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31 janeiro 2013

A visita cruel do tempo, de Jennifer Egan

"Em que momento exato você se desviou só um pouquinho da vida relativamente normal que vinha levando até então, em que momento ela se desalinhou de maneira infinitesimal para a esquerda ou para a direita, embarcando assim na trajetória que acabaria por levá-lo para onde se encontra agora?" (p. 169)

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© Pieter M. van Hattem / Vistalux

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Alguns livros ficam empilhados sobre a minha mesa aguardando o momento adequado para serem lidos. Tenho aqui um exemplar de Amor líquido, do filósofo Zygmunt Bauman, As confissões, de Rousseau, Anna Karienina, do mestre Tolstói, e uma biografia completa da banda Pink Floyd. No meio desses livros, estava também A visita cruel do tempo (A visit from the goon squad, 2010), que peguei para ler no início da semana passada, quando julguei que o momento certo havia chegado finalmente. Eu tinha a certeza de que esse romance demandava do leitor um estado de espírito conveniente – como, no fundo, todos os livros demandam.

Terminei a leitura hoje, e posso dizer que toda a festa feita em cima da obra é justificada. Jennifer Egan escreveu um livro que é muitíssimo inventivo e original na forma, mas que possui uma temática extremamente clássica, que afeta todos os seres humanos desde que o mundo é mundo: a passagem do tempo e como isso afeta nossas vidas. Quando folheava o livro, antes mesmo de começar a lê-lo, eu encarava todas aquelas esquisitices da narrativa como uma mera tentativa de chocar o leitor, de chamar atenção, mas esse julgamento tive que abandonar assim que iniciei a leitura. Sim, existe um capítulo escrito em segunda pessoa, existe um capítulo escrito em forma de coluna de revista de fofoca, existe um capítulo escrito em forma de apresentação de PowerPoint, mas todos esses floreios se revelam como um recurso, uma técnica especial para dar conta de todo o universo proposto pelo romance.


Sinopse: Bennie Salazar é um executivo da indústria musical. Ex-integrante de uma banda de punk, ele foi o responsável pela descoberta e pelo sucesso dos Conduits, cujo guitarrista, Bosco, fazia com que Iggy Pop parecesse tranquilo no palco. Jules Jones é um repórter de celebridades preso por atacar uma atriz durante uma entrevista e vê na última — e suicida — turnê de Bosco a oportunidade de reerguer a própria carreira. Jules é irmão de Stephanie, casada com Bennie, que teve como mentor Lou, um produtor musical viciado em cocaína e mulheres. Sasha é a assistente cleptomaníaca de Bennie, e seu passado desregrado e seu futuro estruturado parecem tão desconexos quanto as tramas dos muitos personagens que compõem esta história sobre música, sobrevivência e a suscetibilidade humana sob as garras do tempo.


A edição da Intrínseca traz na capa de trás e na primeira página do volume uma série de elogios feitos por suplementos literários de jornais tais como The New York Times, The Guardian e The Washington Post. Como muitos leitores, não confio totalmente na opinião desses suplementos (geralmente trata-se de uma questão de puro marketing), mas dessa vez, após ler o livro, constatei que todas as opiniões colocadas ali têm seu fundamento. A maioria dos elogios se refere à criatividade de Jennifer, posta à prova neste romance, e à sensibilidade no trato com os personagens da história – todos inesquecíveis, diga-se de passagem.

O conceito de A visita cruel do tempo é o seguinte: uma série de histórias paralelas que se cruzam, uma a uma, em um espaço de tempo de aproximadamente 60 anos. Cada capítulo é narrado sob o ponto de vista de um personagem específico, situado em uma época específica; a cronologia é embaralhada e o ano propriamente dito nunca é mencionado – de modo que o resultado disso é uma espécie de caleidoscópio em que pequenas narrativas se entrechocam, se entrelaçam e se separam. Falando assim, fica a impressão de que o romance é uma confusão de tempos e que o leitor sofre amargurado na tentativa de acompanhar o fio da meada. Engano. Jennifer possui uma habilidade ímpar na hora de situar o que está escrevendo, e o leitor atento não tem a menor dificuldade em estabelecer ordem no aparente caos de todas aquelas 333 páginas. É muito fácil não se perder na narrativa.

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O tom que perpassa a narrativa de A visita cruel do tempo é carregado de uma atmosfera que eu não saberia definir ao certo. Há algo de nostálgico, determinista, inexorável, fazendo-nos pensar que nossa linha do tempo já está fixada de uma maneira que, independentemente do que você faça, ela não se alterará; ainda assim, é uma narrativa que traz consigo um clima de mundo repleto de possibilidades. Seria mais ou menos como se alguém o abordasse, o sacudisse e dissesse: "Você tem o tempo da sua vida para fazer alguma coisa que valha a pena… E as lembranças dos seus feitos ecoarão por toda a eternidade, e suas atitudes afetarão a vida de outras pessoas." Eu senti uma frase como essa zunir na minha cabeça ao virar a última página.

Aliás, este é um livro que fala diretamente com o leitor, e essa é uma característica que me chamou muito a atenção. Não importa o personagem do capítulo que está lendo, não importa se ele é narrado em primeira ou terceira pessoa: você, como leitor, toma parte na história e sente as angústias e os dilemas retratados lá, pelo simples fato de que também é capaz de sentir na pele o efeito do tempo passando e das coisas ao seu redor mudando.

No fundo, A visita cruel do tempo fala sobre como nós podemos perceber (ou não perceber) a passagem do tempo e o impacto que isso traz para as nossas vidas. Pessoas que conhecemos no passado, foram grandes amigas nossas, mas que agora no presente sequer nos reconhecem; experiências e eventos que antes pareciam gloriosos, juventude que se esvai como a água que desce pelo ralo do banheiro; sonhos e expectativas que não encontraram o caminho certo. Tudo isto está presente no livro de um jeito desconcertante, que nos abala, mas que ao mesmo tempo nos faz adquirir uma certa maturidade no final da leitura.

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Na esquerda, página 274 de A visita cruel do tempo

Recomendo A visita cruel do tempo especialmente aos meus amigos que cursam Psicologia. A Literatura e a Psicologia sempre foram coisas indissociáveis para mim, e 'A visita cruel do tempo' é uma prova de que podemos ter o privilégio de estudar nos livros de ficção as coisas que vemos na faculdade. Leiam. Aliás, o tema central desta obra é aquilo que mais leva as pessoas à terapia: a constatação de que o tempo passou e alguma coisa irrecuperável se perdeu lá atrás.

