Pesquisar neste Blog

Mostrando postagens com marcador trechos de livros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador trechos de livros. Mostrar todas as postagens

07 dezembro 2013

Sobre a brevidade da vida, de Sêneca

"Muito breve e agitada é a vida daqueles que esquecem o passado, negligenciam o presente e temem o futuro." (p. 70)

sobre-a-brevidade-da-vida bababa

Na semana passada, finalizei a leitura de Sobre a brevidade da vida (De brevitate vitae), tratado epistolar escrito pelo filósofo, dramaturgo e político Lúcio Sêneca.

Sêneca nasceu em Córdoba, na Espanha, por volta do ano 4 a.C. Mudou-se para Roma ainda jovem, a fim de estudar retórica e Filosofia, e lá exerceu durante grande parte da sua vida trabalhos em altos cargos políticos, ao lado de, dentre outros, Calígula e Nero – deste último tendo recebido a ordem para cometer suicídio, após ter sido acusado de conspirar contra o então imperador. Seus trabalhos, que envolvem tragédias, ensaios e diálogos filosóficos, são conhecidos por abordar de maneira direta e prática temas comuns ao cotidiano das pessoas, tais como amizade, educação, vida e morte.

Sobre a brevidade da vida é um conjunto de cartas direcionadas a um homem chamado Paulino, funcionário público que muitos estudiosos acreditam ter sido sogro do filósofo. Nas epístolas que compõem a obra, sempre se dirigindo a Paulino, Sêneca discorre sobre a vida fútil e vazia dos sujeitos ocupados com tudo aquilo que não lhes diz respeito de fato: políticos preocupados com seu cargo, nobres preocupados com sua posição social, cidadãos preocupados com o julgamento do seu semelhante, e assim sucessivamente.

Como ele mesmo escreve:

Certamente, miserável é a condição de todas as pessoas ocupadas, mas ainda mais miserável é a daqueles que sobrecarregam a sua vida de cuidados que não são para si, esperando, para dormir, o sono dos outros, para comer, que o outro tenha apetite, que caminham segundo o passo dos outros e que estão sob as ordens deles nas coisas que são as mais espontâneas de todas – amar e odiar. (p. 81)


Sinopse: Sobre a brevidade da vida é a obra mais difundida do filósofo Sêneca (4 a.C.? – 65 d.C.) e um dos textos mais conhecidos de toda a Antiguidade latina. São cartas dirigidas a Paulino (cuja identidade é controversa), nas quais o sábio fala da natureza finita da vida humana. No correr das páginas, vão sendo apresentadas maneiras de prolongar a vida e livrá-la de mil futilidades que a perturbam sem, no entanto, enriquecê-la. Estas cartas compõem uma leitura inspiradora para todos os homens, a quem ajudam a avaliar o que é uma vida plenamente vivida.


salvador-dali-414331

A persistência da memória, de Salvador Dalí

O que está em jogo, portanto, é a brevidade da vida dos sujeitos que se ocupam com coisas alheias a eles mesmos. Logicamente, a brevidade a que Sêneca se refere não é temporal, cronológica, mas subjetiva: vive pouco quem não vive para si. Nesse sentido, seu conselho geral a Paulino não poderia deixar de ser outro que não "afastar-se do vulgo" e "procurar um porto mais tranquilo", experimentando o que poderia ser feito nos momentos de ócio. Segundo o filósofo, um homem pode viver por 70 anos ou mais, mas não poderá dizer que viveu realmente se ele não tiver gasto a maior parte do seu tempo com assuntos que lhe dizem respeito de forma direta. Por outro lado, quem dedica seu tempo a si mesmo vive uma vida longa, não importa quantos anos tenha vivido no calendário.

Aquele que utiliza todo o tempo apenas consigo mesmo, que organiza todos os dias como se fosse o último, não deseja, nem teme o amanhã. (…) Não julgues que alguém viveu muito por causa de suas rugas e cabelos brancos: ele não viveu muito, apenas existiu por muito tempo. (p. 43)

É impressionante constatar que um livro escrito há quase dois mil anos aborde uma temática que continua a ser urgente nos dias de hoje – aliás, nos dias de hoje mais urgente do que nunca, ao que parece. Como integrante de um laboratório de pesquisa que estuda trabalho, ócio e tempo livre na sociedade contemporânea, eu vejo cientistas sociais de renome relatando como a ideia de tempo para si é cada vez mais escassa na nossa era. Cada vez trabalhando mais para conquistar status e altos salários, as pessoas são tomadas pelo meio e esquecem o fim – este, inadiável, tendo em vista que todos nós vamos morrer um dia. Como Sêneca diria, ocupam sua vida com o trabalho que realizam, mas esquecem de saborear o presente, antecipando sempre o futuro com agonia e rememorando o passado com insatisfação.

O filósofo tem uma palavra sobre isso também:

Pobre daquele que, cansado mais de viver do que de trabalhar, sucumbe às suas próprias ocupações. (p. 83)


sbvv

A morte de Sêneca, de Luca Giordano


Uma das grandes mensagens que podemos tirar de Sobre a brevidade da vida diz respeito ao quanto nos sentimos desconfortáveis com nossas próprias ocupações e tempos livres. Ou seja, diz respeito a como nós usamos o nosso tempo. Curioso notar que é possível se sentir feliz e realizado trabalhando em algo que nos dá felicidade e, ao mesmo tempo, se sentir letárgico e inútil em um tempo vago – o que desconstrói nossa ideia de que viver sem ter que trabalhar é um prazer garantido. De acordo com Sêneca, há aqueles que não usufruem do ócio, mas são eles mesmos ociosos "doentes", que vagam pelo mundo sem objetivo e não sabem discernir seus próprios interesses. Estes, incapazes de arquitetar um plano de vida de acordo com suas inclinações, "mortos-vivos" nas palavras do filósofo, contrastam com aqueles sujeitos que se dedicam a uma ocupação elevada, que lhes rende bons frutos e sabedoria existencial.

Dentre todos, somente são ociosos os que estão livres para a sabedoria, apenas estes vivem, pois não só controlam bem sua vida, como também lhe acrescentam a eternidade. (p. 64)

Sobre a brevidade da vida é uma leitura rápida que nos faz refletir sobre o que realmente estamos fazendo para garantir uma vida satisfatória e plena – ou, como isso é praticamente impossível, garantir uma vida mais satisfatória e mais plena. Ocupar-se com dedicação e prazer a assuntos que nos tocam como seres humanos é o primeiro passo para construir uma vida baseada em tranquilidade e alegria, e não permitir que sejamos consumidos pela máquina que suga a energia vital que possuímos, que poderia muito bem ser dedicada à nossa efêmera e valiosíssima passagem pela Terra. Por esse lado, o livro de Sêneca é uma leitura rápida, mas muito, muito profunda.

18 março 2013

O silêncio contra Muamar Kadafi, de Andrei Netto

"Nossas cabeças estiveram sob a alça de mira de Kadafi por muitos anos. Agora chegou a hora da liberdade." (p. 96)

13353_gg andreinetto1-hg-ae-20110310

Finalizei hoje a leitura do livro O silêncio contra Muamar Kadafi (2012), escrito pelo jornalista brasileiro Andrei Netto, correspondente em Paris do jornal O Estado de S. Paulo. Na obra, que possui pouco mais de 350 páginas, Netto relata toda a experiência que viveu como repórter na Líbia assolada pela revolução de 2011, cujos desdobramentos culminaram na queda da ditadura de Muamar Kadafi, responsável por governar opressivamente o país durante 42 anos. A Guerra Civil Líbia, iniciada em fevereiro de 2011 com movimentos populares pacíficos reprimidos com violência pelas tropas kadafistas e terminada no final do mesmo ano, fez parte da chamada Primavera Árabe – termo usado para designar uma série de levantes populares em diferentes países árabes, com o intuito de derrubar o regime vigente, caso da Tunísia e do Egito.

