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08 agosto 2011

Facebook e Orkut

É meio difícil você não ter pelo menos um dos dois.

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Não sei bem por que este episódio ficou gravado de forma tão nítida na minha cabeça, mas a verdade é que me lembro dele como se fosse ontem: eu tinha uns 12 ou 13 anos de idade e estava deitado na cama do meu quarto, quando meu pai chegou do trabalho com uma revista semanal conhecida e a pôs sobre a mesa do hall. Levantei e, curioso, fui lá conferir. Na capa da revista havia uma série de estrelas amarelas estilizadas, acompanhadas de uma manchete enfática: Orkut – Como entender esse fenômeno?

Enquanto eu folheava a revista, tentando entender que fenômeno de nome estranho era esse, meu pai falava algo sobre o futuro das relações sociais. Sobre como as pessoas estavam, cada dia mais, se isolando fisicamente e se aproximando virtualmente – o que, em outras palavras, atendia pelo nome de globalização no século XXI. Utilizando como exemplo o Orkut, meu pai dizia que estávamos testemunhando uma nova era, a Era da Comunicação Virtual. Hoje vejo que ele estava certo, embora nem eu, nem ele próprio, nem minha mãe (que participava da conversa nesse dia) pudéssemos ter um vislumbre do que estava ainda pela frente.

Abri minha conta no Orkut pouco tempo depois. Comecei a participar desse grande fenômeno mundial um ou dois anos após ler a matéria da revista. Fui impulsionado, como sempre, pelos meus amigos mais próximos.  Uma de minhas amigas me disse "Não acredito que você não tem Orkut" e me chamou para participar da sua rede social; ainda na época (vale ressaltar) em que as pessoas tinham que ser convidadas por outras para entrar no Orkut.


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Sendo assim, peguei o Orkut desde o início. Ele ainda era azul e cor-de-rosa, as pessoas tinham porcentagens nos quesitos sexy, inteligente e confiável, você só podia postar doze fotos no único álbum disponível, depoimentos eram coisas sérias, as pessoas tinham que abrir o perfil alheio para responder os recados, a primeira letra do nome das comunidades era formada por silhuetas de bonequinhos… etc. Peguei o Orkut desde o início, mesmo.

Como todo mundo sabe, muita coisa mudou desde então. Para melhor, naturalmente. A interface do site ficou mais enxuta, mais organizada, apenas em tons de azul. Você pode postar quantas fotos quiser e ainda marcar seus amigos nelas. Aliás, você pode esconder seu álbum, se preferir. Conforme os usuários foram ficando mais exigentes, mais atualizações foram feitas no Orkut, e assim ele conseguiu prender um grande número de pessoas, a despeito das novas e atraentes redes sociais que despontavam na Web.

O Facebook certamente é o "rival" mais conhecido do Orkut. Enquanto este último contava com a esmagadora maioria de brasileiros na rede, aquele era bastante difundido nos Estados Unidos e na Europa, e fazia um tremendo sucesso por lá. Inevitavelmente, o Facebook conquistou os brasileiros também (coisa recente) e agora o site de relacionamentos criado pelo turco Orkut Buyokkokten está testemunhando uma sutil mas notável migração de usuários para a rede de Mark Zuckerberg.

Eu tenho as duas contas. E acho isso estranho.


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De uns tempos para cá, eu criticava muito o Facebook – tenho que admitir isso. Achava que mais uma rede social era apenas mais uma rede social, que as coisas mudavam apenas de aparência e de nome, mas a essência era basicamente a mesma – mandar recados para os amigos. Não é. Facebook e Orkut são tecnicamente bem diferentes um do outro; cada um tem suas vantagens e desvantagens.

Começou do mesmo jeito: amigos meus, impressionados pelo fato de eu não possuir uma conta no Facebook, insistiram para que eu abrisse uma. Depois de algum tempo, foi isso o que fiz de fato, mas com uma idéia inicial de reserva na cabeça: "sou apenas um observador, não vou interferir ativamente no site". No segundo dia eu já estava postando dezenas de coisas, tinha um perfil muitíssimo completo, havia curtido vários comentários, ingressado em eventos e participado de grupos.

O Facebook é uma mistura equilibrada de Twitter, MSN e Orkut. Pelo menos é assim que eu encaro o site. Em suma, você posta suas coisas no seu mural para quem quiser ver (com as devidas configurações de privacidade); qualquer pessoa autorizada por você pode comentar ou curtir suas postagens; você pode iniciar uma conversa em tempo real a partir desses comentários, com vários colegas interagindo ao mesmo tempo, o que dá a sensação de conversa de roda; você pode publicar vários materiais de seu interesse para as outras pessoas verem. E assim por diante.


