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18 julho 2011

Água para elefantes, de Sara Gruen

"Os artistas dão os últimos retoques em suas roupas e os treinadores fazem uma última verificação em seus animais." (p. 137)

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Embora isso não interesse a mais ninguém, passei as últimas duas semanas envolvido em um trabalho árduo que me pareceu interminável, e do qual não consegui me livrar antes de ver tudo dentro da ordem: organizei as 986 músicas do iPod que meu irmão me deu, separando-as nos devidos álbuns e inserindo as devidas capas de CD nas listas de reprodução.

E, paralelamente a esse trabalho de quem não tem o que fazer, consegui ler um livro que a querida Gleici Ketlem me deu de presente. O outro que ela havia me dado, também, foi A garota das laranjas, anteriormente resenhado aqui.

"Não comece a ler o outro livro sem mim. Ouviu?", ela disse. Indiscutivelmente, era uma ordem. De modo que só tive como acabar de lê-lo hoje. Estamos falando de Água para elefantes (Water for elephants, 2006), escrito pela canadense Sara Gruen, autora muito popular nos E.U.A, onde mora com o marido, os filhos e um mundaréu de bichos estranhos.


Sinopse: Aos 23 anos, Jacob era um estudante de veterinária. Mas sua sorte muda quando seus pais morrem num acidente de carro. Órfão, sem dinheiro e sem ter para onde ir, ele deixa a faculdade antes de prestar os exames finais e acaba pulando em um trem em movimento - o Esquadrão Voador do circo Irmãos Benzini, o Maior Espetáculo da Terra.

Admitido para cuidar dos animais, Jacob sofrerá nas mãos do Tio Al, o empresário tirano do circo, e de August, o ora encantador, ora intratável chefe do setor dos animais.

É também sob as lonas dos Irmãos Benzini que Jacob vai se apaixonar duas vezes: primeiro por Marlena, a bela estrela do número dos cavalos e esposa de August, e depois por Rosie, a elefanta aparentemente estúpida que deveria ser a salvação do circo.


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Cena do filme, com Robert Pattinson (Jacob) e a elefanta Rosie


O sucesso de Água para elefantes faz sentido. Digo isso porque gostei muito do livro (nos quesitos enredo e escrita), e quem me conhece de perto sabe que não tenho o costume de soltar muitos elogios aos livros mais vendidos segundo o New York Times. Sara Gruen, no entanto, construiu uma história que, embora tenha algo de clichê em sua essência, desperta certas paixões antigas. Eu mesmo tive vontade de ir a um circo logo após ter acabado a leitura.

A narrativa segue a mesma idéia de À espera de um milagre*, do Stephen King: temos um senhor muito, muito idoso que está em um asilo para inválidos e começa a contar sua história de quando era jovem, de maneira que o livro se torna um imenso flashback. De tempos em tempos, o texto volta para a vida atual do velho e para o que ele está fazendo no asilo. Foi assim com Paul Edgecombe – do livro de King –, e é assim com Jacob Jankowski – do livro de Gruen.

O romance é povoado por alguns personagens extremamente peculiares, como é o caso do palhaço anão Kinko (de longe o melhor personagem) e do velho Camel, um miserável funcionário do circo que não tem onde cair morto e que acolhe Jacob quando este pula no trem em movimento, abandonando de vez a sua vida pregressa e entrando no mundo do espetáculo circense. Os outros personagens que compõem a trama, embora menos peculiares e mais dados ao estereótipo, são também interessantes e possuem uma personalidade própria, o que confere verossimilhança àquilo que estamos lendo.


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Diferente da maioria dos best-sellers românticos que já tive a oportunidade de ler, em Água para elefantes nós temos um texto que não subestima a inteligência do leitor. Em vez de ficar repetindo e explicando várias vezes certas passagens e detalhes de entrelinhas da trama, Gruen diz a coisa uma vez e pronto, o leitor que se vire para entender ou inferir os detalhes. Pelo menos eu fiquei com essa impressão e confesso que, por mais que às vezes você tenha que voltar páginas para conferir algo, é sem dúvida uma característica de mérito e tem seu bom valor.

