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07 dezembro 2013

Sobre a brevidade da vida, de Sêneca

"Muito breve e agitada é a vida daqueles que esquecem o passado, negligenciam o presente e temem o futuro." (p. 70)

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Na semana passada, finalizei a leitura de Sobre a brevidade da vida (De brevitate vitae), tratado epistolar escrito pelo filósofo, dramaturgo e político Lúcio Sêneca.

Sêneca nasceu em Córdoba, na Espanha, por volta do ano 4 a.C. Mudou-se para Roma ainda jovem, a fim de estudar retórica e Filosofia, e lá exerceu durante grande parte da sua vida trabalhos em altos cargos políticos, ao lado de, dentre outros, Calígula e Nero – deste último tendo recebido a ordem para cometer suicídio, após ter sido acusado de conspirar contra o então imperador. Seus trabalhos, que envolvem tragédias, ensaios e diálogos filosóficos, são conhecidos por abordar de maneira direta e prática temas comuns ao cotidiano das pessoas, tais como amizade, educação, vida e morte.

Sobre a brevidade da vida é um conjunto de cartas direcionadas a um homem chamado Paulino, funcionário público que muitos estudiosos acreditam ter sido sogro do filósofo. Nas epístolas que compõem a obra, sempre se dirigindo a Paulino, Sêneca discorre sobre a vida fútil e vazia dos sujeitos ocupados com tudo aquilo que não lhes diz respeito de fato: políticos preocupados com seu cargo, nobres preocupados com sua posição social, cidadãos preocupados com o julgamento do seu semelhante, e assim sucessivamente.

Como ele mesmo escreve:

Certamente, miserável é a condição de todas as pessoas ocupadas, mas ainda mais miserável é a daqueles que sobrecarregam a sua vida de cuidados que não são para si, esperando, para dormir, o sono dos outros, para comer, que o outro tenha apetite, que caminham segundo o passo dos outros e que estão sob as ordens deles nas coisas que são as mais espontâneas de todas – amar e odiar. (p. 81)


Sinopse: Sobre a brevidade da vida é a obra mais difundida do filósofo Sêneca (4 a.C.? – 65 d.C.) e um dos textos mais conhecidos de toda a Antiguidade latina. São cartas dirigidas a Paulino (cuja identidade é controversa), nas quais o sábio fala da natureza finita da vida humana. No correr das páginas, vão sendo apresentadas maneiras de prolongar a vida e livrá-la de mil futilidades que a perturbam sem, no entanto, enriquecê-la. Estas cartas compõem uma leitura inspiradora para todos os homens, a quem ajudam a avaliar o que é uma vida plenamente vivida.


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A persistência da memória, de Salvador Dalí

O que está em jogo, portanto, é a brevidade da vida dos sujeitos que se ocupam com coisas alheias a eles mesmos. Logicamente, a brevidade a que Sêneca se refere não é temporal, cronológica, mas subjetiva: vive pouco quem não vive para si. Nesse sentido, seu conselho geral a Paulino não poderia deixar de ser outro que não "afastar-se do vulgo" e "procurar um porto mais tranquilo", experimentando o que poderia ser feito nos momentos de ócio. Segundo o filósofo, um homem pode viver por 70 anos ou mais, mas não poderá dizer que viveu realmente se ele não tiver gasto a maior parte do seu tempo com assuntos que lhe dizem respeito de forma direta. Por outro lado, quem dedica seu tempo a si mesmo vive uma vida longa, não importa quantos anos tenha vivido no calendário.

