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25 junho 2014

Quatro estações, de Stephen King

"O amor tem dentes; morde; as feridas nunca cicatrizam. Nenhuma palavra, nenhuma combinação de palavras pode fechar essas mordidas de amor." (p. 572)

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Finalizei ontem a leitura de Quatro estações (Different seasons, 1982), do escritor norte-americano Stephen King. Comprei pela internet a confortável edição de bolso da Ponto de Leitura, selo da Editora Objetiva, e me deleitei com as 650 páginas deste livro que reúne quatro contos inéditos do autor (ou mini-romances, dada a longa extensão de cada um). Deixando de lado o terror explícito de Carrie, a Estranha e O iluminado, King explora um gênero diferente nestas quatro histórias que misturam, de forma muito bem sucedida, drama, horror e suspense.

Eu já havia lido do autor o famoso À espera de um milagre, romance escrito em 1996 que ganhou as telas do cinema três anos depois, com Tom Hanks no papel principal. O prazer que senti ao ler este livro despertou minha atenção para o nome de Stephen King, que até então soava na minha cabeça somente como mais um autor best-seller que carrega nas costas uma legião de fãs. Quando cheguei à última página de À espera de um milagre, entendi por que King possui a sua legião extremamente fiel de fãs e porque ele é tão elogiado pela crítica. Resposta: o homem tem talento, e muito.


Sinopse: Nos quatro contos reunidos neste livro, Stephen King realiza um profundo mergulho na natureza humana, revelando medos, esperanças e impulsos, além de explorar todas as facetas do ser humano, desde seu mais puro desejo de ser livre à sua mais apavorante crueldade.


O mais longo dos contos, Aluno inteligente, possui 250 páginas e passeia com tranquilidade do drama ao horror, com King realizando uma prospecção subjetiva digna de mestre em cada um de seus personagens. O mesmo acontece com Rita Hayworth e a redenção de Shawshank e O corpo: duas histórias cujo gênero se encontra entre o dramático e o assustador, levando-nos a pensar nos limites da crueldade humana e em como os verdadeiros monstros podem não estar à solta no Lago Ness, mas dentro de nossas próprias cabeças e nas nossas ações. Infelizmente O Método Respiratório, último conto do livro, não está à altura dos outros: parece apressado, mal explorado e sem norte. Mesmo assim, consegue prender a atenção do leitor do início ao fim, como os demais.

Interessante notar que o sucesso de Quatro estações extrapolou as estantes das livrarias. Rita Hayworth e a redenção de Shawshank inspirou o filme Um sonho de liberdade, que concorreu a 7 Oscars em 1995. Aluno inteligente deu origem a O aprendiz, de 1998, muito bem recebido pela crítica. O corpo foi adaptado em 1986 e transformou-se no célebre Conta comigo, que alavancou a carreira de alguns atores mirins na época. E desde 2012 discute-se uma adaptação para O Método Respiratório, que, sim, estou ansioso para conferir.


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Os cartazes dos filmes inspirados nos contos do livro


É difícil escolher a história de que mais gostei. Se por um lado o último conto não me agradou de todo, por outro me senti totalmente fisgado pelos anteriores, especialmente por Aluno inteligente e O corpo. A impressão que dá é a de que existe uma história mais maravilhosa do que a outra, à medida que vamos avançando no livro. Se ficamos extasiados com a ânsia de liberdade de Andy Dufresne e sua luta contra a injustiça, ficamos também perplexos com o amadurecimento distorcido de Todd Bowden e arrebatados com a emocionante amizade entre Gordon Lachance, Cris Chambers, Vern Tessio e Teddy Duchamp. Justiça seja feita: é possível ficar apaixonado também pela determinação e pela graça da moça da última história, muito embora o conto em questão não tenha sido satisfatoriamente desenvolvido para dar espaço a esta personagem.

A escrita de Stephen King é de uma leveza convidativa, o que não a impede de ser profunda e emocionante. Dos quatro contos, três são escritos em primeira pessoa, e estas histórias são justamente as que trazem consigo o tom confessional tão caro ao escritor: os personagens destes contos são pessoas que escrevem sobre um evento passado de suas vidas e, em retrospecto, fazem um balanço do quanto estes episódios singulares influenciaram sua personalidade. Esta técnica é muito frequente na obra de King e abre a possibilidade de uma metalinguagem interessantíssima: o escritor que escreve sobre um escritor que escreve sobre um fato marcante de sua vida.

Fazendo jus à epígrafe da obra – O que importa é a história, e não o narradorQuatro estações oferece ao leitor o prazer de simplesmente ouvir uma boa história, um prazer que beira nossos costumes ancestrais de nos sentarmos ao redor de uma fogueira e sermos levados pela narrativa de alguém.

Composto por histórias memoráveis, este livro é um sopro de boa literatura. Atende aos desejos dos leitores mais exigentes – aqueles que buscam uma história de qualidade além do banal – e atende aos anseios dos leitores que estão em busca de algo mais leve e menos complexo. São histórias cujo valor está nelas mesmas, e não em um suposto artifício literário ou escondido atrás de um nome famoso.

Extremamente recomendado, posso dizer que Quatro estações é, desde já, uma das melhores leituras do ano.

11 junho 2014

Sergio Y. vai à América, de Alexandre Vidal Porto

"Foi com Sergio que descobri a importância da humildade." (p. 17)

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Nos meus anos de Ensino Médio, conheci um rapaz que gostava de ler livros inteiros nas poltronas das livrarias da cidade. Foi assim que ele leu algumas obras de Sidney Sheldon, Agatha Christie e Dean Koontz, na verdade: simplesmente se dirigia às prateleiras de ação e suspense, escolhia um título a seu gosto, sentava-se em uma das poltronas vazias da livraria e iniciava a leitura. Só se levantava outra vez quando chegava ao final do volume. E não importava se eram 100 ou 300 páginas: lia tudo, do início ao fim. Era seu costume ir à Saraiva ou à Cultura mais próxima de casa nos finais de semana e deleitar-se na leitura daqueles romances, esquecendo-se das obrigações de escola – que naqueles tempos eram muitas, para qualquer pré-vestibulando como nós, como vocês podem imaginar.

Fiz a mesma coisa que este meu amigo muitos anos depois de deixar o Ensino Médio, quando peguei nas mãos Vida roubada, de Jaycee Dugard, livro que li de uma só vez numa das poltronas da livraria que visito aqui perto. Foi uma leitura ao mesmo tempo agradável (porque o livro era bom) e desconfortável (porque eu tive que ler tudo muito rápido, quase loucamente, antes que o lugar fechasse as portas).

Eu já havia prometido a mim mesmo que não faria isso de novo quando, na semana passada, repeti a experiência: dessa vez quem me fisgou foi Sergio Y. vai à América (2014), de Alexandre Vidal Porto, que li em três horas de frente para o balcão dos caixas de uma livraria Saraiva. É curioso como esse tipo de coisa acontece comigo sem o menor planejamento: simplesmente vi o livro, o título me chamou a atenção, comecei a lê-lo e, quando me dei conta, já estava na página 60. Por que não ir até o final?


Sinopse: O jovem Sergio Y., bem-nascido e aparentemente sem grandes dramas na sua ainda curta existência – embora se considere infeliz –, é um “paciente interessante”, como diz o narrador. Frequenta o consultório regularmente, rememora aspectos da sua formação familiar, mas um dia desaparece para sempre, abandonando o tratamento. A esse mistério se acrescenta outro, acachapante, que tira a aparente serenidade do psiquiatra e o faz incursionar em uma busca que tem tanto de detetivesca quanto de psicanalítica.


Isso significa, então, que o livro é envolvente.

A narrativa é cadenciada num ritmo cauteloso, lento, que faz o leitor passear pelos sentimentos mais íntimos dos personagens principais. O narrador, o psiquiatra que atende o personagem que dá nome ao livro, é um melancólico senhor de 70 anos que parece estar passando pela crise da terceira idade: filha única se casando e saindo do país, carreira consolidada como médico, esposa falecida há muito tempo, compras rotineiras no supermercado... Nada de emocionante no horizonte. Uma existência tranquila, sem grandes percalços, e por isso monótona.

Esta aparente banalidade na vida de Armando é chacoalhada quando surge no seu consultório um paciente novo que, por vários motivos, prende a sua atenção – a do médico e a do leitor, diga-se de passagem. Os atendimentos continuam por alguns meses, quando então o rapaz se declara "curado" e vai embora para os Estados Unidos. Embora afetivamente distantes – uma distância resguardada pela própria prática clínica –, Armando e Sergio gostam um do outro e se sentem unidos por um laço forte de simpatia e respeito. Quando um episódio inesperado vem à tona, já anos depois do término do tratamento, Armando se vê na obrigação profissional e pessoal de investigar os fatos que desencadearam esta circunstância.