Nota solta: dentre todos os prêmios importantes que o livro de Jennifer recebeu, o Pulitzer de Ficção (2011) certamente é o mais icônico.

Uma dica: se você tiver tempo, paciência e disposição, leia A visita cruel do tempo duas vezes seguidas. Assim como o filme Cloud Atlas, dos irmãos Wachowski, esta é uma obra que pede uma repetição instantânea, o que ajuda o leitor a encaixar melhor toda a cronologia da história e seus detalhes.

16 janeiro 2013

1Q84 | Tomo I, de Haruki Murakami

"Não se deixe enganar pelas aparências. A realidade é sempre única." (p. 22)

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No primeiro dia de 2013, finalizei a leitura do volume 1 de 1Q84 (1Q84, 2009-2010), romance surrealista escrito pelo japonês pop Haruki Murakami. É o mesmo autor do clássico Norwegian Wood (1987), que encantou uma geração de jovens no mundo inteiro ao narrar a trágica história de amor entre Watanabe e Naoko em uma nostálgica Tóquio de 1969. Dono de uma linguagem clara e, até certo ponto, simplificada, Murakami é um dos autores mais lidos da atualidade; consegue atingir em questão de poucos meses a assustadora marca de 4 milhões de exemplares vendidos apenas no Japão.

Dividido em três tomos no Brasil pela editora Alfaguara, 1Q84 é apontado pela crítica especializada como o trabalho mais ambicioso do escritor – não só pelo seu número de páginas, que no total chega a quase 1.500, mas pela estrutura narrativa das duas histórias principais que, aos poucos, vão ganhando contornos cada vez maiores e mais profundos, levantando reflexões sobre os bastidores editoriais no universo da literatura e a violência à mulher.


Sinopse: Tóquio, Japão. Um mundo aparentemente normal. Duas personagens – Aomame, uma mulher independente, e Tengo, professor de matemática – que não são o que aparentam e ambos se dão conta de ligeiros desajustamentos na realidade à sua volta, que os conduzirão fatalmente a um destino comum. Um universo romanesco dissecado com precisão orwelliana, em que se cruzam histórias inesquecíveis e personagens cativantes.


Certa vez, uma amiga minha me disse que, ao ler Murakami, a impressão que ela tem é a de que está lendo sempre o mesmo livro – ou seja, independentemente da obra em questão, ela encontra os mesmos tipos de personagens, situações relativamente iguais, cenários parecidos, e assim por diante. Não se pode negar que isso seja verdade: Murakami é bastante repetitivo na elaboração dos seus personagens, e a semelhança entre, por exemplo, Tengo e K. (de Minha querida Sputnik) é significativa demais para passar despercebida. Mas… meu puxão de orelha pára por aí. Porque embora o escritor traga à luz elementos que são muitíssimo comuns em seus livros, e embora haja essa coisa da escrita simplificada, ele sempre traz suas idéias de maneira diferente da vez anterior, e isso confere a cada livro uma essência particular.

Em 1Q84, por exemplo, Murakami atinge um ponto muito profundo ao retratar a violência à mulher de modo cruel e complexo. Aomame, segunda protagonista do livro, está no eixo central dessa violência, e sua profissão oculta a torna responsável por fazer justiça com as próprias mãos. Paralelamente a isso, temos a história de Tengo, um aspirante a escritor que se vê envolvido com a adolescente Fukaeri, misteriosa autora de uma obra que ele precisa reescrever para agradar o editor de uma revista.

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Edições de 1Q84 pela Casa das Letras, editora portuguesa

E a parte realista do romance acaba por aí. Conhecido no mundo todo como um autor de livros de realismo fantástico, Murakami mescla em suas tramas mundanas uma boa pitada de surrealismo, com o qual procura expandir a visão dos leitores e lhes mostrar que a realidade às vezes é bem mais bizarra do que pode parecer. Geralmente ele usa os elementos fantásticos para distorcer o cotidiano a fim de abarcar o Universo inteiro em seus livros, e é por isso que eles são, sempre, imprevisíveis do início ao fim, cheios de imaginação e possibilidades.

Aomame, por exemplo, parece ser transportada para uma espécie de realidade alternativa ao simplesmente descer a escada de emergência de uma avenida movimentada; no início, acha estranho que os guardas policiais tenham mudado o estilo dos seus uniformes, e depois descobre que há duas luas no céu. Abismada com essas mudanças estranhas, Aomame decide rebatizar o ano de 1984 para 1Q84 – "com um quê de interrogação, de dúvida".

O maior barato nos trabalhos do Murakami é que essas bizarrices não são aleatórias. Alguém pode se perguntar o que há de interessante em simplesmente inserir uma lua a mais no céu, ou mudar a roupa dos guardas policiais. Mas Murakami sempre faz esse tipo de coisa com um propósito, e não como uma mera brincadeira; ele usa certos elementos de fantasia às vezes não para confundir o leitor ou inserir um mistério, mas, pelo contrário, para deixar as coisas mais claras. Não entro em detalhes para não cair em spoilers. Porém, afirmo: na viagem de Murakami, o que importa é ir associando os elementos fantásticos e curtir o caminho que vai sendo trilhado.

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À direita, capa da edição norte-americana, com película maleável

No início do livro, a história de Tengo soava muito mais interessante que a de Aomame, pelo menos para mim. Achava os capítulos da jovem muito repetitivos e monótonos, sem grande inserção de informações relevantes. No entanto, à medida que as páginas iam avançando e as histórias iam se tocando, achei soberbo o conjunto como um todo. A história de Aomame ganha uma profundidade ímpar, talvez até maior que a de Tengo. E a trama toda começa a adquirir um tom muito sério, que só faz atiçar a curiosidade. De repente, o livro termina, deixando as pontas todas soltas para o próximo volume.

O tomo 2 de 1Q84 chega às livrarias brasileiras em março de 2013. Se existe sofrimento em esperar pelo lançamento do próximo volume, há um sutil prazer em estar acompanhando a obra no momento em que ela é trazida ao público. No Japão, a obra foi lançada também em três volumes, entre 2009 e 2010.

