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20 novembro 2011

Uma música, um estado de espírito; várias músicas, uma vida

Aceitaria de bom grado viver sem matéria, mas não sem música.

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Há quem diga que 90% do nosso gosto musical não é construído através das nossas experiências próprias, mas a partir das tendências que herdamos dos pais, tios, avós, e assim por diante. Como se recebêssemos uma espécie de carga cultural naturalmente transmitida por nossos parentes mais diretos, passamos a admirar as músicas e composições das quais aprendemos a gostar desde muito cedo. Se a tradição de uma família (seus costumes, seus rituais, sua filosofia de vida) é ensinada a uma criança desde a sua mais tenra idade, não há porque não incluir o gosto musical nessa bagagem de elementos perpassados pelas gerações.

Cresci ouvindo músicas clássicas de rock, principalmente as músicas que faziam sucesso nas décadas de 1960 e 1970, incluindo bandas como Dire Straits, Pink Floyd, Creedence Clearwater Revival, The Beatles, Simon & Garfunkel, Bob Dylan, Bee Gees, entre outros. Lembro muitíssimo bem dos finais-de-semana passados na casa da minha avó, para onde convergiam todos os meus tios e tias, que colocavam na vitrola músicas de pop rock para a animação geral. A música da qual me recordo com mais nitidez é Sultans of Swing, do Dire Straits, cuja melodia hoje me traz sentimentos nostálgicos do mais alto grau.


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Esse repertório musical montou as bases do que hoje eu chamo de meu gosto por músicas. Aprofundei meus conhecimentos sobre as bandas que ouvia na infância/adolescência, chegando ao ponto de ser mais bem informado sobre elas que os próprios tios e tias que as apresentaram para mim. Enquanto meu pai ainda está na fase Dark Side of the Moon e The Wall, do Pink Floyd, eu já tive há séculos a curiosidade de conhecer toda a discografia da banda – e, nesse processo, encontrei músicas que correspondem a verdadeiros tesouros, como algumas que se encontram nos álbuns Meddle e Animals.

De um modo geral, acredito que as músicas – todas elas, sem distinção de gênero – sejam tão importantes para a vida de uma pessoa quanto o estudo ou a presença de amigos. Este meu pensamento sempre é mal-interpretado, mas apenas porque certas pessoas não compreendem que, quando falo de música, não me refiro a nenhuma específica, mas ao contexto musical, à cultura musical mais abrangente possível. Estou convicto de que alguém que não sabe apreciar músicas – conheço muitos indivíduos assim – não possui um controle estável sobre as próprias emoções. Saber admirar uma boa música, assim como saber admirar um bom quadro, ou um bom livro, está intimamente relacionado ao domínio que eu tenho no âmbito das emoções.


Ferrari


É bem interessante lembrar do valor terapêutico das músicas. Muitas pessoas enxergam apenas diversão e entretenimento onde há, também, "massagem espiritual": as músicas não fornecem contexto apenas para entreter as pessoas, mas, principalmente, para fazê-las ter um contato melhor com a realidade na qual estão inseridas. Nunca me esqueço do dia em que, melancólico pela reprovação em um vestibular, eu disse a uma amiga: "Quero chegar em casa e ouvir música", ao passo que ela retrucou: "Como você consegue?" Minha amiga não percebeu que eu de fato não tinha a menor intenção de me divertir, mas de relaxar, de tentar colocar as coisas de volta nos eixos – com música.

Acredito muito na idéia de que nossa vida é formada por aquilo que nós gostamos de ouvir. Digamos que boa parte da nossa vida só faz sentido quando ela é embalada pela "trilha sonora" que escolhemos ter. Afinal de contas, nosso gosto musical define uma grande fatia do arsenal com o qual nos confrontamos com a realidade. Música é refúgio, é apego à natureza, à arte, é fuga do cotidiano.

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Deixo a seguir o áudio de uma das músicas mais belas que já tive o prazer de ouvir, de um dos melhores álbuns de Mark Knopfler, um dos melhores músicos da atualidade. Knopfler foi o líder guitarrista do Dire Straits, conjunto de rock lendário nos anos 70/80, e começou a sua carreira solo algum tempo depois do término da existência da banda.

A música se chama Before gas and TV e está no álbum Get Lucky, lançado em meados de 2009. Este é um dos poucos discos que escuto do início ao fim sem pular uma única faixa.