O grande romantismo do livro está não na relação entre Jacob e Marlena – seu par romântico –, mas na variedade de detalhes presentes no universo que Gruen trouxe de volta: o universo dos circos lendários que se transportavam a trem, cruzando o país em apresentações sucessivas para o público das mais variadas cidades. Sem dúvida esse é o diferencial do livro e seu grande charme. Lendo Água para elefantes, também passamos a ter uma idéia do que havia nos bastidores dos espetáculos daquela época. Aliás, nos bastidores dos espetáculos em geral, de qualquer época.

Embora algumas partes do final não tenham sido muito do meu agrado, por parecerem soluções apressadas e algumas até exageradas, digo que adorei a experiência de ler este único livro de Sara Gruen publicado no Brasil. O pouco da decepção que tive nos momentos finais não estragou, nem um pouco, o prazer da leitura no miolo da história. Portanto, recomendo a quem ele interessar.


Todos os direitos reservados

Como todo mundo já deve saber a essa altura do campeonato, Água para elefantes foi adaptado para o cinema sob o comando de Francis Lawrence, estrelando Robert Pattinson e Reese Witherspoon. Entre os trabalhos anteriores de Lawrence estão Eu sou a lenda e Constantine.

Eu não assisti ao filme e, logicamente, não sei o que os roteiristas fizeram da história, mas já ouvi dizer que mudaram muita coisa do original. Isso despertou mais ainda minha curiosidade.

~~

É isso. Obrigado pelo presente, Gle!

11 julho 2011

Música: Shine on you crazy diamond, do Pink Floyd

Queria que você estivesse aqui.

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Eu costumo dizer que o entardecer de domingo é a hora mais apropriada possível para se escutar a música Shine on you crazy diamond, da banda britânica Pink Floyd. Não posso afirmar isso com certeza, mas acredito que na primeira vez em que ouvi essa canção – e isso faz muito tempo – estávamos em um domingo à tarde, às portas da noite. E, no final das contas, essa música memorável ficou associada na minha mente a esse horário do primeiro dia da semana.

Essa associação chega a ser muito importante para mim pelo simples fato de ser muito conveniente para todos. Quais são os sentimentos que nós geralmente sentimos quando estamos em um domingo, ao pôr-do-sol, às beiras de uma longa, tediosa e cansativa semana? Além de totalmente propenso à meditação sobre a vida, eu fico relativamente deprimido, tentando juntar forças para encarar as brabas atividades semanais. E não há trilha sonora melhor para embalar esse contexto de emoções do que Shine on you crazy diamond.

Como todos os fãs de Pink Floyd sabem, essa música se encontra no álbum Wish you were here, cuja arte da capa se encontra aí em cima. Shine on you crazy diamond abre e fecha o álbum, já que é dividida em duas grandes partes – a primeira com 13:32 minutos, e a segunda, com 12:22, totalizando uma viagem de 25:54. Nessa postagem, eu me detenho especificamente à primeira parte (a que abre o CD), pois ela é a minha preferida das duas, muito embora a parte II também seja excelente.


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Encarte do CD. Tão sinistro quanto a capa


Quando eu era criança, tinha medo da capa desse vinil. Disso eu lembro bem. Antes mesmo de conhecer qualquer música do Pink Floyd, eu vasculhava a discoteca do meu irmão a fim de olhar as capas dos CDs, e uma das que eu peguei certo dia foi justamente a de Wish you were here. Fiquei olhando para aquela foto durante dezenas de minutos, bestificado. "O cara está pegando fogo tranqüilamente. Que horrível". E passei a evitar olhar para aquele CD.

Hoje, tenho essa arte de capa como uma das minhas preferidas de todos os tempos. Acho que antigamente sabiam fazer capas de CDs de rock realmente boas, sem que precisassem colocar nelas um integrante da banda sequer. Essa do Floyd, por exemplo, é tão cheia de possibilidades de interpretação que eu sempre me pego encontrando um novo significado para ela. O sentido que mais gosto de dar a essa imagem é justamente a mais difundida entre os fãs: a banda Pink Floyd está se despedindo formalmente do seu co-fundador principal, Syd Barrett, que fora consumido pelas drogas e teve que se afastar dos palcos.

