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03 março 2013

Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago

"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara." (p. 9)

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Uma das principais e mais elogiadas obras contemporâneas sobre a condição humana (reduzida à busca pela sobrevivência) chegou até mim quando eu ainda estava cursando o 2º ano do Ensino Médio. Ensaio sobre a cegueira (1995), romance de ficção escrito pelo português nobelizado José Saramago, era leitura paradidática obrigatória naquela época, quase às portas do vestibular – e por aí podemos ter uma vaga ideia sobre como aquela literatura visceral, nua e crua, foi recebida por alunos mais preocupados em decorar fórmulas de Física do que em refletir sobre as questões existenciais da nossa sociedade.

Como eu me irritava facilmente com toda aquela educação pragmática do pré-vestibular, que prepara os estudantes não para a vida, mas para a competição desmedida e a memorização de conteúdos insignificantes, mergulhei de cabeça naquele livro do qual eu nem mesmo sabia o que esperar. Apenas me agradava qualquer coisa distante da ideia de ter um professor à minha frente tentando fazer com que briófitas e pteridófitas soassem como um assunto muitíssimo interessante, por meio de piadas bestas e falsa empolgação. No final das contas, ao entrar no universo de Saramago, o que eu encontrei naquelas páginas foi muito mais do que um cano de escape: foi a constatação precoce de que o mundo é um lugar potencialmente horrível; no tempo de um simples piscar de olhos, ele pode ir da rotina alegre ao desespero absoluto. E descobri que há alguma beleza sutil nisso.


Sinopse: Um motorista parado no sinal se descobre subitamente cego. É o primeiro caso de uma "treva branca" que logo se espalha incontrolavelmente. Resguardados em quarentena, os cegos se perceberão reduzidos à essência humana, numa verdadeira viagem às trevas. O Ensaio sobre a cegueira é a fantasia de um autor que nos faz lembrar "a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam". José Saramago nos dá, aqui, uma imagem aterradora e comovente de tempos sombrios, à beira de um novo milênio, impondo-se à companhia dos maiores visionários modernos, como Franz Kafka e Elias Canetti.


Quem conhece alguma coisa sobre José Saramago, ou mesmo quem já leu algum de seus livros, sabe que o estilo do autor é um espetáculo fascinante à parte, algo que desafia a paciência e a concentração de qualquer leitor, mesmo os mais experientes. Lançando mão apenas de vírgulas e pontos finais, o texto deste português, visto de longe, é um denso e complexo emaranhado de palavras que vão se conectando meio que forçosamente, tecendo às vezes parágrafos de várias páginas, numa das mais originais construções textuais de toda a história da Literatura. (Coincidentemente ou não, outro escritor que revoluciona o modo de escrever livros é português e "rival" de Saramago, António Lobo Antunes.)

Passada a inquietude fundamental com o texto excêntrico de Saramago – algo que, se ocorrer, será apenas para além da metade do livro – o leitor começa a perceber uma história que é absurda e assustadora justamente pelo fato de ser tão banal: num belo dia de sol, aparentemente do nada, todas as pessoas de uma cidade normal começam a ficar cegas, uma após a outra, em rápida sucessão. A princípio, apesar do susto e da incerteza que assola as vítimas, as pessoas agem com civilidade e educação; mas, em questão de horas, o verniz dos bons-modos começa a descascar e a humanidade começa a mostrar sua face mais autêntica e mais próxima da barbárie. Isolados em uma instalação do governo que passa a funcionar como depositório de cegos, todos os que são acometidos pela "doença" ficam em quarentena, vigiados pelas autoridades sob condições estritamente rígidas. Ao cabo de algumas semanas, a situação neste lugar se torna tão insuportável – com agravantes de superlotação, falta de comida e abundância de violência – que em tudo lembra os presídios mais hediondos do Brasil.


