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07 janeiro 2012

Lá onde os tigres se sentem em casa, de Jean-Marie Blas de Roblès

"Seria preciso estar irremediavelmente privada da liberdade para descobrir o valor do simples fato de viver?" (p. 265)

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Sempre alimentei uma espécie de admiração pelos escritores viajantes, o que pode ser facilmente explicado pela minha própria vontade de viajar através de países distantes e exóticos e de escrever, no regresso dessas excursões, meus próprios livros. Para mim, não há dúvida de que essa é uma bela maneira de passar o tempo na Terra.

Conheci há pouco tempo Jean-Marie Blas de Roblès, um arqueólogo submarino que nasceu na Argélia, morou no Tibete, Indonésia, Peru, China, Iêmen, Líbia e, dentre outros lugares, Brasil. Durante o tempo em que esteve aqui, Roblès lecionou na Universidade de Fortaleza – aquela em que estudo, aliás – e tirou da capital do Ceará boa parte da experiência que usaria para escrever o romance Lá onde os tigres se sentem em casa (Là où les tigres sont chez eux, 2008), que li essa semana.

Um livro curioso, sem dúvida, principalmente porque se trata de um romance estrangeiro cuja trama se desenrola em nosso país, do início ao fim.


Sinopse: O livro conta a história de Eléazard von Wogau, jornalista correspondente de uma agência francesa, que mora já há alguns anos em Alcântara, no Maranhão. Como tem pouco trabalho, se dedica à leitura da biografia de Athanasius Kircher, jesuíta alemão do século XVII. A história desse padre barroco, um pouco científico, um pouco charlatão, apaixonado pelo orientalismo e pela matemática, se mistura a de outros personagens: Elaine, a ex-mulher de Eléazard, bela arqueóloga que partiu em expedição pela floresta amazônica; Loredana, sedutora jornalista italiana; Nelson, garoto pobre da favela sedento por vingança; Moreira, o governador corrupto; ou ainda Moema, a jovem idealista filha de Eléazard e Elaine.


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Lá onde os tigres se sentem em casa ("Tigres", para resumir o título) é um romance simultaneísta – ou seja, diversas narrativas se cruzam no decorrer da história, o que lhe confere um caráter eclético de enredos acontecendo ao mesmo tempo, às vezes até se mesclando. O grande atrativo deste estilo de narração está em não atribuir a nenhum personagem específico o papel de protagonista: todas as histórias paralelas são igualmente importantes, igualmente atraentes e merecem a mesma atenção do leitor. Pessoalmente, tenho uma ótima experiência com romances simultaneístas. Sempre os achei muito interessantes.

O livro é dividido em 32 longos capítulos (sem contar com prólogo e epílogo) que não são cansativos, porque há muitos intervalos dentro deles. Eu até diria que, de um modo geral, as 700 páginas do volume não cansam o leitor, embora isso seja uma opinião bem mais pessoal. A verdade é que a linguagem de Roblès oscila entre a objetividade e o floreio, o que significa que há passagens bem fluidas e outras mais densas, mais subjetivamente sofisticadas. Isso dá ao livro o caráter erudito normal que a própria obra propõe desde o começo: a meta não é apenas contar uma história, mas contá-la com intelectualismo e com palavras escolhidas a dedo (recorri ao dicionário várias vezes). É claro que esse caráter pedante não pode ser considerado um defeito. A psicologia dos personagens fica bem melhor explorada, e alguns diálogos são bem profundos. É uma boa experiência geral.

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Uma coisa bem interessante em Tigres é a alternância entre o Brasil da década de 1980 e a Europa do século XVII. Extremamente pitoresca, essa temporalidade cruzada é ela própria um marco do enredo, uma jogada estilística que eu achei maravilhoso perceber. Uma hora estamos na Favela do Pirambu, em Fortaleza, acompanhando as penúrias de Nelson, e logo depois passamos à Roma regida pelo Vaticano, em que Kircher prepara mais uma discussão filosófica sobre aquela ciência medieval da qual todos faziam parte. Essa transição de tempo, lugar e temática deixa o romance bem mais dinâmico.

Não é sempre que nós temos a oportunidade de ler um romance estrangeiro passado essencialmente no Brasil, com tantos detalhes geográficos e culturais do nosso conhecimento. Roblès oferece isso aos brasileiros com Tigres. É diferente, por exemplo, ler uma ação desenvolvida na Avenida Tibúrcio Cavalcante, apenas a alguns metros da porta da minha casa e por onde passo todos os dias. A sensação é distinta, o leitor brasileiro se sente mais próximo da história e do lugar na qual ela se desenvolve. Sem dúvida.

