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05 maio 2020

Aventuras urbanas em sebos

Sebo O Geraldo, em Fortaleza-CE


Hoje pensei com saudade sobre esse hábito, comum entre alguns leitores, de perambular pela cidade à procura de sebos escondidos em pequenas ruas e travessas que mal aparecem nos mapas urbanos. E lembrei com nostalgia de garimpar nesses lugares, por entre amontoados de brochuras descolando e lombadas desbotadas, segurando o espirro, um livro bom o suficiente para fazer as férias da escola valerem a pena.

Rastrear e conhecer pequenos sebos espalhados pela cidade é uma experiência já comprometida, claro. Esse hábito entrou em declínio quando todos nós descobrimos que é muito mais fácil comprar um livro usado clicando algumas vezes o botão do mouse do nosso computador e recebendo, na porta de casa, alguns dias depois, um pacote com o livro dentro. A praticidade da internet suprimiu o esforço de ter de sair do conforto do nosso lar em direção ao ambiente incerto das livrarias físicas, onde podíamos não encontrar o que estávamos procurando.

E assim definharam e morreram aos poucos os sebos físicos; e, com eles, as histórias das peripécias de leitores e livreiros que se procuravam às tateadelas pelos labirintos da cidade, ignorando o fato de serem ignorados pelo movimento urbano caótico de todo dia. Esses sebos acabaram migrando para uma versão digital, todos reunidos em um catálogo só – funcionando à perfeição, diga-se de passagem – listados com a impessoalidade do mundo dos algoritmos. Ganhamos em praticidade e perdemos em experiência.

Daqui a um tempo, quem não viveu fisicamente o circuito dos sebos ou nunca experimentou a sensação de ficar encolhido entre três prateleiras enormes cheias de livros velhos cheirando a mofo, em uma casa antiga com piso de tacos soltos – uma experiência tão impressionante que era meio impossível não se perguntar “O que diabos eu estou procurando, mesmo?” ou “Será que o dono da casa esqueceu que eu estou aqui?” – não acreditará nas histórias que eu tenho para contar sobre livreiros tão antigos quanto os próprios livros usados, livros do século XIX guardados em cofres de metal com aqueles botões de senha que você tem que rodar para abrir, sebos inusitados – um deles incluía o banheiro de uma casa, e, sim, eu tive que procurar D. H. Lawrence dentro de um box de chuveiro e Michael Crichton debaixo de uma pia –, sebos suspeitos – já fui advertido por um livreiro idoso que não queria que eu entrasse por uma porta do segundo andar da sua casa, sob o risco de ter de ver “coisas desagradáveis lá dentro” – e idas ao Centro à procura de revender meus Erico Verissimo – Incidente em Antares e Noite, lembro ainda quais eram –, barganhando com um homem que fumava um charuto provavelmente falsificado e que me dizia, entre uma baforada e outra, que a leitura seria a minha ruína, porque era a ruína de todos os acadêmicos – sábio vendedor de livros, conhecia a causa, alertou um adolescente para o perigo que estava por vir, e eu não lhe dei ouvidos.

Atualmente, isso já parece inacreditável mesmo para mim. Quem dirá que um dia existiu aventura no simples fato de comprar um livro? Mapas imprecisos que eu fazia à mão – nada de GPS, sequer existiam –, ônibus cheios de personagens atípicos, pessoas estranhas, becos sem saída, ruas sem fim, estabelecimentos escondidos, portas para além das quais eu não sabia o que esperar. Se eu tivesse desaparecido naquela época de peregrinação literária, ninguém poderia se dar por surpreso. Mas se envolvia aventura, a ida aos sebos envolvia também drama, às vezes tragédia e comédia urbana, e às vezes – muitas vezes – as histórias eram bem serenas, um peixe beliscando a superfície de um lago sob o sol do verão.

