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03 novembro 2012

A arte de viajar, de Alain de Botton

"O que consideramos exótico no exterior pode ser aquilo a que aspiramos em vão em casa." (p. 80)

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Meus amigos mais próximos sabem que, quanto mais sinto prazer em ler um livro, mais demoro para terminar de lê-lo; mais vagarosamente saio de um capítulo para o outro, mais tempo costumo gastar para ler um parágrafo, com mais lentidão me detenho numa página específica. Alguns colegas até se exasperam com isso, não compreendem o porquê, como foi o caso de uma amiga minha que me via diariamente com A arte de viajar (The art of travel, 2002) nas mãos e sempre dizia: "Você ainda não terminou de ler este livro? Não acredito!" E, três dias depois, ela me encontrava com o mesmo livro aberto sobre o colo, praticamente na mesma página de antes.

Se no passado eu já tinha ouvido falar em Alain de Botton, foi somente como uma menção vaga que não marcou nenhuma impressão na minha mente. Essa leve sensação de familiaridade com o nome desse escritor suíço foi despertada quando, num belo dia, passeando os olhos por uma revista publicitária, vi um de seus livros mais elogiados em preço de promoção: era A arte de viajar, que, pela capa e pelo título, conseguiu atrair minha atenção e me fazer querer lê-lo imediatamente. Não titubeei: fui à livraria, comprei o volume (que foi baratíssimo, diga-se de passagem) e me deliciei com uma das leituras mais prazerosas que lembro ter feito.


Sinopse: Em A arte de viajar, Alain de Botton, autor de As consolações da filosofia, nos propõe uma excursão pelas satisfações e decepções do ato de viajar. Aeroportos, tapetes exóticos, emoção das férias e frigobares de hotel; esse livro bem-humorado, esclarecedor e instigante revela as motivações filosóficas, expectativas e complicações ocultas em nossas viagens pelo mundo afora.


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Cafeteria automática (1927), de Edward Hopper: uma das muitas pinturas analisadas em A arte de viajar


Fartamente ilustrado com imagens de pinturas famosas, fotografias tiradas pelo próprio autor e desenhos clássicos, A arte de viajar é um verdadeiro deleite para quem gosta da vertente da Literatura que se propõe a transmitir para os leitores as vivências, experiências significativas e memórias pessoais do escritor. Eu diria, inclusive, que A arte de viajar é o livro de memórias por excelência, não somente porque o autor narra suas reflexões sobre o mundo e tem toda uma concepção de vida, mas porque ele ilustra essas reflexões de forma incrivelmente pessoal. Imaginem aquelas fotografias que nós batemos no meio da rua, capturando o telhado torto de uma casa, uma nuvem solta ou um transeunte qualquer: essas imagens amadoras De Botton também faz, e, mais ainda, ele as usa para ilustrar, de forma muito própria, aquilo que quer passar para os seus leitores.

O resultado disso é um livro muito bonito, modesto e ao mesmo tempo elegante, porque Alain de Botton – embora sempre escrevendo de forma muito pessoal – se apoia nas ideias de uma miríade de outras personalidades: filósofos como Nietzsche, pintores como Van Gogh, poetas como Baudelaire, ensaístas como John Ruskin. Provando que possui uma extensa sabedoria sobre a obra de todas essas pessoas, De Botton as utiliza para ilustrar e explicar vários aspectos inerentes ao exercício de viajar. Em outras palavras, ele transforma a filosofia que nós consideramos erudita e distante do cotidiano em algo totalmente próximo e útil.


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Gasolina (1940), outra tela de Hopper sobre a qual De Botton comenta de forma brilhante


Uma coisa é certa: você vai ficar com vontade de pegar o primeiro avião (ou o primeiro trem, ou o primeiro navio, ou o que quer que seja) e ir em direção a qualquer lugar. Lendo A arte de viajar você sente aquela vontade intensa de viver novas experiências em um lugar bem diferente daquele que você costuma ver todos os dias, no qual você costuma estar sempre. E esse desejo tem origem nas reflexões que De Botton traz para nós em seu livro, ideias que encontram suporte na Arte de um modo geral, na poesia, na arquitetura, e em todas as coisas que a Filosofia pode nos oferecer. Um verdadeiro banho de inteligência bem-humorada, útil e reflexiva.

O mais interessante desta obra é que o autor discorre sobre vários aspectos relacionados à atividade de viajar, e esses aspectos podem se estender à vida cotidiana de um modo mais amplo. Por exemplo, ele escreve sobre a expectativa antes de partir, sobre a curiosidade, sobre o exotismo, sobre o sublime, a posse da beleza e o hábito – neste último capítulo, o autor nos brinda com uma hilária mas construtiva análise da obra de Xavier de Maistre, Viagem ao redor do meu quarto. Todas as considerações sobre esses temas são extremamente bem-vindas, e a linguagem de De Botton, elegante e harmoniosa, envolvente, faz com que adoremos cada passagem, cada trecho.


