Pesquisar neste Blog

09 julho 2012

Robinson Crusoé, de Daniel Defoe

"Todos os males devem ser avaliados junto com o bem que neles se encontra, e comparados com o que lhes poderia ser pior." (p. 117)

Robinson Crusoé Defoe

Andando despretensiosamente por entre as estantes da minha livraria predileta, sem outra intenção que não fosse o simples passar a vista pelos títulos recém-lançados, me deparei com a novíssima edição do clássico Robinson Crusoé (Robinson Crusoe, 1719), que desde o seu lançamento original já conta com mais de 700 edições, traduções e imitações ao redor do mundo. A obra, escrita pelo inglês Daniel Defoe em uma época na qual os textos impressos ainda eram a grande novidade, possui agora uma tradução assinada pelo experiente Sergio Flaksman, cujo trabalho em O amante de Lady Chatterley muito me agradou.

Depois de ler as 70 páginas iniciais do romance, adquiri o livro e o trouxe para casa. E o mais curioso de tudo é que, acima do fato de eu ter encontrado uma leitura riquíssima em aventuras, encontrei também um impressionante documento histórico. Porque ler Robinson Crusoé hoje, no início deste século XXI, significa estudar um registro impecável de como a sociedade humana – ou, antes, européia – via o mundo há quase 300 anos.


Sinopse: Defoe narra em primeira pessoa as peripécias do engenhoso náufrago inglês ao longo de quase trinta anos de isolamento numa ilha deserta. Desobedecendo aos conselhos paternos, o jovem Crusoé se lança ao mar e inicia uma carreira repleta de infortúnios, que inclui uma decisiva passagem pelo Brasil antes da solidão na Ilha do Desespero.


DSC02689

Robinson Crusoé é um livro que, embora estivesse no rol das leituras mais leves e simples da época (ao narrar de modo entusiasmado a história daquele estóico homem que passou quase três décadas em uma ilha do Pacífico), hoje é encarado como um romance que permite inúmeras reflexões e interpretações, e lê-lo é quase como estudar um livro de antropologia. Seja analisando a interação de Crusoé com os "selvagens", seja observando as palavras que ele usa para descrever o Brasil, seja percebendo como o livro todo, de um modo geral, é uma ode à civilização e ao Iluminismo, o leitor fatalmente terá um encontro com História.

As primeiras páginas cativam de imediato. Fugindo da vida de conforto e do curso de Direito que os pais queriam lhe impor desde cedo, Robinson Crusoé sai de Londres e embarca em uma jornada que mudaria para sempre a sua vida: passando por graves tormentas em alto-mar, vendo-se depois reduzido à condição de escravo em Marrocos, resgatado por um capitão português, tornando-se proprietário de terras no Brasil, Crusoé (sempre insatisfeito com o conforto e a bonança) não parou quieto até naufragar perto do Chile durante uma excursão ilegal à África, em busca de escravos para sua casa de engenho brasileira.


081029105803-large

"Quando me avistou, veio correndo em minha direção, tornando a se estender no solo com todos os sinais possíveis de gratidão mais humilde (…)" (p. 284)


O fato é que esta viagem à África acabou tendo um trágico final para o protagonista: pego de surpresa por uma tempestade violenta, o navio de Crusoé naufragou perto de uma ilha, e ele foi o único homem a escapar com vida do acidente. Lutando contra as fortes ondas do Pacífico, o inglês acabou pondo os pés em terra, num lugar que ele ficaria isolado do mundo por 28 anos.

Uma das características técnicas que mais chamam a atenção no livro é o relato em si de Crusoé, escrito de um fôlego só. Não há capítulos, não há pausas de leitura entre parágrafos, não há diálogos convencionais, nada: apenas 400 páginas escritas de modo ininterrupto. Esse borbotão de palavras se torna maçante quando (e somente quando) Crusoé começa a descrever, detalhe por detalhe, seus primeiros anos de estadia na ilha, a partir dos quais, aos poucos, começou a transformar o lugar em uma verdadeira fortaleza pessoal.