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Cartaz norte-americano e brasileiro do filme dirigido por Fernando Meirelles, baseado no livro


Desnecessário dizer que Ensaio sobre a cegueira é um romance metafórico. Quando eu tinha 16 anos e li o livro pela primeira vez, custei a perceber isto, por alguma razão – talvez pelo fato de que eu nunca houvesse lido um romance essencialmente alegórico. No início, acreditava que os personagens da história estavam ficando cegos por algum problema oftalmológico, mesmo, e que o ponto alto da trama seria quando descobrissem o que causara a epidemia. O fato é que compreendi a metáfora da obra quando comecei a olhar ao meu redor e a me dar conta de que, de uma maneira ou de outra, todos nós somos cegos – cegos que, vendo, não veem. Somos cegos que aparentemente enxergamos os outros mas que, quando a situação aperta nosso pescoço, tendemos a olhar apenas para nosso próprio umbigo e nossos pequenos propósitos. Cegos que não enxergam a verdadeira natureza da vida em comunidade e que são reféns dos medos e das exigências dos outros. Uma cegueira branca, como a do livro, diferente da cegueira negra, fisiológica.

A grande mensagem que retirei da obra-prima de Saramago foi justamente esta: a de que podemos perder o controle sobre nós mesmos a qualquer hora, podemos perder nossa autonomia, podemos deixar de exercitar nosso senso crítico e nos tornar mais uma ovelha no rebanho em questão de segundos, sem que possamos nos dar conta disso. E que, quando isso acontecer, entraremos todos numa espécie de espiral descendente que nos levará à perdição, e sofreremos ao percebermos nossa própria imbecilidade. Não é um quadro que anima ninguém, mas a Literatura está cheia de exemplos de obras que causam um profundo mal-estar nas pessoas precisamente pelo fato de trazerem perspectivas reais e cruéis.

Ensaio sobre a cegueira não é um livro que fará você se sentir melhor, mas certamente trará alguma dose de maturidade, seja ela qual for.

14 fevereiro 2013

Viagem de autocarro, de Josep Pla

"Viaja-se, geralmente, para ver as chamadas coisas inúteis do mundo – que são as únicas importantes." (p. 16)

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Quando estive em Portugal durante a última semana de janeiro deste ano, fiz um breve passeio de mochileiro pela cidade de Lisboa, e por "passeio de mochileiro" quero dizer que andei a esmo durante um dia completo, perambulando nas imediações do Rio Tejo e do Shopping Center Vasco da Gama. O Rio Tejo exercia um grande fascínio sobre mim não só porque é um dos rios mais famosos do mundo, mas também porque sempre foi uma das principais fontes de inspiração para o poeta Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa.

Nesse meu turismo descompromissado com visitas a monumentos históricos e outros pontos de interesse genérico (tão apreciados pelos pacotes de agências turísticas, cujos programas acabam minando o verdadeiro prazer da viagem), fui parar na Estação Oriente, que é uma das estações ferroviárias mais próximas do aeroporto de Lisboa. Graças a uma coincidência milagrosa, ocorria nesse dia uma feira de livros nos subsolos da estação, e os volumes eram vendidos a preços bem mais baixos do que os que constavam nos catálogos das livrarias. Quando pus minha mochila no chão e comecei a folhear Viagem de autocarro (Viaje en autobús, 1942-1991), percebi que aquele livrinho escrito pelo catalão Josep Pla tratava exatamente do que eu estava vivendo naquele momento: viagens sem compromisso com o turismo comercial, viagens nas quais a principal preocupação é buscar a própria identidade.


Sinopse: Josep Pla percorre a Catalunha de autocarro. Vai de aldeia em aldeia, numa geografia rural onde a paisagem se impõe como motor para reflexões, divagações e devaneios. É uma viagem pessoalíssima, onde uma conversa aparentemente banal se transforma numa reflexão sobre a condição humana. As intuições de Josep Pla são sempre extraordinariamente agudas, e é esse um dos encantos deste livro. O que faz actualíssima esta «Viagem de Autocarro» é a escrita de Pla: de uma clareza sem um pingo de superficialidade, sempre temperada pelo sal da ironia, por vezes tocada por uma ligeira amargura que nunca se confunde com rancor. Josep Pla tinha a obsessão do adjectivo certo, e o rigor com que descreve paisagens e pessoas corresponde à capacidade rural de nomear com exactidão cada árvore, cada planta, cada elemento da natureza. Saber sempre a palavra exacta para cada coisa é um poderoso meio de transporte. É nele que Pla nos conduz ao território a que chamamos literatura.


