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05 maio 2020

Aventuras urbanas em sebos

Sebo O Geraldo, em Fortaleza-CE


Hoje pensei com saudade sobre esse hábito, comum entre alguns leitores, de perambular pela cidade à procura de sebos escondidos em pequenas ruas e travessas que mal aparecem nos mapas urbanos. E lembrei com nostalgia de garimpar nesses lugares, por entre amontoados de brochuras descolando e lombadas desbotadas, segurando o espirro, um livro bom o suficiente para fazer as férias da escola valerem a pena.

Rastrear e conhecer pequenos sebos espalhados pela cidade é uma experiência já comprometida, claro. Esse hábito entrou em declínio quando todos nós descobrimos que é muito mais fácil comprar um livro usado clicando algumas vezes o botão do mouse do nosso computador e recebendo, na porta de casa, alguns dias depois, um pacote com o livro dentro. A praticidade da internet suprimiu o esforço de ter de sair do conforto do nosso lar em direção ao ambiente incerto das livrarias físicas, onde podíamos não encontrar o que estávamos procurando.

E assim definharam e morreram aos poucos os sebos físicos; e, com eles, as histórias das peripécias de leitores e livreiros que se procuravam às tateadelas pelos labirintos da cidade, ignorando o fato de serem ignorados pelo movimento urbano caótico de todo dia. Esses sebos acabaram migrando para uma versão digital, todos reunidos em um catálogo só – funcionando à perfeição, diga-se de passagem – listados com a impessoalidade do mundo dos algoritmos. Ganhamos em praticidade e perdemos em experiência.

Daqui a um tempo, quem não viveu fisicamente o circuito dos sebos ou nunca experimentou a sensação de ficar encolhido entre três prateleiras enormes cheias de livros velhos cheirando a mofo, em uma casa antiga com piso de tacos soltos – uma experiência tão impressionante que era meio impossível não se perguntar “O que diabos eu estou procurando, mesmo?” ou “Será que o dono da casa esqueceu que eu estou aqui?” – não acreditará nas histórias que eu tenho para contar sobre livreiros tão antigos quanto os próprios livros usados, livros do século XIX guardados em cofres de metal com aqueles botões de senha que você tem que rodar para abrir, sebos inusitados – um deles incluía o banheiro de uma casa, e, sim, eu tive que procurar D. H. Lawrence dentro de um box de chuveiro e Michael Crichton debaixo de uma pia –, sebos suspeitos – já fui advertido por um livreiro idoso que não queria que eu entrasse por uma porta do segundo andar da sua casa, sob o risco de ter de ver “coisas desagradáveis lá dentro” – e idas ao Centro à procura de revender meus Erico Verissimo – Incidente em Antares e Noite, lembro ainda quais eram –, barganhando com um homem que fumava um charuto provavelmente falsificado e que me dizia, entre uma baforada e outra, que a leitura seria a minha ruína, porque era a ruína de todos os acadêmicos – sábio vendedor de livros, conhecia a causa, alertou um adolescente para o perigo que estava por vir, e eu não lhe dei ouvidos.

Atualmente, isso já parece inacreditável mesmo para mim. Quem dirá que um dia existiu aventura no simples fato de comprar um livro? Mapas imprecisos que eu fazia à mão – nada de GPS, sequer existiam –, ônibus cheios de personagens atípicos, pessoas estranhas, becos sem saída, ruas sem fim, estabelecimentos escondidos, portas para além das quais eu não sabia o que esperar. Se eu tivesse desaparecido naquela época de peregrinação literária, ninguém poderia se dar por surpreso. Mas se envolvia aventura, a ida aos sebos envolvia também drama, às vezes tragédia e comédia urbana, e às vezes – muitas vezes – as histórias eram bem serenas, um peixe beliscando a superfície de um lago sob o sol do verão.

Um dos últimos sebos que visitei foi com o intuito de presentear um amigo com um livro que já estava fora de circulação. Peguei um ônibus e desci vinte minutos depois em uma rua curta e vazia cercada por altas antenas de rádio e televisão, em um bairro de Fortaleza conhecido justamente por elas. O sebo era uma casa de aspecto colonial ampla, arejada; de manhã o sol batia de frente, bem na varanda da entrada, onde um gato dormia entre vasos de taiobas. O som da campainha parecia ter atravessado a história dos séculos. Entrei, a própria livreira me recebeu: uma mulher idosa, grande, imponente e muito simpática. Diferentemente das outras vezes, em outros lugares, nesse dia eu achei com uma rapidez impressionante o livro que eu estava procurando – achei o livro antes mesmo de a dona me dizer onde ele estava.

O recibo eu guardo até hoje, talvez como lembrança daquele dia. Quando paguei, a mulher me olhou com cuidado e perguntou se eu queria um café com torradas. Sentamos na varanda, a uma mesinha velha de madeira que ficava na sombra, e ela começou a fazer carinho no gato e a me contar do problema de ter de lidar com o computador para cadastrar no site dos sebos virtuais aquela montanha colossal de livros que ela tinha em casa – cadastrar um por um –, uma casa que leitor nenhum visitava mais porque os grandes conglomerados praticavam preços que anulavam completamente a concorrência. Assim, seria impossível se livrar de todos aqueles livros antes de se mudar para a casa dos filhos, coisa que ela planejava; e nem ela esperava que fosse vender todos, aliás, por isso já estava dando alguns. Depois ela falou do marido falecido com toda a serenidade do mundo, o que me pareceu muito bonito, e de como ele lia muito, e que na verdade a maioria daqueles livros era dele, principalmente os do Carl Sagan, que ele adorava. Falou do filho engenheiro e da filha dentista. Falou da época em que ela lecionava em uma escola normal. Falou das colegas professoras dela na escola e dos livros que eram proibidos para as moças naquela época (dentre eles, ‘Caminhos cruzados’, de Erico Verissimo, um dos meus livros favoritos de sempre, o que depois deu início a um novo galho da nossa conversa) e falou também da música que os bons livros tocam sem que a gente perceba.

Bebi café como nunca, saí de lá muito depois da hora do almoço, e antes mesmo de pegar o ônibus de volta eu já tinha a certeza de que um episódio como aquele nunca mais ia acontecer de novo.


15 agosto 2013

Crônica: Bússola

Das coisas que temos e não possuímos

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Posso estar bastante enganado ao dizer isso, mas, geralmente, quando nos decepcionamos com uma pessoa, ou com uma circunstância específica, saímos à procura discreta de um breve consolo capaz de manter acesas em nós a chama da confiança e aquela consciência particular sem a qual não é possível enxergar a beleza das coisas. Decepcionar-se não é senão acreditar que algo poderia ser de determinado jeito e, no final das contas, constatar que o que recebemos como resposta não correspondeu àquilo em que acreditávamos com tanta convicção.

Por isso pode-se dizer que, em um episódio decepcionante, não há culpados nem vítimas: há esperança em excesso, apenas. Uma esperança tão grande que, por vezes, pode engolir a realidade dos fatos. O desejo de que algumas pessoas continuem a nos fazer bem, pelo resto de nossas vidas, pode ser conveniente para nós na medida em que é exatamente essa confiança e essa certeza que sustentam o edifício dos nossos relacionamentos. Não acreditar que os outros nos farão bem é minar as bases desse edifício, por si só tão frágil. Se os decepcionados são as vítimas por cultivarem uma confiança enorme e se os decepcionantes são os culpados por terem traído a confiança alheia, isto é somente uma questão de perspectiva.

* * *

Na minha primeira experiência de atendimento a um paciente, constatei que nossa efêmera existência é pontilhada de pequenas decepções que, aos poucos, à força, nos ajudam a enxergar o mundo de uma maneira diferente – e, acima de tudo, nos ajudam a perceber que não temos controle sobre nada relacionado à nossa interação com as outras pessoas. A única coisa que temos sobre os outros é uma ligeira sensação de influência, que pode variar – e varia, sempre – ao longo do tempo. É essa influência exercida por nós sobre os outros que confere aos nossos relacionamentos uma tênue sugestão de controle.