É interessantíssimo analisar o forte apelo iluminista nesse período do romance. Utilizando a razão como carro-chefe de todas as suas ações, Crusoé constrói ferramentas, prepara comidas e ergue habitações com os restos do que tirou da carcaça do navio naufragado. Até que, finalmente, isola-se no seu "castelo", em um individualismo notável: Minha área estava completamente cercada: dentro dela eu tinha espaço bastante, e nada podia me atingir de fora. (p. 137) Se formos encarar o espaço físico que Crusoé constrói para si como uma alegoria à consciência, não há nada mais cartesiano que esta frase, não é?


robinson_crusoe

"Sem mantimentos para comer, saí com minha arma, mas descobri que estava fraco demais." (p. 145)


Outro detalhe que julguei como sendo um dos mais pertinentes do livro é a interpretação de Defoe sobre as culturas. Às vezes o autor se mostra muito inclinado a adotar uma visão relativista, harmônica, observando em vários trechos que os costumes perpetrados nas diferentes civilizações são fruto de educações e visões de mundo distintas – porém, mais adiante, ele nos faz lembrar que estamos lendo um romance do século XVIII e traz à tona o eurocentrismo que estamos acostumados a ver nas aventuras clássicas. Defeito? Preconceito? Claro que não. Todo leitor que leva a sério o seu ofício (porque ler é um ofício) sabe que mergulhar em uma obra tão antiga quanto Robinson Crusoé significa, também, despir-se de sua visão de mundo contemporânea e entrar na pele de um autor que viveu imerso em outro paradigma, totalmente diferente do atual.

A verdade é que a obra-prima de Daniel Defoe permite inúmeras reflexões de cunho histórico. A relação do protagonista com os selvagens da costa da América, ou mesmo com os espanhóis, é interessantíssima do ponto de vista antropológico. E o bom é que, além de tomar parte nessa intelectual viagem no tempo (sim, ler um livro escrito há 300 anos é uma viagem no tempo), o leitor se entretém com uma aventura clássica que atravessou gerações merecidamente.

02 julho 2012

Infância, de Maksim Górki

"A mãe sempre me despertava muitos pensamentos carinhosos, só que eu jamais conseguia exprimir tais pensamentos em palavras" (p. 248)

gorki-infancia-gde 412px-Maxim_Gorky_LOC_Restored_edit1

Não tenho o costume de ler auto-biografias. Embora eu saiba que esse seja um gênero literário riquíssimo e muito profundo do ponto de vista humano, são poucas as obras de memórias que tenho enfileiradas na minha estante. A que mais se aproxima do livro de Maksim Górki que terminei de ler ontem é Solo de clarineta (v.1), do meu ídolo Erico Verissimo: em tom sincero, despojado e cativante, ele narra os principais acontecimentos de sua vida, desde a época de criança até quando alcançou postos notáveis na condição de um dos mais populares escritores do Brasil.

Infância (Detstvo, 1914) é uma das obras mais significativas de Górki. Na verdade, como seus leitores sabem, este escritor russo dividiu suas memórias em três volumes, que muitos críticos consideram como sendo o ponto mais alto de sua produção. Os títulos são: Infância, Ganhando meu pão e Minhas universidades. Juntos, asseguro a vocês, esses livros constituem uma das melhores coisas que foram escritas na Rússia no século XX. Ainda não li o último capítulo da trilogia, mas a qualidade ímpar da auto-biografia como um todo eu posso garantir com segurança antecipada.


Sinopse: Saturada de afeto e violência, aqui está a vida do pequeno Górki, órfão de pai criado pelos avós no final do século XIX. Inédita no Brasil durante décadas, a publicação da íntegra da trilogia autobiográfica de Górki mostra que o escritor sobreviveu e chega aos nossos dias em sua plenitude: seco, mas sem conter a necessária emoção; refinado, mas sem renunciar à matriz popular de sua prosa.


DSC02658


Infância foi um dos livros mais bonitos, humanos e emocionantes que eu li até hoje. Acho necessário começar meus comentários com essa frase para que fique logo registrado o prazer absurdo que senti ao lê-lo. Chego até a pensar que, de todas as obras que já passaram pelas minhas mãos, poucas conseguiram me arrebatar tanto quanto esse capítulo inicial da trilogia auto-biográfica de Górki. Quanta ternura, quanta docilidade nas palavras, quanta emoção carregada em cada diálogo, em cada reflexão! E a própria escrita do autor, orgânica, viva, original, despejada em borbotões sem parecer desorganizada, lúcida, coerente! Sinceramente: tenho os mais rasgados elogios para fazer a esse livro.

Uma de suas qualidades que mais saltaram aos olhos, durante a leitura, foi a aparente organização dos fatos e a coerente apresentação das experiências do menino Górki ao longo da narrativa. E isso é diferente do que eu vi em Ganhando meu pão: neste, os fatos são mostrados como que em torrente, às vezes sem conexão entre si, às vezes com saltos temporais muito longos, o que causa uma certa confusão de cronologia na cabeça do leitor. Ganhando meu pão é um livro sensacional (que isso fique claro), mas tem esse pequeno defeito, na minha opinião; sobretudo em suas personagens, que são apresentadas de forma muito rápida, não dando o tempo necessário para que o leitor se apegue a elas.