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"No contato com esses elementos, leitores que em outras áreas de suas vidas seriam capazes de ceticismo e prudência regrediam ao otimismo e à inocência primordiais." (p. 16)


Se há uma coisa que eu repito com constância aqui no Blog, é esta: nunca consigo escrever uma boa resenha sobre os livros de que mais gosto. Sempre sai uma coisa canhestra, comentários volúveis, e nas releituras eu invariavelmente penso: "não era bem isso o que eu queria dizer sobre a obra". Já com isso em mente, selecionei um trecho do próprio A arte de viajar que, na minha opinião, resume bem as reflexões que o livro se propõe a fazer. Nas palavras do próprio Alain de Botton, eis:

"Se nossas vidas são dominadas pela busca da felicidade, talvez poucas atividades revelem tanto a respeito da dinâmica desse anseio – com toda a sua empolgação e seus paradoxos – quanto o ato de viajar. Ainda que de maneira desarticulada, ele expressa um entendimento de como a vida poderia ser fora das limitações do trabalho e da luta pela sobrevivência. Mas raramente se considera que as viagens apresentem problemas filosóficos – ou seja, questões convidando à reflexão além do nível prático. Somos inundados por recomendações sobre os lugares para onde viajar, mas pouco ouvimos sobre como e por que deveríamos ir." (p. 17)

A arte de viajar nada tem de manual ou de guia; sua proposta não é dar ao leitor conselhos do tipo "Faça isso, experimente aquilo". É muito importante frisar isso, ainda mais em se tratando de Alain de Botton, que ganhou a fama errada de autor de auto-ajuda filosófica. O que ele realmente propõe é uma conversa, uma abertura de olhar, estar atento às experiências do mundo cotidiano, o que pode facilitar e muito a nossa existência, transformando em arte e em beleza uma coisa que às vezes soa aparentemente mesquinha e desinteressante.

Boa viagem!


Abaixo, um trecho do livro que achei muito significativo:

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"A fotografia não pode, por si só, garantir o alimento necessário para a alma quando esta se encontra em contato com paisagens belas. A verdadeira posse de uma paisagem depende de um esforço consciente no sentido de observar elementos e entender a sua construção. Podemos muito bem ver a beleza apenas abrindo os olhos, mas sua sobrevivência na memória depende de quão intencionalmente a apreendemos. A câmera fotográfica embaça a distinção entre olhar e notar, entre ver e possuir; pode oferecer-nos a alternativa de um autêntico conhecimento, mas também pode, inadvertidamente, fazer parecer supérfluo o esforço dessa aquisição – porque sugere que já fizemos todo o trabalho ao meramente tirar a fotografia." (p. 219)

14 outubro 2012

Disco: Privateering, de Mark Knopfler

O mais recente álbum do músico inglês que nunca decepciona

Mark Knopfler – Privateering (2012)

Depois de mais ou menos três anos de espera, desde o lançamento de Get Lucky (2009), finalmente pude colocar as mãos no mais recente álbum solo do músico britânico Mark Knopfler: Privateering (2012), um disco duplo que totaliza 20 canções embaladas pelo gênero folk blues, tão apreciado por Knopfler. Fã incondicional do ex-líder da extinta banda Dire Straits, eu sempre acompanhei com entusiasmo as produções individuais de Mark – e posso dizer, com segurança, que nunca tive uma decepção real com aquilo que ele já compôs em todos esses longos anos.

Mistura equilibrada de country e folk blues, com uma leve e persistente presença do rock clássico, utilizando-se de instrumentos como sanfona, banjo e violino, Privateering é – assim como o disco anterior, Get Lucky – uma prova consistente e indiscutível da maturidade artística de Knopfler. Maturidade esta que, na verdade, ele sempre pareceu possuir, desde o distante trabalho em Golden Heart (1996), seu primeiro disco solo, em que já estavam presentes o bom ritmo, as letras com qualidade, a "ousadia comportada" característica do músico e a voz com timbre grave e sorumbático.

Mark já lançou sete discos solo até o momento. Com Privateering, ele dá algumas mostras de como anda sua tendência atual: uma simpatia pelo som norte-americano aliada à paixão pelas origens celtas. Essa união singular produz músicas belíssimas, como a balada "Kingdom of Gold" e a nostálgica "Haul Away". A faixa-título, "Privateering", é sem dúvida uma das melhores do álbum, e posso dizer que ela já era a minha preferida mesmo nas versões ao vivo que Mark Knopfler reproduziu nas suas últimas turnês.