Na ficha de entrada do serviço de psicologia não havia muitos detalhes: apenas um nome, Fernanda, a informação de que ela era recém-divorciada e que tinha um filho pequeno de três anos de idade, diagnosticado precocemente como hiperativo por um psiquiatra. Achei que o caso poderia ser interessante e, de alguma maneira, achei que ele poderia ajudar a formar o início de minha experiência profissional.

Quando Fernanda se sentou à minha frente, a um convite meu, ela respirou pesadamente e disse, sem rodeios: "Não sei muito bem por que estou aqui. Sempre achei que eu poderia resolver os meus conflitos pessoais de maneira particular, sozinha, sem precisar da ajuda de ninguém. Sou uma pessoa forte e sempre dei conta das minhas dificuldades. Existem muitas pessoas aqui que provavelmente precisam mais da sua ajuda do que eu." E, então, começou a chorar.

Lá fora fazia um dia claro. Lembro de ter passado pelos jardins da universidade e de ter dito a mim mesmo algo sobre como as tulipas e as orquídeas estavam vistosas e sadias em seu desabrochar atravessado pelo orvalho da manhã. Agora, ali naquela sala, naquele momento, o filho de três anos de Fernanda brincava com uma coleção de carrinhos de metal que eu havia trazido para a sala do consultório, junto com um balde cheio de dinossauros coloridos. Tudo parecia natural e, até certo ponto, tranquilo. Mas aquela mulher bonita de 36 anos de idade estava chorando na minha frente porque, naquela manhã de sol, decidiu admitir que havia se decepcionado com alguém (por acaso, com seu ex-esposo), e que decepcionar-se era um fenômeno que ela nunca, ou quase nunca, tinha experimentado.

Quando cheguei em casa, no fim do dia, me pus a procurar alguns documentos acadêmicos nas gavetas bagunçadas da minha escrivaninha. De forma absolutamente inesperada (ou assim me pareceu), encontrei uma bússola em formato de chaveiro, com o metal da presilha um pouco desgastado pelo tempo. A bússola estava no fundo da última gaveta, ao lado de um controle remoto de televisão velho. Com a bússola, dentro de uma caixinha de plástico transparente, havia um bilhete escrito à mão, em caligrafia feminina: Seu chá de bússola diário. Não esqueça. A direção da Beleza, da Justiça e da Sinceridade é apenas uma, e ela, essa direção, está debaixo do nosso nariz. Inútil procurar em outro lugar. Beijo, Gabi.

Sou capaz de passar dezenas de minutos olhando para uma bússola sem me cansar. Naquele momento, esqueci completamente o que eu estava buscando, que documentos estava garimpando, e fiquei a revirar aquele pequeno e simbólico objeto nas mãos até perceber que o que eu estava procurando nas gavetas, desde o começo, não eram os documentos, mas a bússola. E me dei conta de que eu não falava com Gabriela há mais de três anos porque tínhamos, contrariando todas as nossas expectativas, nos decepcionado um com o outro.

* * *

Na nossa última sessão de avaliação psicológica (cujo paciente era, na verdade, o filho hiperativo de três anos), Fernanda me confidenciou que se sentia melhor. Nas últimas semanas, havia pensado sobre sua circunstância, sobre suas amarguras, e disse que o principal consolo que recebera viera da constatação de que as decepções, todas, se devem ao nosso esforço desmedido de construir uma imagem fantasiosa dos outros de acordo com os nossos interesses. De um modo geral, sua aparência estava bem melhor: havia um sorriso tímido no rosto, seus cabelos, volumosos e ondulados, estavam soltos, suas mãos não se remexiam nervosamente e pude perceber, com um certo alívio, uma atenção maternal sincera e afetuosa para com o pequeno garoto.

A excessiva atividade que o filho de Fernanda apresentava, diariamente, tanto no colégio quanto em casa e na rua, poderia ser vista como uma espécie de reação funcional à insegurança da mãe e à ausência do pai, que o havia ignorado desde o divórcio com a esposa. Era uma hipótese que valia a pena ser levada em consideração, mas os nossos encontros semanais acabaram quando o semestre letivo chegou ao fim. De qualquer modo, até hoje, tenho a sensação nítida de que aprendi mais com Fernanda e seu filho do que ambos aprenderam comigo.

Se o estofo de nossas decepções continua a ser um mistério, pelo menos temos a sutil garantia de que elas não duram para sempre. Ou porque percebemos que nosso controle sobre tudo à nossa volta é muito mais limitado do que gostaríamos de admitir, ou porque, à força, somos instados a perceber o nosso universo particular de outra forma, o fato é que, um dia, alguma coisa se parte dentro de nós.

No final do ano, tirei a bússola de dentro da caixinha de plástico e a coloquei em cima da minha mesa, para me lembrar, ainda que remotamente, que a bússola aponta o caminho, mas quem caminha somos nós.

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Esta crônica foi escrita para o site Lupa Cultural, parceiro do Gato Branco.

09 junho 2013

O que esperar para as férias [2013.1]

Uma lista do que poderá aparecer aqui no blog durante o mês de julho deste ano

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Conheço leitores que compram livros e mais livros, uns atrás dos outros, e acabam confessando eles mesmos que não têm tempo suficiente para ler tanta coisa boa que aparece no mercado literário e que acaba indo parar nas suas estantes, o que, como consequência, produz pilhas e mais pilhas de livros não-lidos pelo chão da casa. Vou confessar uma coisa: não consigo ter esse espírito desenfreado e voraz plenamente desenvolvido. Minhas compras são comedidas até certo ponto, baseadas em orçamento financeiro, em tempo disponível e em nível de interesse, e a relação harmoniosa entre esses três elementos acaba reduzindo e muito minhas aquisições. Não consigo ver aquele livro não-lido parado em um canto da minha casa, acumulando poeira porque há dezenas de livros na fila das prioridades. Quando o livro cabe no bolso, quando sei que poderei lê-lo sem pressa e com cuidado e quando sei que as chances de gostar dele são possíveis, não hesito: levo para casa. Às vezes são feitos sacrifícios: edições de luxo, por exemplo, que abocanham nossa conta bancária mas que valem o esforço; ou na época em que disponho de apenas um exíguo final de semana para ler aquele Admirável Mundo Novo ou aquele Sete Anos no Tibet. [Ler nota no final desta postagem]

Os períodos que vão de fevereiro a junho e, no segundo semestre, de agosto a novembro, geralmente são os intervalos do ano que reservo para acumular os livros que lerei nas férias de julho e de dezembro, respectivamente. Embora eu sempre esteja lendo algo, seja lá o mês que for, é somente nesses intervalos sabáticos anuais que me proponho a ler obras realmente densas e volumosas, como Mar de Papoulas, do indiano Amitav Ghosh, ou Lá Onde os Tigres se Sentem em Casa, do francês Jean-Marie Blas de Roblès.

Eis o que o Gato Branco espera para as férias de julho:


Micro, de Michael Crichton

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Michael Crichton, autor do célebre Jurassic Park, veio a falecer de câncer aos 66 anos enquanto estava escrevendo seu novo romance, Micro, espécie de survival na selva que parece ser uma mistura equilibrada e sã de O Mundo Perdido com Presa. Os originais da obra foram finalizados pelo conhecido romancista Richard Preston, autor de O Demônio no Freezer e Zona Quente.

A aura em torno do livro é auspiciosa. Afinal, trata-se de um thriller manipulado por quatro mãos, e os dedos são de dois autores populares e muito competentes. A ideia é potencialmente rica e pertinente, porque envolve os perigos que a ciência desenfreada alavanca quando tenta submeter as leis da natureza à ambição dos homens (ideia que, faça-se justiça, Crichton abordava em quase todos os seus livros). Vindo do autor de Esfera e Linha do Tempo, dois romances que li na infância e que me lançaram no universo literário de um modo geral, Micro é uma das leituras mais esperadas desse ano.