DSC02661

"Na hora do recreio mais longo, dividi com os meninos o pão e o chouriço e começamos a ler o conto maravilhoso 'O rouxinol'" (p. 267)


Por sua vez, Infância segue um ritmo de romance pré-concebido e bem estruturado. Os acontecimentos – desde a morte do pai de Górki, na primeira página, até o fim – seguem uma tal lógica, um tal encadeamento que parecem ter sido feitos exatamente para se encaixarem num modelo de romance de ficção e fisgar a atenção do leitor. É como se Górki tivesse a perfeita noção do tempo de apresentar os fatos, para, lá na frente, surpreender o leitor com uma informação adicional. Com isso, a leitura ganha um prazer especial; estamos lendo um puro livro de memórias romanceado.

Outra qualidade significativa de Infância é, como eu já disse, a ternura e a beleza da história como um todo, além da profundidade inquestionável de suas personagens. A avó materna do menino Górki é um dos eixos centrais do livro: figura carismática e bondosa, é o porto-seguro do garoto, até mais importante para ele que sua própria mãe, ora presente, ora ausente. O avô, o carrasco de Górki em seus primeiros anos de vida, consolida a figura do grosseiro patriarca russo do século XIX, muito embora apresente lampejos de humanidade e alegria em várias ocasiões. E o pequeno Górki, tímido mas travesso, emocional, sensível, é curiosamente a figura mais oculta e esquiva da obra. Eis a genialidade do autor: usou a própria vida para explicar menos sobre ele mesmo e mais sobre as pessoas à sua volta. Ou melhor: para se explicar, bastou a Górki que ele explicasse como eram as pessoas que fizeram parte de seu desenvolvimento.


Tolstoi-and-Gorki

Tolstói e Górki: dois grandes nomes da literatura russa


Ao longo da leitura, me peguei enumerando todas as passagens memoráveis da história, aquelas que emocionalmente mais me tocavam, até descobrir que o livro todo havia tocado os pontos mais sensíveis de minhas emoções. A primeira cena que chama atenção por sua ternura é aquela que narra o avô de Górki tentando reconquistar a amizade do garoto após tê-lo surrado em um ímpeto de fúria desmedida, por alguma falta que Górki cometeu. O velho lhe traz, na cama, uvas, tortas e todo tipo de guloseimas, e se põe a contar, com brandura, como ele próprio havia apanhado na sua infância. Sem dúvida essa é uma das passagens que ficaram com força na minha memória – e ficará ainda por um longo, longo tempo – , mas posso afirmar com certeza que a obra toda é inesquecível.

Indico Infância para todas as pessoas que sabem o que é o prazer das palavras simples e o poder das relações humanas, principalmente em uma família como a do pequeno Górki, onde transbordam amor, violência e indiferença entre os membros. Sem dúvida nenhuma, um livro a ser descoberto ainda por muitos bons leitores. Porque esta é uma das obras de arte mais autênticas que conheço: consegue dizer um mundo de coisas com muito pouco, consegue reinventar a realidade, transformá-la, criticá-la, criando um sentimento vivo de universalidade – por isso, tão humana e emocionante.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Retomando um hábito antigo (que infelizmente larguei nos últimos meses), deixo aqui no final da postagem um pequeno trecho do livro:

"Nossa vida não é só espantosa por haver nela uma camada tão fecunda e gorda de toda sorte de canalhice bestial, mas por, mesmo assim, conseguir germinar através dessa camada algo claro, saudável e criador – fazer crescer o bem, o humano, que desperta uma esperança invencível em nossa regeneração para uma vida clara e positiva." (p. 270)

25 junho 2012

Leonid Afremov e suas cores

"O essencial da arte é exprimir; o que se exprime não interessa." (Fernando Pessoa)

afremov02

Através do meu amigo Marco Severo – mais precisamente, através de uma publicação sua nos murais do Facebook – entrei em contato com as obras de um pintor contemporâneo chamado Leonid Afremov, artista nascido em 1955 na extinta União Soviética. Dono de uma técnica peculiar e bastante original, Afremov, que se formou na Escola de Arte de Vitebsk, produz seus quadros usando não pincéis, mas espátulas – um instrumento utilizado usualmente para limpar os excessos das tintas nas paletas e telas. Além disso, Afremov serve-se das tintas a óleo.

A sua técnica excêntrica e ousada, somada à preferência por cores fortes e vibrantes, traz como resultado os incríveis quadros pelos quais ele se tornou famoso no mundo todo: telas vivas e incrivelmente atraentes, expressivas, que conseguem transmitir uma sensação sólida de "eu queria estar nesse lugar". Meio onírica, bem impressionista, a obra de Afremov me cativou assim que deitei os olhos nela, e a série de quadros que mostro aqui reflete o meu súbito apego pela arte deste pintor tão original.


