Pesquisar neste Blog

Mostrando postagens com marcador cinema. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cinema. Mostrar todas as postagens

20 novembro 2017

Hollywood, de Charles Bukowski



"O filme aparecia numa pequena tela que parecia um aparelho de TV. Passavam os créditos. Depois, vinha meu nome. Eu fazia parte de Hollywood, pelo menos por um pequeno instante. Era culpado."

Vivendo tempos atarefados que sugam toda a minha disposição para escrever o que quer que seja, descobri que a leitura de um bom Charles Bukowski é suficiente para me devolver alguma motivação para continuar alimentando este blog. O velho maldito alcoólatra ainda consegue me maravilhar com as suas palavras sinceras e diretas, e é somente um escritor do seu calibre que me faz sentar – depois de tanto tempo parado – diante de um editor de textos em um domingo à noite para esboçar uma resenha breve sobre um livro.

O Bukowski que terminei de ler hoje foi Hollywood (Hollywood, 1989), o seu último romance protagonizado pelo carismático (mas às vezes não tão simpático) Henry Chinaski, alter ego mundialmente famoso do velho Buk, tão alcoólatra, tão pervertido e tão ferino com as palavras quanto o seu criador de carne e osso.

A trama do romance é baseada nas experiências que Bukowski viveu enquanto escrevia o roteiro do filme Barfly, lançado em 1987, dirigido por Barbet Schroeder e protagonizado por Mickey Rourke e Faye Dunaway. Suas experiências como roteirista, na vida real, incluíram lidar com produtores e atores excêntricos, adaptar-se aos cortes de orçamento e encarar a nostálgica sensação de revisitar, através do próprio roteiro com traços autobiográficos, uma parte já distante de sua vida – os anos de alcoolismo mais pesados, a pobreza cruel, a incerteza de um futuro que só parecia querer condená-lo à miséria. Hollywood é basicamente sobre essa experiência de escrever um filme nos bastidores do cinema marginal de Los Angeles. No livro, temos Chinaski escrevendo o roteiro do filme A dança de Jim Bean, mas parece ser Bukowski quem está falando sobre ter escrito o roteiro de Barfly para a indústria do cinema.

Aliás, arrisco dizer que, em Hollywood, Chinaski e Bukowski se confundem mais do que em qualquer outro romance do escritor. Aqui, Chinaski é a transcrição literária exata do próprio autor que lhe dá vida: as loucuras feitas na jovem idade adulta são virtualmente as mesmas, o amor pela bebida é o mesmo, a relação com a escrita é semelhante. Frequentemente, o leitor se pega lendo “Bukowski” no lugar de “Chinaski”. Para quem conhece a obra do autor, essa simbiose nunca precisou ser disfarçada ou negada: é justamente a semelhança clara entre Bukowski e Chinaski que dá o sentimento necessário para que seus livros sejam adorados. E para que soem realmente autênticos.

"O roteiro ia bem. Escrever nunca foi trabalho para mim. Sempre fora assim, desde quando me lembrava: ligar o rádio numa estação de música clássica, acender um cigarro ou charuto, abrir a garrafa. A máquina fazia o resto. Eu só precisava estar ali. Todo o processo me permitia seguir em frente quando a vida oferecia tão pouco, quando a própria vida era um espetáculo de horror. Sempre havia a máquina para me acalmar, conversar comigo, me entreter, salvar meu rabo. Basicamente, era por isso que eu escrevia: para salvar meu rabo, salvar meu rabo do asilo de doidos, das ruas, de mim mesmo."

Faye Dunaway, Charles Bukowski e Mickey Rourke nos bastidores de Barfly, em 1987

Entre as relações conturbadas – e algumas até amistosas – com produtores, diretores, atores e atrizes caprichosos e geniosos, o Chinaski que salta das páginas é um velho simpático, reservado, bondoso e finalmente sossegado. Ele vive sua vida pacata entre a máquina de escrever, as garrafas de vinho, o hipódromo, sua esposa e os gatos de estimação, aparentando – como sempre aparentou – não querer mais nada além do que já tem. Ele está visivelmente equilibrado financeiramente e sua carreira como escritor maldito parece consolidada. Quando o diretor underground Jon Pinchot surge já na primeira página lhe pedindo para começar a escrever um roteiro para o cinema, Chinaski reage com desinteresse e até com certo desdém diante da proposta, mas a aceita, relutante, meio que curioso para ver aonde essa empreitada pode levar – os 20 mil dólares prometidos, claro, ajudam a convencê-lo.

E acaba que a aventura rende bons episódios. Dentre as situações mais hilárias certamente estão as visitas de Chinaski e Sarah – sua esposa – à casa de Jon Pinchot e François Racine, um ator decadente. Ambos moram durante um tempo em um casebre localizado num bairro periférico de Los Angeles com altos índices de criminalidade, cujos vizinhos delinquentes e perigosos perturbam a sanidade de François. Há também as engraçadíssimas entrevistas que Chinaski concede a emissoras locais e internacionais, durante a produção do filme, nas quais o escritor zomba descaradamente da vida bizarra e até certo ponto falsa que artistas e críticos vivem em Hollywood. Está presente também o apego tragicômico de Chinaski ao álcool – o que sempre rende as situações mais inusitadas dos seus livros – e uma hilária e surreal ameaça de automutilação por parte de um dos personagens centrais. Hollywood é um legítimo romance de Bukowski, e seus leitores não sentirão falta da atmosfera pegajosa, engraçada e vulgarmente humana encontrada nos outros livros do autor.

"Voltei ao hipódromo. Às vezes me perguntava o que fazia ali. E às vezes sabia. Entre outras coisas, aquilo me permitia ver grande número de pessoas sob a pior luz, e isso me mantinha em contato com a realidade do que era feita a humanidade. A ambição, o medo, a raiva, tudo estava ali."



Leio Bukowski há mais de uma década. Nesses quase dez anos, acompanhei um Chinaski à deriva, perdido entre mulheres, empregos, idas ao hipódromo e fugas viscerais da realidade auxiliadas por uma máquina de escrever. Hoje, em Hollywood, encontrei um Chinaski diferente: um cara que vive sem sobressaltos, apoiado em alguma sabedoria extraída das experiências que teve ao longo da vida – ainda uma figura excêntrica, mas mais assentada, mais adaptada ao sistema. O que dá humanidade aos escritos de Bukowski/Chinaski é precisamente a sua capacidade de humanizar o trágico lado imundo da vida – de dar sentido à sarjeta, voz aos desajustados, graça à marginalidade. Em diversas passagens de Hollywood, Chinaski fala que odeia as pessoas, mas, bem feitas as contas, a força de sua literatura reside exatamente na paixão com que ele observa todos que circulam ao seu redor e na espontaneidade com que relata seus encontros com a humanidade.

Me parece curioso que tenhamos nos encontrado, eu e esse personagem, em momentos de mais maturidade para ambos. Há livros e autores que são lidos em momentos certos, sem que tenhamos planejado isso. É uma das magias da literatura. Viva Chinaski. Agora, me resta lamentar ter lido o último romance de Bukowski que faltava.

Vai o autor, ficam os livros – e as lembranças.

25 junho 2014

Quatro estações, de Stephen King

"O amor tem dentes; morde; as feridas nunca cicatrizam. Nenhuma palavra, nenhuma combinação de palavras pode fechar essas mordidas de amor." (p. 572)

112810201SZ stephen-king

Finalizei ontem a leitura de Quatro estações (Different seasons, 1982), do escritor norte-americano Stephen King. Comprei pela internet a confortável edição de bolso da Ponto de Leitura, selo da Editora Objetiva, e me deleitei com as 650 páginas deste livro que reúne quatro contos inéditos do autor (ou mini-romances, dada a longa extensão de cada um). Deixando de lado o terror explícito de Carrie, a Estranha e O iluminado, King explora um gênero diferente nestas quatro histórias que misturam, de forma muito bem sucedida, drama, horror e suspense.

