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11 setembro 2011

11 de Setembro de 2001, 8:46 a.m.

Quem viu ao vivo, não esquece. O World Trade Center é a veia aberta dos Estados Unidos.

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Ontem, no dia 10 de setembro, meu irmão completou 29 anos de idade. Há dez anos, portanto, acontecia exatamente a mesma coisa: minha pequena família comemorava o aniversário dele. Era 10 de setembro de 2001, estávamos em uma segunda-feira agitada, alguns tios vinham nos visitar de hora em hora, e lembro que ganhei o direito de não ir para o colégio nesse dia.

No fundo, era um 10 de setembro como qualquer outro que havia existido até então. Como criança, eu gostava dessa data porque era o dia em que, por hábito, mamãe fazia bolo de chocolate e deixava eu comer quantos brigadeiros quisesse. O meu vizinho (criança, como eu) passava lá em casa também, e geralmente ficávamos eu, ele e meu irmão jogando Ludo ou baralho. 10 de setembro era, no frigir dos ovos, um dia que trazia uma animação à qual eu estava habituado. Um dia comum, em vários os aspectos, tirando o fato de que meu irmão sempre ficava mais velho e eu tinha carta branca para comer doces e faltar aula.

O aniversário do meu irmão naquele ano seguiu, portanto, sua rotina de praxe. Mas do dia seguinte eu nunca irei esquecer, naturalmente, assim como bilhões de outras pessoas ao redor do mundo também não. Afinal, ninguém tinha idéia do que aconteceria na terça-feira daquela semana.



Lembro que eu me levantei da cama de manhã cedo, tomei um café com pão e fui ligar a TV do meu quarto para jogar video-game. Como eu estudava no colégio à tarde, tinha a manhã toda para me divertir, e jogar video-game era uma das prioridades na minha lista de coisas a fazer. Assim, fui a primeira pessoa em casa a entrar em contato com a notícia. Mas que criança de 9 anos entenderia a dimensão daquela catástrofe?

Quando a imagem da televisão se materializou por completo na minha frente, vi um prédio alto pegando fogo. Uma fumaça negra e densa subia violentamente para o céu e se espalhava sobre a cidade de Nova York. No canto inferior direito da tela, estava escrita a clássica expressão ao vivo. De início, não dava para saber com precisão do que se tratava: era um prédio pegando fogo no centro comercial de Nova York e, não sei por quê, esse fato pareceu banal para mim.

Mudei de canal e liguei meu Super Nintendo. Cinco minutos depois, minha mãe me chamava da sala, com uma urgência estranha e assustada na voz. "Olha", ela me disse, apontando para a televisão, enquanto eu ia esbugalhando os olhos e assistia à notícia que havia deixado passar há pouquíssimo tempo.


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Então meu pai e meu irmão se aproximaram também. Ficamos os quatro assistindo bestificados àquilo tudo, àquela tragédia bizarra que era assustadora nos menores detalhes: desde as sirenes de ambulância soando nas ruas de Manhattan até as pessoas caindo do World Trade Center, deliberadamente. Lembro que a cidade de Belém estava toda silenciosa naquela manhã, uma coisa que não era muito comum em um dia da semana; acho que estavam todos vendo televisão no mesmo momento e ninguém falava absolutamente nada.

Quando o segundo avião se chocou contra a Torre Sul, todas as pessoas tiveram a súbita certeza de que se tratava de um ataque terrorista. O engraçado é que, a meu modo, eu já tinha essa certeza antes mesmo disso acontecer. Na minha singela opinião de criança, um avião não poderia colidir por acidente com um prédio daquele tamanho; de propósito, alguém tinha direcionado ele para lá. Então, quando o segundo avião veio, só pude pensar: Eles querem destruir a outra torre também, é isso.