17_10_2007_0242713001192570506_leonid_afremov


Enquanto esteve na União Soviética, Afremov trabalhava pintando cartazes de propaganda para o governo comunista. Decepcionado com a situação política do país e meio frustrado por ter que produzir a sua arte segundo os critérios das autoridades, ele partiu para Israel em 1990, onde começou a expor seus primeiros quadros de valor. Por retratar principalmente pessoas nuas e músicos de jazz negros, sua pintura foi mal recebida pelo público conservador – até que, em 2001, sentindo-se também discriminado por não ser um israelense de nascença, Afremov mudou-se para os Estados Unidos.


99968_rinusok_leonid-afremov_1382x1024_(www.GdeFon.ru)


Na América, morando em Nova Iorque, Leonid Afremov conquistou um rápido e grande sucesso, conseguindo ter suas telas expostas ao lado das de Rembrandt em galerias de arte renomadas. Atualmente, ele possui obras apresentadas em mais de 60 galerias em territórios como Nova Zelândia, Austrália, África, Israel e Estados Unidos. Vive hoje em Boca Raton, na Flórida, onde mora com sua esposa e seus dois filhos. Segundo Afremov, o frio o faz ficar melancólico e deprimido, o que o impede de pintar quadros mais vívidos e alegres, característica sua.


246487_10151058225676972_1594346891_n


Às vezes acho que certas pessoas nascem para fazer do mundo um lugar mais bonito, simpático e habitável, por assim dizer. É o caso dos músicos, dos pintores e dos literatos, só para ficar nas classes de artistas mais famosas. Não consigo visualizar, por exemplo, um Erico Verissimo trabalhando como operário em uma fábrica de sapatos; nem um David Gilmour como funcionário público; e nem Leonid Afremov como um bancário. Não: essas pessoas devem ter nascido com alguma espécie de predestinação do tipo "você tem a tarefa de embelezar um pouco mais a sociedade humana. Vá lá, faça quadros, escreva livros, componha músicas".

Certo, deixando de lado essa idéia de predestinação e agora falando mais sério, fico muito satisfeito em ver que determinadas pessoas conseguem transformar a vida banal e cotidiana em algo belo e meditativo. Melhor ainda quando consigo achar a obra dessas pessoas por aí, às vezes por acaso. Leonid Afremov, por exemplo: é uma delícia poder ficar contemplando durante dez minutos um de seus quadros, distinguir cada tinta utilizada, cada "pincelada" dada. A vida fica fazendo um pouco mais de sentido. Saímos para a rua e vemos que as pessoas de fato são pessoas, e não seres domesticados para se comportar de uma determinada forma. Vemos o céu e as nuvens pela primeira vez em muito tempo.

Não é incrível que, para poder ver as coisas com mais nitidez e clareza, seja preciso recorrer a quadros impressionistas e livros de ficção?


sunset-boat-leonid-afremov


pessoas na chuva pintura Leonid Afremov

18 junho 2012

As coisas da vida (60 crônicas), de António Lobo Antunes

"As ideias muito fortes desaguam nas certezas e onde estiverem certezas a arte é impossível." (p. 44)

as-coisas-da-vida-capa transferir

Quando faz parte de um laboratório de pesquisa e de um programa de monitoria na universidade, você precisa, ao mesmo tempo, estudar milhões de artigos científicos e redigir uma série de relatórios enfadonhos que só atrapalham aquilo que costumo chamar de "regime literário". É preciso sacrificar alguma dedicação à literatura para dar conta dos afazeres pragmáticos de um mundo que não tolera muito as meditações e reflexões ligadas à arte.

De todo modo, sempre tenho tempo para um livro de crônicas. Na última semana eu fiz uma coisa que nunca imaginei que faria um dia: li um livro do escritor português António Lobo Antunes, o silencioso rival do nobelizado José Saramago. Veio parar nas minhas mãos, como que por pura obra da Providência, o volume As coisas da vida – 60 crônicas (que reúne textos publicados em periódicos lusitanos entre 1998 e 2002). Confesso: atualmente não tenho coragem de encarar um romance de Antunes, mas, depois de ter lido uma das crônicas deste livro na própria loja, gostei de ver o autor se virando em textos de duas páginas e trouxe-o para casa.