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O livro, ainda inédito no Brasil, traz o relato pessoal das excursões de autocarro que Josep Pla realizou pela bucólica região da Catalunha, na Espanha ("Autocarro" é a palavra lusitana usada para designar o que no Brasil nós chamamos de "ônibus"). O resultado dessa viagem é contada no pequeno livro de capa verde que comprei no subsolo da Estação Oriente e li ao longo das minhas próprias viagens de autocarro, trem e metrô: fascinado pelo encanto que as paisagens da natureza despertam no viajante, Pla é levado a imergir em um mundo de reflexões sobre a condição humana e o espírito ganancioso das pessoas que trocam as experiências subjetivas mais enriquecedoras em troca de simples aquisição material.

A escrita de Josep Pla transpira a sensação de leveza, auto-ironia e aventura que perpassa pelo espírito de todo viajante itinerário. Ao longo das páginas somos convidados a participar dos diálogos entre Pla e motoristas de ônibus, jovens nativos e outros transeuntes que captam a atenção do escritor – fala-se sobre a vida no campo, a vida nas cidades grandes, os conceitos de amor, vida e morte. Dividido em capítulos curtos que, embora sejam independentes entre si, possuem uma certa ordem cronológica, a obra vai traçando um roteiro tortuoso que é pontilhado de provocações e indagações sobre a existência em geral e sobre as viagens, em particular.

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Viagem de autocarro é basicamente um livro de cunho arqueológico, na medida em que o autor busca "desenterrar" as próprias origens e mostrar ao leitor o percurso da própria identidade. É a típica obra de auto-conhecimento que visa imprimir um interesse universal nas vivências particulares do escritor – e esta é uma das vertentes da literatura de que mais gosto, tal como visto em Álbum de viagens, de Michael Crichton.

Depois de comprar o livro de Pla em Lisboa, voltei de trem para a cidade de Aveiro no final do dia. Comprei os bilhetes na própria Estação Oriente, esperei o trem chegar à plataforma e, quando ele finalmente chegou, despejei minha mochila no bagageiro acima da poltrona e comecei a ler a obra que havia acabado de adquirir. Observando os campos e as aldeias desfilarem sob a luz mortiça do final da tarde através da janela, tive a nítida sensação de que estava vivendo exatamente aquilo que Pla descreve no livro – sendo tocado pelas mesmas questões fundamentais e levado a suscitar o mesmo tipo de reflexão. Foi uma experiência muito enriquecedora.

A seguir, meu trecho favorito de toda a obra, grifado por mim:

"Tem de se viajar para se descobrir, com os próprios olhos, que o mundo é muito pequeno e que é portanto absolutamente necessário fazer um esforço para dignificar a visão até se acabar por ver as coisas em grande. Tem de se viajar para nos darmos conta de que uma paixão, uma ideia, um homem só são importantes quando resistem a uma projeção no tempo e no espaço. Não há nada como nos afastarmos um pouco para nos curarmos da psicose da proximidade, da deformação da proximidade, que nos atacou a todos. Tem de se viajar para se aprender – apesar de tudo – a conservar, a aperfeiçoar, a tolerar." (p. 17)

As fotografias que ilustram esta postagem foram batidas na cidade de Aveiro, em Portugal.

31 janeiro 2013

A visita cruel do tempo, de Jennifer Egan

"Em que momento exato você se desviou só um pouquinho da vida relativamente normal que vinha levando até então, em que momento ela se desalinhou de maneira infinitesimal para a esquerda ou para a direita, embarcando assim na trajetória que acabaria por levá-lo para onde se encontra agora?" (p. 169)

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Alguns livros ficam empilhados sobre a minha mesa aguardando o momento adequado para serem lidos. Tenho aqui um exemplar de Amor líquido, do filósofo Zygmunt Bauman, As confissões, de Rousseau, Anna Karienina, do mestre Tolstói, e uma biografia completa da banda Pink Floyd. No meio desses livros, estava também A visita cruel do tempo (A visit from the goon squad, 2010), que peguei para ler no início da semana passada, quando julguei que o momento certo havia chegado finalmente. Eu tinha a certeza de que esse romance demandava do leitor um estado de espírito conveniente – como, no fundo, todos os livros demandam.