Aquele que utiliza todo o tempo apenas consigo mesmo, que organiza todos os dias como se fosse o último, não deseja, nem teme o amanhã. (…) Não julgues que alguém viveu muito por causa de suas rugas e cabelos brancos: ele não viveu muito, apenas existiu por muito tempo. (p. 43)

É impressionante constatar que um livro escrito há quase dois mil anos aborde uma temática que continua a ser urgente nos dias de hoje – aliás, nos dias de hoje mais urgente do que nunca, ao que parece. Como integrante de um laboratório de pesquisa que estuda trabalho, ócio e tempo livre na sociedade contemporânea, eu vejo cientistas sociais de renome relatando como a ideia de tempo para si é cada vez mais escassa na nossa era. Cada vez trabalhando mais para conquistar status e altos salários, as pessoas são tomadas pelo meio e esquecem o fim – este, inadiável, tendo em vista que todos nós vamos morrer um dia. Como Sêneca diria, ocupam sua vida com o trabalho que realizam, mas esquecem de saborear o presente, antecipando sempre o futuro com agonia e rememorando o passado com insatisfação.

O filósofo tem uma palavra sobre isso também:

Pobre daquele que, cansado mais de viver do que de trabalhar, sucumbe às suas próprias ocupações. (p. 83)


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A morte de Sêneca, de Luca Giordano


Uma das grandes mensagens que podemos tirar de Sobre a brevidade da vida diz respeito ao quanto nos sentimos desconfortáveis com nossas próprias ocupações e tempos livres. Ou seja, diz respeito a como nós usamos o nosso tempo. Curioso notar que é possível se sentir feliz e realizado trabalhando em algo que nos dá felicidade e, ao mesmo tempo, se sentir letárgico e inútil em um tempo vago – o que desconstrói nossa ideia de que viver sem ter que trabalhar é um prazer garantido. De acordo com Sêneca, há aqueles que não usufruem do ócio, mas são eles mesmos ociosos "doentes", que vagam pelo mundo sem objetivo e não sabem discernir seus próprios interesses. Estes, incapazes de arquitetar um plano de vida de acordo com suas inclinações, "mortos-vivos" nas palavras do filósofo, contrastam com aqueles sujeitos que se dedicam a uma ocupação elevada, que lhes rende bons frutos e sabedoria existencial.

Dentre todos, somente são ociosos os que estão livres para a sabedoria, apenas estes vivem, pois não só controlam bem sua vida, como também lhe acrescentam a eternidade. (p. 64)

Sobre a brevidade da vida é uma leitura rápida que nos faz refletir sobre o que realmente estamos fazendo para garantir uma vida satisfatória e plena – ou, como isso é praticamente impossível, garantir uma vida mais satisfatória e mais plena. Ocupar-se com dedicação e prazer a assuntos que nos tocam como seres humanos é o primeiro passo para construir uma vida baseada em tranquilidade e alegria, e não permitir que sejamos consumidos pela máquina que suga a energia vital que possuímos, que poderia muito bem ser dedicada à nossa efêmera e valiosíssima passagem pela Terra. Por esse lado, o livro de Sêneca é uma leitura rápida, mas muito, muito profunda.

10 novembro 2013

Nada, de Janne Teller

"(…) um calafrio percorreu meu corpo enquanto eu pensava em quantas pessoas diferentes podem haver dentro de uma só pessoa." (p. 85)

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Durante a tarde de ontem eu finalizei a leitura do romance Nada (Intet, 2000), escrito pela dinamarquesa Janne Teller. Embora já tenha admitido que nunca escreve seus romances com a intenção de provocar o leitor, o fato é que este livro de título curioso fez o maior barulho na Escandinávia, chegando inclusive a ser censurado temporariamente na região por conta da mensagem cruel e visceral da história. Aclamado pela crítica como digno sucessor do clássico O Senhor das Moscas, do Nobel William Golding, Nada chega ao Brasil depois de treze anos do seu lançamento original.

Foi um amigo da universidade que me indicou o romance. Assim que bati meus olhos na capa e li as duas primeiras páginas, me veio à cabeça a ideia de que eu deveria lê-lo na íntegra o quanto antes. Não é muito difícil acontecer esse tipo de coisa comigo: com Os devaneios do caminhante solitário e Templo, por exemplo, aconteceu a mesma coisa, bati os olhos no livro e senti que deveria tê-lo comigo. Não se pode ignorar uma sensação dessas. Pelo menos eu não consigo.


