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13 abril 2014

Nos bastidores do Pink Floyd, de Mark Blake

"(…) o rock estava desesperado para ser levado a sério como forma de arte." (p. 200)

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Era uma manhã de sábado quando minha ex-namorada me telefonou e disse que tinha uma notícia capaz de me deixar muito feliz. Sem conseguir deduzir que notícia era essa, pedi que ela rompesse com o suspense e me contasse logo. "Finalmente lançaram uma biografia do Pink Floyd", ela revelou. "Acabei de ver na televisão. Um jornalista conceituado norte-americano publicou um livro em que conta a história da banda desde os primórdios até pouco depois do Division Bell." E ela encerrou a ligação dizendo: "Bom, achei que você gostaria de saber."

Mas é claro que eu gostei de saber. Como grande admirador da banda britânica de Cambridge desde criança (lembro de ouvir meu pai colocando os clássicos Time e Wish You Were Here para tocar em casa, durante bons domingos modorrentos), a notícia de que alguém finalmente havia se dado ao trabalho de contar a história do Pink Floyd me encheu de animação. Há anos reunindo discografia, bootlegs, DVDs e pequenos documentários na internet, eu senti que com o advento daquele livro uma grande parte da minha sede de informações sobre os bastidores da banda seria saciada; havia algo naquela biografia que poderia ser chamado de definitivo.

Sendo assim, eu deveria colocar minhas mãos nela o quanto antes. No Brasil não havia até então um livro completo sobre a história do Pink Floyd, e por isso a perspectiva de entrar em contato com um trabalho profundo como esse era agradável.

Para escrever Nos bastidores do Pink Floyd (Pigs might fly: the inside history of Pink Floyd, 2007) Mark Blake fez um trabalho digno de um bom jornalista documental e realizou entrevistas extensas com os integrantes da banda, com produtores, colegas de trabalho, amigos, namoradas, críticos musicais e até mesmo outros músicos ligados aos rapazes de Cambridge. O resultado é um livro de 450 páginas que esmiúça detalhes da trajetória do Pink Floyd desde as formações iniciais na década de 1960 até os álbuns pós-Waters, passando pelas conturbadas turnês e pelas famosas brigas judiciais. Blake encerra a obra momentos depois da morte de Syd Barrett, em 2006, descrevendo um evento em que o ex-fundador do conjunto é homenageado por amigos e pelos ex-colegas de banda.


Sinopse: Criada em Cambridge, na Inglaterra, Pink Floyd é considerada uma das bandas de rock progressivo mais influentes do mundo. Famosa por suas letras contestadoras e shows bem elaborados, a banda que vendeu mais de 230 milhões de álbuns em todo o mundo também ficou muito conhecida pela desordem e pelo desentendimento dos integrantes, que algumas vezes chegaram a sobrepujar as conquistas. Interessada em desvendar os mistérios que cercam a polêmica história da banda, a Editora Évora, pelo selo Generale, traz ao Brasil Nos Bastidores do Pink Floyd, a mais completa e detalhada biografia deste ícone do rock moderno.


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O início do livro é um verdadeiro convite à atmosfera psicodélica e criativa dos anos 1960, quando teve início a história daquela banda que viria a ser conhecida no mundo todo. "Leitura prazerosa e informativa" é uma boa expressão para qualificar esta biografia. Fãs de Pink Floyd irão encontrar na obra de Blake muitas informações que, de alguma maneira, já são lugares-comuns na história do conjunto, mas que aqui adquirem um tom formal e vêm acompanhadas de detalhes muito interessantes e até então inéditos. Por exemplo, a substituição de Barrett por Gilmour nos palcos – e, depois, na formação oficial da banda – é rica em testemunhos e relatos pessoais, o que nos dá uma compreensão mais ampla da história. Cada membro dá a sua visão sobre os acontecimentos que afetaram a trajetória da banda, e o autor costura esses depoimentos com grande habilidade, construindo uma cronologia perfeita.

Para clarear um pouco os momentos turbulentos do Pink Floyd, Blake chega a citar episódios controversos como, por exemplo, a ira de Roger Waters ao cuspir no rosto de um homem sentado na primeira fileira da plateia, durante a turnê de Animals em 1977, fato que o impulsionou a criar a obra-prima The Wall – amargurado, o álbum é praticamente uma retrospectiva de sua vida. Como não poderia deixar de ser, temos também detalhes acerca da elaboração de The Dark Side of the Moon, divisor de águas na carreira do grupo, e tudo o que levou a banda a começar a se desentender a partir da década de 1970. São constantes as referências às outras bandas da época – como Yes e Beatles – e às revistas que opinavam sobre a performance do Floyd nos estúdios e nos palcos.

