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02 dezembro 2012

Globalização, democracia e terrorismo, de Eric Hobsbawm

"Teremos de encontrar outras maneiras de organizar o mundo globalizado do século XXI" (p. 85)

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Quem circula com frequência pelas grandes livrarias sabe que basta um autor relativamente conhecido vir a falecer para que boa parte da sua obra fique estampada nas prateleiras mais visíveis do estabelecimento. Lembro que, quando José Saramago deixou este mundo, em junho de 2010, as estantes da livraria que costumo visitar ficaram apinhadas de livros do escritor Nobel português; com Michael Crichton (em 2006) não foi diferente, e com John Updike (em 2009) aconteceu a mesma coisa. Geralmente esta avalanche de títulos alardeados após a morte do autor vem acompanhada de promoções chamativas: Caim com 10% de desconto, Jurassic Park em edição de bolso, boxes de luxo da série Rabbit.

Embora esta prática tenha tudo de mercantilista em suas vantagens publicitárias para a loja, deve-se admitir que ela também possui seu lado bom. Chega a ser bastante óbvio o fato de que podemos conhecer grandes obras quando um grande escritor (que não conhecíamos antes) vem parar diante dos nossos olhos. Eric Hobsbawm, por exemplo, faleceu em 1º de outubro de 2012; no dia seguinte, voltando da faculdade, passei na livraria e vi uma série de suas obras clássicas enfileiradas na primeira prateleira depois das portas de entrada. Intimado a prestar minhas condolências a todos aqueles livros órfãos, parei para folhear alguns ao acaso. Um dos que peguei nas mãos foi Globalização, democracia e terrorismo (Globalisation, democracy and terrorism, 2007); cativou-me logo pela sua simplicidade, clareza e relevância de conteúdo. E, como o livro não era tão grande assim – na verdade, possui apenas 182 páginas –, foi ele que escolhi para conhecer esse historiador tão elogiado ao redor do mundo.


Sinopse: Nos 10 textos que compõem este livro, o renomado historiador Eric Hobsbawm, autor do clássico "Era dos Extremos", analisa a situação mundial no início do novo milênio e trata dos problemas mais agudos que nos confrontam. Nesta esclarecedora aula de História Contemporânea, Hobsbawm traça um painel do cenário político internacional ao discorrer sobre temas como guerra e paz, imperialismo, nacionalismo e hegemonia, ordem pública e terrorismo, mercado e democracia, o poder da mídia e até futebol.


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Reflexões sobre os conflitos civis no Oriente Médio são mencionados durante boa parte da obra


Globalização, democracia e terrorismo é, na realidade, uma coletânea de 10 palestras que Eric Hobsbawm proferiu ao redor do mundo. Nelas, o historiador aborda uma série de questões políticas, sociais e econômicas que estão em evidência no nosso mundo contemporâneo. Com a grande autoridade de que dispõe, ele esmiúça conflitos militares no Leste Europeu e no Oriente Médio, fala sobre a emancipação social das mulheres com relação aos homens, discorre sobre a hegemonia político-ideológica que as grandes potências exercem sobre os demais países, conta um pouco de História Clássica, grupos separatistas (como o IRA e o ETA), violência nos grandes centros urbanos e as perspectivas da democracia nessa virada de século. Em suma: este livro é um verdadeiro apanhado geral sobre o que anda acontecendo no planeta nos últimos tempos – uma aula de história contemporânea.

Talvez pelo fato de serem palestras, os capítulos do livro apresentam uma clareza de ideias muito motivadora para o leitor. Sem circunvoluções enfadonhas, sem prolixidade, sem jargões científicos, Hobsbawm tece comentários muito lúcidos para seus ouvintes, e a transformação de sua fala para um texto escrito resultou em uma literatura muito inteligível e coerente. O capítulo 6, As perspectivas da democracia, por exemplo, é especialmente interessante porque trata de um assunto bastante relevante de forma profunda e clara ao mesmo tempo.

Muito interessantes também são as considerações que o autor faz a respeito do futebol enquanto movimento de massas nacionalista e geradora de violência urbana, no capítulo 5. Ou a discussão que ele levanta quando menciona os principais grupos separatistas europeus e a relação que estes estabelecem com a queda dos governos estáveis e auto-reguladores. Sob diversos aspectos, o que Hobsbawm faz é girar o prisma da realidade política e social do mundo e mostrar as suas outras facetas, que chocam e desestruturam nossas mais antigas convicções.