02 janeiro 2013

5 livros que eu li em 2012 e que você gostará de ler em 2013

Dessa vez, temos um pouco de tudo: romance autobiográfico, romance premiado, livro de Filosofia…

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Agora que o ano de 2012 chegou ao fim e o ano de 2013 está surgindo repleto de possibilidades, chegou a hora de escrever uma das postagens mais conhecidas aqui do Gato Branco: as indicações de leitura para os 12 meses que se descortinam à nossa frente. Ao todo são cinco indicações, baseadas nos melhores livros que andei lendo no ano passado. Naturalmente, é uma lista muito pessoal, e o único intuito real dela é o de compartilhar algumas das minhas experiências como leitor. Espero que gostem!

Para ter acesso à resenha completa de cada obra, publicada aqui no Blog, basta clicar sobre as capas.


Lá onde os tigres se sentem em casa | Jean-Marie Blas de Roblès

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Li este livro no começo de 2012, numa época em que eu estava acamado por conta de um resfriado horrível, e não podia fazer mais nada além de ler. Se não fosse por essa condição, talvez eu não tivesse tido a oportunidade de devorar com tanta tranquilidade as 700 páginas de Lá onde os tigres se sentem em casa, romance agraciado com o Prêmio Médicis 2008.

O livro é excelente. A começar pela curiosa história do autor: francês, arqueólogo submarino, professor universitário nas horas vagas, chegou a lecionar durante um curto período na Universidade de Fortaleza (onde estudo atualmente), além de ter morado já em países tão exóticos quanto Tibete, Taiwan, Indonésia, Líbia, Peru e China, dentre outros.

O romance, escrito em francês, narra uma meia dúzia de histórias paralelas que se cruzam à medida que os capítulos avançam. Somos apresentados a Eléazard von Wogau, um jornalista correspondente de uma agência francesa, que mora há alguns anos em Alcântara (Maranhão, sim). Ele se dedica a estudar a biografia de Athanase Kircher, jesuíta alemão do século XVII, revelada em um manuscrito misteriosamente deixado pelos correios (a história desse padre barroco é um dos pontos fortes do livro, sem dúvida). Além desses dois personagens, temos também Elaine, a ex-mulher de Eléazard, bela arqueóloga que partiu em inspeção pela Floresta Amazônica; Loredana, uma sedutora jornalista italiana de passagem pelo Norte brasileiro; Nelson, garoto pobre da favela do Pirambu, em Fortaleza, sedento por vingança; e Moema, a jovem idealista filha de Eléazard e Elaine.

É um romance divertidíssimo, grande, complexo, cheio de imaginação e muitíssimo interessante – não apenas pela história em si, original, mas também pelo fato de ela se passar em grande parte no norte-nordeste do Brasil, algo digno de nota. Recomendo para valer a leitura de Lá onde os tigres se sentem em casa.


Tremor | Jonathan Franzen

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Louis Holland é um jovem operador de rádio em Boston, trabalhando para uma estação de vanguarda à beira da falência, quando um terremoto de pequena escala mata sua avó postiça, uma escritora popular de livros sobre consciência energética e Nova Era. A partir de então, a vida de Louis começa a fazer parte de uma série de dramas familiares, amorosos e existenciais, o que inclui uma mesquinha disputa pela herança da velha senhora, o relacionamento com uma sismóloga problemática e a constatação de que a série de terremotos que assola a região não tem causas naturais, mas é fruto de perfurações subterrâneas capitaneadas por uma poderosa empresa de produtos químicos.

A sinopse acima é apenas uma brevíssima pincelada do que o leitor vai encontrar no segundo romance de Jonathan Franzen. Digo isso porque é impossível abreviar de modo satisfatório a trama de Tremor em um único parágrafo: o livro é tão denso, tão intrincado, tão cheio de pormenores, que não há sinopse que abarque tudo o que ele propõe. É, acima de tudo, uma mistura de drama com investigação policial, em que surgem várias facetas de história de amor. Embora seja divertido em muitas partes, não é um livro de leitura fácil. Requer do leitor dedicação e tempo, mais do que o normal. No entanto, foi um livro extremamente marcante para mim. Foi fácil me identificar com alguns dos personagens, com algumas das situações e com algumas das reflexões levantadas por Franzen.

Pela riqueza de conteúdo e pela tentativa de sintetizar toda a falência do grande sonho americano, Tremor é uma leitura recomendadíssima. Talvez seja a indicação mais ousada desta lista, mas… fica a sugestão!


A arte de viajar | Alain de Botton

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Essa foi uma das leituras mais relaxantes que fiz em 2012. Mesmo passando por um relacionamento amoroso difícil, consegui encontrar paz e leveza nas palavras do filósofo popular Alain de Botton, este simpático suíço que mora na Inglaterra desde 1977. Nesta obra, Alain nos faz refletir bastante sobre todos os aspectos filosóficos que estão relacionados à atividade – corriqueira, para alguns – de sair de casa e viajar. Seja a trabalho, seja por divertimento, tirar os pés da zona de conforto em que estamos inseridos e conhecer o mundo carrega um mundo de possibilidades prazerosas, experiências significativas e sentido para a existência. Acima de tudo, A arte de viajar é um delicioso manual de como abrir a mente para as inúmeras opções que as viagens acarretam.

Longe de ser um livro de auto-ajuda vazio em que surgem expressões do tipo "Você é o ator principal no palco da vida" ou "Faça um expurgo mental de todas as roupas sujas de sua existência", A arte de viajar convida o leitor a trilhar reflexões que hoje em dia parecem passar despercebidas pelas pessoas. Apoiando-se em filósofos de renome, escritores e aventureiros dos séculos passados, Alain de Botton tece um manual prático (que pouco tem a ver com "manual", diga-se de passagem) sobre como ver a beleza nas coisas simples, em especial nas viagens que realizamos ao longo da vida.

Muitíssimo recomendado. Sem ressalvas!


Estado de graça | Ann Patchett

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Outro livro escrito por um estrangeiro e que se passa no Brasil. Estado de graça surgiu como um raio na minha frente: eu estava passeando pela livraria, vi aquela capa maravilhosamente bem trabalhada e, depois de ler a sinopse da parte de trás do volume, senti que deveria lê-lo.

Primorosamente escrito, de um texto cuja qualidade raramente encontramos por aí, esse romance cativa o leitor desde a primeira página, com seus mistérios, sentimentos velados e suspeitas. Marina Singh é uma médica norte-americana que trabalha para uma empresa farmacêutica financiadora de uma pesquisa realizada no coração da Selva Amazônica. Essa pesquisa tem como objetivo coletar dados e informações a fim de tornar possível a fabricação de uma substância que torna as mulheres férteis até os 70 anos de idade. A Dra. Annick Swenson encabeça a pesquisa e está in loco, junto com a tribo indígena cujas mulheres ingerem a casca de determinada árvore e, através dessa alimentação, tornam-se férteis até a morte. No entanto, a Dra. Swenson não envia relatórios sobre o andamento da pesquisa há vários meses, e quando emite um lacônico comunicado informando que um dos membros da equipe morreu na selva, o CEO da empresa farmacêutica, Jim Fox, envia a Dra. Singh para que ela possa entender o que está acontecendo nos bastidores de tudo isso.

