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07 janeiro 2012

Lá onde os tigres se sentem em casa, de Jean-Marie Blas de Roblès

"Seria preciso estar irremediavelmente privada da liberdade para descobrir o valor do simples fato de viver?" (p. 265)

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Sempre alimentei uma espécie de admiração pelos escritores viajantes, o que pode ser facilmente explicado pela minha própria vontade de viajar através de países distantes e exóticos e de escrever, no regresso dessas excursões, meus próprios livros. Para mim, não há dúvida de que essa é uma bela maneira de passar o tempo na Terra.

Conheci há pouco tempo Jean-Marie Blas de Roblès, um arqueólogo submarino que nasceu na Argélia, morou no Tibete, Indonésia, Peru, China, Iêmen, Líbia e, dentre outros lugares, Brasil. Durante o tempo em que esteve aqui, Roblès lecionou na Universidade de Fortaleza – aquela em que estudo, aliás – e tirou da capital do Ceará boa parte da experiência que usaria para escrever o romance Lá onde os tigres se sentem em casa (Là où les tigres sont chez eux, 2008), que li essa semana.

Um livro curioso, sem dúvida, principalmente porque se trata de um romance estrangeiro cuja trama se desenrola em nosso país, do início ao fim.


Sinopse: O livro conta a história de Eléazard von Wogau, jornalista correspondente de uma agência francesa, que mora já há alguns anos em Alcântara, no Maranhão. Como tem pouco trabalho, se dedica à leitura da biografia de Athanasius Kircher, jesuíta alemão do século XVII. A história desse padre barroco, um pouco científico, um pouco charlatão, apaixonado pelo orientalismo e pela matemática, se mistura a de outros personagens: Elaine, a ex-mulher de Eléazard, bela arqueóloga que partiu em expedição pela floresta amazônica; Loredana, sedutora jornalista italiana; Nelson, garoto pobre da favela sedento por vingança; Moreira, o governador corrupto; ou ainda Moema, a jovem idealista filha de Eléazard e Elaine.


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Lá onde os tigres se sentem em casa ("Tigres", para resumir o título) é um romance simultaneísta – ou seja, diversas narrativas se cruzam no decorrer da história, o que lhe confere um caráter eclético de enredos acontecendo ao mesmo tempo, às vezes até se mesclando. O grande atrativo deste estilo de narração está em não atribuir a nenhum personagem específico o papel de protagonista: todas as histórias paralelas são igualmente importantes, igualmente atraentes e merecem a mesma atenção do leitor. Pessoalmente, tenho uma ótima experiência com romances simultaneístas. Sempre os achei muito interessantes.

O livro é dividido em 32 longos capítulos (sem contar com prólogo e epílogo) que não são cansativos, porque há muitos intervalos dentro deles. Eu até diria que, de um modo geral, as 700 páginas do volume não cansam o leitor, embora isso seja uma opinião bem mais pessoal. A verdade é que a linguagem de Roblès oscila entre a objetividade e o floreio, o que significa que há passagens bem fluidas e outras mais densas, mais subjetivamente sofisticadas. Isso dá ao livro o caráter erudito normal que a própria obra propõe desde o começo: a meta não é apenas contar uma história, mas contá-la com intelectualismo e com palavras escolhidas a dedo (recorri ao dicionário várias vezes). É claro que esse caráter pedante não pode ser considerado um defeito. A psicologia dos personagens fica bem melhor explorada, e alguns diálogos são bem profundos. É uma boa experiência geral.

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Uma coisa bem interessante em Tigres é a alternância entre o Brasil da década de 1980 e a Europa do século XVII. Extremamente pitoresca, essa temporalidade cruzada é ela própria um marco do enredo, uma jogada estilística que eu achei maravilhoso perceber. Uma hora estamos na Favela do Pirambu, em Fortaleza, acompanhando as penúrias de Nelson, e logo depois passamos à Roma regida pelo Vaticano, em que Kircher prepara mais uma discussão filosófica sobre aquela ciência medieval da qual todos faziam parte. Essa transição de tempo, lugar e temática deixa o romance bem mais dinâmico.