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No livro, Hobsbawm levanta discussões que envolvem grupos separatistas europeus, como o IRA e o ETA


Em vida, Eric Hobsbawm com frequência era acusado de sustentar um posicionamento ideológico irracional nos dias de hoje: o comunismo. Em uma reportagem publicada pela revista Veja (leia aqui), o historiador é literalmente chamado de "idiota moral" pelo jornalista, que, sem escrúpulos, afirma que este intelectual inglês manchou toda a sua obra ao levantar a bandeira stalinista e pregar o regime comunista como ideal. O que convém notar é que, se ele fosse o cego ideológico que a revista afirma que era, Hobsbawm não teria reconhecido que os governos comunistas haviam errado totalmente o caminho que Marx orientara.

(Não sou comunista, não sou marxista, mas gostaria de dizer que todas as críticas feitas a Eric Hobsbawm são aplicáveis a personalidades de direita, também. "Mesmo diante da execução sumária e tortura de milhões, continuou se furtando a condenar um regime atroz" é um exemplo de crítica aplicável a ambos os lados.)

Por fim: se o leitor quer uma dose rápida, mas riquíssima, de aulas sobre História Contemporânea, convido-o a ter nas mãos este pequeno livro que, longe de pregar qualquer movimento ideológico, mostra como o nosso mundo é complexo e admite várias vertentes – várias suposições e vários pontos de vista.


"Um prognóstico tentativo: no século XXI, as guerras provavelmente não serão tão mortíferas quanto foram no século XX. Mas a violência armada, gerando sofrimentos e perdas desproporcionais, persistirá, onipresente e endêmica – ocasionalmente epidêmica – em grande parte do mundo. A perspectiva de um século de paz é remota." (p. 35)

25 novembro 2012

Receita para as férias [2012.2]

O que podemos esperar aqui no Blog para as férias do final do ano, em termos de literatura.

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A torrente de obrigações acadêmicas que tem surgido nos últimos meses – na verdade, ao longo de todo este ano – me obrigou a deixar um pouco de lado tudo o que publico aqui. Contrariando minhas expectativas, não diminuí meu ritmo de leitura, que aliás pareceu mesmo ter subido neste segundo semestre, mas o tempo disponível para dedicar às resenhas semanais andou apertado o suficiente para que eu passasse às vezes um mês sem publicar coisas inéditas. Que triste!

Como todo amante de leituras, vejo a minha pilha de livros por ler aumentar gradualmente a cada semana que passa. Nunca fui de acumular livros assim, aos poucos, de deixá-los esperando em um canto da minha estante, mas hoje vejo que este é um exercício inevitável, até saudável, na medida em que vamos criando expectativas e desejos com relação às obras que ficam ali, nos aguardando. E isso pode ser muito bom na hora de finalmente ter o livro nas mãos.

Mas as férias existem para que, dentre outras coisas, possamos atualizar nossa caminhada literária e pôr tudo em dia. Pensando nisso, resolvi organizar neste post todas as obras que me esperam no início de dezembro – se tudo correr como esperado no laboratório de pesquisa do qual faço parte, claro; do contrário, terei que esperar mais alguns dias. Tenho um grande carinho por todos os livros listados abaixo, e mal posso esperar para começá-los!


A visita cruel do tempo | Jennifer Egan

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Presente de aniversário dado pelo meu irmão. Não nego: o livro dá medo. Pela rápida folheada que dei nele, a narrativa me pareceu uma curiosa mixórdia de tempos verbais, eventos paralelos e personagens voláteis. Ainda estou pensando como vou abraçar este livro, mas, desde agora, posso dizer que impera a expectativa de um livro memorável – levando em conta as dezenas de críticas positivas que Egan recebeu dos jornais de língua inglesa. Ainda estou amadurecendo a ideia de como abordá-lo…


Nos bastidores do Pink Floyd | Mark Blake

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Ah, Pink Floyd… Melodias incríveis, letras de qualidade, arranjos impressionantes. Uma banda que conseguiu a façanha de produzir, depois de Dark Side of The Moon, uma obra-prima atrás da outra. O que esperar desse livro, então? A biografia (definitiva, pelo que pude constatar) de um dos melhores conjuntos de rock da História. O livro conta a trajetória completa destes mestres da música, desde a Era Syd até a Era Gilmour, e possui um bonitinho caderno de fotos em papel Couche. (A cada folheada que dou, encontro uma página nova desse caderno de fotos, uma página que eu não tinha visto antes… Incrível.)