Um dos últimos sebos que visitei foi com o intuito de presentear um amigo com um livro que já estava fora de circulação. Peguei um ônibus e desci vinte minutos depois em uma rua curta e vazia cercada por altas antenas de rádio e televisão, em um bairro de Fortaleza conhecido justamente por elas. O sebo era uma casa de aspecto colonial ampla, arejada; de manhã o sol batia de frente, bem na varanda da entrada, onde um gato dormia entre vasos de taiobas. O som da campainha parecia ter atravessado a história dos séculos. Entrei, a própria livreira me recebeu: uma mulher idosa, grande, imponente e muito simpática. Diferentemente das outras vezes, em outros lugares, nesse dia eu achei com uma rapidez impressionante o livro que eu estava procurando – achei o livro antes mesmo de a dona me dizer onde ele estava.

O recibo eu guardo até hoje, talvez como lembrança daquele dia. Quando paguei, a mulher me olhou com cuidado e perguntou se eu queria um café com torradas. Sentamos na varanda, a uma mesinha velha de madeira que ficava na sombra, e ela começou a fazer carinho no gato e a me contar do problema de ter de lidar com o computador para cadastrar no site dos sebos virtuais aquela montanha colossal de livros que ela tinha em casa – cadastrar um por um –, uma casa que leitor nenhum visitava mais porque os grandes conglomerados praticavam preços que anulavam completamente a concorrência. Assim, seria impossível se livrar de todos aqueles livros antes de se mudar para a casa dos filhos, coisa que ela planejava; e nem ela esperava que fosse vender todos, aliás, por isso já estava dando alguns. Depois ela falou do marido falecido com toda a serenidade do mundo, o que me pareceu muito bonito, e de como ele lia muito, e que na verdade a maioria daqueles livros era dele, principalmente os do Carl Sagan, que ele adorava. Falou do filho engenheiro e da filha dentista. Falou da época em que ela lecionava em uma escola normal. Falou das colegas professoras dela na escola e dos livros que eram proibidos para as moças naquela época (dentre eles, ‘Caminhos cruzados’, de Erico Verissimo, um dos meus livros favoritos de sempre, o que depois deu início a um novo galho da nossa conversa) e falou também da música que os bons livros tocam sem que a gente perceba.

Bebi café como nunca, saí de lá muito depois da hora do almoço, e antes mesmo de pegar o ônibus de volta eu já tinha a certeza de que um episódio como aquele nunca mais ia acontecer de novo.


24 julho 2018

A Costa do Mosquito, de Paul Theroux


"O mar verde estava calmo. A terra que se via adiante era uma cordilheira de montanhas negras e azuis, envoltas em nevoeiro. Navegamos na direção do cais e percebemos que as nuvens estavam baixas, pouco acima das copas das árvores. Acima delas, erguia-se uma cadeia de picos. Alguns eram como espinhos no dorso de lagartos monstruosos. Outros pareciam dentes molares."

Certos livros são facilmente reconhecíveis como clássicos da literatura. 

Uma história original, uma narrativa vigorosa e autoral, um estilo de escrita belo e profundo, um personagem emblemático e um enredo que nos sugere metáforas sobre a condição humana são alguns dos elementos de um bom livro. Quer dizer, quando você encontra uma ou duas dessas características em uma obra, podemos dizer que você tem em mãos uma ótima leitura. Mas quando você tem a sorte de encontrar todos esses elementos juntos, então podemos dizer, sem medo de errar, que se trata de um clássico - se não já consolidado, ao menos em potencial. A Costa do Mosquito (The Mosquito Coast, 1982) possui todas essas qualidades que eu citei; foi o livro mais recente que li que pode ser chamado de clássico. 

