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18 junho 2012

As coisas da vida (60 crônicas), de António Lobo Antunes

"As ideias muito fortes desaguam nas certezas e onde estiverem certezas a arte é impossível." (p. 44)

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Quando faz parte de um laboratório de pesquisa e de um programa de monitoria na universidade, você precisa, ao mesmo tempo, estudar milhões de artigos científicos e redigir uma série de relatórios enfadonhos que só atrapalham aquilo que costumo chamar de "regime literário". É preciso sacrificar alguma dedicação à literatura para dar conta dos afazeres pragmáticos de um mundo que não tolera muito as meditações e reflexões ligadas à arte.

De todo modo, sempre tenho tempo para um livro de crônicas. Na última semana eu fiz uma coisa que nunca imaginei que faria um dia: li um livro do escritor português António Lobo Antunes, o silencioso rival do nobelizado José Saramago. Veio parar nas minhas mãos, como que por pura obra da Providência, o volume As coisas da vida – 60 crônicas (que reúne textos publicados em periódicos lusitanos entre 1998 e 2002). Confesso: atualmente não tenho coragem de encarar um romance de Antunes, mas, depois de ter lido uma das crônicas deste livro na própria loja, gostei de ver o autor se virando em textos de duas páginas e trouxe-o para casa.


Sinopse: Lobo Antunes consagrou-se como um dos mais importantes autores da língua portuguesa por meio de romances marcantes, em que ele subverte a narrativa para criar algo absolutamente novo. Mas há uma faceta menos conhecida do autor, que também merece destaque: Lobo Antunes como cronista. É justamente este o enfoque do livro As Coisas da Vida que a Alfaguara acaba de lançar no Brasil.

Ele fala de si, de relacionamentos e despedidas, num completo entrelaçamento entre realidade e ficção. Como resultado, cria textos onde pequenas passagens da vida ganham dimensão universal.


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Como eu disse antes, não tenho coragem de encarar um romance de António Lobo Antunes (nem o mais curto), e todas as pessoas que já ao menos folhearam um de seus livros entende o medo a que me refiro. Este português é dono de uma estética e uma estrutura narrativa que acabrunham qualquer leitor; é preciso ter fôlego de alpinista para ler, por exemplo, Ontem não te vi em Babilónia. Frases longas, entrecortadas por diálogos soltos, geralmente desconexos, linguagem floreada e outras coisas do tipo são a característica mais marcante dele. Como é muito difícil saber exatamente do que estou falando aqui, convido-os a abrir despretensiosamente um de seus romances. Aí verão.

Talvez por tratarem de assuntos mais cotidianos, menos abstratos, mais práticos e menos extensos, as crônicas de António Lobo Antunes são o que um leitor medroso como eu chamaria de "prato de entrada": ou seja, se quer entrar em contato com o autor mas acha que ele é denso demais, sirva-se de suas crônicas. E, neste caso, Antunes justifica sua fama, sua badalação na Europa, justifica por que é comparado com Saramago e por que é classificado como um dos maiores autores contemporâneos. Textos belíssimos povoam esta coletânea – inclusive, um dos que mais gostei leva o nome do álbum, As coisas da vida, sobre um escritor que lamenta o término do namoro ao mesmo tempo em que tenta fazer pouco caso de sua separação, num misto perfeito de comédia e drama.

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Uma das coisas que mais me chamaram a atenção na escrita de Antunes é a mescla que ele consegue fazer de realidade e ficção, concreto e abstrato, de tal modo que às vezes, no mesmo texto, parece que você lê uma crônica, às vezes parece que você lê um conto, às vezes parece mesmo que lê uma poesia em prosa – e assim caminha o livro, levando o leitor a trilhar uma estrada em que emerge o inconsciente do autor, sua vida, tão universal e tão identificável. Não há gêneros definitivos, não há estrutura definitiva: há, isso sim, um borbotão de palavras e idéias, fatos e experiências que prendem o leitor e não fazem com que ele solte o livro, tamanha é a delícia de viver esse cotidiano aparentemente banal transformado em pura arte.