Aliás, é de conhecimento geral que Shine on you crazy diamond é uma homenagem ao ex-integrante da banda. Também gosto de ouvir essa música lembrando desse bonito detalhe.


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Uma foto da banda em que Gilmour e Barrett estão juntos


Para ser absolutamente sincero, não tenho o costume de escutar essa música na íntegra, embora a ache belíssima de qualquer modo. (Tenho uma teoria que diz que os fãs da banda não ouvem mais com a mesma freqüência as longas músicas do Floyd na íntegra, apenas os trechos que mais apreciam). Mesmo assim, é um hino, e gosto de escutá-la do começo ao fim pelo menos uma vez no mês.

De resto, me bastam os 4 minutos iniciais da música para que grande parte dos meus problemas sejam esquecidos. Estou falando da magnífica e famosa introdução de Shine on you crazy diamond, que começa com notas sutis do teclado de Richard Wright, em um longo lamento, que se junta a seguir com os acordes igualmente singelos da guitarra de David Gilmour. O curioso é que são notas dispersas, mas incrivelmente precisas. Fica a impressão de que elas não poderiam se arrumar de outra maneira que não aquela. É impressionante.

Igualmente impressionante é o poder sedativo desses quatro minutos iniciais. Dão a sensação de que você está entrando em um mundo novo, aconchegante, no qual pode finalmente respirar em paz, sem a presença de nada que lhe perturbe o espírito. Definitivamente, a introdução dessa música é um convite. Um convite a este mundo novo sem tribulações, asséptico e pacífico.

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Eu gostaria de falar mais sobre Shine on you crazy diamond aqui, mas, pelo que sempre se mostrou, fica difícil traduzir em palavras o sentimento despertado por uma música. É por isso que, no final deste artigo, disponibilizo o áudio para quem quiser experimentar por conta própria a primeira faixa do emblemático Wish you were here. Que ela consiga relaxar as almas inquietas e atormentadas que passam por este blog, se é que passam almas inquietas por aqui além da minha própria.

É isso. Deixo vocês com os versos (traduzidos) que compõem essa belíssima música que é Shine on you crazy diamond.


Lembra quando você era novo?
Você brilhou como o sol.
Brilhe, seu diamante louco.
Agora há um olhar em seus olhos
Como buracos negros no céu.
Brilhe, diamante louco.
Você foi surpreendido pelo fogo cruzado
Da infância e do estrelato,
Fundido na brisa de aço.
Venha, alvo de risos distantes.
Venha, seu desconhecido, sua lenda,
seu mártir, e brilhe!

Você alcançou o segredo cedo demais,
Você chorou para a lua.
Brilhe, diamante louco.
Ameaçado pelas sombras da noite
E exposto à luz.
Brilhe, diamante louco
Bem, você desgastou suas boas vindas
Com precisão aleatória.
Cavalgou na brisa de aço.
Venha, sonhador, seu visionário,
Venha, pintor, flautista,
prisioneiro, e brilhe!

Ninguém sabe onde você está,
Quão perto ou longe.
Brilhe, diamante louco.
Empilhe muitas camadas a mais
E estaremos nos unindo lá.
Brilhe, diamante louco.
E nós nos aqueceremos na sombra
Do triunfo de ontem,
E velejaremos na brisa de aço.
Venha menino,
Ganhador e perdedor,
Venha mineiro da verdade e da ilusão,
E brilhe!


Todos os direitos reservados

02 julho 2011

Onde os homens conquistam a glória, de Jon Krakauer

"Desde que o Homo sapiens se aglutinou em tribos, a guerra faz parte da condição humana." (p. 25)

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Ontem, por volta da meia-noite, finalizei a leitura do mais recente livro de Jon Krakauer, cujo título principal é Onde os homens conquistam a glória (Where men win glory, 2009). Krakauer é um jornalista investigativo norte-americano, famoso por esquadrinhar a vida de pessoas que tiveram uma experiência singular perante a sociedade.