Anna Kariênina, de Liev Tolstói

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Não tenho palavras para descrever a ansiedade que me cerca quando tenho no horizonte uma leitura do romancista russo Liev Tolstói, que é, sem dúvida, um dos melhores escritores de todos os tempos. Anna Kariênina foi transposto recentemente para o cinema e, nas telas, Keira Knightley encarna a personagem principal. Ainda não assisti ao filme de propósito, apenas para que não me sejam revelados quaisquer detalhes do enredo (muito embora eu já saiba o que ocorre no final da história).

Na obra, percorremos os grandes salões povoados pela alta burguesia russa entediada do século XIX, conhecendo figuras as mais diversas, assoladas pelas dúvidas que, independente da época e do lugar, assolam qualquer ser humano – principalmente quando o assunto é aquela paixão visceral que todos nós conhecemos muito bem.


Nos bastidores do Pink Floyd, de Mark Blake

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Todos os que me conhecem razoavelmente bem sabem que aquela banda britânica conhecida como Pink Floyd é a minha favorita, ao lado de Dire Straits, Led Zeppelin e The Doors. Quando uma ex-namorada minha me ligou às pressas dizendo que havia acabado de chegar ao mercado brasileiro a biografia completa do conjunto de rock progressivo autor de The Dark Side of The Moon, minha primeira reação foi: não acredito. Era a época em que eu andava às voltas à procura de um documentário decente sobre Pink Floyd.

Pelas folheadas que eu já dei na obra de Blake, Nos bastidores do Pink Floyd parece ser um trabalho super sério e bem estudado, não incorrendo nas pieguices e nos deslizes comuns ao gênero. Desde The Piper at The Gates of Down até Division Bell, a história dessa lendária banda é contada nos mínimos detalhes, o que envolve entrevistas com os integrantes e o pessoal da produção. Essa é outra leitura pela qual mal posso esperar.


Inferno, de Dan Brown

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Robert Langdon é, outra vez, o personagem central do mais novo livro do autor de O Código Da Vinci, e aqui o simbologista simpático e claustrofóbico se vê atado a uma trama que envolve a leitura de uma das obras clássicas da literatura mundial: A Divina Comédia, de Dante Alighieri. Não tenho mais conhecimentos sobre o enredo, e acho que isso é interessante, pois sigo a máxima dos leitores de que "quanto menos instruídos e mais surpreendidos, melhor". A única coisa que sei, por enquanto, é que Langdon está no meio de todos esses mistérios e que os enigmas se baseiam no livro do ilustre italiano supracitado.

Mesma estrutura de história? Mesmo corre-corre de sempre? Ótimo. Dan Brown é o tipo de autor que consegue ser bom e surpreendente mesmo quando repete sempre a sua fórmula mágica. Não vejo a hora de revisitar a Europa cheia de mistérios que o autor não se cansa de nos mostrar – e que eu, particularmente, adoro.

 


[Nota: compradores vorazes de livros, não se sintam ofendidos. Esse consumismo literário é uma das coisas que mais gosto de observar e de admirar nas outras pessoas (sim, porque não há nada mais embevecedor do que ouvir alguém falando "Estou com trezentos livros lá em casa e não sei por onde começo". Comprar livros em demasia é um hábito saudável, até certo ponto. Só não consigo colocá-lo em prática, nem pretendo conseguir.

25 maio 2013

Lar, doce lar

  • Façamos, do lugar que habitamos, um santuário.
  • "A única causa da infelicidade do homem é não saber como ficar quieto em sua casa" (Pascal)

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Acredito que não haja um lugar mais importante na vida de uma pessoa do que a casa em que ela passa os seus dias. Podemos ser viajantes consumados que amam cruzar terras desconhecidas e passar longos períodos distantes do nosso abrigo principal, mas, cedo ou tarde, pelas mais variadas razões, somos obrigados a retornar. Por esse motivo, o lugar para o qual retornamos – o lugar em que vivemos, em suma – deve propiciar um ambiente agradável que nos faça sentir plenos, sempre.

Obviamente, não me refiro aqui a luxo e pompa, a espaço físico amplo ou localização privilegiada. A verdadeira casa agradável é aquela em que, grande ou pequena, bem localizada ou não, sentimos que tudo está ao nosso alcance – ao alcance de nosso bem-estar interior, no qual podemos nos pertencer de fato. Nesse sentido, a casa deve despertar nas pessoas o sentimento de que elas fazem bem em estar ali. E esse é o primeiro passo para que elas se sintam em um ambiente propício às experiências de ócio autênticas.

Fiz questão de reservar, na minha própria casa, um espaço destinado especialmente à leitura; como meus amigos mais íntimos sabem, a leitura de livros de ficção e não-ficção é a atividade que mais gosto de realizar em meus tempos livres. Este espaço reservado – que não é nada além de uma cadeira metálica na parte de trás da cozinha – me propicia um ambiente indescritivelmente próprio para ler. A iluminação potente do aposento (a cozinha geralmente é a parte mais iluminada da casa), o silêncio e a quietude são fortes fatores que influenciam nessa sensação agradável que sinto ao abrir um livro e começar a lê-lo ali. Poucas vezes fico tão envolvido em uma atividade quanto nesses momentos – porque sinto, de maneira difusa mas, ao mesmo tempo, nítida, que estou me desenvolvendo, aprimorando meus conhecimentos e me tornando aos poucos alguém melhor.

Sou capaz de passar muitas horas lendo na mesa da cozinha. Às vezes, me detenho por mais de dez minutos em uma mesma página, lendo diversas vezes o mesmo parágrafo, sentindo o prazer do momento: o silêncio, a calmaria, a quietude interior, as palavras que brotam do livro.

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Outra coisa: procuro ao máximo dispor os móveis e os outros objetos da minha casa de modo que eles me transmitam a sensação de que são meus e me acolhem. Como tenho uma apreciação especial por plantas, reservei aproximadamente um terço da varanda do meu apartamento a vasos com mudas de felicidade (Polyscias fruticosa) e de fícus, as quais rego regularmente pelas manhãs. Na sala, antes ao lado da TV e agora ao lado da porta principal, um vaso com uma planta de plástico – uma pequena palmeira ornamental. No banheiro, orquídeas; na despensa, lírios da paz. Acredito que estar rodeado por plantas nos traz uma deliciosa sensação de retorno à natureza e à condição rousseauniana de ingênuo primitivismo. É algo parecido com a companhia de um animal de estimação que, silencioso, obediente, passa seus dias ao nosso lado, consolando-nos sem palavras. Cuidar de um ser vivo que depende inteiramente de nós se encontra no rol de atividades que fazemos por puro prazer, por paixão, movidos pela necessidade básica de nos reafirmarmos com base no trato com o outro.

Às vezes ouço música transmitida pelo rádio. Comprei há pouco tempo um pequeno aparelho especialmente destinado à cômoda da sala, de onde ele jorra músicas que me fazem viajar sem sair de casa. Músicas que ouvi com alguém, músicas cujo valor descobri sozinho, músicas que não conheço e que são boas: todas elas me dão a agradável sensação de fazer parte de um pequeno mundo particular.

De vez em quando, sozinho, monto uma espécie de acampamento na sala da minha casa: com o rádio tocando músicas agradáveis, um livro aberto no colo e a companhia das plantas, entro em um estado de graça – deleite, contentamento, prazer – que só poderia ser definido como uma experiência de puro ócio.

Fica a minha singela sugestão: façam da casa de vocês – ou do quarto de vocês, não importa – um lugar que os acolha e no qual vocês se sintam, acima de tudo, satisfeitos e relaxados. Um templo, um santuário, por que não?

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10 abril 2013

O que realmente nos toca?

Algumas reflexões sobre experiências cotidianas autênticas.

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Quem acompanha o Gato Branco em Fuligem de Carvão com alguma regularidade já deve ter percebido que entra semana, sai semana, e continuo não atualizando as postagens do blog. Nada de resenhas sobre livros, nada de críticas sobre filmes (que sempre foram poucas, convém lembrar), nada de comentários sobre CD's de música – nada de nada. O motivo desta ausência, que é a correria e a pressa do dia-a-dia, me levou a pensar algumas coisas sobre como o ser humano da cidade grande anda perdendo qualquer coisa da sensibilidade, e é cada vez mais incapaz de ser tocado emocionalmente por algo trivial. Como estamos cada vez mais fazendo mais coisas e tendo cada vez menos tempo para nós mesmos e nossos botões.