Terminei a leitura hoje, e posso dizer que toda a festa feita em cima da obra é justificada. Jennifer Egan escreveu um livro que é muitíssimo inventivo e original na forma, mas que possui uma temática extremamente clássica, que afeta todos os seres humanos desde que o mundo é mundo: a passagem do tempo e como isso afeta nossas vidas. Quando folheava o livro, antes mesmo de começar a lê-lo, eu encarava todas aquelas esquisitices da narrativa como uma mera tentativa de chocar o leitor, de chamar atenção, mas esse julgamento tive que abandonar assim que iniciei a leitura. Sim, existe um capítulo escrito em segunda pessoa, existe um capítulo escrito em forma de coluna de revista de fofoca, existe um capítulo escrito em forma de apresentação de PowerPoint, mas todos esses floreios se revelam como um recurso, uma técnica especial para dar conta de todo o universo proposto pelo romance.


Sinopse: Bennie Salazar é um executivo da indústria musical. Ex-integrante de uma banda de punk, ele foi o responsável pela descoberta e pelo sucesso dos Conduits, cujo guitarrista, Bosco, fazia com que Iggy Pop parecesse tranquilo no palco. Jules Jones é um repórter de celebridades preso por atacar uma atriz durante uma entrevista e vê na última — e suicida — turnê de Bosco a oportunidade de reerguer a própria carreira. Jules é irmão de Stephanie, casada com Bennie, que teve como mentor Lou, um produtor musical viciado em cocaína e mulheres. Sasha é a assistente cleptomaníaca de Bennie, e seu passado desregrado e seu futuro estruturado parecem tão desconexos quanto as tramas dos muitos personagens que compõem esta história sobre música, sobrevivência e a suscetibilidade humana sob as garras do tempo.


A edição da Intrínseca traz na capa de trás e na primeira página do volume uma série de elogios feitos por suplementos literários de jornais tais como The New York Times, The Guardian e The Washington Post. Como muitos leitores, não confio totalmente na opinião desses suplementos (geralmente trata-se de uma questão de puro marketing), mas dessa vez, após ler o livro, constatei que todas as opiniões colocadas ali têm seu fundamento. A maioria dos elogios se refere à criatividade de Jennifer, posta à prova neste romance, e à sensibilidade no trato com os personagens da história – todos inesquecíveis, diga-se de passagem.

O conceito de A visita cruel do tempo é o seguinte: uma série de histórias paralelas que se cruzam, uma a uma, em um espaço de tempo de aproximadamente 60 anos. Cada capítulo é narrado sob o ponto de vista de um personagem específico, situado em uma época específica; a cronologia é embaralhada e o ano propriamente dito nunca é mencionado – de modo que o resultado disso é uma espécie de caleidoscópio em que pequenas narrativas se entrechocam, se entrelaçam e se separam. Falando assim, fica a impressão de que o romance é uma confusão de tempos e que o leitor sofre amargurado na tentativa de acompanhar o fio da meada. Engano. Jennifer possui uma habilidade ímpar na hora de situar o que está escrevendo, e o leitor atento não tem a menor dificuldade em estabelecer ordem no aparente caos de todas aquelas 333 páginas. É muito fácil não se perder na narrativa.

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O tom que perpassa a narrativa de A visita cruel do tempo é carregado de uma atmosfera que eu não saberia definir ao certo. Há algo de nostálgico, determinista, inexorável, fazendo-nos pensar que nossa linha do tempo já está fixada de uma maneira que, independentemente do que você faça, ela não se alterará; ainda assim, é uma narrativa que traz consigo um clima de mundo repleto de possibilidades. Seria mais ou menos como se alguém o abordasse, o sacudisse e dissesse: "Você tem o tempo da sua vida para fazer alguma coisa que valha a pena… E as lembranças dos seus feitos ecoarão por toda a eternidade, e suas atitudes afetarão a vida de outras pessoas." Eu senti uma frase como essa zunir na minha cabeça ao virar a última página.