Não é sempre que nós temos a oportunidade de ler um romance estrangeiro passado essencialmente no Brasil, com tantos detalhes geográficos e culturais do nosso conhecimento. Roblès oferece isso aos brasileiros com Tigres. É diferente, por exemplo, ler uma ação desenvolvida na Avenida Tibúrcio Cavalcante, apenas a alguns metros da porta da minha casa e por onde passo todos os dias. A sensação é distinta, o leitor brasileiro se sente mais próximo da história e do lugar na qual ela se desenvolve. Sem dúvida.

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Ok, e quanto à história em si? Eu diria que ela é instigante. Essa talvez seja a palavra mais adequada para qualificar o romance de Roblès. Eu, pelo menos, fiquei extremamente curioso para saber qual seria o destino dos personagens, o que eles fariam em seguida e o que mudaria o curso de seus caminhos. Em alguns momentos as histórias paralelas se encontram, mas, durante a maior parte do livro, cada uma segue mesmo suas veredas próprias. Eu diria até que o denominador comum dos personagens é o sentimento de inconformidade com a vida, como se cada um sentisse que é preciso dar mais de si para não cair em uma monotonia incontornável. Há também uma certa busca pela identidade encontrada nesses personagens, o que muito me agradou. Em suma, a história é muito boa. O fio que une todas elas também é convincente.

Um dos grandes méritos do livro consiste em não cair nos lugares-comuns que a literatura estrangeira reserva ao território brasileiro. Longe de regionalismos e de chavões, Roblès se mostra atento às variações culturais do país, servindo-se dele não apenas como um mero pano de fundo, mas como um Brasil repleto de exotismo e encantos – às vezes desconhecidos por nós mesmos. Além disso, o autor mostra seu vasto domínio sobre a geografia local, descrevendo cenários que vão desde a floresta fechada do interior do Mato Grosso até as praias isoladas de Canoa Quebrada, no Nordeste. Esse cuidado com a verossimilhança topográfica inspira respeito à obra e um certo alívio por parte do leitor, ao ver algo não leviano retratado naquelas páginas.

Uma história interessante, repleta de encantos e belezas; um ensaio sobre alguns aspectos da condição humana, principalmente sobre a realidade das pessoas que não se encontram nos seus lugares de origem, na sua zona de conforto.


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Edições do original francês

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Disponibilizo aqui uma entrevista com o autor para o blog O Globo, na qual ele fala sobre o processo de criação do livro.


Lá onde os tigres se sentem em casa (2008)

Jean-Marie Blas de Roblès

710 páginas

Editora Record

Nota: 10/10

31 dezembro 2011

5 livros que eu li em 2011 e que você gostará de ler em 2012

… se o mundo não acabar, é claro.

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Quem acompanha o Gato Branco há algum tempo sabe que eu costumo listar, no final de todo ano, as leituras que realmente valeram a pena nos doze meses que se passaram. É uma prática que se consolidou no Blog por acaso, e a qual eu tento manter como uma tradição divertida.

Como dá para imaginar, dentre tantos livros lidos em um ano, é difícil eleger e recomendar apenas cinco. Sem dúvida, um número muito maior deveria ser levado em conta, mas isso significaria formular uma lista mais complexa que, no final das contas, englobaria a maioria dos livros lidos naquele ano. Sendo assim, como a idéia é ser puramente seletivo, convém eleger mesmo apenas a fina flor das obras.

Para ler a resenha completa de cada um, basta clicar sobre as capas dos livros.


Admirável mundo novo | Aldous Huxley

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Definitivamente, não é por acaso que este livro figura como um dos clássicos mais icônicos de todos os tempos. A obra mais famosa do britânico Aldous Huxley tem qualidade, sim, e não é pouca.

Em um futuro bastante longínquo, a sociedade humana se tornou essencialmente asséptica e funcional: sem a constituição de famílias, a população do mundo é dividida em castas específicas, que variam de acordo com a função que o sujeito possui perante o meio coletivo. Com uma liberdade total – porém questionável – os Alfa usufruem do planeta que os Delta e os Ípsilon são obrigados a manter, sem que com isso se sintam oprimidos pelo sistema; pois, desde o nascimento, as pessoas são condicionadas a se adaptarem à sua classe, o que sufoca, assim, qualquer tipo de mobilidade social.

A trama começa quando Bernard Marx, um Alfa, se sente deslocado no mundo elitizado que foi tido, desde o começo, como sua classe natural. Para complicar as coisas, ele começa a se sentir apaixonado por Lenina – o que é terminantemente proibido no Mundo Novo, uma vez que as paixões perturbam os homens e os levam a fazer coisas imprevisíveis.