É comum nós acharmos que a palavra experiência pode designar todo tipo de fenômeno que nos acontece, sem entrarmos nos detalhes que o significado do substantivo tem a oferecer. Geralmente chamamos de experiência aquilo que fazemos, aquilo que aprendemos de modo geral e aquilo que chega até nós em forma de estímulo. Mas a experiência propriamente dita, no sentido em que estou falando aqui, carrega um significado bem mais profundo, que está para além daquilo que meramente nos acontece. A experiência autêntica é aquela que nos toca como sujeitos. E, para que isto ocorra, é necessária uma grande dose de sensibilidade – ser passional sem ser passivo, oferecer-se sem precisar anular-se.

Na semana passada, afetado pelo calor noturno de Fortaleza, acordei em meio à madrugada e não consegui mais dormir de jeito nenhum. Na escuridão do quarto, consultei o relógio e vi que passava pouco das quatro horas da manhã. Impossibilitado de pegar no sono outra vez, e cansado de ficar sobre a cama, levantei-me e comecei a passear pela casa – cozinha, sala, corredores –, até que enfim me permiti ficar parado na varanda, em pé. Quando coloquei meus olhos sobre o céu que se descortinava à minha frente, não consegui mais pensar em absolutamente nada – ali estava um céu que parecia ter saído de um quadro de Edward Hopper, lindo e soturno ao mesmo tempo. Havia uma pequena sugestão de claridade que começava a se infiltrar pelas nuvens do horizonte. Pessoas isoladas transitavam pela rua, e era possível mesmo ouvir o som dos seus passos no asfalto, o barulho da corrente da bicicleta de alguns e o ruído distante dos canos de escapamento do carro de outros.

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Em determinado momento, um bando de periquitos passou voando a mais ou menos um quarteirão de distância, e sua algazarra característica me fez lembrar instantaneamente dos tempos de infância em Belém do Pará, tardes nas quais eu caminhava pela Praça da República e ouvia esse som natural tão marcante. Foi uma espécie de viagem no tempo que durou não mais que 5 segundos, porém intensa o suficiente para que eu passasse vários minutos refletindo sobre ela. Enquanto isso, aos poucos, o sol ia surgindo por detrás dos prédios. De repente, me senti unido – conectado – a tudo aquilo que eu estava vendo da varanda da minha casa: o sol aparecendo de pouquinho em pouquinho, os ruídos urbanos que começavam a se intensificar, as pessoas na rua que começavam a crescer em número. Era estranho, mas acabei sentindo como se tudo aquilo me pertencesse e, por extensão, pertencesse ao mundo.

Comecei a sentir um conforto muito grande, que, julguei, só poderia se justificar por essa sensação de posse e pela apreensão da beleza da paisagem. Quando começou a chover, percebi, de maneira bem mais clara, que tudo aquilo que eu estava presenciando ali – e vivendo intensamente – era melancólico sem ser triste, era atraente sem ser necessariamente bonito. Era uma experiência única e singular como todas as experiências autênticas são. Descobri que duas experiências podem ser semelhantes, mas nunca iguais. Eu já havia muitas vezes, no passado, acordado em meio à madrugada e, sem sono, ido até a varanda de casa – mas daquela vez era diferente. Era igual às outras vezes, mas diferente.

A experiência autêntica, para existir e ser assimilada, necessita encontrar um indivíduo sensibilizado com o que o cerca. Porque, afinal, milhares de coisas nos acontecem todos os dias, mas somente poucos de nós têm a capacidade de identificar aquilo que nos toca. Para que possamos exercer um certo treino nesse sentido, ou seja, para que tenhamos essa capacidade de discernimento aflorada, precisamos nos lançar no mundo, nos projetar, escolher experimentar. Somente o sujeito que experimenta os fenômenos sem preconceito é capaz de viver uma experiência autêntica, porque ele sempre se surpreenderá com a novidade da vida.

HopperCCMorning Hopper, Edward (1882-1967): People in the Sun. 1960. . Washington DC, Smithsonian American Art Museum, Washington DC *** Permission for usage must be provided in writing from Scala. May have restrictions - please contact Scala for details. ***

Eu diria que o sujeito capaz de experiência é um sujeito que carrega consigo uma pequena dose de melancolia e uma grande dose de humildade. A melancolia está presente porque, ao vivermos uma experiência desse tipo, saímos do nosso lugar certo no mundo e passamos a ocupar um lugar que não pode ser definido com exatidão, e isso, embora não suscite necessariamente tristeza, gera a nostalgia e a sensação de que estamos sozinhos. O sujeito da experiência é o sujeito que, naquele momento de fluxo e sensibilidade, está sozinho – sozinho porque finalmente compreendeu a singularidade do fenômeno da existência, mesmo que essa compreensão dure apenas alguns instantes.

A humildade está presente na experiência porque o sujeito capaz de vivenciá-la entende que é preciso lançar-se e oferecer-se à vida, abrindo mão de todos os pressupostos de que dispõe. Não é tarefa fácil. Precisa-se entender que o que possuímos não é definitivo, que existe uma fluidez na existência capaz de colocar de cabeça para baixo tudo o que construímos até então – e essa reviravolta pode ocorrer em um momento autêntico, surpreendente, singular. Pode ser uma reviravolta muito, muito boa, como uma viagem a um país distante, que quebra em pedaços todos os nossos preconceitos, um por um.

Em uma palavra, ser capaz de viver a experiência é ser capaz de perceber o mundo em toda a sua complexidade e extensão, e saber extrair disso o prazer de estar presente. Como diria Alberto Caeiro, heterônimo poético de Fernando Pessoa, "às vezes eu acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido".

Uma vida rica em experiências a todos nós.

25 novembro 2012

Receita para as férias [2012.2]

O que podemos esperar aqui no Blog para as férias do final do ano, em termos de literatura.

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A torrente de obrigações acadêmicas que tem surgido nos últimos meses – na verdade, ao longo de todo este ano – me obrigou a deixar um pouco de lado tudo o que publico aqui. Contrariando minhas expectativas, não diminuí meu ritmo de leitura, que aliás pareceu mesmo ter subido neste segundo semestre, mas o tempo disponível para dedicar às resenhas semanais andou apertado o suficiente para que eu passasse às vezes um mês sem publicar coisas inéditas. Que triste!

Como todo amante de leituras, vejo a minha pilha de livros por ler aumentar gradualmente a cada semana que passa. Nunca fui de acumular livros assim, aos poucos, de deixá-los esperando em um canto da minha estante, mas hoje vejo que este é um exercício inevitável, até saudável, na medida em que vamos criando expectativas e desejos com relação às obras que ficam ali, nos aguardando. E isso pode ser muito bom na hora de finalmente ter o livro nas mãos.

Mas as férias existem para que, dentre outras coisas, possamos atualizar nossa caminhada literária e pôr tudo em dia. Pensando nisso, resolvi organizar neste post todas as obras que me esperam no início de dezembro – se tudo correr como esperado no laboratório de pesquisa do qual faço parte, claro; do contrário, terei que esperar mais alguns dias. Tenho um grande carinho por todos os livros listados abaixo, e mal posso esperar para começá-los!