Cheio de mistério, floreado com pontadas de filosofia psicanalítica, regado por um tom melancólico, Sergio Y. vai à América é um romance no qual nada e tudo acontecem. O que quero dizer com isso? Que a beleza do livro está em conseguir nos fazer refletir sobre a vida apresentando uma história aparentemente simples, em que nada de exagerado ou espetacular ocorre. E essa simplicidade superficial esconde uma verdade a qual não podemos ignorar: que o curso cotidiano das nossas vidas guarda uma série quase interminável de lições que podemos aprender se estivermos dispostos a nos debruçar sobre elas.

Quando terminei a leitura, admito que me peguei pensando: "O que esse livro tem de surpreendente? Nada. Existe um conflito, claro, como em todo romance, mas esse conflito é uma coisa importante apenas para o narrador da história. Mas por que estou pensando nesse livro até agora, então?". O fato é que Sergio Y. vai à América é um romance sobre duas coisas: aceitar que não temos o controle sobre tudo nas nossas vidas e estar disposto a aceitar isso. Fala, também, sobre a coragem de assumir nossas identidades em um mundo que tem receio de algo não-estereotipado. E quanto mais pensamos nestas questões, mais nos damos conta de que viver é um risco.

Só percebi essas mensagens escondidas depois de uma semana, ainda pensando no livro.

Composto por capítulos curtos em que se misturam os gêneros detetivesco e confessional, o romance realmente prende a atenção do leitor já nos momentos iniciais e, dizendo por experiência própria, você só vai conseguir largá-lo quando chegar à última página. Vidal Porto, este diplomata paulista estreante na literatura, revela-se um nome digno de nota, um nome ao qual devemos ficar atentos nos próximos anos. Por enquanto, recomendo Sergio Y. às pessoas que gostam de fazer um balanço eventual de suas vidas (pessoal e profissional) e que conseguem enxergar no irrisório dia-a-dia toda a trama intrincada e complexa que faz do mundo este lugar em que as relações afetivas são tão importantes.

27 dezembro 2013

5 livros que eu li em 2013 e que você gostará de ler em 2014

Seguindo a tradição do Gato Branco, nos últimos dias do mês de dezembro de cada ano eu elaboro a lista dos cinco livros que mais me impressionaram como leitor, desde janeiro até então. Ou seja, escolho cinco obras cuja leitura superou (ou atendeu) minhas expectativas nos últimos 12 meses e as coloco aqui, acompanhadas de um breve comentário.

Naturalmente, isso não significa dizer que, dentre todas as leituras de 2013, considerei apenas estas cinco como boas. Muitos livros passaram pelas minhas mãos ao longo deste ano, e muitos deles maravilhosos; mas, por uma questão de seleção quase arbitrária, separo apenas cinco para trazer para cá.

E, então, a minha lista de 2013 é esta:


O silêncio contra Muamar Kadafi | Andrei Netto

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Que o jornalista brasileiro Andrei Netto viveu uma aventura impressionante no coração da Líbia, durante a guerra civil que depôs o ditador Muamar Kadafi em 2011, disso não restam dúvidas. Entrando clandestinamente no país junto com um colega de profissão iraquiano, Netto buscou o epicentro da revolução popular que ansiava por derrubar um regime totalitário sangrento de mais de 40 anos. Entrevistando líderes do movimento insurgente, refugiados e estrangeiros, o jornalista disseca a Primavera Árabe na Líbia e, graças à excelência de sua escrita, faz o leitor se imaginar nos desertos áridos do Norte da África, acompanhando os passos da rebelião popular.

Netto chegou a ser preso pelas autoridades líbias durante sua estada no país, acusado de ajudar o movimento insurgente. Passou vários dias em uma cela pequena, imunda, e foi liberado somente com a intervenção da diplomacia brasileira. Essa passagem no livro é uma das mais interessantes.

Narrado em forma de thriller (o que o torna incrivelmente atraente e fluido, como um grande romance de aventura), O silêncio contra Muamar Kadafi foi, sem dúvida, o melhor livro de jornalismo que li em 2013. Vale conferir, sem ressalvas.

Clique aqui para ler a resenha de O silêncio contra Muamar Kadafi no Gato Branco.


1Q84 – Vol. I | Haruki Murakami

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Desde Norwegian Wood e Kafka à beira-mar, venho acompanhando os romances do japonês Haruki Murakami com dedicação, ainda que os dois primeiros que li continuem a ser os meus favoritos. De um modo geral, os romances do autor são muito semelhantes entre si e, como falou uma amiga minha, a sensação é a de que você está lendo sempre o mesmo livro, o que não é propriamente ruim – já que os enredos criados por Murakami sempre nos envolvem.

1Q84 inicia a trilogia que é considerada a obra máxima do autor. Publicada entre 2009 e 2010 no Japão, 1Q84 vendeu dezenas de milhões de cópias no mundo inteiro (aliás, coisa nem um pouco rara em se tratando de Murakami) e reafirmou o japonês como um dos escritores cult mais populares da atualidade.

Este primeiro volume apresenta os dois personagens principais a partir dos quais a trama é costurada: Tengo, um jovem professor de matemática do Ensino Médio, aspirante a romancista, recebe do seu amigo editor o desafio de reescrever um livro enigmático de autoria de uma garota mais enigmática ainda – e, de repente, coisas estranhas começam a acontecer no mundo real, de algum modo ligadas a esse processo de reescrita; Aomame, uma professora de educação física que esconde sua segunda ocupação, a de fazer justiça contra homens que violentam mulheres. Como não poderia deixar de ser, a trajetória desses dois vai convergindo aos poucos para um único ponto, clímax da série.

Com seus pontos altos e baixos, a trilogia é ainda assim um grande exercício de imaginação e um excelente entretenimento para os fãs de Murakami. Sem a carga emocional e a densidade psicológica de Norwegian Wood, e sem o enredo orquestrado de Kafka à beira-mar, 1Q84 se sustenta pela criatividade e pela fantasia non-sense, que tem agradado muito o público em toda a carreira do autor.

Clique aqui para ler a resenha de 1Q84 – Vol. I no Gato Branco.


Anna Kariênina | Liev Tolstói

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A Felicidade Conjugal foi o primeiro livro que li do escritor russo Liev Tolstói. Sua escrita primorosamente refinada, o conteúdo introspectivo e o enredo belo e surpreendente fez com que este autor ocupasse o lugar da minha estante que é destinado aos grandes gênios da literatura. Suas obras são como um espelho que reflete nossa condição humana: todas as nossas dúvidas, nossos temores e nossos desejos são sugeridos de forma sutil – e às vezes nem tão sutil – em obras como, por exemplo, Anna Kariênina, publicado originalmente em 1877.

Anna Kariênina é o tipo do livro que, não importa se foi escrito na distante Rússia do século XIX, o leitor de hoje certamente vai se identificar com algum personagem da galeria de Tolstói e constatar que sentimentos – no sentido estrito da palavra – são universais em larga medida. Este foi um livro que li com deleite. Não era raro me deter por mais de dez minutos na mesma página, apreciando um determinado diálogo, um determinado parágrafo descritivo, uma determinada reflexão, e constatando como Tolstói escrevia de forma maravilhosa.

Gosto de me referir a Anna Kariênina como "o romance definitivo sobre o Amor". Afinal de contas, é uma obra que pondera o que somos capazes de fazer por causa dele: do que podemos abrir mão e o que podemos abraçar como causa. E, quando me refiro a Amor, estou me referindo a esse sentimento em suas múltiplas manifestações: o amor entre amantes, entre pai e filha, entre mãe e filho, entre irmãos, entre desconhecidos. Como não poderia deixar de ser, é também um romance sobre as aparências: sobre se relacionar buscando algo não no outro, mas em si mesmo; uma afirmação não para o outro, mas para si, afirmação com a qual você tenta construir sua identidade. Afinal de contas, quando dizemos "Eu te amo", não estaríamos sugerindo algo como "Eu preciso dizer que te amo"?

Livro monumental que faz justiça às suas 800 páginas, Anna Kariênina é o romance do qual ninguém pode escapar. Leitura mais que obrigatória para os fãs dos russos.

Clique aqui para ler a resenha de Anna Kariênina no Gato Branco.