Eu já havia lido do autor o famoso À espera de um milagre, romance escrito em 1996 que ganhou as telas do cinema três anos depois, com Tom Hanks no papel principal. O prazer que senti ao ler este livro despertou minha atenção para o nome de Stephen King, que até então soava na minha cabeça somente como mais um autor best-seller que carrega nas costas uma legião de fãs. Quando cheguei à última página de À espera de um milagre, entendi por que King possui a sua legião extremamente fiel de fãs e porque ele é tão elogiado pela crítica. Resposta: o homem tem talento, e muito.


Sinopse: Nos quatro contos reunidos neste livro, Stephen King realiza um profundo mergulho na natureza humana, revelando medos, esperanças e impulsos, além de explorar todas as facetas do ser humano, desde seu mais puro desejo de ser livre à sua mais apavorante crueldade.


O mais longo dos contos, Aluno inteligente, possui 250 páginas e passeia com tranquilidade do drama ao horror, com King realizando uma prospecção subjetiva digna de mestre em cada um de seus personagens. O mesmo acontece com Rita Hayworth e a redenção de Shawshank e O corpo: duas histórias cujo gênero se encontra entre o dramático e o assustador, levando-nos a pensar nos limites da crueldade humana e em como os verdadeiros monstros podem não estar à solta no Lago Ness, mas dentro de nossas próprias cabeças e nas nossas ações. Infelizmente O Método Respiratório, último conto do livro, não está à altura dos outros: parece apressado, mal explorado e sem norte. Mesmo assim, consegue prender a atenção do leitor do início ao fim, como os demais.

Interessante notar que o sucesso de Quatro estações extrapolou as estantes das livrarias. Rita Hayworth e a redenção de Shawshank inspirou o filme Um sonho de liberdade, que concorreu a 7 Oscars em 1995. Aluno inteligente deu origem a O aprendiz, de 1998, muito bem recebido pela crítica. O corpo foi adaptado em 1986 e transformou-se no célebre Conta comigo, que alavancou a carreira de alguns atores mirins na época. E desde 2012 discute-se uma adaptação para O Método Respiratório, que, sim, estou ansioso para conferir.


6a00d83451bad569e201053707324d970b-800wi O Aprendiz 14

Os cartazes dos filmes inspirados nos contos do livro


É difícil escolher a história de que mais gostei. Se por um lado o último conto não me agradou de todo, por outro me senti totalmente fisgado pelos anteriores, especialmente por Aluno inteligente e O corpo. A impressão que dá é a de que existe uma história mais maravilhosa do que a outra, à medida que vamos avançando no livro. Se ficamos extasiados com a ânsia de liberdade de Andy Dufresne e sua luta contra a injustiça, ficamos também perplexos com o amadurecimento distorcido de Todd Bowden e arrebatados com a emocionante amizade entre Gordon Lachance, Cris Chambers, Vern Tessio e Teddy Duchamp. Justiça seja feita: é possível ficar apaixonado também pela determinação e pela graça da moça da última história, muito embora o conto em questão não tenha sido satisfatoriamente desenvolvido para dar espaço a esta personagem.

A escrita de Stephen King é de uma leveza convidativa, o que não a impede de ser profunda e emocionante. Dos quatro contos, três são escritos em primeira pessoa, e estas histórias são justamente as que trazem consigo o tom confessional tão caro ao escritor: os personagens destes contos são pessoas que escrevem sobre um evento passado de suas vidas e, em retrospecto, fazem um balanço do quanto estes episódios singulares influenciaram sua personalidade. Esta técnica é muito frequente na obra de King e abre a possibilidade de uma metalinguagem interessantíssima: o escritor que escreve sobre um escritor que escreve sobre um fato marcante de sua vida.

Fazendo jus à epígrafe da obra – O que importa é a história, e não o narradorQuatro estações oferece ao leitor o prazer de simplesmente ouvir uma boa história, um prazer que beira nossos costumes ancestrais de nos sentarmos ao redor de uma fogueira e sermos levados pela narrativa de alguém.

Composto por histórias memoráveis, este livro é um sopro de boa literatura. Atende aos desejos dos leitores mais exigentes – aqueles que buscam uma história de qualidade além do banal – e atende aos anseios dos leitores que estão em busca de algo mais leve e menos complexo. São histórias cujo valor está nelas mesmas, e não em um suposto artifício literário ou escondido atrás de um nome famoso.

Extremamente recomendado, posso dizer que Quatro estações é, desde já, uma das melhores leituras do ano.

15 setembro 2013

Cartas na rua, de Charles Bukowski

"Tudo começou como um erro." (p. 11)

Cartas_na_rua bb2

Na semana passada eu finalizei a leitura do livro Cartas na rua (Post Office, 1971), primeiro romance publicado do celebrado escritor underground Charles Bukowski, que é o senhor dos porres inacreditáveis e o escritor marginal por excelência. Bukowski, que nasceu na Alemanha mas mudou-se ainda criança para os Estados Unidos, viveu a vida difícil das pessoas que não têm perspectivas de um futuro confortável sustentado por uma carreira de sucesso no mundo capitalista americano. Graças a essa falta de ambição, guiado apenas por aquilo que o dia trazia, Bukowski sentiu na pele a crueza da realidade suburbana e desenvolveu uma sutil capacidade de captar a humanidade dos indivíduos rejeitados.

Assim como a maioria dos romances do autor, Cartas na rua é um livrinho pequeno que sintetiza, em uma narrativa direta e sem floreios (mas bem humorada e muito bem conduzida), as desventuras do protagonista Henry Chinaski, espécie de persona literária do próprio Bukowski, também alemão de nascença, também dado à bebedeira, também chegado às mulheres, também aficionado pelas corridas de cavalo. No livro, Chinaski arranja um emprego burocrático nos Correios norte-americanos e, sem se dar conta, vai passando os dias (e, depois, os anos) nesse trabalho degradante, balanceado com as bebidas freqüentes, com as mulheres complicadas e com a amargura geral com que o personagem encara a vida em sociedade.


Sinopse: Em Cartas na Rua (primeira novela publicada de Charles Bukowski), um beberrão simpático, cheio de ceticismo, nostalgia e humor passeia pela monotonia burocrática dos Correios e nos mostra a América com a visão de alguém que está sempre à margem.


Gostei de Cartas na rua tanto quanto de Factótum, que já li duas vezes e ainda hoje é um dos meus preferidos de Bukowski. Não sei quanto aos outros leitores, mas eu sou capaz de memorizar várias passagens dos livros do autor e lembrar delas sempre que uma cena do cotidiano me remete às experiências de Chinaski. Às vezes me pego pensando no que o personagem principal de Bukowski faria se estivesse na minha situação – e sempre me divirto com os possíveis resultados. E essa é uma das proezas deste escritor: ele nos faz enxergar o lado humano e sensível de situações nas quais jamais imaginaríamos ter algo de humano e sensível.

