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05 janeiro 2022

Os amores difíceis, de Italo Calvino



É um dos melhores livros de contos que já tive o prazer de ler.

Calvino transforma a realidade cotidiana, em geral dura e difícil, em coisa suave, poética, reflexiva. Cada conto é uma verdadeira brisa fresca. Aqui não há grandes conflitos, tramas complexas, enredos surpreendentes: há a beleza e o mistério cotidianos, escondidos em cada pedaço de vida, nas relações banais, nos pensamentos, nos sonhos e receios de cada um. Nesse ponto, Calvino lembra um Erico Verissimo da década de 30.

Por baixo dessa superfície bonita e cândida das histórias, há o melhor de tudo: as ponderações filosóficas, as críticas sociais, a complexidade da língua escrita e falada, o medo da finitude, o estranhamento, o abismo entre o individual e o social.

A aventura de um soldado escancara o machismo e a violência à mulher que às vezes surge de uma aparente paquera casual: uma mulher senta ao lado de um soldado em um vagão de trem vazio, e ele considera isso um sinal de sedução; então o rapaz começa a encontrar artifícios para passar a mão nela discretamente, em incursões cada vez mais acintosas.

A aventura de uma esposa é um conto surpreendentemente feminista, em que a personagem principal, casada, passa uma noite divertida e casta com outro homem, e começa a refletir sobre ser mulher entre homens, e sobre seu papel e suas vontades no meio das convenções sociais que tolhem seu jeito de ser (é um dos contos mais belos do livro, na minha opinião).

A aventura de um fotógrafo, conto assustadoramente visionário, é uma mensagem crítica aos nossos dias atuais de Instagram, de obsessão por uma vida de registros, fotos, vídeos.

São 15 contos no total. Difícil eleger um favorito. Calvino é um verdadeiro alento na literatura. Seu livro de contos é um tesouro.

Trecho que destaquei:

Porque, uma vez que você começou, não há nenhuma razão para parar. O passo entre a realidade que é fotografada na medida em que nos parece bonita e a realidade que nos parece bonita na medida em que pode ser fotografada é curtíssimo. Se você fotografa Pierluca enquanto ele está fazendo um castelo de areia, não há razão para não fotografá-lo enquanto está chorando porque o castelo desmoronou, e depois enquanto a criada o consola fazendo-o encontrar no meio da areia uma casquinha de concha.

É só você começar a dizer a respeito de alguma coisa: "Ah, que bonito, tinha era que tirar uma foto!", e já está no terreno de quem pensa que tudo o que não é fotografado é perdido, que é como se não tivesse existido, e que então para viver de verdade é preciso fotografar o mais que se possa, e para fotografar o mais que se possa é preciso: 1) viver de um modo o mais fotografável possível, ou então 2) considerar fotografáveis todos os momentos da própria vida. O primeiro caminho leva à estupidez, e o segundo, à loucura.

07 outubro 2020

Oryx e Crake, de Margaret Atwood

Devo começar esta resenha dizendo: é um livro impressionante. Maravilhosamente bem escrito, maravilhosamente bem narrado, perturbador, instigante e sugestivo. Conseguiu me fisgar desde as primeiras páginas. Margaret Atwood tem um talento ímpar para confeccionar uma prosa elegante e precisa que nos captura e nos deixa completamente à mercê do que ela tem para contar. Os seus melhores livros são assim, uma verdadeira arapuca, no melhor sentido do termo, porque você entra neles e não consegue mais sair, tamanha é a sedução dos mundos fantasiados por essa autora canadense.

E, bem, é sempre importante ouvir o que ela tem a nos dizer. Atwood faz parte daquele grupo de escritores cuja mensagem é sempre urgente.


Ilustração de Sam Chivers


Oryx e Crake tem como personagem principal um sujeito autointitulado “Homem das Neves”. Ele é basicamente o último representante do Homo sapiens na Terra e passa os seus dias empoleirado no alto de uma árvore, à beira-mar, sobrevivendo como pode e contemplando melancolicamente o que sobrou da civilização como a conhecemos – ele encontra destroços que chegam até a praia e vê prédios abandonados ao longe, caindo aos pedaços, ao pôr-do-sol. Nessa vida reduzida a pó que parece muito a de um náufrago sem ilha, o Homem das Neves cuida de uma tribo humana evoluída que mora próximo a ele, na praia: são homens, mulheres e crianças perfeitas, produzidas para serem perfeitas, inocentes e bondosas, uma espécie de versão 2.0 da humanidade, com atributos corporais e comportamentais ligeiramente alterados. Mas, o leitor logo se pergunta, como as coisas chegaram até esse ponto? Quem é o Homem das Neves e por que ele se dedica a passar seus dias cuidando desses estranhos vizinhos?

À medida que avança na narrativa, o leitor ou a leitora vai conhecendo as respostas para essas perguntas, porque o eixo principal da história é uma narração em retrospecto. É quando passamos a saber que o Homem das Neves na verdade se chamava Jimmy e vivia uma vida muito parecida com a nossa – a minha e a sua. Ele ia à escola, seus pais trabalhavam, ele gostava do seu bicho de estimação (não vamos entrar aqui no mérito de que bicho de estimação era esse) e tinha fama de ser alguém engraçado entre os colegas da mesma idade. O que muda completamente o seu destino (e o de toda a civilização humana) é o fato de Jimmy ter conhecido Crake e Oryx na adolescência, cada um a seu modo, cada um no seu tempo; e de, já adulto, ter aceitado embarcar em um projeto ambicioso capaz de colocar de cabeça para baixo todo o planeta.

Contar mais do que isso pode estragar a experiência da leitura; e se tem uma coisa que eu de fato não gostaria de fazer é estragar a experiência de quem pretende ler esse livro. Porque se trata de uma obra-prima. Estamos falando de um romance Sci-Fi/distópico que seguramente está no mesmo patamar de Admirável Mundo Novo e Fahrenheit 451.

A quem não pretende entrar na piscina sem antes checar a temperatura, porém, aqui vai uma informação útil: Oryx e Crake (2003) é o primeiro volume de uma trilogia. O segundo é O ano do dilúvio (2011), e o terceiro, Maddadão (2013).


Ilustração de Jason Courtney


O fato é que Oryx e Crake é uma porta aberta para reflexões profundas sobre o limite ético das pesquisas científicas (ou, melhor, sobre a falta desse limite) e sobre o uso que nós fazemos das tecnologias que somos capazes de criar coletivamente com base nessas mesmas ciências. De modo geral, é um livro que nos mostra que de fato é possível subjugar a natureza a nosso bel-prazer, mas que isso nos leva a todas as consequências previsíveis e imprevisíveis dessa ambição, e que o perigo reside aí, no caminho ético degradante que vamos trilhando sem perceber. É também um convite à crítica sobre como o sistema neoliberal pode cooptar as universidades e os institutos científicos para os seus domínios e transformá-los em verdadeiras indústrias especializadas, aprofundando desigualdades sociais e criando um mundo instrumentalizado para o lucro, em prol dos que podem pagar pelos seus luxos, e onde as liberdades individuais parecem estar sempre um passo à frente da moral.

O livro retrata uma realidade onde, por exemplo, as academias de arte estão em franca decadência, onde a competição entre os grandes conglomerados farmacêuticos prospera como fungo no pântano, e onde as pessoas podem assistir com relativa facilidade a qualquer coisa na internet (qualquer coisa mesmo, desde noticiários com jornalistas sem roupa até suicídios ao vivo e abusos sexuais de todo tipo. Sim, pense em uma deepweb que aos poucos vai alcançando a superfície da internet, porque qualquer tipo de regulação é impensável nessa sociedade de liberdades irrestritas).