A visita cruel do tempo | Jennifer Egan

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Presente de aniversário dado pelo meu irmão. Não nego: o livro dá medo. Pela rápida folheada que dei nele, a narrativa me pareceu uma curiosa mixórdia de tempos verbais, eventos paralelos e personagens voláteis. Ainda estou pensando como vou abraçar este livro, mas, desde agora, posso dizer que impera a expectativa de um livro memorável – levando em conta as dezenas de críticas positivas que Egan recebeu dos jornais de língua inglesa. Ainda estou amadurecendo a ideia de como abordá-lo…


Nos bastidores do Pink Floyd | Mark Blake

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Ah, Pink Floyd… Melodias incríveis, letras de qualidade, arranjos impressionantes. Uma banda que conseguiu a façanha de produzir, depois de Dark Side of The Moon, uma obra-prima atrás da outra. O que esperar desse livro, então? A biografia (definitiva, pelo que pude constatar) de um dos melhores conjuntos de rock da História. O livro conta a trajetória completa destes mestres da música, desde a Era Syd até a Era Gilmour, e possui um bonitinho caderno de fotos em papel Couche. (A cada folheada que dou, encontro uma página nova desse caderno de fotos, uma página que eu não tinha visto antes… Incrível.)


Pela bandeira do paraíso | Jon Krakauer

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Admito, penso em trocar este aqui por Os sobreviventes dos Andes, de Clay Blair Jr. Não que o livro de Krakauer seja ruim: nada disso. Foi apenas a mistura de dois elementos que fez com que eu tomasse a decisão de trocá-lo: meu fascínio por qualquer publicação sobre a tragédia dos jogadores de rúgbi nos Andes e a sensação de que a história dos mórmons, retratada no livro de Jon, ainda não me apetece o bastante. Mas a qualidade jornalística dos livros do autor é inquestionável, vide Na natureza selvagem e Onde os homens conquistam a glória, excelentes registros documentais sobre Christopher McCandless e Patrick Tillman, respectivamente. Veremos o que acontece com este item da lista.


Confissões | Jean-Jacques Rousseau

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Depois de Os devaneios do caminhante solitário, Rousseau se tornou meu filósofo favorito – não só pelas suas ideias, belas e justas, mas também pela clareza na forma como ele expõe esses pensamentos. Consigo me identificar com quase tudo o que ele escreve, o que chega a ser impressionante se estivermos levando em conta um pensador suíço do século XVIII e um brasileiro de 20 anos que lê Michael Crichton e Dan Brown. Aqui nesta obra, temos uma espécie de autobiografia moderna em que Rousseau se compromete a revelar, para o mundo, tudo o que sentiu e viveu; assim, ele se despe perante todos, críticos e admiradores – o que não deixa de ser um ato incrivelmente ousado. Parece ser um livro bem prolixo: estou curioso para ver os pensamentos que ele carrega.


03 novembro 2012

A arte de viajar, de Alain de Botton

"O que consideramos exótico no exterior pode ser aquilo a que aspiramos em vão em casa." (p. 80)

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Meus amigos mais próximos sabem que, quanto mais sinto prazer em ler um livro, mais demoro para terminar de lê-lo; mais vagarosamente saio de um capítulo para o outro, mais tempo costumo gastar para ler um parágrafo, com mais lentidão me detenho numa página específica. Alguns colegas até se exasperam com isso, não compreendem o porquê, como foi o caso de uma amiga minha que me via diariamente com A arte de viajar (The art of travel, 2002) nas mãos e sempre dizia: "Você ainda não terminou de ler este livro? Não acredito!" E, três dias depois, ela me encontrava com o mesmo livro aberto sobre o colo, praticamente na mesma página de antes.

Se no passado eu já tinha ouvido falar em Alain de Botton, foi somente como uma menção vaga que não marcou nenhuma impressão na minha mente. Essa leve sensação de familiaridade com o nome desse escritor suíço foi despertada quando, num belo dia, passeando os olhos por uma revista publicitária, vi um de seus livros mais elogiados em preço de promoção: era A arte de viajar, que, pela capa e pelo título, conseguiu atrair minha atenção e me fazer querer lê-lo imediatamente. Não titubeei: fui à livraria, comprei o volume (que foi baratíssimo, diga-se de passagem) e me deliciei com uma das leituras mais prazerosas que lembro ter feito.


Sinopse: Em A arte de viajar, Alain de Botton, autor de As consolações da filosofia, nos propõe uma excursão pelas satisfações e decepções do ato de viajar. Aeroportos, tapetes exóticos, emoção das férias e frigobares de hotel; esse livro bem-humorado, esclarecedor e instigante revela as motivações filosóficas, expectativas e complicações ocultas em nossas viagens pelo mundo afora.


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Cafeteria automática (1927), de Edward Hopper: uma das muitas pinturas analisadas em A arte de viajar


Fartamente ilustrado com imagens de pinturas famosas, fotografias tiradas pelo próprio autor e desenhos clássicos, A arte de viajar é um verdadeiro deleite para quem gosta da vertente da Literatura que se propõe a transmitir para os leitores as vivências, experiências significativas e memórias pessoais do escritor. Eu diria, inclusive, que A arte de viajar é o livro de memórias por excelência, não somente porque o autor narra suas reflexões sobre o mundo e tem toda uma concepção de vida, mas porque ele ilustra essas reflexões de forma incrivelmente pessoal. Imaginem aquelas fotografias que nós batemos no meio da rua, capturando o telhado torto de uma casa, uma nuvem solta ou um transeunte qualquer: essas imagens amadoras De Botton também faz, e, mais ainda, ele as usa para ilustrar, de forma muito própria, aquilo que quer passar para os seus leitores.

O resultado disso é um livro muito bonito, modesto e ao mesmo tempo elegante, porque Alain de Botton – embora sempre escrevendo de forma muito pessoal – se apoia nas ideias de uma miríade de outras personalidades: filósofos como Nietzsche, pintores como Van Gogh, poetas como Baudelaire, ensaístas como John Ruskin. Provando que possui uma extensa sabedoria sobre a obra de todas essas pessoas, De Botton as utiliza para ilustrar e explicar vários aspectos inerentes ao exercício de viajar. Em outras palavras, ele transforma a filosofia que nós consideramos erudita e distante do cotidiano em algo totalmente próximo e útil.


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Gasolina (1940), outra tela de Hopper sobre a qual De Botton comenta de forma brilhante


Uma coisa é certa: você vai ficar com vontade de pegar o primeiro avião (ou o primeiro trem, ou o primeiro navio, ou o que quer que seja) e ir em direção a qualquer lugar. Lendo A arte de viajar você sente aquela vontade intensa de viver novas experiências em um lugar bem diferente daquele que você costuma ver todos os dias, no qual você costuma estar sempre. E esse desejo tem origem nas reflexões que De Botton traz para nós em seu livro, ideias que encontram suporte na Arte de um modo geral, na poesia, na arquitetura, e em todas as coisas que a Filosofia pode nos oferecer. Um verdadeiro banho de inteligência bem-humorada, útil e reflexiva.

O mais interessante desta obra é que o autor discorre sobre vários aspectos relacionados à atividade de viajar, e esses aspectos podem se estender à vida cotidiana de um modo mais amplo. Por exemplo, ele escreve sobre a expectativa antes de partir, sobre a curiosidade, sobre o exotismo, sobre o sublime, a posse da beleza e o hábito – neste último capítulo, o autor nos brinda com uma hilária mas construtiva análise da obra de Xavier de Maistre, Viagem ao redor do meu quarto. Todas as considerações sobre esses temas são extremamente bem-vindas, e a linguagem de De Botton, elegante e harmoniosa, envolvente, faz com que adoremos cada passagem, cada trecho.