Vida longa aos adoradores da arte musical!

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06 novembro 2011

Ciência e poesia, lado a lado

A verdadeira ciência é aquela que fala não do que os homens fazem da natureza, mas de como eles se relacionam com ela.

O ócio é uma coisa maravilhosa. Ultimamente venho pensando em algumas coisas que, sem dúvida, merecem postagens aqui no Gato Branco em Fuligem de Carvão. É fato que eu estou começando a achar interessante a idéia de usar este espaço não só para publicar minhas impressões sobre os livros que leio, mas, também, para expor o que eu penso sobre determinados assuntos de interesse público. A propósito, algumas postagens dessa natureza crítico-reflexiva foram extremamente bem recebidas pelos meus leitores, como é o caso de Ônibus 174, A tendência do uso de aspas em diálogos e A questão da tecnologia nas escolas, todas muito visitadas e comentadas pelas pessoas que aportam ao acaso por aqui.

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É curioso. Nessa semana meu pai comprou o livro Deus, um delírio, best-seller escrito pelo ateu Richard Dawkins, famoso pelos seus ataques impiedosos às instituições religiosas em geral. E, embora eu esteja pensando muito sobre o debate eterno entre ateus e religiosos fanáticos (e sobre a importância da religião nas diversas áreas do ser humano), hoje tive vontade de escrever sobre outra coisa totalmente diferente. Algo que me chamou a atenção durante a leitura do livro Os devaneios do caminhante solitário, de Jean-Jacques Rousseau. É uma coisa que não tem nada a ver com religião ou com a falta dela, a propósito.

Quem já leu mais de um livro científico escrito no século XVIII pode ter percebido uma coisa curiosa (e interessantíssima) que eu só percebi muito recentemente, através da leitura da já mencionada obra de Rousseau. De maneira sucinta, é isto: naquela época os cientistas misturavam arte e ciência em seus escritos de uma forma tão maciça que se torna impossível dissociá-las. A pessoa que já leu as primeiras partes de O discurso do método, de Descartes, por exemplo, entende o que eu estou querendo dizer. Ou mesmo quem já leu algum manuscrito publicado por Isaac Newton.


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Frontispício de uma obra de Descartes


O que esses livros científicos dos séculos passados têm em comum? Simples: são tratados que dissecam a natureza, mas tratam, fundamentalmente, da relação pessoal entre o Homem e a Natureza. Qualquer leitura cuidadosa desses textos revela isso de modo evidente, e essa característica foi algo que se perdeu no seio da tradição científica. Hoje, qualquer estudo que seja dotado de um valor humano mais profundo e pessoal é considerado de pouco valor científico, porque não atende às exigências de impessoalidade promovidas pelo positivismo de tempos idos.

Para se ter uma idéia, os discursos de Descartes e Newton (por exemplo) não se referem a discursos científicos, mas, antes, a tratados filosóficos. O que as pessoas hoje entendem por ciências exatas era, naquele tempo, cunhado por "meditações", "devaneios" e outras palavras que sugerem pensamento reflexivo emocional, e não meramente racional. O que Rousseau mais fez em seus escritos políticos foi desnudar a condição humana a partir do seu ponto de vista, que ele não cansava de frisar. Descartes, hoje tido como um dos ilustres senhores do pensamento analítico, escreveu no início da Quarta Parte de seu Discurso do método a mais bela tentativa de se livrar dos preconceitos que invadiam sua mente.

Esses autores, diferentemente do que o senso-comum hoje imagina, não se limitavam apenas a elucubrações lógicas e deduções analíticas baseadas em números. Eles tinham um profundo interesse em relacionar seus estudos com a sua visão pessoal de mundo, partindo para o lado emocional mesmo. Basta lembrar que, com sua premissa de dividir o pensamento racional no maior número de partes possíveis, Descartes provou a existência de Deus, que era uma grande paixão sua.


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Um dos primeiros exemplares de Principia, de Newton. Observe o caráter ambivalente da obra trazido no título.