Além de ter uma história rica em conflitos e possuir uma escrita impecável, Admirável mundo novo é um convite à reflexão sobre as organizações humanas e suas possíveis implicações. Recomendadíssimo, principalmente para os que gostam de um bom estudo social na literatura.


Os devaneios do caminhante solitário | Jean-Jacques Rousseau

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Este foi, sem dúvida, um dos melhores que li em 2011. Sensível, lírico, inovador, poético e visceral, Os devaneios do caminhante solitário é o "adeus" do brilhante filósofo Rousseau. Aqui, o autor se mostra extremamente desiludido com relação à sociedade ou, melhor, aos homens de um modo geral; acredita ser vítima das manipulações de um complô destinado a torná-lo infeliz e anônimo. Assim, procura escrever estas páginas não para o público, mas para si mesmo, pelo simples prazer de escrevê-las e pelo que acredita ser um ato de desafio àqueles que o criticam.

É um livro completo, pois apresenta reflexões das mais variadas naturezas. Felicidade, verdade, mentira, paixões, lugares, nada escapa ao escrutínio de Rousseau. Uma das sensações que senti ao lê-lo foi a de paz interior, por alguma razão que não sei explicar. Acho que o livro transmite uma idéia de serenidade muito forte.

Para quem gosta de livros de reflexão filosófica leve, este é absolutamente indispensável.


Vida roubada | Jaycee Lee Dugard

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Raptada aos 11 anos de idade e libertada (ou melhor, resgatada) somente aos 29, Jaycee Dugard é a protagonista de uma das mais dramáticas histórias de seqüestro de todos os tempos. Suas memórias de cativeiro, retratadas no livro Vida roubada, reconstroem o cotidiano catastrófico e enfadonho que a moça foi obrigada a enfrentar durante esses árduos 18 anos em que esteve nas mãos de Phillip Garrido, sobrevivendo nos fundos de um quintal.

Mas, afinal, qual é o atrativo do livro? Ora, além de trazer uma história marcante, capaz de atrair a atenção de qualquer um, Jaycee narra sua saga com uma simplicidade e uma honestidade singulares. Sem pudores, sempre valente e pronta para contar o mais ímpio dos detalhes, a autora revela assim toda a sua conturbada relação com o homem que a raptou. Muito mais que um simples livro chocante, Vida roubada é, antes de tudo, o retrato de uma das diversas tragédias concebidas no plano das relações humanas.

Para quem gosta de histórias reais, esta é a pedida do ano.


Onde os homens conquistam a glória | Jon Krakauer

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Outra história impressionante e real que li neste ano foi a de Pat Tillman, escrita pelo jornalista Jon Krakauer – mesmo autor dos best-sellers Na natureza selvagem e No ar rarefeito.

Tillman era um popular jogador de futebol americano quando, em setembro de 2001, as Torres Gêmeas foram atacadas por fundamentalistas islâmicos. Impressionado pelo evento, seu espírito patriotista foi despertado, e Tillman abandonou a carreira nos campos para se dedicar às Forças Armadas, a fim de lutar contra aqueles que violaram seu país. Acabou morto por fogo-amigo em uma das mais desajeitadas operações do Exército Americano; a família de Tillman, insatisfeita com as explicações falsas dadas pelas autoridades, remexeu a história até encontrar a verdadeira causa da morte do jovem soldado.

Além de contar a história de Tillman em detalhes, Krakauer esmiúça uma das principais guerras que agitam o século XXI. Essa talvez seja a característica mais atraente do livro, visto que, por si só, a saga de Tillman não oferece grande coisa além de mostrar a incompetência de alguns batalhões do exército norte-americano e até onde o heroísmo de uma pessoa pode levá-la.

Para quem gosta de histórias reais e para quem se interessa pelos conflitos políticos/bélicos que rolam no sul da Ásia, um prato cheio!


Lá onde os tigres se sentem em casa | Jean-Marie Blas de Roblès

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Sem dúvida, a surpresa do ano. E o último livro lido neste 2011.

Blas de Roblès nasceu na Argélia e morou em países exóticos como Tibete e Indonésia. Estabeleceu-se também no Brasil durante algum tempo, tendo lecionado nesse ínterim na Universidade de Fortaleza (Unifor) – por coincidência, a universidade em que estudo atualmente. Da experiência que teve com o Brasil, o autor escreveu Lá onde os tigres se sentem em casa, que recebeu o prêmio Médicis 2008 na França.

