"Carrego sempre comigo uma boa provisão do sal da malícia e da dúvida para temperar muitas das coisas que digo, escrevo, penso ou faço." (p. 292)
Dois anos antes de falecer, Erico Verissimo achou viável começar a redigir as suas memórias. Sentou-se na frente da sua máquina de datilografar, velha companheira, e iniciou o que viria a ser o primeiro volume da obra Solo de clarineta (1973), destinado a contar desde os primeiros passos (literalmente, primeiros passos) do pequeno Erico até a rotina de seu posto no Departamento de Assuntos Culturais da União Pan-Americana, quando o novelista brasileiro já gozava de largo prestígio internacional.
No meu caso, a leitura desse livro veio do desejo de entrar mais uma vez em contato com o autor. Fazia já muito tempo desde que eu lera Noite, e, tendo Erico como um dos meus autores favoritos (senão o favorito), decidi partir para a leitura de uma nova obra sua. Depois de ter lido praticamente toda a sua ficção, optei pelas memórias. Nunca fui um grande fã de auto-biografias, mas, no caso de Erico Verissimo, tive a certeza de que valia a pena conferir.
Casa em que Erico Verissimo morou, em Cruz Alta
Há alguns anos, um dos seus parentes mais próximos (não me lembro quem) disse que era curiosa a sensação de ler um livro de Erico Verissimo, porque ele escrevia exatamente da mesma forma que falava. Não duvido disso nem um pouco. Em todos os seus romances, a maneira de contar a história é precisamente igual, nesse tom de escrita falada, cadenciada, típica das conversações. Essa é uma das características do autor que eu mais gosto, e ela pode ser encontrada também no seu livro de memórias. Há um leve tom de descompromisso nos seus escritos, como se escrever fosse apenas o meio pelo qual a história propriamente dita passasse a existir. Aqui, a sensação de que autor e leitor estão conversando é imensa e não passa despercebida por ninguém.
Nessa obra, Erico expõe toda a sua intimidade, revelando seus laços com os pais, o irmão, os tios e até mesmo com as namoradas de sua adolescência, sempre passageiras e genéricas. Sem dúvida, um dos pontos fortes de Solo de clarineta é o estudo que o próprio autor faz da figura de seu pai, Sebastião Verissimo, pelo qual ele sentia um misto de fascinação, respeito e até desprezo (sentimentos paradoxos, como o próprio Erico admite). Seu pai é uma figura tão presente no livro que, mesmo nas partes em que ele não está, o autor trata de trazê-lo à tona.
Erico com seus dois filhos, Clarissa e Luis Fernando
Paralelamente ao estudo que Erico faz de sua relação com seus familiares, é tecida também toda a sua formação de escritor, desde os primeiros contos, na adolescência, até a confecção de O tempo e o vento, obra máxima dele. Isso certamente vai deleitar muitos dos seus leitores. É interessantíssimo entrar em contato com o processo criativo do autor, descobrindo suas principais inspirações e dificuldades. Sem dúvida, este é outro ponto forte do relato.
Na minha opinião, as passagens mais curiosas e novelescas do livro vêm da experiência que Erico teve com as farmácias de sua família. A primeira, chefiada por seu pai, constituiu uma espécie de pano de fundo na sua infância; em diversas ocasiões ele narra episódios que aconteceram dentro dessa farmácia e que o impressionaram quando menino (incluindo o famoso episódio da metáfora da lâmpada). A segunda farmácia, fundada a partir do fracasso da primeira, foi inaugurada pelo próprio Erico, anos mais tarde, em sociedade com um amigo da família. Mais uma vez, o negócio fracassou.
E o livro segue esse embalo, narrando casos um tanto quanto dispersos, seguindo uma tênue seqüência cronológica – às vezes se detendo mais em um determinado contexto, à escolha do autor. Não é um defeito, evidentemente. É uma opção, uma maneira de contar a própria vida, destacando os elementos importantes e passando por cima dos menos relevantes.
Sempre achei difícil resenhar uma auto-biografia. Deve ser porque não está em jogo a qualidade do livro, nem a sua "importância literária". Quem sou eu para dizer que um determinado livro de memórias é importante ou não para a literatura, como um todo? Em primeiro lugar, aliás, quem sou eu para dizer que um livro desses é de fato bom ou ruim, no puro sentido dos termos? Considero as memórias uma coisa muito pessoal de cada autor, e, se ele resolveu publicá-las, é porque julga que elas terão alguma importância para os seus leitores. É o caso de Solo de clarineta.
O próprio Erico diz: "Não esperem que estas memórias formem um documento histórico. Elas não têm a intenção de fazer nenhum perfil de minha época ou dos meus contemporâneos. É antes um livro sincero, que dedico especialmente àqueles que me têm lido durante todos esses anos." Eu, que o tenho lido durante todos esses anos, achei o livro muitíssimo interessante. Quem não é fascinado pelo autor e pelos seus romances (coisa difícil) pode ter uma opinião diferente. Mas o fato é que eu recomendo Solo de clarineta para quem quiser entrar de cabeça na vida de um dos mais importantes escritores brasileiros de todos os tempos.
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Para ler o curto prólogo do livro, clique aqui.
Solo de clarineta – vol. I (1973)
Erico Verissimo
334 páginas
Companhia das Letras
Nota: 10/10