Os estudos científicos daquela época se confundiam mesmo com poesia. Deve ser por isso que sinto um prazer especial em lê-los. Muitos parágrafos dos escritos de Newton ou Rousseau são capazes de fazer inveja aos mais prolíficos romancistas e poetas. Na época em que esses autores vingaram, havia um certo deleite em mostrar o lado artístico da Ciência. Hoje, em prol de um saber mais neutro e definitivo, isso foi posto de lado. Algumas universidades chegaram ao ponto de desencorajar os pesquisadores a utilizarem os verbos em primeira pessoa, tornando as coisas o mais impessoal possível. Não que isso seja algo condenável. Mas é preciso saber alargar os conceitos de Ciência e abrir as possibilidades para estudos que necessitam de um embasamento mais pessoal.

Citei Descartes, Newton e Rousseau por serem os expoentes máximos disso que eu chamo de ciência poética. Se você nunca leu nada desses autores, sugiro que vá atrás de uma obra de pelo menos um deles. Você vai se surpreender ao enxergar não somente deduções analíticas e suposições baseadas na lógica, mas o mais puro pensamento meditativo e filosófico – coisa de que sinto falta nos escritos científicos de hoje.


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A associação da imagem destes pensadores com os números faz supor que eles se preocupavam apenas com a Lógica.


A seguir, para finalizar, deixo com vocês alguns trechos extraídos de O discurso do método, de René Descartes. São trechos bonitos que poderiam figurar em qualquer livro nas estantes de literatura.

"(...) a diversidade de nossas opiniões não se origina do fato de serem alguns mais racionais que outros, mas apenas de dirigirmos nossos pensamentos por caminhos diferentes e não considerarmos as mesmas coisas. Pois é insuficiente ter o espírito bom, o mais importante é aplicá-lo bem. As maiores almas são capazes dos maiores vícios, como também das maiores virtudes, e os que só andam muito devagar podem avançar bem mais, se continuarem sempre pelo caminho reto, do que aqueles que correm e dele se afastam." (p. 1)

" (…) percebi que, ao mesmo tempo que eu queria pensar que tudo era falso, fazia-se necessário que eu, que pensava, fosse alguma coisa. E, ao notar que esta verdade "penso, logo existo" era tão sólida e tão correta que as mais extravagantes suposições dos céticos não seriam capazes de lhe causar abalo, julguei que podia considerá-la, sem escrúpulo algum, o primeiro princípio da filosofia que eu procurava." (p. 12)

"Ademais, não pretendo falar aqui a respeito dos progressos que no futuro espero fazer nas ciências, nem me comprometer em relação ao público com qualquer promessa que eu não esteja seguro de cumprir: mas direi unicamente que decidi não empregar o tempo de vida que me resta em outra coisa que não seja tentar adquirir algum conhecimento da natureza, que seja de tal ordem que dele se possam extrair normas mais seguras do que as adotadas até agora." (p. 27)

23 outubro 2011

Abduzidos, de Robin Cook

"Suzanne mordeu o lábio inferior para evitar que suas emoções, novamente turbulentas, se transformassem em lágrimas." (p. 333)

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Abduzidos (Abduction, 2000) foi o primeiro romance que li quando cheguei na cidade de Fortaleza, há exatos 6 anos. Foi, também, o primeiro livro que peguei depois da maratona de Michael Crichton que eu vinha fazendo nos últimos meses – aos 13 anos de idade, eu estava totalmente fascinado pelo autor de Jurassic Park, e era duro ter de variar o regime de leitura. Nunca havia lido outro autor.

Naquela época, eu não sabia que Robin Cook tinha uma notável semelhança com Crichton: ambos eram médicos escritores ligados aos romances de thriller. Mesmo que Crichton tenha abandonado a medicina muito cedo e enveredado por gêneros literários que não estavam diretamente ligados a ela (ao passo que Cook permaneceu como médico e sempre escreveu sobre seu ofício), a semelhança entre esses dois autores é muito grande. A propósito, Michael Crichton, na sua carreira paralela de diretor de cinema, trouxe para as telas a adaptação do livro Coma, escrito por Cook. E Um caso de necessidade, primeiro romance de Crichton, traz todos os elementos do gênero literário que Cook inaugurou: o thriller médico.

Na falta do que postar aqui no Blog, achei conveniente falar um pouco sobre Abduzidos. É um livro interessantíssimo, do qual guardo boas lembranças. Infelizmente nunca li outro romance de Cook, embora sempre esteja na iminência de fazê-lo: vejo um título dele nas estantes das livrarias, acho a sinopse interessante, mas nunca o levo para casa. Qualquer dia desses, levarei pelo menos um.


