que se descortinam à nossa frente. Ao todo são cinco indicações, baseadas nos melhores livros que andei lendo no ano passado. Naturalmente, é uma lista muito pessoal, e o único intuito real dela é o de compartilhar algumas das minhas experiências como leitor. Espero que gostem!

Para ter acesso à resenha completa de cada obra, publicada aqui no Blog, basta clicar sobre as capas.


Lá onde os tigres se sentem em casa | Jean-Marie Blas de Roblès

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Li este livro no começo de 2012, numa época em que eu estava acamado por conta de um resfriado horrível, e não podia fazer mais nada além de ler. Se não fosse por essa condição, talvez eu não tivesse tido a oportunidade de devorar com tanta tranquilidade as 700 páginas de Lá onde os tigres se sentem em casa, romance agraciado com o Prêmio Médicis 2008.

O livro é excelente. A começar pela curiosa história do autor: francês, arqueólogo submarino, professor universitário nas horas vagas, chegou a lecionar durante um curto período na Universidade de Fortaleza (onde estudo atualmente), além de ter morado já em países tão exóticos quanto Tibete, Taiwan, Indonésia, Líbia, Peru e China, dentre outros.

O romance, escrito em francês, narra uma meia dúzia de histórias paralelas que se cruzam à medida que os capítulos avançam. Somos apresentados a Eléazard von Wogau, um jornalista correspondente de uma agência francesa, que mora há alguns anos em Alcântara (Maranhão, sim). Ele se dedica a estudar a biografia de Athanase Kircher, jesuíta alemão do século XVII, revelada em um manuscrito misteriosamente deixado pelos correios (a história desse padre barroco é um dos pontos fortes do livro, sem dúvida). Além desses dois personagens, temos também Elaine, a ex-mulher de Eléazard, bela arqueóloga que partiu em inspeção pela Floresta Amazônica; Loredana, uma sedutora jornalista italiana de passagem pelo Norte brasileiro; Nelson, garoto pobre da favela do Pirambu, em Fortaleza, sedento por vingança; e Moema, a jovem idealista filha de Eléazard e Elaine.

É um romance divertidíssimo, grande, complexo, cheio de imaginação e muitíssimo interessante – não apenas pela história em si, original, mas também pelo fato de ela se passar em grande parte no norte-nordeste do Brasil, algo digno de nota. Recomendo para valer a leitura de Lá onde os tigres se sentem em casa.


Tremor | Jonathan Franzen

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Louis Holland é um jovem operador de rádio em Boston, trabalhando para uma estação de vanguarda à beira da falência, quando um terremoto de pequena escala mata sua avó postiça, uma escritora popular de livros sobre consciência energética e Nova Era. A partir de então, a vida de Louis começa a fazer parte de uma série de dramas familiares, amorosos e existenciais, o que inclui uma mesquinha disputa pela herança da velha senhora, o relacionamento com uma sismóloga problemática e a constatação de que a série de terremotos que assola a região não tem causas naturais, mas é fruto de perfurações subterrâneas capitaneadas por uma poderosa empresa de produtos químicos.

A sinopse acima é apenas uma brevíssima pincelada do que o leitor vai encontrar no segundo romance de Jonathan Franzen. Digo isso porque é impossível abreviar de modo satisfatório a trama de Tremor em um único parágrafo: o livro é tão denso, tão intrincado, tão cheio de pormenores, que não há sinopse que abarque tudo o que ele propõe. É, acima de tudo, uma mistura de drama com investigação policial, em que surgem várias facetas de história de amor. Embora seja divertido em muitas partes, não é um livro de leitura fácil. Requer do leitor dedicação e tempo, mais do que o normal. No entanto, foi um livro extremamente marcante para mim. Foi fácil me identificar com alguns dos personagens, com algumas das situações e com algumas das reflexões levantadas por Franzen.

Pela riqueza de conteúdo e pela tentativa de sintetizar toda a falência do grande sonho americano, Tremor é uma leitura recomendadíssima. Talvez seja a indicação mais ousada desta lista, mas… fica a sugestão!


A arte de viajar | Alain de Botton

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Essa foi uma das leituras mais relaxantes que fiz em 2012. Mesmo passando por um relacionamento amoroso difícil, consegui encontrar paz e leveza nas palavras do filósofo popular Alain de Botton, este simpático suíço que mora na Inglaterra desde 1977. Nesta obra, Alain nos faz refletir bastante sobre todos os aspectos filosóficos que estão relacionados à atividade – corriqueira, para alguns – de sair de casa e viajar. Seja a trabalho, seja por divertimento, tirar os pés da zona de conforto em que estamos inseridos e conhecer o mundo carrega um mundo de possibilidades prazerosas, experiências significativas e sentido para a existência. Acima de tudo, A arte de viajar é um delicioso manual de como abrir a mente para as inúmeras opções que as viagens acarretam.