Li O silêncio em uma época abarrotada de trabalhos da universidade e do estágio, e foi por esse motivo que, dado o pouco tempo disponível para leitura, demorei quase o triplo de dias que usualmente levaria para terminá-lo. O fato é que, mesmo lendo aproximadamente exíguas 10 páginas diárias, em meio a uma série de outros compromissos, a obra de Netto conquistou minha atenção logo no primeiro dia e revelou-se, com o passar das semanas, uma das melhores publicações jornalísticas brasileiras dos últimos anos, verdadeira referência para quem se interessa pela vertente investigativa do jornalismo à la Jon Krakauer.


Sinopse: Em 10 de março de 2011, familiares, amigos e colegas suspiraram aliviados após vários dias sem notícias do jornalista Andrei Netto no interior da Líbia, então conflagrada pela revolução. O repórter do jornal O Estado de S. Paulo acabava de ser entregue pelas autoridades do claudicante regime líbio aos cuidados do embaixador brasileiro em Trípoli, de onde retornou a sua casa em Paris. Netto, na companhia de um jornalista iraquiano do Guardian, havia sido sequestrado no início do mês por militantes kadafistas na pequena cidade de Sabratha, no oeste do país, e levado para uma prisão secreta nos arredores de Trípoli. A detenção lhe rendeu oito dias de isolamento e deflagrou uma campanha internacional por sua libertação, felizmente bem-sucedida.


100411_Guerra_Libia8 revolucao-libia

Insurgentes comemoram os avanços da ofensiva rebelde nas principais cidades líbias


Dono de um texto agradabilíssimo de ler, dotado de um grande senso de narrativa de aventura, Netto inicia o livro relatando os momentos cruciais da prisão de Kadafi por uma tropa rebelde, já nos últimos instantes da revolução, quando os oposicionistas invadem definitivamente a cidade de Sirte, na qual o ditador se escondia. Depois deste prólogo emocionante – no qual o autor comenta sua própria participação nos acontecimentos da capital, Trípoli, na condição de jornalista – tem início a história propriamente dita, desde a contextualização histórica da Líbia, passando pelos primeiros anos da ditadura de Kadafi, os primeiros movimentos contra o regime, a guerra, as experiências vividas como jornalista e a captura do temível governante no final (ou seja, o início do livro).

Entre o prólogo e o epílogo, toda a revolução é contada em detalhes claros e surpreendentes por Netto, que se coloca na narrativa como personagem, ao lado de outro jornalista extremamente carismático com o qual ele divide as 200 primeiras páginas: Ghaith Abdul-Ahad, repórter iraquiano do The Guardian. Ao lado deste colega de profissão, Netto invade a Líbia clandestinamente, ultrapassa postos de controle sem visto oficial, é abrigado em uma cidade perigosíssima pró-Kadafi, e o resultado dessas e de muitas outras peripécias é um livro que se lê como um thriller de ação, intercalado por numerosas e valiosíssimas informações jornalísticas sobre o conflito no norte da África – muitas delas inéditas.


DSC03233 

Detalhe do caderno de fotos


O silêncio contra Muamar Kadafi é um livro fascinante porque consegue envolver completamente o leitor da primeira à última página; é uma obra de não-ficção narrada com uma estrutura de romance, sem parecer piegas, boba ou com fins puramente alarmistas. É um trabalho jornalístico sério, e o profissionalismo de ponta do autor é visível em cada página. Acompanhando de perto toda a movimentação dos insurgentes, Netto colhe depoimentos dos quais extrai as estratégias militares dos rebeldes, a sua visão de política e as perspectivas para uma Líbia pós-revolução. Tudo trabalhado com muito esmero e dedicação, o que confere ao livro um indiscutível material de primeiríssima qualidade.

Especialmente interessante é o capítulo "Traição", no qual Andrei narra seus dias de penúria nos calabouços do regime kadafista, após ser preso por tropas leais ao ditador na cidade de Sabratha, semanas antes da intervenção da OTAN no conflito. Libertado graças a um jogo diplomático brasileiro, com a condição de que deveria deixar a Líbia, Netto retorna ainda duas vezes ao país, ocasiões que usaria para cobrir os momentos finais da insurgência.

O livro conta ainda com um interessantíssimo caderno de fotos que contém registros da guerra urbana nas cidades de Sirte, Trípoli e Misrata, importantes pontos estratégicos disputados durante os confrontos entre oposicionistas e governistas.

Em suma, O silêncio contra Muamar Kadafi é não somente um excelente livro que mistura entretenimento com informação de ponta, mas, também, um dos principais lançamentos editoriais do ano, escrito por um jornalista extremamente competente que, pode-se dizer, esteve no "olho do furacão" da Primavera Árabe na Líbia. Leitura recomendadíssima.


"Então fui assaltado pela impressão de que meu destino poderia estar selado, e que eu viraria mais um corpo atirado ao deserto, desaparecido para sempre, como Lúcia advertira. Foram breves instantes intermináveis, nos quais o soldado que me empurrava continuou a rezingar algo cujo significado eu não entendia, enquanto outros gritavam ao fundo. Me preparei para a execução sentindo uma tristeza imensa, a mesma que sentira dez anos antes, no Brasil, ao ser assaltado. Nesse instante eterno, me senti só. Um buraco se abriu em meu peito, e senti um vazio profundo. O medo que eu tinha experimentado em outros momentos se dissipara por completo; sabia que, se acontecesse, seria ali, rápido, sem torturas, sem sofrimento. Lamentei a dor eventual da minha família e das pessoas mais importantes da minha vida. Pensei em Lúcia e pedi desculpas a ela. Mas não lamentei nada além do sofrimento alheio, nem me arrependi das decisões que tomara. Me senti digno e seguro das minhas escolhas, de todas. E tive a certeza de que assumiria todos os riscos de novo, sem hesitar, porque aqueles riscos fazem parte da vida que escolhi." [p. 190-1]

14 fevereiro 2013

Viagem de autocarro, de Josep Pla

"Viaja-se, geralmente, para ver as chamadas coisas inúteis do mundo – que são as únicas importantes." (p. 16)

pla josep_pla_475_475x352

Quando estive em Portugal durante a última semana de janeiro deste ano, fiz um breve passeio de mochileiro pela cidade de Lisboa, e por "passeio de mochileiro" quero dizer que andei a esmo durante um dia completo, perambulando nas imediações do Rio Tejo e do Shopping Center Vasco da Gama. O Rio Tejo exercia um grande fascínio sobre mim não só porque é um dos rios mais famosos do mundo, mas também porque sempre foi uma das principais fontes de inspiração para o poeta Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa.

Nesse meu turismo descompromissado com visitas a monumentos históricos e outros pontos de interesse genérico (tão apreciados pelos pacotes de agências turísticas, cujos programas acabam minando o verdadeiro prazer da viagem), fui parar na Estação Oriente, que é uma das estações ferroviárias mais próximas do aeroporto de Lisboa. Graças a uma coincidência milagrosa, ocorria nesse dia uma feira de livros nos subsolos da estação, e os volumes eram vendidos a preços bem mais baixos do que os que constavam nos catálogos das livrarias. Quando pus minha mochila no chão e comecei a folhear Viagem de autocarro (Viaje en autobús, 1942-1991), percebi que aquele livrinho escrito pelo catalão Josep Pla tratava exatamente do que eu estava vivendo naquele momento: viagens sem compromisso com o turismo comercial, viagens nas quais a principal preocupação é buscar a própria identidade.