Depois que o leitor de primeira viagem supera o choque inicial causado pela torrente de palavrões e termos escatológicos que Bukowski coloca em seus livros, emerge no texto uma clara simpatia pelas pessoas desvalidas – pelos desempregados, pelos incapazes, pelos bêbados, pelos mendigos, pelas prostitutas, e assim por diante. Em Cartas na rua, Henry, já quase aos cinquenta anos, vive uma vida desprezível de funcionário público e tenta conciliar com ela a sua vida cotidiana, esta atravessada pela tentativa de suportar a faina do trabalho. Se em Factótum Chinaski muda de emprego como se muda de roupa – aliás, acho que nem eu mudo de roupa tanto quanto ele mudava de ocupação –, em Cartas na rua o mesmo Chinaski sobrevive nos Correios ano após ano, sem a menor perspectiva de sair dali ou melhorar a posição na empresa.

barfly_bukowski_faye_Mickey

Da esquerda para a direita: Faye Dunaway, Charles Bukowski e Mickey Rourke nos bastidores do filme Barfly, roteirizado pelo escritor

As mulheres que Chinaski arranja em Cartas na rua são bem simpáticas, e o relacionamento do protagonista com elas é ligeiramente diferente daquele visto em outros romances. Se no livro Mulheres, por exemplo, é Chinaski quem bagunça a vida de suas companheiras, em Cartas na rua parece ocorrer o contrário: são elas que bagunçam a vida dele. Me pareceu que Chinaski aqui é perceptivelmente mais romântico, mais sensível, e procura tocar seus relacionamentos sempre com a perspectiva de ser agradável às suas parceiras. Não é algo que não pareça acontecer também nas outras obras do autor, mas aqui este detalhe é mais perceptível – pelo menos o foi para mim.

Outra coisa curiosa de observar é que, em Cartas na rua, Chinaski ainda não leva uma vida de escritor. Nos romances seguintes, o protagonista está sempre dividindo seu tempo entre empregos temporários, mulheres, álcool e a atividade de escrevinhador desconhecido. Aqui, porém, Chinaski ainda não se enxerga como escritor nem faz da máquina de escrever sua companheira inseparável – marca registrada dos outros romances. Temos, na verdade, um personagem que está descobrindo sua vocação e descobrindo que pode transformar a penúria em que vive numa produção literária.

MV5BMTQzNzk1MDk1MV5BMl5BanBnXkFtZTYwMDQyNTE3._V1._SX485_SY323_

Matt Dillon vivendo Henry Chinaski na adaptação cinematográfica Factótum, filme de 2005

Sempre que chego à última página de um livro do Bukowski, sinto uma estranha sensação de consolo e bem-estar. Me parece que Bukowski esteve o tempo todo tentando nos mostrar que os problemas que nós enfrentamos na vida são, simplesmente, a vida. Talvez seja um engano nosso pensar que a vida de verdade esteja para além dos nossos desgostos e problemas: o que de fato constitui a existência não é outra coisa que não os tapas que recebemos na cara e as situações difíceis pelas quais passamos de vez em quando. Charles Bukowski conseguiu transformar sua vida miserável em obra de arte e clássico da literatura, e fez isso apenas narrando cruamente as coisas que lhe aconteciam, dando a elas o desenho da sensibilidade.

Não teve sucesso nas corporações em que trabalhou, não galgou posições, não conquistou prestígio nas empresas em que prestou serviço, mas foi seguramente um dos escritores mais bem sucedidos de todos os tempos.

30 agosto 2013

Anna Kariênina, de Liev Tolstói

"Você nem acredita que delícia é, para mim, essa indolência rural. Nenhum pensamento na cabeça, um vazio completo." (p. 243)

9788575038413 tolstoi-2

Para mim, ler o que Liev Tolstói escrevia é não apenas uma experiência literária agradável, mas, principalmente, é também uma experiência estética humana que, boa ou ruim, faz você voltar os olhos para dentro de você mesmo e observar, nos recantos mais ocultos da sua alma, coisas que ninguém – nem mesmo você – sabia que existiam. Este é o poder que Tolstói tem e que tantos outros autores consagrados compartilham. A propósito, essa qualidade de destrinchar a alma humana é normalmente encontrada nos clássicos da literatura: naquelas obras que as pessoas não somente comentam, mas de fato leem. E leem porque é fascinante, em qualquer época e em qualquer lugar, descobrir naquelas páginas os segredos que estão por trás da nossa luta cotidiana contra os fantasmas de nosso espírito.

Anna Kariênina (Anna Kariênina, 1877) é um desses clássicos que roubam a alma do leitor. Tolstói, exímio escritor, incansável paladino dos textos claros e inteligíveis, parece contar neste romance uma verdade universal a cada frase. A começar pela primeira sentença da obra, uma frase famosíssima, que diz que todas as famílias felizes se parecem, mas que cada família infeliz é infeliz à sua maneira. Ler Anna Kariênina não é uma experiência que passa batida. Ninguém que lê o romance de cabo a rabo, com atenção, pode dizer que chegou ao final com uma sensação de indiferença; não porque o livro mude completamente sua forma de pensar, mas porque é impressionantemente belo constatar que as mesmas questões de amor que moviam as pessoas há mais de um século são as mesmas que movem as pessoas de hoje.

dvd-anna-karenina-greta-garbo-lacrado_MLB-F-3134621222_092012

Cartaz do filme estrelado por Greta Garbo no papel de Kariênina, em 1935

Anna Kariênina é um livro sobre amor e eu me arrisco a dizer que talvez seja a obra definitiva sobre o assunto até hoje. Que me perdoem os imbatíveis Romeu e Julieta, que me perdoe o sonhador Gatsby, que me perdoe a dissimulada Lady Chatterley – e tantas outras figuras emblemáticas desse gênero tão visceral – mas a pulsante e sedutora Kariênina e toda a vasta gama de personagens deste livro de Tolstói nos explicam, em palavras simples e pontuais, o que é o amor e o que o amor pode fazer conosco. São 800 páginas que não falam de outra coisa que não o amor e, ao mesmo tempo, longe de cair em uma mesmice piegas e enfadonha, falam sobre praticamente todos os assuntos que ecoam muito interessantes e importantes até hoje – como a relação entre patrão e empregado, os dilemas metafísicos da existência, a vida de aparências na sociedade, as sutis particularidades do casamento, as guerras, e assim por diante.

Dizer que essas quase mil páginas são bem escritas é desnecessário porque, como Rubens Figueiredo conta na apresentação do livro, Tolstói era capaz de reescrever um mesmo parágrafo à exaustão até que, em seu entendimento, ele ficasse coerente, belo e profundo, digno de ser lido. E não somente isso: a própria estrutura do romance, sua arquitetura, revela um esmero particular, pois é dividida em 8 partes de praticamente mesmo tamanho, através das quais a obra destila toda a sua sincronia. Observar com cuidado a parte técnica de Anna Kariênina nos faz perceber que estamos diante de uma obra de arte, no sentido palatável do termo.

anna-karenina-2

Cena do filme dirigido por Joe Wright, adaptação de 2012

Anna aparece pela primeira vez no romance muito depois da primeira página, mas, quando ela aparece, o leitor entende por que o título do livro leva seu nome. Anna é uma mulher absolutamente apaixonável, se podemos dizer assim. Convidada pelo irmão para resolver um assunto de família em Moscou, Kariênina mostra-se ao leitor sob uma luz quase celestial: é forte, decidida, independente até onde uma mulher do século XIX poderia ser, simpática e, acima de tudo, linda. A partir de sua aparição, o principal grupo de personagens da história começa a despontar, e o narrador, sempre cadenciado, sempre sereno, revela ao leitor os dilemas e as dificuldades que atormentam estes personagens. E as angústias dessas figuras fictícias soam tão reais e palpáveis quanto poderiam soar as angústias de pessoas de carne e osso.

Embora o romance tenha um número bastante elevado de páginas, tem-se a impressão de que não há uma única palavra fora do lugar. O narrador observador, onisciente e onipresente, não é autoritário e, assim, não desrespeita a existência dos personagens: ele é apenas pontual, objetivo, descrevendo emoções, sensações, fatos e conflitos com a precisão de um cirurgião. Cheguei a ficar 30 minutos segurando o livro na mesma página, incapaz de virá-la porque o que eu tinha acabado de ler era tão belo e tão marcante que eu tinha a certeza de que não conseguiria me concentrar mais em outra coisa.

