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10 outubro 2011

Os devaneios do caminhante solitário, de Jean-Jacques Rousseau

"A felicidade é um estado permanente que não parece feito para o homem neste mundo." (p. 116)

devaneios rousseau

Às vezes tenho a impressão de que os melhores livros que eu leio são aqueles que compro na total impulsividade. Aqueles nos quais simplesmente bato os olhos, vejo a capa, abro-o, folheio durante dois minutos e penso: "Vou levar este". Pode ser que eu nunca tenha sequer ouvido falar no livro, ou no autor. Mas ele me fisga de tal maneira que me sinto totalmente atraído por ele, a ponto de querer levá-lo para casa.

Foi isso o que aconteceu com Os devaneios do caminhante solitário (Les Revêries du Promeneur Solitaire, 1782), escrito pelo genial filósofo e músico suíço Jean-Jacques Rousseau. Comprei-o mais por impulso do que por qualquer outra coisa; nesse caso, eu obviamente conhecia o autor, mas não sabia da existência desse título de sua autoria. Puxei-o da prateleira da L&PM, abri e comecei a ler algumas páginas aqui e acolá. Caí exatamente no seguinte parágrafo, que me cativou logo de cara:

Vi muitos que filosofavam de maneira muito mais douta que eu, mas sua filosofia lhes era, de certa forma, estranha. Querendo ser mais sábios que outros, estudavam o universo para saber como este estava arranjado, como teriam estudado alguma máquina que tivessem encontrado, por pura curiosidade. Estudavam a natureza humana para dela poder falar com sabedoria, mas não para se conhecerem (…) [p. 29]

Essas e outras poucas linhas foram o suficiente para que eu pensasse: "Este livro será a minha leitura da semana." Finalizei-o ontem e não me arrependi nem um pouco. É interessantíssimo.


Sinopse: Publicado postumamente, este grande testamento inacabado é considerado pelo próprio autor como a conclusão de sua obra. Diferente de seus outros escritos, marcados por discursos políticos, Os devaneios são relatos líricos e serenos, emotivos, que retratam sua sensação de isolamento e estranheza pelas críticas à sua obra e às suas posições humanistas.


View-Surrounding-Paris,-Rousseau

Publicado quatro anos depois de sua morte, Devaneios é uma espécie de diário-testamento de Rousseau, no qual ele escreve todas as suas impressões sobre a própria vida e a condição humana na Terra. Passeando por grandes temas como a mentira, a felicidade, a solidão, a meditação e a hipocrisia, Rousseau transfere para o papel tudo o que sentia e pensava a respeito desses assuntos, utilizando a linguagem cristalina e poética que caracterizou boa parte de suas principais obras. Além disso, a fim de deixar seus testemunhos ainda mais ricos, não raro ele ilustra suas teorias descrevendo pequenos acontecimentos cotidianos no qual esteve presente – caminhadas, visitas de amigos e alguns incidentes esporádicos.

O livro é dividido em dez caminhadas, cada qual abarcando um tema específico, alguns deles aparecendo mais de uma vez. O curioso é notar que o termo "caminhada" não tem sentido literal, mas metafórico, como se correspondesse a uma espécie de trilha filosófica e meditativa. Rousseau adorava passear a pé por campos e bosques floridos, e resolveu estender o conceito de caminhada também aos seus devaneios. O processo criativo de cada capítulo me pareceu interessantíssimo: fiquei com a sensação de que o autor puxava a pena e o papel sem a menor idéia do que escreveria naquele dia, deixando sua mente vagar a esmo dentro de determinados assuntos. A partir daí, sua caneta ia apenas acompanhando a torrente de pensamentos que o acometia – sem, no entanto, perder o foco.

Achei extremamente prazeroso acompanhar esses devaneios de Rousseau. Ele escreve suas impressões íntimas de uma forma tão simples, tão inteligível, tão sincera, que é impossível não sentir um ótimo sabor em suas palavras. Excelente redator, sem dúvida, Rousseau mistura sua filosofia de vida à experiência cotidiana, sem com isso almejar alcançar status de filósofo. Aliás, no início do livro o próprio autor confessa que pouco lhe importa se essas páginas serão lidas por alguma pessoa, ou se serão destruídas ou transmitidas às gerações futuras: o que importa é sentir o prazer imediato que ele tem ao escrevê-las. O puro prazer de redigir suas impressões.