Pela bandeira do paraíso | Jon Krakauer

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Admito, penso em trocar este aqui por Os sobreviventes dos Andes, de Clay Blair Jr. Não que o livro de Krakauer seja ruim: nada disso. Foi apenas a mistura de dois elementos que fez com que eu tomasse a decisão de trocá-lo: meu fascínio por qualquer publicação sobre a tragédia dos jogadores de rúgbi nos Andes e a sensação de que a história dos mórmons, retratada no livro de Jon, ainda não me apetece o bastante. Mas a qualidade jornalística dos livros do autor é inquestionável, vide Na natureza selvagem e Onde os homens conquistam a glória, excelentes registros documentais sobre Christopher McCandless e Patrick Tillman, respectivamente. Veremos o que acontece com este item da lista.


Confissões | Jean-Jacques Rousseau

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Depois de Os devaneios do caminhante solitário, Rousseau se tornou meu filósofo favorito – não só pelas suas ideias, belas e justas, mas também pela clareza na forma como ele expõe esses pensamentos. Consigo me identificar com quase tudo o que ele escreve, o que chega a ser impressionante se estivermos levando em conta um pensador suíço do século XVIII e um brasileiro de 20 anos que lê Michael Crichton e Dan Brown. Aqui nesta obra, temos uma espécie de autobiografia moderna em que Rousseau se compromete a revelar, para o mundo, tudo o que sentiu e viveu; assim, ele se despe perante todos, críticos e admiradores – o que não deixa de ser um ato incrivelmente ousado. Parece ser um livro bem prolixo: estou curioso para ver os pensamentos que ele carrega.


03 novembro 2012

A arte de viajar, de Alain de Botton

"O que consideramos exótico no exterior pode ser aquilo a que aspiramos em vão em casa." (p. 80)

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Meus amigos mais próximos sabem que, quanto mais sinto prazer em ler um livro, mais demoro para terminar de lê-lo; mais vagarosamente saio de um capítulo para o outro, mais tempo costumo gastar para ler um parágrafo, com mais lentidão me detenho numa página específica. Alguns colegas até se exasperam com isso, não compreendem o porquê, como foi o caso de uma amiga minha que me via diariamente com A arte de viajar (The art of travel, 2002) nas mãos e sempre dizia: "Você ainda não terminou de ler este livro? Não acredito!" E, três dias depois, ela me encontrava com o mesmo livro aberto sobre o colo, praticamente na mesma página de antes.

Se no passado eu já tinha ouvido falar em Alain de Botton, foi somente como uma menção vaga que não marcou nenhuma impressão na minha mente. Essa leve sensação de familiaridade com o nome desse escritor suíço foi despertada quando, num belo dia, passeando os olhos por uma revista publicitária, vi um de seus livros mais elogiados em preço de promoção: era A arte de viajar, que, pela capa e pelo título, conseguiu atrair minha atenção e me fazer querer lê-lo imediatamente. Não titubeei: fui à livraria, comprei o volume (que foi baratíssimo, diga-se de passagem) e me deliciei com uma das leituras mais prazerosas que lembro ter feito.


Sinopse: Em A arte de viajar, Alain de Botton, autor de As consolações da filosofia, nos propõe uma excursão pelas satisfações e decepções do ato de viajar. Aeroportos, tapetes exóticos, emoção das férias e frigobares de hotel; esse livro bem-humorado, esclarecedor e instigante revela as motivações filosóficas, expectativas e complicações ocultas em nossas viagens pelo mundo afora.


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Cafeteria automática (1927), de Edward Hopper: uma das muitas pinturas analisadas em A arte de viajar


Fartamente ilustrado com imagens de pinturas famosas, fotografias tiradas pelo próprio autor e desenhos clássicos, A arte de viajar é um verdadeiro deleite para quem gosta da vertente da Literatura que se propõe a transmitir para os leitores as vivências, experiências significativas e memórias pessoais do escritor. Eu diria, inclusive, que A arte de viajar é o livro de memórias por excelência, não somente porque o autor narra suas reflexões sobre o mundo e tem toda uma concepção de vida, mas porque ele ilustra essas reflexões de forma incrivelmente pessoal. Imaginem aquelas fotografias que nós batemos no meio da rua, capturando o telhado torto de uma casa, uma nuvem solta ou um transeunte qualquer: essas imagens amadoras De Botton também faz, e, mais ainda, ele as usa para ilustrar, de forma muito própria, aquilo que quer passar para os seus leitores.