DSCN0116

Não quero estragar a experiência dos futuros leitores de Anna Kariênina e, por isso, paro esta resenha por aqui. Falar muito sobre o livro seria um desserviço. O que quero dizer é que não há resenha de tamanho adequado para comentar todos os pontos dessa obra – nem isso é desejável. Existe um suave prazer em ser surpreendido a cada nova passagem e acompanhar o lento caminhar da história. E, ao chegar à última página, compreender que aquele romance tão pesado e tão preciso agora faz parte de nós, pelo resto da vida.

24 abril 2013

Momo e o Senhor do Tempo, de Michael Ende

"Momo ouvia todos com atenção: gatos, cachorros, grilos e sapos, até a chuva e o vento nas árvores. E cada um falava com ela à sua maneira." (p. 17)

momo3-590x889 0,,5878746_4,00

No último sábado finalizei a leitura de Momo e o Senhor do Tempo (Momo, 1973), livro infanto-juvenil escrito por um mestre na área, o alemão Michael Ende, autor do famosíssimo A história sem fim. Nascido em 1929 e falecido em 1995, Ende deixou para trás uma magnífica literatura voltada para crianças e jovens, que encantou um público muitíssimo vasto em todos os países nos quais fora publicado, firmando-o como um dos autores mais queridos do século XX.

A história da garota Momo – uma doce menina de rua que luta para devolver às pessoas o tempo perdido de suas vidas – aproxima-se muito da temática que estudo no Laboratório Otium de pesquisa da Universidade de Fortaleza, na pós-graduação em Psicologia. Nele, nos debruçamos sobre conceitos como ócio, lazer, trabalho e tempo livre na sociedade contemporânea, e o romance de Ende não poderia ser mais próximo disso.

Resultado: leitura excelente e muito tocante. Vale a pena conferir.


Sinopse: O tempo é um enigma que intriga crianças e adultos que ainda não desaprenderam de se maravilhar com aquilo que parece evidente. A história de Momo se passa num reino de fantasia situado no nada e em lugar nenhum, ou numa região sem tempo. Não é uma história de príncipes, princesas e fadas. Seu contexto se baseia totalmente na vida atual.


Como toda obra infanto-juvenil de qualidade, Momo é um romance voltado tanto para crianças quanto para jovens e adultos. De maneira alegórica, divertida e emocionante, Ende levanta uma reflexão que só anda ganhando cada vez mais amplitude, principalmente nos dias de hoje: o que estamos fazendo com o tempo de nossas vidas? Será que estamos utilizando nosso tempo para nós mesmos? Ou estamos usando nosso tempo somente para os outros, sem que percebamos? É possível realizar milhões de coisas durante o dia e chegar à conclusão de que não estamos fazendo nada, na verdade?

Na obra, os Homens Cinzentos são os responsáveis por roubar o tempo das pessoas da cidade, que, sem perceber, não têm mais tempo para absolutamente nada, nem mesmo para os seus filhos, que são colocados em lugares chamados de Depósito de Crianças (qualquer alusão a creches não é coincidência). O resultado é que a cidade grande se transforma em um caos de pessoas aborrecidas com o trabalho, insatisfeitas com a vida e privadas de toda e qualquer experiência gratificante – o que emula nossa sociedade contemporânea. Sem tempo, ninguém é capaz de se enxergar e enxergar os outros, e todos estão preocupados unicamente em poupar horas e fazer tudo o mais rápido possível, mesmo que isso custe sua felicidade. Por trás desse cenário há a movimentação silenciosa dos Homens Cinzentos, que só sobrevivem alimentando-se do tempo poupado das pessoas.


michael-ende_momo

Michael Ende e Radost Bokel, a atriz que interpretou Momo no filme de 1986


A figura da protagonista Momo é o contraponto para todo esse frenesi caótico que se instala na cidade grande. Ingênua e simples, cheia de vida, repleta de sentimentos autênticos, a garota – espécie de Pequeno Príncipe do sexo feminino – começa a perceber que uma vida sem tempo significa uma vida sem amizades verdadeiras, sem espaço para a criatividade e sem significado. Aflita por ver seus amigos mais íntimos sendo seduzidos pelo discurso dos Homens Cinzentos, a menina começa a querer libertá-los do domínio desses temíveis ladrões de tempo. Gigi Guia, um dos melhores companheiros de Momo, é um exemplo de pessoa que, afundada em trabalho constante, economiza bastante tempo, enriquece e se torna famosa, mas não vê mais significado em sua existência agora vazia.

Uma das personagens mais carismáticas e engraçadas do livro é Cassiopeia, uma tartaruga capaz de prever o futuro com meia hora de antecedência e se comunicar através de palavras que aparecem em seu casco. Além dela, temos Beppo Varredor, um velhinho meigo que é o homem responsável por varrer as ruas da cidade; sempre ponderado e reflexivo, ele é o autor de boa parte dos melhores diálogos do livro.

Momo é uma leitura indicada para qualquer pessoa que queira pensar um pouco sobre o que está por trás do fenômeno do tempo. Romance metafórico, singelo e humano, como toda literatura do gênero deve ser, esta obra possui a impagável qualidade de permanecer em nossas cabeças mesmo muito depois de fecharmos o livro.


portada_momo_final72

Ilustração de Zuzanna Celej, aquarela e lápis sobre papel


14 dezembro 2012

Tia Julia e o escrevinhador, de Mario Vargas Llosa

"O futuro era um assunto tacitamente abolido de nossas conversas, sem dúvida porque, tanto ela como eu, estávamos convencidos de que nossa relação não tinha nenhum." (p. 122)

284233_detalhe1 Mario-Vargas-Llosa-008

Tia Julia e o escrevinhador (La tía Julia y el escribidor, 1977) era um livro que estava na estante do meu irmão há alguns anos e eu nunca tinha tido a oportunidade de pegá-lo para ler. Já havia devorado o romance Travessuras da menina má antes, que é de Mario Vargas Llosa também, e inclusive comecei a pensar em ler os outros títulos deste escritor peruano, mas nessa época uma série de leituras mais prementes estavam se colocando entre eu e Tia Julia.

A verdade é que, depois de muitos títulos do Murakami, alguns de Amitav Ghosh e outros tantos de Erico Verissimo, finalmente pulei por cima de alguma espécie de obstáculo invisível e puxei da prateleira do meu irmão este pitoresco romance de Llosa (vencedor do Nobel de Literatura em 2010, convém lembrar), me divertindo do início ao fim com as aventuras sentimentais de Marito e as extravagâncias artísticas do radionovelista Pedro Camacho.


Sinopse: Tia Julia e o escrevinhador é um dos livros mais originais de Vargas Llosa. Mesclando humor e romance, o escritor narra a história de Varguitas, um jovem peruano com ambições literárias que se apaixona por uma tia com quase o dobro da sua idade. Em paralelo a esse romance proibido, na Lima dos anos 50, Varguitas conhece Pedro Camacho, autor excêntrico de radionovelas cujos enredos mirabolantes fascinam os peruanos. As novelas vão muito bem, até o dia em que Pedro Camacho, sobrecarregado, começa a confundir enredos e personagens. E, ao mesmo tempo, o romance entre Varguitas e tia Julia é descoberto pela família.