A visita cruel do tempo | Jennifer Egan

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Escrito à mão, A visita cruel do tempo foi o romance vencedor do Prêmio Pulitzer de Ficção 2011 e, também, o ganhador de outros prêmios importantes nos EUA. Recebeu elogios desmedidos de vários suplementos literários norte-americanos (e do restante do mundo) pela criatividade da autora, seu domínio técnico e prosa envolvente. Ganhei o livro do meu irmão e, no início, antes de começar a lê-lo, eu tinha minhas reservas quanto a todo aquele experimentalismo literário, que parecia, ao mesmo tempo, ambicioso demais e relevante de menos.

Mas me enganei com prazer quando iniciei a leitura. A visita cruel do tempo é um texto engenhoso, de fato envolvente, complexo, cujas histórias e personagens se entrelaçam de modo criativo e até inesperado. Foi certamente uma das leituras mais acertadas do ano.

O livro possui uma cronologia embaralhada que conta, através da passagem do tempo, a juventude e a vida adulta de um grupo de pessoas que estão no mesmo círculo afetivo e profissional. É o caso de Bennie Salazar – talvez o eixo central desse círculo –, um executivo da indústria fonográfica que acompanha desde a explosão dos roqueiros independentes, nos anos 70 e início de 80, até a superficialidade do ramo na era digital.

Navegando pelos mares da internet, encontrei um leitor do livro chamado Daniel que se deu ao trabalho de identificar o local e a época em que cada capítulo transcorre. Segue abaixo o que ele garimpou. (Se alguém quiser ler o livro pela segunda vez, fica aí uma sugestão de acompanhar a cronologia real.)

1. Achados e perdidos – NY, 2009
2. Ouro que cura – NY, 2006
3. Não estou nem aí – São Francisco, 1979 (narradora: Rhea)
4. Safári – África, 1973
5. Vocês – São Francisco, 2006 (narradora: Jocelyn)
6. Xis-zero – NY, 1997
7. De A a B – NY, 2003
8. Como vender um general – NY, 2008
9. Um almoço em 40 min – NY, 1999
10. Fora do corpo – NY, 1994 (narrador: Rob)
11. Adeus, meu amor – Nápoles, 1993
12. Grandes pausas do rock – Deserto da Califórnia, 2020?
13. Linguagem pura – NY, 2022

Clique aqui para ler a resenha de A visita cruel do tempo no Gato Branco.


Cartas na rua | Charles Bukowski

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Nesse ano, tiquei mais um Charles Bukowski da minha lista de "Obras Indispensáveis". O livro foi Cartas na rua, romance publicado em 1971 que traz ao leitor pela primeira vez o protagonista Henry Chinaski, alter-ego de Bukowski – também inclinado aos porres, às mulheres e aos empregos sem perspectiva nenhuma.

Aqui, ao contrário de Factótum (1975), Chinaski não se vê pulando de trampo em trampo para ganhar uns trocados. Na verdade, o personagem mais conhecido de Bukowski está há 14 anos trabalhando no mesmo lugar: os Correios norte-americanos. Ele intercala sua vida monótona e estressante com as mulheres com as quais se envolve, umas mais novas, outras mais velhas, mas todas sempre muito excêntricas e desconcertantes. No final das contas, temos pintado um quadro sobre a desilusão do american way of life e sobre como o estofo da sociedade americana é, também, composto pelos marginalizados.

Primeiro romance de Bukowski, Cartas na rua é o início da obra de um escritor que foi muito além da literatura: transformou a própria vida em arte, desafiou tradições e abriu um novo caminho para os romances malditos. Não por acaso, o Velho Buk é um dos artistas mais celebrados e copiados desde os anos 80.

Clique aqui para ler a resenha de Cartas na rua no Gato Branco.



Menção honrosa:

Momo e o senhor do tempo | Michael Ende

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Eis um livro que foi parar na minha estante de modo completamente inesperado e que, sim, me surpreendeu muito. Um professor da Universidade de Fortaleza me indicou este livro no início do ano e, assim que comecei a lê-lo, percebi por que o alemão Michael Ende é tão querido na Europa e em alguns lugares do restante do mundo: sua prosa fluida está a serviço não da técnica, mas do conteúdo – e este conteúdo, voltado para o público infanto-juvenil, é sempre inspirador, carregando mensagens que o público adulto parece já ter esquecido.

Digo que o livro foi parar de modo inesperado na minha estante porque, até meu professor aparecer com ele, eu não tinha a menor intenção de lê-lo (sequer sabia da sua existência), embora conhecesse bem a reputação de Ende. E como valeu a pena!

Momo e o senhor do tempo conta a história de Momo, uma menina de aproximadamente 10 anos de idade que se vê na tarefa de devolver o tempo roubado das pessoas. Ela percebe a existência de um grupo de homens misteriosos que está atuando nos bastidores e que, de modo mal-intencionado, negocia com os cidadãos o uso do seu próprio tempo de vida.

Momo certamente é um lembrete do que o tempo representa nas nossas vidas e o que fazemos para preservá-lo (ou desperdiçá-lo).

Clique aqui para ler a resenha de Momo e o senhor do tempo no Gato Branco. 


É isso. E que venham novas e excelentes leituras em 2014!

07 dezembro 2013

Sobre a brevidade da vida, de Sêneca

"Muito breve e agitada é a vida daqueles que esquecem o passado, negligenciam o presente e temem o futuro." (p. 70)

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Na semana passada, finalizei a leitura de Sobre a brevidade da vida (De brevitate vitae), tratado epistolar escrito pelo filósofo, dramaturgo e político Lúcio Sêneca.

Sêneca nasceu em Córdoba, na Espanha, por volta do ano 4 a.C. Mudou-se para Roma ainda jovem, a fim de estudar retórica e Filosofia, e lá exerceu durante grande parte da sua vida trabalhos em altos cargos políticos, ao lado de, dentre outros, Calígula e Nero – deste último tendo recebido a ordem para cometer suicídio, após ter sido acusado de conspirar contra o então imperador. Seus trabalhos, que envolvem tragédias, ensaios e diálogos filosóficos, são conhecidos por abordar de maneira direta e prática temas comuns ao cotidiano das pessoas, tais como amizade, educação, vida e morte.

Sobre a brevidade da vida é um conjunto de cartas direcionadas a um homem chamado Paulino, funcionário público que muitos estudiosos acreditam ter sido sogro do filósofo. Nas epístolas que compõem a obra, sempre se dirigindo a Paulino, Sêneca discorre sobre a vida fútil e vazia dos sujeitos ocupados com tudo aquilo que não lhes diz respeito de fato: políticos preocupados com seu cargo, nobres preocupados com sua posição social, cidadãos preocupados com o julgamento do seu semelhante, e assim sucessivamente.

Como ele mesmo escreve:

Certamente, miserável é a condição de todas as pessoas ocupadas, mas ainda mais miserável é a daqueles que sobrecarregam a sua vida de cuidados que não são para si, esperando, para dormir, o sono dos outros, para comer, que o outro tenha apetite, que caminham segundo o passo dos outros e que estão sob as ordens deles nas coisas que são as mais espontâneas de todas – amar e odiar. (p. 81)


Sinopse: Sobre a brevidade da vida é a obra mais difundida do filósofo Sêneca (4 a.C.? – 65 d.C.) e um dos textos mais conhecidos de toda a Antiguidade latina. São cartas dirigidas a Paulino (cuja identidade é controversa), nas quais o sábio fala da natureza finita da vida humana. No correr das páginas, vão sendo apresentadas maneiras de prolongar a vida e livrá-la de mil futilidades que a perturbam sem, no entanto, enriquecê-la. Estas cartas compõem uma leitura inspiradora para todos os homens, a quem ajudam a avaliar o que é uma vida plenamente vivida.


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A persistência da memória, de Salvador Dalí

O que está em jogo, portanto, é a brevidade da vida dos sujeitos que se ocupam com coisas alheias a eles mesmos. Logicamente, a brevidade a que Sêneca se refere não é temporal, cronológica, mas subjetiva: vive pouco quem não vive para si. Nesse sentido, seu conselho geral a Paulino não poderia deixar de ser outro que não "afastar-se do vulgo" e "procurar um porto mais tranquilo", experimentando o que poderia ser feito nos momentos de ócio. Segundo o filósofo, um homem pode viver por 70 anos ou mais, mas não poderá dizer que viveu realmente se ele não tiver gasto a maior parte do seu tempo com assuntos que lhe dizem respeito de forma direta. Por outro lado, quem dedica seu tempo a si mesmo vive uma vida longa, não importa quantos anos tenha vivido no calendário.