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11 de setembro de 2001 entrou para o conjunto de datas de que as pessoas nunca se esquecerão, principalmente aquelas que viveram o episódio e têm uma lembrança nítida dele, como eu. Faz parte do grupo de datas que você carrega durante toda sua vida na cabeça, como uma lembrança, geralmente acompanhada da frase "Quando aconteceu, eu estava fazendo tal coisa". Foi assim com a morte de Ayrton Senna, por exemplo. Foi assim com a morte da princesa Diana e do presidente Getúlio Vargas.

Depois dos atentados terroristas em Nova York eu percebi, com uma clareza maior que antes, o quanto o mundo é um lugar difícil para viver – o quanto ele pode ser perigoso e cruel, uma vez que nem todas as pessoas concordam umas com as outras. Seqüestrar vários aviões cheios de gente e lançá-los contra alvos em terra é uma ação que eu demorei muitos e muitos anos para entender e digerir – se é que de fato eu a digeri por completo. Ler sobre o Holocausto nos livros de História é uma coisa diferente de ver ao vivo várias pessoas se atirando de prédios em chamas, a centenas de metros do chão. Quando se vive o episódio, quando o vemos "com os próprios olhos", a coisa é diferente: marca uma informação na nossa consciência como que a ferro em brasa.


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A homenagem habitual feita às torres ao longo da década


Hoje o mundo inteiro está lembrando os acontecimentos do dia 11 de setembro de 2001. Uma década se passou desde então: uma década de guerra, sofrimento, medo e crueldade. Não é a melhor maneira de começar um século, sem dúvida. Se os dez primeiros anos do século 21 foram vividos dessa maneira, o que esperar dos próximos tempos? Depois de um período de guerras, sobrevém a paz? O que esperar? Mais guerras, mais desavenças? Até quando?

Escrevi esta crônica como uma espécie de referência a esse episódio que marcou tanto a vida de milhões de pessoas. Sempre me abalei com o 11 de Setembro. Até hoje, paro o que estiver fazendo para assistir a um vídeo sobre os atentados, ou ler uma notícia, ou o que quer que seja. Aliás, há algum tempo li um livro intitulado 102 minutos, escrito por Jim Dwyer e Kevin Flynn, que discorre sobre a luta pela sobrevivência dentro das torres do World Trade Center, no momento dos ataques. A resenha sobre o livro feita no blog pode ser acessada por aqui.


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O "Marco Zero" reconstruído: nova definição do panorama da cidade


Logo após os atentados terroristas, eu, na minha ingênua compreensão do mundo, num lampejo de certeza, percebi que aquele assunto não se esgotaria naquele dia. Nem mesmo naquela semana. Só não podia prever que duraria tanto tempo, a ponto de eu escrever, dez anos depois, um texto sobre o acontecimento no meu blog. Naquela época ninguém sabia sequer o que era um blog.

Ontem, através de alguns vídeos veiculados pela agência de notícias Reuters, fiquei sabendo que o prédio que substituirá as Torres Gêmeas já está perto de ser finalizado. A praça arborizada aos seus pés, que servirá de memorial para as vítimas, deve ser inaugurada no dia 12 deste mês. Pelas fotos que tive a oportunidade de ver, é um lugar bonito e triste ao mesmo tempo. Paira no ar uma mistura confusa de lamento, dor, saudade e patriotismo. De qualquer modo, como eu disse, é um lugar bonito, e é um local que não poderia deixar de existir. Aquela praça deixa clara, sobretudo, a idéia de que as pessoas de hoje pretendem transmitir o peso dessa tragédia às gerações futuras – com a esperança de que coisas semelhantes não se repitam, na melhor das hipóteses.

03 setembro 2011

A questão da tecnologia nas escolas

Tablets devem substituir livros? Será essa, de fato, a pergunta central?

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De uns tempos para cá – mais especificamente, desde que surgiram os e-books e os e-readers –, muitas pessoas passaram a discutir o futuro dos livros físicos. Há quem defenda a idéia de que brochuras impressas são coisa do passado e serão facilmente substituídas por arquivos eletrônicos, assim como há, também, quem pense que as mídias digitais jamais terão o poder de acabar com os livros palpáveis. É uma discussão longa e acalorada, na qual estão incluídos muitos especialistas e muitos "leigos" que gostam de dar um palpite de plantão (eu, por exemplo).