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O Facebook é uma boa ferramenta, sim, não só para se divertir conversando com os amigos, mas também para otimizar grupos de estudo e/ou trabalho. É uma rede social cativante, sem dúvida. Tem grande mérito.

Mas ainda vou ficar com minha lendária conta no Orkut por dois motivos: lá eu possuo uma comunidade do filme O show de Truman, com mais de três mil pessoas, e posto regularmente nos diversos tópicos das muitas outras comunidades de que participo, alavancando discussões com os demais membros. Isso no Orkut é bem bacana, e é algo que não está presente no Facebook – pelo menos não na forma convencional.

Qualquer coisa eu passo a aceitar e utilizar hoje em dia. Menos Twitter: isso é meio sem sentido para mim, ainda. Aliás, totalmente sem sentido. Por que o sujeito vai se limitar a 140 caracteres por postagem? Para que ter um monte de gente seguindo o que você diz? Isso soa meio perigoso pra mim.

Mas vou fechar o bico. Vai que daqui a alguns meses eu abra uma conta no Twitter…

01 agosto 2011

O Povo da Névoa, de H. Rider Haggard

"Dali em diante, estavam todos entregues aos caprichos do destino." (p. 154)

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Durante os últimos anos recentes, eu achei que os romances de aventura e exploração não despertavam mais em mim o mesmo interesse que despertavam quando eu era criança. Naquela época, bastava uma sinopse que mencionasse ou um aventureiro em terras estranhas, ou um tesouro lendário proibido ou os perigos das selvas incólumes – de preferência, tudo isso junto – para que eu levasse o livro para casa sem sequer olhar o nome do autor.

Depois de crescido, achei que essa fascinação havia ficado para trás. Que agora só me interessavam dramas, relatos jornalísticos ou, no máximo, uma ficção científica. Agradável engano. Assim que pus os olhos na estante da livraria e vi um título chamado O Povo da Névoa (The people of the mist, 1894), que falava de um aventureiro nas selvas africanas e uma coleção preciosa de rubis atrás da qual ele estava – e que, ainda por cima, contava com a descoberta de um mundo perdido na floresta –, não perdi tempo.

Levei o livro para casa, tal como eu fazia nos tempos de criança fascinada. A única diferença é que, hoje, leio o nome do autor do livro que levo. O desse, por exemplo, é H. Rider Haggard, o mesmo do clássico As minas do Rei Salomão.


Sinopse: O Povo da Névoa conta a história do jovem inglês Leonard Outram, que, após testemunhar a decadência financeira e moral da família, parte em uma jornada para a África em busca de uma fortuna capaz de reaver o casarão leiloado e a honra dos Outram.

Após uma série de aventuras na selva, Leonard e seus companheiros (incluindo Juanna, uma mulher portuguesa que fora salva da escravidão) encontram o lendário Povo da Névoa, e lá são envolvidos no violento conflito político entre os Sacerdotes e um culto que adora um gigantesco deus-crocodilo.


Haggard é um dos pioneiros na criação de mundos perdidos no universo da literatura, e seus livros testemunham isso da forma mais notável possível. Consultei alguns colegas meus que já leram outras obras do autor, e eles afirmaram que Haggard, sempre que possível, insere nos seus romances de aventura uma sociedade selvagem perdida, misteriosa e potencialmente perigosa.

No caso de O Povo da Névoa, essa sociedade é justamente a que dá nome ao título, embora, ao longo do livro, os personagens se refiram a ela também como Crianças da Névoa, ou Habitantes da Névoa. No geral, o nome "O Povo da Névoa" está aí mais para designar uma qualidade da sociedade desses selvagens, e menos para designar o nome da sociedade deles em si.


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Edições em inglês do romance


H. Rider Haggard foi um homem fruto do seu tempo e, assim como muitos outros nomes da literatura inglesa do século XIX, amparou-se em idéias e concepções que eram amplamente difundidas e aceitas como inquestionáveis naquela época. Basta notar que, na África do autor, todos os africanos são "selvagens" e pensam como tal; são vítimas da escravidão, sofrem, vivem em aldeias miseráveis e, em resumo, são inferiores aos homens brancos.