O autor tornou-se mais conhecido no Brasil depois do lançamento do filme Na natureza selvagem, baseado no seu livro homônimo, que destrincha a vida do eremita Christopher J. McCandless.

Na sua nova obra, Krakauer analisa nos mínimos detalhes a vida de Patrick Tillman, um jogador de futebol americano profissional que abandonou a vida confortável na Liga Nacional para se tornar combatente na guerra do Afeganistão.


Sinopse: Pat Tillman era um astro do futebol americano na época dos ataques terroristas ao World Trade Center. O evento despertou nele a obrigação moral de se juntar às forças armadas do então presidente George W. Bush em sua cruzada contra o terror.

Enviado ao Iraque e ao Afeganistão, Tillman foi morto acidentalmente por um colega após uma sequência de manobras equivocadas de sua unidade de combate. A reação oficial foi um cínico encobrimento da verdade aprovado pelos mais altos escalões do governo e uma série de investigações que resultariam ineptas.

Em uma pesquisa de fôlego, Krakauer reconstrói a trajetória de Pat Tillman e descobre a campanha de desinformação do governo americano para que a verdadeira causa de sua morte jamais viesse à tona.


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Autor do livro ao lado de um soldado afegão


Ler um livro de Jon Krakauer é quase como ler uma reportagem imensa em uma revista. Com a diferença, é claro, que o autor consegue prender nossa atenção do início ao fim, enche o seu texto de detalhes interessantes e nos convida a refletir profundamente sobre um determinado assunto.

Embora Onde os homens conquistam a glória seja vendido como "a história de Pat Tillman", o escopo do livro é muito maior que simplesmente narrar a odisséia de um ex-jogador de futebol americano nas fileiras das Forças Armadas (o que, por si só, já seria interessante). Na Parte 1, principalmente, é traçada toda a história das guerras no Afeganistão, desde o começo da invasão soviética até a ocupação norte-americana. No decorrer disso, somos apresentados à formação do Talibã e da Al-Qaeda, ao papel que Bin Laden teve no seu apoio aos Estados Unidos, às guerras civis etc. Se você quer entender as bases históricas da confusão atual que rola no sul da Ásia, esse livro poderia facilmente ser colocado como primeira opção de bibliografia.

A história de Tillman, por sua vez, é contada desde sua adolescência (durante a qual ele lutou para se tornar jogador universitário) até sua morte trágica no Afeganistão, vítima de fogo-amigo. Durante o tempo em que passou nas Forças Armadas, Pat manteve um minucioso diário que usou para anotar suas preocupações e atividades do dia-a-dia. Krakauer usou-se largamente desse diário, o que tornou seu livro bem envolvente.


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Pat Tillman no Arizona Cardinals, time no qual jogou durante sua carreira. À direita, no início de seu ingresso nas Forças Armadas.


Uma das principais metas de Onde os homens conquistam a glória é revolver toda a campanha de desinformação perpetrada pelo Governo Bush a fim de encobrir a verdadeira causa da morte de Tillman: três balas na cabeça, disparadas pela metralhadora SAW de um de seus colegas de pelotão. Como Tillman era um ícone de patriotismo na Guerra Global contra o Terror, revelar que ele morrera por uma série de ações sem-sentido do Exército não cairia nem um pouco bem para a imagem da ocupação no Afeganistão. Em grande medida, a elucidação do caso da morte de Pat deveu-se à insistência de sua família em saber o que realmente se passou com Tillman naquele remoto país do Oriente.

A escrita de Krakauer é muito agradável e clara, e ele consegue transformar assuntos aparentemente enfadonhos (trâmites no Exército, burocracia no Governo) em coisas interessantes e surpreendentes. Conhecido por ficar indo e voltando no tempo durante a narrativa de seus livros, em Onde os homens conquistam a glória Krakauer usou pouco esse recurso, caso contrário ao de Na natureza selvagem, por exemplo.


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Destaque para a capa muito bem feita do livro, que tem tudo a ver com a história, desde a montagem da granada-bola de futebol até os soldadinhos "de plástico", transmitindo a fragilidade dos que vão para a guerra.