Mas este é um mundo que prospera (ou decai, depende do ponto de vista) pela ordem da biomedicina atrelada ao sistema capitalista. As pessoas pagam caro pelos produtos farmacêuticos alcançados graças à ciência, e é isso que mantém o mercado ativo – um mercado desnaturalizante, porque busca reverter e corrigir todas as pequenas e grandes falhas do nosso corpo, sem ligar para as consequências a longo prazo envolvidas nessa empreitada. Toda a fragilidade humana que vem com o nosso medo de morrer é explorada pelo mercado em Oryx e Crake. Será este sistema muito diferente no nosso mundo real?


Ilustração de Jason Courtney


Além de crítica social, o livro é uma digressão filosófica sobre as bases da ciência biológica. No meu mundo idealizado, Oryx e Crake deveria ser leitura obrigatória em qualquer curso que envolvesse os estudos de bioética. Um dos questionamentos que saltam das páginas é, por exemplo: uma vida criada artificialmente, em condições ambientais artificiais e invariáveis, é vida, no sentido biológico da palavra? Ou é simplesmente um produto? Ou, ainda: a partir de que ponto podemos deixar o corpo padecer de males naturais, sem a intervenção imperiosa e intrusiva da tecnologia? Trata-se do mesmo velho enigma que nos assombra desde os primeiros passos do Iluminismo: “Pode o ser humano ocupar o lugar de Deus?”

O livro chega a dar medo em alguns momentos. Porque tudo o que Margaret Atwood faz – e não é pouca coisa – é juntar os elementos que nós temos agora e projetá-los no futuro, quando estarão mais desenvolvidos. É algo do tipo: “Se nós continuarmos por aqui, as consequências serão essas, o mundo que teremos será esse”.

E o resultado dessa “ficção especulativa” (como ela mesma gosta de chamar) é perturbador. Porque é muito familiar. Impossível não identificar o nosso mundo naquelas páginas que mostram um mundo tão submisso ao dinheiro, ao poder, aos poderosos, à tecnologia usada arbitrariamente. Bairros de luxo projetados como autossuficientes e isolados do resto da cidade? Já temos. Manipulação genética praticamente sem freios? Logo ali. Desprezo pelo conhecimento “inútil” da arte? Galgando espaço a cada dia. Transformação da educação em uma fábrica de alunos que possa atender ao mercado produtivista? Prática em ascensão agora mesmo. (A propósito, a ideia do “Leilão de Alunos” é de um sarcasmo atroz.)

O enredo que embala todas essas críticas e ponderações filosóficas é atraente e prende a atenção. Muito cedo você se vê envolvido na trajetória de Jimmy, o personagem principal, e no enigma que as duas pessoas mais próximas a ele representam – as que dão nome ao livro.

Oryx e Crake é para ser lido com calma, porque exige um leitor paciente e atento. É como um baú de tesouro, que você encontra escondido e sente que deve passar horas e horas manuseando e apreciando o que está lá dentro.

E, sim, o livro precisa de um leitor disposto a dar de cara com o que podemos estar fazendo de pior neste século XXI.





08 agosto 2020

'Incidente em Antares', tão atual.

Às margens das 100.000 mortes de brasileiros vítimas de covid-19 neste 2020 histórico, cai como um raio na minha cabeça a lembrança de um livro do escritor que mais amo, Erico Verissimo. A lembrança veio de repente, deflagrada por algo que custei a discernir, e ainda estou me perguntando por que o romance não me ocorreu antes, já que motivos para isso não faltavam. 

Falo de um dos seus últimos livros publicados em vida, Incidente em Antares (1971): um realismo fantástico no melhor estilo latino-americano, daquela estirpe que mistura tudo de pitoresco e assombroso na mesma panela – como coisas caindo do céu sem explicação, tapetes voadores, doenças misteriosas, aparições e desaparições repentinas e, como não poderia deixar de ser, nossa trágica história militar ditatorial associada à opressão contra a vida de pessoas comuns que pulsam no contracontrole, arranjando um jeito de viver o dia-a-dia apesar das torturas – físicas e psicológicas – perpetradas pelo poder autoritário. A história do realismo fantástico na literatura da América do Sul é íntima da história das veias abertas do nosso continente; julgo até que este gênero sempre se alimenta destas veias, com tudo o que elas representam para a nossa identidade. 

Porque, como na ficção científica, no realismo fantástico não interessa o absurdo ou a imaginação por eles mesmos: interessa falar dos problemas que já nos massacram no agora, na mais palpável das realidades, e que são ilustrados, às vezes pela didática, às vezes pela ironia e pelo sarcasmo, com coisas que não existem – doenças absurdas do sono, chuvas torrenciais que duram anos seguidos ou pequenos animais que sugam a alma das pessoas e se escondem sob os travesseiros à noite. 


Incidente em Antares é a história da cidade fictícia de Antares, interior do Rio Grande do Sul, e de seus habitantes, pessoas comuns com as mais ordinárias das ocupações e dos prazeres. Mas a história do livro não tem nada de ordinária. Pulando o denso retrato histórico a que o livro se propõe, podemos dizer que ocorre o seguinte: sete pessoas muito conhecidas entre os habitantes de Antares morrem e, como os coveiros estão em greve, dada a péssima – ridícula, mesquinha, interesseira – administração pública, os defuntos eventualmente levantam dos seus esquifes e se recusam a ser sepultados de maneira tão vil, tão indigna, tão desumana, às pressas. 

Como um movimento político organizado, ainda que composto por pessoas muito diferentes entre si, os sete mortos de Antares saem do cemitério e começam a perambular pela cidade, perturbando o prefeito e as demais autoridades do município, e visitando parentes para lhes explicar que a situação política do país está em frangalhos – um apelo para que os vivos se deem conta do abuso de poder daqueles que não conseguem nem enterrar os cidadãos que os escolheram para governar. 

Pois é. A certa altura, alguém fala isto: “O progressismo repousa essencialmente sobre a morte. Os vivos são sempre e cada vez mais governados pelos mortos”. (Está grifado na minha edição, vejo agora não sem tomar um susto.) 

Há conservadores em Antares, incluindo os apadrinhados do prefeito e o próprio prefeito (um major do Exército), que se recusam a acreditar no óbvio: que os mortos estão vivos, estão protestando e estão trazendo à luz toda a podridão (moral) humana dos vivos. Há quem diga que se trate de uma mentira, de uma alucinação coletiva, e sugira mesmo que seja alguma coisa ligada a “esquerdistas” perturbadores da ordem republicana. Está no livro. 

Um dos aliados do prefeito, diante de uma comitiva de mortos e da escalada de vivos que protestam, diz para o seu cúmplice (uma frase que poderia estar no obituário do Brasil hoje): “Não há de ser nada, major. O grosso da população desta terra nos apoia”. 

Mesmo com a óbvia indicação de que alguma coisa deve ser feita imediatamente para resolver o problema, os “patrões”, informados da situação pelo prefeito incompetente, decidem não conceder o aumento do salário dos coveiros – “são problemas distintos”, dizem. E assim o caos se instala entre a iniciativa privada, a gestão pública e os cidadãos requerentes, sem que as duas primeiras consigam juntar esforços para solucionar um problema sanitário e obviamente ético. 