Otter, o fiel servo de Leornard, é retratado dentre outras coisas como um anão feio, submisso e ingênuo. Não por menos, muitos personagens se referem pejorativamente a ele como "cão negro" – com exceção de Leonard, Juanna e outros personagens europeus. Mesmo assim, apesar dos insultos que recebe ao longo da história – e é isso o que me impressiona em alguns romances daquela época – Otter é indiscutivelmente o herói da aventura, superior em perspicácia e força aos homens brancos, capaz de fazer sacrifícios extremos para salvar a todos, inclusive a seus mestres.

A fascinação desses antigos escritores europeus pelos "selvagens africanos" é imensa e pode ser facilmente percebida na exultação que Haggard faz a Otter, chamando várias vezes seu personagem de homem "forte" e "corajoso". A mesma fascinação pode ser vista em Rice Burroughs, por exemplo, ao criar o seu indestrutível Tarzan.


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Mais edições originais em inglês


E quanto ao livro em si? Posso dizer que adorei lê-lo e que não me decepcionei. Voltei à infância e redescobri aquele mundo longínqüo repleto de imaginação, no qual um punhado de aventureiros corajosos enfrentam sujeitos misteriosos e selvagens. No fundo, inserir-se no universo de um livro desses é a mesma coisa que dizer: "Por ora, quero dar um basta deste mundo real em que vivemos, cheio de paranóias e preocupações modernas".

A história de O Povo da Névoa é basicamente dividida em duas partes. A primeira apresenta alguns dos personagens principais, claro, e foca um objetivo no horizonte: os aventureiros devem resgatar Juanna do campo de escravos. A segunda parte, por fim, se refere aos aventureiros dentro da sociedade da névoa, enfrentando todos os perigos que um romance de aventura como este pode oferecer.

Além da aventura propriamente dita, temos muitos elementos que remetem ao drama e ao romance. No fim das contas, o painel que se forma diante do leitor é o de um típico romance europeu do século retrasado; seu autor nos fala de um continente imenso e pouco explorado, cujos territórios não conhecidos pelo homem "civilizado" guardam muitos segredos e provações.

Recomendo o livro para quem tem o interesse pelo gênero. Vale a pena!

25 julho 2011

Mulheres, de Charles Bukowski

"Muito cara legal foi parar debaixo da ponte por causa de uma mulher." (p. 5)

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Quando eu estava no primeiro ano do Ensino Médio, conheci um rapaz que – diferentemente da maioria dos nossos colegas – gostava de literatura e de rock estrangeiro clássico, tal como eu. Rapidamente nos tornamos bons amigos. Hoje tenho pouco contato com ele, mas nossas conversas sobre arte nos intervalos das aulas maçantes foram realmente frutíferas. Se houve uma pessoa que fez com que meu Ensino Médio não fosse uma droga total – ou fosse uma droga mais tragável – essa pessoa é o Gilberto.

Dentre outras coisas, foi ele que me apresentou Charles Bukowski, escritor nascido na Alemanha em 1920, mas que viveu e morreu nos Estados Unidos. Foi fácil gostar de Bukowski porque ele traduzia para as suas páginas todo o sentimento de desamparo característico das pessoas que se sentem à margem da sociedade.

Recentemente, vi na livraria uma edição nova de Mulheres (Women, 1978), lançada pela L&PM Pocket. Esse livro estava fora do circuito brasileiro desde 1984, e é ótimo poder contar com uma impressão nova. Como não li esse título do velho Buk, achei que era uma boa oportunidade.


Sinopse: "Eu tinha cinqüenta anos e há quatro não ia pra cama com nenhuma mulher". Este é Henry Chinaski, escritor, alcoólatra, amante de música clássica, alter ego de Bukowski e protagonista de Mulheres. Mas este não é um livro convencional – nem poderia ser, em se tratando de Bukowski – no qual um homem está à procura de seu verdadeiro amor.

Após um período de jejum sexual, sem desejar mulher alguma, Henry conhece uma porção de garotas – Lydia, April, Lilly, Hilda, Mindy… – e entra na vida delas, bagunça suas almas, rompe corações, as enlouquece, as faz sofrer. E no fim elas ainda o consideram um bom sujeito.


Antes de falar sobre o livro em si, devo comentar algo sobre sua relação com os outros títulos do autor. Mulheres é a continuação direta de Factótum, um romance lançado em 1974 no qual encontramos Henry Chinaski pulando de emprego em emprego para sobreviver no submundo de Los Angeles. Depois de Mulheres, Bukowski lançou ainda Misto-quente (1982), que é considerado por muitos como a obra-prima do autor, em que se conta a infância e adolescência de Henry*.