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"Ao me libertar de todas essas armadilhas, de todas essas vãs esperanças, entreguei-me por completo à despreocupação e ao repouso do espírito que sempre foram meu interesse mais dominante e minha inclinação mais duradoura. Deixei a sociedade e suas pompas, renunciei a todo adereço (...), sem relógio, sem meias brancas, penteados, uma grossa veste de pano, e melhor que tudo isso, extirpei de meu coração os desejos e as cobiças que dão valor a tudo o que eu abandonava." [p. 31]


O tom que sustenta Os devaneios de um caminhante solitário é, de certa forma, bastante amargo, como se Rousseau estivesse profundamente decepcionado com a rejeição de sua pessoa pela sociedade em que vivia. De fato, esse sentimento fica claro em diversas partes do texto (na verdade, durante o livro inteiro), em que ele afirma se manter forçadamente afastado dos demais homens. Isolado em sua solidão contemplativa, Rousseau assume o papel de um telespectador rejeitado pela platéia da qual faz parte. A propósito, a frase que abre o livro é esta: "Eis-me, portanto, sozinho sobre a terra, sem outro irmão, próximo, amigo ou companhia que a mim mesmo."

Como conseqüência disso, dentre outras coisas, ele começa a apontar no seu texto aquilo que o diferencia dos outros indivíduos: qualidades e defeitos que ele sentia perceber apenas nele, e que infelizmente não via em outra pessoa com a qual pudesse compartilhá-los. Convencido de que não estava inserido na sociedade parisiense do século 18, Rousseau se recolhe e se defende das críticas que costumava receber pelas suas teorias filosóficas e políticas.

Para entender melhor isso, é necessário ter conhecimento de um fato curioso que marcou o final da vida deste grande filósofo. Nos seus quatro últimos anos, Rousseau acreditava existir uma espécie de complô contra sua pessoa, um complô invisível que o criticava e tirava de suas mãos os prazeres mais simples da vida, além de afastá-lo do convívio humano. Intuição delirante, sem dúvida, que compõe o estofo dos Devaneios. É sempre se referindo a esse complô onipresente (e culpando-o) que Rousseau se diz traído, abatido e isolado da sociedade.


The-Waterfall,-Rousseau,-1910

"(...) sejamos sempre verdadeiros, mesmo com todos os riscos. A justiça está na verdade das coisas; a mentira é sempre iniqüidade, e o erro é sempre impostura quando provocamos algo que não segue a regra do que devemos fazer ou crer: e seja qual for o efeito resultante da verdade, sempre somos inocentes quando a dissemos, pois nada lhe acrescentamos de puramente nosso." [p. 48]


Os devaneios do caminhante solitário possui uma qualidade literária indiscutível. A obra (que é pequena, mal chegando às 150 páginas) pode ser lida como uma espécie de relato intimista, ou algo do gênero. A idéia do complô inimigo que Rousseau cultivava dá a seu texto um lirismo qualquer, um toque poético quase ficcional (muito embora essa sensação fosse verídica). Contribuem para esse lirismo a visão humanista e a serenidade característica do autor – que nos fornece, especialmente neste livro em questão, um panorama especial do que um homem que se sente rejeitado pela sociedade pode apresentar.

Recomendadíssimo para quem quer uma dose pequena e rápida de boa literatura e de boas reflexões sobre a vida e os homens.

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Para ilustrar esta postagem, colei ao longo do texto alguns quadros do pintor francês Henri Rousseau [1844-1910], cuja temática, a vida natural, muito coincide com as ideologias de Jean-Jacques Rousseau.


Os devaneios de um caminhante solitário (1782)

Jean-Jacques Rousseau

Editora L&PM

Nota: 10/10

03 outubro 2011

Eu sou a Lenda, de Richard Matheson

"Do lado de fora, os vampiros esperavam." (p. 110)

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Anda acontecendo muita coisa na minha vida, tenho de admitir. Provas e trabalhos pesados na universidade, amigos de visita aqui em casa, aniversários para comparecer (dentre eles, o meu), estágios, saídas noturnas e muitas outras atividades andam tomando o meu tempo. Como conseqüência infeliz disso, o Blog ficou estagnado por duas semanas – o máximo de tempo permitido pela minha consciência.

Agora, a fim de atualizá-lo, escolhi a esmo um livro da minha estante para o qual pudesse escrever uma resenha. Então meus olhos caíram por acaso no romance Eu sou a Lenda (I am Legend, 1954), escrito pelo prolífico norte-americano Richard Matheson, conhecido autor do gênero terror e ficção científica fantasiosa.