Aquele que utiliza todo o tempo apenas consigo mesmo, que organiza todos os dias como se fosse o último, não deseja, nem teme o amanhã. (…) Não julgues que alguém viveu muito por causa de suas rugas e cabelos brancos: ele não viveu muito, apenas existiu por muito tempo. (p. 43)

É impressionante constatar que um livro escrito há quase dois mil anos aborde uma temática que continua a ser urgente nos dias de hoje – aliás, nos dias de hoje mais urgente do que nunca, ao que parece. Como integrante de um laboratório de pesquisa que estuda trabalho, ócio e tempo livre na sociedade contemporânea, eu vejo cientistas sociais de renome relatando como a ideia de tempo para si é cada vez mais escassa na nossa era. Cada vez trabalhando mais para conquistar status e altos salários, as pessoas são tomadas pelo meio e esquecem o fim – este, inadiável, tendo em vista que todos nós vamos morrer um dia. Como Sêneca diria, ocupam sua vida com o trabalho que realizam, mas esquecem de saborear o presente, antecipando sempre o futuro com agonia e rememorando o passado com insatisfação.

O filósofo tem uma palavra sobre isso também:

Pobre daquele que, cansado mais de viver do que de trabalhar, sucumbe às suas próprias ocupações. (p. 83)


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A morte de Sêneca, de Luca Giordano


Uma das grandes mensagens que podemos tirar de Sobre a brevidade da vida diz respeito ao quanto nos sentimos desconfortáveis com nossas próprias ocupações e tempos livres. Ou seja, diz respeito a como nós usamos o nosso tempo. Curioso notar que é possível se sentir feliz e realizado trabalhando em algo que nos dá felicidade e, ao mesmo tempo, se sentir letárgico e inútil em um tempo vago – o que desconstrói nossa ideia de que viver sem ter que trabalhar é um prazer garantido. De acordo com Sêneca, há aqueles que não usufruem do ócio, mas são eles mesmos ociosos "doentes", que vagam pelo mundo sem objetivo e não sabem discernir seus próprios interesses. Estes, incapazes de arquitetar um plano de vida de acordo com suas inclinações, "mortos-vivos" nas palavras do filósofo, contrastam com aqueles sujeitos que se dedicam a uma ocupação elevada, que lhes rende bons frutos e sabedoria existencial.

Dentre todos, somente são ociosos os que estão livres para a sabedoria, apenas estes vivem, pois não só controlam bem sua vida, como também lhe acrescentam a eternidade. (p. 64)

Sobre a brevidade da vida é uma leitura rápida que nos faz refletir sobre o que realmente estamos fazendo para garantir uma vida satisfatória e plena – ou, como isso é praticamente impossível, garantir uma vida mais satisfatória e mais plena. Ocupar-se com dedicação e prazer a assuntos que nos tocam como seres humanos é o primeiro passo para construir uma vida baseada em tranquilidade e alegria, e não permitir que sejamos consumidos pela máquina que suga a energia vital que possuímos, que poderia muito bem ser dedicada à nossa efêmera e valiosíssima passagem pela Terra. Por esse lado, o livro de Sêneca é uma leitura rápida, mas muito, muito profunda.

08 outubro 2013

Perto demais da redenção?

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Quando tinha 22 anos de idade, Christopher Johnson McCandless abandonou os estudos e a família e fugiu para o gelado estado norte-americano do Alasca, onde morreu dentro de um ônibus abandonado, aos 24 anos, no meio de uma floresta ensolarada, após ter ingerido por acidente uma planta venenosa que corroeu parte do seu estômago. Deixou para trás uma história confusa cheia de dor, mágoas e senso de liberdade. Sua jornada pelos Estados Unidos é lembrada ainda hoje por muitos jovens como símbolo de resistência e paixão pelas coisas simples da vida – à maneira de Walden, do escritor inglês Henry David Thoreau. As pessoas que o conheceram pessoalmente se referem a ele, hoje, como alguém que carregava nas costas uma carga de sonhos mais pesada do que a que ele próprio poderia suportar.

Eu tinha aproximadamente 16 anos quando conheci a história de Christopher – ou "Alex", como ele mesmo passou a se chamar depois de abrir mão de tudo o que tinha antes de meter o pé na estrada. Naquela época, 22 anos representava para mim uma idade em que as pessoas eram velhas e, por essa razão, pareciam ter consciência plena do que faziam e das decisões que tomavam – de modo que eu, adolescente recém-saído da infância, vi na atitude de Christopher um exemplo de iniciativa que materializava todos os meus desejos pela liberdade, fosse lá o que essa palavra significasse.

No mais, falar sobre liberdade não é a intenção desse texto. Meus 22 anos vieram na semana passada e eu acabei me lembrando hoje da aventura de Alex, o jovem norte-americano que eu mesmo admirava tanto há seis anos. Parece difícil acreditar que ele tinha a mesma idade que eu tenho agora quando decidiu fugir do mundo em busca dos sonhos que tanto cultivava. Parece difícil porque não tenho mais as ambições e os projetos que Christopher tinha, quais fossem, o de viver da natureza compartilhando alguns princípios universais de amor e culto à estética. Sou apenas um rapaz latino-americano sem muito dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo de uma capital.

Já escrevi bastante aqui no blog sobre a história de Christopher, o que inclui a resenha do livro de Jon Krakauer, Na Natureza Selvagem. Escrevi também, no início das atividades do Gato Branco, uma espécie de crônica que destilava algumas ideias minhas acerca da saga de Chris. Ainda assim, acho que ele merece mais uma postagem: acima de tudo porque, pensando sobre como os jovens de hoje vivem suas vidas, acho que dá para entender um pouco do ato impulsivo de Alex.

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Vivemos em uma época em que os jovens não parecem mais ter tempo ou disposição para refletirem sobre a sua condição fundamental: sobre como o tempo da juventude significa o tempo de uma passagem árdua da infância segura para a vida adulta imprevisível. Ser jovem hoje significa possuir um crédito de gozo ilimitado disponibilizado pela própria sociedade, que cobra o preço exigindo da juventude dedicação integral e precoce aos assuntos da vida adulta. Talvez porque, afinal de contas, os jovens se tornaram o símbolo sócio-econômico da energia, do dispêndio e da propensão para o usufruto de tudo o que é novidade. São aqueles em que se depositam todas as fichas, todas as promessas e todas as esperanças, o que faz com que assumam precocemente um papel para o qual não estão preparados – nem nunca deverão estar.

Em outras palavras, salvo exceções felizes, me parece que a juventude contemporânea é formada simplesmente por um conjunto de moços e moças que, ávidos por aquilo que a sociedade do consumo oferta, são lançados abruptamente no mundo dos adultos, instados a produzir, e esse processo acelerado impede que qualquer momento de reflexão sobre a própria juventude seja levado em consideração. Na minha opinião, que não conta tanto assim, um rapaz ou uma moça de 14 ou 15 anos de idade não deveria se preocupar tanto com cursos profissionalizantes, carreiras e mercado de trabalho, embora seja isto o que eu mais tenha visto ultimamente. 

Somente isso não seria um problema tão insolúvel se não viesse acompanhado de um fato triste: os jovens que "param no tempo" e se permitem estar em um momento de reflexão improdutiva são, muitas vezes, considerados ultrapassados, quando não patológicos mesmo. Christopher McCandless foi um desses jovens vítimas do mal-estar que eles próprios despertam nos outros: entrou em crise e tentou encontrar-se, tentou compartilhar seus questionamentos, mas não foi compreendido porque esperava-se dele – assim como se espera de todos os rapazes de sua idade – algo que ele não estava preparado para dar. Foi rotulado de louco por uns e de depressivo por outros.

Mas o que se esperava dele? O que se espera de todos os jovens? Que se lancem sem intervalo da infância e da adolescência diretamente para a rotina adulta? No mundo adulto espera-se que você seja produtivo e que tenha sucesso profissional. Na infância e na pré-adolescência, muita coisa acontece fora do seu controle, e muitas vezes não somos nós que resolvemos nossos próprios problemas, sejam eles de que ordem forem. Não me convenço de que essas duas fases da vida, tão díspares, possam ser unidas imediatamente, mas é o que parece estar acontecendo.

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Mais ou menos até a década de 1970, entrar em crise na adolescência era uma espécie de ritual. Provava que o jovem estava preocupado com a sua vida e que, no fundo, tinha consciência do seu lugar no plano das coisas. Era-lhe permitido isso: ele passava por essa angústia e essa crise e era até bem visto pelos colegas, que compartilhavam dos mesmos questionamentos. Ninguém era considerado depressivo ou desajustado. Simplesmente estavam pensando sobre sua condição e entendendo o que aquele processo de tornar-se adulto significava (ou não entendendo, o que também fazia parte do processo). Quem leu O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger, deve ter enxergado esse fenômeno. E, se alguma dúvida persistir, leiam Depressão e Imagem do Novo Mundo, de Maria Rita Kehl.