O jornal The Washington Post classificou Estado de graça como "o romance mais inteligente e emocionante lançado recentemente", e não tenho motivos para discordar dessa afirmação. Prende nossa atenção do início ao fim, e é um ótimo lembrete do que pode ocorrer entre a Floresta Amazônica e a ambição de certas companhias patrocinadoras de pesquisas farmacêuticas. Mais um livro que eu recomendo sem ressalvas.


Infância | Maksim Górki

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Certamente este foi o livro mais bonito, singelo e humano que li em 2012.

Infância é o primeiro livro da trilogia autobiográfica de Górki; os outros dois títulos são Ganhando meu pão e Minhas universidades. Em Infância, como o próprio título sugere, Maksim Górki passa para o papel, em forma de romance, todas as suas vivências de menino pobre na Rússia czarista do século XIX. Embora ele teça várias considerações sobre seus amigos (que foram poucos), vizinhos e eventos históricos, o principal eixo deste livro é o universo familiar, em que se destacam as figuras do seu avô, autoritário patriarca, de sua avó, doce e singela dona-de-casa, sua mãe, libertária e com grande senso de independência, e uma trupe de tios e primos. E é nessa constelação familiar turbulenta que o menino Górki vai forjando sua personalidade compadecente e um grande espírito crítico para as injustiças do mundo.

Muito bem escrito, muito tocante, muito humano. É o tipo do livro que você sabe que vai reler em um futuro próximo. Recomendo muito!


Bom começo de ano para todos! E que venham novas e excelentes leituras em 2013 ;)

25 dezembro 2012

Estado de graça, de Ann Patchett

"Agora que Marina estava no Amazonas, parecia infindável a lista de coisas que poderiam matar uma pessoa sem que a culpa fosse atribuída a alguém (…)" (p. 86)

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Lá estava eu na livraria que costumo visitar praticamente todos os dias, cheia de gente neste fim de ano, quando vejo ao lado de uma montanha de edições de O Hobbit alguns exemplares do livro Estado de graça (State of wonder, 2011), escrito pela norte-americana Ann Patchett. Fui direto para a estante em que eles estavam, querendo pôr as mãos naquele livro e folheá-lo a qualquer custo. Não que eu já tivesse escutado algo a respeito da obra, nem mesmo a respeito da autora: eram ambos completamente inéditos para mim. O que me chamou a atenção imediatamente, e o que me fez querer investigar Estado de graça, foi a arte da capa. Sim, às vezes ninguém consegue fugir disso, nem mesmo os leitores mais conservadores: somos reféns de algumas capas maravilhosamente trabalhadas.

Através de uma rápida olhada na sinopse da orelha, descobri que o livro é uma espécie de romance de aventura que envolve pesquisa científica, excursões pela Amazônia indígena e uma espécie de "busca pela fonte da juventude" – metaforicamente falando. Descobri também que Patchett foi a vencedora do Prêmio Orange de Literatura pela obra Bel Canto, que estou esperando sair em português para conferir.

Quanto a Estado de graça, foi certamente uma das melhores leituras que fiz neste ano.


Sinopse: A Dra. Marina Singh trabalha para uma empresa norte-americana que financia o desenvolvimento de uma nova droga na Amazônia. À frente da pesquisa está a Dra. Annick Swenson, que descobriu uma tribo isolada na floresta Amazônica. As mulheres desta tribo permanecem férteis por toda a vida e dão à luz filhos saudáveis depois dos 60 anos, graças ao hábito de mascarem a casca de determinada árvore. Um medicamento feito a partir dessa substância significaria a solução para os problemas de fertilidade de mulheres em todo o mundo. Implacável e intransigente, a Dra. Swenson faz de tudo para proteger sua pesquisa dos olhos ambiciosos da indústria farmacêutica e manter em segredo as informações sobre o progresso com os estudos. Após a morte de um colega de laboratório, Marina é enviada ao Brasil com o objetivo de encontrar respostas.


Acredito que seja sempre um desafio, para o escritor, redigir uma história que se passa em um país diferente do seu: no caso dos escritores que se prezam, é preciso viajar a fim de coletar informações in loco, ouvir e estudar a língua nativa, investigar a cultura do povo e todas as suas particularidades. Me parece que Patchett cumpriu essas exigências ao se propor a escrever sobre o Brasil – mais especificamente, sobre Manaus e a Amazônia. Não existe em seu texto algo que revele leviandade ou ingenuidade: apenas os fatos, tais como são, crus. A população da zona portuária de Manaus, as características do clima da região, a população indígena. Se às vezes a autora parece cair em um lugar-comum, seja ao dizer que o menino vestia uma camisa da Copa do Mundo ou que os vendedores ambulantes brasileiros empurram suas bugigangas aos turistas sem piedade, basta olharmos em volta e perceber que isso não é mera ficção estereotipada. É a realidade que se apresenta no cotidiano brasileiro.

Uma das características mais chamativas de Estado de graça é a própria escrita de Ann Patchett, escrita esta que foi inclusive largamente elogiada pelo suplemento literário do The New York Times. Não sem razão: o texto da norte-americana possui fluidez, estofo, do tipo que não subestima a inteligência do leitor. Explora psicologicamente todos os lados da condição em que os personagens se encontram, explora seus sentimentos contraditórios e convida o leitor a tomar parte dessas contradições. Não é propriamente uma linguagem de best-seller à qual estamos acostumados hoje em dia, meramente descritiva e superficial quando trata de conteúdos abstratos. Portanto, embora a sinopse sugira algo bem próximo da aventura descompromissada, a autora que narra essa aventura mostra estar preocupada, também, com os aspectos mais profundos de sua trama – como a ética na pesquisa científica, o poder da empresa que a patrocina e o exotismo das populações indígenas.