Paul Theroux disserta ao longo do romance, de modo muito consistente, o seu modo particular de enxergar a cultura norte-americana e a verve expansionista e imperialista estadunidense que rendeu aos ianques a fama de "xerifes do mundo" ou "modelo de desenvolvimento e progresso". Essa visão de Theroux sobre o próprio país possibilita as várias metáforas sociais que pululam pelo texto, todas circulando ao redor do elemento principal da história: Allie Fox, um inventor obsessivo e irascível, que vende tudo o que possui nos Estados Unidos e faz a família sair da pacata Hatfield, em Massachussets, para começar tudo do zero nas selvas opressivas de Honduras - um lugar isolado que, para ele, remete a uma espécie de paraíso em que se pode finalmente fundar uma sociedade funcional baseada na técnica e no trabalho árduo.

Fox não encontra grandes dificuldades para efetuar essa mudança repentina de vida porque nenhum dos demais membros da sua família - quatro crianças e uma mulher submissa - tem voz suficiente para contestar os planos notoriamente descabidos do homem. Todos o seguem como se ele fosse uma espécie de salvador penitente, como se, ao fazer aquilo - ao promover uma mudança de vida tão violenta a si e à família -, ele estivesse deixando para trás um mundo de horror e idiotia em prol do sacrifício de fundar uma sociedade livre, honesta e naturalista da qual todos irão gozar posteriormente. Certos da infalibilidade do patriarca, ninguém o contesta. 

É pensando nessa sociedade tecnicamente eficiente e em um estilo de vida próprio que Allie Fox compra um vilarejo decrépito no meio da floresta hondurenha, às margens de um rio barrento. Lá ele busca dar início ao seu projeto para afirmar, talvez para si mesmo, que estava certo: que uma vida liberta é uma vida em que o trabalho prático e a engenhosidade se unem em prol do conforto. Logo que chega ao terreno, Fox se põe a trabalhar e distribui obrigações à sua família e aos diversos nativos que acabam tomando parte de sua empreitada.

A Costa do Mosquito foi adaptado para os cinemas em 1986, pelas mãos do diretor Peter Weir (Sociedade dos Poetas Mortos, O Show de Truman), estrelando Harrison Ford, River Phoenix e Helen Mirren nos papéis principais

Acompanhamos a história pelos olhos de Charlie Fox - o filho mais velho, de treze anos -, que se vale de uma visão em retrospecto para pincelar com certa sabedoria os contornos da personalidade do pai, da mãe e dos irmãos - muito embora as situações sejam todas narradas como se estivessem acontecendo no calor do momento. O fato de a narrativa se desenrolar através das palavras de Charlie é um dos elementos principais do romance, pois é através desse recurso que Theroux explora com beleza a relação contraditória e conflituosa entre pai e filho, o peso do patriarcado autoritário e a descoberta da fragilidade e dos defeitos dos genitores. Charlie dá ao leitor a chance de conhecer Allie Fox pela sua própria ótica, e ele consegue enxergá-lo, apesar de tudo, a certa distância, perscrutando sua personalidade imprevisível.

É curioso notar como Theroux conseguiu criar um personagem sólido e muito profundo usando apenas a ótica de outro personagem - no caso, do narrador, Charlie. Tudo o que conhecemos de Allie é fruto do relato de seu filho primogênito, mas não é preciso muito tempo para que o leitor perceba que o protagonista da história é ele mesmo, Allie. A maneira como o patriarca governa a própria família e os nativos da floresta - como se estivesse governando um país -, a sua eficiência ao gerenciar recursos e obras e a sua loquacidade perturbadora, cheia de personalidade, são o grande destaque de tudo o que salta das páginas. Allie Fox é um sujeito genioso, ríspido, inconstante, mas todos o seguem como se sua autoridade fosse naturalmente incontestável - como se ele de fato soubesse o que é melhor para todos.