Aliás, o protagonista desses três livros é uma espécie de "eu literário" de Bukowski: em tudo as suas vidas se parecem. Porres homéricos, sexo casual, envolvimento com prostitutas, apostas em corridas de cavalo, amor à escrita, e por aí vai. As semelhanças entre Henry Chinaski e Charles Bukowski são tão grandes que é ingênuo achar que o autor escrevia ficção pura. Na verdade, ele se baseava totalmente em sua própria vida; criava situações para seus personagens, claro, mas essas situações criadas são reflexos de um contexto vivido intensamente por Bukowski. É difícil separar a imagem do autor da imagem de seu alter-ego.


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Trilogia principal de Henry Chinaski. Clique nas capas para ler a resenha dos livros.


Se em Factótum tínhamos o pobre-diabo Henry Chinaski trocando de emprego como quem troca de roupa, em Mulheres nós o encontramos trocando de mulher quase a cada capítulo. Vale dizer que, neste romance, Chinaski já está com finanças suficientes para não ter que dormir na rua; ele já tem um apartamento decente, dá presentes para as suas namoradas, recebe dinheiro pelas leituras que faz de seus poemas em universidades. Adaptou-se, por assim dizer, à comodidade aparente. O dinheiro deixou de ser o problema principal em sua vida. Agora, são as mulheres.

Mulheres segue um ritmo inabalável do começo ao fim, assim como muitos dos outros romances do autor. Não se pode dizer que acontece muita coisa significativa enquanto os capítulos vão se sucedendo: você simplesmente acompanha Chinaski tocando a sua vida, se relacionando com as mais variadas mulheres (pertencentes ao mesmo submundo que ele, na maioria das vezes) e tira uma lição no final de tudo isso. Geralmente há algumas situações muito engraçadas – neste romance tem várias –, e isso torna a experiência de ler Bukowski bem divertida. No mais, Mulheres é o tipo de livro quebra-cabeça: suas peças soltas não significam muita coisa, mas, quando juntas no último momento, formam uma imagem bonita e sensível.

Uma coisa que sempre achei curiosa nos livros de Bukowski é que fica a impressão de que eles começam com a história do personagem já em andamento. É meio difícil explicar isso. É como se o leitor pegasse o bonde andando logo na primeira página. Não que o livro comece do nada, ou no meio de uma ação – longe disso. Mas parece que o autor resolveu começar a contar a história de repente. Talvez eu seja o único leitor de Bukowski que vê essa coisa.


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Outros três títulos do escritor lançados pela editora L&PM Pocket.


Para ler Mulheres é necessário um pré-requisito: não se importar com o linguajar escatológico de Bukowski. Porque ele não se importa em escrever sem medida palavrões ou cenas carregadas de pornografia – afinal, essa é uma das bases de sua literatura e uma das características pelas quais ficou famoso. Muitos outros escritores seguem essa linha underground também, mas sem sucesso. É o giz do taco de Bukowski que o eleva a um patamar acima da mera vulgaridade.

Seus livros escondem uma profunda simpatia pelos desvalidos, e é isso o que justifica a obra do autor. Um constante humanismo oculto nas páginas pornográficas e sujas faz de seus romances algo mais, algo que vale a pena ser lido – literatura por excelência. Mulheres é um desses romances.


* Embora os livros Factótum, Mulheres e Misto-quente sejam os mais expressivos no que diz respeito a Henry Chinaski, este personagem está presente em quase toda a obra do autor, o que torna difícil definir uma cronologia biográfica exata para ele.

18 julho 2011

Água para elefantes, de Sara Gruen

"Os artistas dão os últimos retoques em suas roupas e os treinadores fazem uma última verificação em seus animais." (p. 137)

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Embora isso não interesse a mais ninguém, passei as últimas duas semanas envolvido em um trabalho árduo que me pareceu interminável, e do qual não consegui me livrar antes de ver tudo dentro da ordem: organizei as 986 músicas do iPod que meu irmão me deu, separando-as nos devidos álbuns e inserindo as devidas capas de CD nas listas de reprodução.

E, paralelamente a esse trabalho de quem não tem o que fazer, consegui ler um livro que a querida Gleici Ketlem me deu de presente. O outro que ela havia me dado, também, foi A garota das laranjas, anteriormente resenhado aqui.

"Não comece a ler o outro livro sem mim. Ouviu?", ela disse. Indiscutivelmente, era uma ordem. De modo que só tive como acabar de lê-lo hoje. Estamos falando de Água para elefantes (Water for elephants, 2006), escrito pela canadense Sara Gruen, autora muito popular nos E.U.A, onde mora com o marido, os filhos e um mundaréu de bichos estranhos.