Aliás, este é um livro que fala diretamente com o leitor, e essa é uma característica que me chamou muito a atenção. Não importa o personagem do capítulo que está lendo, não importa se ele é narrado em primeira ou terceira pessoa: você, como leitor, toma parte na história e sente as angústias e os dilemas retratados lá, pelo simples fato de que também é capaz de sentir na pele o efeito do tempo passando e das coisas ao seu redor mudando.

No fundo, A visita cruel do tempo fala sobre como nós podemos perceber (ou não perceber) a passagem do tempo e o impacto que isso traz para as nossas vidas. Pessoas que conhecemos no passado, foram grandes amigas nossas, mas que agora no presente sequer nos reconhecem; experiências e eventos que antes pareciam gloriosos, juventude que se esvai como a água que desce pelo ralo do banheiro; sonhos e expectativas que não encontraram o caminho certo. Tudo isto está presente no livro de um jeito desconcertante, que nos abala, mas que ao mesmo tempo nos faz adquirir uma certa maturidade no final da leitura.

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Na esquerda, página 274 de A visita cruel do tempo

Recomendo A visita cruel do tempo especialmente aos meus amigos que cursam Psicologia. A Literatura e a Psicologia sempre foram coisas indissociáveis para mim, e 'A visita cruel do tempo' é uma prova de que podemos ter o privilégio de estudar nos livros de ficção as coisas que vemos na faculdade. Leiam. Aliás, o tema central desta obra é aquilo que mais leva as pessoas à terapia: a constatação de que o tempo passou e alguma coisa irrecuperável se perdeu lá atrás.

Nota solta: dentre todos os prêmios importantes que o livro de Jennifer recebeu, o Pulitzer de Ficção (2011) certamente é o mais icônico.

Uma dica: se você tiver tempo, paciência e disposição, leia A visita cruel do tempo duas vezes seguidas. Assim como o filme Cloud Atlas, dos irmãos Wachowski, esta é uma obra que pede uma repetição instantânea, o que ajuda o leitor a encaixar melhor toda a cronologia da história e seus detalhes.

16 janeiro 2013

1Q84 | Tomo I, de Haruki Murakami

"Não se deixe enganar pelas aparências. A realidade é sempre única." (p. 22)

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No primeiro dia de 2013, finalizei a leitura do volume 1 de 1Q84 (1Q84, 2009-2010), romance surrealista escrito pelo japonês pop Haruki Murakami. É o mesmo autor do clássico Norwegian Wood (1987), que encantou uma geração de jovens no mundo inteiro ao narrar a trágica história de amor entre Watanabe e Naoko em uma nostálgica Tóquio de 1969. Dono de uma linguagem clara e, até certo ponto, simplificada, Murakami é um dos autores mais lidos da atualidade; consegue atingir em questão de poucos meses a assustadora marca de 4 milhões de exemplares vendidos apenas no Japão.

Dividido em três tomos no Brasil pela editora Alfaguara, 1Q84 é apontado pela crítica especializada como o trabalho mais ambicioso do escritor – não só pelo seu número de páginas, que no total chega a quase 1.500, mas pela estrutura narrativa das duas histórias principais que, aos poucos, vão ganhando contornos cada vez maiores e mais profundos, levantando reflexões sobre os bastidores editoriais no universo da literatura e a violência à mulher.


Sinopse: Tóquio, Japão. Um mundo aparentemente normal. Duas personagens – Aomame, uma mulher independente, e Tengo, professor de matemática – que não são o que aparentam e ambos se dão conta de ligeiros desajustamentos na realidade à sua volta, que os conduzirão fatalmente a um destino comum. Um universo romanesco dissecado com precisão orwelliana, em que se cruzam histórias inesquecíveis e personagens cativantes.