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Get Lucky (2009) e Golden Heart (1996): álbuns com a maturidade sempre notável de Mark Knopfler


Ouvintes de Dire Straits podem estranhar o som de um álbum como Get Lucky, por exemplo, ou de Privateering, dada a enorme diferença entre o ritmo pop da antiga banda inglesa e a profundidade mais arqueológica do trabalho solo de seu ex-líder. Ao lado de grandes hits como "Sultans of Swing" e "Money for Nothing", faixas tais como "Redbud Tree" ou "Dream of the Drowned Submariner" podem soar monótonas, enfadonhas ou incompreensíveis. No entanto, bem feitas as contas, já na condição de guitarrista dos Straits, Mark Knopfler plantou sementes que mais tarde, em sua carreira solo, floresceriam. Essas sementes, vejo agora, eram músicas como as saudosas "Why Worry", "Ride Across the River" e "Lions", dentre outras.

Aos fãs de Knopfler, resta então se deleitar com este novo álbum, original, eclético, profundo e agradável aos ouvidos… e esperar pelo próximo trabalho deste músico que, apesar dos passeios que já fez pelos mais diferentes ritmos e solos, nunca decepcionou aqueles que cativou desde os anos 1980.

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Privateering (2012)

CD I

  1. Redbud Tree
  2. Haul Away
  3. Don’t Forget Your Hat
  4. Privateering
  5. Miss You Blues
  6. Corned Beef City
  7. Go, Love
  8. Hot or What
  9. Yon Two Crows
  10. Seattle

CD II

  1. Kingdom of Gold
  2. Got to Have Something
  3. Radio City Serenade
  4. I Used to Could
  5. Gator Blood
  6. Bluebird
  7. Dream of the Drowned Submariner
  8. Blood and Water
  9. Today is Okay
  10. After the Beanstalk

24 setembro 2012

Tremor, de Jonathan Franzen

"(…) você pode acabar se perguntando por que organizou a sua vida como se você não passasse de uma máquina voltada para a desprazerosa produção e o prazeroso consumo de mercadorias." (p. 332)

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Não é sempre que tenho a coragem necessária – e a disposição, e a iniciativa, e tudo o mais – para iniciar a leitura de um romance extenso em plena época de aulas, provas e estágios em laboratórios de pesquisa. Tremor (Strong motion, 2001), do super-aclamado escritor contemporâneo Jonathan Franzen, entrou para a lista dessas exceções às quais me dou o direito de conceder de vez em quando. E o resultado disso foi que, em meio a tantos assuntos acadêmicos que não permitem um mergulho maior na Literatura, me diverti (e refleti) bastante com a ajuda deste livro sensacional.

Franzen atualmente é muito citado nos suplementos literários como "o grande romancista norte-americano do início do século XXI", título que o deixa próximo da importância literária de um consagrado Philip Roth. Com a obra Liberdade (que penso em ler no futuro), este norte-americano de Illinois ganhou uma enorme projeção internacional que teve a força de trazer novamente ao mercado as edições de seus romances anteriores – dentre eles, Tremor, seu segundo trabalho.


Sinopse: Louis Holland chega a Boston numa primavera de acontecimentos estranhos – uma série de terremotos de origem suspeita atinge a cidade, e o primeiro deles mata a sua avó postiça, uma guru new age milionária. Durante a disputa pela herança, Louis se apaixona por Renée Seitchek, sismóloga brilhante que o ajudará a descobrir a verdade por trás dos abalos, mas os dois pagarão um preço alto por sua curiosidade ao desvelar os segredos de uma indústria química poderosa.


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Tremor é um exemplar perfeito daquilo que eu costumo chamar de obras "trans-gênero", que não pertencem na essência a nenhuma classificação exclusiva – sendo, antes, a mistura de dois ou mais gêneros tradicionais. Na realidade, grande parte da produção cultural de hoje (principalmente no cinema) está aderindo a essa corrente da quebra de gêneros. Neste livro, por exemplo, Franzen faz uma mistura totalmente equilibrada e lúcida de drama com thriller, o que no final das contas acaba agradando tanto os leitores que gostam de profundidade psicológica quanto os que gostam de enredos agitados por tramas corporativas, cheias de ação e espionagem. E ele faz isso costurando todo o eixo central com uma tocante e sensível história de amores incertos, paixões e laços familiares.