Sinopse: Josep Pla percorre a Catalunha de autocarro. Vai de aldeia em aldeia, numa geografia rural onde a paisagem se impõe como motor para reflexões, divagações e devaneios. É uma viagem pessoalíssima, onde uma conversa aparentemente banal se transforma numa reflexão sobre a condição humana. As intuições de Josep Pla são sempre extraordinariamente agudas, e é esse um dos encantos deste livro. O que faz actualíssima esta «Viagem de Autocarro» é a escrita de Pla: de uma clareza sem um pingo de superficialidade, sempre temperada pelo sal da ironia, por vezes tocada por uma ligeira amargura que nunca se confunde com rancor. Josep Pla tinha a obsessão do adjectivo certo, e o rigor com que descreve paisagens e pessoas corresponde à capacidade rural de nomear com exactidão cada árvore, cada planta, cada elemento da natureza. Saber sempre a palavra exacta para cada coisa é um poderoso meio de transporte. É nele que Pla nos conduz ao território a que chamamos literatura.


DSC03206 DSC04317

O livro, ainda inédito no Brasil, traz o relato pessoal das excursões de autocarro que Josep Pla realizou pela bucólica região da Catalunha, na Espanha ("Autocarro" é a palavra lusitana usada para designar o que no Brasil nós chamamos de "ônibus"). O resultado dessa viagem é contada no pequeno livro de capa verde que comprei no subsolo da Estação Oriente e li ao longo das minhas próprias viagens de autocarro, trem e metrô: fascinado pelo encanto que as paisagens da natureza despertam no viajante, Pla é levado a imergir em um mundo de reflexões sobre a condição humana e o espírito ganancioso das pessoas que trocam as experiências subjetivas mais enriquecedoras em troca de simples aquisição material.

A escrita de Josep Pla transpira a sensação de leveza, auto-ironia e aventura que perpassa pelo espírito de todo viajante itinerário. Ao longo das páginas somos convidados a participar dos diálogos entre Pla e motoristas de ônibus, jovens nativos e outros transeuntes que captam a atenção do escritor – fala-se sobre a vida no campo, a vida nas cidades grandes, os conceitos de amor, vida e morte. Dividido em capítulos curtos que, embora sejam independentes entre si, possuem uma certa ordem cronológica, a obra vai traçando um roteiro tortuoso que é pontilhado de provocações e indagações sobre a existência em geral e sobre as viagens, em particular.

DSC04327 DSC04328

Viagem de autocarro é basicamente um livro de cunho arqueológico, na medida em que o autor busca "desenterrar" as próprias origens e mostrar ao leitor o percurso da própria identidade. É a típica obra de auto-conhecimento que visa imprimir um interesse universal nas vivências particulares do escritor – e esta é uma das vertentes da literatura de que mais gosto, tal como visto em Álbum de viagens, de Michael Crichton.

Depois de comprar o livro de Pla em Lisboa, voltei de trem para a cidade de Aveiro no final do dia. Comprei os bilhetes na própria Estação Oriente, esperei o trem chegar à plataforma e, quando ele finalmente chegou, despejei minha mochila no bagageiro acima da poltrona e comecei a ler a obra que havia acabado de adquirir. Observando os campos e as aldeias desfilarem sob a luz mortiça do final da tarde através da janela, tive a nítida sensação de que estava vivendo exatamente aquilo que Pla descreve no livro – sendo tocado pelas mesmas questões fundamentais e levado a suscitar o mesmo tipo de reflexão. Foi uma experiência muito enriquecedora.

A seguir, meu trecho favorito de toda a obra, grifado por mim:

"Tem de se viajar para se descobrir, com os próprios olhos, que o mundo é muito pequeno e que é portanto absolutamente necessário fazer um esforço para dignificar a visão até se acabar por ver as coisas em grande. Tem de se viajar para nos darmos conta de que uma paixão, uma ideia, um homem só são importantes quando resistem a uma projeção no tempo e no espaço. Não há nada como nos afastarmos um pouco para nos curarmos da psicose da proximidade, da deformação da proximidade, que nos atacou a todos. Tem de se viajar para se aprender – apesar de tudo – a conservar, a aperfeiçoar, a tolerar." (p. 17)

As fotografias que ilustram esta postagem foram batidas na cidade de Aveiro, em Portugal.

31 janeiro 2013

A visita cruel do tempo, de Jennifer Egan

"Em que momento exato você se desviou só um pouquinho da vida relativamente normal que vinha levando até então, em que momento ela se desalinhou de maneira infinitesimal para a esquerda ou para a direita, embarcando assim na trajetória que acabaria por levá-lo para onde se encontra agora?" (p. 169)

visita_cruel_do_tempo Jennifer Egan
© Pieter M. van Hattem / Vistalux

Contact Vistalux for more information
(t) 323-933-7800
(e) info@vistalux.com
(w) www.vistalux.com

Alguns livros ficam empilhados sobre a minha mesa aguardando o momento adequado para serem lidos. Tenho aqui um exemplar de Amor líquido, do filósofo Zygmunt Bauman, As confissões, de Rousseau, Anna Karienina, do mestre Tolstói, e uma biografia completa da banda Pink Floyd. No meio desses livros, estava também A visita cruel do tempo (A visit from the goon squad, 2010), que peguei para ler no início da semana passada, quando julguei que o momento certo havia chegado finalmente. Eu tinha a certeza de que esse romance demandava do leitor um estado de espírito conveniente – como, no fundo, todos os livros demandam.

Terminei a leitura hoje, e posso dizer que toda a festa feita em cima da obra é justificada. Jennifer Egan escreveu um livro que é muitíssimo inventivo e original na forma, mas que possui uma temática extremamente clássica, que afeta todos os seres humanos desde que o mundo é mundo: a passagem do tempo e como isso afeta nossas vidas. Quando folheava o livro, antes mesmo de começar a lê-lo, eu encarava todas aquelas esquisitices da narrativa como uma mera tentativa de chocar o leitor, de chamar atenção, mas esse julgamento tive que abandonar assim que iniciei a leitura. Sim, existe um capítulo escrito em segunda pessoa, existe um capítulo escrito em forma de coluna de revista de fofoca, existe um capítulo escrito em forma de apresentação de PowerPoint, mas todos esses floreios se revelam como um recurso, uma técnica especial para dar conta de todo o universo proposto pelo romance.


Sinopse: Bennie Salazar é um executivo da indústria musical. Ex-integrante de uma banda de punk, ele foi o responsável pela descoberta e pelo sucesso dos Conduits, cujo guitarrista, Bosco, fazia com que Iggy Pop parecesse tranquilo no palco. Jules Jones é um repórter de celebridades preso por atacar uma atriz durante uma entrevista e vê na última — e suicida — turnê de Bosco a oportunidade de reerguer a própria carreira. Jules é irmão de Stephanie, casada com Bennie, que teve como mentor Lou, um produtor musical viciado em cocaína e mulheres. Sasha é a assistente cleptomaníaca de Bennie, e seu passado desregrado e seu futuro estruturado parecem tão desconexos quanto as tramas dos muitos personagens que compõem esta história sobre música, sobrevivência e a suscetibilidade humana sob as garras do tempo.