O livro possui uma trama intrincada que cruza diversas narrativas aparentemente paralelas. Eléazard é um jornalista francês que serve de correspondente no Maranhão, além de estar trabalhando em um manuscrito medieval que narra a vida de um jesuíta romano. Elaine, sua ex-esposa, faz parte de uma expedição em busca de fósseis raros no interior selvagem do Mato Grosso. Moema, filha adolescente do casal, vive suas aventuras noturnas no Ceará com um jovem professor e uma amiga. Nelson é um garoto aleijado que mendiga nas ruas de Fortaleza; Moreira Rocha é o governador corrupto do estado do Maranhão, culpado pela morte do pai de Nelson. E assim por diante.

O mérito do livro está em não cair nos clichês e nas armadilhas piegas dos romances que se passam no Brasil. Nada de regionalismos estereotipados, nada lugares-comuns: a obra de Roblès é, acima de tudo, um panorama sincero do nosso país, com tudo o que há de melhor, de pior e de misterioso aqui oculto.

Com um domínio visível da geografia local, Roblès usa o Brasil como pano de fundo da sua história, repleta de intelectualismo e poesia. Vale conferir, se o leitor estiver disposto a encarar as 700 páginas do volume.

Uma resenha mais detalhada deste livro poderá ser encontrada em breve aqui no site. Aguardem!


É isso. Um feliz e próspero Ano Novo para todos! :D

20 dezembro 2011

Vida roubada, de Jaycee Lee Dugard

"Amar é a parte fácil, difícil é viver sem o amor de que você precisa."

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Muitas vezes, a vida é palco de histórias que põem em cheque a afirmação de que a ficção é a única coisa capaz de nos surpreender e causar espanto. Não raro, episódios da realidade nos chocam e impressionam tanto quanto – ou até mesmo mais que – os enredos narrados nas ficções dos autores mais imaginativos. É aí que percebemos o quanto a vida pode ser pitoresca e dramática, em todos os sentidos, e não monótona e enfadonha, como gostamos de pintá-la freqüentemente.

Aconteceu de vir parar nas minhas mãos, por acaso, um livro intitulado Vida roubada (A stolen life, 2011), escrito pela norte-americana Jaycee Dugard. A capa simples da edição me despertou a curiosidade e resolvi ler o que estava escrito na orelha esquerda do volume. Embora não dê detalhes, a orelha é escrita pela própria autora, e de maneira muito objetiva ela expõe superficialmente o que ocorreu na sua infância. Na hora, pensei: este livro vai mexer comigo profundamente, tal como Os sobreviventes mexeu.

Li as memórias de Jaycee Dugard na própria livraria, em quatro dias. No começo, eu havia sentado para folhear aquelas páginas distraidamente e, quando dei por mim, estava passando da metade do livro. Não restava mais alternativa senão terminá-lo. Assim, todos os dias, ia quase religiosamente à livraria e lia mais um pedaço. Foi então que fiquei sabendo o que de fato aconteceu a Jaycee, com maiores detalhes, e não consegui mais largar a leitura.


Sinopse: Em 1991, aos 11 anos de idade, Jaycee Dugard foi raptada enquanto esperava o ônibus da escola. Pelos próximos 18 anos, sua vida se transformaria em um verdadeiro pesadelo. Abusada pelo homem que a seqüestrou, acabou se tornando mãe de duas crianças – e, de certa forma, também irmã, para tentar aplacar o imenso isolamento em que vivia. Encorajada a esquecer sua vida de antes do seqüestro, Jaycee não podia nem mesmo mencionar o seu nome. Este livro é o relato pessoal do que aconteceu durante as quase duas décadas em que a garota esteve mantida no cativeiro.


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Impressionante. Essa é a palavra que uso para qualificar este livro. Algumas passagens do texto soam tão irreais que parecem estar situadas no plano da ficção – mas não deixam de transmitir a sensação sólida de que são, sim, verídicas. Por exemplo, não é fácil assimilar a idéia de que uma garota de 11 anos de idade foi seqüestrada e resgatada somente 18 anos depois, aos 29: mas lá está o relato doloroso e conciso de Jaycee, que nos faz cair em si e pensar: "De fato, isso aconteceu".