A primeira vez que entrei em contato com essa história foi a alguns anos atrás, quando assisti com um amigo o filme homônimo estrelado por Will Smith e pela nossa adorável Alice Braga. Além de mim, muitas outras pessoas também passaram a conhecer Eu sou a Lenda assim. Aproveitando a viagem do bonde, a editora Novo Século lançou o romance de Matheson, que eu não tardei em comprar, já que havia adorado o que tinha visto no cinema.

O livro é excelente, sem dúvida.


Sinopse: Robert Neville é o último homem vivo sobre a Terra... mas ele não está sozinho. Cada outro homem, mulher e criança no planeta se tornou um vampiro, e todos estão famintos pelo sangue de Neville. De dia, ele é o caçador, caçando os não mortos adormecidos através das ruínas abandonadas da civilização. À noite, se entrincheira em sua casa e reza pela madrugada. Quanto tempo pode um homem sobreviver num mundo de assombração como esse?


Eu sou a Lenda foi o terceiro romance escrito por Richard Matheson, que, até o momento, já produziu quase trinta títulos. Neste livro, é possível identificar com facilidade os principais traços que o caracterizaram em sua carreira de romancista e contista: tendência ao suspense, ao terror, ao fantasioso e ao surpreendente. Ingredientes esses que são destilados em uma linguagem ágil, objetiva e ao mesmo tempo cheia de metáforas, seca, que se desdobra em frases às vezes longas mas incrivelmente categóricas.

O romance se divide em vinte e um capítulos de tamanho médio, que contam uma história bem diferente daquela vista no filme de Smith. Se o cinema adaptou a obra de modo que ela ficasse mais voltada para a ação, o livro em si é muito mais voltado para o intimismo, para a subjetividade de Robert Neville (o protagonista) e para o mistério que o ronda. Ao ler a história, vale perceber que Matheson constrói uma trama muito inteligente baseada nos mitos dos vampiros, sem se deixar levar por fantasias próprias que alterem essa mitologia já tão arraigada em nosso imaginário popular.

Li Eu sou a Lenda há muito tempo, mas lembro que um dos motivos que me levaram a gostar da história foi o de ela ser extremamente original. Eu ainda não tinha visto em outro lugar o fato de um personagem permanecer isolado das demais pessoas por quase metade da obra – e quando ele entra em contato com elas, nada promissor parece provável. Foi a primeira vez que me ocorreu a idéia de imaginar alguém sozinho e solitário em uma cidade destruída e abandonada, e essa idéia até hoje mexe com a minha imaginação.


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Cena do filme homônimo estrelado por Will Smith


De um modo geral, lembro de ter adorado a leitura desse livro. Serviu como uma espécie de oásis em meio aos árduos estudos do 3º ano do Ensino Médio, época em que o li. Fiquei com uma impressão muito agradável dele: é um romance interessantíssimo, que vale a pena ser lido por qualquer amante de histórias de vampiros. Na verdade, vale a pena ser lido por qualquer amante de boas histórias. Acredito que o valor literário de Eu sou a Lenda seja constatado assim que começamos a ler o livro.

A edição que comprei vem com uma coleção de contos de Richard Matheson, que podem ser lidos após a leitura do romance em si. Até hoje, acho engraçado o fato de eu ter caído numa espécie de pegadinha por causa disso. A editora não menciona essa coleção de contos em nenhum espaço da capa ou da contracapa, de modo que nem me passava pela cabeça que aquele volume que eu tinha nas mãos trazia uma série de contos do autor. Na capa há apenas "Eu sou a Lenda" como título, e nada parecido com "e outras histórias", de modo que o leitor é levado a crer que aquelas 300 páginas são todas da história principal.

Por fim, fica a dica para você que anda procurando um bom livro para ler: "Eu sou a Lenda", de Richard Matheson. Entretenimento garantido, sem dúvida. Matheson é um mestre em suspense, mistério e tensão. Não espere nada parecido com os filmes que foram feitos inspirados na história; três, ao total, se não me engano. Leia o livro como algo independente e conheça a história original que deu origem a eles.


Eu sou a Lenda (1954)

Richard Matheson

Editora Novo Século

Nota: 10/10

19 setembro 2011

O Senhor das Moscas, de William Golding

"A verdade é que o medo não pode machucar vocês mais do que um sonho." (p. 92)
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Durante a madrugada deste dia, finalizei a leitura do livro O Senhor das Moscas (The Lord of the Flies, 1953), escrito pelo britânico William Golding, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1983, dado pelo conjunto de sua obra. Numa incrível coincidência, acabo de descobrir que Golding completaria 100 anos de idade hoje, caso não tivesse morrido de insuficiência cardíaca há quase duas décadas.

