"O filme aparecia numa pequena tela que parecia um aparelho de TV. Passavam os créditos. Depois, vinha meu nome. Eu fazia parte de Hollywood, pelo menos por um pequeno instante. Era culpado."
Vivendo tempos atarefados que sugam toda a minha disposição para escrever o que quer que seja, descobri que a leitura de um bom Charles Bukowski é suficiente para me devolver alguma motivação para continuar alimentando este blog. O velho maldito alcoólatra ainda consegue me maravilhar com as suas palavras sinceras e diretas, e é somente um escritor do seu calibre que me faz sentar – depois de tanto tempo parado – diante de um editor de textos em um domingo à noite para esboçar uma resenha breve sobre um livro.
"O roteiro ia bem. Escrever nunca foi trabalho para mim. Sempre fora assim, desde quando me lembrava: ligar o rádio numa estação de música clássica, acender um cigarro ou charuto, abrir a garrafa. A máquina fazia o resto. Eu só precisava estar ali. Todo o processo me permitia seguir em frente quando a vida oferecia tão pouco, quando a própria vida era um espetáculo de horror. Sempre havia a máquina para me acalmar, conversar comigo, me entreter, salvar meu rabo. Basicamente, era por isso que eu escrevia: para salvar meu rabo, salvar meu rabo do asilo de doidos, das ruas, de mim mesmo."
Entre as relações conturbadas – e algumas até amistosas – com produtores, diretores, atores e atrizes caprichosos e geniosos, o Chinaski que salta das páginas é um velho simpático, reservado, bondoso e finalmente sossegado. Ele vive sua vida pacata entre a máquina de escrever, as garrafas de vinho, o hipódromo, sua esposa e os gatos de estimação, aparentando – como sempre aparentou – não querer mais nada além do que já tem. Ele está visivelmente equilibrado financeiramente e sua carreira como escritor maldito parece consolidada. Quando o diretor underground Jon Pinchot surge já na primeira página lhe pedindo para começar a escrever um roteiro para o cinema, Chinaski reage com desinteresse e até com certo desdém diante da proposta, mas a aceita, relutante, meio que curioso para ver aonde essa empreitada pode levar – os 20 mil dólares prometidos, claro, ajudam a convencê-lo.
"Voltei ao hipódromo. Às vezes me perguntava o que fazia ali. E às vezes sabia. Entre outras coisas, aquilo me permitia ver grande número de pessoas sob a pior luz, e isso me mantinha em contato com a realidade do que era feita a humanidade. A ambição, o medo, a raiva, tudo estava ali."
Leio Bukowski há mais de uma década. Nesses quase dez anos, acompanhei um Chinaski à deriva, perdido entre mulheres, empregos, idas ao hipódromo e fugas viscerais da realidade auxiliadas por uma máquina de escrever. Hoje, em Hollywood, encontrei um Chinaski diferente: um cara que vive sem sobressaltos, apoiado em alguma sabedoria extraída das experiências que teve ao longo da vida – ainda uma figura excêntrica, mas mais assentada, mais adaptada ao sistema. O que dá humanidade aos escritos de Bukowski/Chinaski é precisamente a sua capacidade de humanizar o trágico lado imundo da vida – de dar sentido à sarjeta, voz aos desajustados, graça à marginalidade. Em diversas passagens de Hollywood, Chinaski fala que odeia as pessoas, mas, bem feitas as contas, a força de sua literatura reside exatamente na paixão com que ele observa todos que circulam ao seu redor e na espontaneidade com que relata seus encontros com a humanidade.