Longe de ser um livro de auto-ajuda vazio em que surgem expressões do tipo "Você é o ator principal no palco da vida" ou "Faça um expurgo mental de todas as roupas sujas de sua existência", A arte de viajar convida o leitor a trilhar reflexões que hoje em dia parecem passar despercebidas pelas pessoas. Apoiando-se em filósofos de renome, escritores e aventureiros dos séculos passados, Alain de Botton tece um manual prático (que pouco tem a ver com "manual", diga-se de passagem) sobre como ver a beleza nas coisas simples, em especial nas viagens que realizamos ao longo da vida.

Muitíssimo recomendado. Sem ressalvas!


Estado de graça | Ann Patchett

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Outro livro escrito por um estrangeiro e que se passa no Brasil. Estado de graça surgiu como um raio na minha frente: eu estava passeando pela livraria, vi aquela capa maravilhosamente bem trabalhada e, depois de ler a sinopse da parte de trás do volume, senti que deveria lê-lo.

Primorosamente escrito, de um texto cuja qualidade raramente encontramos por aí, esse romance cativa o leitor desde a primeira página, com seus mistérios, sentimentos velados e suspeitas. Marina Singh é uma médica norte-americana que trabalha para uma empresa farmacêutica financiadora de uma pesquisa realizada no coração da Selva Amazônica. Essa pesquisa tem como objetivo coletar dados e informações a fim de tornar possível a fabricação de uma substância que torna as mulheres férteis até os 70 anos de idade. A Dra. Annick Swenson encabeça a pesquisa e está in loco, junto com a tribo indígena cujas mulheres ingerem a casca de determinada árvore e, através dessa alimentação, tornam-se férteis até a morte. No entanto, a Dra. Swenson não envia relatórios sobre o andamento da pesquisa há vários meses, e quando emite um lacônico comunicado informando que um dos membros da equipe morreu na selva, o CEO da empresa farmacêutica, Jim Fox, envia a Dra. Singh para que ela possa entender o que está acontecendo nos bastidores de tudo isso.

O jornal The Washington Post classificou Estado de graça como "o romance mais inteligente e emocionante lançado recentemente", e não tenho motivos para discordar dessa afirmação. Prende nossa atenção do início ao fim, e é um ótimo lembrete do que pode ocorrer entre a Floresta Amazônica e a ambição de certas companhias patrocinadoras de pesquisas farmacêuticas. Mais um livro que eu recomendo sem ressalvas.


Infância | Maksim Górki

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Certamente este foi o livro mais bonito, singelo e humano que li em 2012.

Infância é o primeiro livro da trilogia autobiográfica de Górki; os outros dois títulos são Ganhando meu pão e Minhas universidades. Em Infância, como o próprio título sugere, Maksim Górki passa para o papel, em forma de romance, todas as suas vivências de menino pobre na Rússia czarista do século XIX. Embora ele teça várias considerações sobre seus amigos (que foram poucos), vizinhos e eventos históricos, o principal eixo deste livro é o universo familiar, em que se destacam as figuras do seu avô, autoritário patriarca, de sua avó, doce e singela dona-de-casa, sua mãe, libertária e com grande senso de independência, e uma trupe de tios e primos. E é nessa constelação familiar turbulenta que o menino Górki vai forjando sua personalidade compadecente e um grande espírito crítico para as injustiças do mundo.

Muito bem escrito, muito tocante, muito humano. É o tipo do livro que você sabe que vai reler em um futuro próximo. Recomendo muito!


Bom começo de ano para todos! E que venham novas e excelentes leituras em 2013 ;)

07 janeiro 2012

Lá onde os tigres se sentem em casa, de Jean-Marie Blas de Roblès

"Seria preciso estar irremediavelmente privada da liberdade para descobrir o valor do simples fato de viver?" (p. 265)

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Sempre alimentei uma espécie de admiração pelos escritores viajantes, o que pode ser facilmente explicado pela minha própria vontade de viajar através de países distantes e exóticos e de escrever, no regresso dessas excursões, meus próprios livros. Para mim, não há dúvida de que essa é uma bela maneira de passar o tempo na Terra.