Certa vez, uma amiga minha me disse que, ao ler Murakami, a impressão que ela tem é a de que está lendo sempre o mesmo livro – ou seja, independentemente da obra em questão, ela encontra os mesmos tipos de personagens, situações relativamente iguais, cenários parecidos, e assim por diante. Não se pode negar que isso seja verdade: Murakami é bastante repetitivo na elaboração dos seus personagens, e a semelhança entre, por exemplo, Tengo e K. (de Minha querida Sputnik) é significativa demais para passar despercebida. Mas… meu puxão de orelha pára por aí. Porque embora o escritor traga à luz elementos que são muitíssimo comuns em seus livros, e embora haja essa coisa da escrita simplificada, ele sempre traz suas idéias de maneira diferente da vez anterior, e isso confere a cada livro uma essência particular.

Em 1Q84, por exemplo, Murakami atinge um ponto muito profundo ao retratar a violência à mulher de modo cruel e complexo. Aomame, segunda protagonista do livro, está no eixo central dessa violência, e sua profissão oculta a torna responsável por fazer justiça com as próprias mãos. Paralelamente a isso, temos a história de Tengo, um aspirante a escritor que se vê envolvido com a adolescente Fukaeri, misteriosa autora de uma obra que ele precisa reescrever para agradar o editor de uma revista.

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Edições de 1Q84 pela Casa das Letras, editora portuguesa

E a parte realista do romance acaba por aí. Conhecido no mundo todo como um autor de livros de realismo fantástico, Murakami mescla em suas tramas mundanas uma boa pitada de surrealismo, com o qual procura expandir a visão dos leitores e lhes mostrar que a realidade às vezes é bem mais bizarra do que pode parecer. Geralmente ele usa os elementos fantásticos para distorcer o cotidiano a fim de abarcar o Universo inteiro em seus livros, e é por isso que eles são, sempre, imprevisíveis do início ao fim, cheios de imaginação e possibilidades.

Aomame, por exemplo, parece ser transportada para uma espécie de realidade alternativa ao simplesmente descer a escada de emergência de uma avenida movimentada; no início, acha estranho que os guardas policiais tenham mudado o estilo dos seus uniformes, e depois descobre que há duas luas no céu. Abismada com essas mudanças estranhas, Aomame decide rebatizar o ano de 1984 para 1Q84 – "com um quê de interrogação, de dúvida".

O maior barato nos trabalhos do Murakami é que essas bizarrices não são aleatórias. Alguém pode se perguntar o que há de interessante em simplesmente inserir uma lua a mais no céu, ou mudar a roupa dos guardas policiais. Mas Murakami sempre faz esse tipo de coisa com um propósito, e não como uma mera brincadeira; ele usa certos elementos de fantasia às vezes não para confundir o leitor ou inserir um mistério, mas, pelo contrário, para deixar as coisas mais claras. Não entro em detalhes para não cair em spoilers. Porém, afirmo: na viagem de Murakami, o que importa é ir associando os elementos fantásticos e curtir o caminho que vai sendo trilhado.

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À direita, capa da edição norte-americana, com película maleável

No início do livro, a história de Tengo soava muito mais interessante que a de Aomame, pelo menos para mim. Achava os capítulos da jovem muito repetitivos e monótonos, sem grande inserção de informações relevantes. No entanto, à medida que as páginas iam avançando e as histórias iam se tocando, achei soberbo o conjunto como um todo. A história de Aomame ganha uma profundidade ímpar, talvez até maior que a de Tengo. E a trama toda começa a adquirir um tom muito sério, que só faz atiçar a curiosidade. De repente, o livro termina, deixando as pontas todas soltas para o próximo volume.

O tomo 2 de 1Q84 chega às livrarias brasileiras em março de 2013. Se existe sofrimento em esperar pelo lançamento do próximo volume, há um sutil prazer em estar acompanhando a obra no momento em que ela é trazida ao público. No Japão, a obra foi lançada também em três volumes, entre 2009 e 2010.