Por fim, no ápice do livro, há uma marcha dos mortos de Antares em direção ao grande coreto da praça do centro da cidade, acompanhados por parentes e demais populares, clamando pelos seus direitos de morrer em paz, com justiça e com responsabilidade. Agora gosto de imaginar, talvez assim como Eliane Brum, que metaforicamente 100.000 pessoas possam ter o direito de marchar em direção a Brasília pelos mesmos motivos, reivindicando as mesmas coisas com a ajuda dos vivos que restaram e que podem lutar por eles. Como é claro, Incidente em Antares é um livro crítico da ditadura militar brasileira, e não é por coincidência que possa ser um livro crítico ao Brasil de hoje.

05 maio 2020

Aventuras urbanas em sebos

Sebo O Geraldo, em Fortaleza-CE


Hoje pensei com saudade sobre esse hábito, comum entre alguns leitores, de perambular pela cidade à procura de sebos escondidos em pequenas ruas e travessas que mal aparecem nos mapas urbanos. E lembrei com nostalgia de garimpar nesses lugares, por entre amontoados de brochuras descolando e lombadas desbotadas, segurando o espirro, um livro bom o suficiente para fazer as férias da escola valerem a pena.

Rastrear e conhecer pequenos sebos espalhados pela cidade é uma experiência já comprometida, claro. Esse hábito entrou em declínio quando todos nós descobrimos que é muito mais fácil comprar um livro usado clicando algumas vezes o botão do mouse do nosso computador e recebendo, na porta de casa, alguns dias depois, um pacote com o livro dentro. A praticidade da internet suprimiu o esforço de ter de sair do conforto do nosso lar em direção ao ambiente incerto das livrarias físicas, onde podíamos não encontrar o que estávamos procurando.

E assim definharam e morreram aos poucos os sebos físicos; e, com eles, as histórias das peripécias de leitores e livreiros que se procuravam às tateadelas pelos labirintos da cidade, ignorando o fato de serem ignorados pelo movimento urbano caótico de todo dia. Esses sebos acabaram migrando para uma versão digital, todos reunidos em um catálogo só – funcionando à perfeição, diga-se de passagem – listados com a impessoalidade do mundo dos algoritmos. Ganhamos em praticidade e perdemos em experiência.

Daqui a um tempo, quem não viveu fisicamente o circuito dos sebos ou nunca experimentou a sensação de ficar encolhido entre três prateleiras enormes cheias de livros velhos cheirando a mofo, em uma casa antiga com piso de tacos soltos – uma experiência tão impressionante que era meio impossível não se perguntar “O que diabos eu estou procurando, mesmo?” ou “Será que o dono da casa esqueceu que eu estou aqui?” – não acreditará nas histórias que eu tenho para contar sobre livreiros tão antigos quanto os próprios livros usados, livros do século XIX guardados em cofres de metal com aqueles botões de senha que você tem que rodar para abrir, sebos inusitados – um deles incluía o banheiro de uma casa, e, sim, eu tive que procurar D. H. Lawrence dentro de um box de chuveiro e Michael Crichton debaixo de uma pia –, sebos suspeitos – já fui advertido por um livreiro idoso que não queria que eu entrasse por uma porta do segundo andar da sua casa, sob o risco de ter de ver “coisas desagradáveis lá dentro” – e idas ao Centro à procura de revender meus Erico Verissimo – Incidente em Antares e Noite, lembro ainda quais eram –, barganhando com um homem que fumava um charuto provavelmente falsificado e que me dizia, entre uma baforada e outra, que a leitura seria a minha ruína, porque era a ruína de todos os acadêmicos – sábio vendedor de livros, conhecia a causa, alertou um adolescente para o perigo que estava por vir, e eu não lhe dei ouvidos.

Atualmente, isso já parece inacreditável mesmo para mim. Quem dirá que um dia existiu aventura no simples fato de comprar um livro? Mapas imprecisos que eu fazia à mão – nada de GPS, sequer existiam –, ônibus cheios de personagens atípicos, pessoas estranhas, becos sem saída, ruas sem fim, estabelecimentos escondidos, portas para além das quais eu não sabia o que esperar. Se eu tivesse desaparecido naquela época de peregrinação literária, ninguém poderia se dar por surpreso. Mas se envolvia aventura, a ida aos sebos envolvia também drama, às vezes tragédia e comédia urbana, e às vezes – muitas vezes – as histórias eram bem serenas, um peixe beliscando a superfície de um lago sob o sol do verão.

Um dos últimos sebos que visitei foi com o intuito de presentear um amigo com um livro que já estava fora de circulação. Peguei um ônibus e desci vinte minutos depois em uma rua curta e vazia cercada por altas antenas de rádio e televisão, em um bairro de Fortaleza conhecido justamente por elas. O sebo era uma casa de aspecto colonial ampla, arejada; de manhã o sol batia de frente, bem na varanda da entrada, onde um gato dormia entre vasos de taiobas. O som da campainha parecia ter atravessado a história dos séculos. Entrei, a própria livreira me recebeu: uma mulher idosa, grande, imponente e muito simpática. Diferentemente das outras vezes, em outros lugares, nesse dia eu achei com uma rapidez impressionante o livro que eu estava procurando – achei o livro antes mesmo de a dona me dizer onde ele estava.

O recibo eu guardo até hoje, talvez como lembrança daquele dia. Quando paguei, a mulher me olhou com cuidado e perguntou se eu queria um café com torradas. Sentamos na varanda, a uma mesinha velha de madeira que ficava na sombra, e ela começou a fazer carinho no gato e a me contar do problema de ter de lidar com o computador para cadastrar no site dos sebos virtuais aquela montanha colossal de livros que ela tinha em casa – cadastrar um por um –, uma casa que leitor nenhum visitava mais porque os grandes conglomerados praticavam preços que anulavam completamente a concorrência. Assim, seria impossível se livrar de todos aqueles livros antes de se mudar para a casa dos filhos, coisa que ela planejava; e nem ela esperava que fosse vender todos, aliás, por isso já estava dando alguns. Depois ela falou do marido falecido com toda a serenidade do mundo, o que me pareceu muito bonito, e de como ele lia muito, e que na verdade a maioria daqueles livros era dele, principalmente os do Carl Sagan, que ele adorava. Falou do filho engenheiro e da filha dentista. Falou da época em que ela lecionava em uma escola normal. Falou das colegas professoras dela na escola e dos livros que eram proibidos para as moças naquela época (dentre eles, ‘Caminhos cruzados’, de Erico Verissimo, um dos meus livros favoritos de sempre, o que depois deu início a um novo galho da nossa conversa) e falou também da música que os bons livros tocam sem que a gente perceba.

Bebi café como nunca, saí de lá muito depois da hora do almoço, e antes mesmo de pegar o ônibus de volta eu já tinha a certeza de que um episódio como aquele nunca mais ia acontecer de novo.


20 novembro 2017

Hollywood, de Charles Bukowski



"O filme aparecia numa pequena tela que parecia um aparelho de TV. Passavam os créditos. Depois, vinha meu nome. Eu fazia parte de Hollywood, pelo menos por um pequeno instante. Era culpado."

Vivendo tempos atarefados que sugam toda a minha disposição para escrever o que quer que seja, descobri que a leitura de um bom Charles Bukowski é suficiente para me devolver alguma motivação para continuar alimentando este blog. O velho maldito alcoólatra ainda consegue me maravilhar com as suas palavras sinceras e diretas, e é somente um escritor do seu calibre que me faz sentar – depois de tanto tempo parado – diante de um editor de textos em um domingo à noite para esboçar uma resenha breve sobre um livro.

O Bukowski que terminei de ler hoje foi Hollywood (Hollywood, 1989), o seu último romance protagonizado pelo carismático (mas às vezes não tão simpático) Henry Chinaski, alter ego mundialmente famoso do velho Buk, tão alcoólatra, tão pervertido e tão ferino com as palavras quanto o seu criador de carne e osso.