E o mais impressionante é como podemos ser seduzidos pelos discursos de Allie. Ao longo do romance, o personagem faz várias preleções breves, a maioria delas girando em torno da mesma temática: o conformismo americano, as contradições de uma sociedade que parece cada vez mais doente - "os dentistas são acionistas de fábricas de doces!" -, a capacidade que todos nós devemos ter de tocar nossas vidas com nossos próprios recursos, sem excessos e de maneira eficiente, o consumismo nocivo, o desperdício de materiais que podem ser reaproveitados etc. São discursos simples, sempre exagerados e inflamados, mas com um fundo de sensatez que nos faz compreender um pouco as motivações de um personagem tão complexo.

"Naquela noite, abri os olhos no escuro e senti que o Pai não estava em casa. A sensação de que falta alguém é mais forte do que a sensação da presença de alguém. (...) Foi uma sensação de vazio solitário, como se, em algum lugar da casa, um buraco de ar estivesse no lugar onde seu corpo deveria estar. Meu medo era de que aquele homem imprevisível estivesse morto, ou, pior que morto, estripado e assombrando a propriedade."

Cena do filme A Costa do Mosquito (1986)

A Costa do Mosquito é o romance mais conhecido de Paul Theroux não somente porque é o mais audacioso e acertado dos seus livros de ficção, mas também porque ele sintetiza de forma muito precisa toda a visão que o autor tem sobre o estilo de vida vaidoso norte-americano e sobre a própria missão geopolítica dos Estados Unidos. Não por acaso Allie Fox encarna o sujeito que, nas suas palavras, vai trazer a civilização para a selva de um país esquecido da América Central e, com ela, a esperança, o desenvolvimento social e a inteligência necessária para que os nativos caminhem por sua conta. Este é, afinal, o modelo de algumas das estratégias imperialistas do país: o mesmo país que o personagem tanto odeia e do qual está fugindo, aliás. Invadindo vilarejos sem ser convidado e ignorando a cultura local, Allie difunde - ou acha que difunde - sua ideologia pessoal, considerando-a tão certa que ele sequer cogita a possibilidade de ser contestado. O que está em jogo aqui não é a validade de sua teoria ou de seus propósitos, mas a capacidade do personagem de fazer com que ela seja assimilada pelos nativos - e pela sua própria família - que ele julga proteger e ajudar.

Contundente, violento e sufocante, A Costa do Mosquito não deixa de ser belíssimo, tanto em sua forma quanto em seu conteúdo, graças ao talento notável de Paul Theroux com as palavras. As surpresas do mundo exótico descrito pelo autor - das florestas de Honduras ou de suas praias desertas - estão escondidas em cada página e são reveladas aos poucos, como quando alguém abre um pop-up book. É um livro que, após fechado, imediatamente cava seu lugar na nossa memória: seja pelo choque do percurso, pela simples beleza da escrita do autor ou - mais provavelmente - pelos dois.

20 novembro 2017

Hollywood, de Charles Bukowski



"O filme aparecia numa pequena tela que parecia um aparelho de TV. Passavam os créditos. Depois, vinha meu nome. Eu fazia parte de Hollywood, pelo menos por um pequeno instante. Era culpado."

Vivendo tempos atarefados que sugam toda a minha disposição para escrever o que quer que seja, descobri que a leitura de um bom Charles Bukowski é suficiente para me devolver alguma motivação para continuar alimentando este blog. O velho maldito alcoólatra ainda consegue me maravilhar com as suas palavras sinceras e diretas, e é somente um escritor do seu calibre que me faz sentar – depois de tanto tempo parado – diante de um editor de textos em um domingo à noite para esboçar uma resenha breve sobre um livro.

O Bukowski que terminei de ler hoje foi Hollywood (Hollywood, 1989), o seu último romance protagonizado pelo carismático (mas às vezes não tão simpático) Henry Chinaski, alter ego mundialmente famoso do velho Buk, tão alcoólatra, tão pervertido e tão ferino com as palavras quanto o seu criador de carne e osso.