Ele deixou para trás uma obra famosíssima: O Senhor das Moscas. Às vezes, o glamour de um clássico se dá mais pelo mito que se criou em volta dele do que pela qualidade da obra em si. É o que eu percebo em alguns livros que são tidos como "imortais" e "um dos melhores de todos os tempos": pouca qualidade artística e muito confete jogado em cima deles, tanto pela crítica quanto pelo público.

O Senhor das Moscas se situa numa espécie de meio-termo entre os clássicos que são bons pela qualidade que possuem e os clássicos que são lembrados apenas por sua excentricidade. No balanço geral, entretanto, considero a obra-prima de Golding de fato um ótimo romance, que deve ser lido por todos aqueles que se interessam por análises sociais fornecidas pela literatura.


Sinopse: Um avião lotado de crianças e adolescentes cai numa ilha deserta. Os jovens sobrevivem e, aos poucos, vão se reunindo num grande grupo. Em assembléia, os meninos designam um líder. Longe dos códigos que regulam a sociedade dos adultos, esses jovens terão de inventar uma nova civilização, alicerçada exclusivamente nos recursos naturais da ilha e em suas próprias fantasias.

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Edição de 1983 da Nova Fronteira e edição no original inglês


Quando o livro foi lançado pela primeira vez, na metade do século passado, não tardou muito para que a crítica o rotulasse como uma parábola moderna sobre as relações primitivas entre seres humanos, ou como uma fábula política que retratava as várias facetas (ou máscaras) que o Homem pode assumir quando em contato com seus semelhantes.

De fato, vários elementos da história fazem referência a elementos da nossa sociedade: é o caso da fogueira dos meninos, que simboliza a civilização e o bom-senso; da concha, que faz referência à ordem e à democracia; do Bicho, que, nos dias atuais, bem que poderia ser relacionado ao medo que as pessoas têm do terrorismo invisível que está em todas as partes. Diversos detalhes que Golding pôs em sua trama seguem o exemplo de leis específicas que regem o comportamento humano em grupo, e, nesse caso, O Senhor das Moscas é um estudo perfeito para os interessados no tema.

É interessante acompanhar os personagens com cuidado, já que todos eles têm uma personalidade bem própria de cada um, e essa personalidade varia de acordo com os contatos que são feitos entre os garotos. O líder Ralph, por exemplo, vai amadurecendo ao longo dos capítulos, e sua postura é alterada dependendo do grupo ao qual ele se dirige – se se dirige aos "pequenos", Ralph fala tal qual um político querido ao seu povo; se está com Jack, suas palavras tornam-se mais cautelosas e breves.


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Cena da primeira adaptação cinematográfica do livro (1963)

Os diálogos entre os personagens são pra lá de excelentes, responsáveis pela maior parte da qualidade do livro. Eu sempre achava interessantíssimo quando Ralph convocava uma reunião de emergência entre os meninos, adotando uma postura séria e às vezes demagoga que pode ser percebida hoje em dia em muitos líderes de Estado. Nessas horas, Porquinho (personagem mais notável do livro) servia como uma espécie de conselheiro e braço direito de Ralph. Não dá para deixar de fazer um paralelo com o nosso distorcido sistema democrático.

Por mais que o leitor não simpatize com nenhum personagem logo no início do livro, uma hora ou outra ele vai tomar o partido de alguém. É extremamente difícil ficar neutro durante os debates entre os garotos; sempre aparece aquele do qual você discorda e com o qual você concorda. A frase que abre esta resenha, de longe a melhor frase do romance, foi tirada do diálogo de um desses debates entre os personagens.

A parte mais interessante da história acontece quando o grupo de selvagens é criado, em resposta ao grupo civilizado e organizado. Não vou falar muito sobre isso para não estragar a surpresa de quem vai ler o livro. Mas, sem dúvida, posso garantir que é a parte que ilumina a obra e, de quebra, cria toda a ação dos três últimos capítulos.