A edição da Intrínseca traz na capa de trás e na primeira página do volume uma série de elogios feitos por suplementos literários de jornais tais como The New York Times, The Guardian e The Washington Post. Como muitos leitores, não confio totalmente na opinião desses suplementos (geralmente trata-se de uma questão de puro marketing), mas dessa vez, após ler o livro, constatei que todas as opiniões colocadas ali têm seu fundamento. A maioria dos elogios se refere à criatividade de Jennifer, posta à prova neste romance, e à sensibilidade no trato com os personagens da história – todos inesquecíveis, diga-se de passagem.

O conceito de A visita cruel do tempo é o seguinte: uma série de histórias paralelas que se cruzam, uma a uma, em um espaço de tempo de aproximadamente 60 anos. Cada capítulo é narrado sob o ponto de vista de um personagem específico, situado em uma época específica; a cronologia é embaralhada e o ano propriamente dito nunca é mencionado – de modo que o resultado disso é uma espécie de caleidoscópio em que pequenas narrativas se entrechocam, se entrelaçam e se separam. Falando assim, fica a impressão de que o romance é uma confusão de tempos e que o leitor sofre amargurado na tentativa de acompanhar o fio da meada. Engano. Jennifer possui uma habilidade ímpar na hora de situar o que está escrevendo, e o leitor atento não tem a menor dificuldade em estabelecer ordem no aparente caos de todas aquelas 333 páginas. É muito fácil não se perder na narrativa.

planoK_visita_brutamontes_final_final_final a-visit-from-the-goon-squad 1j2ts745d8ap29yevr9k capa_o_torreao_web1

O tom que perpassa a narrativa de A visita cruel do tempo é carregado de uma atmosfera que eu não saberia definir ao certo. Há algo de nostálgico, determinista, inexorável, fazendo-nos pensar que nossa linha do tempo já está fixada de uma maneira que, independentemente do que você faça, ela não se alterará; ainda assim, é uma narrativa que traz consigo um clima de mundo repleto de possibilidades. Seria mais ou menos como se alguém o abordasse, o sacudisse e dissesse: "Você tem o tempo da sua vida para fazer alguma coisa que valha a pena… E as lembranças dos seus feitos ecoarão por toda a eternidade, e suas atitudes afetarão a vida de outras pessoas." Eu senti uma frase como essa zunir na minha cabeça ao virar a última página.

Aliás, este é um livro que fala diretamente com o leitor, e essa é uma característica que me chamou muito a atenção. Não importa o personagem do capítulo que está lendo, não importa se ele é narrado em primeira ou terceira pessoa: você, como leitor, toma parte na história e sente as angústias e os dilemas retratados lá, pelo simples fato de que também é capaz de sentir na pele o efeito do tempo passando e das coisas ao seu redor mudando.

No fundo, A visita cruel do tempo fala sobre como nós podemos perceber (ou não perceber) a passagem do tempo e o impacto que isso traz para as nossas vidas. Pessoas que conhecemos no passado, foram grandes amigas nossas, mas que agora no presente sequer nos reconhecem; experiências e eventos que antes pareciam gloriosos, juventude que se esvai como a água que desce pelo ralo do banheiro; sonhos e expectativas que não encontraram o caminho certo. Tudo isto está presente no livro de um jeito desconcertante, que nos abala, mas que ao mesmo tempo nos faz adquirir uma certa maturidade no final da leitura.

slide caracol-de-relc3b3gio

Na esquerda, página 274 de A visita cruel do tempo

Recomendo A visita cruel do tempo especialmente aos meus amigos que cursam Psicologia. A Literatura e a Psicologia sempre foram coisas indissociáveis para mim, e 'A visita cruel do tempo' é uma prova de que podemos ter o privilégio de estudar nos livros de ficção as coisas que vemos na faculdade. Leiam. Aliás, o tema central desta obra é aquilo que mais leva as pessoas à terapia: a constatação de que o tempo passou e alguma coisa irrecuperável se perdeu lá atrás.

Nota solta: dentre todos os prêmios importantes que o livro de Jennifer recebeu, o Pulitzer de Ficção (2011) certamente é o mais icônico.

Uma dica: se você tiver tempo, paciência e disposição, leia A visita cruel do tempo duas vezes seguidas. Assim como o filme Cloud Atlas, dos irmãos Wachowski, esta é uma obra que pede uma repetição instantânea, o que ajuda o leitor a encaixar melhor toda a cronologia da história e seus detalhes.

25 dezembro 2012

Estado de graça, de Ann Patchett

"Agora que Marina estava no Amazonas, parecia infindável a lista de coisas que poderiam matar uma pessoa sem que a culpa fosse atribuída a alguém (…)" (p. 86)

Estado-de-Graca patchett

Lá estava eu na livraria que costumo visitar praticamente todos os dias, cheia de gente neste fim de ano, quando vejo ao lado de uma montanha de edições de O Hobbit alguns exemplares do livro Estado de graça (State of wonder, 2011), escrito pela norte-americana Ann Patchett. Fui direto para a estante em que eles estavam, querendo pôr as mãos naquele livro e folheá-lo a qualquer custo. Não que eu já tivesse escutado algo a respeito da obra, nem mesmo a respeito da autora: eram ambos completamente inéditos para mim. O que me chamou a atenção imediatamente, e o que me fez querer investigar Estado de graça, foi a arte da capa. Sim, às vezes ninguém consegue fugir disso, nem mesmo os leitores mais conservadores: somos reféns de algumas capas maravilhosamente trabalhadas.

Através de uma rápida olhada na sinopse da orelha, descobri que o livro é uma espécie de romance de aventura que envolve pesquisa científica, excursões pela Amazônia indígena e uma espécie de "busca pela fonte da juventude" – metaforicamente falando. Descobri também que Patchett foi a vencedora do Prêmio Orange de Literatura pela obra Bel Canto, que estou esperando sair em português para conferir.

Quanto a Estado de graça, foi certamente uma das melhores leituras que fiz neste ano.


Sinopse: A Dra. Marina Singh trabalha para uma empresa norte-americana que financia o desenvolvimento de uma nova droga na Amazônia. À frente da pesquisa está a Dra. Annick Swenson, que descobriu uma tribo isolada na floresta Amazônica. As mulheres desta tribo permanecem férteis por toda a vida e dão à luz filhos saudáveis depois dos 60 anos, graças ao hábito de mascarem a casca de determinada árvore. Um medicamento feito a partir dessa substância significaria a solução para os problemas de fertilidade de mulheres em todo o mundo. Implacável e intransigente, a Dra. Swenson faz de tudo para proteger sua pesquisa dos olhos ambiciosos da indústria farmacêutica e manter em segredo as informações sobre o progresso com os estudos. Após a morte de um colega de laboratório, Marina é enviada ao Brasil com o objetivo de encontrar respostas.


Acredito que seja sempre um desafio, para o escritor, redigir uma história que se passa em um país diferente do seu: no caso dos escritores que se prezam, é preciso viajar a fim de coletar informações in loco, ouvir e estudar a língua nativa, investigar a cultura do povo e todas as suas particularidades. Me parece que Patchett cumpriu essas exigências ao se propor a escrever sobre o Brasil – mais especificamente, sobre Manaus e a Amazônia. Não existe em seu texto algo que revele leviandade ou ingenuidade: apenas os fatos, tais como são, crus. A população da zona portuária de Manaus, as características do clima da região, a população indígena. Se às vezes a autora parece cair em um lugar-comum, seja ao dizer que o menino vestia uma camisa da Copa do Mundo ou que os vendedores ambulantes brasileiros empurram suas bugigangas aos turistas sem piedade, basta olharmos em volta e perceber que isso não é mera ficção estereotipada. É a realidade que se apresenta no cotidiano brasileiro.