Christopher McCandless representa, de certa forma, um tipo de resistência jovem – que alguns podem considerar como a rebeldia por excelência da juventude. Ele se negou a fazer parte do processo de mergulhar diretamente em um mundo que não era o dele. Vivendo meus 22 anos agora, vejo que este momento de pensar sobre nossa própria condição transacional não deve ser nunca descartado: ele é fundamental para quem quer cultivar um mínimo de postura crítica sobre o mundo.

Hoje entendo Chris nesse sentido porque penso que estou vendo o que ele via na sua época. Mas, como sempre, posso estar enganado.

15 agosto 2013

Crônica: Bússola

Das coisas que temos e não possuímos

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Posso estar bastante enganado ao dizer isso, mas, geralmente, quando nos decepcionamos com uma pessoa, ou com uma circunstância específica, saímos à procura discreta de um breve consolo capaz de manter acesas em nós a chama da confiança e aquela consciência particular sem a qual não é possível enxergar a beleza das coisas. Decepcionar-se não é senão acreditar que algo poderia ser de determinado jeito e, no final das contas, constatar que o que recebemos como resposta não correspondeu àquilo em que acreditávamos com tanta convicção.

Por isso pode-se dizer que, em um episódio decepcionante, não há culpados nem vítimas: há esperança em excesso, apenas. Uma esperança tão grande que, por vezes, pode engolir a realidade dos fatos. O desejo de que algumas pessoas continuem a nos fazer bem, pelo resto de nossas vidas, pode ser conveniente para nós na medida em que é exatamente essa confiança e essa certeza que sustentam o edifício dos nossos relacionamentos. Não acreditar que os outros nos farão bem é minar as bases desse edifício, por si só tão frágil. Se os decepcionados são as vítimas por cultivarem uma confiança enorme e se os decepcionantes são os culpados por terem traído a confiança alheia, isto é somente uma questão de perspectiva.

* * *

Na minha primeira experiência de atendimento a um paciente, constatei que nossa efêmera existência é pontilhada de pequenas decepções que, aos poucos, à força, nos ajudam a enxergar o mundo de uma maneira diferente – e, acima de tudo, nos ajudam a perceber que não temos controle sobre nada relacionado à nossa interação com as outras pessoas. A única coisa que temos sobre os outros é uma ligeira sensação de influência, que pode variar – e varia, sempre – ao longo do tempo. É essa influência exercida por nós sobre os outros que confere aos nossos relacionamentos uma tênue sugestão de controle.

Na ficha de entrada do serviço de psicologia não havia muitos detalhes: apenas um nome, Fernanda, a informação de que ela era recém-divorciada e que tinha um filho pequeno de três anos de idade, diagnosticado precocemente como hiperativo por um psiquiatra. Achei que o caso poderia ser interessante e, de alguma maneira, achei que ele poderia ajudar a formar o início de minha experiência profissional.

Quando Fernanda se sentou à minha frente, a um convite meu, ela respirou pesadamente e disse, sem rodeios: "Não sei muito bem por que estou aqui. Sempre achei que eu poderia resolver os meus conflitos pessoais de maneira particular, sozinha, sem precisar da ajuda de ninguém. Sou uma pessoa forte e sempre dei conta das minhas dificuldades. Existem muitas pessoas aqui que provavelmente precisam mais da sua ajuda do que eu." E, então, começou a chorar.

Lá fora fazia um dia claro. Lembro de ter passado pelos jardins da universidade e de ter dito a mim mesmo algo sobre como as tulipas e as orquídeas estavam vistosas e sadias em seu desabrochar atravessado pelo orvalho da manhã. Agora, ali naquela sala, naquele momento, o filho de três anos de Fernanda brincava com uma coleção de carrinhos de metal que eu havia trazido para a sala do consultório, junto com um balde cheio de dinossauros coloridos. Tudo parecia natural e, até certo ponto, tranquilo. Mas aquela mulher bonita de 36 anos de idade estava chorando na minha frente porque, naquela manhã de sol, decidiu admitir que havia se decepcionado com alguém (por acaso, com seu ex-esposo), e que decepcionar-se era um fenômeno que ela nunca, ou quase nunca, tinha experimentado.

Quando cheguei em casa, no fim do dia, me pus a procurar alguns documentos acadêmicos nas gavetas bagunçadas da minha escrivaninha. De forma absolutamente inesperada (ou assim me pareceu), encontrei uma bússola em formato de chaveiro, com o metal da presilha um pouco desgastado pelo tempo. A bússola estava no fundo da última gaveta, ao lado de um controle remoto de televisão velho. Com a bússola, dentro de uma caixinha de plástico transparente, havia um bilhete escrito à mão, em caligrafia feminina: Seu chá de bússola diário. Não esqueça. A direção da Beleza, da Justiça e da Sinceridade é apenas uma, e ela, essa direção, está debaixo do nosso nariz. Inútil procurar em outro lugar. Beijo, Gabi.

Sou capaz de passar dezenas de minutos olhando para uma bússola sem me cansar. Naquele momento, esqueci completamente o que eu estava buscando, que documentos estava garimpando, e fiquei a revirar aquele pequeno e simbólico objeto nas mãos até perceber que o que eu estava procurando nas gavetas, desde o começo, não eram os documentos, mas a bússola. E me dei conta de que eu não falava com Gabriela há mais de três anos porque tínhamos, contrariando todas as nossas expectativas, nos decepcionado um com o outro.

* * *

Na nossa última sessão de avaliação psicológica (cujo paciente era, na verdade, o filho hiperativo de três anos), Fernanda me confidenciou que se sentia melhor. Nas últimas semanas, havia pensado sobre sua circunstância, sobre suas amarguras, e disse que o principal consolo que recebera viera da constatação de que as decepções, todas, se devem ao nosso esforço desmedido de construir uma imagem fantasiosa dos outros de acordo com os nossos interesses. De um modo geral, sua aparência estava bem melhor: havia um sorriso tímido no rosto, seus cabelos, volumosos e ondulados, estavam soltos, suas mãos não se remexiam nervosamente e pude perceber, com um certo alívio, uma atenção maternal sincera e afetuosa para com o pequeno garoto.

A excessiva atividade que o filho de Fernanda apresentava, diariamente, tanto no colégio quanto em casa e na rua, poderia ser vista como uma espécie de reação funcional à insegurança da mãe e à ausência do pai, que o havia ignorado desde o divórcio com a esposa. Era uma hipótese que valia a pena ser levada em consideração, mas os nossos encontros semanais acabaram quando o semestre letivo chegou ao fim. De qualquer modo, até hoje, tenho a sensação nítida de que aprendi mais com Fernanda e seu filho do que ambos aprenderam comigo.

Se o estofo de nossas decepções continua a ser um mistério, pelo menos temos a sutil garantia de que elas não duram para sempre. Ou porque percebemos que nosso controle sobre tudo à nossa volta é muito mais limitado do que gostaríamos de admitir, ou porque, à força, somos instados a perceber o nosso universo particular de outra forma, o fato é que, um dia, alguma coisa se parte dentro de nós.

No final do ano, tirei a bússola de dentro da caixinha de plástico e a coloquei em cima da minha mesa, para me lembrar, ainda que remotamente, que a bússola aponta o caminho, mas quem caminha somos nós.

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Esta crônica foi escrita para o site Lupa Cultural, parceiro do Gato Branco.

01 julho 2013

Game: The Last of Us

"Ei, Ellie, achei mais um desses gibis que você está lendo."

The Last Of Us

A atual geração dos video-games conheceu um de seus melhores jogos quando Uncharted: Drake's Fortune foi lançado há seis anos, em 2007, e conquistou uma legião enorme de fãs que viram no personagem Nathan Drake a atualização bem-sucedida de Lara Croft – a musa sensual da antiga série Tomb Raider. Com as sequências, Uncharted 2: Among Thieves e Uncharted 3: Drake's Deception, a desenvolvedora Naughty Dog ganhou e manteve uma impressionante visibilidade no universo dos jogos, conquistando prêmios cobiçadíssimos, caso do célebre Game of The Year para o segundo título de Uncharted em 2009.