O resultado disso é um livro muito bonito, modesto e ao mesmo tempo elegante, porque Alain de Botton – embora sempre escrevendo de forma muito pessoal – se apoia nas ideias de uma miríade de outras personalidades: filósofos como Nietzsche, pintores como Van Gogh, poetas como Baudelaire, ensaístas como John Ruskin. Provando que possui uma extensa sabedoria sobre a obra de todas essas pessoas, De Botton as utiliza para ilustrar e explicar vários aspectos inerentes ao exercício de viajar. Em outras palavras, ele transforma a filosofia que nós consideramos erudita e distante do cotidiano em algo totalmente próximo e útil.


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Gasolina (1940), outra tela de Hopper sobre a qual De Botton comenta de forma brilhante


Uma coisa é certa: você vai ficar com vontade de pegar o primeiro avião (ou o primeiro trem, ou o primeiro navio, ou o que quer que seja) e ir em direção a qualquer lugar. Lendo A arte de viajar você sente aquela vontade intensa de viver novas experiências em um lugar bem diferente daquele que você costuma ver todos os dias, no qual você costuma estar sempre. E esse desejo tem origem nas reflexões que De Botton traz para nós em seu livro, ideias que encontram suporte na Arte de um modo geral, na poesia, na arquitetura, e em todas as coisas que a Filosofia pode nos oferecer. Um verdadeiro banho de inteligência bem-humorada, útil e reflexiva.

O mais interessante desta obra é que o autor discorre sobre vários aspectos relacionados à atividade de viajar, e esses aspectos podem se estender à vida cotidiana de um modo mais amplo. Por exemplo, ele escreve sobre a expectativa antes de partir, sobre a curiosidade, sobre o exotismo, sobre o sublime, a posse da beleza e o hábito – neste último capítulo, o autor nos brinda com uma hilária mas construtiva análise da obra de Xavier de Maistre, Viagem ao redor do meu quarto. Todas as considerações sobre esses temas são extremamente bem-vindas, e a linguagem de De Botton, elegante e harmoniosa, envolvente, faz com que adoremos cada passagem, cada trecho.


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"No contato com esses elementos, leitores que em outras áreas de suas vidas seriam capazes de ceticismo e prudência regrediam ao otimismo e à inocência primordiais." (p. 16)


Se há uma coisa que eu repito com constância aqui no Blog, é esta: nunca consigo escrever uma boa resenha sobre os livros de que mais gosto. Sempre sai uma coisa canhestra, comentários volúveis, e nas releituras eu invariavelmente penso: "não era bem isso o que eu queria dizer sobre a obra". Já com isso em mente, selecionei um trecho do próprio A arte de viajar que, na minha opinião, resume bem as reflexões que o livro se propõe a fazer. Nas palavras do próprio Alain de Botton, eis:

"Se nossas vidas são dominadas pela busca da felicidade, talvez poucas atividades revelem tanto a respeito da dinâmica desse anseio – com toda a sua empolgação e seus paradoxos – quanto o ato de viajar. Ainda que de maneira desarticulada, ele expressa um entendimento de como a vida poderia ser fora das limitações do trabalho e da luta pela sobrevivência. Mas raramente se considera que as viagens apresentem problemas filosóficos – ou seja, questões convidando à reflexão além do nível prático. Somos inundados por recomendações sobre os lugares para onde viajar, mas pouco ouvimos sobre como e por que deveríamos ir." (p. 17)

A arte de viajar nada tem de manual ou de guia; sua proposta não é dar ao leitor conselhos do tipo "Faça isso, experimente aquilo". É muito importante frisar isso, ainda mais em se tratando de Alain de Botton, que ganhou a fama errada de autor de auto-ajuda filosófica. O que ele realmente propõe é uma conversa, uma abertura de olhar, estar atento às experiências do mundo cotidiano, o que pode facilitar e muito a nossa existência, transformando em arte e em beleza uma coisa que às vezes soa aparentemente mesquinha e desinteressante.

Boa viagem!