Como grande apreciador da literatura e de tudo o que faz referência a ela, eu acredito que a tela dura de um e-reader não substitui uma folha de papel maleável e bem impressa. Com as mãos em um objeto dessa natureza tecnológica, nunca vou conseguir me concentrar direito em um livro de Tolstói ou Henry David Thoreau, por exemplo. Essa rejeição pode ser explicada em termos de romantismo da minha parte, mas a literatura é feita exatamente deste estofo: romantismo. É uma questão de conforto de espírito. No meu caso, ler um livro em um e-reader é uma experiência muito inferior a ler um livro em uma edição impressa e bem feita, por vários motivos pessoais.

De qualquer modo, a idéia deste post não é discutir o futuro dos livros impressos de literatura. Quando eu estava indo para a universidade, um dia desses, me deparei com o seguinte outdoor promovido por uma escola particular de Fortaleza:


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A polêmica gerada a partir daí alcançou grandes proporções. Dizer que dentro de uma escola os alunos não utilizarão mais livros, e sim tablets, deixou muitas pessoas com a pulga atrás da orelha. Alguns responsáveis pela diretoria do Ari de Sá foram chamados para conceder entrevistas e esclarecer o que quiseram afirmar com a frase contida nesse outdoor, que, para mim, mais parece uma provocação do que uma tentativa de comunicar uma novidade.

Na verdade, existe uma certa corrida tecnológica entre os colégios particulares de Fortaleza – e acredito que em outras cidades do Brasil, também. A primeira a alardear a idéia dos tablets, aqui, foi a escola 7 de Setembro, mas ela restringiu seu uso apenas em laboratórios paradidáticos. Pouco tempo depois, o outdoor acima, da escola concorrente, foi lançado, ampliando a utilização dos tablets para a sala de aula. E agora uma terceira concorrente, a Christus, afirmou que suas lousas serão digitais e em 3D.

Na esteira dessa corrida, o público alavancou debates sobre a questão dos livros físicos e das mídias digitais. Ao lado da tentativa de parecer mais tecnológico que o concorrente, cada colégio apóia a idéia de que, se o avanço científico está aí, vamos utilizá-lo nas escolas também – vamos incorporar tablets e outros aparatos modernos nas salas de aula. É um pensamento aplicado e sistemático que não deve ser criticado, na minha opinião; do contrário, nossas escolas seriam antros conservadores atrasados e obsoletos.


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Existe toda uma questão de logística por trás dessa prática de incorporar tablets nas escolas. Todos nós sabemos que o peso da mochila de uma criança da sétima série (oitavo ano) é grande e muito prejudicial à sua saúde, dada a quantidade enorme de livros que ela tem que carregar todos os dias. Com um único objeto ali dentro, esse peso sem dúvida seria reduzido a mais da metade, se é que existiria. Por outro lado, as crianças passariam a ser um dos alvos mais procurados por assaltantes – mais do que já são, aliás. Uma série de fatores estão implicados nessa aventura de pôr os tablets nas costas dos alunos, e todos eles devem ser pensados com muita consideração.

De minha parte, penso no que eles podem ajudar – ou atrapalhar – no estudo dos alunos. Às vezes acho que o tablet é uma engenhoca tão curiosa e sedutora que poderia mesmo desviar com uma facilidade muito grande a atenção das crianças na hora das explicações. De outra maneira, a presença dos tablets poderia tornar mais atraente e acessível o conhecimento que antes era tão enfadonho nos livros.