Uma das características mais chamativas de Estado de graça é a própria escrita de Ann Patchett, escrita esta que foi inclusive largamente elogiada pelo suplemento literário do The New York Times. Não sem razão: o texto da norte-americana possui fluidez, estofo, do tipo que não subestima a inteligência do leitor. Explora psicologicamente todos os lados da condição em que os personagens se encontram, explora seus sentimentos contraditórios e convida o leitor a tomar parte dessas contradições. Não é propriamente uma linguagem de best-seller à qual estamos acostumados hoje em dia, meramente descritiva e superficial quando trata de conteúdos abstratos. Portanto, embora a sinopse sugira algo bem próximo da aventura descompromissada, a autora que narra essa aventura mostra estar preocupada, também, com os aspectos mais profundos de sua trama – como a ética na pesquisa científica, o poder da empresa que a patrocina e o exotismo das populações indígenas.

6a00d83451bcff69e20120a52f4f65970c-300wi 9780061565311_0_Cover2 393px-bel_canto belcanto

Diferentes edições em inglês de Bel Canto, a mais conceituada obra de Ann Patchett

A propósito, Estado de graça é uma mistura muito bem sucedida dos gêneros drama, aventura e investigação policial. No início da história, muitos personagens são apenas citados, de modo que o leitor não sabe o que é feito deles, onde estão e o que realmente fazem: paira uma atmosfera de chão movediço e mistério em que pululam muitas perguntas e não há quase nenhuma resposta plausível – e esse enigmático estado de coisas é uma das razões pelas quais a protagonista, Marina Singh, viaja para o Brasil e vai conferir as coisas pessoalmente. Desde a primeira página, quando os enigmas e as poucas explicações já começam a intrigar o leitor, somos levados a ir virando as folhas quase ininterruptamente, acompanhando os desdobramentos imprevisíveis da trama.

"Envolvente" e "inteligente" são as duas palavras que, creio, definem melhor o que se pode esperar de Estado de graça. Estamos vivendo em uma época na qual poucos livros conseguem unir de forma realmente satisfatória elementos aparentemente díspares como excursões ao estilo da aventura clássica e discussões sobre a condição e os relacionamentos humanos. A mais recente obra de Ann Patchett consegue trazer isso à tona. Uma boa dose de literatura inteligente: consegue colocar o leitor para refletir e, além disso, entretê-lo.

Leia o primeiro capítulo do livro aqui.


Marina, surpresa pela força da ordem e pelo olhar enlouquecido de frustração no rosto de Barbara Bovender, obedeceu e bebeu todo o líquido em um longo gole. Não era exatamente líquido, sendo mais denso no fundo, viscoso, e com pequenos pedaços de algo duro como gravetos arranhando sua garganta. A canoa onde estavam era um tronco e virava de lado, e ela era jogada para dentro d'água com o pai. A água entrava em seus olhos, no nariz e na boca. Ela afundou antes que pudesse nadar e tudo o que conseguia sentir era o gosto do rio. Ela havia se esquecido, até aquele momento, do gosto do rio. (p. 103)

02 dezembro 2012

Globalização, democracia e terrorismo, de Eric Hobsbawm

"Teremos de encontrar outras maneiras de organizar o mundo globalizado do século XXI" (p. 85)

10001_0 historiador-Eric-Hobsbawm-20121001-size-598

Quem circula com frequência pelas grandes livrarias sabe que basta um autor relativamente conhecido vir a falecer para que boa parte da sua obra fique estampada nas prateleiras mais visíveis do estabelecimento. Lembro que, quando José Saramago deixou este mundo, em junho de 2010, as estantes da livraria que costumo visitar ficaram apinhadas de livros do escritor Nobel português; com Michael Crichton (em 2006) não foi diferente, e com John Updike (em 2009) aconteceu a mesma coisa. Geralmente esta avalanche de títulos alardeados após a morte do autor vem acompanhada de promoções chamativas: Caim com 10% de desconto, Jurassic Park em edição de bolso, boxes de luxo da série Rabbit.

Embora esta prática tenha tudo de mercantilista em suas vantagens publicitárias para a loja, deve-se admitir que ela também possui seu lado bom. Chega a ser bastante óbvio o fato de que podemos conhecer grandes obras quando um grande escritor (que não conhecíamos antes) vem parar diante dos nossos olhos. Eric Hobsbawm, por exemplo, faleceu em 1º de outubro de 2012; no dia seguinte, voltando da faculdade, passei na livraria e vi uma série de suas obras clássicas enfileiradas na primeira prateleira depois das portas de entrada. Intimado a prestar minhas condolências a todos aqueles livros órfãos, parei para folhear alguns ao acaso. Um dos que peguei nas mãos foi Globalização, democracia e terrorismo (Globalisation, democracy and terrorism, 2007); cativou-me logo pela sua simplicidade, clareza e relevância de conteúdo. E, como o livro não era tão grande assim – na verdade, possui apenas 182 páginas –, foi ele que escolhi para conhecer esse historiador tão elogiado ao redor do mundo.


Sinopse: Nos 10 textos que compõem este livro, o renomado historiador Eric Hobsbawm, autor do clássico "Era dos Extremos", analisa a situação mundial no início do novo milênio e trata dos problemas mais agudos que nos confrontam. Nesta esclarecedora aula de História Contemporânea, Hobsbawm traça um painel do cenário político internacional ao discorrer sobre temas como guerra e paz, imperialismo, nacionalismo e hegemonia, ordem pública e terrorismo, mercado e democracia, o poder da mídia e até futebol.


seisdias05 rapazes-com-bandeira-palestina

Reflexões sobre os conflitos civis no Oriente Médio são mencionados durante boa parte da obra


Globalização, democracia e terrorismo é, na realidade, uma coletânea de 10 palestras que Eric Hobsbawm proferiu ao redor do mundo. Nelas, o historiador aborda uma série de questões políticas, sociais e econômicas que estão em evidência no nosso mundo contemporâneo. Com a grande autoridade de que dispõe, ele esmiúça conflitos militares no Leste Europeu e no Oriente Médio, fala sobre a emancipação social das mulheres com relação aos homens, discorre sobre a hegemonia político-ideológica que as grandes potências exercem sobre os demais países, conta um pouco de História Clássica, grupos separatistas (como o IRA e o ETA), violência nos grandes centros urbanos e as perspectivas da democracia nessa virada de século. Em suma: este livro é um verdadeiro apanhado geral sobre o que anda acontecendo no planeta nos últimos tempos – uma aula de história contemporânea.

Talvez pelo fato de serem palestras, os capítulos do livro apresentam uma clareza de ideias muito motivadora para o leitor. Sem circunvoluções enfadonhas, sem prolixidade, sem jargões científicos, Hobsbawm tece comentários muito lúcidos para seus ouvintes, e a transformação de sua fala para um texto escrito resultou em uma literatura muito inteligível e coerente. O capítulo 6, As perspectivas da democracia, por exemplo, é especialmente interessante porque trata de um assunto bastante relevante de forma profunda e clara ao mesmo tempo.