Juntando tudo isso, chegamos a uma conclusão óbvia: muito mais do que um amontoado de curiosidades sobre o Pink Floyd, o livro de Blake é um documento extremamente detalhado e lúcido sobre a biografia da banda como um todo – além de conter longos trechos que também lançam luz sobre os passos de cada membro fora da banda, seja nas suas carreiras solo, seja na sua vida pessoal. Destaque para a cobertura que o autor nos fornece acerca de Syd Barrett – após ser demitido do grupo no final da década de 1960, ele esboçou uma carreira solo e viveu uma vida reclusa e enigmática.

Para os fãs que leem o livro, é muito agradável e empolgante acompanhar a ascensão do Pink Floyd, que começou tocando em clubes noturnos locais regados a ácido lisérgico e, depois, em sua fase madura, lotava estádios e produzia shows pirotécnicos dignos de deixar qualquer cético abalado – gerando, claro, milhões de dólares no processo. Talvez mais empolgante ainda é acompanhar, passo a passo, a produção e a elaboração de todos os CDs de estúdio da banda, incluindo aí o mítico encontro do Floyd com os Beatles durante a gravação de The Piper at the Gates of Dawn, no lendário Abbey Road.

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A biografia tem o grande mérito de não se perder em detalhes técnicos enfadonhos sobre o mundo corporativo da música e, assim, consegue alcançar uma escrita leve, embora densa pela quantidade de informações que traz consigo. De fato, o livro parece priorizar mais as questões humanas da vida pessoal de cada membro e da experiência deles enquanto quarteto de rock. Tanto é que grande parte da primeira metade da obra conta com os testemunhos de Libby Gausden, namorada de Barrett na época em que o Pink Floyd era ainda uma ideia difusa. Valendo-se de uma visão em retrospecto quase nostálgica, Libby revela um pouco da atmosfera dos anos 1960 e conta casos específicos envolvendo o ex-namorado, além de detalhes da personalidade de Syd.

É fácil perceber como o grupo começou a criar tensão depois do sucesso de The Dark Side of the Moon. Como diria Nick Mason, a popularidade do álbum clássico da banda fez todo aquele dinheiro e toda aquela fama surgirem de repente – e os rapazes de Cambridge não sabiam muito bem como lidar com isso, o que acabou levando todos a disputarem mais acirradamente seu espaço na banda. De modo que, além de descrever a produção dos álbuns de estúdio do Floyd nos anos 1980, a segunda metade da biografia aborda detalhes do que seria a principal preocupação do grupo naquela época: questões judiciais envolvendo os direitos de cada membro, sobretudo de David Gilmour e Roger Waters. O clima de fim de festa nessa altura do livro não passa despercebido: é como se, realmente, o Pink Floyd devesse admitir que o melhor que tinham a oferecer já havia ficado para trás há muito tempo.

A escrita do autor chega a ser quase neutra ao relatar polêmicas e acontecimentos turbulentos, o que dá ao livro um caráter bem-vindo de seriedade. Rico em informações de todo tipo, fiel ao seu objetivo de detalhar o surgimento e a trajetória da banda, Nos bastidores do Pink Floyd é leitura obrigatória para os fãs de carteirinha do conjunto.

22 março 2014

O Torreão, de Jennifer Egan

"A gente estava aqui achando que não tinha nada em comum além do lugar em que a gente veio parar e, durante todo o tempo, estávamos fazendo a mesma coisa: captando sinais de fantasmas." (p. 102)

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Os olhos do mundo inteiro estão voltados para a escritora norte-americana Jennifer Egan desde que ela lançou um romance chamado A visita cruel do tempo, já resenhado aqui no blog, e ganhou o Pulitzer de Ficção 2011 por causa dele. Muito cedo o público e a crítica reconheceram Egan como uma autora tipicamente pós-moderna, capaz de subverter gêneros, moldar as técnicas narrativas a seu bel-prazer e, mesmo assim, apresentar ao leitor uma história que vale a pena ser lida.