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As pessoas ligadas de alguma maneira à área da educação estão discutindo todos esses detalhes, sem dúvida. Pelo menos é isso o que eu espero. Seria de uma inconseqüência muito grande projetar a implantação de tablets nas escolas sem antes analisar o impacto deles nesse campo. É uma idéia inovadora? Com certeza. E promissora, também. Mas, como quase tudo no mundo, é uma idéia que tem seus reveses. E os prós e os contras devem ser colocados todos numa balança, para que uma decisão arbitrária não prejudique o nosso sistema educacional – que, convenhamos, já tem seus problemas e não precisa de mais nenhum.

No fundo, não importa se os alunos estão estudando com tablets, livros ou papiros. O que importa é que eles estejam estudando de forma satisfatória e também o que está sendo ensinado a eles. Um plano de educação totalmente equivocado pode ser feito utilizando-se tablets ou computadores, enquanto um ensinamento consistente e construtivo pode ser repassado com a ajuda de livros físicos. Tablets e livros são apenas instrumentos, que podem ser utilizados de maneira correta ou incorreta, de acordo com a política dos colégios. É nessa política que nós, cidadãos, devemos estar de olho, e não na simples questão da implantação dos tablets.


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Além do mais, como pude conferir em outra discussão na internet, vale refletir sobre o que os colégios estão vendendo atualmente. Educação ou simples tecnologia? Não consigo dissociar essa corrida tecnológica entre os colégios de Fortaleza da frase que existe por trás: "Venha para o nosso colégio, possuímos mais tecnologia que o concorrente". No fundo, os projetos de ensino são os mesmos, que preparam o aluno não para a vida, mas para o vestibular – e, se possível, para o 1º lugar no ENEM. A educação anda perdendo espaço para a competição nos dias de hoje.

Por último, devo dizer que os livros físicos não devem ser mostrados como inferiores a qualquer tipo de aparelho moderno que seja. Essa é uma tendência que me preocupa quando vejo as propagandas de tablets nas escolas, principalmente no outdoor que coloquei lá em cima. O livro físico é uma ferramenta magnífica que tem inúmeras vantagens sobre os tablets, assim como os tablets têm certas vantagens sobre os livros. São ferramentas separadas; você pode optar pelos tablets, mas isso não significa que eles substituam os livros. Convém ter isso sempre em mente.

22 agosto 2011

Ônibus 174

Quando aconteceu, eu tinha apenas oito anos de idade. Naquela época, não me ligava em mais nada no mundo que não fosse meu video-game, minha bola de futebol (com a qual eu brincava com meus amigos de infância do condomínio), minha bicicleta e o filé na chapa que minha mãe fazia nas noites de sábado.

Na infância, o mundo das minhas prioridades era restrito. Nunca fui de ligar a TV para ver o que estava passando nos noticiários ou em qualquer outro tipo de programa que fosse. Mesmo hoje, não lembro de ninguém lá em casa comentando sobre o fato no dia em que ocorreu. Minha memória sempre foi péssima. Ou talvez meus pais e meu irmão não tivessem comentado nada mesmo de propósito, para não me deixar impressionado.

A verdade é que fui tomar conhecimento desse episódio apenas no ano passado ou retrasado, quando um professor da universidade comentou sobre ele para os alunos de Psicologia Social. Aliás, antes disso, se não me engano, um amigo meu já me falara sobre o famoso documentário dirigido por José Padilha (cujo título dá nome a esta postagem), produzido em meados de 2002. De uma maneira ou de outra, fiquei sabendo da história há pouco tempo.


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Documentário dirigido por José Padilha. Recomendado.


No Rio de Janeiro, no dia 12 de junho de 2000, por volta das duas e meia da tarde, o ônibus da linha 174 (Central-Gávea) parou para que um homem de 21 anos subisse. Estavam nas redondezas do bairro do Jardim Botânico, seu nome era Sandro do Nascimento e ele estava armado com um revólver.

Contam as crônicas que o rapaz não deu início ao seqüestro assim que subiu no ônibus. Ao que parece, a escolha do transporte foi totalmente aleatória, uma vez que o crime não era premeditado e deu-se por impulso. Segundo o que dizem as testemunhas, um dos passageiros do ônibus o viu com o revólver preso na cintura do calção, desceu na parada mais próxima e alertou um carro da polícia que estava passando pelo bairro. 

