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11 julho 2011

Música: Shine on you crazy diamond, do Pink Floyd

Queria que você estivesse aqui.

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Eu costumo dizer que o entardecer de domingo é a hora mais apropriada possível para se escutar a música Shine on you crazy diamond, da banda britânica Pink Floyd. Não posso afirmar isso com certeza, mas acredito que na primeira vez em que ouvi essa canção – e isso faz muito tempo – estávamos em um domingo à tarde, às portas da noite. E, no final das contas, essa música memorável ficou associada na minha mente a esse horário do primeiro dia da semana.

Essa associação chega a ser muito importante para mim pelo simples fato de ser muito conveniente para todos. Quais são os sentimentos que nós geralmente sentimos quando estamos em um domingo, ao pôr-do-sol, às beiras de uma longa, tediosa e cansativa semana? Além de totalmente propenso à meditação sobre a vida, eu fico relativamente deprimido, tentando juntar forças para encarar as brabas atividades semanais. E não há trilha sonora melhor para embalar esse contexto de emoções do que Shine on you crazy diamond.

Como todos os fãs de Pink Floyd sabem, essa música se encontra no álbum Wish you were here, cuja arte da capa se encontra aí em cima. Shine on you crazy diamond abre e fecha o álbum, já que é dividida em duas grandes partes – a primeira com 13:32 minutos, e a segunda, com 12:22, totalizando uma viagem de 25:54. Nessa postagem, eu me detenho especificamente à primeira parte (a que abre o CD), pois ela é a minha preferida das duas, muito embora a parte II também seja excelente.


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Encarte do CD. Tão sinistro quanto a capa


Quando eu era criança, tinha medo da capa desse vinil. Disso eu lembro bem. Antes mesmo de conhecer qualquer música do Pink Floyd, eu vasculhava a discoteca do meu irmão a fim de olhar as capas dos CDs, e uma das que eu peguei certo dia foi justamente a de Wish you were here. Fiquei olhando para aquela foto durante dezenas de minutos, bestificado. "O cara está pegando fogo tranqüilamente. Que horrível". E passei a evitar olhar para aquele CD.

Hoje, tenho essa arte de capa como uma das minhas preferidas de todos os tempos. Acho que antigamente sabiam fazer capas de CDs de rock realmente boas, sem que precisassem colocar nelas um integrante da banda sequer. Essa do Floyd, por exemplo, é tão cheia de possibilidades de interpretação que eu sempre me pego encontrando um novo significado para ela. O sentido que mais gosto de dar a essa imagem é justamente a mais difundida entre os fãs: a banda Pink Floyd está se despedindo formalmente do seu co-fundador principal, Syd Barrett, que fora consumido pelas drogas e teve que se afastar dos palcos.

Aliás, é de conhecimento geral que Shine on you crazy diamond é uma homenagem ao ex-integrante da banda. Também gosto de ouvir essa música lembrando desse bonito detalhe.


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Uma foto da banda em que Gilmour e Barrett estão juntos


Para ser absolutamente sincero, não tenho o costume de escutar essa música na íntegra, embora a ache belíssima de qualquer modo. (Tenho uma teoria que diz que os fãs da banda não ouvem mais com a mesma freqüência as longas músicas do Floyd na íntegra, apenas os trechos que mais apreciam). Mesmo assim, é um hino, e gosto de escutá-la do começo ao fim pelo menos uma vez no mês.

De resto, me bastam os 4 minutos iniciais da música para que grande parte dos meus problemas sejam esquecidos. Estou falando da magnífica e famosa introdução de Shine on you crazy diamond, que começa com notas sutis do teclado de Richard Wright, em um longo lamento, que se junta a seguir com os acordes igualmente singelos da guitarra de David Gilmour. O curioso é que são notas dispersas, mas incrivelmente precisas. Fica a impressão de que elas não poderiam se arrumar de outra maneira que não aquela. É impressionante.

Igualmente impressionante é o poder sedativo desses quatro minutos iniciais. Dão a sensação de que você está entrando em um mundo novo, aconchegante, no qual pode finalmente respirar em paz, sem a presença de nada que lhe perturbe o espírito. Definitivamente, a introdução dessa música é um convite. Um convite a este mundo novo sem tribulações, asséptico e pacífico.

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Eu gostaria de falar mais sobre Shine on you crazy diamond aqui, mas, pelo que sempre se mostrou, fica difícil traduzir em palavras o sentimento despertado por uma música. É por isso que, no final deste artigo, disponibilizo o áudio para quem quiser experimentar por conta própria a primeira faixa do emblemático Wish you were here. Que ela consiga relaxar as almas inquietas e atormentadas que passam por este blog, se é que passam almas inquietas por aqui além da minha própria.