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Cena do remake do primeiro filme baseado no livro (1990)

O único fato relativamente negativo de O Senhor das Moscas é que ele é um romance descritivo demais. Várias páginas no decorrer do livro procuram pintar um quadro exato da natureza claustrofóbica da ilha, e isso toma o lugar das descrições psicológicas dos personagens, muitas vezes. Não que seja algo totalmente ruim; definir o cenário da trama é, aliás, imprescindível. Mas fiquei com a sensação de que ele poderia ter feito a mesma coisa com os personagens. Não raro eu sentia falta de um aprofundamento psicológico, de um parágrafo intimista, de um diálogo mais extenso.

E é aí que entra a minha colocação de que o livro é, em parte, dotado de uma certa aura mística que ajuda a consumar sua fama. Há uma espécie de lacuna na obra que é preenchida pela boa vontade e entusiasmo antecipado do leitor, sem dúvida. Não quero, com isso, dizer que o romance é ruim. Não mesmo! Adorei tê-lo lido. Apenas prefiro classificá-lo como uma aventura dotada de muitos elementos sociológicos, e não como um estudo social digno de figurar nos compêndios do tema.

Mesmo assim, a qualidade literária da obra não é prejudicada nem um pouco. O romance continua sendo uma referência no campo ficcional dos livros de naufrágios, com mérito. De acordo com o prefaciador Santiago Nazarian, quando William Golding escreveu O Senhor das Moscas, livros que retratavam pessoas perdidas em ilhas não eram nenhuma novidade. No entanto, o que fez com que a obra do inglês se destacasse das demais foi a maneira com que ele abordou o tema – até então, inédita – na qual podemos vislumbrar um estudo tímido sobre a invenção da selvageria.


O Senhor das Moscas (1953)

William Golding

220 páginas

Editora Nova Fronteira

Nota: 8,5 / 10

11 setembro 2011

11 de Setembro de 2001, 8:46 a.m.

Quem viu ao vivo, não esquece. O World Trade Center é a veia aberta dos Estados Unidos.

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Ontem, no dia 10 de setembro, meu irmão completou 29 anos de idade. Há dez anos, portanto, acontecia exatamente a mesma coisa: minha pequena família comemorava o aniversário dele. Era 10 de setembro de 2001, estávamos em uma segunda-feira agitada, alguns tios vinham nos visitar de hora em hora, e lembro que ganhei o direito de não ir para o colégio nesse dia.

No fundo, era um 10 de setembro como qualquer outro que havia existido até então. Como criança, eu gostava dessa data porque era o dia em que, por hábito, mamãe fazia bolo de chocolate e deixava eu comer quantos brigadeiros quisesse. O meu vizinho (criança, como eu) passava lá em casa também, e geralmente ficávamos eu, ele e meu irmão jogando Ludo ou baralho. 10 de setembro era, no frigir dos ovos, um dia que trazia uma animação à qual eu estava habituado. Um dia comum, em vários os aspectos, tirando o fato de que meu irmão sempre ficava mais velho e eu tinha carta branca para comer doces e faltar aula.

O aniversário do meu irmão naquele ano seguiu, portanto, sua rotina de praxe. Mas do dia seguinte eu nunca irei esquecer, naturalmente, assim como bilhões de outras pessoas ao redor do mundo também não. Afinal, ninguém tinha idéia do que aconteceria na terça-feira daquela semana.



Lembro que eu me levantei da cama de manhã cedo, tomei um café com pão e fui ligar a TV do meu quarto para jogar video-game. Como eu estudava no colégio à tarde, tinha a manhã toda para me divertir, e jogar video-game era uma das prioridades na minha lista de coisas a fazer. Assim, fui a primeira pessoa em casa a entrar em contato com a notícia. Mas que criança de 9 anos entenderia a dimensão daquela catástrofe?

Quando a imagem da televisão se materializou por completo na minha frente, vi um prédio alto pegando fogo. Uma fumaça negra e densa subia violentamente para o céu e se espalhava sobre a cidade de Nova York. No canto inferior direito da tela, estava escrita a clássica expressão ao vivo. De início, não dava para saber com precisão do que se tratava: era um prédio pegando fogo no centro comercial de Nova York e, não sei por quê, esse fato pareceu banal para mim.

Mudei de canal e liguei meu Super Nintendo. Cinco minutos depois, minha mãe me chamava da sala, com uma urgência estranha e assustada na voz. "Olha", ela me disse, apontando para a televisão, enquanto eu ia esbugalhando os olhos e assistia à notícia que havia deixado passar há pouquíssimo tempo.