A viatura não hesitou em interditar a passagem do ônibus. Os policiais saíram do veículo e fizeram uma série de gestos para o motorista e os passageiros, o que provocou uma confusão generalizada. Começou aí. Sandro do Nascimento sacou o revólver enquanto as pessoas que podiam fugir saltavam pelas janelas e pela porta traseira. Depois de alguns segundos de gritaria e desespero coletivo, sobraram dentro dez indivíduos, fora o assaltante. Várias delas foram libertadas de imediato ou poucos momentos mais tarde, sendo que os reféns mais conhecidos desse trágico episódio são os que ficaram até o final do seqüestro: um grupo de 4 jovens mulheres.


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Mensagem escrita no vidro do ônibus, a mando do seqüestrador.


Não é a idéia central da postagem descrever detalhe por detalhe tudo o que aconteceu dentro do ônibus seqüestrado – até porque essa é uma tarefa bem difícil, já que não dá para ter uma noção nítida das coisas que aconteceram lá dentro, e que foram muitas, uma vez que o episódio durou mais de quatro horas. Dá para esboçar o básico: Sandro andando de um lado para o outro do ônibus, segurando a arma apontada para a cabeça de uma das quatro jovens (todas tiveram essa infeliz oportunidade), os policiais do lado de fora tentando dialogar com o criminoso, uma multidão irritada e curiosa nas proximidades, repórteres, todo mundo.

O final trágico todos conhecem: no início da noite, Geísa Gonçalves, uma das reféns, é levada para fora do ônibus, carregada pelo seqüestrador. Usando-a como escudo, Sandro se aproxima dos policiais que estão mais perto. Depois de alguns segundos de conversa, um soldado se aproxima furtivamente pelo lado do assaltante e, numa abordagem das mais desastradas do mundo, atira, acertando não o criminoso, mas a refém. Geísa tem  o queixo raspado pela bala, o que a faz cair no chão junto com o criminoso. A confusão que se seguiu é indescritível: a população, que assistia a tudo impassível, invade o cerco e tenta a todo custo pisotear Sandro, que, por sua vez, dispara três tiros nas costas de Geísa, matando-a.

Colocado da maneira que foi possível no camburão da viatura policial pelos soldados, Sandro foi morto por asfixia ali dentro. Enquanto isso, o carro da polícia seguia pelas ruas do Rio de Janeiro. E foi esse o desfecho que a população do Brasil inteiro assistiu ao vivo pela TV.


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Abordagem do policial: mal-sucedido que custou caro.


Logo após esse episódio, discussões acerca da culpa/inocência de Sandro foram levantadas no país inteiro. Pessoas diziam que ele fora absolutamente culpado por tudo o que aconteceu, enquanto outras, por sua vez, defendiam a inocência do assaltante, na medida em que viam que ele era fruto de um sistema doentio de exclusão social.

Me parece uma questão muito delicada e complexa para que eu exponha minha opinião assim, de repente. O que posso dizer é que, é verdade, Sandro foi vítima de uma sociedade que o menosprezou e lhe deu o pão amassado pelo diabo – sua mãe fora degolada à sua frente na infância, seus colegas de rua morreram na Chacina da Candelária, etc. Como diria uma das reféns em depoimento: "Isso não justifica seu ato no ônibus, mas ao menos induz". Quem é capaz de se colocar no lugar de Sandro, durante sua infância e adolescência, compreende um pouco o seu ato no ônibus como uma questão de revolta e vingança contra a sociedade que o massacrou no passado.