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"No contato com esses elementos, leitores que em outras áreas de suas vidas seriam capazes de ceticismo e prudência regrediam ao otimismo e à inocência primordiais." (p. 16)


Se há uma coisa que eu repito com constância aqui no Blog, é esta: nunca consigo escrever uma boa resenha sobre os livros de que mais gosto. Sempre sai uma coisa canhestra, comentários volúveis, e nas releituras eu invariavelmente penso: "não era bem isso o que eu queria dizer sobre a obra". Já com isso em mente, selecionei um trecho do próprio A arte de viajar que, na minha opinião, resume bem as reflexões que o livro se propõe a fazer. Nas palavras do próprio Alain de Botton, eis:

"Se nossas vidas são dominadas pela busca da felicidade, talvez poucas atividades revelem tanto a respeito da dinâmica desse anseio – com toda a sua empolgação e seus paradoxos – quanto o ato de viajar. Ainda que de maneira desarticulada, ele expressa um entendimento de como a vida poderia ser fora das limitações do trabalho e da luta pela sobrevivência. Mas raramente se considera que as viagens apresentem problemas filosóficos – ou seja, questões convidando à reflexão além do nível prático. Somos inundados por recomendações sobre os lugares para onde viajar, mas pouco ouvimos sobre como e por que deveríamos ir." (p. 17)

A arte de viajar nada tem de manual ou de guia; sua proposta não é dar ao leitor conselhos do tipo "Faça isso, experimente aquilo". É muito importante frisar isso, ainda mais em se tratando de Alain de Botton, que ganhou a fama errada de autor de auto-ajuda filosófica. O que ele realmente propõe é uma conversa, uma abertura de olhar, estar atento às experiências do mundo cotidiano, o que pode facilitar e muito a nossa existência, transformando em arte e em beleza uma coisa que às vezes soa aparentemente mesquinha e desinteressante.

Boa viagem!


Abaixo, um trecho do livro que achei muito significativo:

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"A fotografia não pode, por si só, garantir o alimento necessário para a alma quando esta se encontra em contato com paisagens belas. A verdadeira posse de uma paisagem depende de um esforço consciente no sentido de observar elementos e entender a sua construção. Podemos muito bem ver a beleza apenas abrindo os olhos, mas sua sobrevivência na memória depende de quão intencionalmente a apreendemos. A câmera fotográfica embaça a distinção entre olhar e notar, entre ver e possuir; pode oferecer-nos a alternativa de um autêntico conhecimento, mas também pode, inadvertidamente, fazer parecer supérfluo o esforço dessa aquisição – porque sugere que já fizemos todo o trabalho ao meramente tirar a fotografia." (p. 219)

11 setembro 2012

Aquecimento: "A arte de viajar", de Botton

"Uma obra elegante e sutil, sem igual. Encantadora."

The Times

Para que o Gato Branco não fique de novo sem uma atualização por mais de 20 dias (coisa que, detesto admitir, vem ocorrendo com certa frequência), venho aqui compartilhar as primeiras impressões de uma das futuras leituras que pretendo realizar nos próximos meses; uma leitura que, sobretudo, promete uma deliciosa viagem literária que envolve reflexões sobre arte, filosofia, cultura e, claro, mochilão nas costas.

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Contrariando minhas expectativas de começar a estudar a sério nos próximos meses, acaba de chegar pelo correio este belíssimo livro do escritor suíço (mas crescido na Inglaterra) Alain de Botton: A arte de viajar. Presente de minha mãe! Pela lida que dei na sinopse da orelha e pela folheada sagrada que costumo dar nos livros antes de começá-los de fato, pude ver que Botton mistura aqui relatos pessoais de viagem com reflexões extremamente agradáveis sobre música, pintura e filosofia – criando, assim, um caderno riquíssimo de experiências de vida que ele apresenta ao leitor. O livro já havia sido lançado pela Rocco em 2003, mas agora ganha novo tratamento pela Editora Intrínseca.

A edição é linda, com dezenas e dezenas de fotografias em preto e branco, gravuras antigas e ilustrações clássicas, além de quadros de autores como Van Gogh e Loutherbourg – só para citar dois. No meio desse caleidoscópio de imagens de extremo bom-gosto e muito bem selecionadas, há a prosa elegante e requintada de Botton, reflexiva, ampliadora, que faz um passeio incrível de corpo e alma com o leitor. Fica a recomendação para quem está procurando um livro bom. Aliás, fica aqui a prova da sua qualidade: em magros cinco minutos, li a esmo uns poucos parágrafos que me deixaram uma impressão indelével, além de uma forte ideia para meditações. Eis um desses fragmentos que pesquei em pouco tempo, com apenas algumas rápidas passadas de página:

(...) vi pela primeira vez o Homem por meio de objetos grandes ou belos; pela primeira vez comunguei com ele com a ajuda deles. E assim fundou-se uma proteção e defesa seguras contra o peso da perversidade, as preocupações egoístas, modos rudes, paixões vulgares que nos agridem por todos os lados do mundo ordinário em que transitamos diariamente.

- William Wordsworth


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Alguém consegue adivinhar de quem é esse quadro reproduzido aí, na parte inferior da página direita? Boa leitura para todos! :)

18 junho 2012

As coisas da vida (60 crônicas), de António Lobo Antunes

"As ideias muito fortes desaguam nas certezas e onde estiverem certezas a arte é impossível." (p. 44)

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Quando faz parte de um laboratório de pesquisa e de um programa de monitoria na universidade, você precisa, ao mesmo tempo, estudar milhões de artigos científicos e redigir uma série de relatórios enfadonhos que só atrapalham aquilo que costumo chamar de "regime literário". É preciso sacrificar alguma dedicação à literatura para dar conta dos afazeres pragmáticos de um mundo que não tolera muito as meditações e reflexões ligadas à arte.

De todo modo, sempre tenho tempo para um livro de crônicas. Na última semana eu fiz uma coisa que nunca imaginei que faria um dia: li um livro do escritor português António Lobo Antunes, o silencioso rival do nobelizado José Saramago. Veio parar nas minhas mãos, como que por pura obra da Providência, o volume As coisas da vida – 60 crônicas (que reúne textos publicados em periódicos lusitanos entre 1998 e 2002). Confesso: atualmente não tenho coragem de encarar um romance de Antunes, mas, depois de ter lido uma das crônicas deste livro na própria loja, gostei de ver o autor se virando em textos de duas páginas e trouxe-o para casa.


Sinopse: Lobo Antunes consagrou-se como um dos mais importantes autores da língua portuguesa por meio de romances marcantes, em que ele subverte a narrativa para criar algo absolutamente novo. Mas há uma faceta menos conhecida do autor, que também merece destaque: Lobo Antunes como cronista. É justamente este o enfoque do livro As Coisas da Vida que a Alfaguara acaba de lançar no Brasil.

Ele fala de si, de relacionamentos e despedidas, num completo entrelaçamento entre realidade e ficção. Como resultado, cria textos onde pequenas passagens da vida ganham dimensão universal.


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Como eu disse antes, não tenho coragem de encarar um romance de António Lobo Antunes (nem o mais curto), e todas as pessoas que já ao menos folhearam um de seus livros entende o medo a que me refiro. Este português é dono de uma estética e uma estrutura narrativa que acabrunham qualquer leitor; é preciso ter fôlego de alpinista para ler, por exemplo, Ontem não te vi em Babilónia. Frases longas, entrecortadas por diálogos soltos, geralmente desconexos, linguagem floreada e outras coisas do tipo são a característica mais marcante dele. Como é muito difícil saber exatamente do que estou falando aqui, convido-os a abrir despretensiosamente um de seus romances. Aí verão.

Talvez por tratarem de assuntos mais cotidianos, menos abstratos, mais práticos e menos extensos, as crônicas de António Lobo Antunes são o que um leitor medroso como eu chamaria de "prato de entrada": ou seja, se quer entrar em contato com o autor mas acha que ele é denso demais, sirva-se de suas crônicas. E, neste caso, Antunes justifica sua fama, sua badalação na Europa, justifica por que é comparado com Saramago e por que é classificado como um dos maiores autores contemporâneos. Textos belíssimos povoam esta coletânea – inclusive, um dos que mais gostei leva o nome do álbum, As coisas da vida, sobre um escritor que lamenta o término do namoro ao mesmo tempo em que tenta fazer pouco caso de sua separação, num misto perfeito de comédia e drama.

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Uma das coisas que mais me chamaram a atenção na escrita de Antunes é a mescla que ele consegue fazer de realidade e ficção, concreto e abstrato, de tal modo que às vezes, no mesmo texto, parece que você lê uma crônica, às vezes parece que você lê um conto, às vezes parece mesmo que lê uma poesia em prosa – e assim caminha o livro, levando o leitor a trilhar uma estrada em que emerge o inconsciente do autor, sua vida, tão universal e tão identificável. Não há gêneros definitivos, não há estrutura definitiva: há, isso sim, um borbotão de palavras e idéias, fatos e experiências que prendem o leitor e não fazem com que ele solte o livro, tamanha é a delícia de viver esse cotidiano aparentemente banal transformado em pura arte.