Na última semana foi lançado no mercado o mais novo trabalho da empresa, The Last of Us, um survival que, desde os primeiros teasers, chamou a atenção do público e alimentou as mais altas expectativas. Confiantes no sucesso da série Uncharted, os admiradores da Naughty Dog apostaram todas as suas fichas no novo game da companhia e muitos compraram o jogo logo no dia do lançamento – dentre eles, eu – cheios de expectativa para colocar as mãos no trabalho de uma equipe de profissionais que, sabe-se, primam pela qualidade acima de tudo.

Seguindo o modelo da resenha sobre Far Cry 3 feita aqui no blog, vou dividir esta análise de The Last of Us em tópicos distintos para organizar melhor minhas impressões e meus argumentos.


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"Esconda-se e tente não fazer barulho" é a lei


HISTÓRIA

Boston, 2013. Um misterioso fungo pandêmico começa a infectar as pessoas e a instalar o caos na humanidade. A partir de então, os sobreviventes passam a se organizar dentro de zonas de quarentena a fim de se protegerem do mundo exterior, não só infestado de zumbis como também tomado por tropas de uma milícia violenta e repressora capaz de atirar primeiro e perguntar depois. Por todos os lados, devastação: prédios arruinados, ruas cheias de entulhos, lojas saqueadas, casas abandonadas e pequenos grupos de humanos que tentam, apesar da catástrofe biológica, sobreviver em um mundo sem nada.

Ao longo de vinte anos, Joel sobrevive nesse cenário apocalíptico traficando armas no mercado negro local, até que Marlene (a líder dos chamados Vaga-lumes, espécie de resistência civil bem-intencionada) lhe incube de uma tarefa singular: escoltar pelo país a órfã Ellie, uma pré-adolescente de 14 anos, e entregá-la aos cuidados de um grupo Vaga-lume situado fora dos muros da cidade. Assim, além de desafiar a ordem dos militares de permanência obrigatória nas zonas de quarentena, a dupla de protagonistas cruza os EUA se deparando com perigosas pessoas infectadas pelo vírus e, também, com caçadores oportunistas dispostos até mesmo a contrabandear carne humana.

Ao longo dessa jornada particular pontilhada de acontecimentos surpreendentes, Joel e Ellie sobrevivem arrastando-se pesarosamente com os poucos utensílios de que dispõem. Ao longo das quatro estações do ano, ambos dividem não só um espaço em comum, mas uma relação afetiva cuja proximidade se constrói aos poucos, em meio à violência e ao desespero.


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Atraente variabilidade de cenários e armas


DO QUE GOSTEI

Dos gráficos primorosos à jogabilidade eficiente, passando pelo enredo cativante e a história repleta de emoção, basicamente tudo encheu os meus olhos em The Last of Us. Não digo isso como fã de Uncharted ou como fã dos jogos exclusivos da Sony: digo isso como um amante da arte nos games. E o mais novo título da Naughty Dog é justamente isto, uma obra-prima que surpreende pela beleza, pela capacidade de misturar gêneros, envolver o jogador e retribuir cada centavo gasto na compra.

Mistura bem equilibrada de Eu sou a Lenda, A Estrada e Bravura Indômita, The Last of Us é um jogo excelente porque consegue unir o que esses grandes títulos têm em comum e fazer algo singular, diferente, próprio do game. O intimismo entre os personagens (Joel e Ellie em particular) é um dos pontos mais fortes da trama na medida em que é isto o que dá cor e vida a tudo o que acontece na tela. De ritmo extremamente lento, o caminhar do jogo consegue transmitir a sensação de que existe uma urgência contra a qual os personagens não podem lutar: devem chegar o mais rápido possível ao destino para o qual se dirigem, mas, num mundo onde não há nada e onde andar a pé é uma realidade incontornável, não se pode fazer muita coisa para acelerar o progresso. Resta, então, passar por cada lugar, por cada cidade, tirando-lhe o máximo de proveito e sofrendo de tudo o que é possível sofrer.

Existe toda uma imersão em The Last of Us que, por si só, já vale a pena. Eu jogava sempre nas madrugadas silenciosas, com fones de ouvido e com todas as luzes da minha casa apagadas. O efeito que isso causa no espírito do jogador é impressionante: eu simplesmente entrava na proposta do jogo, abria cada porta com a mão tremendo, subia cada escada esperando o pior, entrava em cada beco com a arma em punho pronto para atirar. E aí reside um dos pontos fortes do jogo: ele é lento, mas intenso. Exige inteligência do jogador, exige sensibilidade para se encantar com a história e exige coragem. Sim, coragem, porque quando você mergulha fundo na ideia, cada passo deve ser dado com lucidez.

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Embora o ritmo seja intenso, há passagens no jogo que oferecem uma perspectiva diferente: o simples caminhar, o simples explorar lugares e aposentos. Em se tratando de Naughty Dog, esses momentos não são nem um pouco penosos: todos os cenários são lindos e, não raro, me dava pena abandonar um lugar tão esteticamente agradável e seguro para entrar novamente num mundo desconhecido.

Contribuem para a sensação imperativa de sobrevivência vários elementos, a começar pela munição extremamente escassa e pela necessidade de passar por alguns lugares da forma mais silenciosa possível. No primeiro caso, faça cada bala disparada valer a pena, porque do contrário você corre o risco de se ver cercado por infectados (ou por caçadores, ou o que quer que seja) sem a menor chance de enfrentá-los à altura. No segundo caso, agache-se, coloque a sensibilidade do manche de seu joystick para funcionar e reze para que ninguém ouça seus passos.

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Eu sou a Lenda e A Estrada: inspirações para Naughty Dog

Um detalhe que pode soar relativamente frustrante para alguns jogadores é que não há uma grande variabilidade de inimigos. Digo, o desafio proposto pela dificuldade dos inimigos não é crescente porque eles não variam, são sempre os mesmos do início ao fim – o que não deixa de ter seu lado verossímil. O que muda são os cenários em que se encontram e as oportunidades que esses cenários oferecem ao jogador. Nessa perspectiva, há, sim, ambientes diferentes e situações diferentes que oferecem mais ou menos dificuldade, mas sempre com os mesmos inimigos. E é essa variabilidade dos cenários, e não dos inimigos, que obriga o jogador a ser estratégico e frio na hora de enfrentar uma horda de caçadores ou infectados, por exemplo. 

Por último, e não menos importante, resta elogiar a trilha sonora original composta por ninguém menos que Gustavo Santaolalla, ganhador de dois Oscar pelas músicas dos filmes O Segredo de Brokeback Mountain e Babel. Ao analisar a escolha deste artista para compor a sonoridade da história, percebe-se que a equipe privilegiava a emoção da trama em detrimento do mero horror. A trilha de The Last of Us é minimalista e quase não se escuta os acordes de Gustavo, mas, quando se escuta, eles ganham proporções gigantes – não por eles mesmos, mas pelo contexto do que está sendo mostrado na tela.


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O QUE PODERIA SER MELHORADO?

Acreditem: é difícil encontrar aspectos negativos em The Last of Us. Com um enredo tão bem amarrado e uma jogabilidade fluida, a imersão que o jogo possibilita ao jogador faz com que este sequer pense em questionar qualquer coisa supostamente ruim no trabalho técnico empregado na produção do game. Contudo, tenho uma única coisa a declarar sobre uma possível falha estrutural em The Last of Us – e isto é mais um comentário do que necessariamente uma crítica.

A Inteligência Artificial dos inimigos fica aquém do esperado – principalmente se formos levar em conta que, hoje em dia, as IA estão cada vez mais bem elaboradas e consistentes. Convém esclarecer que estou me referindo aqui não a todos os inimigos de The Last of Us, apenas aos soldados e aos caçadores – ou seja, os adversários humanos do game, os que não foram infectados pelo vírus. Os zumbis do jogo são cegos e, por essa razão, naturalmente, você pode passar na frente deles sem ser percebido (contanto que não faça o menor ruído, claro).

Com os soldados e os caçadores essa realidade não procede. Muitas vezes eu passava agachado e aparecia sem querer no campo de visão deles, mas eles, se não me notavam, demoravam muito para me enxergar. Isso sem levar em consideração que os personagens assistentes são totalmente invisíveis aos seus olhos. Não raro, Ellie cruzava o espaço abaixo do nariz de um guarda e nada acontecia, o que proporcionava um momento bem pastelão e me dava uma frustrante (embora ligeira) sensação de irrealidade. Em um jogo que prima tanto pela verossimilhança e pela coerência, isso de fato é uma coisa incômoda.