A trama do romance é baseada nas experiências que Bukowski viveu enquanto escrevia o roteiro do filme Barfly, lançado em 1987, dirigido por Barbet Schroeder e protagonizado por Mickey Rourke e Faye Dunaway. Suas experiências como roteirista, na vida real, incluíram lidar com produtores e atores excêntricos, adaptar-se aos cortes de orçamento e encarar a nostálgica sensação de revisitar, através do próprio roteiro com traços autobiográficos, uma parte já distante de sua vida – os anos de alcoolismo mais pesados, a pobreza cruel, a incerteza de um futuro que só parecia querer condená-lo à miséria. Hollywood é basicamente sobre essa experiência de escrever um filme nos bastidores do cinema marginal de Los Angeles. No livro, temos Chinaski escrevendo o roteiro do filme A dança de Jim Bean, mas parece ser Bukowski quem está falando sobre ter escrito o roteiro de Barfly para a indústria do cinema.

Aliás, arrisco dizer que, em Hollywood, Chinaski e Bukowski se confundem mais do que em qualquer outro romance do escritor. Aqui, Chinaski é a transcrição literária exata do próprio autor que lhe dá vida: as loucuras feitas na jovem idade adulta são virtualmente as mesmas, o amor pela bebida é o mesmo, a relação com a escrita é semelhante. Frequentemente, o leitor se pega lendo “Bukowski” no lugar de “Chinaski”. Para quem conhece a obra do autor, essa simbiose nunca precisou ser disfarçada ou negada: é justamente a semelhança clara entre Bukowski e Chinaski que dá o sentimento necessário para que seus livros sejam adorados. E para que soem realmente autênticos.

"O roteiro ia bem. Escrever nunca foi trabalho para mim. Sempre fora assim, desde quando me lembrava: ligar o rádio numa estação de música clássica, acender um cigarro ou charuto, abrir a garrafa. A máquina fazia o resto. Eu só precisava estar ali. Todo o processo me permitia seguir em frente quando a vida oferecia tão pouco, quando a própria vida era um espetáculo de horror. Sempre havia a máquina para me acalmar, conversar comigo, me entreter, salvar meu rabo. Basicamente, era por isso que eu escrevia: para salvar meu rabo, salvar meu rabo do asilo de doidos, das ruas, de mim mesmo."

Faye Dunaway, Charles Bukowski e Mickey Rourke nos bastidores de Barfly, em 1987

Entre as relações conturbadas – e algumas até amistosas – com produtores, diretores, atores e atrizes caprichosos e geniosos, o Chinaski que salta das páginas é um velho simpático, reservado, bondoso e finalmente sossegado. Ele vive sua vida pacata entre a máquina de escrever, as garrafas de vinho, o hipódromo, sua esposa e os gatos de estimação, aparentando – como sempre aparentou – não querer mais nada além do que já tem. Ele está visivelmente equilibrado financeiramente e sua carreira como escritor maldito parece consolidada. Quando o diretor underground Jon Pinchot surge já na primeira página lhe pedindo para começar a escrever um roteiro para o cinema, Chinaski reage com desinteresse e até com certo desdém diante da proposta, mas a aceita, relutante, meio que curioso para ver aonde essa empreitada pode levar – os 20 mil dólares prometidos, claro, ajudam a convencê-lo.

E acaba que a aventura rende bons episódios. Dentre as situações mais hilárias certamente estão as visitas de Chinaski e Sarah – sua esposa – à casa de Jon Pinchot e François Racine, um ator decadente. Ambos moram durante um tempo em um casebre localizado num bairro periférico de Los Angeles com altos índices de criminalidade, cujos vizinhos delinquentes e perigosos perturbam a sanidade de François. Há também as engraçadíssimas entrevistas que Chinaski concede a emissoras locais e internacionais, durante a produção do filme, nas quais o escritor zomba descaradamente da vida bizarra e até certo ponto falsa que artistas e críticos vivem em Hollywood. Está presente também o apego tragicômico de Chinaski ao álcool – o que sempre rende as situações mais inusitadas dos seus livros – e uma hilária e surreal ameaça de automutilação por parte de um dos personagens centrais. Hollywood é um legítimo romance de Bukowski, e seus leitores não sentirão falta da atmosfera pegajosa, engraçada e vulgarmente humana encontrada nos outros livros do autor.

"Voltei ao hipódromo. Às vezes me perguntava o que fazia ali. E às vezes sabia. Entre outras coisas, aquilo me permitia ver grande número de pessoas sob a pior luz, e isso me mantinha em contato com a realidade do que era feita a humanidade. A ambição, o medo, a raiva, tudo estava ali."



Leio Bukowski há mais de uma década. Nesses quase dez anos, acompanhei um Chinaski à deriva, perdido entre mulheres, empregos, idas ao hipódromo e fugas viscerais da realidade auxiliadas por uma máquina de escrever. Hoje, em Hollywood, encontrei um Chinaski diferente: um cara que vive sem sobressaltos, apoiado em alguma sabedoria extraída das experiências que teve ao longo da vida – ainda uma figura excêntrica, mas mais assentada, mais adaptada ao sistema. O que dá humanidade aos escritos de Bukowski/Chinaski é precisamente a sua capacidade de humanizar o trágico lado imundo da vida – de dar sentido à sarjeta, voz aos desajustados, graça à marginalidade. Em diversas passagens de Hollywood, Chinaski fala que odeia as pessoas, mas, bem feitas as contas, a força de sua literatura reside exatamente na paixão com que ele observa todos que circulam ao seu redor e na espontaneidade com que relata seus encontros com a humanidade.

Me parece curioso que tenhamos nos encontrado, eu e esse personagem, em momentos de mais maturidade para ambos. Há livros e autores que são lidos em momentos certos, sem que tenhamos planejado isso. É uma das magias da literatura. Viva Chinaski. Agora, me resta lamentar ter lido o último romance de Bukowski que faltava.

Vai o autor, ficam os livros – e as lembranças.

25 dezembro 2016

A Revolução dos Bichos, de George Orwell

"Não está, pois, claro como água, camaradas, que todos os males da nossa existência têm origem na tirania dos humanos?"



Quem poderia imaginar que, mesmo setenta anos após seu lançamento, uma pequena fábula sobre a administração de uma fazenda pelos próprios animais que a habitam constituiria um dos principais argumentos contra a tirania de uma ditadura socialista? Certamente não os leitores ingleses contemporâneos de George Orwell, que acreditavam que A Revolução dos Bichos era apenas uma boba e tediosa história em que porcos, ovelhas, cavalos e patos falavam sobre a necessidade de se verem livres dos cruéis e inescrupulosos fazendeiros. Para a comunidade intelectual britânica da década de 1940 - e isso é o próprio Orwell quem diz -, este livro não passava de um lastimável desperdício de papel e tinta, dada a aparente infantilidade da trama. No entanto, pouco tempo foi necessário para que se descobrisse que essa fábula, que nada tem de tediosa e muito menos de boba, constitui um ensaio literário genial e muito preciso sobre quando as coisas começam a dar errado no socialismo.


E quando essa crítica vem de um escritor e jornalista como George Orwell, que se inclinava com simpatia para o socialismo de Karl Marx, o livro só pode se tornar uma coisa mais interessante ainda. 

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Sinopse: O sonho de um velho porco de criar uma granja governada por animais, sem a exploração dos homens, concretiza-se com uma revolução. Mas, como geralmente acontece com as revoluções, a dos bichos também desemboca para uma tirania, com a ascensão de uma nova casta ao poder. Neste conto feito sob medida para a Revolução Russa, “todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais do que os outros”.