A coletânea é dividida a partir de sete grandes temas: infância, literatura, relacionamentos amorosos, humor, cenas do cotidiano, guerra em Angola – da qual Antunes participou, na década de 70 – e memórias. Mesmo assim, mesmo com essa aparente cisão entre os assuntos, eu diria que todas as experiências do autor se encontram impregnadas nos seus textos de tal modo que nem sempre temos uma crônica apenas cômica, nem outra que fale apenas sobre amor, nem outra somente sobre memórias: antes disso, todos os temas se encontram confundidos na literatura de António Lobo Antunes, e tomar parte nesse caleidoscópio de vivências é o maior barato deste livro.

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Seria um esforço inútil citar aqui todas as crônicas que adorei ler (foram inúmeras, tanto que sou capaz de enumerar nos dedos as que me foram indiferentes), mas posso dar o título de algumas das melhores, só para que você, futuro leitor, possa se situar e lembrar de mim quando tiver o livro nas mãos: O paraíso, A Feira do Livro, Retrato do artista quando jovem (as duas), A compaixão pelo fogo, Em caso de acidente, Uma gota de chuva na cara, Como se o orvalho te houvesse beijado, O amor conjugal, Saudades de Ireneia, Os Lusíadas contados às crianças… Ah, sinceramente, desisto! Eu passaria o resto da noite a escrever os títulos das crônicas aqui!

Portanto, fica a minha sugestão de leitura para esse início de férias: As coisas da vida (60 crônicas), do lusitano António Lobo Antunes. Livro excelente, coletânea de ótima qualidade, textos que põem o leitor para refletir pelo resto do mês, embalsamado por aquilo que eu chamo de literatura de ponta: orgânica, viva, expressiva, pronta para ruir por terra seus preconceitos e suas ilusões. Quanto ao estilo do autor, nada convencional, não há por que se preocupar: é só uma questão de costume e estar pronto para recebê-la. Quando essa abertura se dá, pode apostar que o resultado será no mínimo gratificante – e, no máximo, arrebatador.

04 junho 2012

Estado de medo, de Michael Crichton

"É claro, sabemos que o controle social é mais bem exercido através do medo." (p. 471)

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Na falta de um livro inédito sobre o qual comentar esta semana, resolvi escolher aleatoriamente da minha estante um romance que eu já tivesse lido há algum tempo, a fim de escrever sobre ele e, em suma, revisitá-lo. É sempre bom, se não reler, pelo menos revisitar os bons livros de nossa coleção; assim, impedimos que eles caiam no esquecimento e fiquem apenas acumulando poeira. Emprestá-los também é uma excelente opção para evitar isso.

Hoje, venho aqui compartilhar com vocês minhas idéias acerca de um dos mais polêmicos romances do escritor norte-americano Michael Crichton (que, como seus leitores sabem, escreveu algumas obras belicosas no fim de sua carreira). Estado de medo (State of fear, 2004) é um desses romances controversos, tendo lhe rendido muitas críticas negativas por parte de grupos ambientalistas, uma vez que, na sua análise de dados, a existência do aquecimento global é mais pautada em exagero do que em provas concretas. Uma afirmação ácida, sem dúvida.


Sinopse: A história do livro gira em torno de uma ação contra a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos. Os habitantes da ilha Vanutu, localizada no Pacífico, corriam o risco de ter de evacuar o país por causa da elevação do nível do mar, resultado do aquecimento global provocado pelo maior e mais descuidado emissor de dióxido de carbono do mundo, os EUA. Os moradores da ilha tinham grandes chances de ganhar o caso, especialmente depois que o Fundo Nacional de Recursos Ambientais se ofereceu para ajudá-los. No entanto, o processo jurídico nunca foi levado a cabo, e as circunstâncias da ação processual foram encobertas por uma rede de mistérios e assassinatos calculados.

Para uma resenha bem mais completa (site da Rocco), clique aqui.


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Estado de medo é um dos muitos livros de Michael Crichton que eu senti prazer em reler: não só porque alguns detalhes do enredo ficaram mais claros na segunda leitura, mas também porque pude curtir outra vez a intrincada e emocionante trama do livro, que inclui excursões à Antártica, cenas na França, na Malásia e em uma remota ilha insular do Oceano Pacífico, a nação fictícia de Vanutu. Outra obra de Crichton que gostei muito de reler foi Next (o último e mais irônico livro do autor), que oferece um panorama sombrio de como as coisas podem ficar no mundo caso a engenharia genética continue seguindo os caminhos inescrupulosos que parece estar tomando.