É isso. Deixo vocês com os versos (traduzidos) que compõem essa belíssima música que é Shine on you crazy diamond.


Lembra quando você era novo?
Você brilhou como o sol.
Brilhe, seu diamante louco.
Agora há um olhar em seus olhos
Como buracos negros no céu.
Brilhe, diamante louco.
Você foi surpreendido pelo fogo cruzado
Da infância e do estrelato,
Fundido na brisa de aço.
Venha, alvo de risos distantes.
Venha, seu desconhecido, sua lenda,
seu mártir, e brilhe!

Você alcançou o segredo cedo demais,
Você chorou para a lua.
Brilhe, diamante louco.
Ameaçado pelas sombras da noite
E exposto à luz.
Brilhe, diamante louco
Bem, você desgastou suas boas vindas
Com precisão aleatória.
Cavalgou na brisa de aço.
Venha, sonhador, seu visionário,
Venha, pintor, flautista,
prisioneiro, e brilhe!

Ninguém sabe onde você está,
Quão perto ou longe.
Brilhe, diamante louco.
Empilhe muitas camadas a mais
E estaremos nos unindo lá.
Brilhe, diamante louco.
E nós nos aqueceremos na sombra
Do triunfo de ontem,
E velejaremos na brisa de aço.
Venha menino,
Ganhador e perdedor,
Venha mineiro da verdade e da ilusão,
E brilhe!


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02 julho 2011

Onde os homens conquistam a glória, de Jon Krakauer

"Desde que o Homo sapiens se aglutinou em tribos, a guerra faz parte da condição humana." (p. 25)

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Ontem, por volta da meia-noite, finalizei a leitura do mais recente livro de Jon Krakauer, cujo título principal é Onde os homens conquistam a glória (Where men win glory, 2009). Krakauer é um jornalista investigativo norte-americano, famoso por esquadrinhar a vida de pessoas que tiveram uma experiência singular perante a sociedade.

O autor tornou-se mais conhecido no Brasil depois do lançamento do filme Na natureza selvagem, baseado no seu livro homônimo, que destrincha a vida do eremita Christopher J. McCandless.

Na sua nova obra, Krakauer analisa nos mínimos detalhes a vida de Patrick Tillman, um jogador de futebol americano profissional que abandonou a vida confortável na Liga Nacional para se tornar combatente na guerra do Afeganistão.


Sinopse: Pat Tillman era um astro do futebol americano na época dos ataques terroristas ao World Trade Center. O evento despertou nele a obrigação moral de se juntar às forças armadas do então presidente George W. Bush em sua cruzada contra o terror.

Enviado ao Iraque e ao Afeganistão, Tillman foi morto acidentalmente por um colega após uma sequência de manobras equivocadas de sua unidade de combate. A reação oficial foi um cínico encobrimento da verdade aprovado pelos mais altos escalões do governo e uma série de investigações que resultariam ineptas.

Em uma pesquisa de fôlego, Krakauer reconstrói a trajetória de Pat Tillman e descobre a campanha de desinformação do governo americano para que a verdadeira causa de sua morte jamais viesse à tona.


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Autor do livro ao lado de um soldado afegão


Ler um livro de Jon Krakauer é quase como ler uma reportagem imensa em uma revista. Com a diferença, é claro, que o autor consegue prender nossa atenção do início ao fim, enche o seu texto de detalhes interessantes e nos convida a refletir profundamente sobre um determinado assunto.

Embora Onde os homens conquistam a glória seja vendido como "a história de Pat Tillman", o escopo do livro é muito maior que simplesmente narrar a odisséia de um ex-jogador de futebol americano nas fileiras das Forças Armadas (o que, por si só, já seria interessante). Na Parte 1, principalmente, é traçada toda a história das guerras no Afeganistão, desde o começo da invasão soviética até a ocupação norte-americana. No decorrer disso, somos apresentados à formação do Talibã e da Al-Qaeda, ao papel que Bin Laden teve no seu apoio aos Estados Unidos, às guerras civis etc. Se você quer entender as bases históricas da confusão atual que rola no sul da Ásia, esse livro poderia facilmente ser colocado como primeira opção de bibliografia.

A história de Tillman, por sua vez, é contada desde sua adolescência (durante a qual ele lutou para se tornar jogador universitário) até sua morte trágica no Afeganistão, vítima de fogo-amigo. Durante o tempo em que passou nas Forças Armadas, Pat manteve um minucioso diário que usou para anotar suas preocupações e atividades do dia-a-dia. Krakauer usou-se largamente desse diário, o que tornou seu livro bem envolvente.


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Pat Tillman no Arizona Cardinals, time no qual jogou durante sua carreira. À direita, no início de seu ingresso nas Forças Armadas.