Por outro lado, isso não anula o fato de que Sandro teve a oportunidade de escolhas durante a sua vida. Adotado por uma mãe complacente e carente, o rapaz teve a oportunidade de ver que nem tudo estava perdido, e que um ambiente parecido com o familiar o aceitava de modo incondicional. Ele teve a opção de tirar desse ambiente acolhedor o ânimo e a força de vontade de que precisava para mudar de vida. Mesmo assim, Sandro optou pelo crime, pelo tráfico, pela delinqüência. E acabou por fazer o que fez naquele dia no Jardim Botânico, apontando um revólver para a cabeça de vários inocentes. E crime é crime, nem sempre deve ser justificado em termos de histórico de vida do criminoso.


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Todas as imagens desta postagem foram retiradas da internet.


Para finalizar (este post ficou maior do que eu esperava), vejo a questão da culpa nesse episódio inserida num contexto muito mais amplo e histórico. Sandro deve ser responsabilizado pelo que houve? Claro que sim; do contrário, estaríamos caindo em um discurso moralizante evasivo e tendencioso. Mas a culpa também deve ser do Estado, de um modo geral, que nada faz para inibir a existência de mais Sandros na nossa sociedade.

Verbas públicas destinadas à segurança e à educação são desviadas para o cofre de políticos que não precisam de dinheiro, enquanto a população sofre na pele as conseqüências desse ato mesquinho de roubo. O que deveria ser feito na tentativa de tirar todos os meninos de rua da condição em que vivem e colocá-los em escolas sérias não é feito, pelo simples fato de que a prioridade corresponde a determinados segmentos da população, principalmente os segmentos que possuem maior poder aquisitivo. Medidas paliativas, como colocar esses meninos de rua em creches promovidas por ONGs, é uma boa ação, mas – infelizmente – não resolve o problema como deveria ser resolvido. A raiz é mais funda.

O que nos resta é ter a consciência discriminativa de eleger políticos que contornem esse quadro tão negativo no nosso país. É preciso força de vontade, mais deles que nossa. Nós fazemos nossa parte, tentando encontrar quem faça a sua lá no Palácio do Planalto. É preciso evitar que pessoas como Geísa Gonçalves tenham suas vidas interrompidas – logo ela, uma promissora cidadã que, na condição de professora, apostava no futuro do Brasil.

15 agosto 2011

A volta ao mundo em 80 dias, de Júlio Verne

"A verdade é que havia muitos anos que Fíleas Fogg não saía de Londres." (p. 14)

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A maioria das pessoas ao meu redor sabe que eu não consigo ler um livro de literatura no período em que as aulas da universidade estão recomeçando. Os professores indicam muitas apostilas, livros, textos para ler, trabalhos, e aí acaba ficando difícil encontrar um tempo de sossego para se dedicar à arte das letras.

Mas sou incurável e não aprendo. Faltando dois dias para a volta às aulas, fui à livraria e voltei para casa com A volta ao mundo em 80 dias (Le tour du monde en quatre-vingt jours, 1873), do famosíssimo escritor francês Júlio Verne, clássico autor de aventuras e ficção-científica. Costumo dizer que ele foi o precursor dos romances de techno-thriller.

Na minha opinião, das obras-primas de Verne, o livro que terminei de ler ontem é o de que menos gostei. Isso não significa dizer que ele seja ruim. Apenas foi pouco desenvolvido.


Sinopse: Fíleas Fogg, um cavalheiro britânico, aposta com os colegas do seu clube que fará a volta ao mundo em apenas oitenta dias. Acompanhado do seu criado Fura-Vidas, um parisiense esperto e expedito, Fogg dá início à sua jornada. Para ganhar a aposta, teria de regressar a Londres em 21 de Dezembro de 1872, às vinte horas e quarenta e cinco minutos.

Acusado, porém, de ser um audacioso assaltante do Banco da Inglaterra, Fíleas Fogg será permanentemente perseguido pelo detetive Fix, que, todavia, parece nunca conseguir detê-lo.


Quem já leu no mínimo dois ou três livros de Júlio Verne, sabe que seus romances são verdadeiros libelos científicos, que exaltam a tecnologia e o progresso humano e mostram quão divertidas podem ser algumas incursões baseadas nos campos da ciência. Todo mundo sabe que muitas invenções modernas, como por exemplo o submarino, foram "profetizadas" pelo famoso escritor francês. Verne era um amante da ciência e da tecnologia, e isso fica claro na totalidade de seus livros.