Conheci há pouco tempo Jean-Marie Blas de Roblès, um arqueólogo submarino que nasceu na Argélia, morou no Tibete, Indonésia, Peru, China, Iêmen, Líbia e, dentre outros lugares, Brasil. Durante o tempo em que esteve aqui, Roblès lecionou na Universidade de Fortaleza – aquela em que estudo, aliás – e tirou da capital do Ceará boa parte da experiência que usaria para escrever o romance Lá onde os tigres se sentem em casa (Là où les tigres sont chez eux, 2008), que li essa semana.

Um livro curioso, sem dúvida, principalmente porque se trata de um romance estrangeiro cuja trama se desenrola em nosso país, do início ao fim.


Sinopse: O livro conta a história de Eléazard von Wogau, jornalista correspondente de uma agência francesa, que mora já há alguns anos em Alcântara, no Maranhão. Como tem pouco trabalho, se dedica à leitura da biografia de Athanasius Kircher, jesuíta alemão do século XVII. A história desse padre barroco, um pouco científico, um pouco charlatão, apaixonado pelo orientalismo e pela matemática, se mistura a de outros personagens: Elaine, a ex-mulher de Eléazard, bela arqueóloga que partiu em expedição pela floresta amazônica; Loredana, sedutora jornalista italiana; Nelson, garoto pobre da favela sedento por vingança; Moreira, o governador corrupto; ou ainda Moema, a jovem idealista filha de Eléazard e Elaine.


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Lá onde os tigres se sentem em casa ("Tigres", para resumir o título) é um romance simultaneísta – ou seja, diversas narrativas se cruzam no decorrer da história, o que lhe confere um caráter eclético de enredos acontecendo ao mesmo tempo, às vezes até se mesclando. O grande atrativo deste estilo de narração está em não atribuir a nenhum personagem específico o papel de protagonista: todas as histórias paralelas são igualmente importantes, igualmente atraentes e merecem a mesma atenção do leitor. Pessoalmente, tenho uma ótima experiência com romances simultaneístas. Sempre os achei muito interessantes.

O livro é dividido em 32 longos capítulos (sem contar com prólogo e epílogo) que não são cansativos, porque há muitos intervalos dentro deles. Eu até diria que, de um modo geral, as 700 páginas do volume não cansam o leitor, embora isso seja uma opinião bem mais pessoal. A verdade é que a linguagem de Roblès oscila entre a objetividade e o floreio, o que significa que há passagens bem fluidas e outras mais densas, mais subjetivamente sofisticadas. Isso dá ao livro o caráter erudito normal que a própria obra propõe desde o começo: a meta não é apenas contar uma história, mas contá-la com intelectualismo e com palavras escolhidas a dedo (recorri ao dicionário várias vezes). É claro que esse caráter pedante não pode ser considerado um defeito. A psicologia dos personagens fica bem melhor explorada, e alguns diálogos são bem profundos. É uma boa experiência geral.

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Uma coisa bem interessante em Tigres é a alternância entre o Brasil da década de 1980 e a Europa do século XVII. Extremamente pitoresca, essa temporalidade cruzada é ela própria um marco do enredo, uma jogada estilística que eu achei maravilhoso perceber. Uma hora estamos na Favela do Pirambu, em Fortaleza, acompanhando as penúrias de Nelson, e logo depois passamos à Roma regida pelo Vaticano, em que Kircher prepara mais uma discussão filosófica sobre aquela ciência medieval da qual todos faziam parte. Essa transição de tempo, lugar e temática deixa o romance bem mais dinâmico.

Não é sempre que nós temos a oportunidade de ler um romance estrangeiro passado essencialmente no Brasil, com tantos detalhes geográficos e culturais do nosso conhecimento. Roblès oferece isso aos brasileiros com Tigres. É diferente, por exemplo, ler uma ação desenvolvida na Avenida Tibúrcio Cavalcante, apenas a alguns metros da porta da minha casa e por onde passo todos os dias. A sensação é distinta, o leitor brasileiro se sente mais próximo da história e do lugar na qual ela se desenvolve. Sem dúvida.

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Ok, e quanto à história em si? Eu diria que ela é instigante. Essa talvez seja a palavra mais adequada para qualificar o romance de Roblès. Eu, pelo menos, fiquei extremamente curioso para saber qual seria o destino dos personagens, o que eles fariam em seguida e o que mudaria o curso de seus caminhos. Em alguns momentos as histórias paralelas se encontram, mas, durante a maior parte do livro, cada uma segue mesmo suas veredas próprias. Eu diria até que o denominador comum dos personagens é o sentimento de inconformidade com a vida, como se cada um sentisse que é preciso dar mais de si para não cair em uma monotonia incontornável. Há também uma certa busca pela identidade encontrada nesses personagens, o que muito me agradou. Em suma, a história é muito boa. O fio que une todas elas também é convincente.