A trama do romance é baseada nas experiências que Bukowski viveu enquanto escrevia o roteiro do filme Barfly, lançado em 1987, dirigido por Barbet Schroeder e protagonizado por Mickey Rourke e Faye Dunaway. Suas experiências como roteirista, na vida real, incluíram lidar com produtores e atores excêntricos, adaptar-se aos cortes de orçamento e encarar a nostálgica sensação de revisitar, através do próprio roteiro com traços autobiográficos, uma parte já distante de sua vida – os anos de alcoolismo mais pesados, a pobreza cruel, a incerteza de um futuro que só parecia querer condená-lo à miséria. Hollywood é basicamente sobre essa experiência de escrever um filme nos bastidores do cinema marginal de Los Angeles. No livro, temos Chinaski escrevendo o roteiro do filme A dança de Jim Bean, mas parece ser Bukowski quem está falando sobre ter escrito o roteiro de Barfly para a indústria do cinema.

Aliás, arrisco dizer que, em Hollywood, Chinaski e Bukowski se confundem mais do que em qualquer outro romance do escritor. Aqui, Chinaski é a transcrição literária exata do próprio autor que lhe dá vida: as loucuras feitas na jovem idade adulta são virtualmente as mesmas, o amor pela bebida é o mesmo, a relação com a escrita é semelhante. Frequentemente, o leitor se pega lendo “Bukowski” no lugar de “Chinaski”. Para quem conhece a obra do autor, essa simbiose nunca precisou ser disfarçada ou negada: é justamente a semelhança clara entre Bukowski e Chinaski que dá o sentimento necessário para que seus livros sejam adorados. E para que soem realmente autênticos.

"O roteiro ia bem. Escrever nunca foi trabalho para mim. Sempre fora assim, desde quando me lembrava: ligar o rádio numa estação de música clássica, acender um cigarro ou charuto, abrir a garrafa. A máquina fazia o resto. Eu só precisava estar ali. Todo o processo me permitia seguir em frente quando a vida oferecia tão pouco, quando a própria vida era um espetáculo de horror. Sempre havia a máquina para me acalmar, conversar comigo, me entreter, salvar meu rabo. Basicamente, era por isso que eu escrevia: para salvar meu rabo, salvar meu rabo do asilo de doidos, das ruas, de mim mesmo."

Faye Dunaway, Charles Bukowski e Mickey Rourke nos bastidores de Barfly, em 1987

Entre as relações conturbadas – e algumas até amistosas – com produtores, diretores, atores e atrizes caprichosos e geniosos, o Chinaski que salta das páginas é um velho simpático, reservado, bondoso e finalmente sossegado. Ele vive sua vida pacata entre a máquina de escrever, as garrafas de vinho, o hipódromo, sua esposa e os gatos de estimação, aparentando – como sempre aparentou – não querer mais nada além do que já tem. Ele está visivelmente equilibrado financeiramente e sua carreira como escritor maldito parece consolidada. Quando o diretor underground Jon Pinchot surge já na primeira página lhe pedindo para começar a escrever um roteiro para o cinema, Chinaski reage com desinteresse e até com certo desdém diante da proposta, mas a aceita, relutante, meio que curioso para ver aonde essa empreitada pode levar – os 20 mil dólares prometidos, claro, ajudam a convencê-lo.

E acaba que a aventura rende bons episódios. Dentre as situações mais hilárias certamente estão as visitas de Chinaski e Sarah – sua esposa – à casa de Jon Pinchot e François Racine, um ator decadente. Ambos moram durante um tempo em um casebre localizado num bairro periférico de Los Angeles com altos índices de criminalidade, cujos vizinhos delinquentes e perigosos perturbam a sanidade de François. Há também as engraçadíssimas entrevistas que Chinaski concede a emissoras locais e internacionais, durante a produção do filme, nas quais o escritor zomba descaradamente da vida bizarra e até certo ponto falsa que artistas e críticos vivem em Hollywood. Está presente também o apego tragicômico de Chinaski ao álcool – o que sempre rende as situações mais inusitadas dos seus livros – e uma hilária e surreal ameaça de automutilação por parte de um dos personagens centrais. Hollywood é um legítimo romance de Bukowski, e seus leitores não sentirão falta da atmosfera pegajosa, engraçada e vulgarmente humana encontrada nos outros livros do autor.