Isso é raro hoje em dia – colocar a técnica a serviço de uma boa história. A visita cruel do tempo, por exemplo, é um livro que assusta os leitores desavisados pela aparente ruptura com qualquer estilo de narração convencional: nesse romance, a autora escreve capítulos em primeira, terceira e segunda pessoa, insere uma extensa apresentação de Power Point no meio da trama e segue uma cronologia totalmente embaralhada. De fato, esses são ingredientes que poderiam resultar em um grande fiasco experimentalista, mas Egan é talentosa demais para se deslumbrar com o que ela mesma escreve: em vez disso, lúcida, revela que para além de toda aquela aparente subversão do texto existe uma história emocionante que toca a todos nós. A técnica ousada não está ali para desconstruir a história, mas, pelo contrário, para ajudar a contá-la.

O Torreão (The Keep, 2006) segue o mesmo estilo. Nele, Jennifer Egan utiliza seu malabarismo de técnicas para manter um certo suspense e construir com cuidado as bases da sua proposta. A primeira palavra que me vem à cabeça para classificar este livro é "inventivo", porque, aos poucos, na medida em que vamos virando as páginas, os elementos inseridos pela autora na trama vão tomando proporções enormes e mostrando o quanto a história é mesmo surpreendente.


Sinopse: Nos confins da Europa Oriental, um misterioso castelo resistiu a centenas de anos, apoiado no orgulho e na tradição de uma família. Até que Danny, um cínico nova-iorquino de trinta e seis anos que raramente vai a algum lugar que não tenha conexão wi-fi, chega para ajudar seu enigmático primo a reformar o castelo e transformá-lo em um hotel de luxo. Mas as coisas começam a ficar estranhas. Uma baronesa sinistra, um trágico acidente em uma piscina mal-assombrada, um traiçoeiro labirinto subterrâneo... Quando o pânico toma conta de Danny, ele descobre que a "realidade" pode ser algo em que ele não consegue mais acreditar.


Com O Torreão aconteceu exatamente a mesma coisa que ocorreu com A visita cruel do tempo: virei a última página do livro e tive vontade começar a leitura de novo, desde o início. Ambos são livros que nos deixam com esse desejo de uma releitura imediata. É difícil explicar por que isso acontece, mas tenho um palpite: O Torreão é um desses romances que podem ser visualizados como um quebra-cabeça. Eis que, quando chegamos ao último capítulo – ou seja, quando montamos a peça inteira – tudo parece fazer um sentido tal que nos deslumbra a ponto de querermos desmontar tudo e voltar à estaca zero, agora munidos de uma compreensão mais completa da figura a ser formada. E essa releitura nos fornece um tipo de deleite, pois estamos agora certos do que vamos encontrar pelo caminho, e então podemos nos ater aos detalhes que deixamos escapar antes.

O livro é, do início ao fim, um exercício de metalinguagem que nos coloca ora ao lado do narrador, ora ao lado do personagem principal, ora ao lado de um terceiro elemento. E no final das contas ficamos nos perguntando quem é de verdade o "personagem principal" de O Torreão, se é que ele existe mesmo. Seria Danny, com a sua personalidade egocêntrica e quase infantil? Howard, o transformado primo do passado? Ray, que parece fazer as vezes de um deus ex machina? A propósito, aqui Jennifer Egan pratica este que é um dos seus maiores apetites: a polifonia. Cada personagem central do romance parece ter a sua vez de contar a história, e a impressão que dá é a de que o texto está sendo sempre manipulado por alguém. Nisso reside uma grande parte da inteligência da obra: fazer o leitor acompanhar não apenas o que está se passando com os personagens, mas, também, quem está contando essa história.

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É curioso notar como o tempo é um elemento sempre presente nos livros de Jennifer Egan. Se na obra-prima da autora essa preocupação com o tempo é explícita, em O Torreão ela é mais sutil, deixando-se perceber apenas nas entrelinhas. Danny, um dos personagens principais, é um viciado em internet que está sempre a perceber o tempo da sua vida escorrendo por entre seus dedos, e não raro ele se questiona sobre o que conseguiu fazer de relevante até agora. Howard, outro personagem central, só tem seu peso na trama por causa da passagem do tempo – da mudança que se operou nele desde os anos da infância até agora. Ray é um presidiário que, como todos os presidiários, está preso a um evento do seu passado – e o que ele pode fazer com o seu presente é algo de que depende sua própria redenção.