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Diferentes edições em inglês de Bel Canto, a mais conceituada obra de Ann Patchett

A propósito, Estado de graça é uma mistura muito bem sucedida dos gêneros drama, aventura e investigação policial. No início da história, muitos personagens são apenas citados, de modo que o leitor não sabe o que é feito deles, onde estão e o que realmente fazem: paira uma atmosfera de chão movediço e mistério em que pululam muitas perguntas e não há quase nenhuma resposta plausível – e esse enigmático estado de coisas é uma das razões pelas quais a protagonista, Marina Singh, viaja para o Brasil e vai conferir as coisas pessoalmente. Desde a primeira página, quando os enigmas e as poucas explicações já começam a intrigar o leitor, somos levados a ir virando as folhas quase ininterruptamente, acompanhando os desdobramentos imprevisíveis da trama.

"Envolvente" e "inteligente" são as duas palavras que, creio, definem melhor o que se pode esperar de Estado de graça. Estamos vivendo em uma época na qual poucos livros conseguem unir de forma realmente satisfatória elementos aparentemente díspares como excursões ao estilo da aventura clássica e discussões sobre a condição e os relacionamentos humanos. A mais recente obra de Ann Patchett consegue trazer isso à tona. Uma boa dose de literatura inteligente: consegue colocar o leitor para refletir e, além disso, entretê-lo.

Leia o primeiro capítulo do livro aqui.


Marina, surpresa pela força da ordem e pelo olhar enlouquecido de frustração no rosto de Barbara Bovender, obedeceu e bebeu todo o líquido em um longo gole. Não era exatamente líquido, sendo mais denso no fundo, viscoso, e com pequenos pedaços de algo duro como gravetos arranhando sua garganta. A canoa onde estavam era um tronco e virava de lado, e ela era jogada para dentro d'água com o pai. A água entrava em seus olhos, no nariz e na boca. Ela afundou antes que pudesse nadar e tudo o que conseguia sentir era o gosto do rio. Ela havia se esquecido, até aquele momento, do gosto do rio. (p. 103)

14 dezembro 2012

Tia Julia e o escrevinhador, de Mario Vargas Llosa

"O futuro era um assunto tacitamente abolido de nossas conversas, sem dúvida porque, tanto ela como eu, estávamos convencidos de que nossa relação não tinha nenhum." (p. 122)

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Tia Julia e o escrevinhador (La tía Julia y el escribidor, 1977) era um livro que estava na estante do meu irmão há alguns anos e eu nunca tinha tido a oportunidade de pegá-lo para ler. Já havia devorado o romance Travessuras da menina má antes, que é de Mario Vargas Llosa também, e inclusive comecei a pensar em ler os outros títulos deste escritor peruano, mas nessa época uma série de leituras mais prementes estavam se colocando entre eu e Tia Julia.

A verdade é que, depois de muitos títulos do Murakami, alguns de Amitav Ghosh e outros tantos de Erico Verissimo, finalmente pulei por cima de alguma espécie de obstáculo invisível e puxei da prateleira do meu irmão este pitoresco romance de Llosa (vencedor do Nobel de Literatura em 2010, convém lembrar), me divertindo do início ao fim com as aventuras sentimentais de Marito e as extravagâncias artísticas do radionovelista Pedro Camacho.


Sinopse: Tia Julia e o escrevinhador é um dos livros mais originais de Vargas Llosa. Mesclando humor e romance, o escritor narra a história de Varguitas, um jovem peruano com ambições literárias que se apaixona por uma tia com quase o dobro da sua idade. Em paralelo a esse romance proibido, na Lima dos anos 50, Varguitas conhece Pedro Camacho, autor excêntrico de radionovelas cujos enredos mirabolantes fascinam os peruanos. As novelas vão muito bem, até o dia em que Pedro Camacho, sobrecarregado, começa a confundir enredos e personagens. E, ao mesmo tempo, o romance entre Varguitas e tia Julia é descoberto pela família.


Mario Vargas Llosa é um daqueles escritores com os quais tenho uma estreita relação de afeição e repulsa. Me afeiçoei ao seu trabalho porque ele é, de fato, sem sombra de dúvidas, um exímio contador de histórias, um artista das letras verdadeiramente ímpar – basta lembrar da sua longa incursão na literatura engajada, em que transformava em romance grandes eventos da política latino-americana, como nos clássicos A festa do bode e Lituma nos Andes. Sua importância literária (e não só a importância como também a qualidade real de sua escrita) faz de Llosa um dos maiores escritores da América do Sul. Por outro lado, pessoalmente falando, acho-o bastante aborrecido e desagradável como sujeito. Mas isso é uma opinião pessoal demais, e não convém ao caso falar sobre ela.

Tia Julia e o escrevinhador foi redigido entre duas grandes obras: Conversa na catedral e A guerra do fim do mundo. Por essa razão, corria o sério risco de ser tratado como um trabalho menor do escritor, mero passatempo ou divertimento literário, por abordar um assunto engraçado e tecnicamente superficial: o amor autobiográfico entre um menino de 18 anos e sua tia distante. No entanto, bem feitas as contas, percebe-se que Tia Julia é um romance que, além de divertidíssimo e muito bem humorado, é também uma obra de arte não menos ambiciosa que as duas citadas acima. Vargas Llosa tem o dom de transformar cada pequeno acontecimento em uma situação envolvente, além de abordar os eventos da história sob uma ótica antropológica genial.

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Capa da Coleção Folha de Literatura Ibero-Americana e pôster do filme norte-americano baseado no romance, estrelado por Keanu Reeves

Não é à toa que o escritor é festejado bastante aqui na América Latina: cada livro seu faz uma referência completa a todo panorama do continente, traçando uma espécie de painel sócio-histórico que faz a América abaixo do hemisfério norte parecer de fato uma grande e coesa comunidade, com seus dramas pessoais, suas nuances políticas, suas mesquinharias e suas virtuosidades. Em Tia Julia isso fica muito claro: percebe-se como Llosa teve o cuidado de inserir praticamente todos os países latinos na história, nem que seja como uma simples menção.

O livro é dividido basicamente em dois eixos centrais: a história de amor entre o personagem Mario Vargas e Julia (sim, há muito de autobiográfico nesta história, porque na vida real o autor também se envolveu com a própria tia, anos mais velha que ele, chamada Julia) e as radionovelas escritas pelo pitoresco artista boliviano Pedro Camacho. Os capítulos são alternados – ou seja, depois de um capítulo sobre as peripécias de Mario, há um capítulo de radionovela escrito por Camacho. Aqui cabe um parêntese: embora seja um recurso literário muito interessante, esse movimento de troca de capítulos cansa um pouco o leitor, porque a quebra do fio da meada da história é uma constante. Nada que torne o livro menos bom, claro, mas o fato é que isso pode deixar a leitura um pouco enfadonha em alguns pontos.