Sinopse: Aos 23 anos, Jacob era um estudante de veterinária. Mas sua sorte muda quando seus pais morrem num acidente de carro. Órfão, sem dinheiro e sem ter para onde ir, ele deixa a faculdade antes de prestar os exames finais e acaba pulando em um trem em movimento - o Esquadrão Voador do circo Irmãos Benzini, o Maior Espetáculo da Terra.

Admitido para cuidar dos animais, Jacob sofrerá nas mãos do Tio Al, o empresário tirano do circo, e de August, o ora encantador, ora intratável chefe do setor dos animais.

É também sob as lonas dos Irmãos Benzini que Jacob vai se apaixonar duas vezes: primeiro por Marlena, a bela estrela do número dos cavalos e esposa de August, e depois por Rosie, a elefanta aparentemente estúpida que deveria ser a salvação do circo.


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Cena do filme, com Robert Pattinson (Jacob) e a elefanta Rosie


O sucesso de Água para elefantes faz sentido. Digo isso porque gostei muito do livro (nos quesitos enredo e escrita), e quem me conhece de perto sabe que não tenho o costume de soltar muitos elogios aos livros mais vendidos segundo o New York Times. Sara Gruen, no entanto, construiu uma história que, embora tenha algo de clichê em sua essência, desperta certas paixões antigas. Eu mesmo tive vontade de ir a um circo logo após ter acabado a leitura.

A narrativa segue a mesma idéia de À espera de um milagre*, do Stephen King: temos um senhor muito, muito idoso que está em um asilo para inválidos e começa a contar sua história de quando era jovem, de maneira que o livro se torna um imenso flashback. De tempos em tempos, o texto volta para a vida atual do velho e para o que ele está fazendo no asilo. Foi assim com Paul Edgecombe – do livro de King –, e é assim com Jacob Jankowski – do livro de Gruen.

O romance é povoado por alguns personagens extremamente peculiares, como é o caso do palhaço anão Kinko (de longe o melhor personagem) e do velho Camel, um miserável funcionário do circo que não tem onde cair morto e que acolhe Jacob quando este pula no trem em movimento, abandonando de vez a sua vida pregressa e entrando no mundo do espetáculo circense. Os outros personagens que compõem a trama, embora menos peculiares e mais dados ao estereótipo, são também interessantes e possuem uma personalidade própria, o que confere verossimilhança àquilo que estamos lendo.


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Diferente da maioria dos best-sellers românticos que já tive a oportunidade de ler, em Água para elefantes nós temos um texto que não subestima a inteligência do leitor. Em vez de ficar repetindo e explicando várias vezes certas passagens e detalhes de entrelinhas da trama, Gruen diz a coisa uma vez e pronto, o leitor que se vire para entender ou inferir os detalhes. Pelo menos eu fiquei com essa impressão e confesso que, por mais que às vezes você tenha que voltar páginas para conferir algo, é sem dúvida uma característica de mérito e tem seu bom valor.

O grande romantismo do livro está não na relação entre Jacob e Marlena – seu par romântico –, mas na variedade de detalhes presentes no universo que Gruen trouxe de volta: o universo dos circos lendários que se transportavam a trem, cruzando o país em apresentações sucessivas para o público das mais variadas cidades. Sem dúvida esse é o diferencial do livro e seu grande charme. Lendo Água para elefantes, também passamos a ter uma idéia do que havia nos bastidores dos espetáculos daquela época. Aliás, nos bastidores dos espetáculos em geral, de qualquer época.

Embora algumas partes do final não tenham sido muito do meu agrado, por parecerem soluções apressadas e algumas até exageradas, digo que adorei a experiência de ler este único livro de Sara Gruen publicado no Brasil. O pouco da decepção que tive nos momentos finais não estragou, nem um pouco, o prazer da leitura no miolo da história. Portanto, recomendo a quem ele interessar.


Todos os direitos reservados

Como todo mundo já deve saber a essa altura do campeonato, Água para elefantes foi adaptado para o cinema sob o comando de Francis Lawrence, estrelando Robert Pattinson e Reese Witherspoon. Entre os trabalhos anteriores de Lawrence estão Eu sou a lenda e Constantine.

Eu não assisti ao filme e, logicamente, não sei o que os roteiristas fizeram da história, mas já ouvi dizer que mudaram muita coisa do original. Isso despertou mais ainda minha curiosidade.

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É isso. Obrigado pelo presente, Gle!