Por fim, O Torreão é um romance que declaradamente presta homenagens à Imaginação, essa capacidade que pode nos abrir portas, reais ou abstratas, e fazer a realidade material parecer apenas uma nota de rodapé. Neste romance, Jennifer Egan utiliza vários artifícios que nos fazem enxergar o poder da imaginação: seja pela atmosfera gótica que a autora constrói nos primeiros capítulos (e que lança o leitor numa espécie de aventura surreal), seja pela metalinguagem do texto, seja pelo fato de que tudo aquilo que estamos observando agora pode ser fruto da cabeça de uma única pessoa. Nesse caso, o que fazer? Em que personagem acreditar?

O Torreão mexe com o leitor de alguma maneira – e pelo que pude perceber até agora, o objetivo dos livros de Egan é esse mesmo.

05 março 2014

Rio de fumaça, de Amitav Ghosh

"É um pecado entre nós faltar com a palavra para com aqueles cujo sal comemos". (p. 507)

115870647SZ Amitav Ghosh Credit Jerry Bauer

Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir sinceras desculpas aos leitores deste blog pelo tempo exageradamente longo que passei sem publicar uma única resenha. Aconteceu o contratempo de sempre, do qual inclusive já me desculpei em outras ocasiões: faltou-me tempo e, não minto, alguma disposição para atualizar o Gato Branco. Além disso, no meu cotidiano, a boa literatura ficcional andou perdendo espaço para a leitura obrigatória de livros técnicos da faculdade. Suplico à Providência que jamais chegue o dia em que os ensaios acadêmicos e os artigos científicos obstruam totalmente minha dedicação à literatura.

O fato é que, hoje, estou aqui para comentar sobre um magnífico livro que li há mais de três meses e do qual guardo ainda saborosas impressões. Trata-se de Rio de fumaça (River of smoke, 2011), do escritor indiano Amitav Ghosh, um dos meus autores contemporâneos favoritos desde que li seu ótimo Maré voraz – que aborda o singular encontro entre uma jovem bióloga e um intérprete de negócios no coração de um arquipélago esquecido do Índico.

Rio de fumaça é a continuação direta de Mar de papoulas e o segundo volume da Trilogia Ibis, que Ghosh concebeu para contar a história do panorama político, econômico e social da Baixa Ásia durante o século XIX. Para isso, o autor criou personagens pitorescos que atravessam a trilogia e vivem os desdobramentos da movimentada vida urbana e marítima daquela época – como é o caso do marinheiro Zachary, do magnata Neel e da jovem Paulette, só para citar alguns exemplos.

As lacunas deixadas na trama e o destino incerto de todo mundo no final do primeiro romance dão margem a grandes aventuras a serem narradas em Rio de fumaça. Ciente da qualidade de Ghosh como escritor e refém da ânsia de reencontrar os antigos personagens, adquiri imediatamente o segundo livro da trilogia, assim que ele foi lançado.


Sinopse: Rio de fumaça é um livro grandioso, que capta um momento crucial na história da expansão do comércio marítimo – o tráfico do ópio na China no século XIX e seus desdobramentos mundiais. As relações entre as diferentes nações, que podem definir o futuro econômico do Império Britânico, as guerras pelo controle das rotas e o romances proibido entre um indiano e uma chinesa são os fios desta trama.


Entre 1839 e 1860, o sul da China foi palco de uma das guerras que melhor ilustram a força da ganância humana em assuntos de comércio internacional – e que revelam como essa ganância pode sobrepujar o bom-senso e levar nossa civilização à barbárie.

Servindo-se do argumento do Livre-Comércio (segundo o qual toda e qualquer relação comercial é válida, desde que a demanda pelo produto seja espontânea), os comerciantes britânicos tutelados pela Companhia das Índias Orientais insistiram em exportar ópio para a China, contrariando as leis proibitivas do então Império Chinês, que impediam a entrada da droga no continente no início do século XIX.

Na época, Cantão era o único porto da China aberto a comerciantes estrangeiros. Desde o fim das guerras napoleônicas, a Europa expandia sua política de exportação até o Extremo Oriente – e a China, já com uma das maiores populações do mundo, constituía um mercado consumidor bastante chamativo. Muito cedo descobriu-se que o ópio, essa pesada droga entorpecente derivada da papoula, era um produto adorado por grande parte da população local. Valendo-se de técnicas de contrabando que permitiam a entrada clandestina do ópio no país, os comerciantes europeus desafiaram as leis do imperador chinês e continuaram a realizar o comércio por baixo dos panos, ainda que isso significasse a degradação e a perdição dos que consumiam o produto.