"Voltei ao hipódromo. Às vezes me perguntava o que fazia ali. E às vezes sabia. Entre outras coisas, aquilo me permitia ver grande número de pessoas sob a pior luz, e isso me mantinha em contato com a realidade do que era feita a humanidade. A ambição, o medo, a raiva, tudo estava ali."



Leio Bukowski há mais de uma década. Nesses quase dez anos, acompanhei um Chinaski à deriva, perdido entre mulheres, empregos, idas ao hipódromo e fugas viscerais da realidade auxiliadas por uma máquina de escrever. Hoje, em Hollywood, encontrei um Chinaski diferente: um cara que vive sem sobressaltos, apoiado em alguma sabedoria extraída das experiências que teve ao longo da vida – ainda uma figura excêntrica, mas mais assentada, mais adaptada ao sistema. O que dá humanidade aos escritos de Bukowski/Chinaski é precisamente a sua capacidade de humanizar o trágico lado imundo da vida – de dar sentido à sarjeta, voz aos desajustados, graça à marginalidade. Em diversas passagens de Hollywood, Chinaski fala que odeia as pessoas, mas, bem feitas as contas, a força de sua literatura reside exatamente na paixão com que ele observa todos que circulam ao seu redor e na espontaneidade com que relata seus encontros com a humanidade.

Me parece curioso que tenhamos nos encontrado, eu e esse personagem, em momentos de mais maturidade para ambos. Há livros e autores que são lidos em momentos certos, sem que tenhamos planejado isso. É uma das magias da literatura. Viva Chinaski. Agora, me resta lamentar ter lido o último romance de Bukowski que faltava.

Vai o autor, ficam os livros – e as lembranças.

25 dezembro 2016

A Revolução dos Bichos, de George Orwell

"Não está, pois, claro como água, camaradas, que todos os males da nossa existência têm origem na tirania dos humanos?"



Quem poderia imaginar que, mesmo setenta anos após seu lançamento, uma pequena fábula sobre a administração de uma fazenda pelos próprios animais que a habitam constituiria um dos principais argumentos contra a tirania de uma ditadura socialista? Certamente não os leitores ingleses contemporâneos de George Orwell, que acreditavam que A Revolução dos Bichos era apenas uma boba e tediosa história em que porcos, ovelhas, cavalos e patos falavam sobre a necessidade de se verem livres dos cruéis e inescrupulosos fazendeiros. Para a comunidade intelectual britânica da década de 1940 - e isso é o próprio Orwell quem diz -, este livro não passava de um lastimável desperdício de papel e tinta, dada a aparente infantilidade da trama. No entanto, pouco tempo foi necessário para que se descobrisse que essa fábula, que nada tem de tediosa e muito menos de boba, constitui um ensaio literário genial e muito preciso sobre quando as coisas começam a dar errado no socialismo.


E quando essa crítica vem de um escritor e jornalista como George Orwell, que se inclinava com simpatia para o socialismo de Karl Marx, o livro só pode se tornar uma coisa mais interessante ainda. 

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Sinopse: O sonho de um velho porco de criar uma granja governada por animais, sem a exploração dos homens, concretiza-se com uma revolução. Mas, como geralmente acontece com as revoluções, a dos bichos também desemboca para uma tirania, com a ascensão de uma nova casta ao poder. Neste conto feito sob medida para a Revolução Russa, “todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais do que os outros”.