Para não dizer que a deficiência da IA é o único problema em The Last of Us, considero que há outra coisa que também poderia ser melhorada: o sistema de áudio na fala dos personagens. No desejo de criar um efeito 3D para as vozes, os programadores fizeram com que o volume das falas dos personagens variasse de acordo com a posição da câmera. O problema é que, às vezes, um simples giro na câmera pode suprimir totalmente a voz de alguém, mesmo que esta pessoa esteja ao lado de Joel. Diferentemente do que se supõe, não é um defeito grave (embora recorrente) e pode ser superado com alguma atualização de software.

Desnecessário dizer que esses pontos negativos não abalam em nada a experiência do game. Mesmo com essa pequena deficiência da Inteligência Artificial (e mesmo com qualquer outro pequeno defeito que tenha passado despercebido pelos meus olhos), The Last of Us continua sendo uma obra-prima indiscutível. A densidade dos personagens, a profundidade da história e a jogabilidade elegante deste jogo colocam a Naughty Dog mais uma vez, com justiça, no topo das grandes desenvolvedoras atuais.

Nota? 10. Sem titubear.


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Palavras da Wikipedia:

"Já antes do lançamento do jogo, The Last of Us recebeu aclamação universal. Atualmente detém uma pontuação de 95 no Metacritic e de 94.58% no GameRankings. Recebeu pontuações perfeitas de várias publicações. Os críticos elogiaram diversos aspectos do jogo, incluindo a jogabilidade baseada em escolhas, ação realista, profundidade emocional e som. Várias revistas declararam o jogo como uma obra-prima e um título muito significativo para a sétima geração de consoles."

E, como escreveu de forma belíssima um resenhista do site FinalBoss,

"Num recente mar de jogos descerebrados e vazios, sem alma e sem motivo, o verdadeiro horror é pensar que The Last of Us, como profere seu título, possa ser o último de sua espécie. A verdade, porém, é que (…) este conto interativo sobre o que nos torna humanos ganha o merecimento de ser considerado – não somente pela beleza de seu exterior – o abre-alas da próxima geração de jogos, um que, apressado, calhou de chegar antes mesmo dos novos consoles. Só nos resta esperar que, a exemplo de Joel, a atual indústria de jogos, por vezes tão necessitada de um norte, enxergue liderança na bravura da Naughty Dog, a fim de saber exatamente para onde ir."

18 junho 2013

Game: FarCry 3

"Eu já lhe falei qual é a definição de insanidade?"

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No início do mês passado, entrei em uma loja de games quando voltava da faculdade e trouxe comigo para casa FarCry 3, o mais recente lançamento da desenvolvedora Ubisoft, criadora do personagem Ray Man e da série Assassin's Creed, só para citar alguns dos exemplos mais populares. Já fazia algum tempo que eu colocava os olhos em FarCry. Me atraía a ideia de uma aventura em FPS (primeira pessoa) baseada na perspectiva de mundo aberto, na qual o jogador tem a liberdade de fazer uma miríade de missões paralelas às missões principais e de caminhar livremente pelo cenário, interagindo com elementos espalhados pelo ambiente.

Lembro de ter finalizado o game em aproximadamente duas semanas, curtindo cada passo do protagonista Jason Brody na Ilha Rook (uma fictícia região insular localizada no Pacífico, que serviu de base para tropas japonesas da II Guerra Mundial) e acompanhando com entusiasmo a história dos personagens envolvidos na trama. Devo admitir que todas as minhas expectativas foram atendidas de forma positiva: de fato, a ilha parece ter vida própria; de fato, Vaas Montenegro é um dos melhores vilões dessa safra nova de games; realmente, prima-se pela qualidade da jogabilidade, pela beleza dos cenários e pela diversão. Ao lado de jogos como The Last of Us e Batman: Arkham City, FarCry 3 pode ser considerado uma obra grandiosa no mundo recente dos video-games.

Deixando de lado meu hábito de se prolongar muito nas postagens, dividirei este review em tópicos específicos para sermos logo diretos no que interessa.


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HISTÓRIA

O playboy norte-americano Jason Brody está curtindo as férias com os amigos em uma ilha paradisíaca situada entre o Japão e o México quando, após uma sessão mal-sucedida de paraquedismo, todos se separam e caem em pontos ermos da região: sem comunicação entre si, são capturados por piratas sanguinários, e seu líder, Vaas, cultiva a ideia de vender todos aqueles filhinhos-de-papai como escravos no mercado negro.

Depois que consegue fugir do cativeiro em uma evasão alucinada, Jason se perde na selva e é resgatado por um sujeito chamado Dennis, espécie de agente de guerra informal dos Rakyat, o povo pacífico que vive na ilha e que é mal-tratado cotidianamente pelos cruéis capangas de Vaas. A única perspectiva que passa pela cabeça de Jason, nessa altura, é se unir aos Rakyat, insurgir-se contra os piratas e, assim, resgatar seus amigos. O problema é que, ao longo do caminho, Jason começa a se ver envolvido com as lendas seculares do povo Rakyat – principalmente depois que conhece Citra, a bruxa mística (e linda) que opera como a guardiã da identidade dos Guerreiros Rakyat. Começa então uma busca insana para salvar os colegas perdidos e para, acima de tudo, descobrir as próprias forças ocultas, na medida em que o desejo de vingança vai tomando conta do protagonista.


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DO QUE GOSTEI

O enredo do game prende a atenção e envolve o jogador a ponto de você se ver tentando avançar na história apenas para saber qual será o destino de alguns personagens. Não é uma trama boba: tem conteúdo, é complexa (apesar da aparente superficialidade), possui reviravoltas e nunca deixa de surpreender pela ótima "atuação dos atores", principalmente dos vilões. Em certos momentos eu me via agoniado com a reação infantil e mimada de alguns colegas de Jason e, não raro, do próprio Jason, ao passo que sempre vibrava com a aparição de Vaas, indiscutivelmente um dos malvados mais atraentes dos últimos tempos.

As missões principais são bem diferentes entre si e muito empolgantes: vão desde a exploração arqueológica dentro de cavernas subterrâneas até a invasão silenciosa em um posto de controle pirata; há também perseguições em alto-mar, batalhas com monstros surreais provenientes da imaginação do protagonista e coisas do tipo. Não há nada de repetitivo aqui, e muitas dessas missões acabam por revelar algo surpreende da história.

Outra coisa muito bacana é que a Ilha Rook é tão cheia de vida, tão pulsante, que ela parece mesmo existir independentemente do protagonista. Não é difícil encontrar no meio de uma caminhada um tigre ou uma onça atacando um bando de veados, dragões-de-komodo atacando pessoas, cães selvagens perturbando a passagem em alguns lugares, ursos, crocodilos descansando tranquilamente ao sol etc. E a vegetação toda, muito real, bastante detalhada, conserva a sensação de que realmente a ilha é um lugar isolado, perigoso e enorme: aqui e acolá despontam ruínas de templos dos antepassados Rakyat, depósitos abandonados, cidades vazias e cavernas escondidas. Contribui para essa imersão no ambiente a qualidade dos gráficos, excelente.

O lado RPG do jogo também é interessante. À medida que o jogador mata inimigos, completa missões e descobre baús largados na selva, aumentam os seus pontos XP, que podem ser trocados por habilidades específicas (como prender a respiração por mais tempo embaixo d'água ou nocautear vários adversários em sequência). Além disso, caçar animais e retirar deles a sua pele é muito útil para a construção de equipamentos, como coldres para armas e mochilas grandes para espólios. Coletar plantas espalhadas pela ilha também tem sua importância vital: a partir delas, é possível criar seringas que potencializam habilidades e curam o personagem.

Os meios de transporte que o jogador pode utilizar para se locomover pelo ambiente também são um caso à parte: diversificados, vão do jipe militar equipado com metralhadora até o jet-ski, passando por bugues, carros velhos, asa-delta e barcos de toda sorte. Embora haja vários postos de controle que servem como pontos de viagem rápida (no estilo dos túneis de Assassin's Creed, que poupam o jogador do trabalho de caminhar até um local distante no mapa), é sempre muito agradável subir em um carro e dirigir através da maravilhosa paisagem insular até o lugar desejado.


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"ASPECTOS NEGATIVOS"

É sempre muito difícil apontar aspectos negativos em um jogo tão bom quanto FarCry 3. No entanto, para que essa análise seja a mais sincera possível, posso sugerir dois ou três pontos que dão a sensação de algo deixado a desejar.