Até agora, Onde os homens conquistam a glória foi o melhor livro de não-ficção que li no ano. Por essa razão, eu o recomendo. E só não escrevo mais porque estou preocupado com um documento extraviado da universidade, de modo que a inspiração acabou. Até a próxima postagem!

20 junho 2011

Três sombras, de Cyril Pedrosa

"Nessa paisagem de primavera, não há melhor nem pior. Os galhos com flores brotam naturalmente." (p. 265)

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Lá estou eu, domingo à noite, sem nenhuma perspectiva de acabar satisfatoriamente o final de semana. Não estou com vontade de sair; não estou com vontade de ouvir música; não estou com vontade de ler sequer.

Então, dando uma olhada sem compromisso na coleção de livros do meu irmão, eis que acabo encontrando um volume que me desperta o interesse. Encontrar alguma coisa que me desperte o interesse no domingo à noite é algo digno de nota.

A obra chama-se Três sombras (Trois ombres, 2007), uma graphic novel roteirizada e desenhada pelo francês Cyril Pedrosa, um cara que inclusive já trabalhou nos estúdios da Disney, em filmes como Hércules e O corcunda de Notre-Dame.

Pra quem não tinha nada para fazer na hora, como eu, esse foi um achado e tanto.


Sinopse: Joachim e seus pais levam uma vida tranquila em uma pequena casa no campo. A aparição de três sombras no alto de uma colina, no entanto, corrói a harmonia da vida em família e enche os pais de dúvidas. Seriam viajantes? Por que estão rondando a casa? A cada tentativa de aproximação, as figuras misteriosas desaparecem. Logo, eles percebem que as sombras estão ali para buscar Joachim.

Recusando-se a aceitar esse fato, o pai foge com o filho em uma viagem febril e desesperada, sempre com as sinistras sombras em seu encalço. Joachim deixa assim seu mundo idílico pela primeira vez para viajar por terras hostis em um navio precário, onde conhecerá um mundo cercado de adultos trapaceiros e imorais.

Romance de aventura com contornos épicos, Três sombras explora sutilmente questões de ordem filosófica e moral.


Embora admire muitíssimo o trabalho nas graphic novels, eu não tenho o costume de lê-las. Na verdade, são poucos os álbuns que realmente me chamam a atenção. Admiro mais o aspecto técnico deles: a arte em si, a dedicação do autor em montar quadro por quadro, o fio da narrativa que perpassa todas as linhas do nanquim. Mas encontrar uma graphic novel com uma história que me faça lê-la de cabo a rabo é coisa muito rara.

Com Três sombras foi diferente. Dei uma folheada rápida no volume, vi o desenho cativante, vi algumas cenas que me chamaram a atenção e – finalmente – li a sinopse que me deixou curioso. Cheguei à página final em nada mais que dois dias, antes de devolver o livro pesado à prateleira do meu irmão.


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Logo nas primeiras páginas, somos cativados pelos personagens que vão sendo apresentados. Eles se resumem basicamente a Joachim e seus pais, embora depois vá aparecendo uma dezena de personagens secundários, tão interessantes quanto os protagonistas. É o caso da velha Suzette, cuja aparição é rápida, porém precisa; do sinistro Manfred, traficante de escravos, e do estranho velhinho que faz uma oferta bizarra ao pai de Joachim. São esses personagens secundários que fazem todo o diferencial na história.

Quando começamos a lê-la, não demora muito para percebemos que a obra não trata necessariamente de algo tangível, mas de uma metáfora, uma alegoria, cuidadosamente talhada por Pedrosa. A morte no formato das três sombras e outros aspectos do enredo deixam esse viés alegórico muito claro. No mais, de uma maneira geral, o autor segue a linha pós-moderna de arte, na qual o verdadeiro significado das metáforas é construído pelo próprio leitor.

Adorei entrar em contato com essa graphic novel. Portanto, fica a minha dica: uma bela obra de arte. Que pode ser lida em um dia mesmo, no máximo dois. Experimentem.


tres_sombras_iii Tres sombras II[1]