Eu diria que a leitura de Estado de medo não fica nem um pouco comprometida se você abrir mão de suas visões pré-formadas e se deixar espantar com algumas das informações divulgadas no livro –receptividade esta que nem todos tiveram, já que a principal crítica dirigida à obra diz respeito à reação furiosa das pessoas diante da negação do aquecimento global. Embora o romance seja de ficção, todos os dados apresentados nele são verídicos e comprovados em agências de investigação climática – como, por exemplo, o fato de a Antártica vir esfriando paulatinamente nas últimas duas décadas.

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A opinião de Michael Crichton (que, verdade seja dita, não pode ser considerado um homem conservador) é bem embasada e interessante se for analisada sem estarmos antes com pedras nas mãos, apenas esperando o livro terminar para arremessá-las. Receptividade e abertura à opinião do autor é a chave para o bom aproveitamento da leitura desse romance.

Mesmo assim, ler o livro sem um julgamento prévio na cabeça não implica necessariamente concordar com tudo o que o autor afirma. Em certo momento, por exemplo, Crichton parece ser simpático à idéia absurda de que a Natureza não está sofrendo tanto com o processo de industrialização como se costuma supor. Essa hipótese é facilmente subjugada pelos argumentos da teoria sistêmica capriana, que enfatiza claramente e comprovadamente a influência maléfica do ser humano no meio natural nesta virada de século.

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De um modo mais amplo, a mensagem fundamental que Estado de medo traz ao leitor é a de que muitos dispositivos sociais maquiam e enfeitam a realidade cotidiana para deixar a população em um perpétuo "estado de medo", que garante a docilidade e a cooperação das pessoas no mundo todo. Cita-se a Guerra Fria, o medo da poluição ambiental e alguns aspectos do medo do terrorismo; de fato, realmente há o que temer nesses assuntos, mas as agências de maior relevância que operam no Sistema (mídia em especial) manipulam os dados a fim de obter aquilo que se quer. É um discurso maquiavélico meio batido que, aqui, adquire uma roupagem nova e interessante quando aplicado às questões climáticas.

Costumo dizer que eu recomendo Estado de medo para as pessoas que gostam de debater sobre assuntos polêmicos de maior importância nesse nosso início de século. Em meio a essa reflexão bem-vinda, somos mergulhados em uma trama que mistura ciência, suspense e ação, bem ao estilo dos melhores livros do autor, tais como Jurassic Park e Linha do tempo. O entretenimento sem dúvida é garantido. Estar de acordo com o que Crichton apresenta, talvez não. Mas o que importa é o percurso: os debates, os pontos de vista e, sobretudo, a reflexão levantada sobre o tema. É melhor do que ficar calado e aceitar tudo o que vem da televisão como verdade.

28 maio 2012

A Profecia Celestina, de James Redfield

"Ele jurara então que um dia moraria naquele vale perfeito, com suas enormes árvores velhas e suas sete nascentes, e acabara construindo um lago e uma cabana, e dando longas caminhadas (…)" (p. 27)

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Finalmente, depois de passar quase um mês com o Blog estagnado, volto a postar aqui uma resenha de livro. Esse atraso nas postagens se deveu, em parte, pela quantidade assustadora de coisas que tive de resolver nas últimas três semanas, todas no plano acadêmico: provas, seminários, grupos de pesquisa, monitoria etc. Tudo isso consumiu meu tempo de maneira arrasadora; porém, agora que as férias estão acenando no horizonte (ufa!), o Gato Branco voltará a funcionar a pleno vapor outra vez.

E eu retorno agora para contar um pouco das minhas reflexões sobre o livro que andei lendo nesse período atribulado (e que demorei 21 dias para ler, quando normalmente o teria feito em 4 ou 5). A Profecia Celestina (The Celestine Prophecy, 1993), escrito pelo professor norte-americano James Redfield, tornou-se um fenômeno mundial na época em que foi publicado, figurando na lista dos mais vendidos do New York Times por três anos, iniciando, assim, um grande interesse do público por assuntos ligados à chamada Nova Era ou Paradigma Transcendental.