A coletânea é dividida a partir de sete grandes temas: infância, literatura, relacionamentos amorosos, humor, cenas do cotidiano, guerra em Angola – da qual Antunes participou, na década de 70 – e memórias. Mesmo assim, mesmo com essa aparente cisão entre os assuntos, eu diria que todas as experiências do autor se encontram impregnadas nos seus textos de tal modo que nem sempre temos uma crônica apenas cômica, nem outra que fale apenas sobre amor, nem outra somente sobre memórias: antes disso, todos os temas se encontram confundidos na literatura de António Lobo Antunes, e tomar parte nesse caleidoscópio de vivências é o maior barato deste livro.

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Seria um esforço inútil citar aqui todas as crônicas que adorei ler (foram inúmeras, tanto que sou capaz de enumerar nos dedos as que me foram indiferentes), mas posso dar o título de algumas das melhores, só para que você, futuro leitor, possa se situar e lembrar de mim quando tiver o livro nas mãos: O paraíso, A Feira do Livro, Retrato do artista quando jovem (as duas), A compaixão pelo fogo, Em caso de acidente, Uma gota de chuva na cara, Como se o orvalho te houvesse beijado, O amor conjugal, Saudades de Ireneia, Os Lusíadas contados às crianças… Ah, sinceramente, desisto! Eu passaria o resto da noite a escrever os títulos das crônicas aqui!

Portanto, fica a minha sugestão de leitura para esse início de férias: As coisas da vida (60 crônicas), do lusitano António Lobo Antunes. Livro excelente, coletânea de ótima qualidade, textos que põem o leitor para refletir pelo resto do mês, embalsamado por aquilo que eu chamo de literatura de ponta: orgânica, viva, expressiva, pronta para ruir por terra seus preconceitos e suas ilusões. Quanto ao estilo do autor, nada convencional, não há por que se preocupar: é só uma questão de costume e estar pronto para recebê-la. Quando essa abertura se dá, pode apostar que o resultado será no mínimo gratificante – e, no máximo, arrebatador.

20 dezembro 2011

Vida roubada, de Jaycee Lee Dugard

"Amar é a parte fácil, difícil é viver sem o amor de que você precisa."

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Muitas vezes, a vida é palco de histórias que põem em cheque a afirmação de que a ficção é a única coisa capaz de nos surpreender e causar espanto. Não raro, episódios da realidade nos chocam e impressionam tanto quanto – ou até mesmo mais que – os enredos narrados nas ficções dos autores mais imaginativos. É aí que percebemos o quanto a vida pode ser pitoresca e dramática, em todos os sentidos, e não monótona e enfadonha, como gostamos de pintá-la freqüentemente.

Aconteceu de vir parar nas minhas mãos, por acaso, um livro intitulado Vida roubada (A stolen life, 2011), escrito pela norte-americana Jaycee Dugard. A capa simples da edição me despertou a curiosidade e resolvi ler o que estava escrito na orelha esquerda do volume. Embora não dê detalhes, a orelha é escrita pela própria autora, e de maneira muito objetiva ela expõe superficialmente o que ocorreu na sua infância. Na hora, pensei: este livro vai mexer comigo profundamente, tal como Os sobreviventes mexeu.

Li as memórias de Jaycee Dugard na própria livraria, em quatro dias. No começo, eu havia sentado para folhear aquelas páginas distraidamente e, quando dei por mim, estava passando da metade do livro. Não restava mais alternativa senão terminá-lo. Assim, todos os dias, ia quase religiosamente à livraria e lia mais um pedaço. Foi então que fiquei sabendo o que de fato aconteceu a Jaycee, com maiores detalhes, e não consegui mais largar a leitura.


Sinopse: Em 1991, aos 11 anos de idade, Jaycee Dugard foi raptada enquanto esperava o ônibus da escola. Pelos próximos 18 anos, sua vida se transformaria em um verdadeiro pesadelo. Abusada pelo homem que a seqüestrou, acabou se tornando mãe de duas crianças – e, de certa forma, também irmã, para tentar aplacar o imenso isolamento em que vivia. Encorajada a esquecer sua vida de antes do seqüestro, Jaycee não podia nem mesmo mencionar o seu nome. Este livro é o relato pessoal do que aconteceu durante as quase duas décadas em que a garota esteve mantida no cativeiro.


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Impressionante. Essa é a palavra que uso para qualificar este livro. Algumas passagens do texto soam tão irreais que parecem estar situadas no plano da ficção – mas não deixam de transmitir a sensação sólida de que são, sim, verídicas. Por exemplo, não é fácil assimilar a idéia de que uma garota de 11 anos de idade foi seqüestrada e resgatada somente 18 anos depois, aos 29: mas lá está o relato doloroso e conciso de Jaycee, que nos faz cair em si e pensar: "De fato, isso aconteceu".

Não é uma leitura fácil, tematicamente falando. É preciso estar com a cabeça em dia para, por exemplo, encarar os detalhes com que a autora narra os estupros a que ela mesma foi submetida ao longo de muitos anos. Em contrapartida, o que dá alívio ao leitor é a sensação de superação de Jaycee, pois através de seu livro é possível ver claramente que ela se enxerga acima de tudo o que relata. Esse distanciamento faz com que as páginas escritas não fiquem mais dolorosas do que já são por conta própria. Em muitas passagens (aliás, no livro inteiro) fica clara a vontade insistente da autora de superar esse trágico incidente que aconteceu na sua vida.


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Jaycee Dugard, antes e depois do seqüestro


A escrita de Jaycee Dugard é objetiva e concisa sem, no entanto, deixar de ser literária e até mesmo agradável. Às vezes parece que as pessoas que passam por suplícios assim são compensadas com o dom da escrita, para que então possam contar suas histórias inacreditáveis ao público. De qualquer modo, Jaycee narra suas memórias de cativeiro em um tom que não é nem um pouco afetado, mas que carrega consigo um toque qualquer de lirismo – para começar, boa parte do relato é contado no presente, como se fosse a garota que estivesse a narrar a história em tempo real. O resultado é uma escrita fluída e muito bem-vinda. Além disso, o texto é recheado de frases curtas e diretas (um detalhe que achei interessante).

Esse relato no presente é intercalado por trechos que a autora designou de Reflexões, em que, como o próprio nome sugere, Jaycee Dugard passa a limpo alguns pensamentos acerca daquilo que acabou de escrever. É um exercício bem interessante, que ficou extremamente atraente no seu livro de memórias, porque a autora passa a se valer de uma consciência que ela não tinha na época dos acontecimentos descritos.


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O seqüestrador Phillip Garrido e sua esposa, Nancy, cúmplice no crime


No começo do livro – principalmente nos momentos logo após o seqüestro – é fácil achar Phillip Garrido o maior cretino de todos, um ímpio e asqueroso ser humano. No entanto, esse é um julgamento que parte do próprio leitor, não da autora. Jaycee deixa transparecer um grande ressentimento para com Garrido, o que é perfeitamente lógico, mas não cai na armadilha de transformar seu relato em uma sucessão de trechos em que julga seu seqüestrador. Qualquer pessoa que saiba alguma coisa de psicologia é capaz de perceber quão doentia e congestionada estava a mente de Garrido. Esse estado precário de saúde mental do criminoso está longe de eximi-lo da culpa que teve, mas ao menos explica boa parte de seus atos.

Em suma, recomendo este livro, Vida roubada. É um relato profundo e emocionante sobre esse caso famoso que teve lugar nas manchetes do mundo inteiro em meados de 2009, quando Jaycee foi resgatada do cativeiro. E a obra é também, em última instância, um retrato de nossa sociedade abatida, que sempre gerou muitas tragédias no plano das relações humanas.