Sinopse: Pierre Anthon está no sétimo ano e tem a certeza de que nada importa na vida. Por isso, passa os dias sobre os galhos de uma ameixeira, tentando convencer seus companheiros de classe a pensar do mesmo modo. No entanto, diante da recusa do menino de descer da árvore, seus colegas decidem fazer uma pilha de objetos dotados de significado, e com isso esperam persuadi-lo de que está errado. Mas aos poucos a pilha se torna um monumento mórbido, colocando em xeque a fé e a inocência da juventude.


O livro é narrado por uma moça de 13 ou 14 anos chamada Agnes. Ela estuda com os amigos na cidade onde mora, uma bucólica comunidade periférica que possui um bairro chamado Taering, e cursa o equivalente ao final do Ensino Fundamental brasileiro. No primeiro dia de aula após as férias de verão, um dos amigos mais velhos de Agnes, Pierre Anthon, fica de pé minutos antes de a aula começar e diz que nada no mundo tem a menor importância na vida de quem quer que seja. Mesmo com o professor já presente, Pierre Anthon profere quatro frases curtas, coloca o seu material novamente dentro da mochila e sai.

Nada importa. Disso eu já sei faz muito tempo. Então não vale a pena fazer nada. Acabo de descobrir isso.

Cá entre nós, esse é o tipo de pensamento que eu constantemente tinha quando estava na mesma situação que Pierre Anthon: tendo que estudar assuntos que, para mim, não tinham importância alguma e batalhando para me tornar alguém na vida. A propósito, o que significa "se tornar alguém"? Ninguém percebe o perigo que corremos quando naturalizamos uma frase como essa? Quer dizer que, se não temos um emprego que renda um alto salário, se não conseguimos passar os nossos dias nos importando com coisas que não são de fato importantes, não somos ninguém? Nada?

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Depois de dizer que nada na vida é importante e abandonar a escola como quem simplesmente dá de ombros, Pierre Anthon sobe na ameixeira do quintal da sua casa e, de lá, grita para os passantes alguns dos melhores trechos do livro. Entre irritado, irônico e fleumático, o garoto diz que todos nós vamos morrer no final das contas e que, por essa razão específica, as coisas do universo não passam de besteiras irrisórias com as quais não vale a pena gastar o tempo. Seus pequenos discursos são totalmente crus e podem causar um desconforto extremo por causa da verdade fria de suas palavras. Os amigos de classe de Pierre Anthon, que são praticamente os únicos transeuntes a passar na frente da ameixeira, não estão devidamente preparados para ouvir as palavras do garoto, e é aí que a história realmente começa: quando eles ocupam uma serralheria abandonada e decidem fazer lá uma pilha com os objetos que têm mais significado para cada um, a fim de mostrar para o amigo misantropo que, sim, a vida tem algum significado.

As proporções que esse pequeno fato ganha chocam o leitor bem cedo. Com uma linguagem muito bonita que carrega em si certos traços trágicos, Agnes (que narra o romance em retrospecto, na verdade) mostra ao leitor a face oculta e assustadora da infância que o nosso bom-senso faz de tudo para esconder. Em termos gerais, a mensagem é similar à de O Senhor das Moscas: um grupo de crianças que, abandonadas à própria sorte, começam a revelar aspectos sádicos e vingativos de sua personalidade. Se no livro de Golding os meninos estavam sozinhos por conta do acidente de avião que os isolou na ilha, na história de Teller essas crianças (ou adolescentes, dependendo do seu ponto de vista) se vêem sozinhas sob um prisma mais emocional, e é na tentativa de construir um monumento cheio de significado que elas procuram se afirmar – ou, em outras palavras, se diferenciar dos adultos.