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Então meu pai e meu irmão se aproximaram também. Ficamos os quatro assistindo bestificados àquilo tudo, àquela tragédia bizarra que era assustadora nos menores detalhes: desde as sirenes de ambulância soando nas ruas de Manhattan até as pessoas caindo do World Trade Center, deliberadamente. Lembro que a cidade de Belém estava toda silenciosa naquela manhã, uma coisa que não era muito comum em um dia da semana; acho que estavam todos vendo televisão no mesmo momento e ninguém falava absolutamente nada.

Quando o segundo avião se chocou contra a Torre Sul, todas as pessoas tiveram a súbita certeza de que se tratava de um ataque terrorista. O engraçado é que, a meu modo, eu já tinha essa certeza antes mesmo disso acontecer. Na minha singela opinião de criança, um avião não poderia colidir por acidente com um prédio daquele tamanho; de propósito, alguém tinha direcionado ele para lá. Então, quando o segundo avião veio, só pude pensar: Eles querem destruir a outra torre também, é isso.


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11 de setembro de 2001 entrou para o conjunto de datas de que as pessoas nunca se esquecerão, principalmente aquelas que viveram o episódio e têm uma lembrança nítida dele, como eu. Faz parte do grupo de datas que você carrega durante toda sua vida na cabeça, como uma lembrança, geralmente acompanhada da frase "Quando aconteceu, eu estava fazendo tal coisa". Foi assim com a morte de Ayrton Senna, por exemplo. Foi assim com a morte da princesa Diana e do presidente Getúlio Vargas.

Depois dos atentados terroristas em Nova York eu percebi, com uma clareza maior que antes, o quanto o mundo é um lugar difícil para viver – o quanto ele pode ser perigoso e cruel, uma vez que nem todas as pessoas concordam umas com as outras. Seqüestrar vários aviões cheios de gente e lançá-los contra alvos em terra é uma ação que eu demorei muitos e muitos anos para entender e digerir – se é que de fato eu a digeri por completo. Ler sobre o Holocausto nos livros de História é uma coisa diferente de ver ao vivo várias pessoas se atirando de prédios em chamas, a centenas de metros do chão. Quando se vive o episódio, quando o vemos "com os próprios olhos", a coisa é diferente: marca uma informação na nossa consciência como que a ferro em brasa.


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A homenagem habitual feita às torres ao longo da década


Hoje o mundo inteiro está lembrando os acontecimentos do dia 11 de setembro de 2001. Uma década se passou desde então: uma década de guerra, sofrimento, medo e crueldade. Não é a melhor maneira de começar um século, sem dúvida. Se os dez primeiros anos do século 21 foram vividos dessa maneira, o que esperar dos próximos tempos? Depois de um período de guerras, sobrevém a paz? O que esperar? Mais guerras, mais desavenças? Até quando?

Escrevi esta crônica como uma espécie de referência a esse episódio que marcou tanto a vida de milhões de pessoas. Sempre me abalei com o 11 de Setembro. Até hoje, paro o que estiver fazendo para assistir a um vídeo sobre os atentados, ou ler uma notícia, ou o que quer que seja. Aliás, há algum tempo li um livro intitulado 102 minutos, escrito por Jim Dwyer e Kevin Flynn, que discorre sobre a luta pela sobrevivência dentro das torres do World Trade Center, no momento dos ataques. A resenha sobre o livro feita no blog pode ser acessada por aqui.


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O "Marco Zero" reconstruído: nova definição do panorama da cidade


Logo após os atentados terroristas, eu, na minha ingênua compreensão do mundo, num lampejo de certeza, percebi que aquele assunto não se esgotaria naquele dia. Nem mesmo naquela semana. Só não podia prever que duraria tanto tempo, a ponto de eu escrever, dez anos depois, um texto sobre o acontecimento no meu blog. Naquela época ninguém sabia sequer o que era um blog.

Ontem, através de alguns vídeos veiculados pela agência de notícias Reuters, fiquei sabendo que o prédio que substituirá as Torres Gêmeas já está perto de ser finalizado. A praça arborizada aos seus pés, que servirá de memorial para as vítimas, deve ser inaugurada no dia 12 deste mês. Pelas fotos que tive a oportunidade de ver, é um lugar bonito e triste ao mesmo tempo. Paira no ar uma mistura confusa de lamento, dor, saudade e patriotismo. De qualquer modo, como eu disse, é um lugar bonito, e é um local que não poderia deixar de existir. Aquela praça deixa clara, sobretudo, a idéia de que as pessoas de hoje pretendem transmitir o peso dessa tragédia às gerações futuras – com a esperança de que coisas semelhantes não se repitam, na melhor das hipóteses.