Os vários personagens que orbitam ao redor de Mario, Tia Julia e Pedro Camacho são sujeitos riquíssimos e muito bem construídos, principalmente Javier – melhor amigo de Mario –, Grande Pablito e Pascual. Aliás, essa é uma das muitas qualidades de Llosa como novelista, saber criar personagens secundários interessantes e memoráveis (o auge desse tipo de criação foi em Travessuras da menina má, sem dúvida, porque até hoje me lembro com ternura do inesquecível Menino Sem Voz).

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Da esquerda para a direita: Vargas Llosa, Carlos Fuentes e García Márquez

Assim como Travessuras da menina má, Tia Julia e o escrevinhador é um dos romances mais leves de Mario Vargas Llosa: "leve" não no sentido de superficial, mas de mais facilmente identificável com o leitor, mais próximo da nossa realidade emocional cotidiana e, em suma, mais novelesco. O escritor peruano destila toda a sua capacidade de contar uma boa história, narrá-la de uma maneira que parece descompromissada mas que, na verdade, carrega toda uma bagagem social nas páginas; uma literatura compromissada, sim, compromissada a todo momento com seu povo, seus eventos e suas particularidades. Ler Tia Julia e entender seu contexto deixa qualquer um com uma pontinha de orgulho por ser latino-americano, no final das contas.

02 dezembro 2012

Globalização, democracia e terrorismo, de Eric Hobsbawm

"Teremos de encontrar outras maneiras de organizar o mundo globalizado do século XXI" (p. 85)

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Quem circula com frequência pelas grandes livrarias sabe que basta um autor relativamente conhecido vir a falecer para que boa parte da sua obra fique estampada nas prateleiras mais visíveis do estabelecimento. Lembro que, quando José Saramago deixou este mundo, em junho de 2010, as estantes da livraria que costumo visitar ficaram apinhadas de livros do escritor Nobel português; com Michael Crichton (em 2006) não foi diferente, e com John Updike (em 2009) aconteceu a mesma coisa. Geralmente esta avalanche de títulos alardeados após a morte do autor vem acompanhada de promoções chamativas: Caim com 10% de desconto, Jurassic Park em edição de bolso, boxes de luxo da série Rabbit.

Embora esta prática tenha tudo de mercantilista em suas vantagens publicitárias para a loja, deve-se admitir que ela também possui seu lado bom. Chega a ser bastante óbvio o fato de que podemos conhecer grandes obras quando um grande escritor (que não conhecíamos antes) vem parar diante dos nossos olhos. Eric Hobsbawm, por exemplo, faleceu em 1º de outubro de 2012; no dia seguinte, voltando da faculdade, passei na livraria e vi uma série de suas obras clássicas enfileiradas na primeira prateleira depois das portas de entrada. Intimado a prestar minhas condolências a todos aqueles livros órfãos, parei para folhear alguns ao acaso. Um dos que peguei nas mãos foi Globalização, democracia e terrorismo (Globalisation, democracy and terrorism, 2007); cativou-me logo pela sua simplicidade, clareza e relevância de conteúdo. E, como o livro não era tão grande assim – na verdade, possui apenas 182 páginas –, foi ele que escolhi para conhecer esse historiador tão elogiado ao redor do mundo.


Sinopse: Nos 10 textos que compõem este livro, o renomado historiador Eric Hobsbawm, autor do clássico "Era dos Extremos", analisa a situação mundial no início do novo milênio e trata dos problemas mais agudos que nos confrontam. Nesta esclarecedora aula de História Contemporânea, Hobsbawm traça um painel do cenário político internacional ao discorrer sobre temas como guerra e paz, imperialismo, nacionalismo e hegemonia, ordem pública e terrorismo, mercado e democracia, o poder da mídia e até futebol.


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Reflexões sobre os conflitos civis no Oriente Médio são mencionados durante boa parte da obra


Globalização, democracia e terrorismo é, na realidade, uma coletânea de 10 palestras que Eric Hobsbawm proferiu ao redor do mundo. Nelas, o historiador aborda uma série de questões políticas, sociais e econômicas que estão em evidência no nosso mundo contemporâneo. Com a grande autoridade de que dispõe, ele esmiúça conflitos militares no Leste Europeu e no Oriente Médio, fala sobre a emancipação social das mulheres com relação aos homens, discorre sobre a hegemonia político-ideológica que as grandes potências exercem sobre os demais países, conta um pouco de História Clássica, grupos separatistas (como o IRA e o ETA), violência nos grandes centros urbanos e as perspectivas da democracia nessa virada de século. Em suma: este livro é um verdadeiro apanhado geral sobre o que anda acontecendo no planeta nos últimos tempos – uma aula de história contemporânea.

Talvez pelo fato de serem palestras, os capítulos do livro apresentam uma clareza de ideias muito motivadora para o leitor. Sem circunvoluções enfadonhas, sem prolixidade, sem jargões científicos, Hobsbawm tece comentários muito lúcidos para seus ouvintes, e a transformação de sua fala para um texto escrito resultou em uma literatura muito inteligível e coerente. O capítulo 6, As perspectivas da democracia, por exemplo, é especialmente interessante porque trata de um assunto bastante relevante de forma profunda e clara ao mesmo tempo.

Muito interessantes também são as considerações que o autor faz a respeito do futebol enquanto movimento de massas nacionalista e geradora de violência urbana, no capítulo 5. Ou a discussão que ele levanta quando menciona os principais grupos separatistas europeus e a relação que estes estabelecem com a queda dos governos estáveis e auto-reguladores. Sob diversos aspectos, o que Hobsbawm faz é girar o prisma da realidade política e social do mundo e mostrar as suas outras facetas, que chocam e desestruturam nossas mais antigas convicções.


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No livro, Hobsbawm levanta discussões que envolvem grupos separatistas europeus, como o IRA e o ETA


Em vida, Eric Hobsbawm com frequência era acusado de sustentar um posicionamento ideológico irracional nos dias de hoje: o comunismo. Em uma reportagem publicada pela revista Veja (leia aqui), o historiador é literalmente chamado de "idiota moral" pelo jornalista, que, sem escrúpulos, afirma que este intelectual inglês manchou toda a sua obra ao levantar a bandeira stalinista e pregar o regime comunista como ideal. O que convém notar é que, se ele fosse o cego ideológico que a revista afirma que era, Hobsbawm não teria reconhecido que os governos comunistas haviam errado totalmente o caminho que Marx orientara.