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Mesmo aparecendo muito pouco no decorrer da história, Pierre Anthon é um dos personagens mais notáveis do romance e cumpre bem o seu papel de provocador. Em termos de metáfora, podemos dizer que ele simboliza as nossas preocupações mais sérias, que são justamente aquelas que fazemos questão de esconder de nós mesmos. Não é por acaso que seus amigos se irritam com suas provocações e, tapando os ouvidos, começam a arremessar pedras em direção à ameixeira em que o garoto está empoleirado. Pierre Anthon é a nossa voz interna que estamos sempre calando, para o bem de nossa própria sobrevivência social. Hoje mesmo acordei de manhã e, no silêncio típico dos domingos, fiquei pensando com meus botões se as pessoas consideradas loucas não são por acaso as mais lúcidas – tão lúcidas que se tornaram perigosas, como Pierre Anthon. E, quando essa voz interna (incômoda e lúcida) começa a nos atormentar, a primeira coisa que fazemos é nos cercar de coisas que, para nós, têm alguma importância. Nada veio justamente para que nos perguntemos se essas coisas com as quais nos cercamos são, de fato, importantes ou não.

O tom do livro é aterrorizante porque a escrita de Teller prima por uma objetividade minimalista que, no fundo, faz os acontecimentos da história parecerem mais confusos e inacreditáveis ainda. Há morbidade nas palavras de Agnes, algo que assusta porque a garota é capaz de narrar coisas fortes na maior naturalidade possível. Se existe um fato verdadeiramente desagradável neste livro, esse fato é a constatação empírica de que o horror está na condição humana. Quando essa condição humana é retratada com crueza, sem eufemismos, ficamos chocados – em nada diferente de quando alguém segura um espelho na nossa frente para constatarmos, com surpresa, alguma imperfeição inesperada na pele. Nada é um desses romances que fazem as vezes de espelho. E ele nos pega pelo pescoço ao evidenciar que a infância, base da construção de nossa subjetividade, pode ser mais instável e imprevisível do que gostaríamos de admitir.

350 mil exemplares vendidos mostram que Nada não apenas chocou seus leitores como os fez pensar sobre a vida e compartilhar o livro com outras pessoas, transformando a obra de Teller no sucesso que é agora. Colocar em menos de 150 páginas uma ideia relevante que, de tão forte, precisa ser banida das livrarias, é algo que cabe apenas aos escritores de talento. Quem está acostumado a romances pesados, como Ensaio sobre a cegueira ou Pobre George, não se sentirá tão mal com as palavras de Pierre Anthon, mas isso pode ser algo que varie de pessoa para pessoa. A verdade é que não há como passar por Nada sem sentir uma incômoda sensação de que o mundo pode ser um lugar bastante insignificante – e mais incômoda é a sensação de que essa verdade aparece quando você tenta construir uma pilha com o que existe de mais importante na sua vida.

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Sobre os motivos da censura do livro na Dinamarca, a autora dá a sua opinião:

"Geralmente se diz que há muita violência nele, o que eu realmente não acho que seja verdade. Comparado a qualquer estória de crime, não há nada no livro; a violência propriamente dita é descrita em muitos lugares. Além do mais, algumas pessoas disseram que meu livro torna alguns jovens depressivos e os leva a cometer suicídio. Eu fiquei muito chocada com isso (…). Eu nunca escrevo para provocar. Aqui não há conteúdo sexual, não há linguagem de baixo calão. Eu penso que ela é uma estória muito normal. Na verdade, eu escrevo para aprender. Eu escrevo sobre coisas que eu não entendo. [tradução minha, livre]

Para conferir a entrevista completa com a autora, clique aqui.

08 outubro 2013

Perto demais da redenção?