Um dos grandes méritos do livro consiste em não cair nos lugares-comuns que a literatura estrangeira reserva ao território brasileiro. Longe de regionalismos e de chavões, Roblès se mostra atento às variações culturais do país, servindo-se dele não apenas como um mero pano de fundo, mas como um Brasil repleto de exotismo e encantos – às vezes desconhecidos por nós mesmos. Além disso, o autor mostra seu vasto domínio sobre a geografia local, descrevendo cenários que vão desde a floresta fechada do interior do Mato Grosso até as praias isoladas de Canoa Quebrada, no Nordeste. Esse cuidado com a verossimilhança topográfica inspira respeito à obra e um certo alívio por parte do leitor, ao ver algo não leviano retratado naquelas páginas.

Uma história interessante, repleta de encantos e belezas; um ensaio sobre alguns aspectos da condição humana, principalmente sobre a realidade das pessoas que não se encontram nos seus lugares de origem, na sua zona de conforto.


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Edições do original francês

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Disponibilizo aqui uma entrevista com o autor para o blog O Globo, na qual ele fala sobre o processo de criação do livro.


Lá onde os tigres se sentem em casa (2008)

Jean-Marie Blas de Roblès

710 páginas

Editora Record

Nota: 10/10

31 dezembro 2011

5 livros que eu li em 2011 e que você gostará de ler em 2012

… se o mundo não acabar, é claro.

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Quem acompanha o Gato Branco há algum tempo sabe que eu costumo listar, no final de todo ano, as leituras que realmente valeram a pena nos doze meses que se passaram. É uma prática que se consolidou no Blog por acaso, e a qual eu tento manter como uma tradição divertida.

Como dá para imaginar, dentre tantos livros lidos em um ano, é difícil eleger e recomendar apenas cinco. Sem dúvida, um número muito maior deveria ser levado em conta, mas isso significaria formular uma lista mais complexa que, no final das contas, englobaria a maioria dos livros lidos naquele ano. Sendo assim, como a idéia é ser puramente seletivo, convém eleger mesmo apenas a fina flor das obras.

Para ler a resenha completa de cada um, basta clicar sobre as capas dos livros.


Admirável mundo novo | Aldous Huxley

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Definitivamente, não é por acaso que este livro figura como um dos clássicos mais icônicos de todos os tempos. A obra mais famosa do britânico Aldous Huxley tem qualidade, sim, e não é pouca.

Em um futuro bastante longínquo, a sociedade humana se tornou essencialmente asséptica e funcional: sem a constituição de famílias, a população do mundo é dividida em castas específicas, que variam de acordo com a função que o sujeito possui perante o meio coletivo. Com uma liberdade total – porém questionável – os Alfa usufruem do planeta que os Delta e os Ípsilon são obrigados a manter, sem que com isso se sintam oprimidos pelo sistema; pois, desde o nascimento, as pessoas são condicionadas a se adaptarem à sua classe, o que sufoca, assim, qualquer tipo de mobilidade social.

A trama começa quando Bernard Marx, um Alfa, se sente deslocado no mundo elitizado que foi tido, desde o começo, como sua classe natural. Para complicar as coisas, ele começa a se sentir apaixonado por Lenina – o que é terminantemente proibido no Mundo Novo, uma vez que as paixões perturbam os homens e os levam a fazer coisas imprevisíveis.

Além de ter uma história rica em conflitos e possuir uma escrita impecável, Admirável mundo novo é um convite à reflexão sobre as organizações humanas e suas possíveis implicações. Recomendadíssimo, principalmente para os que gostam de um bom estudo social na literatura.


Os devaneios do caminhante solitário | Jean-Jacques Rousseau

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Este foi, sem dúvida, um dos melhores que li em 2011. Sensível, lírico, inovador, poético e visceral, Os devaneios do caminhante solitário é o "adeus" do brilhante filósofo Rousseau. Aqui, o autor se mostra extremamente desiludido com relação à sociedade ou, melhor, aos homens de um modo geral; acredita ser vítima das manipulações de um complô destinado a torná-lo infeliz e anônimo. Assim, procura escrever estas páginas não para o público, mas para si mesmo, pelo simples prazer de escrevê-las e pelo que acredita ser um ato de desafio àqueles que o criticam.

É um livro completo, pois apresenta reflexões das mais variadas naturezas. Felicidade, verdade, mentira, paixões, lugares, nada escapa ao escrutínio de Rousseau. Uma das sensações que senti ao lê-lo foi a de paz interior, por alguma razão que não sei explicar. Acho que o livro transmite uma idéia de serenidade muito forte.