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Qualquer leitor atento aos detalhes históricos emulados em A Revolução dos Bichos perceberá que a genialidade da obra consiste precisamente em ilustrar, da forma mais simples e objetiva possível, todo o percurso que uma ditadura socialista trilha desde sua gênese até seu declínio, sem que para isso o autor tenha precisado recorrer a uma trama política complexa que enfastie o leitor. Talvez por isso mesmo o livro tenha se tornado tão célebre e tão poderoso, já na década de seu lançamento: porque desenha, com traços que beiram o didático, algo que escapa à compreensão da maioria das pessoas. E esse desenho, simples em sua forma mas extremamente profundo em seu conteúdo, foi a maneira que Orwell encontrou para desmitificar ao mundo ocidental a experiência soviética com o socialismo.

O autor, que costumava se mostrar sóbrio em seus posicionamentos políticos e ideológicos, disse a certa altura (e esta afirmação está registrada no posfácio da edição da Companhia das Letras) que "A destruição do mito da URSS é essencial para conseguirmos reviver o movimento socialista". Isto explica porque uma pessoa como Orwell, declaradamente pró-socialismo, escreveu uma obra tão carregada de críticas ásperas a esse movimento político-ideológico: era necessário dizer ao mundo que Stálin não pôs em prática o socialismo com que todos os seguidores de Marx sonhavam; pelo contrário, que o Ocidente soubesse que o ditador russo transformou aquele país em uma oprimida sociedade cega pelo trabalho e pela obediência ao líder. Que George Orwell tenha encontrado em uma fazenda e nos animais que a habitam uma maneira de escrever uma história que atingisse esse objetivo, isso só pode ser explicado pelo talento brilhante que ele tinha como jornalista e escritor.




Depois de enfrentar certa resistência por parte de editoras que não queriam publicar o livro porque o consideravam atrevido e perigoso demais (uma editora norte-americana chegou a dar a desculpa de que na América não havia lugar para histórias com animais, em pleno apogeu de Walt Disney, e sabe-se lá porque uma editora norte-americana não queria a publicação de um livro anticomunista para a década de 1950), finalmente A Revolução dos Bichos encontrou o público e ganhou, aos poucos, o espaço destinado aos grandes clássicos da literatura. (Mais tarde, inclusive, a CIA utilizou a obra como propaganda contra o comunismo, chegando ao ponto de criar uma animação para resumir a história e transmiti-la na televisão.)

É curioso notar como as figuras que povoam a fazenda são rapidamente associadas a estereótipos indispensáveis para a compreensão de um sistema socialista totalitarista: Napoleão, o enorme porco que comanda a fazenda, é o ditador irredutível que faz ser cultuada a própria imagem e usa de estratagemas os mais deploráveis para manipular a massa alienada que está a seu serviço; Bola-de-Neve, também porco, representa o líder guerrilheiro carismático que ajudou a pôr a revolução em prática e que, mais tarde, acaba sofrendo golpes estratégicos dos próprios camaradas; Garganta, o porta-voz do governo, é o encarregado de dourar a pílula amarga nos tempos difíceis, ludibriando a população ao apresentar gráficos e tabelas falsos que mostram o quanto a granja está progredindo, apesar de tudo; Sansão, o cavalo proletário que não vê alternativa senão dedicar-se de corpo e alma ao trabalho exaustivo nas lavouras, conferindo total respeito e obediência ao líder; os próprios seres humanos, que são a encarnação mesma do capitalismo, a serem evitados a qualquer custo pelos animais... e assim por diante. 

Encarregado de transmitir às pessoas a ideia de que um sistema socialista pode ser uma péssima ideia se for mal executado, A Revolução dos Bichos descreve com uma habilidade indiscutível o quadro sinistro que pode surgir quando a sede pelo poder e pelos privilégios sobe à cabeça dos responsáveis por uma revolução que prometia igualdade, liberdade e abundância de recursos. Através da história destes animais, George Orwell nos mostra que uma sociedade pode derrubar um sistema que permite que uma elite enriqueça às custas do povo e, em seu lugar, instaurar um sistema que dá margem ao mesmo tipo de exploração, mas com uma aparência e um discurso ideológico diferente.

21 dezembro 2015

Resenhas em notas - #1



Depois de tanto tempo abandonado – mais precisamente, 11 meses e 20 dias –, este blog retorna à vida com uma nova seção sobre livros: a "Resenhas em Notas". Ela irá trazer pequenos parágrafos acerca das últimas leituras que andei fazendo. Através destas postagens, os leitores do Gato Branco poderão conhecer um pouco das minhas impressões sobre determinadas obras, e a ideia é fazer com que estes leitores ao menos se sintam contagiados pelas minhas experiências, narradas aqui da forma mais sucinta possível.

Penso em incluir em uma mesma postagem as últimas três leituras que fiz. Acho que é um bom número, mas vamos acompanhar o andar da carruagem. Nada de pôr os carros na frente dos bois – nada de criar muitas expectativas, principalmente se formos levar em conta que entrarei no mestrado no próximo ano e isso significará menos tempo disponível para a Literatura. Mas planos futuros são planos futuros.

Ao que interessa!


À noite andamos em círculos, de Daniel Alarcón



O jovem peruano Daniel Alarcón foi um escritor que conheci por acaso, o mesmo acaso que está tão presente na minha relação com os livros. Eu estava em uma livraria qualquer, andando a esmo, quando esbarrei no seu romance À noite andamos em círculos (At night we walk in circles, 2013). Já na metade da sinopse eu estava fisgado: o romance narra a história de um aspirante a ator de teatro que subitamente é contratado pela companhia que ele admirava muito desde a adolescência. Os anos de ouro desta companhia de vanguarda, o Diciembre, eram os anos 1970 – época em que criticar a ditadura local através da arte era um ato de ousadia necessária capaz de custar a vida.

Atualmente esquecido, o Diciembre parece estar fadado às memórias dos artistas de rua que fizeram parte daquela época. Com o intuito de reviver os seus tempos de glória artística – ao mesmo tempo em que é preciso superar alguns traumas do passado –, dois integrantes da antiga companhia decidem iniciar uma nova turnê pelo país, agora machucado pelas consequências de uma guerra civil. E é para esta nova turnê que Henry – o ex-líder do coletivo – e Patalarga – seu antigo colega – chamam o nosso protagonista. Juntos, os três reencenarão a peça sarcástica escrita por Henry décadas antes, que fizera tanto sucesso nos anos da ditadura, e atravessarão o país em busca de uma redenção para seus próprios fantasmas.

Genialmente escrito, o romance cativa o leitor já nas primeiras páginas e mantém em suspense uma trama cujo desfecho se espera sempre na página seguinte. É uma história feita de camadas, como muito bem disse o The New York Times, na qual elementos vitais são adicionados aos poucos, dando uma sensação de crescente deliciosa e perturbadora nos personagens e no enredo. Alarcón entrega aos poucos os pontos centrais da trama, com muita paciência. E quanto mais o leitor percebe sua própria ignorância diante do que está sendo narrado, mais ele se sente atraído pela história e maior é a sua vontade de virar as páginas.


Um adivinho me disse, de Tiziano Terzani


Foi na primavera de 1976 que Tiziano Terzani visitou – por acaso – um adivinho em Hong Kong e recebeu o seguinte aviso: "Não viaje de avião ou de helicóptero no ano de 1993. Se o fizer, você muito provavelmente sofrerá um acidente. Não voe." Quando o fatídico ano finalmente chegou, Terzani estava com 55 anos de vida e, nas suas palavras, procurava algo com que pudesse sair da mesmice de sua profissão de jornalista e experimentar uma coisa nova, que desse um colorido diferente à sua rotina. Nunca tendo esquecido o que ouvira em Hong Kong, ele decidiu que em 1993 se locomoveria apenas via terra e mar, abdicando completamente dos aviões e dos helicópteros. A partir de Bangkok, na Tailândia, ele cobriria acontecimentos históricos na Indochina e escreveria artigos sobre os mais variados temas da cultura asiática – pela qual sempre fora apaixonado.