Abaixo, um trecho do livro que achei muito significativo:

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"A fotografia não pode, por si só, garantir o alimento necessário para a alma quando esta se encontra em contato com paisagens belas. A verdadeira posse de uma paisagem depende de um esforço consciente no sentido de observar elementos e entender a sua construção. Podemos muito bem ver a beleza apenas abrindo os olhos, mas sua sobrevivência na memória depende de quão intencionalmente a apreendemos. A câmera fotográfica embaça a distinção entre olhar e notar, entre ver e possuir; pode oferecer-nos a alternativa de um autêntico conhecimento, mas também pode, inadvertidamente, fazer parecer supérfluo o esforço dessa aquisição – porque sugere que já fizemos todo o trabalho ao meramente tirar a fotografia." (p. 219)

14 outubro 2012

Disco: Privateering, de Mark Knopfler

O mais recente álbum do músico inglês que nunca decepciona

Mark Knopfler – Privateering (2012)

Depois de mais ou menos três anos de espera, desde o lançamento de Get Lucky (2009), finalmente pude colocar as mãos no mais recente álbum solo do músico britânico Mark Knopfler: Privateering (2012), um disco duplo que totaliza 20 canções embaladas pelo gênero folk blues, tão apreciado por Knopfler. Fã incondicional do ex-líder da extinta banda Dire Straits, eu sempre acompanhei com entusiasmo as produções individuais de Mark – e posso dizer, com segurança, que nunca tive uma decepção real com aquilo que ele já compôs em todos esses longos anos.

Mistura equilibrada de country e folk blues, com uma leve e persistente presença do rock clássico, utilizando-se de instrumentos como sanfona, banjo e violino, Privateering é – assim como o disco anterior, Get Lucky – uma prova consistente e indiscutível da maturidade artística de Knopfler. Maturidade esta que, na verdade, ele sempre pareceu possuir, desde o distante trabalho em Golden Heart (1996), seu primeiro disco solo, em que já estavam presentes o bom ritmo, as letras com qualidade, a "ousadia comportada" característica do músico e a voz com timbre grave e sorumbático.

Mark já lançou sete discos solo até o momento. Com Privateering, ele dá algumas mostras de como anda sua tendência atual: uma simpatia pelo som norte-americano aliada à paixão pelas origens celtas. Essa união singular produz músicas belíssimas, como a balada "Kingdom of Gold" e a nostálgica "Haul Away". A faixa-título, "Privateering", é sem dúvida uma das melhores do álbum, e posso dizer que ela já era a minha preferida mesmo nas versões ao vivo que Mark Knopfler reproduziu nas suas últimas turnês.


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Get Lucky (2009) e Golden Heart (1996): álbuns com a maturidade sempre notável de Mark Knopfler


Ouvintes de Dire Straits podem estranhar o som de um álbum como Get Lucky, por exemplo, ou de Privateering, dada a enorme diferença entre o ritmo pop da antiga banda inglesa e a profundidade mais arqueológica do trabalho solo de seu ex-líder. Ao lado de grandes hits como "Sultans of Swing" e "Money for Nothing", faixas tais como "Redbud Tree" ou "Dream of the Drowned Submariner" podem soar monótonas, enfadonhas ou incompreensíveis. No entanto, bem feitas as contas, já na condição de guitarrista dos Straits, Mark Knopfler plantou sementes que mais tarde, em sua carreira solo, floresceriam. Essas sementes, vejo agora, eram músicas como as saudosas "Why Worry", "Ride Across the River" e "Lions", dentre outras.

Aos fãs de Knopfler, resta então se deleitar com este novo álbum, original, eclético, profundo e agradável aos ouvidos… e esperar pelo próximo trabalho deste músico que, apesar dos passeios que já fez pelos mais diferentes ritmos e solos, nunca decepcionou aqueles que cativou desde os anos 1980.

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Privateering (2012)

CD I

  1. Redbud Tree
  2. Haul Away
  3. Don’t Forget Your Hat
  4. Privateering
  5. Miss You Blues
  6. Corned Beef City
  7. Go, Love
  8. Hot or What
  9. Yon Two Crows
  10. Seattle

CD II

  1. Kingdom of Gold
  2. Got to Have Something
  3. Radio City Serenade
  4. I Used to Could
  5. Gator Blood
  6. Bluebird
  7. Dream of the Drowned Submariner
  8. Blood and Water
  9. Today is Okay
  10. After the Beanstalk