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Quando tinha 22 anos de idade, Christopher Johnson McCandless abandonou os estudos e a família e fugiu para o gelado estado norte-americano do Alasca, onde morreu dentro de um ônibus abandonado, aos 24 anos, no meio de uma floresta ensolarada, após ter ingerido por acidente uma planta venenosa que corroeu parte do seu estômago. Deixou para trás uma história confusa cheia de dor, mágoas e senso de liberdade. Sua jornada pelos Estados Unidos é lembrada ainda hoje por muitos jovens como símbolo de resistência e paixão pelas coisas simples da vida – à maneira de Walden, do escritor inglês Henry David Thoreau. As pessoas que o conheceram pessoalmente se referem a ele, hoje, como alguém que carregava nas costas uma carga de sonhos mais pesada do que a que ele próprio poderia suportar.

Eu tinha aproximadamente 16 anos quando conheci a história de Christopher – ou "Alex", como ele mesmo passou a se chamar depois de abrir mão de tudo o que tinha antes de meter o pé na estrada. Naquela época, 22 anos representava para mim uma idade em que as pessoas eram velhas e, por essa razão, pareciam ter consciência plena do que faziam e das decisões que tomavam – de modo que eu, adolescente recém-saído da infância, vi na atitude de Christopher um exemplo de iniciativa que materializava todos os meus desejos pela liberdade, fosse lá o que essa palavra significasse.

No mais, falar sobre liberdade não é a intenção desse texto. Meus 22 anos vieram na semana passada e eu acabei me lembrando hoje da aventura de Alex, o jovem norte-americano que eu mesmo admirava tanto há seis anos. Parece difícil acreditar que ele tinha a mesma idade que eu tenho agora quando decidiu fugir do mundo em busca dos sonhos que tanto cultivava. Parece difícil porque não tenho mais as ambições e os projetos que Christopher tinha, quais fossem, o de viver da natureza compartilhando alguns princípios universais de amor e culto à estética. Sou apenas um rapaz latino-americano sem muito dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo de uma capital.

Já escrevi bastante aqui no blog sobre a história de Christopher, o que inclui a resenha do livro de Jon Krakauer, Na Natureza Selvagem. Escrevi também, no início das atividades do Gato Branco, uma espécie de crônica que destilava algumas ideias minhas acerca da saga de Chris. Ainda assim, acho que ele merece mais uma postagem: acima de tudo porque, pensando sobre como os jovens de hoje vivem suas vidas, acho que dá para entender um pouco do ato impulsivo de Alex.

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Vivemos em uma época em que os jovens não parecem mais ter tempo ou disposição para refletirem sobre a sua condição fundamental: sobre como o tempo da juventude significa o tempo de uma passagem árdua da infância segura para a vida adulta imprevisível. Ser jovem hoje significa possuir um crédito de gozo ilimitado disponibilizado pela própria sociedade, que cobra o preço exigindo da juventude dedicação integral e precoce aos assuntos da vida adulta. Talvez porque, afinal de contas, os jovens se tornaram o símbolo sócio-econômico da energia, do dispêndio e da propensão para o usufruto de tudo o que é novidade. São aqueles em que se depositam todas as fichas, todas as promessas e todas as esperanças, o que faz com que assumam precocemente um papel para o qual não estão preparados – nem nunca deverão estar.

Em outras palavras, salvo exceções felizes, me parece que a juventude contemporânea é formada simplesmente por um conjunto de moços e moças que, ávidos por aquilo que a sociedade do consumo oferta, são lançados abruptamente no mundo dos adultos, instados a produzir, e esse processo acelerado impede que qualquer momento de reflexão sobre a própria juventude seja levado em consideração. Na minha opinião, que não conta tanto assim, um rapaz ou uma moça de 14 ou 15 anos de idade não deveria se preocupar tanto com cursos profissionalizantes, carreiras e mercado de trabalho, embora seja isto o que eu mais tenha visto ultimamente. 

Somente isso não seria um problema tão insolúvel se não viesse acompanhado de um fato triste: os jovens que "param no tempo" e se permitem estar em um momento de reflexão improdutiva são, muitas vezes, considerados ultrapassados, quando não patológicos mesmo. Christopher McCandless foi um desses jovens vítimas do mal-estar que eles próprios despertam nos outros: entrou em crise e tentou encontrar-se, tentou compartilhar seus questionamentos, mas não foi compreendido porque esperava-se dele – assim como se espera de todos os rapazes de sua idade – algo que ele não estava preparado para dar. Foi rotulado de louco por uns e de depressivo por outros.