Um adivinho me disse (Un indovino mi disse, 1995) é um dos relatos de viagem mais deliciosos que já li. Ele ficou alguns anos abandonado na minha estante mas, quando o peguei para ler, simplesmente não o larguei mais. Fascinado pela Ásia, Terzani nos fornece um detalhado panorama da Indochina do início dos anos 1990, observando como o estilo de vida ocidental estava varrendo e apagando as tradições históricas dos povos desta parte do mundo. Levados pelo afã de acompanhar o progresso econômico europeu e americano, os asiáticos abraçaram a causa da modernidade em que os fins justificam os meios e, sem perceberem – ou percebendo e ignorando –, seu modelo cultural milenar era colocado à extinção.

O relato de Terzani, contudo, é embalado pela brincadeira de não tomar aviões neste ano fatídico, motivo pelo qual ele decide investigar o universo do "oculto" e do "sobrenatural", tão presentes no Oriente. Nas cidades da Ásia que ele visitou – e foram muitas, da Cingapura à Mongólia – Terzani sempre procurava o adivinho local e pedia-lhe para ler sua sorte. Neste exercício, o autor elabora uma visão de mundo sobre o poder do ocultismo e da astrologia e a compartilha com o leitor, tecendo bem-humoradas e inteligentes reflexões.


O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação, de Haruki Murakami

   

Nos anos de colégio, Tsukuru era membro de um grupo de amigos que tinham uma característica peculiar: todos eles possuíam o nome de uma cor distinta. Havia os homens, Azul e Vermelho, e as mulheres, Branca e Preta. E Tsukuru, que não possuía nenhuma cor associada ao seu nome. Mas o fato é que todos se davam muito bem e compartilhavam uma amizade intensa típica da adolescência. Porém, já no final do que no Brasil seria considerado o Ensino Médio, Tsukuru é subitamente expulso do grupo: seus amigos, aparentemente decepcionados, embaraçados e irritados, comunicam seu desligamento, dizem que vão cortar relações a partir de então e nunca mais entram em contato com o incolor Tsukuru. Sem saber o motivo desse afastamento forçado, mas com a impressão de que fizera algo de terrível para os amigos, o nosso protagonista se isola em si mesmo e vive os anos seguintes atormentado pelo episódio, até que decide ir atrás de cada antigo colega e, pessoalmente, tentar entender o que acontecera no passado.

Narrado com a melancolia e a nostalgia típica do autor, O incolor Tsukuru Tazaki… (Shikisai o motanai Tazaki Tsukuru to, kare no junrei no toshi, 2013) é o segundo romance de Murakami que não inclui o seu sempre esperado realismo fantástico. Tal como Norwegian Wood, sua obra-prima, este romance finca os pés no chão e narra uma bela história sobre amizade e o peso dos anos em cima dos relacionamentos. Tazaki, que só possui o defeito técnico de se parecer absurdamente com todos os outros protagonistas dos livros do autor, é um jovem em busca do sentido da vida, um rapaz que procura – como todos nós – superar a árdua passagem da inocência da juventude para a áspera vida adulta, repleta de amores efêmeros, profissões monótonas e dias desperdiçados. Com uma narrativa simples e elegante e com um desfecho que surpreende o leitor, O incolor Tsukuru Tazaki… certamente vale o investimento e mostra por que Murakami é tomado como o porta-voz da mocidade nipônica.


Um lugar chamado Liberdade, de Ken Follett


Primeiro livro de Ken Follett que leio, Um lugar chamado Liberdade (A place called Freedom, 1995) conta a história de Mack McAsh, um rapaz que nasceu em uma família de escravos na Escócia e foi obrigado a trabalhar desde criança nas minas de carvão da poderosa família Jamisson. Paralelamente ao seu drama, somos apresentados a Lizzie Hallim, uma bela e esperta moça nascida no berço de uma decadente burguesia escocesa, presa aos ditames patriarcalistas que submetem as mulheres aos caprichos dos homens. Sedentos por liberdade, inconformados com as posições sociais nas quais foram criados, ambos buscarão superar os mais diversos obstáculos em busca dos seus sonhos.

Adepto das tramas folhetinescas, cujos enredos se assemelham aos roteiros de telenovelas épicas, Follett utiliza um pano de fundo histórico grandioso para narrar uma história empolgante mas superficial. O autor é cuidadoso em recriar os detalhes da época em que se passa seu romance – o que certamente se espera de um narrador de sua envergadura –, mas a intenção de escrever um livro para o grande público acaba fazendo com que tudo pareça contemporâneo demais, desde os diálogos até as situações vividas por seus personagens. A impressão que tive foi a de que a história, embora muito boa e interessante, estava fadada ao estilo contemporâneo de um best-seller fácil de digerir, e isso, para um romance histórico, compromete a experiência.

Um lugar chamado Liberdade possui reviravoltas que sem dúvida prendem o leitor às páginas do livro, e algumas de suas passagens são pertinentes como crítica social, mas não convém esperar da obra uma poderosa criação literária. Ela é um passatempo empolgante e instrutivo, e portanto válido, mas nada além.


Rádio Cidade Perdida, de Daniel Alarcón


Depois de ficar inebriado com a qualidade de À noite andamos em círculos, busquei os trabalhos antigos de Daniel Alarcón e me deparei com seu romance de estreia, Rádio Cidade Perdida (Lost City Radio, 2007). O tema dos dois únicos romances escritos pelo autor é o mesmo: um país latino-americano arrasado por uma guerra civil resultante de uma violenta repressão ditatorial, e as vidas comuns que foram afetadas por esse cenário dilacerante.

Nesta obra somos apresentados a Norma, uma radialista que ficou famosa após a guerra civil, quando inaugurou um programa de rádio destinado a fazer com que pessoas desaparecidas durante os conflitos reencontrassem seus familiares. Dona de uma voz extremamente acalentadora pela qual é reconhecida na rua, Norma vive seus dias atormentada por um episódio trágico: o desaparecimento do próprio marido dez anos antes, já nos momentos finais da guerra entre soldados do governo e rebeldes. Sua rotina muda completamente quando o pequeno Victor chega à cidade vindo de uma aldeia muito distante e, com ele, a promessa de informações inéditas sobre Rey, o marido ausente da protagonista.

Escrito com a mesma genialidade do outro romance, Rádio Cidade Perdida é um mosaico intrincado de flashbacks que não obedecem a uma cronologia linear mas que, quando somados, começam a fazer surgir a imagem nítida da trama principal. Para a literatura, este romance é o que 21 gramas é para o cinema: uma obra que destoa da narrativa tradicional, que oferece ao público uma miríade de recortes que fazem sentido na medida em que a história ganha corpo. Não é um livro fácil de ser lido, portanto, mas aqui isto não é um ponto negativo, porque qualquer leitor interessado capta o desenvolvimento da história sem grande esforço.

E a profundidade da obra, sua eloquência, sua riqueza reflexiva e seu primor estético envolvem o leitor já nos primeiros momentos e evidenciam o grande talento que Alarcón possui como contador de histórias. A América Latina, desde já, com sua gente pobre, com sua vida política conturbada e perigosa, mostra-se como a fonte da qual este escritor peruano bebe. Rádio Cidade Perdida é um romance de estreia, mas não de um iniciante.