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Qualquer leitor atento aos detalhes históricos emulados em A Revolução dos Bichos perceberá que a genialidade da obra consiste precisamente em ilustrar, da forma mais simples e objetiva possível, todo o percurso que uma ditadura socialista trilha desde sua gênese até seu declínio, sem que para isso o autor tenha precisado recorrer a uma trama política complexa que enfastie o leitor. Talvez por isso mesmo o livro tenha se tornado tão célebre e tão poderoso, já na década de seu lançamento: porque desenha, com traços que beiram o didático, algo que escapa à compreensão da maioria das pessoas. E esse desenho, simples em sua forma mas extremamente profundo em seu conteúdo, foi a maneira que Orwell encontrou para desmitificar ao mundo ocidental a experiência soviética com o socialismo.

O autor, que costumava se mostrar sóbrio em seus posicionamentos políticos e ideológicos, disse a certa altura (e esta afirmação está registrada no posfácio da edição da Companhia das Letras) que "A destruição do mito da URSS é essencial para conseguirmos reviver o movimento socialista". Isto explica porque uma pessoa como Orwell, declaradamente pró-socialismo, escreveu uma obra tão carregada de críticas ásperas a esse movimento político-ideológico: era necessário dizer ao mundo que Stálin não pôs em prática o socialismo com que todos os seguidores de Marx sonhavam; pelo contrário, que o Ocidente soubesse que o ditador russo transformou aquele país em uma oprimida sociedade cega pelo trabalho e pela obediência ao líder. Que George Orwell tenha encontrado em uma fazenda e nos animais que a habitam uma maneira de escrever uma história que atingisse esse objetivo, isso só pode ser explicado pelo talento brilhante que ele tinha como jornalista e escritor.




Depois de enfrentar certa resistência por parte de editoras que não queriam publicar o livro porque o consideravam atrevido e perigoso demais (uma editora norte-americana chegou a dar a desculpa de que na América não havia lugar para histórias com animais, em pleno apogeu de Walt Disney, e sabe-se lá porque uma editora norte-americana não queria a publicação de um livro anticomunista para a década de 1950), finalmente A Revolução dos Bichos encontrou o público e ganhou, aos poucos, o espaço destinado aos grandes clássicos da literatura. (Mais tarde, inclusive, a CIA utilizou a obra como propaganda contra o comunismo, chegando ao ponto de criar uma animação para resumir a história e transmiti-la na televisão.)

É curioso notar como as figuras que povoam a fazenda são rapidamente associadas a estereótipos indispensáveis para a compreensão de um sistema socialista totalitarista: Napoleão, o enorme porco que comanda a fazenda, é o ditador irredutível que faz ser cultuada a própria imagem e usa de estratagemas os mais deploráveis para manipular a massa alienada que está a seu serviço; Bola-de-Neve, também porco, representa o líder guerrilheiro carismático que ajudou a pôr a revolução em prática e que, mais tarde, acaba sofrendo golpes estratégicos dos próprios camaradas; Garganta, o porta-voz do governo, é o encarregado de dourar a pílula amarga nos tempos difíceis, ludibriando a população ao apresentar gráficos e tabelas falsos que mostram o quanto a granja está progredindo, apesar de tudo; Sansão, o cavalo proletário que não vê alternativa senão dedicar-se de corpo e alma ao trabalho exaustivo nas lavouras, conferindo total respeito e obediência ao líder; os próprios seres humanos, que são a encarnação mesma do capitalismo, a serem evitados a qualquer custo pelos animais... e assim por diante. 

Encarregado de transmitir às pessoas a ideia de que um sistema socialista pode ser uma péssima ideia se for mal executado, A Revolução dos Bichos descreve com uma habilidade indiscutível o quadro sinistro que pode surgir quando a sede pelo poder e pelos privilégios sobe à cabeça dos responsáveis por uma revolução que prometia igualdade, liberdade e abundância de recursos. Através da história destes animais, George Orwell nos mostra que uma sociedade pode derrubar um sistema que permite que uma elite enriqueça às custas do povo e, em seu lugar, instaurar um sistema que dá margem ao mesmo tipo de exploração, mas com uma aparência e um discurso ideológico diferente.