Sinopse: Misteriosos acidentes interrompem as perfurações submarinas de um grande empreendimento científico e comercial, provocando prejuízos de milhares de dólares a cada dia. Preocupado com as pesquisas, um grupo de especialistas desce até o local para descobrir a causa dos transtornos. Mas, quando o pequeno submersível chega a 300 metros abaixo da superfície da água, uma estranha força o suga para as profundezas do oceano. Lá, encontram uma civilização avançada que descobriu o segredo da imortalidade. Mas, desde o princípio, algo não parece confiável nos estranhos anfitriões.


Para começo de história, Abduzidos não tem nada a ver com o gênero do thriller médico que o próprio Robin Cook inaugurou. Enquanto sua vasta bibliografia trata de expor os bastidores dos hospitais e clínicas particulares – geralmente lançando mão de alguma trama conspiratória envolvendo doação de órgãos, engenharia genética ou fertilização in vitro –, Abduzidos corresponde a uma espécie de peça única no seu trabalho como escritor. Neste livro em questão, Cook abandona toda a atmosfera hospitalar que recheou seus romances anteriores, despe seu jaleco, tira seu estetoscópio do pescoço e escreve uma aventura de ficção-científica a la Júlio Verne. (Para grande decepção de alguns de seus fãs, segundo ouvi dizer.)

Como Abduzidos foi o único romance de Robin Cook que eu li até hoje, não posso fazer grandes comparações com seus outros trabalhos. E nem é essa a idéia, de fato. Acho mais conveniente falar do livro em si, de suas qualidade e defeitos, e do que ele representa como obra literária, separadamente do histórico bibliográfico do autor.


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O enredo de Abduzidos funciona com poucos personagens. Um grupo restrito de pesquisadores envolvidos em perfurações submarinas acaba entrando em contato com uma civilização suspeita que vive no interior do planeta. A situação inusitada não descamba para nada que envolva o Governo dos Estados Unidos, nada que envolva as Forças Armadas, nada que envolva a OTAN. Simplesmente, os pesquisadores adentram nessa civilização subterrânea e são instados a permanecerem lá por algum tempo, até os esquisitos anfitriões se certificarem de que a existência do seu mundo particular não será revelada pelos importunos visitantes.

Convém esclarecer que a aparência física desses estranhos habitantes do interior da Terra nada tem de bizarra. Muito pelo contrário: eles se apresentam na forma de humanos, como nós, e se caracterizam por uma peculiaridade extremamente invejável – são pessoas dotadas de uma beleza extraordinária, perfeita. Os seres que habitam Interterra (nome dado ao local) são homens e mulheres tão, mas tão bonitos que os pesquisadores permanecem estarrecidos com isso do começo ao fim da aventura.


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Além da ação e do caráter de ficção-científica retrô, Abduzidos traz uma espécie de reflexão sobre como funcionaria uma sociedade perfeita hipotética. Lá, em Interterra, todas as pessoas são lindas, inteligentes, gentis e pacíficas, e todos vivem numa comunidade igualitária democrática e profundamente feliz. Que conseqüências isso poderia acarretar para o corpo social como um todo, e para os visitantes terráqueos, especificamente? Com este livro, Robin Cook ensaia um pequeno esboço de sua visão sobre a temática admirável-mundo-novo, iniciada por Huxley e que já rendeu boas obras na literatura.

Durante o tempo em que permanecem confinados na Interterra, os visitantes terráqueos (nossos protagonistas) recebem diversas instruções sobre como funciona a sociedade na qual acabaram de entrar. Para isso, dois guias são tacitamente destacados, Arak e Sufa: ambos fazem as vezes de apresentadores do mundo perfeito com o qual todos estão deslumbrados. No entanto, à medida que cresce a fascinação por aquele sinistro lugar, cresce também a desconfiança. E, a partir de uma série de incidentes constrangedores, a relação entre os representantes dos dois mundos começa a ficar cada vez mais tensa.


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A linguagem do livro é leve e, por este mesmo motivo, flui perfeitamente bem, sem entraves. Como a maioria dos romances de ação e aventura, o objetivo maior do autor, aqui, é passar a idéia de dinamismo, mesmo nas cenas mais lentas, como se estivéssemos assistindo a um filme. Interessante notar que os mais diversos detalhes de Interterra são descritos com minúcia, desde os transportes voadores até os móveis do interior das habitações.