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Ok, e quanto à história em si? Eu diria que ela é instigante. Essa talvez seja a palavra mais adequada para qualificar o romance de Roblès. Eu, pelo menos, fiquei extremamente curioso para saber qual seria o destino dos personagens, o que eles fariam em seguida e o que mudaria o curso de seus caminhos. Em alguns momentos as histórias paralelas se encontram, mas, durante a maior parte do livro, cada uma segue mesmo suas veredas próprias. Eu diria até que o denominador comum dos personagens é o sentimento de inconformidade com a vida, como se cada um sentisse que é preciso dar mais de si para não cair em uma monotonia incontornável. Há também uma certa busca pela identidade encontrada nesses personagens, o que muito me agradou. Em suma, a história é muito boa. O fio que une todas elas também é convincente.

Um dos grandes méritos do livro consiste em não cair nos lugares-comuns que a literatura estrangeira reserva ao território brasileiro. Longe de regionalismos e de chavões, Roblès se mostra atento às variações culturais do país, servindo-se dele não apenas como um mero pano de fundo, mas como um Brasil repleto de exotismo e encantos – às vezes desconhecidos por nós mesmos. Além disso, o autor mostra seu vasto domínio sobre a geografia local, descrevendo cenários que vão desde a floresta fechada do interior do Mato Grosso até as praias isoladas de Canoa Quebrada, no Nordeste. Esse cuidado com a verossimilhança topográfica inspira respeito à obra e um certo alívio por parte do leitor, ao ver algo não leviano retratado naquelas páginas.

Uma história interessante, repleta de encantos e belezas; um ensaio sobre alguns aspectos da condição humana, principalmente sobre a realidade das pessoas que não se encontram nos seus lugares de origem, na sua zona de conforto.


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Edições do original francês

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Disponibilizo aqui uma entrevista com o autor para o blog O Globo, na qual ele fala sobre o processo de criação do livro.


Lá onde os tigres se sentem em casa (2008)

Jean-Marie Blas de Roblès

710 páginas

Editora Record

Nota: 10/10

7 comentários:

  1. Adorei sua resenha, esse é um livro importante e pouca gente se aventura, talvez por causa do nº de pág. Mas é muito gostoso de ser lido.
    Gostei dos seus comentários e postei no facebook, tudo bem?
    Obrigada!!!
    Conheci seu blog no blog do Marco Severo, que conheci no blog da cia letras. Aguardo novas resenhas!
    Adriana

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  2. Olá, Adriana!

    Antes de tudo, muito obrigado pela visita!

    Acredito que Lá onde os tigres se sentem em casa deveria ser um livro mais conhecido pelos brasileiros, realmente. É um livro estrangeiro que se passa no Brasil, e isso é um fato bem importante a destacar. Pena que eu não vejo uma propaganda sequer dele na mídia (televisão, revistas ou jornais). Fico bem feliz em saber que você também gostou do livro, que é ótimo!

    Grande abraço!

    p.s.: Sinta-se à vontade para postar meus comentários no Facebook! Longe de me incomodar, agradeço pela divulgação!

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  3. Olá, Marlo. Gostei muito de ler esta postagem. Este é um livro muito importante e significativo pra mim. Aparentemente poucas pessoas o leram, o que torna difícil compartilhar a experiência da leitura. Eu tenho uma curiosidade a respeito da capa deste livro. Você por acaso consegue relacioná-la, de algum modo, com o conteúdo do livro? Abraço e parabéns pelo bonito blog.

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  4. obs. me refiro à capa da tradução brasileira.

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  5. Olá, Raquel! Obrigado pelo comentário. Lembro de ter gostado muito da leitura deste livro, e até hoje olho para ele na minha estante com carinho. Realmente é difícil encontrar pessoas para compartilhar este tipo de leitura, às vezes pouco difundida para o público geral. Quanto à capa, bem, vejo alguns ramos de plantas, algumas folhas, algo que remete à ideia de floresta, de Brasil selvagem. E o colorido vistoso me faz pensar na diversidade cultural que existe dentro do nosso país e que é de certa forma retratada no livro.

    Abraço, muito obrigado pelos elogios!

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Obrigada pela resposta atenciosa, Marlo. A capa deste livro também me remete a qualquer coisa de selvagem, mas, sobretudo, me passa a impressão de que há algo de confuso e de paradoxal no Brasil que o torna extremamente atraente - e o olhar estrangeiro do autor parece ter captado isso muito bem. Esse é um livro pelo qual tenho muita admiração e cuja leitura me imergiu completamente. Muito bom poder ler a opinião de outra pessoa sobre ele. Abraços e muito obrigada pela resposta.

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