Sinopse: Um antigo manuscrito é encontrado nas florestas do Peru, contendo nove ensinamentos que a sociedade maia pretendia transmitir às civilizações futuras. A Profecia Celestina, de James Redfield, é uma aventura de corpo e alma, onde o leitor é convidado a participar de uma saga em busca da verdade espiritual. A cada capí­tulo, acompanha-se as aventuras do protagonista em busca da sua própria verdade. Seu destino é chegar no alto das montanhas dos Andes e compreender o significado contido nas nove visões, impedindo que as autoridades locais censurem sua divulgação. Ao longo deste caminho, o leitor é apresentado a um modelo de consciência inteiramente novo.


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Quem já leu alguma coisa relacionada à Nova Era (alguma coisa consistente, de preferência) provavelmente reconhecerá em A Profecia Celestina muitos pontos familiares: coisas que, por mais originais que soem, não serão de todo inéditas. O primeiro desses pontos, que eu considero o princípio norteador dos pensamentos do novo paradigma, é a reflexão sobre a transição da Era Moderna para a Era Contemporânea, ou Pós-moderna: se ali nós buscávamos nos amparar em conquistas materiais e no domínio exploratório da natureza, aqui nós adquirimos uma espécie de consciência ecológica (em um sentido bem mais amplo que aquele do senso-comum) e uma atenção voltada para os assuntos que escapam à ciência newtoniana da causa-e-efeito.

Segundo os adeptos dessa nova corrente filosófica, é essa mudança de consciência que permitirá ao ser humano a continuidade de sua existência no planeta; porque, do jeito como estamos vivendo e tocando nossas vidas atualmente, a extinção do bem-estar (ou mesmo da espécie) será certa. Conseqüentemente, encoraja-se a percepção intuitiva, o ócio, a mudança nos princípios da ciência moderna, o freio no desenvolvimento material voraz, e assim por diante – em prol de uma sociedade mais espiritual e sustentável. Para entender melhor esse pensamento, recomendo o sensacional livro O ponto de mutação, do físico austríaco Fritjof Capra, que mostra por a+b a necessidade de mudarmos nosso estilo de vida global contemporâneo (o que inclui essa mudança de consciência).

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Embora ambos reflitam sobre os mesmos assuntos e estejam inseridos na mesma corrente de pensamento, enquanto o ensaio de Capra é mais voltado para o contexto científico, o livro de Redfield é a forma romanceada de abordar o impacto da Nova Era em nossas vidas pessoais. Certamente, alguns exageros são cometidos nessa empreitada. Visualizar campos de energia nas pessoas é um desses excessos, e eu preferi interpretar essa idéia de aura de uma maneira metafórica, buscando entender a necessidade de estar atento e sensível aos conflitos e anseios das pessoas próximas a nós – o que acabaria nos dando uma percepção do seu íntimo, por assim dizer.

Outro exagero é a afirmação de que podemos fazer as plantas crescerem mais viçosas apenas com a força do pensamento, transmitindo-lhes energia. Convém dizer: não sou tão cético a ponto de rir e rejeitar totalmente essas hipóteses, mas não acredito que elas se dêem de acordo com o que o livro aponta. A propósito, sei que os alimentos cultivados por nós mesmos trazem muito mais benefícios que aqueles industrializados, e essa é uma das reflexões do romance.

Muitas pessoas criticam as coincidências excessivas presentes no enredo da história, mas elas só começaram a me incomodar um pouco, mesmo, no terço final. Até lá, não senti dificuldades em ver que alguns personagens realmente poderiam se reencontrar e trocar idéias convenientes – mas a coisa começou a ficar forçada a partir do penúltimo capítulo. O livro preconiza que devemos sempre dar atenção às chamadas coincidências que acontecem em nossas vidas (reencontrar pessoas, objetos ou caminhos) porque elas trazem consigo uma espécie de mensagem que nos conduzirá ao lugar que sempre quisemos. Esse "ensinamento" é muito interessante porque é muito simples e óbvio: estar atento às coincidências não é outra coisa senão estar atento às oportunidades. E você pode encontrá-las em muitos lugares, levando em consideração que a palavra "oportunidade" remete à oportunidade de crescimento espiritual, não material.