Muito interessantes também são as considerações que o autor faz a respeito do futebol enquanto movimento de massas nacionalista e geradora de violência urbana, no capítulo 5. Ou a discussão que ele levanta quando menciona os principais grupos separatistas europeus e a relação que estes estabelecem com a queda dos governos estáveis e auto-reguladores. Sob diversos aspectos, o que Hobsbawm faz é girar o prisma da realidade política e social do mundo e mostrar as suas outras facetas, que chocam e desestruturam nossas mais antigas convicções.


irlanda ira e menina

No livro, Hobsbawm levanta discussões que envolvem grupos separatistas europeus, como o IRA e o ETA


Em vida, Eric Hobsbawm com frequência era acusado de sustentar um posicionamento ideológico irracional nos dias de hoje: o comunismo. Em uma reportagem publicada pela revista Veja (leia aqui), o historiador é literalmente chamado de "idiota moral" pelo jornalista, que, sem escrúpulos, afirma que este intelectual inglês manchou toda a sua obra ao levantar a bandeira stalinista e pregar o regime comunista como ideal. O que convém notar é que, se ele fosse o cego ideológico que a revista afirma que era, Hobsbawm não teria reconhecido que os governos comunistas haviam errado totalmente o caminho que Marx orientara.

(Não sou comunista, não sou marxista, mas gostaria de dizer que todas as críticas feitas a Eric Hobsbawm são aplicáveis a personalidades de direita, também. "Mesmo diante da execução sumária e tortura de milhões, continuou se furtando a condenar um regime atroz" é um exemplo de crítica aplicável a ambos os lados.)

Por fim: se o leitor quer uma dose rápida, mas riquíssima, de aulas sobre História Contemporânea, convido-o a ter nas mãos este pequeno livro que, longe de pregar qualquer movimento ideológico, mostra como o nosso mundo é complexo e admite várias vertentes – várias suposições e vários pontos de vista.


"Um prognóstico tentativo: no século XXI, as guerras provavelmente não serão tão mortíferas quanto foram no século XX. Mas a violência armada, gerando sofrimentos e perdas desproporcionais, persistirá, onipresente e endêmica – ocasionalmente epidêmica – em grande parte do mundo. A perspectiva de um século de paz é remota." (p. 35)

03 novembro 2012

A arte de viajar, de Alain de Botton

"O que consideramos exótico no exterior pode ser aquilo a que aspiramos em vão em casa." (p. 80)

1010808-87-a-arte-de-viajar-edicao-1 svALAIN_narrowweb__300x444,0

Meus amigos mais próximos sabem que, quanto mais sinto prazer em ler um livro, mais demoro para terminar de lê-lo; mais vagarosamente saio de um capítulo para o outro, mais tempo costumo gastar para ler um parágrafo, com mais lentidão me detenho numa página específica. Alguns colegas até se exasperam com isso, não compreendem o porquê, como foi o caso de uma amiga minha que me via diariamente com A arte de viajar (The art of travel, 2002) nas mãos e sempre dizia: "Você ainda não terminou de ler este livro? Não acredito!" E, três dias depois, ela me encontrava com o mesmo livro aberto sobre o colo, praticamente na mesma página de antes.

Se no passado eu já tinha ouvido falar em Alain de Botton, foi somente como uma menção vaga que não marcou nenhuma impressão na minha mente. Essa leve sensação de familiaridade com o nome desse escritor suíço foi despertada quando, num belo dia, passeando os olhos por uma revista publicitária, vi um de seus livros mais elogiados em preço de promoção: era A arte de viajar, que, pela capa e pelo título, conseguiu atrair minha atenção e me fazer querer lê-lo imediatamente. Não titubeei: fui à livraria, comprei o volume (que foi baratíssimo, diga-se de passagem) e me deliciei com uma das leituras mais prazerosas que lembro ter feito.


Sinopse: Em A arte de viajar, Alain de Botton, autor de As consolações da filosofia, nos propõe uma excursão pelas satisfações e decepções do ato de viajar. Aeroportos, tapetes exóticos, emoção das férias e frigobares de hotel; esse livro bem-humorado, esclarecedor e instigante revela as motivações filosóficas, expectativas e complicações ocultas em nossas viagens pelo mundo afora.


2352469200_d30425c0a8_o

Cafeteria automática (1927), de Edward Hopper: uma das muitas pinturas analisadas em A arte de viajar


Fartamente ilustrado com imagens de pinturas famosas, fotografias tiradas pelo próprio autor e desenhos clássicos, A arte de viajar é um verdadeiro deleite para quem gosta da vertente da Literatura que se propõe a transmitir para os leitores as vivências, experiências significativas e memórias pessoais do escritor. Eu diria, inclusive, que A arte de viajar é o livro de memórias por excelência, não somente porque o autor narra suas reflexões sobre o mundo e tem toda uma concepção de vida, mas porque ele ilustra essas reflexões de forma incrivelmente pessoal. Imaginem aquelas fotografias que nós batemos no meio da rua, capturando o telhado torto de uma casa, uma nuvem solta ou um transeunte qualquer: essas imagens amadoras De Botton também faz, e, mais ainda, ele as usa para ilustrar, de forma muito própria, aquilo que quer passar para os seus leitores.

O resultado disso é um livro muito bonito, modesto e ao mesmo tempo elegante, porque Alain de Botton – embora sempre escrevendo de forma muito pessoal – se apoia nas ideias de uma miríade de outras personalidades: filósofos como Nietzsche, pintores como Van Gogh, poetas como Baudelaire, ensaístas como John Ruskin. Provando que possui uma extensa sabedoria sobre a obra de todas essas pessoas, De Botton as utiliza para ilustrar e explicar vários aspectos inerentes ao exercício de viajar. Em outras palavras, ele transforma a filosofia que nós consideramos erudita e distante do cotidiano em algo totalmente próximo e útil.


hopper.gas

Gasolina (1940), outra tela de Hopper sobre a qual De Botton comenta de forma brilhante


Uma coisa é certa: você vai ficar com vontade de pegar o primeiro avião (ou o primeiro trem, ou o primeiro navio, ou o que quer que seja) e ir em direção a qualquer lugar. Lendo A arte de viajar você sente aquela vontade intensa de viver novas experiências em um lugar bem diferente daquele que você costuma ver todos os dias, no qual você costuma estar sempre. E esse desejo tem origem nas reflexões que De Botton traz para nós em seu livro, ideias que encontram suporte na Arte de um modo geral, na poesia, na arquitetura, e em todas as coisas que a Filosofia pode nos oferecer. Um verdadeiro banho de inteligência bem-humorada, útil e reflexiva.

O mais interessante desta obra é que o autor discorre sobre vários aspectos relacionados à atividade de viajar, e esses aspectos podem se estender à vida cotidiana de um modo mais amplo. Por exemplo, ele escreve sobre a expectativa antes de partir, sobre a curiosidade, sobre o exotismo, sobre o sublime, a posse da beleza e o hábito – neste último capítulo, o autor nos brinda com uma hilária mas construtiva análise da obra de Xavier de Maistre, Viagem ao redor do meu quarto. Todas as considerações sobre esses temas são extremamente bem-vindas, e a linguagem de De Botton, elegante e harmoniosa, envolvente, faz com que adoremos cada passagem, cada trecho.