(Não sou comunista, não sou marxista, mas gostaria de dizer que todas as críticas feitas a Eric Hobsbawm são aplicáveis a personalidades de direita, também. "Mesmo diante da execução sumária e tortura de milhões, continuou se furtando a condenar um regime atroz" é um exemplo de crítica aplicável a ambos os lados.)

Por fim: se o leitor quer uma dose rápida, mas riquíssima, de aulas sobre História Contemporânea, convido-o a ter nas mãos este pequeno livro que, longe de pregar qualquer movimento ideológico, mostra como o nosso mundo é complexo e admite várias vertentes – várias suposições e vários pontos de vista.


"Um prognóstico tentativo: no século XXI, as guerras provavelmente não serão tão mortíferas quanto foram no século XX. Mas a violência armada, gerando sofrimentos e perdas desproporcionais, persistirá, onipresente e endêmica – ocasionalmente epidêmica – em grande parte do mundo. A perspectiva de um século de paz é remota." (p. 35)

25 novembro 2012

Receita para as férias [2012.2]

O que podemos esperar aqui no Blog para as férias do final do ano, em termos de literatura.

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A torrente de obrigações acadêmicas que tem surgido nos últimos meses – na verdade, ao longo de todo este ano – me obrigou a deixar um pouco de lado tudo o que publico aqui. Contrariando minhas expectativas, não diminuí meu ritmo de leitura, que aliás pareceu mesmo ter subido neste segundo semestre, mas o tempo disponível para dedicar às resenhas semanais andou apertado o suficiente para que eu passasse às vezes um mês sem publicar coisas inéditas. Que triste!

Como todo amante de leituras, vejo a minha pilha de livros por ler aumentar gradualmente a cada semana que passa. Nunca fui de acumular livros assim, aos poucos, de deixá-los esperando em um canto da minha estante, mas hoje vejo que este é um exercício inevitável, até saudável, na medida em que vamos criando expectativas e desejos com relação às obras que ficam ali, nos aguardando. E isso pode ser muito bom na hora de finalmente ter o livro nas mãos.

Mas as férias existem para que, dentre outras coisas, possamos atualizar nossa caminhada literária e pôr tudo em dia. Pensando nisso, resolvi organizar neste post todas as obras que me esperam no início de dezembro – se tudo correr como esperado no laboratório de pesquisa do qual faço parte, claro; do contrário, terei que esperar mais alguns dias. Tenho um grande carinho por todos os livros listados abaixo, e mal posso esperar para começá-los!


A visita cruel do tempo | Jennifer Egan

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Presente de aniversário dado pelo meu irmão. Não nego: o livro dá medo. Pela rápida folheada que dei nele, a narrativa me pareceu uma curiosa mixórdia de tempos verbais, eventos paralelos e personagens voláteis. Ainda estou pensando como vou abraçar este livro, mas, desde agora, posso dizer que impera a expectativa de um livro memorável – levando em conta as dezenas de críticas positivas que Egan recebeu dos jornais de língua inglesa. Ainda estou amadurecendo a ideia de como abordá-lo…


Nos bastidores do Pink Floyd | Mark Blake

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Ah, Pink Floyd… Melodias incríveis, letras de qualidade, arranjos impressionantes. Uma banda que conseguiu a façanha de produzir, depois de Dark Side of The Moon, uma obra-prima atrás da outra. O que esperar desse livro, então? A biografia (definitiva, pelo que pude constatar) de um dos melhores conjuntos de rock da História. O livro conta a trajetória completa destes mestres da música, desde a Era Syd até a Era Gilmour, e possui um bonitinho caderno de fotos em papel Couche. (A cada folheada que dou, encontro uma página nova desse caderno de fotos, uma página que eu não tinha visto antes… Incrível.)


Pela bandeira do paraíso | Jon Krakauer

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Admito, penso em trocar este aqui por Os sobreviventes dos Andes, de Clay Blair Jr. Não que o livro de Krakauer seja ruim: nada disso. Foi apenas a mistura de dois elementos que fez com que eu tomasse a decisão de trocá-lo: meu fascínio por qualquer publicação sobre a tragédia dos jogadores de rúgbi nos Andes e a sensação de que a história dos mórmons, retratada no livro de Jon, ainda não me apetece o bastante. Mas a qualidade jornalística dos livros do autor é inquestionável, vide Na natureza selvagem e Onde os homens conquistam a glória, excelentes registros documentais sobre Christopher McCandless e Patrick Tillman, respectivamente. Veremos o que acontece com este item da lista.


Confissões | Jean-Jacques Rousseau

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Depois de Os devaneios do caminhante solitário, Rousseau se tornou meu filósofo favorito – não só pelas suas ideias, belas e justas, mas também pela clareza na forma como ele expõe esses pensamentos. Consigo me identificar com quase tudo o que ele escreve, o que chega a ser impressionante se estivermos levando em conta um pensador suíço do século XVIII e um brasileiro de 20 anos que lê Michael Crichton e Dan Brown. Aqui nesta obra, temos uma espécie de autobiografia moderna em que Rousseau se compromete a revelar, para o mundo, tudo o que sentiu e viveu; assim, ele se despe perante todos, críticos e admiradores – o que não deixa de ser um ato incrivelmente ousado. Parece ser um livro bem prolixo: estou curioso para ver os pensamentos que ele carrega.


03 novembro 2012

A arte de viajar, de Alain de Botton

"O que consideramos exótico no exterior pode ser aquilo a que aspiramos em vão em casa." (p. 80)

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Meus amigos mais próximos sabem que, quanto mais sinto prazer em ler um livro, mais demoro para terminar de lê-lo; mais vagarosamente saio de um capítulo para o outro, mais tempo costumo gastar para ler um parágrafo, com mais lentidão me detenho numa página específica. Alguns colegas até se exasperam com isso, não compreendem o porquê, como foi o caso de uma amiga minha que me via diariamente com A arte de viajar (The art of travel, 2002) nas mãos e sempre dizia: "Você ainda não terminou de ler este livro? Não acredito!" E, três dias depois, ela me encontrava com o mesmo livro aberto sobre o colo, praticamente na mesma página de antes.