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Apesar de alguns leves defeitos (que alguns leitores podem mesmo nem considerar como defeitos), A Profecia Celestina é um livro difícil de ser criticado por pessoas que toleram diferentes visões de mundo. Sermos reservados e afirmarmos que não compartilhamos das propostas apresentadas no romance é algo diferente de negarmos e repudiarmos essa nova consciência emergente. O que separa as várias obras que tratam desse tema é uma questão de grau (umas mais elucidativas e racionais, outras mais espirituais e transcendentais), nunca de essência. O novo paradigma já se mostrou suficientemente necessário em nossa sociedade para que o critiquemos: o argumento do "esse-livro-é-pura-viagem" já não parece mais tão palpável.

Minha sugestão é que se leia algo sobre a Nova Era antes de pegar este romance. Se você nunca tiver escutado falar sobre essa veia filosófica, pode correr o risco de não entender a idéia geral do livro, achá-lo apelativo e fantasioso. No entanto, se achar que está suficientemente aberto para novos modos de compreensão do ser humano (sempre com o habitual olhar crítico saudável), fica aqui a minha dica da semana. Dá boas discussões e boas rodas de conversa.

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Vale lembrar:

> A Profecia Celestina continua com A Décima Profecia e O Segredo de Shambala – e, mais recentemente, com A décima segunda revelação. Com exceção do último título, originalmente a saga foi pré-concebida, descartando a idéia de que o sucesso do primeiro livro deu margem à produção dos outros.

> Existe o filme homônimo, lançado em 2006.

> O primeiro capítulo do livro, "Massa crítica", encontra-se disponível aqui.

23 abril 2012

Norwegian Wood, de Haruki Murakami

"Nós somos seres imperfeitos vivendo num mundo imperfeito". (p. 330)

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Há exatos 25 anos, em 1987, o escritor japonês Haruki Murakami publicava aquele que seria o seu livro mais arrebatador, mais famoso e mais vendido de todos os tempos: Norwegian Wood (Norwegian Wood, 1987), já considerado pela crítica como uma espécie de O apanhador no campo de centeio oriental. Embora o autor não goste muito dessa comparação – pelo fato de ser super fã de J. D. Salinger, talvez – ela não é aleatória: ambas as obras giram ao redor do mesmo tema, a passagem tortuosa da adolescência para a vida adulta e os dilemas e contradições que essa transição carrega consigo.

Murakami é reconhecidamente o autor oriental mais ocidentalizado de que se tem notícia na contemporaneidade. Seus livros, ainda que se passem exclusivamente em localidades japonesas, fazem referência a tantos ícones da cultura ocidental moderna que o leitor percebe de cara a influência da globalização nos escritos do autor. O próprio título do livro, extraído da famosa canção dos Beatles, já nos mostra essa consciência globalizada. E, talvez pelo fato de serem mesmo bem "universais" – saindo do hermetismo das tradições japonesas, tão caras à literatura desse país – os livros de Murakami são traduzidos para dezenas de idiomas. E vendem bem. Só no país de origem do autor, Norwegian Wood vendeu 4 milhões de cópias.


Sinopse: Toru Watanabe é um jovem estudante de teatro que vive uma vida aparentemente normal em Tóquio, onde mora em um alojamento exclusivo para universitários e tem de conviver com colegas excêntricos. No entanto, seu universo pacato é abalado depois que ele reencontra uma antiga e tímida amiga. Essa garota, Naoko, era a namorada do seu melhor amigo, que, aos 17 anos, suicidou-se. Esse é praticamente o único fato que une os dois, e ambos tentarão viver uma espécie de amor proibido, cheio de encontros e desencontros, tendo ainda que suportar a perda do ente em comum. Nesse meio-tempo, Midori, uma energética e sensual amiga de Toru, entra em cena para completar o frágil triângulo amoroso.