29 dezembro 2014

A Festa do Bode, de Mario Vargas Llosa

"O país estava afundando, isolado e de quarentena por causa dos desmandos de um regime que, embora tivesse prestado serviços valiosíssimos no passado, havia degenerado em uma tirania que causava repulsa universal." (p. 353)

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Ontem eu finalizei a leitura do livro A Festa do Bode (La Fiesta del Chivo, 2000), um dos grandes romances históricos escritos pelo peruano Mario Vargas Llosa, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 2010. Eu já conhecia o autor através de duas ótimas obras que li há muito tempo, Travessuras da menina má e Tia Julia e o escrevinhador, que me revelaram o excelente contador de histórias que é este latino-americano – cujo domínio do espaço narrativo e cuja capacidade de construir personagens sólidas me impressionaram bastante desde o início.

Em A Festa do Bode, temos narrados os últimos dias do general Rafael Leonidas Trujillo Molina, ditador da República Dominicana entre 1930 e 1961, período em que governou o insular país do Caribe com mãos de ferro, perseguindo seus opositores e humilhando seus colaboradores para manter a autoridade. Paralelamente a isso, dois outros eixos compõem a narrativa: a visita de Urania Cabral a Santo Domingo, capital da República, já décadas após a queda do regime; e os minutos que antecedem o atendado ao ditador, orquestrado por um grupo de conspiradores ligados a Trujillo.

Cada eixo narrativo pertence a um tempo diferente, e assim o leitor encontra várias referências de um capítulo no capítulo seguinte, por exemplo, muitas vezes vendo o mesmo acontecimento ser narrado duas vezes – sob ângulos diferentes, a depender da personagem em questão. Longe de embaralhar a mente de quem lê, esse recurso coloca o romance sob uma tensão constante, tornando mais impressionantes algumas revelações e mais justificadas as ações de determinadas personagens. Muito apegado também à técnica do flashback, Vargas Llosa transforma a primeira metade de A Festa do Bode em um enredo de reminiscências, a fim de explicar a trajetória de cada personagem até o momento presente. Feito isto, a trama descamba para um thriller frenético – e assustador – sobre perseguição e tortura.


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O Oldsmobile 1956 usado pelos conspiradores para emboscar Trujillo repousa no Museo Nacional de Historia y Geografía de Santo Domingo


Do ponto de vista da técnica, o que mais me impressionou no livro foi justamente a narração formada por temporalidades fragmentadas, recurso que o autor utiliza com sabedoria para extrair o máximo proveito e contar da melhor forma possível uma história cheia de intrigas e reviravoltas. Do ponto de vista do conteúdo propriamente dito, o romance impressiona pela relevância do que é contado, pela necessidade de denunciar um regime totalitário assombroso que reinou durante 31 anos e que foi responsável por tanta dor e privação na vida de tantos dominicanos. E, assim, o que parecia ser uma nota-de-rodapé esquecida na História da América Latina acaba se transformando em uma interessantíssima abordagem literária sobre a tirania e as consequências do poder político absoluto.

Li A Festa do Bode em pouco mais de duas semanas e posso dizer seguramente que ele é um dos melhores livros do Llosa. É arriscado falar isso de um autor prolífico e muito bem recebido pela crítica, mas a verdade é que eu finalizei ontem a leitura de um dos melhores trabalhos deste que é considerado o melhor escritor latino-americano vivo. (Só não li o livro ininterruptamente, sem largá-lo, porque eu gostava de saborear a escrita requintada do autor em várias passagens, e esses momentos de deleite me consumiram bastante tempo.) No mais, embora o romance tenha um foco bastante político e isso afaste alguns leitores que não gostam do tema, A Festa do Bode dá espaço para o suspense e a intriga melodramática, o que o torna extremamente popular e prazeroso de ler, além de muito instrutivo. Llosa coloca o drama humano acima de tudo, inserindo-o num contexto em que decisões políticas extremas têm um enorme peso na vida das pessoas comuns.

Depois deste livro, considero Mario Vargas Llosa um dos mais fascinantes e inventivos autores que repousam na minha estante. Que venham os próximos títulos.

P.S.: Para ler meus comentários sobre os dois outros livros que li do autor, clique aqui (Travessuras da menina má) e aqui (Tia Julia e o escrevinhador).

Feliz Ano-Novo aos leitores do Gato Branco!

25 junho 2014

Quatro estações, de Stephen King

"O amor tem dentes; morde; as feridas nunca cicatrizam. Nenhuma palavra, nenhuma combinação de palavras pode fechar essas mordidas de amor." (p. 572)

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Finalizei ontem a leitura de Quatro estações (Different seasons, 1982), do escritor norte-americano Stephen King. Comprei pela internet a confortável edição de bolso da Ponto de Leitura, selo da Editora Objetiva, e me deleitei com as 650 páginas deste livro que reúne quatro contos inéditos do autor (ou mini-romances, dada a longa extensão de cada um). Deixando de lado o terror explícito de Carrie, a Estranha e O iluminado, King explora um gênero diferente nestas quatro histórias que misturam, de forma muito bem sucedida, drama, horror e suspense.

Eu já havia lido do autor o famoso À espera de um milagre, romance escrito em 1996 que ganhou as telas do cinema três anos depois, com Tom Hanks no papel principal. O prazer que senti ao ler este livro despertou minha atenção para o nome de Stephen King, que até então soava na minha cabeça somente como mais um autor best-seller que carrega nas costas uma legião de fãs. Quando cheguei à última página de À espera de um milagre, entendi por que King possui a sua legião extremamente fiel de fãs e porque ele é tão elogiado pela crítica. Resposta: o homem tem talento, e muito.


Sinopse: Nos quatro contos reunidos neste livro, Stephen King realiza um profundo mergulho na natureza humana, revelando medos, esperanças e impulsos, além de explorar todas as facetas do ser humano, desde seu mais puro desejo de ser livre à sua mais apavorante crueldade.


O mais longo dos contos, Aluno inteligente, possui 250 páginas e passeia com tranquilidade do drama ao horror, com King realizando uma prospecção subjetiva digna de mestre em cada um de seus personagens. O mesmo acontece com Rita Hayworth e a redenção de Shawshank e O corpo: duas histórias cujo gênero se encontra entre o dramático e o assustador, levando-nos a pensar nos limites da crueldade humana e em como os verdadeiros monstros podem não estar à solta no Lago Ness, mas dentro de nossas próprias cabeças e nas nossas ações. Infelizmente O Método Respiratório, último conto do livro, não está à altura dos outros: parece apressado, mal explorado e sem norte. Mesmo assim, consegue prender a atenção do leitor do início ao fim, como os demais.

Interessante notar que o sucesso de Quatro estações extrapolou as estantes das livrarias. Rita Hayworth e a redenção de Shawshank inspirou o filme Um sonho de liberdade, que concorreu a 7 Oscars em 1995. Aluno inteligente deu origem a O aprendiz, de 1998, muito bem recebido pela crítica. O corpo foi adaptado em 1986 e transformou-se no célebre Conta comigo, que alavancou a carreira de alguns atores mirins na época. E desde 2012 discute-se uma adaptação para O Método Respiratório, que, sim, estou ansioso para conferir.