Mario Vargas Llosa é um daqueles escritores com os quais tenho uma estreita relação de afeição e repulsa. Me afeiçoei ao seu trabalho porque ele é, de fato, sem sombra de dúvidas, um exímio contador de histórias, um artista das letras verdadeiramente ímpar – basta lembrar da sua longa incursão na literatura engajada, em que transformava em romance grandes eventos da política latino-americana, como nos clássicos A festa do bode e Lituma nos Andes. Sua importância literária (e não só a importância como também a qualidade real de sua escrita) faz de Llosa um dos maiores escritores da América do Sul. Por outro lado, pessoalmente falando, acho-o bastante aborrecido e desagradável como sujeito. Mas isso é uma opinião pessoal demais, e não convém ao caso falar sobre ela.

Tia Julia e o escrevinhador foi redigido entre duas grandes obras: Conversa na catedral e A guerra do fim do mundo. Por essa razão, corria o sério risco de ser tratado como um trabalho menor do escritor, mero passatempo ou divertimento literário, por abordar um assunto engraçado e tecnicamente superficial: o amor autobiográfico entre um menino de 18 anos e sua tia distante. No entanto, bem feitas as contas, percebe-se que Tia Julia é um romance que, além de divertidíssimo e muito bem humorado, é também uma obra de arte não menos ambiciosa que as duas citadas acima. Vargas Llosa tem o dom de transformar cada pequeno acontecimento em uma situação envolvente, além de abordar os eventos da história sob uma ótica antropológica genial.

12100528 Tia Julia e o Escrevinhador

Capa da Coleção Folha de Literatura Ibero-Americana e pôster do filme norte-americano baseado no romance, estrelado por Keanu Reeves

Não é à toa que o escritor é festejado bastante aqui na América Latina: cada livro seu faz uma referência completa a todo panorama do continente, traçando uma espécie de painel sócio-histórico que faz a América abaixo do hemisfério norte parecer de fato uma grande e coesa comunidade, com seus dramas pessoais, suas nuances políticas, suas mesquinharias e suas virtuosidades. Em Tia Julia isso fica muito claro: percebe-se como Llosa teve o cuidado de inserir praticamente todos os países latinos na história, nem que seja como uma simples menção.

O livro é dividido basicamente em dois eixos centrais: a história de amor entre o personagem Mario Vargas e Julia (sim, há muito de autobiográfico nesta história, porque na vida real o autor também se envolveu com a própria tia, anos mais velha que ele, chamada Julia) e as radionovelas escritas pelo pitoresco artista boliviano Pedro Camacho. Os capítulos são alternados – ou seja, depois de um capítulo sobre as peripécias de Mario, há um capítulo de radionovela escrito por Camacho. Aqui cabe um parêntese: embora seja um recurso literário muito interessante, esse movimento de troca de capítulos cansa um pouco o leitor, porque a quebra do fio da meada da história é uma constante. Nada que torne o livro menos bom, claro, mas o fato é que isso pode deixar a leitura um pouco enfadonha em alguns pontos.

Os vários personagens que orbitam ao redor de Mario, Tia Julia e Pedro Camacho são sujeitos riquíssimos e muito bem construídos, principalmente Javier – melhor amigo de Mario –, Grande Pablito e Pascual. Aliás, essa é uma das muitas qualidades de Llosa como novelista, saber criar personagens secundários interessantes e memoráveis (o auge desse tipo de criação foi em Travessuras da menina má, sem dúvida, porque até hoje me lembro com ternura do inesquecível Menino Sem Voz).

Llosa-Fuentes-e-GGM

Da esquerda para a direita: Vargas Llosa, Carlos Fuentes e García Márquez

Assim como Travessuras da menina má, Tia Julia e o escrevinhador é um dos romances mais leves de Mario Vargas Llosa: "leve" não no sentido de superficial, mas de mais facilmente identificável com o leitor, mais próximo da nossa realidade emocional cotidiana e, em suma, mais novelesco. O escritor peruano destila toda a sua capacidade de contar uma boa história, narrá-la de uma maneira que parece descompromissada mas que, na verdade, carrega toda uma bagagem social nas páginas; uma literatura compromissada, sim, compromissada a todo momento com seu povo, seus eventos e suas particularidades. Ler Tia Julia e entender seu contexto deixa qualquer um com uma pontinha de orgulho por ser latino-americano, no final das contas.

27 agosto 2012

Filme: A Vila

Excelente para refletir, profundo em sua ambição e – como às vezes acontece na história do cinema – injustiçado.

poster_village a-vila

Depois de quase oito anos tentando convencer meus amigos de que o filme A Vila (The Village, 2004) estava longe de ser o monótono e decepcionante suspense classe B que eles acharam que era, agora chego aqui no Blog para formalizar todas as minhas opiniões sobre o longa-metragem de M. Night Shyamalan – sobre o genial longa-metragem deste talentosíssimo cineasta, que hoje em dia, infelizmente, anda abrindo mão do estilo que o consagrou no início da carreira.

Como a crítica especializada teima em reconhecer, os primeiros filmes de Shyamalan produziram uma espécie de ruptura na tradição norte-americana do gênero de suspense, ao introduzir fortes elementos dramáticos nos enredos que conduziam as ações de seus personagens. O intuito principal de Sinais, por exemplo, além de ser o de provocar sustos e calafrios no público, era o de deixar o espectador refletir um pouco sobre vários conceitos da vida e da religião, de um modo geral, como fé, esperança e amor. Esses ingredientes diferenciados davam aos primeiros filmes do diretor indiano uma boa dose de originalidade e, sobretudo, qualidade, numa época em que os longas do gênero seguiam basicamente as mesmas fórmulas e composições consagradas.

A Vila, quarto filme de Shyamalan, é um dos melhores a que já assisti em todos os tempos, de todos os cineastas que admiro. Duramente criticado pelo público e pela mídia, este pode ser considerado formalmente como o primeiro fracasso do diretor – o que o levou a hesitar e a errar a mão em filmes posteriores, como foi o caso do fraco Dama na água e do ambíguo Fim dos tempos. Apesar de uma parcela enorme dos cinéfilos detestar A Vila, há pessoas que, como eu, lutam pelo reconhecimento da qualidade indiscutível das ideias que orbitam ao redor da trama deste filme.


a-vila-a9a9b

Um dos cartazes do filme que privilegiam o silêncio e o mistério


A primeira coisa que me faz admirar imensamente A Vila é de ordem técnica. Duas coisas, na verdade: a fotografia conduzida por Roger Deakins e a direção geral de Shyamalan (a movimentação da câmera, o cenário, a inserção de novos elementos no momento correto etc.). O resultado dessa combinação intrínseca é o visual fantástico que faz o filme funcionar e arremessa o espectador para a atmosfera desejada. Aliás, todos os filmes do cineasta indiano têm essa qualidade tão patente: o visual dinâmico, o movimento original. A cena em que o personagem Noah crava uma faca na barriga de Lucius é soberba, não pelo seu conteúdo em si – já bastante notável –, mas pela composição original dos quadros.

A segunda coisa que me encanta em A Vila é, naturalmente, o enredo e, principalmente, a ideia geral do filme. A propósito, costumo dizer que metáforas e alegorias são aquilo que A Vila possui escondido na manga, cuja cartada é dada nos momentos finais, quando o espectador finalmente compreende a dimensão das propostas do filme: a coerção de autoridades, o poder político, a perpetração de um estado de medo como controle social, a influência da superstição no comportamento humano, a alienação, a exclusão comunitária, a violência nos grandes centros urbanos, dentre outros temas suscitados muito nitidamente ao longo da obra.


br10q_shyamalan_0712 00010920

M. Night Shyamalan: filmes de suspense que vão além dos sustos


Boa parte das pessoas não gostou do filme porque, segundo o que elas mesmas me relataram (e pelo que pude ler em diversos sites), o final foi decepcionante e os momentos em que os bichos de fato aparecem são poucos e bobos. Admito que elas têm o direito de encontrar nisso um argumento plausível, mas, para mim, é justamente a surpresa do final "decepcionante" que faz de A Vila um grande filme, capaz de desconstruir o gênero no qual se insere e colocar o espectador para pensar por conta própria. Aliás, esta é uma das características fundamentais dos primeiros filmes do diretor: respeitavam a inteligência do público, forçavam uma reflexão, estabeleciam conexões com temas cotidianos que envolvem a todos nós, indo muito além dos simples barulhos-altos-que-provocam-sustos.