Não é uma leitura fácil, tematicamente falando. É preciso estar com a cabeça em dia para, por exemplo, encarar os detalhes com que a autora narra os estupros a que ela mesma foi submetida ao longo de muitos anos. Em contrapartida, o que dá alívio ao leitor é a sensação de superação de Jaycee, pois através de seu livro é possível ver claramente que ela se enxerga acima de tudo o que relata. Esse distanciamento faz com que as páginas escritas não fiquem mais dolorosas do que já são por conta própria. Em muitas passagens (aliás, no livro inteiro) fica clara a vontade insistente da autora de superar esse trágico incidente que aconteceu na sua vida.


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Jaycee Dugard, antes e depois do seqüestro


A escrita de Jaycee Dugard é objetiva e concisa sem, no entanto, deixar de ser literária e até mesmo agradável. Às vezes parece que as pessoas que passam por suplícios assim são compensadas com o dom da escrita, para que então possam contar suas histórias inacreditáveis ao público. De qualquer modo, Jaycee narra suas memórias de cativeiro em um tom que não é nem um pouco afetado, mas que carrega consigo um toque qualquer de lirismo – para começar, boa parte do relato é contado no presente, como se fosse a garota que estivesse a narrar a história em tempo real. O resultado é uma escrita fluída e muito bem-vinda. Além disso, o texto é recheado de frases curtas e diretas (um detalhe que achei interessante).

Esse relato no presente é intercalado por trechos que a autora designou de Reflexões, em que, como o próprio nome sugere, Jaycee Dugard passa a limpo alguns pensamentos acerca daquilo que acabou de escrever. É um exercício bem interessante, que ficou extremamente atraente no seu livro de memórias, porque a autora passa a se valer de uma consciência que ela não tinha na época dos acontecimentos descritos.


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O seqüestrador Phillip Garrido e sua esposa, Nancy, cúmplice no crime


No começo do livro – principalmente nos momentos logo após o seqüestro – é fácil achar Phillip Garrido o maior cretino de todos, um ímpio e asqueroso ser humano. No entanto, esse é um julgamento que parte do próprio leitor, não da autora. Jaycee deixa transparecer um grande ressentimento para com Garrido, o que é perfeitamente lógico, mas não cai na armadilha de transformar seu relato em uma sucessão de trechos em que julga seu seqüestrador. Qualquer pessoa que saiba alguma coisa de psicologia é capaz de perceber quão doentia e congestionada estava a mente de Garrido. Esse estado precário de saúde mental do criminoso está longe de eximi-lo da culpa que teve, mas ao menos explica boa parte de seus atos.

Em suma, recomendo este livro, Vida roubada. É um relato profundo e emocionante sobre esse caso famoso que teve lugar nas manchetes do mundo inteiro em meados de 2009, quando Jaycee foi resgatada do cativeiro. E a obra é também, em última instância, um retrato de nossa sociedade abatida, que sempre gerou muitas tragédias no plano das relações humanas.


A quem estiver interessado, disponibilizo aqui a introdução e o primeiro capítulo do livro. Vale a pena conferir.


Vida roubada (2011)

Jaycee Dugard

304 páginas

Editora Best Seller

Nota: 10/10

13 dezembro 2011

Solo de clarineta (vol. I), de Erico Verissimo

"Carrego sempre comigo uma boa provisão do sal da malícia e da dúvida para temperar muitas das coisas que digo, escrevo, penso ou faço." (p. 292)

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Dois anos antes de falecer, Erico Verissimo achou viável começar a redigir as suas memórias. Sentou-se na frente da sua máquina de datilografar, velha companheira, e iniciou o que viria a ser o primeiro volume da obra Solo de clarineta (1973), destinado a contar desde os primeiros passos (literalmente, primeiros passos) do pequeno Erico até a rotina de seu posto no Departamento de Assuntos Culturais da União Pan-Americana, quando o novelista brasileiro já gozava de largo prestígio internacional.

No meu caso, a leitura desse livro veio do desejo de entrar mais uma vez em contato com o autor. Fazia já muito tempo desde que eu lera Noite, e, tendo Erico como um dos meus autores favoritos (senão o favorito), decidi partir para a leitura de uma nova obra sua. Depois de ter lido praticamente toda a sua ficção, optei pelas memórias. Nunca fui um grande fã de auto-biografias, mas, no caso de Erico Verissimo, tive a certeza de que valia a pena conferir.