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Os cartazes dos filmes inspirados nos contos do livro


É difícil escolher a história de que mais gostei. Se por um lado o último conto não me agradou de todo, por outro me senti totalmente fisgado pelos anteriores, especialmente por Aluno inteligente e O corpo. A impressão que dá é a de que existe uma história mais maravilhosa do que a outra, à medida que vamos avançando no livro. Se ficamos extasiados com a ânsia de liberdade de Andy Dufresne e sua luta contra a injustiça, ficamos também perplexos com o amadurecimento distorcido de Todd Bowden e arrebatados com a emocionante amizade entre Gordon Lachance, Cris Chambers, Vern Tessio e Teddy Duchamp. Justiça seja feita: é possível ficar apaixonado também pela determinação e pela graça da moça da última história, muito embora o conto em questão não tenha sido satisfatoriamente desenvolvido para dar espaço a esta personagem.

A escrita de Stephen King é de uma leveza convidativa, o que não a impede de ser profunda e emocionante. Dos quatro contos, três são escritos em primeira pessoa, e estas histórias são justamente as que trazem consigo o tom confessional tão caro ao escritor: os personagens destes contos são pessoas que escrevem sobre um evento passado de suas vidas e, em retrospecto, fazem um balanço do quanto estes episódios singulares influenciaram sua personalidade. Esta técnica é muito frequente na obra de King e abre a possibilidade de uma metalinguagem interessantíssima: o escritor que escreve sobre um escritor que escreve sobre um fato marcante de sua vida.

Fazendo jus à epígrafe da obra – O que importa é a história, e não o narradorQuatro estações oferece ao leitor o prazer de simplesmente ouvir uma boa história, um prazer que beira nossos costumes ancestrais de nos sentarmos ao redor de uma fogueira e sermos levados pela narrativa de alguém.

Composto por histórias memoráveis, este livro é um sopro de boa literatura. Atende aos desejos dos leitores mais exigentes – aqueles que buscam uma história de qualidade além do banal – e atende aos anseios dos leitores que estão em busca de algo mais leve e menos complexo. São histórias cujo valor está nelas mesmas, e não em um suposto artifício literário ou escondido atrás de um nome famoso.

Extremamente recomendado, posso dizer que Quatro estações é, desde já, uma das melhores leituras do ano.

11 junho 2014

Sergio Y. vai à América, de Alexandre Vidal Porto

"Foi com Sergio que descobri a importância da humildade." (p. 17)

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Nos meus anos de Ensino Médio, conheci um rapaz que gostava de ler livros inteiros nas poltronas das livrarias da cidade. Foi assim que ele leu algumas obras de Sidney Sheldon, Agatha Christie e Dean Koontz, na verdade: simplesmente se dirigia às prateleiras de ação e suspense, escolhia um título a seu gosto, sentava-se em uma das poltronas vazias da livraria e iniciava a leitura. Só se levantava outra vez quando chegava ao final do volume. E não importava se eram 100 ou 300 páginas: lia tudo, do início ao fim. Era seu costume ir à Saraiva ou à Cultura mais próxima de casa nos finais de semana e deleitar-se na leitura daqueles romances, esquecendo-se das obrigações de escola – que naqueles tempos eram muitas, para qualquer pré-vestibulando como nós, como vocês podem imaginar.

Fiz a mesma coisa que este meu amigo muitos anos depois de deixar o Ensino Médio, quando peguei nas mãos Vida roubada, de Jaycee Dugard, livro que li de uma só vez numa das poltronas da livraria que visito aqui perto. Foi uma leitura ao mesmo tempo agradável (porque o livro era bom) e desconfortável (porque eu tive que ler tudo muito rápido, quase loucamente, antes que o lugar fechasse as portas).

Eu já havia prometido a mim mesmo que não faria isso de novo quando, na semana passada, repeti a experiência: dessa vez quem me fisgou foi Sergio Y. vai à América (2014), de Alexandre Vidal Porto, que li em três horas de frente para o balcão dos caixas de uma livraria Saraiva. É curioso como esse tipo de coisa acontece comigo sem o menor planejamento: simplesmente vi o livro, o título me chamou a atenção, comecei a lê-lo e, quando me dei conta, já estava na página 60. Por que não ir até o final?


Sinopse: O jovem Sergio Y., bem-nascido e aparentemente sem grandes dramas na sua ainda curta existência – embora se considere infeliz –, é um “paciente interessante”, como diz o narrador. Frequenta o consultório regularmente, rememora aspectos da sua formação familiar, mas um dia desaparece para sempre, abandonando o tratamento. A esse mistério se acrescenta outro, acachapante, que tira a aparente serenidade do psiquiatra e o faz incursionar em uma busca que tem tanto de detetivesca quanto de psicanalítica.


Isso significa, então, que o livro é envolvente.

A narrativa é cadenciada num ritmo cauteloso, lento, que faz o leitor passear pelos sentimentos mais íntimos dos personagens principais. O narrador, o psiquiatra que atende o personagem que dá nome ao livro, é um melancólico senhor de 70 anos que parece estar passando pela crise da terceira idade: filha única se casando e saindo do país, carreira consolidada como médico, esposa falecida há muito tempo, compras rotineiras no supermercado... Nada de emocionante no horizonte. Uma existência tranquila, sem grandes percalços, e por isso monótona.

Esta aparente banalidade na vida de Armando é chacoalhada quando surge no seu consultório um paciente novo que, por vários motivos, prende a sua atenção – a do médico e a do leitor, diga-se de passagem. Os atendimentos continuam por alguns meses, quando então o rapaz se declara "curado" e vai embora para os Estados Unidos. Embora afetivamente distantes – uma distância resguardada pela própria prática clínica –, Armando e Sergio gostam um do outro e se sentem unidos por um laço forte de simpatia e respeito. Quando um episódio inesperado vem à tona, já anos depois do término do tratamento, Armando se vê na obrigação profissional e pessoal de investigar os fatos que desencadearam esta circunstância.

Cheio de mistério, floreado com pontadas de filosofia psicanalítica, regado por um tom melancólico, Sergio Y. vai à América é um romance no qual nada e tudo acontecem. O que quero dizer com isso? Que a beleza do livro está em conseguir nos fazer refletir sobre a vida apresentando uma história aparentemente simples, em que nada de exagerado ou espetacular ocorre. E essa simplicidade superficial esconde uma verdade a qual não podemos ignorar: que o curso cotidiano das nossas vidas guarda uma série quase interminável de lições que podemos aprender se estivermos dispostos a nos debruçar sobre elas.

Quando terminei a leitura, admito que me peguei pensando: "O que esse livro tem de surpreendente? Nada. Existe um conflito, claro, como em todo romance, mas esse conflito é uma coisa importante apenas para o narrador da história. Mas por que estou pensando nesse livro até agora, então?". O fato é que Sergio Y. vai à América é um romance sobre duas coisas: aceitar que não temos o controle sobre tudo nas nossas vidas e estar disposto a aceitar isso. Fala, também, sobre a coragem de assumir nossas identidades em um mundo que tem receio de algo não-estereotipado. E quanto mais pensamos nestas questões, mais nos damos conta de que viver é um risco.

Só percebi essas mensagens escondidas depois de uma semana, ainda pensando no livro.

Composto por capítulos curtos em que se misturam os gêneros detetivesco e confessional, o romance realmente prende a atenção do leitor já nos momentos iniciais e, dizendo por experiência própria, você só vai conseguir largá-lo quando chegar à última página. Vidal Porto, este diplomata paulista estreante na literatura, revela-se um nome digno de nota, um nome ao qual devemos ficar atentos nos próximos anos. Por enquanto, recomendo Sergio Y. às pessoas que gostam de fazer um balanço eventual de suas vidas (pessoal e profissional) e que conseguem enxergar no irrisório dia-a-dia toda a trama intrincada e complexa que faz do mundo este lugar em que as relações afetivas são tão importantes.