Finalmente, chegou o momento em que essa realidade nociva não poderia mais ser ignorada pelas autoridades locais. A ira do imperador e dos comissários chineses contra os comerciantes estrangeiros foi tal que, em 1839, após vários alertas, o governo local apreendeu e queimou cerca de 20 mil caixas de ópio, propriedade dos britânicos. Aconteceu que a Inglaterra não tolerou o aparente abuso de poder chinês, que ia contra as leis "naturais" do Livre-Comércio, e declarou guerra à China.

Hoje, esse episódio é conhecido como as Guerras do Ópio.

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Rio de fumaça utiliza este complexo e tenso pano de fundo histórico para desenvolver a sua trama – ela própria complexa e cheia de tensão. Além de instruir o leitor e ensiná-lo sobre o passado, Ghosh consegue arrebatá-lo para a narrativa que está sendo desenrolada: consegue fazer com que nos importemos com o destino de comerciantes estrangeiros, de políticos locais e de impérios inteiros. De todos os romancistas históricos que povoam minha estante, Ghosh certamente consegue ser o mais fascinante e inventivo.

A Trilogia Ibis representa não somente um vasto painel sócio-histórico de praticamente todo o Oceano Índico durante o século XIX, mas, também, representa uma mudança de estilo na obra do próprio autor: menos conservador na estética, Ghosh agora abre mão de travessões e, quando não utiliza aspas, simplesmente joga os diálogos em meio ao texto – tal como Cormac McCarthy, por exemplo. Isso confere à sua escrita uma dinâmica e uma criatividade que convêm às sutilezas da trama de seus romances recentes, como é o caso de Rio de fumaça.

(Gosto de falar sobre a escrita de Ghosh porque, para mim, ela é um destaque do autor. Sempre clara, fluida e muito agradável, a sua prosa conduz o leitor a eventos e personagens que, nas mãos de outro, poderiam soar terrivelmente enfadonhos. Em Rio de fumaça temos uma escrita primorosa, leve e capaz de entreter um vasto público: e nas mãos de Ghosh as Guerras do Ópio e todo o seu subtexto político e econômico parecem uma grande aventura, e não uma aula maçante de História.)

Neste segundo livro da trilogia, o leitor é informado de alguns detalhes que ficaram em aberto no final de Mar de papoulas, quando o navio Ibis se encontrava em meio a uma tempestade e uma espécie de rebelião interna. Após uma surpreendente e fascinante abertura nas Ilhas Maurício, a narrativa passa para a jornada dos navios mercantes carregados de ópio rumo a Cantão, cidade onde, depois, se desenrola basicamente toda a trama principal.

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Prolixo sem ser cansativo, Ghosh descreve em detalhes a vida nesta cidade portuária de meados do século XIX, quando os estrangeiros eram proibidos de entrar no continente propriamente dito e ocupavam o chamado Enclave Estrangeiro – ou Fanqui-town, um pedaço de terra litorâneo de onde não poderiam sair. A descrição desse lugar se dá principalmente através das palavras do personagem Robin, que envia cartas extensas à sua amiga de longa data, Miss Paulette (a mesma jovem de Mar de papoulas pela qual me apaixonei). Robin é uma espécie de contraponto cômico e original na história, e sua juventude transborda em empolgação e sede de viver o curioso mundo no qual se encontra.

Todos os personagens apresentados ao longo do livro estão ligados entre si através de várias conexões novelescas (algumas delas um pouco forçadas, vamos admitir) que unem as histórias passadas e os destinos dessas pessoas. Dentre tais personagens está Ah Fatt, que no primeiro livro da trilogia ocupou um lugar à margem e, agora, é explorado às fartas, revelando toda uma interessante história de amor, fidelidade e abandono. A propósito, é curioso notar que o personagem principal de Rio de fumaça é o pai de Ah Fatt, alguém que jamais imaginamos que poderia ocupar tal lugar central no segundo livro.