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Norwegian Wood e Kafka à beira-mar, respectivamente: talvez as duas maiores obras de Haruki Murakami


Todo escritor possui um livro que, atingindo sucesso inesperado no período pós-publicação, concede ao seu autor a oportunidade de fazer da literatura uma profissão para o resto da vida. No caso de Murakami, essa obra-prima é justamente Norwegian Wood. Curiosamente, ela é a que mais destoa de toda a sua bibliografia. Reconhecido por escrever romances pertencentes ao gênero do realismo fantástico, em que uma história aparentemente banal e cotidiana ganha contornos fantasiosos e surreais, Murakami tem em Norwegian Wood o momento mais "equilibrado" de sua carreira: um livro cuja história é completamente real, no sentido mais acadêmico do termo.

Sem lançar mão de nenhum evento fantástico (em Kafka à beira-mar, por exemplo, um dos protagonistas tem a habilidade de conversar com gatos), o autor conseguiu aproximar os leitores que se sentem mais atraídos por um enredo pé-no-chão, mesmo que essa não tenha sido sua intenção ao escrever o livro. De qualquer forma, o amor trágico e inocente entre Watanabe e Naoko, ambientado no já depressivo final da década de 60, conquistou leitores no mundo inteiro e fez com que milhares de jovens se identificassem com os personagens principais – e esse é mais um ponto em comum com Salinger.


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Edições do livro em português: à esquerda, capa da Ed. Objetiva; à direita, lançamento da Ed. Civilização


A bem da verdade, o sucesso de Norwegian Wood não se deve exclusivamente à história e aos fatos que nela se desenvolvem; antes de tudo, o livro é excelente porque é excepcionalmente bem escrito. A história, em si, talvez não possuísse força suficiente para chegar até onde chegou se não fosse a habilidade ímpar do autor com as palavras. Mesmo que a criatividade de Murakami seja um claro diferencial, histórias de amor com pitadas de nostalgia e tragicidade não fazem parte dos enredos mais originais da literatura; a diferença está, sim, no modo como ela é contada. E nisso Murakami é mestre, como qualquer pessoa que lê seus livros pode constatar. 

Alguns livros necessitam ser lidos em momentos bem específicos de nossas vidas, para que possam mexer completamente com nossa consciência e visão de mundo. Nesse aspecto, sempre costumo dizer que eu li Norwegian Wood um pouquinho antes do momento-chave, mas que, mesmo assim, seu efeito não foi menor. Eu havia acabado de ingressar na universidade e ainda estava um pouco alienado com relação a certas coisas da vida, além de muito mergulhado na veia romântica da literatura. Entrar em contato com este livro foi, a priori, uma espécie de choque: meio que a contragosto, entendi que a boa literatura é aquela que nos deixa um pouco contrariados, que é ousada o suficiente para nos mostrar que nem tudo são flores e que estávamos enganados acerca de diversos aspectos da vida cotidiana.


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Cena do filme homônimo baseado no livro, dirigido por Anh Hung Tran: segundo os leitores, produção aquém da obra literária


Norwegian Wood me proporcionou essa abertura de olhos para algumas coisas que antes eu não conseguia – ou não admitia – enxergar. É um romance cru, em vários aspectos, doloroso e real demais para aquilo a que eu estava acostumado na época. Na trama, por exemplo, o sexo é um fator de destaque, e sua aparente banalização e frugalidade tem um sentido que só pude perceber algum tempo depois. Toru Watanabe talvez seja o tipo do personagem com o qual milhares de jovens da mesma faixa etária – 19, 20 anos – se identificam: solitário, pensativo, leitor voraz, possui um círculo fechado de amigos, que ele conquistou na base mesma do acaso.

Em suma, eu poderia escrever durante horas e horas sobre todos os detalhes do livro que fizeram de mim uma pessoa diferente daquela que eu era antes de sua leitura, mas sei que isso não se faz. Vou deixar que os possíveis leitores de Norwegian Wood se sintam eles mesmos abalados pela obra, para que possam tirar dela suas próprias conclusões e repensar alguns aspectos de sua própria vida. Porque, se você tem entre 15 e 25 anos de idade, isso certamente vai acontecer. E quem já passou por essa idade vai sentir na pele um sentimento bem gostoso – e amargo, quem sabe – de nostalgia.