Para quem lê Robin Cook com assiduidade, Abduzidos é um livro indispensável. Trata-se de uma obra única na bibliografia do autor, pois, como foi dito antes, Cook deixa de lado os corredores assépticos dos hospitais e as reluzentes salas de cirurgia e parte para uma trama bem mais surreal do que as tramas que ele normalmente imagina para seus thrillers médicos. Por outro lado, para quem nunca leu Robin Cook, aconselho começar por outro título que não este (justamente o que eu não fiz). Se o leitor quer ter, de fato, uma idéia melhor do que seja o estilo do autor, deve ler Coma, Toxina ou Contágio – ou outro de seus livros mais famosos.


Abduzidos (2000)

Robin Cook

Editora Record

Páginas: 393

Nota: 9/10

10 outubro 2011

Os devaneios do caminhante solitário, de Jean-Jacques Rousseau

"A felicidade é um estado permanente que não parece feito para o homem neste mundo." (p. 116)

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Às vezes tenho a impressão de que os melhores livros que eu leio são aqueles que compro na total impulsividade. Aqueles nos quais simplesmente bato os olhos, vejo a capa, abro-o, folheio durante dois minutos e penso: "Vou levar este". Pode ser que eu nunca tenha sequer ouvido falar no livro, ou no autor. Mas ele me fisga de tal maneira que me sinto totalmente atraído por ele, a ponto de querer levá-lo para casa.

Foi isso o que aconteceu com Os devaneios do caminhante solitário (Les Revêries du Promeneur Solitaire, 1782), escrito pelo genial filósofo e músico suíço Jean-Jacques Rousseau. Comprei-o mais por impulso do que por qualquer outra coisa; nesse caso, eu obviamente conhecia o autor, mas não sabia da existência desse título de sua autoria. Puxei-o da prateleira da L&PM, abri e comecei a ler algumas páginas aqui e acolá. Caí exatamente no seguinte parágrafo, que me cativou logo de cara:

Vi muitos que filosofavam de maneira muito mais douta que eu, mas sua filosofia lhes era, de certa forma, estranha. Querendo ser mais sábios que outros, estudavam o universo para saber como este estava arranjado, como teriam estudado alguma máquina que tivessem encontrado, por pura curiosidade. Estudavam a natureza humana para dela poder falar com sabedoria, mas não para se conhecerem (…) [p. 29]

Essas e outras poucas linhas foram o suficiente para que eu pensasse: "Este livro será a minha leitura da semana." Finalizei-o ontem e não me arrependi nem um pouco. É interessantíssimo.


Sinopse: Publicado postumamente, este grande testamento inacabado é considerado pelo próprio autor como a conclusão de sua obra. Diferente de seus outros escritos, marcados por discursos políticos, Os devaneios são relatos líricos e serenos, emotivos, que retratam sua sensação de isolamento e estranheza pelas críticas à sua obra e às suas posições humanistas.


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Publicado quatro anos depois de sua morte, Devaneios é uma espécie de diário-testamento de Rousseau, no qual ele escreve todas as suas impressões sobre a própria vida e a condição humana na Terra. Passeando por grandes temas como a mentira, a felicidade, a solidão, a meditação e a hipocrisia, Rousseau transfere para o papel tudo o que sentia e pensava a respeito desses assuntos, utilizando a linguagem cristalina e poética que caracterizou boa parte de suas principais obras. Além disso, a fim de deixar seus testemunhos ainda mais ricos, não raro ele ilustra suas teorias descrevendo pequenos acontecimentos cotidianos no qual esteve presente – caminhadas, visitas de amigos e alguns incidentes esporádicos.

O livro é dividido em dez caminhadas, cada qual abarcando um tema específico, alguns deles aparecendo mais de uma vez. O curioso é notar que o termo "caminhada" não tem sentido literal, mas metafórico, como se correspondesse a uma espécie de trilha filosófica e meditativa. Rousseau adorava passear a pé por campos e bosques floridos, e resolveu estender o conceito de caminhada também aos seus devaneios. O processo criativo de cada capítulo me pareceu interessantíssimo: fiquei com a sensação de que o autor puxava a pena e o papel sem a menor idéia do que escreveria naquele dia, deixando sua mente vagar a esmo dentro de determinados assuntos. A partir daí, sua caneta ia apenas acompanhando a torrente de pensamentos que o acometia – sem, no entanto, perder o foco.