Para quem gosta de livros de reflexão filosófica leve, este é absolutamente indispensável.


Vida roubada | Jaycee Lee Dugard

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Raptada aos 11 anos de idade e libertada (ou melhor, resgatada) somente aos 29, Jaycee Dugard é a protagonista de uma das mais dramáticas histórias de seqüestro de todos os tempos. Suas memórias de cativeiro, retratadas no livro Vida roubada, reconstroem o cotidiano catastrófico e enfadonho que a moça foi obrigada a enfrentar durante esses árduos 18 anos em que esteve nas mãos de Phillip Garrido, sobrevivendo nos fundos de um quintal.

Mas, afinal, qual é o atrativo do livro? Ora, além de trazer uma história marcante, capaz de atrair a atenção de qualquer um, Jaycee narra sua saga com uma simplicidade e uma honestidade singulares. Sem pudores, sempre valente e pronta para contar o mais ímpio dos detalhes, a autora revela assim toda a sua conturbada relação com o homem que a raptou. Muito mais que um simples livro chocante, Vida roubada é, antes de tudo, o retrato de uma das diversas tragédias concebidas no plano das relações humanas.

Para quem gosta de histórias reais, esta é a pedida do ano.


Onde os homens conquistam a glória | Jon Krakauer

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Outra história impressionante e real que li neste ano foi a de Pat Tillman, escrita pelo jornalista Jon Krakauer – mesmo autor dos best-sellers Na natureza selvagem e No ar rarefeito.

Tillman era um popular jogador de futebol americano quando, em setembro de 2001, as Torres Gêmeas foram atacadas por fundamentalistas islâmicos. Impressionado pelo evento, seu espírito patriotista foi despertado, e Tillman abandonou a carreira nos campos para se dedicar às Forças Armadas, a fim de lutar contra aqueles que violaram seu país. Acabou morto por fogo-amigo em uma das mais desajeitadas operações do Exército Americano; a família de Tillman, insatisfeita com as explicações falsas dadas pelas autoridades, remexeu a história até encontrar a verdadeira causa da morte do jovem soldado.

Além de contar a história de Tillman em detalhes, Krakauer esmiúça uma das principais guerras que agitam o século XXI. Essa talvez seja a característica mais atraente do livro, visto que, por si só, a saga de Tillman não oferece grande coisa além de mostrar a incompetência de alguns batalhões do exército norte-americano e até onde o heroísmo de uma pessoa pode levá-la.

Para quem gosta de histórias reais e para quem se interessa pelos conflitos políticos/bélicos que rolam no sul da Ásia, um prato cheio!


Lá onde os tigres se sentem em casa | Jean-Marie Blas de Roblès

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Sem dúvida, a surpresa do ano. E o último livro lido neste 2011.

Blas de Roblès nasceu na Argélia e morou em países exóticos como Tibete e Indonésia. Estabeleceu-se também no Brasil durante algum tempo, tendo lecionado nesse ínterim na Universidade de Fortaleza (Unifor) – por coincidência, a universidade em que estudo atualmente. Da experiência que teve com o Brasil, o autor escreveu Lá onde os tigres se sentem em casa, que recebeu o prêmio Médicis 2008 na França.

O livro possui uma trama intrincada que cruza diversas narrativas aparentemente paralelas. Eléazard é um jornalista francês que serve de correspondente no Maranhão, além de estar trabalhando em um manuscrito medieval que narra a vida de um jesuíta romano. Elaine, sua ex-esposa, faz parte de uma expedição em busca de fósseis raros no interior selvagem do Mato Grosso. Moema, filha adolescente do casal, vive suas aventuras noturnas no Ceará com um jovem professor e uma amiga. Nelson é um garoto aleijado que mendiga nas ruas de Fortaleza; Moreira Rocha é o governador corrupto do estado do Maranhão, culpado pela morte do pai de Nelson. E assim por diante.

O mérito do livro está em não cair nos clichês e nas armadilhas piegas dos romances que se passam no Brasil. Nada de regionalismos estereotipados, nada lugares-comuns: a obra de Roblès é, acima de tudo, um panorama sincero do nosso país, com tudo o que há de melhor, de pior e de misterioso aqui oculto.

Com um domínio visível da geografia local, Roblès usa o Brasil como pano de fundo da sua história, repleta de intelectualismo e poesia. Vale conferir, se o leitor estiver disposto a encarar as 700 páginas do volume.

Uma resenha mais detalhada deste livro poderá ser encontrada em breve aqui no site. Aguardem!


É isso. Um feliz e próspero Ano Novo para todos! :D