Se no passado eu já tinha ouvido falar em Alain de Botton, foi somente como uma menção vaga que não marcou nenhuma impressão na minha mente. Essa leve sensação de familiaridade com o nome desse escritor suíço foi despertada quando, num belo dia, passeando os olhos por uma revista publicitária, vi um de seus livros mais elogiados em preço de promoção: era A arte de viajar, que, pela capa e pelo título, conseguiu atrair minha atenção e me fazer querer lê-lo imediatamente. Não titubeei: fui à livraria, comprei o volume (que foi baratíssimo, diga-se de passagem) e me deliciei com uma das leituras mais prazerosas que lembro ter feito.


Sinopse: Em A arte de viajar, Alain de Botton, autor de As consolações da filosofia, nos propõe uma excursão pelas satisfações e decepções do ato de viajar. Aeroportos, tapetes exóticos, emoção das férias e frigobares de hotel; esse livro bem-humorado, esclarecedor e instigante revela as motivações filosóficas, expectativas e complicações ocultas em nossas viagens pelo mundo afora.


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Cafeteria automática (1927), de Edward Hopper: uma das muitas pinturas analisadas em A arte de viajar


Fartamente ilustrado com imagens de pinturas famosas, fotografias tiradas pelo próprio autor e desenhos clássicos, A arte de viajar é um verdadeiro deleite para quem gosta da vertente da Literatura que se propõe a transmitir para os leitores as vivências, experiências significativas e memórias pessoais do escritor. Eu diria, inclusive, que A arte de viajar é o livro de memórias por excelência, não somente porque o autor narra suas reflexões sobre o mundo e tem toda uma concepção de vida, mas porque ele ilustra essas reflexões de forma incrivelmente pessoal. Imaginem aquelas fotografias que nós batemos no meio da rua, capturando o telhado torto de uma casa, uma nuvem solta ou um transeunte qualquer: essas imagens amadoras De Botton também faz, e, mais ainda, ele as usa para ilustrar, de forma muito própria, aquilo que quer passar para os seus leitores.

O resultado disso é um livro muito bonito, modesto e ao mesmo tempo elegante, porque Alain de Botton – embora sempre escrevendo de forma muito pessoal – se apoia nas ideias de uma miríade de outras personalidades: filósofos como Nietzsche, pintores como Van Gogh, poetas como Baudelaire, ensaístas como John Ruskin. Provando que possui uma extensa sabedoria sobre a obra de todas essas pessoas, De Botton as utiliza para ilustrar e explicar vários aspectos inerentes ao exercício de viajar. Em outras palavras, ele transforma a filosofia que nós consideramos erudita e distante do cotidiano em algo totalmente próximo e útil.


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Gasolina (1940), outra tela de Hopper sobre a qual De Botton comenta de forma brilhante


Uma coisa é certa: você vai ficar com vontade de pegar o primeiro avião (ou o primeiro trem, ou o primeiro navio, ou o que quer que seja) e ir em direção a qualquer lugar. Lendo A arte de viajar você sente aquela vontade intensa de viver novas experiências em um lugar bem diferente daquele que você costuma ver todos os dias, no qual você costuma estar sempre. E esse desejo tem origem nas reflexões que De Botton traz para nós em seu livro, ideias que encontram suporte na Arte de um modo geral, na poesia, na arquitetura, e em todas as coisas que a Filosofia pode nos oferecer. Um verdadeiro banho de inteligência bem-humorada, útil e reflexiva.

O mais interessante desta obra é que o autor discorre sobre vários aspectos relacionados à atividade de viajar, e esses aspectos podem se estender à vida cotidiana de um modo mais amplo. Por exemplo, ele escreve sobre a expectativa antes de partir, sobre a curiosidade, sobre o exotismo, sobre o sublime, a posse da beleza e o hábito – neste último capítulo, o autor nos brinda com uma hilária mas construtiva análise da obra de Xavier de Maistre, Viagem ao redor do meu quarto. Todas as considerações sobre esses temas são extremamente bem-vindas, e a linguagem de De Botton, elegante e harmoniosa, envolvente, faz com que adoremos cada passagem, cada trecho.


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"No contato com esses elementos, leitores que em outras áreas de suas vidas seriam capazes de ceticismo e prudência regrediam ao otimismo e à inocência primordiais." (p. 16)


Se há uma coisa que eu repito com constância aqui no Blog, é esta: nunca consigo escrever uma boa resenha sobre os livros de que mais gosto. Sempre sai uma coisa canhestra, comentários volúveis, e nas releituras eu invariavelmente penso: "não era bem isso o que eu queria dizer sobre a obra". Já com isso em mente, selecionei um trecho do próprio A arte de viajar que, na minha opinião, resume bem as reflexões que o livro se propõe a fazer. Nas palavras do próprio Alain de Botton, eis:

"Se nossas vidas são dominadas pela busca da felicidade, talvez poucas atividades revelem tanto a respeito da dinâmica desse anseio – com toda a sua empolgação e seus paradoxos – quanto o ato de viajar. Ainda que de maneira desarticulada, ele expressa um entendimento de como a vida poderia ser fora das limitações do trabalho e da luta pela sobrevivência. Mas raramente se considera que as viagens apresentem problemas filosóficos – ou seja, questões convidando à reflexão além do nível prático. Somos inundados por recomendações sobre os lugares para onde viajar, mas pouco ouvimos sobre como e por que deveríamos ir." (p. 17)

A arte de viajar nada tem de manual ou de guia; sua proposta não é dar ao leitor conselhos do tipo "Faça isso, experimente aquilo". É muito importante frisar isso, ainda mais em se tratando de Alain de Botton, que ganhou a fama errada de autor de auto-ajuda filosófica. O que ele realmente propõe é uma conversa, uma abertura de olhar, estar atento às experiências do mundo cotidiano, o que pode facilitar e muito a nossa existência, transformando em arte e em beleza uma coisa que às vezes soa aparentemente mesquinha e desinteressante.

Boa viagem!


Abaixo, um trecho do livro que achei muito significativo:

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"A fotografia não pode, por si só, garantir o alimento necessário para a alma quando esta se encontra em contato com paisagens belas. A verdadeira posse de uma paisagem depende de um esforço consciente no sentido de observar elementos e entender a sua construção. Podemos muito bem ver a beleza apenas abrindo os olhos, mas sua sobrevivência na memória depende de quão intencionalmente a apreendemos. A câmera fotográfica embaça a distinção entre olhar e notar, entre ver e possuir; pode oferecer-nos a alternativa de um autêntico conhecimento, mas também pode, inadvertidamente, fazer parecer supérfluo o esforço dessa aquisição – porque sugere que já fizemos todo o trabalho ao meramente tirar a fotografia." (p. 219)