Hodges_William-Tahiti_Revisited

"No contato com esses elementos, leitores que em outras áreas de suas vidas seriam capazes de ceticismo e prudência regrediam ao otimismo e à inocência primordiais." (p. 16)


Se há uma coisa que eu repito com constância aqui no Blog, é esta: nunca consigo escrever uma boa resenha sobre os livros de que mais gosto. Sempre sai uma coisa canhestra, comentários volúveis, e nas releituras eu invariavelmente penso: "não era bem isso o que eu queria dizer sobre a obra". Já com isso em mente, selecionei um trecho do próprio A arte de viajar que, na minha opinião, resume bem as reflexões que o livro se propõe a fazer. Nas palavras do próprio Alain de Botton, eis:

"Se nossas vidas são dominadas pela busca da felicidade, talvez poucas atividades revelem tanto a respeito da dinâmica desse anseio – com toda a sua empolgação e seus paradoxos – quanto o ato de viajar. Ainda que de maneira desarticulada, ele expressa um entendimento de como a vida poderia ser fora das limitações do trabalho e da luta pela sobrevivência. Mas raramente se considera que as viagens apresentem problemas filosóficos – ou seja, questões convidando à reflexão além do nível prático. Somos inundados por recomendações sobre os lugares para onde viajar, mas pouco ouvimos sobre como e por que deveríamos ir." (p. 17)

A arte de viajar nada tem de manual ou de guia; sua proposta não é dar ao leitor conselhos do tipo "Faça isso, experimente aquilo". É muito importante frisar isso, ainda mais em se tratando de Alain de Botton, que ganhou a fama errada de autor de auto-ajuda filosófica. O que ele realmente propõe é uma conversa, uma abertura de olhar, estar atento às experiências do mundo cotidiano, o que pode facilitar e muito a nossa existência, transformando em arte e em beleza uma coisa que às vezes soa aparentemente mesquinha e desinteressante.

Boa viagem!


Abaixo, um trecho do livro que achei muito significativo:

DSC02810

"A fotografia não pode, por si só, garantir o alimento necessário para a alma quando esta se encontra em contato com paisagens belas. A verdadeira posse de uma paisagem depende de um esforço consciente no sentido de observar elementos e entender a sua construção. Podemos muito bem ver a beleza apenas abrindo os olhos, mas sua sobrevivência na memória depende de quão intencionalmente a apreendemos. A câmera fotográfica embaça a distinção entre olhar e notar, entre ver e possuir; pode oferecer-nos a alternativa de um autêntico conhecimento, mas também pode, inadvertidamente, fazer parecer supérfluo o esforço dessa aquisição – porque sugere que já fizemos todo o trabalho ao meramente tirar a fotografia." (p. 219)

30 julho 2012

Claraboia, de José Saramago

"A vida deve ser interessada, interessada a toda a hora, projetando-se para lá e para além." (p. 252)

claraboia-saramago-capa jose-saramago2

José Saramago tinha pouco mais de 30 anos de idade quando finalizou a redação de um romance intitulado Claraboia (1953). Pode-se dizer que ele já gozava de certo reconhecimento como escritor nessa época, ainda que mínimo, uma vez que publicara um romance (Terra do pecado, de 1947) e alguns contos curtos em revistas e jornais portugueses – nos quais às vezes utilizava um pseudônimo, "Honorato".

Auxiliado por um amigo jornalista, Saramago conseguiu que seu romance recém acabado fosse parar nas mãos de uma editora de Lisboa. Ansioso por vê-lo logo publicado e ganhar as livrarias, deixou o original lá e aguardou uma resposta – que nunca veio. Os editores não entraram mais em contato com o futuro prêmio Nobel de Literatura, nem para lhe dizer que o livro não seria publicado por eles. E o datiloscrito original de Claraboia permaneceu, dessa maneira, esquecido dentro de um arquivo durante quase três décadas.

Em meados dos anos 1980, José Saramago – agora um dos nomes mais importantes da literatura mundial – recebeu um comunicado da mesma editora que o havia deixado sem resposta no passado. Haviam encontrado o livro de 1953 perdido nas gavetas dos editores e queriam a permissão do autor para publicá-lo. Ouviram um convicto "Não" de Saramago – seja porque o romance não mais correspondia à sua visão de mundo, seja porque ele ficou ressentido, mesmo, como qualquer escritor ficaria ao ver um de seus primeiros filhos ser tratado com tanta vulgaridade.

O fato é que terminei de ler este livro hoje, e agora venho aqui compartilhar com vocês minhas impressões sobre ele.


Sinopse: Um prédio de seis apartamentos numa rua modesta de Lisboa é o cenário principal das histórias simultâneas que compõem este romance da juventude de José Saramago. Os dramas cotidianos dos moradores – donas de casa, funcionários remediados, trabalhadores manuais – tecem uma trama multifacetada, repleta de elementos do consagrado estilo da maturidade do escritor, em especial a maestria dos diálogos e o poder de observação psicológica.


jose-saramago indicadoroculto

Claraboia, segundo romance de José Saramago, foi publicado aqui no Brasil em 2011 pela Companhia das Letras, com a autorização dos herdeiros do autor – para os quais ele concedera o direito sobre a obra. A verdade é que a decisão de trazê-lo a público foi mais que sensata e, sobretudo, um verdadeiro presente aos leitores que conhecem a qualidade da bibliografia deste português tão notável. Em Claraboia temos uma grande amostra do que Saramago foi em sua iniciação à literatura, em seus primeiros passos como escritor. A obra é simplesmente recomendadíssima: obrigatória para os fãs do autor português e uma sugestão apetitosa para quem gosta dos romances urbanos escritos na primeira metade do século XX.

Servindo-se da famosa técnica do contrapontoiniciada por Aldous Huxley no romance que deu nome a este estilo literário –, Claraboia não possui personagem principal e nem enredo único: é um livro que conta a história de seis núcleos familiares situados em um prédio pequeno e modesto de Lisboa. Cada capítulo narra, de modo progressivo, os pequenos dramas de cada conjunto de personagens: cada capítulo se detém no que acontece aos moradores de um apartamento específico.

Às vezes as histórias se tocam, mas esse toque é muito leve, por assim dizer, e o romance todo se mostra fiel ao que acontece na vida real: embora haja seis apartamentos um ao lado do outro no mesmo edifício, as pessoas que neles habitam raramente entram em contato entre si – permanecendo, na maior parte do tempo, isoladas em seus próprios territórios. E quando esses dramas se cruzam, não se pode esperar outra coisa que não falsidade e jogo de aparências.


saramago (1)

"Quando fores crescido, hás de querer ser feliz. Por enquanto não pensas nisso e é por isso mesmo que o és". (p. 104)


Claraboia segue o ritmo e a ideia geral dos romances urbanos escritos entre 1920 e 1950: retratos vivos do cotidiano citadino, mosaicos nos quais são destacadas certas personagens que compõem alguns dos tipos mais comuns naquela época: o trabalhador artesanal que vive sua vida simples e feliz com a esposa (Silvestre), o empresário inescrupuloso e pervertido para o qual os fins justificam os meios (Paulino Morais), o senhor de família honrado e correto (Anselmo), a adolescente sonhadora que está tirando o pé da inocência da infância (Maria Cláudia) e a prostituta bela que guarda noções de respeito e bom-senso (Lídia), além de tantas outras figuras que aparecem na obra. A propósito, qualquer semelhança com as personagens de Caminhos cruzados, de Erico Verissimo, não é mera coincidência: ambos os romances floresceram na mesma época e são, portanto, reflexos da mesma sociedade.

Minha avaliação em uma palavra: o livro é excelente. Foi uma das melhores leituras que fiz neste ano. Embora o conteúdo de Claraboia seja aparentemente simples e suas personagens sejam todas moldadas em estereótipos já vistos na literatura da época, o romance consegue cativar e fazer refletir bastante – principalmente nos capítulos em que o sapateiro Silvestre e o andarilho Abel discutem alguns princípios humanos de conduta. De um modo geral, o livro é extremamente prazeroso de se ler, muito bem escrito. E como é surpreendente ver Saramago usando travessões nos diálogos! Sim: estamos falando de Saramago, o sujeito que escreve parágrafos de páginas e páginas, diálogos emendados uns nos outros… Aqui utilizando a mais convencional das escritas, com todas as pontuações adequadas!