De todo modo, resumo esta situação em algo mais simples, que não entra no mérito da inteligência de quem assiste ao filme. Em determinados momentos da nossa vida de cinéfilo, somos levados a querer dos filmes de suspense algo mais que sustos, arrepios e calafrios: uma história bem montada, uma história mais profunda, atuações boas, eventos surpreendentes, como em Hitchcock. Isso acontece também com os filmes de comédia, em especial: de vez em quando cansamos de olhar para as caretas de Eddie Murphy e vamos à procura de uma comédia inteligente que atice nossos neurônios. E A Vila se encaixa justamente nessa categoria, nessa ordem de filmes a que assistimos porque estamos à procura de algo mais. A Vila é diferente, um longa-metragem de suspense ambicioso, que, para as pessoas que se interessam em traçar alegorias e reflexões depois de sair do cinema, é extremamente bem-vindo.

16 abril 2012

A ilha do dr. Moreau, de H. G. Wells

"O estudo da natureza deixa um homem tão despido de remorsos quanto a própria natureza." (p. 98)

9788579621130_300_site hg-wells

Durante os períodos do ano de não-férias, minha atividade como leitor se resume basicamente a sair catando feriados prolongados espalhados pelo semestre, na tentativa de encontrar potenciais tempos disponíveis para a leitura de livros mais prazerosos que alguns daqueles vistos na faculdade. Por isso, sempre que surge no horizonte um recesso como o da Páscoa, por exemplo, escolho um título da minha pilha de livros para ler e o devoro. Desse jeito procuro sair do pretexto de que só é possível mergulhar na literatura nos períodos em que não estamos estudando ou trabalhando.

No feriado da semana passada, vislumbrei uma ótima oportunidade para ler o clássico A ilha do dr. Moreau (The island of Doctor Moreau, 1896), um livro que já estava há algum tempo em minhas mãos. Lançado recentemente pela Alfaguara com a qualidade editorial indiscutível de sempre, o romance, mistura de ficção-científica com história de aventura, foi escrito pelo icônico H. G. Wells no final do século XIX, antes de seu famoso O homem invisível e depois do ousado A máquina do tempo.


Sinopse: À deriva, sem esperanças de sobreviver em alto-mar, Charles Prendick é resgatado por um navio em missão das mais incomuns: levar a uma pequena ilha no Pacífico algumas espécies de animais selvagens. Ainda debilitado, Prendick é obrigado a desembarcar no local junto com o carregamento. Lá, ele conhece a figura do dr. Moreau – um cientista que, exilado por suas pesquisas controversas na Inglaterra, realiza experimentos macabros com seus animais.


2846232397_5b564799f1 sátiro

Uma rápida olhada na sinopse de A ilha do dr. Moreau já sugere que o romance se localiza precisamente na interseção entre as histórias de aventura em lugares exóticos e a dita ficção-científica pura. Naquela época, as histórias que narravam as peripécias dos protagonistas em terras distantes, geralmente povoadas por seres desconhecidos e hostis, encontrou uma ligação com a literatura considerada "racional", guiada por promissores avanços na ciência – o que hoje, talvez, podemos chamar de gênero do techno-thriller. O livro que li nesse feriado se encontra justamente no meio dessas duas vertentes: aventura e ficção-científica.

Além de entreter o leitor com o relato simples e aventuresco do protagonista – que narra toda a sua estadia na selvagem ilha de Moreau –, Wells promove diversas reflexões a respeito dos mais variados assuntos, como a origem das convenções sociais, o lado obscuro e cruel da pesquisa científica, a desumanidade do processo colonizador e a evolução das espécies segundo Darwin, dentre outras coisas. Essa importância bidimensional da obra, por assim dizer, dá um grande valor ao romance, uma vez que pretende sair da mesmice dos assuntos da ficção-científica (que naquela época se voltavam muito para o espaço sideral e o futuro) e entrar também no mundo da aventura, da ação e do suspense, costurando esse tecido todo com a linha fina das reflexões sociais e políticas.


the-island-of-dr-moreau

Cena de uma das várias adaptações para o cinema. Essa é de 1996, com os atores Marlon Brando e Val Kilmer


A história mesma do livro, por si só, já suscita uma grande reflexão no leitor, pelo simples fato de que – pelo menos para a época – ela era extremamente original e provocadora: chegou a ser duramente criticada pelo jornal The Guardian, que acusou o livro de fazer uma sátira ao Criador. Mesmo tendo sido escrito há mais de um século, A ilha do dr. Moreau é um livro atual e embala algumas polêmicas recentes. A idéia de modificar fisiologicamente seres vivos, com o intuito de provar algo ou simplesmente experimentar, encontra suas bases nos avanços contemporâneos da biomedicina e da biotecnologia, ainda que hoje uma experiência do naipe da de Moreau seja eticamente inviável.

O único pecado do livro é não ter aprofundado muito a filosofia por trás da história e os personagens que compõem a trama. O próprio Moreau, por exemplo, seria uma figura muito mais marcante caso fosse melhor explorada, da mesma maneira que o Capitão Nemo, em Vinte mil léguas submarinas, foi. O isolamento de Moreau, em parte voluntário, em parte forçado, sua excentricidade e sua fixação pelas metas das pesquisas científicas dariam excelentes panos de fundo para um desenvolvimento melhor de sua personalidade. O mesmo se pode dizer de Prendick, de cujo passado o leitor conhece apenas alguns detalhes irrisórios. Montgomery, espécie de enfermeiro e braço-direito de Moreau, é talvez o personagem mais complexo da história, com todos os seus dilemas, paixões e decepções destilados rapidamente aqui e ali.


A Ilha do Dr. Moreau Reduced ilhadrmoreau

Duas edições de A ilha do dr. Moreau: a primeira faz parte da coleção "Mestres do Horror e da Fantasia", e a segunda, da "Clássicos Ilustrados", adaptada.


Uma obra contemporânea que lembra bastante o livro de Wells é a não menos clássica Jurassic Park – O parque dos dinossauros, do saudoso norte-americano Michael Crichton – um escritor cuja imaginação prolífica não o deixava abaixo de nenhum ficcionista do final do século XIX. Embora as duas histórias tenham diferenças óbvias que as colocam em lugares distintos, ambas possuem uma miríade de detalhes em comum, sendo que a mais destacada delas é: alguém usa o isolamento natural de uma ilha para criar seres através da tecnologia científica, o que, não obstante, sai terrivelmente errado.

Ainda que seja um título mais voltado para a ação e o entretenimento, os capítulos finais (especialmente os dois últimos) são os responsáveis por elevar a obra a patamares mais densos. De qualquer modo, é um romance de importância literária indiscutível, uma parábola provocativa sobre evolução, humanidade e ciência, além de envolvente relato de suspense. A ilha do dr. Moreau certamente tem seu lugar reservado nos arquivos dos grandes clássicos mundiais.

08 abril 2012

Filme: Xingu (2012)

Ontem pela tarde eu deixei os livros de literatura de lado e fui ao cinema conferir, junto com um amigo, a mais recente e comentada produção nacional, Xingu – dirigida pelo gabaritado Cao Hamburger, considerado pela crítica como um dos melhores diretores do país, apesar de sua por enquanto curta carreira.