Sinopse: Lobo Antunes consagrou-se como um dos mais importantes autores da língua portuguesa por meio de romances marcantes, em que ele subverte a narrativa para criar algo absolutamente novo. Mas há uma faceta menos conhecida do autor, que também merece destaque: Lobo Antunes como cronista. É justamente este o enfoque do livro As Coisas da Vida que a Alfaguara acaba de lançar no Brasil.

Ele fala de si, de relacionamentos e despedidas, num completo entrelaçamento entre realidade e ficção. Como resultado, cria textos onde pequenas passagens da vida ganham dimensão universal.


DSC02629

Como eu disse antes, não tenho coragem de encarar um romance de António Lobo Antunes (nem o mais curto), e todas as pessoas que já ao menos folhearam um de seus livros entende o medo a que me refiro. Este português é dono de uma estética e uma estrutura narrativa que acabrunham qualquer leitor; é preciso ter fôlego de alpinista para ler, por exemplo, Ontem não te vi em Babilónia. Frases longas, entrecortadas por diálogos soltos, geralmente desconexos, linguagem floreada e outras coisas do tipo são a característica mais marcante dele. Como é muito difícil saber exatamente do que estou falando aqui, convido-os a abrir despretensiosamente um de seus romances. Aí verão.

Talvez por tratarem de assuntos mais cotidianos, menos abstratos, mais práticos e menos extensos, as crônicas de António Lobo Antunes são o que um leitor medroso como eu chamaria de "prato de entrada": ou seja, se quer entrar em contato com o autor mas acha que ele é denso demais, sirva-se de suas crônicas. E, neste caso, Antunes justifica sua fama, sua badalação na Europa, justifica por que é comparado com Saramago e por que é classificado como um dos maiores autores contemporâneos. Textos belíssimos povoam esta coletânea – inclusive, um dos que mais gostei leva o nome do álbum, As coisas da vida, sobre um escritor que lamenta o término do namoro ao mesmo tempo em que tenta fazer pouco caso de sua separação, num misto perfeito de comédia e drama.

DSC02628

Uma das coisas que mais me chamaram a atenção na escrita de Antunes é a mescla que ele consegue fazer de realidade e ficção, concreto e abstrato, de tal modo que às vezes, no mesmo texto, parece que você lê uma crônica, às vezes parece que você lê um conto, às vezes parece mesmo que lê uma poesia em prosa – e assim caminha o livro, levando o leitor a trilhar uma estrada em que emerge o inconsciente do autor, sua vida, tão universal e tão identificável. Não há gêneros definitivos, não há estrutura definitiva: há, isso sim, um borbotão de palavras e idéias, fatos e experiências que prendem o leitor e não fazem com que ele solte o livro, tamanha é a delícia de viver esse cotidiano aparentemente banal transformado em pura arte.

A coletânea é dividida a partir de sete grandes temas: infância, literatura, relacionamentos amorosos, humor, cenas do cotidiano, guerra em Angola – da qual Antunes participou, na década de 70 – e memórias. Mesmo assim, mesmo com essa aparente cisão entre os assuntos, eu diria que todas as experiências do autor se encontram impregnadas nos seus textos de tal modo que nem sempre temos uma crônica apenas cômica, nem outra que fale apenas sobre amor, nem outra somente sobre memórias: antes disso, todos os temas se encontram confundidos na literatura de António Lobo Antunes, e tomar parte nesse caleidoscópio de vivências é o maior barato deste livro.

DSC02619

Seria um esforço inútil citar aqui todas as crônicas que adorei ler (foram inúmeras, tanto que sou capaz de enumerar nos dedos as que me foram indiferentes), mas posso dar o título de algumas das melhores, só para que você, futuro leitor, possa se situar e lembrar de mim quando tiver o livro nas mãos: O paraíso, A Feira do Livro, Retrato do artista quando jovem (as duas), A compaixão pelo fogo, Em caso de acidente, Uma gota de chuva na cara, Como se o orvalho te houvesse beijado, O amor conjugal, Saudades de Ireneia, Os Lusíadas contados às crianças… Ah, sinceramente, desisto! Eu passaria o resto da noite a escrever os títulos das crônicas aqui!

Portanto, fica a minha sugestão de leitura para esse início de férias: As coisas da vida (60 crônicas), do lusitano António Lobo Antunes. Livro excelente, coletânea de ótima qualidade, textos que põem o leitor para refletir pelo resto do mês, embalsamado por aquilo que eu chamo de literatura de ponta: orgânica, viva, expressiva, pronta para ruir por terra seus preconceitos e suas ilusões. Quanto ao estilo do autor, nada convencional, não há por que se preocupar: é só uma questão de costume e estar pronto para recebê-la. Quando essa abertura se dá, pode apostar que o resultado será no mínimo gratificante – e, no máximo, arrebatador.