A volta ao mundo em 80 dias, como não poderia deixar de ser, reflete esse tipo de relação entre Júlio Verne e o progresso científico. Neste livro, porém, fica muito mais clara a proposta geral do autor, pelo menos na minha opinião. Verne queria mostrar ao mundo onde a sociedade da época estava se situando no desenvolvimento do transporte inter-urbano. Para tanto, criou uma história na qual o personagem principal se disse capaz de dar a volta ao redor do planeta em apenas 80 dias – um recorde incrível na época – utilizando-se dos meios de transporte vigentes.


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Cartaz do filme produzido em 2004, com Jackie Chan


A idéia do livro é boa. Aliás, é ótima. Muito original e criativa, dá margem a um enredo inesgotável, milhares de situações e vários desfechos. Fazer com que um grupo de personagens tenha que dar a volta ao mundo – uma viagem longuíssima – em um tempo determinado é genial, porque prende a atenção do leitor e dá dinâmica à história. Ainda mais se esse grupo estiver sendo perseguido por um inspetor da polícia.

O problema é que, infelizmente, Verne explorou pouco esse material que tinha nas mãos. Ao invés de destrinchá-lo da maneira mais rica possível, incrementando a história com detalhes mais minuciosos e bem trabalhados, o autor apenas escreveu um thriller raso e despreocupado, cujo único objetivo era o divertimento puro do leitor. Foi essa a sensação que tive. Mesmo os trechos em que ele narra fatos históricos dos países visitados parecem superficiais e deslocados. Fui com muita sede ao pote, como dizem.

Achei pouco 190 páginas, dada a grandiosidade da idéia. Ficou uma sensação de correria e pressa; poucas descrições de lugares, poucas descrições de costumes, quando eu esperava um cuidado maior nesse aspecto. (Talvez tenha sido essa a intenção do autor, a rapidez, já que todos os personagens tinham pressa…)


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Mais edições do livro em português


De um jeito ou de outro, isso não foi o que mais me incomodou no livro. É aceitável o fato de que o autor tenha dado menos atenção aos países e mais aos seus personagens, porque, no final das contas, Fíleas Fogg tinha pressa em dar a volta ao mundo, pulando de transporte em transporte, e Verne quis transmitir essa sensação de correria ao texto. Pelo menos eu faço questão de enxergar as coisas assim.

O que incomoda de verdade é a falta de verossimilhança em algumas (muitas) situações envolvendo os personagens. Júlio Verne era excelente em emular invenções e aparatos científicos, mas, pelo menos nessa sua obra, ele pisou na bola em algumas passagens que envolviam assuntos mais humanos. Aouda é uma personagem que surge ao acaso, permanece na história por acaso e, por acaso, termina o livro de um determinado jeito. É uma personagem totalmente à margem, apagada, e suas ações não têm o menor nexo. Dói vê-la sendo levada de um lado para o outro, absolutamente à mercê dos protagonistas.

O próprio Fíleas Fogg tem qualquer coisa de inverossímil. Sempre inexpressivo, sempre calado, sempre matemático demais, o inglês que protagoniza o romance de Verne não parece demonstrar nada de humano, nem quando um atraso de trem põe em risco boa parte de sua fortuna e sua honra. O personagem mais convincente é sem dúvida Fura-Vidas, expressivo, emotivo… em suma, vivo.


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Rota percorrida pelos aventureiros do romance


Mesmo com esses defeitos, ainda recomendo a leitura de A volta ao mundo em 80 dias. Continuo gostando do modo como Júlio Verne conduz uma história de ação/aventura, continuo gostando da visão que ele tem do progresso da humanidade (iluminista, por que não?) e continuo gostando do final dos seus livros, geralmente pouco previsíveis.