Em linhas gerais, posso dizer que o filme resume os principais meandros da saga dos três irmãos Villas-Boas no coração da Floresta Amazônica, em sua inusitada missão de estabelecer contato com os povos indígenas espalhados naquela região. O que começa como uma simples "busca por aventura" (nas palavras do próprio Cláudio Villas-Boas) acaba se transformando em um verdadeiro compromisso humanista, já que os três irmãos passam a se identificar plenamente com as culturas indígenas e a buscar uma solução para a questão problemática que, naqueles tempos de expansionismo industrial, foi levantada: o que fazer com os índios brasileiros? Educá-los e torná-los civilizados, livrar-se deles como se sequer existissem ou preservá-los, com toda a sua bagagem cultural?

Os irmãos apostaram nesta última opção, e o filme, de um modo geral, retrata a luta que eles tomaram para si com o objetivo de garantir os direitos aos povos indígenas presentes no território do nosso país, o que culminou na criação do Parque Nacional do Xingu – cujos 50 anos de existência foram comemorados em 2011.

xingu

De início, não há como se deixar enganar: o tom aventuresco do filme – que o próprio pôster claramente se encarrega de exibir – está presente em toda a obra, desde o início até o fim da narrativa. A idéia de uma expedição a lugares exóticos, o contato com civilizações diferentes e desconhecidas, a paixão pela exploração geográfica, os mapas sendo traçados na tela (a la Indiana Jones) e fantásticas tomadas de paisagens da floresta e dos rios dão a Xingu um elemento essencial que caracteriza o filme: o apelo à aventura. E é justamente esse apelo que fisga o telespectador, que o convida à história, que o faz mergulhar no mesmo universo fascinante que os irmãos mergulharam há meio século.

É precisamente nesse ponto que entra a sensibilidade dos produtores do filme. Porque, mesmo com esse elemento aventuresco tão saltado aos olhos do telespectador, o que verdadeiramente subjaz é a carga dramática, não só da missão humanista encabeçada pelos irmãos, mas do contato mesmo com as tribos indígenas que até então eram desconhecidas pelo homem branco. É quando se explora esse drama que o filme ganha força e consistência. A cena da primeira aproximação dos irmãos com os índios, por exemplo, é relevante não pelo caráter da aventura, mas pelo sentido que isso tem para nós, brasileiros; quando vi tal cena, a primeira coisa em que pensei foi "É tão estranho o fato de haver outras pessoas no nosso território que nós, ditos civilizados, consideramos inferiores, por uma mera questão de grau, não de essência".


caio-blat-filme-xingu-indios-20100811-39-size-598

Cláudio Villas-Boas dividindo, junto com os índios, os territórios a serem ocupados pelas diferentes tribos no Parque Nacional


Sem soltar nenhum tipo de spoiler, eu gostaria de deixar aqui a minha impressão sobre a última cena do filme. Que cena! Na minha opinião, ela captura todo o cerne do choque entre as civilizações, todo o desentendimento humano que surge desse conflito, numa única tomada sem palavras ou diálogos… Apenas com um olhar que traduz toda a comunicação deficiente entre o homem branco e o indígena. Realmente é uma cena muito bem feita. Quem já assistiu sabe do que estou falando.

Em suma, me alegra muito saber que o cinema nacional possui uma vertente que se preocupa não só com as boas idéias, mas também com a qualidade da produção dos filmes. Xingu é um exemplo dessa vertente. Com uma trilha sonora impecável, roteiro consistente, história relevante, fotografia excelente e atuações marcantes – com destaque para Maiarim Kaiabi, um indígena que dá shows de interpretação –, o filme dirigido por Hamburger dá esperança mesmo aos que mais desacreditavam do cinema nacional, como eu.

É isso, Brasil. Mostre os bons filmes que você sabe fazer.


A seguir, o trailer do filme.

Todos os direitos reservados

03 outubro 2011

Eu sou a Lenda, de Richard Matheson

"Do lado de fora, os vampiros esperavam." (p. 110)

eu_sou_a_lenda Richard_Matheson

Anda acontecendo muita coisa na minha vida, tenho de admitir. Provas e trabalhos pesados na universidade, amigos de visita aqui em casa, aniversários para comparecer (dentre eles, o meu), estágios, saídas noturnas e muitas outras atividades andam tomando o meu tempo. Como conseqüência infeliz disso, o Blog ficou estagnado por duas semanas – o máximo de tempo permitido pela minha consciência.

Agora, a fim de atualizá-lo, escolhi a esmo um livro da minha estante para o qual pudesse escrever uma resenha. Então meus olhos caíram por acaso no romance Eu sou a Lenda (I am Legend, 1954), escrito pelo prolífico norte-americano Richard Matheson, conhecido autor do gênero terror e ficção científica fantasiosa.

A primeira vez que entrei em contato com essa história foi a alguns anos atrás, quando assisti com um amigo o filme homônimo estrelado por Will Smith e pela nossa adorável Alice Braga. Além de mim, muitas outras pessoas também passaram a conhecer Eu sou a Lenda assim. Aproveitando a viagem do bonde, a editora Novo Século lançou o romance de Matheson, que eu não tardei em comprar, já que havia adorado o que tinha visto no cinema.

O livro é excelente, sem dúvida.


Sinopse: Robert Neville é o último homem vivo sobre a Terra... mas ele não está sozinho. Cada outro homem, mulher e criança no planeta se tornou um vampiro, e todos estão famintos pelo sangue de Neville. De dia, ele é o caçador, caçando os não mortos adormecidos através das ruínas abandonadas da civilização. À noite, se entrincheira em sua casa e reza pela madrugada. Quanto tempo pode um homem sobreviver num mundo de assombração como esse?


Eu sou a Lenda foi o terceiro romance escrito por Richard Matheson, que, até o momento, já produziu quase trinta títulos. Neste livro, é possível identificar com facilidade os principais traços que o caracterizaram em sua carreira de romancista e contista: tendência ao suspense, ao terror, ao fantasioso e ao surpreendente. Ingredientes esses que são destilados em uma linguagem ágil, objetiva e ao mesmo tempo cheia de metáforas, seca, que se desdobra em frases às vezes longas mas incrivelmente categóricas.

O romance se divide em vinte e um capítulos de tamanho médio, que contam uma história bem diferente daquela vista no filme de Smith. Se o cinema adaptou a obra de modo que ela ficasse mais voltada para a ação, o livro em si é muito mais voltado para o intimismo, para a subjetividade de Robert Neville (o protagonista) e para o mistério que o ronda. Ao ler a história, vale perceber que Matheson constrói uma trama muito inteligente baseada nos mitos dos vampiros, sem se deixar levar por fantasias próprias que alterem essa mitologia já tão arraigada em nosso imaginário popular.

Li Eu sou a Lenda há muito tempo, mas lembro que um dos motivos que me levaram a gostar da história foi o de ela ser extremamente original. Eu ainda não tinha visto em outro lugar o fato de um personagem permanecer isolado das demais pessoas por quase metade da obra – e quando ele entra em contato com elas, nada promissor parece provável. Foi a primeira vez que me ocorreu a idéia de imaginar alguém sozinho e solitário em uma cidade destruída e abandonada, e essa idéia até hoje mexe com a minha imaginação.


eu-sou-a-lenda2

Cena do filme homônimo estrelado por Will Smith


De um modo geral, lembro de ter adorado a leitura desse livro. Serviu como uma espécie de oásis em meio aos árduos estudos do 3º ano do Ensino Médio, época em que o li. Fiquei com uma impressão muito agradável dele: é um romance interessantíssimo, que vale a pena ser lido por qualquer amante de histórias de vampiros. Na verdade, vale a pena ser lido por qualquer amante de boas histórias. Acredito que o valor literário de Eu sou a Lenda seja constatado assim que começamos a ler o livro.