6275225353_3693fd8215_z

Um edifício simples na Lisboa da década de 1950: cenário do romance Claraboia


Considero sempre saudável entrar em contato com essas obras literárias que escancaram a vida diante dos olhos do leitor – a vida crua e mazelada do cotidiano real, cheia de incertezas, injustiças, desavenças e esperanças. E tentativas de se alcançar a tão almejada liberdade. Porque todos os personagens de Claraboia lutam, cada qual à sua maneira, para conseguir pôr as mãos nessa ideia que chamamos de liberdade. E ela aqui é retratada sob diversas facetas – isolamento, independência, poder, autoridade, significado. Afinal de contas, cada um dos personagens parece ter uma noção diferente do que seria a liberdade – mas todos a procuram com o maior dos esforços. Este foi um dos grandes pontos que o livro mostrou para mim: que, acima de tudo, acima mesmo da sugestão de felicidade, há a tentativa desesperada de ser livre. Mas livre de quê? De quem? São esses alguns dos questionamentos do romance.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

"A manhã estava clara, o céu limpo, o sol quente. Os prédios eram feios e feias as pessoas que passavam. Os prédios estavam amarrados ao chão e as pessoas tinham um ar de condenadas. Emílio riu outra vez. Era livre. Com dinheiro ou sem dinheiro, era livre. Ainda que nada mais pudesse fazer que repetir os passos já dados e ver o que vira, era livre." (p. 350)

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Nota: Quem sugeriu a leitura deste romance foi minha namorada, Gleici Centinari. Lemos juntos. A propósito, ler um bom livro em conjunto com uma pessoa que se ama é um exercício que devemos praticar regularmente! :)

09 julho 2012

Robinson Crusoé, de Daniel Defoe

"Todos os males devem ser avaliados junto com o bem que neles se encontra, e comparados com o que lhes poderia ser pior." (p. 117)

Robinson Crusoé Defoe

Andando despretensiosamente por entre as estantes da minha livraria predileta, sem outra intenção que não fosse o simples passar a vista pelos títulos recém-lançados, me deparei com a novíssima edição do clássico Robinson Crusoé (Robinson Crusoe, 1719), que desde o seu lançamento original já conta com mais de 700 edições, traduções e imitações ao redor do mundo. A obra, escrita pelo inglês Daniel Defoe em uma época na qual os textos impressos ainda eram a grande novidade, possui agora uma tradução assinada pelo experiente Sergio Flaksman, cujo trabalho em O amante de Lady Chatterley muito me agradou.

Depois de ler as 70 páginas iniciais do romance, adquiri o livro e o trouxe para casa. E o mais curioso de tudo é que, acima do fato de eu ter encontrado uma leitura riquíssima em aventuras, encontrei também um impressionante documento histórico. Porque ler Robinson Crusoé hoje, no início deste século XXI, significa estudar um registro impecável de como a sociedade humana – ou, antes, européia – via o mundo há quase 300 anos.


Sinopse: Defoe narra em primeira pessoa as peripécias do engenhoso náufrago inglês ao longo de quase trinta anos de isolamento numa ilha deserta. Desobedecendo aos conselhos paternos, o jovem Crusoé se lança ao mar e inicia uma carreira repleta de infortúnios, que inclui uma decisiva passagem pelo Brasil antes da solidão na Ilha do Desespero.


DSC02689

Robinson Crusoé é um livro que, embora estivesse no rol das leituras mais leves e simples da época (ao narrar de modo entusiasmado a história daquele estóico homem que passou quase três décadas em uma ilha do Pacífico), hoje é encarado como um romance que permite inúmeras reflexões e interpretações, e lê-lo é quase como estudar um livro de antropologia. Seja analisando a interação de Crusoé com os "selvagens", seja observando as palavras que ele usa para descrever o Brasil, seja percebendo como o livro todo, de um modo geral, é uma ode à civilização e ao Iluminismo, o leitor fatalmente terá um encontro com História.

As primeiras páginas cativam de imediato. Fugindo da vida de conforto e do curso de Direito que os pais queriam lhe impor desde cedo, Robinson Crusoé sai de Londres e embarca em uma jornada que mudaria para sempre a sua vida: passando por graves tormentas em alto-mar, vendo-se depois reduzido à condição de escravo em Marrocos, resgatado por um capitão português, tornando-se proprietário de terras no Brasil, Crusoé (sempre insatisfeito com o conforto e a bonança) não parou quieto até naufragar perto do Chile durante uma excursão ilegal à África, em busca de escravos para sua casa de engenho brasileira.


081029105803-large

"Quando me avistou, veio correndo em minha direção, tornando a se estender no solo com todos os sinais possíveis de gratidão mais humilde (…)" (p. 284)


O fato é que esta viagem à África acabou tendo um trágico final para o protagonista: pego de surpresa por uma tempestade violenta, o navio de Crusoé naufragou perto de uma ilha, e ele foi o único homem a escapar com vida do acidente. Lutando contra as fortes ondas do Pacífico, o inglês acabou pondo os pés em terra, num lugar que ele ficaria isolado do mundo por 28 anos.

Uma das características técnicas que mais chamam a atenção no livro é o relato em si de Crusoé, escrito de um fôlego só. Não há capítulos, não há pausas de leitura entre parágrafos, não há diálogos convencionais, nada: apenas 400 páginas escritas de modo ininterrupto. Esse borbotão de palavras se torna maçante quando (e somente quando) Crusoé começa a descrever, detalhe por detalhe, seus primeiros anos de estadia na ilha, a partir dos quais, aos poucos, começou a transformar o lugar em uma verdadeira fortaleza pessoal.

É interessantíssimo analisar o forte apelo iluminista nesse período do romance. Utilizando a razão como carro-chefe de todas as suas ações, Crusoé constrói ferramentas, prepara comidas e ergue habitações com os restos do que tirou da carcaça do navio naufragado. Até que, finalmente, isola-se no seu "castelo", em um individualismo notável: Minha área estava completamente cercada: dentro dela eu tinha espaço bastante, e nada podia me atingir de fora. (p. 137) Se formos encarar o espaço físico que Crusoé constrói para si como uma alegoria à consciência, não há nada mais cartesiano que esta frase, não é?


robinson_crusoe

"Sem mantimentos para comer, saí com minha arma, mas descobri que estava fraco demais." (p. 145)


Outro detalhe que julguei como sendo um dos mais pertinentes do livro é a interpretação de Defoe sobre as culturas. Às vezes o autor se mostra muito inclinado a adotar uma visão relativista, harmônica, observando em vários trechos que os costumes perpetrados nas diferentes civilizações são fruto de educações e visões de mundo distintas – porém, mais adiante, ele nos faz lembrar que estamos lendo um romance do século XVIII e traz à tona o eurocentrismo que estamos acostumados a ver nas aventuras clássicas. Defeito? Preconceito? Claro que não. Todo leitor que leva a sério o seu ofício (porque ler é um ofício) sabe que mergulhar em uma obra tão antiga quanto Robinson Crusoé significa, também, despir-se de sua visão de mundo contemporânea e entrar na pele de um autor que viveu imerso em outro paradigma, totalmente diferente do atual.

A verdade é que a obra-prima de Daniel Defoe permite inúmeras reflexões de cunho histórico. A relação do protagonista com os selvagens da costa da América, ou mesmo com os espanhóis, é interessantíssima do ponto de vista antropológico. E o bom é que, além de tomar parte nessa intelectual viagem no tempo (sim, ler um livro escrito há 300 anos é uma viagem no tempo), o leitor se entretém com uma aventura clássica que atravessou gerações merecidamente.