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Casa em que Erico Verissimo morou, em Cruz Alta


Há alguns anos, um dos seus parentes mais próximos (não me lembro quem) disse que era curiosa a sensação de ler um livro de Erico Verissimo, porque ele escrevia exatamente da mesma forma que falava. Não duvido disso nem um pouco. Em todos os seus romances, a maneira de contar a história é precisamente igual, nesse tom de escrita falada, cadenciada, típica das conversações. Essa é uma das características do autor que eu mais gosto, e ela pode ser encontrada também no seu livro de memórias. Há um leve tom de descompromisso nos seus escritos, como se escrever fosse apenas o meio pelo qual a história propriamente dita passasse a existir. Aqui, a sensação de que autor e leitor estão conversando é imensa e não passa despercebida por ninguém.

Nessa obra, Erico expõe toda a sua intimidade, revelando seus laços com os pais, o irmão, os tios e até mesmo com as namoradas de sua adolescência, sempre passageiras e genéricas. Sem dúvida, um dos pontos fortes de Solo de clarineta é o estudo que o próprio autor faz da figura de seu pai, Sebastião Verissimo, pelo qual ele sentia um misto de fascinação, respeito e até desprezo (sentimentos paradoxos, como o próprio Erico admite). Seu pai é uma figura tão presente no livro que, mesmo nas partes em que ele não está, o autor trata de trazê-lo à tona.


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Erico com seus dois filhos, Clarissa e Luis Fernando


Paralelamente ao estudo que Erico faz de sua relação com seus familiares, é tecida também toda a sua formação de escritor, desde os primeiros contos, na adolescência, até a confecção de O tempo e o vento, obra máxima dele. Isso certamente vai deleitar muitos dos seus leitores. É interessantíssimo entrar em contato com o processo criativo do autor, descobrindo suas principais inspirações e dificuldades. Sem dúvida, este é outro ponto forte do relato.

Na minha opinião, as passagens mais curiosas e novelescas do livro vêm da experiência que Erico teve com as farmácias de sua família. A primeira, chefiada por seu pai, constituiu uma espécie de pano de fundo na sua infância; em diversas ocasiões ele narra episódios que aconteceram dentro dessa farmácia e que o impressionaram quando menino (incluindo o famoso episódio da metáfora da lâmpada). A segunda farmácia, fundada a partir do fracasso da primeira, foi inaugurada pelo próprio Erico, anos mais tarde, em sociedade com um amigo da família. Mais uma vez, o negócio fracassou.

E o livro segue esse embalo, narrando casos um tanto quanto dispersos, seguindo uma tênue seqüência cronológica – às vezes se detendo mais em um determinado contexto, à escolha do autor. Não é um defeito, evidentemente. É uma opção, uma maneira de contar a própria vida, destacando os elementos importantes e passando por cima dos menos relevantes.


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Sempre achei difícil resenhar uma auto-biografia. Deve ser porque não está em jogo a qualidade do livro, nem a sua "importância literária". Quem sou eu para dizer que um determinado livro de memórias é importante ou não para a literatura, como um todo? Em primeiro lugar, aliás, quem sou eu para dizer que um livro desses é de fato bom ou ruim, no puro sentido dos termos? Considero as memórias uma coisa muito pessoal de cada autor, e, se ele resolveu publicá-las, é porque julga que elas terão alguma importância para os seus leitores. É o caso de Solo de clarineta.

O próprio Erico diz: "Não esperem que estas memórias formem um documento histórico. Elas não têm a intenção de fazer nenhum perfil de minha época ou dos meus contemporâneos. É antes um livro sincero, que dedico especialmente àqueles que me têm lido durante todos esses anos." Eu, que o tenho lido durante todos esses anos, achei o livro muitíssimo interessante. Quem não é fascinado pelo autor e pelos seus romances (coisa difícil) pode ter uma opinião diferente. Mas o fato é que eu recomendo Solo de clarineta para quem quiser entrar de cabeça na vida de um dos mais importantes escritores brasileiros de todos os tempos.

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Para ler o curto prólogo do livro, clique aqui.


Solo de clarineta – vol. I (1973)

Erico Verissimo

334 páginas

Companhia das Letras

Nota: 10/10