Mas o que se esperava dele? O que se espera de todos os jovens? Que se lancem sem intervalo da infância e da adolescência diretamente para a rotina adulta? No mundo adulto espera-se que você seja produtivo e que tenha sucesso profissional. Na infância e na pré-adolescência, muita coisa acontece fora do seu controle, e muitas vezes não somos nós que resolvemos nossos próprios problemas, sejam eles de que ordem forem. Não me convenço de que essas duas fases da vida, tão díspares, possam ser unidas imediatamente, mas é o que parece estar acontecendo.

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Mais ou menos até a década de 1970, entrar em crise na adolescência era uma espécie de ritual. Provava que o jovem estava preocupado com a sua vida e que, no fundo, tinha consciência do seu lugar no plano das coisas. Era-lhe permitido isso: ele passava por essa angústia e essa crise e era até bem visto pelos colegas, que compartilhavam dos mesmos questionamentos. Ninguém era considerado depressivo ou desajustado. Simplesmente estavam pensando sobre sua condição e entendendo o que aquele processo de tornar-se adulto significava (ou não entendendo, o que também fazia parte do processo). Quem leu O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger, deve ter enxergado esse fenômeno. E, se alguma dúvida persistir, leiam Depressão e Imagem do Novo Mundo, de Maria Rita Kehl.

Christopher McCandless representa, de certa forma, um tipo de resistência jovem – que alguns podem considerar como a rebeldia por excelência da juventude. Ele se negou a fazer parte do processo de mergulhar diretamente em um mundo que não era o dele. Vivendo meus 22 anos agora, vejo que este momento de pensar sobre nossa própria condição transacional não deve ser nunca descartado: ele é fundamental para quem quer cultivar um mínimo de postura crítica sobre o mundo.

Hoje entendo Chris nesse sentido porque penso que estou vendo o que ele via na sua época. Mas, como sempre, posso estar enganado.

15 setembro 2013

Cartas na rua, de Charles Bukowski

"Tudo começou como um erro." (p. 11)

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Na semana passada eu finalizei a leitura do livro Cartas na rua (Post Office, 1971), primeiro romance publicado do celebrado escritor underground Charles Bukowski, que é o senhor dos porres inacreditáveis e o escritor marginal por excelência. Bukowski, que nasceu na Alemanha mas mudou-se ainda criança para os Estados Unidos, viveu a vida difícil das pessoas que não têm perspectivas de um futuro confortável sustentado por uma carreira de sucesso no mundo capitalista americano. Graças a essa falta de ambição, guiado apenas por aquilo que o dia trazia, Bukowski sentiu na pele a crueza da realidade suburbana e desenvolveu uma sutil capacidade de captar a humanidade dos indivíduos rejeitados.

Assim como a maioria dos romances do autor, Cartas na rua é um livrinho pequeno que sintetiza, em uma narrativa direta e sem floreios (mas bem humorada e muito bem conduzida), as desventuras do protagonista Henry Chinaski, espécie de persona literária do próprio Bukowski, também alemão de nascença, também dado à bebedeira, também chegado às mulheres, também aficionado pelas corridas de cavalo. No livro, Chinaski arranja um emprego burocrático nos Correios norte-americanos e, sem se dar conta, vai passando os dias (e, depois, os anos) nesse trabalho degradante, balanceado com as bebidas freqüentes, com as mulheres complicadas e com a amargura geral com que o personagem encara a vida em sociedade.


Sinopse: Em Cartas na Rua (primeira novela publicada de Charles Bukowski), um beberrão simpático, cheio de ceticismo, nostalgia e humor passeia pela monotonia burocrática dos Correios e nos mostra a América com a visão de alguém que está sempre à margem.