A edição que comprei vem com uma coleção de contos de Richard Matheson, que podem ser lidos após a leitura do romance em si. Até hoje, acho engraçado o fato de eu ter caído numa espécie de pegadinha por causa disso. A editora não menciona essa coleção de contos em nenhum espaço da capa ou da contracapa, de modo que nem me passava pela cabeça que aquele volume que eu tinha nas mãos trazia uma série de contos do autor. Na capa há apenas "Eu sou a Lenda" como título, e nada parecido com "e outras histórias", de modo que o leitor é levado a crer que aquelas 300 páginas são todas da história principal.

Por fim, fica a dica para você que anda procurando um bom livro para ler: "Eu sou a Lenda", de Richard Matheson. Entretenimento garantido, sem dúvida. Matheson é um mestre em suspense, mistério e tensão. Não espere nada parecido com os filmes que foram feitos inspirados na história; três, ao total, se não me engano. Leia o livro como algo independente e conheça a história original que deu origem a eles.


Eu sou a Lenda (1954)

Richard Matheson

Editora Novo Século

Nota: 10/10

19 setembro 2011

O Senhor das Moscas, de William Golding

"A verdade é que o medo não pode machucar vocês mais do que um sonho." (p. 92)
333 igoldig001p1
Durante a madrugada deste dia, finalizei a leitura do livro O Senhor das Moscas (The Lord of the Flies, 1953), escrito pelo britânico William Golding, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1983, dado pelo conjunto de sua obra. Numa incrível coincidência, acabo de descobrir que Golding completaria 100 anos de idade hoje, caso não tivesse morrido de insuficiência cardíaca há quase duas décadas.

Ele deixou para trás uma obra famosíssima: O Senhor das Moscas. Às vezes, o glamour de um clássico se dá mais pelo mito que se criou em volta dele do que pela qualidade da obra em si. É o que eu percebo em alguns livros que são tidos como "imortais" e "um dos melhores de todos os tempos": pouca qualidade artística e muito confete jogado em cima deles, tanto pela crítica quanto pelo público.

O Senhor das Moscas se situa numa espécie de meio-termo entre os clássicos que são bons pela qualidade que possuem e os clássicos que são lembrados apenas por sua excentricidade. No balanço geral, entretanto, considero a obra-prima de Golding de fato um ótimo romance, que deve ser lido por todos aqueles que se interessam por análises sociais fornecidas pela literatura.


Sinopse: Um avião lotado de crianças e adolescentes cai numa ilha deserta. Os jovens sobrevivem e, aos poucos, vão se reunindo num grande grupo. Em assembléia, os meninos designam um líder. Longe dos códigos que regulam a sociedade dos adultos, esses jovens terão de inventar uma nova civilização, alicerçada exclusivamente nos recursos naturais da ilha e em suas próprias fantasias.

osenhordasmoscas 
Edição de 1983 da Nova Fronteira e edição no original inglês


Quando o livro foi lançado pela primeira vez, na metade do século passado, não tardou muito para que a crítica o rotulasse como uma parábola moderna sobre as relações primitivas entre seres humanos, ou como uma fábula política que retratava as várias facetas (ou máscaras) que o Homem pode assumir quando em contato com seus semelhantes.

De fato, vários elementos da história fazem referência a elementos da nossa sociedade: é o caso da fogueira dos meninos, que simboliza a civilização e o bom-senso; da concha, que faz referência à ordem e à democracia; do Bicho, que, nos dias atuais, bem que poderia ser relacionado ao medo que as pessoas têm do terrorismo invisível que está em todas as partes. Diversos detalhes que Golding pôs em sua trama seguem o exemplo de leis específicas que regem o comportamento humano em grupo, e, nesse caso, O Senhor das Moscas é um estudo perfeito para os interessados no tema.

É interessante acompanhar os personagens com cuidado, já que todos eles têm uma personalidade bem própria de cada um, e essa personalidade varia de acordo com os contatos que são feitos entre os garotos. O líder Ralph, por exemplo, vai amadurecendo ao longo dos capítulos, e sua postura é alterada dependendo do grupo ao qual ele se dirige – se se dirige aos "pequenos", Ralph fala tal qual um político querido ao seu povo; se está com Jack, suas palavras tornam-se mais cautelosas e breves.


untitled
Cena da primeira adaptação cinematográfica do livro (1963)

Os diálogos entre os personagens são pra lá de excelentes, responsáveis pela maior parte da qualidade do livro. Eu sempre achava interessantíssimo quando Ralph convocava uma reunião de emergência entre os meninos, adotando uma postura séria e às vezes demagoga que pode ser percebida hoje em dia em muitos líderes de Estado. Nessas horas, Porquinho (personagem mais notável do livro) servia como uma espécie de conselheiro e braço direito de Ralph. Não dá para deixar de fazer um paralelo com o nosso distorcido sistema democrático.

Por mais que o leitor não simpatize com nenhum personagem logo no início do livro, uma hora ou outra ele vai tomar o partido de alguém. É extremamente difícil ficar neutro durante os debates entre os garotos; sempre aparece aquele do qual você discorda e com o qual você concorda. A frase que abre esta resenha, de longe a melhor frase do romance, foi tirada do diálogo de um desses debates entre os personagens.

A parte mais interessante da história acontece quando o grupo de selvagens é criado, em resposta ao grupo civilizado e organizado. Não vou falar muito sobre isso para não estragar a surpresa de quem vai ler o livro. Mas, sem dúvida, posso garantir que é a parte que ilumina a obra e, de quebra, cria toda a ação dos três últimos capítulos.

3d36f_2
Cena do remake do primeiro filme baseado no livro (1990)

O único fato relativamente negativo de O Senhor das Moscas é que ele é um romance descritivo demais. Várias páginas no decorrer do livro procuram pintar um quadro exato da natureza claustrofóbica da ilha, e isso toma o lugar das descrições psicológicas dos personagens, muitas vezes. Não que seja algo totalmente ruim; definir o cenário da trama é, aliás, imprescindível. Mas fiquei com a sensação de que ele poderia ter feito a mesma coisa com os personagens. Não raro eu sentia falta de um aprofundamento psicológico, de um parágrafo intimista, de um diálogo mais extenso.

E é aí que entra a minha colocação de que o livro é, em parte, dotado de uma certa aura mística que ajuda a consumar sua fama. Há uma espécie de lacuna na obra que é preenchida pela boa vontade e entusiasmo antecipado do leitor, sem dúvida. Não quero, com isso, dizer que o romance é ruim. Não mesmo! Adorei tê-lo lido. Apenas prefiro classificá-lo como uma aventura dotada de muitos elementos sociológicos, e não como um estudo social digno de figurar nos compêndios do tema.

Mesmo assim, a qualidade literária da obra não é prejudicada nem um pouco. O romance continua sendo uma referência no campo ficcional dos livros de naufrágios, com mérito. De acordo com o prefaciador Santiago Nazarian, quando William Golding escreveu O Senhor das Moscas, livros que retratavam pessoas perdidas em ilhas não eram nenhuma novidade. No entanto, o que fez com que a obra do inglês se destacasse das demais foi a maneira com que ele abordou o tema – até então, inédita – na qual podemos vislumbrar um estudo tímido sobre a invenção da selvageria.


O Senhor das Moscas (1953)

William Golding

220 páginas

Editora Nova Fronteira

Nota: 8,5 / 10