A quem estiver interessado, disponibilizo aqui a introdução e o primeiro capítulo do livro. Vale a pena conferir.


Vida roubada (2011)

Jaycee Dugard

304 páginas

Editora Best Seller

Nota: 10/10

10 outubro 2011

Os devaneios do caminhante solitário, de Jean-Jacques Rousseau

"A felicidade é um estado permanente que não parece feito para o homem neste mundo." (p. 116)

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Às vezes tenho a impressão de que os melhores livros que eu leio são aqueles que compro na total impulsividade. Aqueles nos quais simplesmente bato os olhos, vejo a capa, abro-o, folheio durante dois minutos e penso: "Vou levar este". Pode ser que eu nunca tenha sequer ouvido falar no livro, ou no autor. Mas ele me fisga de tal maneira que me sinto totalmente atraído por ele, a ponto de querer levá-lo para casa.

Foi isso o que aconteceu com Os devaneios do caminhante solitário (Les Revêries du Promeneur Solitaire, 1782), escrito pelo genial filósofo e músico suíço Jean-Jacques Rousseau. Comprei-o mais por impulso do que por qualquer outra coisa; nesse caso, eu obviamente conhecia o autor, mas não sabia da existência desse título de sua autoria. Puxei-o da prateleira da L&PM, abri e comecei a ler algumas páginas aqui e acolá. Caí exatamente no seguinte parágrafo, que me cativou logo de cara:

Vi muitos que filosofavam de maneira muito mais douta que eu, mas sua filosofia lhes era, de certa forma, estranha. Querendo ser mais sábios que outros, estudavam o universo para saber como este estava arranjado, como teriam estudado alguma máquina que tivessem encontrado, por pura curiosidade. Estudavam a natureza humana para dela poder falar com sabedoria, mas não para se conhecerem (…) [p. 29]

Essas e outras poucas linhas foram o suficiente para que eu pensasse: "Este livro será a minha leitura da semana." Finalizei-o ontem e não me arrependi nem um pouco. É interessantíssimo.


Sinopse: Publicado postumamente, este grande testamento inacabado é considerado pelo próprio autor como a conclusão de sua obra. Diferente de seus outros escritos, marcados por discursos políticos, Os devaneios são relatos líricos e serenos, emotivos, que retratam sua sensação de isolamento e estranheza pelas críticas à sua obra e às suas posições humanistas.


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Publicado quatro anos depois de sua morte, Devaneios é uma espécie de diário-testamento de Rousseau, no qual ele escreve todas as suas impressões sobre a própria vida e a condição humana na Terra. Passeando por grandes temas como a mentira, a felicidade, a solidão, a meditação e a hipocrisia, Rousseau transfere para o papel tudo o que sentia e pensava a respeito desses assuntos, utilizando a linguagem cristalina e poética que caracterizou boa parte de suas principais obras. Além disso, a fim de deixar seus testemunhos ainda mais ricos, não raro ele ilustra suas teorias descrevendo pequenos acontecimentos cotidianos no qual esteve presente – caminhadas, visitas de amigos e alguns incidentes esporádicos.

O livro é dividido em dez caminhadas, cada qual abarcando um tema específico, alguns deles aparecendo mais de uma vez. O curioso é notar que o termo "caminhada" não tem sentido literal, mas metafórico, como se correspondesse a uma espécie de trilha filosófica e meditativa. Rousseau adorava passear a pé por campos e bosques floridos, e resolveu estender o conceito de caminhada também aos seus devaneios. O processo criativo de cada capítulo me pareceu interessantíssimo: fiquei com a sensação de que o autor puxava a pena e o papel sem a menor idéia do que escreveria naquele dia, deixando sua mente vagar a esmo dentro de determinados assuntos. A partir daí, sua caneta ia apenas acompanhando a torrente de pensamentos que o acometia – sem, no entanto, perder o foco.

Achei extremamente prazeroso acompanhar esses devaneios de Rousseau. Ele escreve suas impressões íntimas de uma forma tão simples, tão inteligível, tão sincera, que é impossível não sentir um ótimo sabor em suas palavras. Excelente redator, sem dúvida, Rousseau mistura sua filosofia de vida à experiência cotidiana, sem com isso almejar alcançar status de filósofo. Aliás, no início do livro o próprio autor confessa que pouco lhe importa se essas páginas serão lidas por alguma pessoa, ou se serão destruídas ou transmitidas às gerações futuras: o que importa é sentir o prazer imediato que ele tem ao escrevê-las. O puro prazer de redigir suas impressões.


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"Ao me libertar de todas essas armadilhas, de todas essas vãs esperanças, entreguei-me por completo à despreocupação e ao repouso do espírito que sempre foram meu interesse mais dominante e minha inclinação mais duradoura. Deixei a sociedade e suas pompas, renunciei a todo adereço (...), sem relógio, sem meias brancas, penteados, uma grossa veste de pano, e melhor que tudo isso, extirpei de meu coração os desejos e as cobiças que dão valor a tudo o que eu abandonava." [p. 31]


O tom que sustenta Os devaneios de um caminhante solitário é, de certa forma, bastante amargo, como se Rousseau estivesse profundamente decepcionado com a rejeição de sua pessoa pela sociedade em que vivia. De fato, esse sentimento fica claro em diversas partes do texto (na verdade, durante o livro inteiro), em que ele afirma se manter forçadamente afastado dos demais homens. Isolado em sua solidão contemplativa, Rousseau assume o papel de um telespectador rejeitado pela platéia da qual faz parte. A propósito, a frase que abre o livro é esta: "Eis-me, portanto, sozinho sobre a terra, sem outro irmão, próximo, amigo ou companhia que a mim mesmo."

Como conseqüência disso, dentre outras coisas, ele começa a apontar no seu texto aquilo que o diferencia dos outros indivíduos: qualidades e defeitos que ele sentia perceber apenas nele, e que infelizmente não via em outra pessoa com a qual pudesse compartilhá-los. Convencido de que não estava inserido na sociedade parisiense do século 18, Rousseau se recolhe e se defende das críticas que costumava receber pelas suas teorias filosóficas e políticas.

Para entender melhor isso, é necessário ter conhecimento de um fato curioso que marcou o final da vida deste grande filósofo. Nos seus quatro últimos anos, Rousseau acreditava existir uma espécie de complô contra sua pessoa, um complô invisível que o criticava e tirava de suas mãos os prazeres mais simples da vida, além de afastá-lo do convívio humano. Intuição delirante, sem dúvida, que compõe o estofo dos Devaneios. É sempre se referindo a esse complô onipresente (e culpando-o) que Rousseau se diz traído, abatido e isolado da sociedade.


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"(...) sejamos sempre verdadeiros, mesmo com todos os riscos. A justiça está na verdade das coisas; a mentira é sempre iniqüidade, e o erro é sempre impostura quando provocamos algo que não segue a regra do que devemos fazer ou crer: e seja qual for o efeito resultante da verdade, sempre somos inocentes quando a dissemos, pois nada lhe acrescentamos de puramente nosso." [p. 48]


Os devaneios do caminhante solitário possui uma qualidade literária indiscutível. A obra (que é pequena, mal chegando às 150 páginas) pode ser lida como uma espécie de relato intimista, ou algo do gênero. A idéia do complô inimigo que Rousseau cultivava dá a seu texto um lirismo qualquer, um toque poético quase ficcional (muito embora essa sensação fosse verídica). Contribuem para esse lirismo a visão humanista e a serenidade característica do autor – que nos fornece, especialmente neste livro em questão, um panorama especial do que um homem que se sente rejeitado pela sociedade pode apresentar.

Recomendadíssimo para quem quer uma dose pequena e rápida de boa literatura e de boas reflexões sobre a vida e os homens.

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Para ilustrar esta postagem, colei ao longo do texto alguns quadros do pintor francês Henri Rousseau [1844-1910], cuja temática, a vida natural, muito coincide com as ideologias de Jean-Jacques Rousseau.


Os devaneios de um caminhante solitário (1782)

Jean-Jacques Rousseau

Editora L&PM

Nota: 10/10