Lendo Tremor o leitor chega à conclusão de que Franzen faz parte daqueles escritores que adoram escrever, adoram contar histórias dentro de histórias e adoram explorar por todos os lados os dramas existenciais de seus personagens, o que inclui também fazer uma ou outra digressão extensa sobre o modo de vida na América. Franzen é um daqueles escritores que, em cada romance que escreve, procura retratar tudo o que existe no mundo, todas as situações prováveis e improváveis, todas as emoções e sentimentos, todas as reflexões sobre os mais variados assuntos. Neste livro que terminei de ler hoje, encontramos uma história que é perpassada por uma miríade de temas tão díspares quanto pode parecer à primeira vista a questão do aborto e a produção de conhecimento científico.


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Franzen: romances de temas amplos com foco nas relações humanas


Uma das coisas que mais agradam na escrita de Jonathan Franzen é que ele não subestima a inteligência do leitor. Com frases às vezes bastante floreadas, incertas, metafóricas demais (mas nunca incompreensíveis), o seu texto dá ao leitor a prazerosa sensação de estar sendo posto para refletir. Repleto de diálogos extremamente memoráveis (a começar pela visita que Louis faz à irmã, Eileen, logo no começo do livro), Tremor se consolidou na minha mente como um romance do qual sempre vou lembrar quando me encontrar em situações parecidas com as que os personagens viveram.

Embora um dos eixos principais do livro seja a investigação que Renée e Louis levam a cabo ao longo de boa parte da trama, o que sustenta o romance está longe de ser apenas esse detalhe. Em Tremor, o verdadeiro sumo da obra está nas relações entre os personagens, relações de amor, paixão, amizade, de família e de tudo. No fundo, Tremor não passa de um novelão, um novelão com qualidade e com uma série de eixos secundários interessantes. (Não posso deixar de mencionar aqui como as páginas 237, 238, 239, 240 e 241 fizeram um retrato assustadoramente preciso de uma situação de vida pela qual eu passava no momento da leitura.)

Resumidamente, é difícil escrever uma resenha coerente sobre um livro tão amplo e diversificado como Tremor, que abarca temas e assuntos tão diferentes e tão sensíveis, coisa que só quem lê na hora é capaz de entendê-los e aproveitá-los. Mesmo assim, fica a minha recomendação para quem pretender ler um livro memorável e muito significativo nos próximos tempos. No mínimo, o que você recebe em troca é a garantia de uma leitura riquíssima em entretenimento; no máximo, um romance que fica para sempre na memória.

11 setembro 2012

Aquecimento: "A arte de viajar", de Botton

"Uma obra elegante e sutil, sem igual. Encantadora."

The Times

Para que o Gato Branco não fique de novo sem uma atualização por mais de 20 dias (coisa que, detesto admitir, vem ocorrendo com certa frequência), venho aqui compartilhar as primeiras impressões de uma das futuras leituras que pretendo realizar nos próximos meses; uma leitura que, sobretudo, promete uma deliciosa viagem literária que envolve reflexões sobre arte, filosofia, cultura e, claro, mochilão nas costas.

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Contrariando minhas expectativas de começar a estudar a sério nos próximos meses, acaba de chegar pelo correio este belíssimo livro do escritor suíço (mas crescido na Inglaterra) Alain de Botton: A arte de viajar. Presente de minha mãe! Pela lida que dei na sinopse da orelha e pela folheada sagrada que costumo dar nos livros antes de começá-los de fato, pude ver que Botton mistura aqui relatos pessoais de viagem com reflexões extremamente agradáveis sobre música, pintura e filosofia – criando, assim, um caderno riquíssimo de experiências de vida que ele apresenta ao leitor. O livro já havia sido lançado pela Rocco em 2003, mas agora ganha novo tratamento pela Editora Intrínseca.

A edição é linda, com dezenas e dezenas de fotografias em preto e branco, gravuras antigas e ilustrações clássicas, além de quadros de autores como Van Gogh e Loutherbourg – só para citar dois. No meio desse caleidoscópio de imagens de extremo bom-gosto e muito bem selecionadas, há a prosa elegante e requintada de Botton, reflexiva, ampliadora, que faz um passeio incrível de corpo e alma com o leitor. Fica a recomendação para quem está procurando um livro bom. Aliás, fica aqui a prova da sua qualidade: em magros cinco minutos, li a esmo uns poucos parágrafos que me deixaram uma impressão indelével, além de uma forte ideia para meditações. Eis um desses fragmentos que pesquei em pouco tempo, com apenas algumas rápidas passadas de página:

(...) vi pela primeira vez o Homem por meio de objetos grandes ou belos; pela primeira vez comunguei com ele com a ajuda deles. E assim fundou-se uma proteção e defesa seguras contra o peso da perversidade, as preocupações egoístas, modos rudes, paixões vulgares que nos agridem por todos os lados do mundo ordinário em que transitamos diariamente.

- William Wordsworth


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Alguém consegue adivinhar de quem é esse quadro reproduzido aí, na parte inferior da página direita? Boa leitura para todos! :)