Achei extremamente prazeroso acompanhar esses devaneios de Rousseau. Ele escreve suas impressões íntimas de uma forma tão simples, tão inteligível, tão sincera, que é impossível não sentir um ótimo sabor em suas palavras. Excelente redator, sem dúvida, Rousseau mistura sua filosofia de vida à experiência cotidiana, sem com isso almejar alcançar status de filósofo. Aliás, no início do livro o próprio autor confessa que pouco lhe importa se essas páginas serão lidas por alguma pessoa, ou se serão destruídas ou transmitidas às gerações futuras: o que importa é sentir o prazer imediato que ele tem ao escrevê-las. O puro prazer de redigir suas impressões.


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"Ao me libertar de todas essas armadilhas, de todas essas vãs esperanças, entreguei-me por completo à despreocupação e ao repouso do espírito que sempre foram meu interesse mais dominante e minha inclinação mais duradoura. Deixei a sociedade e suas pompas, renunciei a todo adereço (...), sem relógio, sem meias brancas, penteados, uma grossa veste de pano, e melhor que tudo isso, extirpei de meu coração os desejos e as cobiças que dão valor a tudo o que eu abandonava." [p. 31]


O tom que sustenta Os devaneios de um caminhante solitário é, de certa forma, bastante amargo, como se Rousseau estivesse profundamente decepcionado com a rejeição de sua pessoa pela sociedade em que vivia. De fato, esse sentimento fica claro em diversas partes do texto (na verdade, durante o livro inteiro), em que ele afirma se manter forçadamente afastado dos demais homens. Isolado em sua solidão contemplativa, Rousseau assume o papel de um telespectador rejeitado pela platéia da qual faz parte. A propósito, a frase que abre o livro é esta: "Eis-me, portanto, sozinho sobre a terra, sem outro irmão, próximo, amigo ou companhia que a mim mesmo."

Como conseqüência disso, dentre outras coisas, ele começa a apontar no seu texto aquilo que o diferencia dos outros indivíduos: qualidades e defeitos que ele sentia perceber apenas nele, e que infelizmente não via em outra pessoa com a qual pudesse compartilhá-los. Convencido de que não estava inserido na sociedade parisiense do século 18, Rousseau se recolhe e se defende das críticas que costumava receber pelas suas teorias filosóficas e políticas.

Para entender melhor isso, é necessário ter conhecimento de um fato curioso que marcou o final da vida deste grande filósofo. Nos seus quatro últimos anos, Rousseau acreditava existir uma espécie de complô contra sua pessoa, um complô invisível que o criticava e tirava de suas mãos os prazeres mais simples da vida, além de afastá-lo do convívio humano. Intuição delirante, sem dúvida, que compõe o estofo dos Devaneios. É sempre se referindo a esse complô onipresente (e culpando-o) que Rousseau se diz traído, abatido e isolado da sociedade.


The-Waterfall,-Rousseau,-1910

"(...) sejamos sempre verdadeiros, mesmo com todos os riscos. A justiça está na verdade das coisas; a mentira é sempre iniqüidade, e o erro é sempre impostura quando provocamos algo que não segue a regra do que devemos fazer ou crer: e seja qual for o efeito resultante da verdade, sempre somos inocentes quando a dissemos, pois nada lhe acrescentamos de puramente nosso." [p. 48]


Os devaneios do caminhante solitário possui uma qualidade literária indiscutível. A obra (que é pequena, mal chegando às 150 páginas) pode ser lida como uma espécie de relato intimista, ou algo do gênero. A idéia do complô inimigo que Rousseau cultivava dá a seu texto um lirismo qualquer, um toque poético quase ficcional (muito embora essa sensação fosse verídica). Contribuem para esse lirismo a visão humanista e a serenidade característica do autor – que nos fornece, especialmente neste livro em questão, um panorama especial do que um homem que se sente rejeitado pela sociedade pode apresentar.

Recomendadíssimo para quem quer uma dose pequena e rápida de boa literatura e de boas reflexões sobre a vida e os homens.

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Para ilustrar esta postagem, colei ao longo do texto alguns quadros do pintor francês Henri Rousseau [1844-1910], cuja temática, a vida natural, muito coincide com as ideologias de Jean-Jacques Rousseau.


Os devaneios de um caminhante solitário (1782)

Jean-Jacques Rousseau

Editora L&PM

Nota: 10/10