Por exemplo: a quantidade de armas disponíveis. Não, não são poucas, pelo contrário – são muitas, demais até. Algumas delas um pouco desnecessárias. Quando o jogador experimenta a maioria e se satisfaz com algumas, são estas as que ele usará até o final do jogo, muito provavelmente. Com um coldre de capacidade para 4 armas, escolhi um arco-e-flecha, uma sniper com silenciador, uma metralhadora leve com mira turbinada e um lança-chamas. Com esse arsenal em mãos, não consegui permanecer muito tempo com outras armas que não fossem as mesmas de sempre.

Alguém pode argumentar dizendo que o grande número de armas disponíveis é uma coisa boa, e não discordo disso de maneira nenhuma; cada jogador sabe o que lhe convém e escolhe as suas armas preferidas dentre tudo o que é oferecido. No meu caso, depois de encontrar as armas mais convenientes, não senti vontade de utilizar as outras, que me pareceram inferiores. E então todo aquele arsenal de guerra ficou lá nos depósitos, estagnado. O que não chega a ser um ponto ruim, repito: é apenas relativamente frustrante.

Alguém também pode sugerir que o jogo seja repetitivo em algumas partes. De fato, em determinado momento senti a leve impressão de que estava fazendo sempre a mesma coisa – não nas missões principais, mas nas paralelas, que se resumem a atacar postos de controle, caçar animais e entregar suprimentos médicos em acampamentos Rakyat, além de bancar o faz-tudo para resolver problemas relacionados aos nativos da ilha. Mesmo assim, mesmo com essa aparente repetição, me diverti muito com essas atividades, e não acho que elas cansem ninguém. Para falar a verdade, quando o jogo está para se tornar realmente repetitivo, Jason é enviado à parte sul da Ilha Rook e as coisas mudam de cara. Foi uma boa sacada dos desenvolvedores.


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CONCLUSÃO

FarCry 3 é um jogo obrigatório para fãs de games de aventura, games de primeira pessoa e/ou games que funcionam na perspectiva de mundo aberto. Todos esses elementos são mesclados de forma extremamente satisfatória neste título da Ubisoft, que fez um excelente trabalho e que, por essa razão, merece os prêmios que ganhou com o jogo. Nunca fui um grande empolgado com games em FPS, mas este me conquistou facilmente logo nos minutos iniciais.

A única coisa que posso dizer é: Jogue. Não perca tempo. O convite está feito: mergulhe na ilha, mergulhe nos perigos que ela lhe oferece, seja seduzido por ela, seja seduzido pela insanidade e… boa sorte, porque você vai precisar. Vale a pena. Nota 10.

09 junho 2013

O que esperar para as férias [2013.1]

Uma lista do que poderá aparecer aqui no blog durante o mês de julho deste ano

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Conheço leitores que compram livros e mais livros, uns atrás dos outros, e acabam confessando eles mesmos que não têm tempo suficiente para ler tanta coisa boa que aparece no mercado literário e que acaba indo parar nas suas estantes, o que, como consequência, produz pilhas e mais pilhas de livros não-lidos pelo chão da casa. Vou confessar uma coisa: não consigo ter esse espírito desenfreado e voraz plenamente desenvolvido. Minhas compras são comedidas até certo ponto, baseadas em orçamento financeiro, em tempo disponível e em nível de interesse, e a relação harmoniosa entre esses três elementos acaba reduzindo e muito minhas aquisições. Não consigo ver aquele livro não-lido parado em um canto da minha casa, acumulando poeira porque há dezenas de livros na fila das prioridades. Quando o livro cabe no bolso, quando sei que poderei lê-lo sem pressa e com cuidado e quando sei que as chances de gostar dele são possíveis, não hesito: levo para casa. Às vezes são feitos sacrifícios: edições de luxo, por exemplo, que abocanham nossa conta bancária mas que valem o esforço; ou na época em que disponho de apenas um exíguo final de semana para ler aquele Admirável Mundo Novo ou aquele Sete Anos no Tibet. [Ler nota no final desta postagem]

Os períodos que vão de fevereiro a junho e, no segundo semestre, de agosto a novembro, geralmente são os intervalos do ano que reservo para acumular os livros que lerei nas férias de julho e de dezembro, respectivamente. Embora eu sempre esteja lendo algo, seja lá o mês que for, é somente nesses intervalos sabáticos anuais que me proponho a ler obras realmente densas e volumosas, como Mar de Papoulas, do indiano Amitav Ghosh, ou Lá Onde os Tigres se Sentem em Casa, do francês Jean-Marie Blas de Roblès.

Eis o que o Gato Branco espera para as férias de julho:


Micro, de Michael Crichton

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Michael Crichton, autor do célebre Jurassic Park, veio a falecer de câncer aos 66 anos enquanto estava escrevendo seu novo romance, Micro, espécie de survival na selva que parece ser uma mistura equilibrada e sã de O Mundo Perdido com Presa. Os originais da obra foram finalizados pelo conhecido romancista Richard Preston, autor de O Demônio no Freezer e Zona Quente.

A aura em torno do livro é auspiciosa. Afinal, trata-se de um thriller manipulado por quatro mãos, e os dedos são de dois autores populares e muito competentes. A ideia é potencialmente rica e pertinente, porque envolve os perigos que a ciência desenfreada alavanca quando tenta submeter as leis da natureza à ambição dos homens (ideia que, faça-se justiça, Crichton abordava em quase todos os seus livros). Vindo do autor de Esfera e Linha do Tempo, dois romances que li na infância e que me lançaram no universo literário de um modo geral, Micro é uma das leituras mais esperadas desse ano.


Anna Kariênina, de Liev Tolstói

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Não tenho palavras para descrever a ansiedade que me cerca quando tenho no horizonte uma leitura do romancista russo Liev Tolstói, que é, sem dúvida, um dos melhores escritores de todos os tempos. Anna Kariênina foi transposto recentemente para o cinema e, nas telas, Keira Knightley encarna a personagem principal. Ainda não assisti ao filme de propósito, apenas para que não me sejam revelados quaisquer detalhes do enredo (muito embora eu já saiba o que ocorre no final da história).

Na obra, percorremos os grandes salões povoados pela alta burguesia russa entediada do século XIX, conhecendo figuras as mais diversas, assoladas pelas dúvidas que, independente da época e do lugar, assolam qualquer ser humano – principalmente quando o assunto é aquela paixão visceral que todos nós conhecemos muito bem.


Nos bastidores do Pink Floyd, de Mark Blake

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Todos os que me conhecem razoavelmente bem sabem que aquela banda britânica conhecida como Pink Floyd é a minha favorita, ao lado de Dire Straits, Led Zeppelin e The Doors. Quando uma ex-namorada minha me ligou às pressas dizendo que havia acabado de chegar ao mercado brasileiro a biografia completa do conjunto de rock progressivo autor de The Dark Side of The Moon, minha primeira reação foi: não acredito. Era a época em que eu andava às voltas à procura de um documentário decente sobre Pink Floyd.

Pelas folheadas que eu já dei na obra de Blake, Nos bastidores do Pink Floyd parece ser um trabalho super sério e bem estudado, não incorrendo nas pieguices e nos deslizes comuns ao gênero. Desde The Piper at The Gates of Down até Division Bell, a história dessa lendária banda é contada nos mínimos detalhes, o que envolve entrevistas com os integrantes e o pessoal da produção. Essa é outra leitura pela qual mal posso esperar.


Inferno, de Dan Brown

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Robert Langdon é, outra vez, o personagem central do mais novo livro do autor de O Código Da Vinci, e aqui o simbologista simpático e claustrofóbico se vê atado a uma trama que envolve a leitura de uma das obras clássicas da literatura mundial: A Divina Comédia, de Dante Alighieri. Não tenho mais conhecimentos sobre o enredo, e acho que isso é interessante, pois sigo a máxima dos leitores de que "quanto menos instruídos e mais surpreendidos, melhor". A única coisa que sei, por enquanto, é que Langdon está no meio de todos esses mistérios e que os enigmas se baseiam no livro do ilustre italiano supracitado.

Mesma estrutura de história? Mesmo corre-corre de sempre? Ótimo. Dan Brown é o tipo de autor que consegue ser bom e surpreendente mesmo quando repete sempre a sua fórmula mágica. Não vejo a hora de revisitar a Europa cheia de mistérios que o autor não se cansa de nos mostrar – e que eu, particularmente, adoro.

 


[Nota: compradores vorazes de livros, não se sintam ofendidos. Esse consumismo literário é uma das coisas que mais gosto de observar e de admirar nas outras pessoas (sim, porque não há nada mais embevecedor do que ouvir alguém falando "Estou com trezentos livros lá em casa e não sei por onde começo". Comprar livros em demasia é um hábito saudável, até certo ponto. Só não consigo colocá-lo em prática, nem pretendo conseguir.