Gostei de Cartas na rua tanto quanto de Factótum, que já li duas vezes e ainda hoje é um dos meus preferidos de Bukowski. Não sei quanto aos outros leitores, mas eu sou capaz de memorizar várias passagens dos livros do autor e lembrar delas sempre que uma cena do cotidiano me remete às experiências de Chinaski. Às vezes me pego pensando no que o personagem principal de Bukowski faria se estivesse na minha situação – e sempre me divirto com os possíveis resultados. E essa é uma das proezas deste escritor: ele nos faz enxergar o lado humano e sensível de situações nas quais jamais imaginaríamos ter algo de humano e sensível.

Depois que o leitor de primeira viagem supera o choque inicial causado pela torrente de palavrões e termos escatológicos que Bukowski coloca em seus livros, emerge no texto uma clara simpatia pelas pessoas desvalidas – pelos desempregados, pelos incapazes, pelos bêbados, pelos mendigos, pelas prostitutas, e assim por diante. Em Cartas na rua, Henry, já quase aos cinquenta anos, vive uma vida desprezível de funcionário público e tenta conciliar com ela a sua vida cotidiana, esta atravessada pela tentativa de suportar a faina do trabalho. Se em Factótum Chinaski muda de emprego como se muda de roupa – aliás, acho que nem eu mudo de roupa tanto quanto ele mudava de ocupação –, em Cartas na rua o mesmo Chinaski sobrevive nos Correios ano após ano, sem a menor perspectiva de sair dali ou melhorar a posição na empresa.

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Da esquerda para a direita: Faye Dunaway, Charles Bukowski e Mickey Rourke nos bastidores do filme Barfly, roteirizado pelo escritor

As mulheres que Chinaski arranja em Cartas na rua são bem simpáticas, e o relacionamento do protagonista com elas é ligeiramente diferente daquele visto em outros romances. Se no livro Mulheres, por exemplo, é Chinaski quem bagunça a vida de suas companheiras, em Cartas na rua parece ocorrer o contrário: são elas que bagunçam a vida dele. Me pareceu que Chinaski aqui é perceptivelmente mais romântico, mais sensível, e procura tocar seus relacionamentos sempre com a perspectiva de ser agradável às suas parceiras. Não é algo que não pareça acontecer também nas outras obras do autor, mas aqui este detalhe é mais perceptível – pelo menos o foi para mim.

Outra coisa curiosa de observar é que, em Cartas na rua, Chinaski ainda não leva uma vida de escritor. Nos romances seguintes, o protagonista está sempre dividindo seu tempo entre empregos temporários, mulheres, álcool e a atividade de escrevinhador desconhecido. Aqui, porém, Chinaski ainda não se enxerga como escritor nem faz da máquina de escrever sua companheira inseparável – marca registrada dos outros romances. Temos, na verdade, um personagem que está descobrindo sua vocação e descobrindo que pode transformar a penúria em que vive numa produção literária.

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Matt Dillon vivendo Henry Chinaski na adaptação cinematográfica Factótum, filme de 2005

Sempre que chego à última página de um livro do Bukowski, sinto uma estranha sensação de consolo e bem-estar. Me parece que Bukowski esteve o tempo todo tentando nos mostrar que os problemas que nós enfrentamos na vida são, simplesmente, a vida. Talvez seja um engano nosso pensar que a vida de verdade esteja para além dos nossos desgostos e problemas: o que de fato constitui a existência não é outra coisa que não os tapas que recebemos na cara e as situações difíceis pelas quais passamos de vez em quando. Charles Bukowski conseguiu transformar sua vida miserável em obra de arte e clássico da literatura, e fez isso apenas narrando cruamente as coisas que lhe aconteciam, dando a elas o desenho da sensibilidade.

Não teve sucesso nas corporações em que trabalhou, não galgou posições, não conquistou prestígio nas empresas em que prestou serviço, mas foi seguramente um dos escritores mais bem sucedidos de todos os tempos.