Com um universo exótico tão repleto de personagens dos mais variados tipos, Ghosh exercita este que é um de seus maiores apetites: a polifonia. Romance narrado em terceira pessoa, mas cheio de vozes que emergem do texto com suas próprias particularidades, Rio de fumaça constitui uma espécie de colagem que se assemelha a um quebra-cabeça fácil de montar: não é difícil estabelecer as conexões entre os personagens e os eventos da trama, mas essas conexões só poderão ser feitas a partir dos diferentes narradores que compõem o estofo da obra – e com o necessário mergulho do leitor. O mais notável desses narradores certamente é o jovem Robin, que mencionei mais acima: a fim de apresentar a cidade de Cantão para Paulette, este alegre pintor (com seu estilo afetado e cômico) escreve à moça cartas nas quais mostra o seu entusiasmo com a cidade e atualiza algumas fofocas políticas.

Dinâmico, ambicioso, denso e surpreendente, Rio de fumaça reflete o esforço de um autor que faz uma meticulosa pesquisa bibliográfica e mescla fatos verídicos com uma trama envolvente. Premiadíssimo ao longo de sua carreira, Amitav Ghosh consolidou um reconhecimento internacional e firmou-se como uma das autoridades mais respeitadas em ficção histórica na literatura contemporânea.

11 janeiro 2014

Inferno, de Dan Brown

"É esse o futuro que eu estaria dando ao meu filho?" (p. 136)

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Na semana passada, finalizei a leitura de Inferno (Inferno, 2013), o mais recente romance assinado por Dan Brown – esse escritor norte-americano que ganhou fama ao redor do globo após lançar o tão polêmico thriller O Código Da Vinci, em que se debate, dentre outras coisas, a relação entre Jesus Cristo e Maria Madalena. Brown já havia lançado Fortaleza Digital, Anjos e Demônios e Ponto de Impacto antes do Código, mas foi somente com a segunda aventura de Robert Langdon – e o barulho que ela causou, principalmente no Vaticano – que o autor conquistou uma imensa e internacional legião de fãs. Após o sucesso da sua obra-prima, Brown lançou O Símbolo Perdido (também com Langdon) e, agora, Inferno.

Inferno é, portanto, a quarta história em que Robert Langdon atua. Aqui, o famoso simbologista de Harvard não se verá às voltas com o passado pessoal de Cristo, nem com o grupo Illuminatti, nem com líderes maçônicos perigosos: agora, ele terá que lidar com os enigmas de um cientista brilhante e cruel que planeja reduzir drasticamente a população mundial. E é neste aspecto que reside a ousadia do mais novo thriller de Dan Brown: na mensagem de que a superpopulação global atingiu níveis tão críticos que a questão merece ser tratada com uma urgência que já deveria ter ficado clara há muito tempo.

Há um diálogo que ilustra bem o cerne da trama:

O homem sorriu, claramente satisfeito com aquela pergunta.

– Qualquer biólogo ou estatístico ambiental lhe dirá que a maior chance de sobrevivência a longo prazo para a humanidade acontece com uma população global de cerca de quatro bilhões de habitantes.

– Quatro bilhões? – repetiu Elizabeth. – Nós já estamos em sete bilhões, então é um pouco tarde para isso.

– Será?


Sinopse: No coração da Itália, Robert Langdon, o professor de Simbologia de Harvard, é arrastado para um mundo angustiante centrado numa das obras literárias mais duradouras e misteriosas da história: A Divina Comédia, de Dante Alighieri. Numa corrida contra o tempo, ele luta contra um adversário assustador e enfrenta um enigma engenhoso que o leva para uma clássica paisagem de arte, passagens secretas e ciência futurística. Tendo como pano de fundo o poema de Dante, ele mergulha numa caçada para encontrar respostas e decidir em quem confiar, antes que o mundo que conhecemos seja destruído.


Muito bem recebido pelo público, Inferno reproduz o padrão das histórias anteriormente protagonizadas por Robert Langdon: temos aqui mais uma vez organizações secretas que atuam nos bastidores da trama, uma bela e inteligente mulher que acompanhará o personagem principal em sua busca frenética por símbolos ocultos capazes de fornecer o passo seguinte, muitas obras de arte e muitas reviravoltas que deixam o leitor quase tonto. Mesmo repetindo pela quarta vez todo o esquema de enredo, Dan Brown mostra que ainda é capaz de nos surpreender – por incrível que pareça. Nesse aspecto, encaro Dan Brown como um mágico que está sempre tirando alguma coisa da cartola: sabemos qual é o truque e como ele funciona, mas o que de fato será retirado do chapéu, ninguém tem a menor ideia.

A Divina Comédia, de Dante Alighieri, foi escolhida como a obra artística que serve de base para os enigmas a serem desvendados na trama – mais especificamente, o primeiro canto da obra, intitulado Inferno. Em sua sede de fazer justiça à assim chamada premonição de Dante, o vilão da história monta um quebra-cabeça baseado na Divina Comédia, e alusões à Peste Negra são bastante recorrentes – a mesma peste que dizimou um terço da população da Europa no século XIV e que, como sugere o frio inimigo, poderia levar a resultados assustadores se fosse reproduzida nos dias de hoje. Especialista no poema épico do italiano, Langdon deve seguir uma série de pistas e mensagens ocultas deixadas pelo cientista, a fim de frustrar os seus planos malignos e evitar o que pode ser uma tragédia sem precedentes. 

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O Inferno de Dante, de Gustave Doré

Sabe-se que a obra de Dan Brown é escrita para entreter os leitores e diverti-los com uma mistura bem-vinda de perseguições policiais e referências a grandes obras de arte que são apresentadas para, no fundo, mostrar uma visão de mundo pessoal do autor. Inferno foi o segundo romance de Brown que me fez refletir demoradamente sobre as implicações de sua trama e projetá-las no mundo real em que vivemos. Sua mensagem sendo tão óbvia e tão pungente, essa reflexão de fato não poderia passar batida: afinal, o que estamos fazendo para controlar o crescimento da população mundial que, sim, já está passando dos limites do sustentável? Esta é a pergunta implícita do autor e, percebe-se, a principal mensagem do romance.

Visto por esse ângulo, Inferno ganha contornos de obra crítica que não foram alcançados com O Símbolo Perdido ou até mesmo com O Código Da Vinci – para alguns, este último é apenas resultado das constantes tentativas de Brown de alfinetar a Igreja Católica. Inferno, por sua vez, cutuca a todos nós com um problema de interesse geral: qual é o horizonte possível para a humanidade se continuarmos a nos reproduzir de modo desenfreado? Utilizando métodos drásticos para livrar a humanidade de uma situação já drástica, o vilão de Inferno coloca em jogo a dramaticidade da condição humana atual em termos de sustentabilidade – além de pôr em cheque a hipocrisia de instituições que, na sua visão, tapam o sol com uma peneira.

Dante - La Divina Comedia - Canto VI - Doré - Descontexto-2

Dante e Virgílio no Inferno, de Gustave Doré

Como sempre repleto de curiosidades sobre o mundo das artes – que aqui inclui a vasta referência à Divina Comédia, quadros de Vasari e a arquitetura italiana, dentre outros –, Inferno pinta um cenário sombrio assolado pela ideia de uma iminente pandemia capaz de devastar a população de regiões inteiras. Em um enredo onde não se vê mocinhos necessariamente mocinhos nem vilões necessariamente vilões, está em poder do leitor decidir de que lado ele ficará, qual lado defenderá – se é que de fato existe mais de um "lado" nessa história; afinal, todos estamos no mesmo barco.

Por fim, há algo a declarar: ainda que Robert Langdon seja um personagem com vasto potencial e grande carisma, é hora de Dan Brown pensar em outro protagonista para seu próximo romance. Fazer Langdon protagonizar mais um thriller logo após Inferno seria tornar o famoso simbologista um personagem irreal, transformando-o apenas em uma espécie de ideia de protagonista, sem deixá-lo convincente. Langdon ficaria bem melhor aparecendo daqui a dois ou três romances, o que evitaria sua saturação.

Em resumo, posso afirmar que Inferno atende às expectativas dos leitores de longa data do autor. Quanto aos leitores de primeira viagem, estes certamente serão impressionados. O mesmo corre-corre e o mesmo apelo ao mistérios dos símbolos nas obras de arte, que são elementos que consagraram Dan Brown, estão aqui presentes – e eles não falham em deixar a história envolvente e emocionante. Se o criador de Robert Langdon seria capaz de escrever algo que fugisse do seu próprio modelo, isso é tema para outra conversa. Por enquanto, ele conseguiu manter fiel sua legião de fãs.

Resta-nos esperar para ver o que ele tirará da cartola da próxima vez.