Uma das principais metas de Onde os homens conquistam a glória é revolver toda a campanha de desinformação perpetrada pelo Governo Bush a fim de encobrir a verdadeira causa da morte de Tillman: três balas na cabeça, disparadas pela metralhadora SAW de um de seus colegas de pelotão. Como Tillman era um ícone de patriotismo na Guerra Global contra o Terror, revelar que ele morrera por uma série de ações sem-sentido do Exército não cairia nem um pouco bem para a imagem da ocupação no Afeganistão. Em grande medida, a elucidação do caso da morte de Pat deveu-se à insistência de sua família em saber o que realmente se passou com Tillman naquele remoto país do Oriente.

A escrita de Krakauer é muito agradável e clara, e ele consegue transformar assuntos aparentemente enfadonhos (trâmites no Exército, burocracia no Governo) em coisas interessantes e surpreendentes. Conhecido por ficar indo e voltando no tempo durante a narrativa de seus livros, em Onde os homens conquistam a glória Krakauer usou pouco esse recurso, caso contrário ao de Na natureza selvagem, por exemplo.


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Destaque para a capa muito bem feita do livro, que tem tudo a ver com a história, desde a montagem da granada-bola de futebol até os soldadinhos "de plástico", transmitindo a fragilidade dos que vão para a guerra.

Até agora, Onde os homens conquistam a glória foi o melhor livro de não-ficção que li no ano. Por essa razão, eu o recomendo. E só não escrevo mais porque estou preocupado com um documento extraviado da universidade, de modo que a inspiração acabou. Até a próxima postagem!

20 junho 2011

Três sombras, de Cyril Pedrosa

"Nessa paisagem de primavera, não há melhor nem pior. Os galhos com flores brotam naturalmente." (p. 265)

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Lá estou eu, domingo à noite, sem nenhuma perspectiva de acabar satisfatoriamente o final de semana. Não estou com vontade de sair; não estou com vontade de ouvir música; não estou com vontade de ler sequer.

Então, dando uma olhada sem compromisso na coleção de livros do meu irmão, eis que acabo encontrando um volume que me desperta o interesse. Encontrar alguma coisa que me desperte o interesse no domingo à noite é algo digno de nota.

A obra chama-se Três sombras (Trois ombres, 2007), uma graphic novel roteirizada e desenhada pelo francês Cyril Pedrosa, um cara que inclusive já trabalhou nos estúdios da Disney, em filmes como Hércules e O corcunda de Notre-Dame.

Pra quem não tinha nada para fazer na hora, como eu, esse foi um achado e tanto.


Sinopse: Joachim e seus pais levam uma vida tranquila em uma pequena casa no campo. A aparição de três sombras no alto de uma colina, no entanto, corrói a harmonia da vida em família e enche os pais de dúvidas. Seriam viajantes? Por que estão rondando a casa? A cada tentativa de aproximação, as figuras misteriosas desaparecem. Logo, eles percebem que as sombras estão ali para buscar Joachim.

Recusando-se a aceitar esse fato, o pai foge com o filho em uma viagem febril e desesperada, sempre com as sinistras sombras em seu encalço. Joachim deixa assim seu mundo idílico pela primeira vez para viajar por terras hostis em um navio precário, onde conhecerá um mundo cercado de adultos trapaceiros e imorais.

Romance de aventura com contornos épicos, Três sombras explora sutilmente questões de ordem filosófica e moral.


Embora admire muitíssimo o trabalho nas graphic novels, eu não tenho o costume de lê-las. Na verdade, são poucos os álbuns que realmente me chamam a atenção. Admiro mais o aspecto técnico deles: a arte em si, a dedicação do autor em montar quadro por quadro, o fio da narrativa que perpassa todas as linhas do nanquim. Mas encontrar uma graphic novel com uma história que me faça lê-la de cabo a rabo é coisa muito rara.

Com Três sombras foi diferente. Dei uma folheada rápida no volume, vi o desenho cativante, vi algumas cenas que me chamaram a atenção e – finalmente – li a sinopse que me deixou curioso. Cheguei à página final em nada mais que dois dias, antes de devolver o livro pesado à prateleira do meu irmão.


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Logo nas primeiras páginas, somos cativados pelos personagens que vão sendo apresentados. Eles se resumem basicamente a Joachim e seus pais, embora depois vá aparecendo uma dezena de personagens secundários, tão interessantes quanto os protagonistas. É o caso da velha Suzette, cuja aparição é rápida, porém precisa; do sinistro Manfred, traficante de escravos, e do estranho velhinho que faz uma oferta bizarra ao pai de Joachim. São esses personagens secundários que fazem todo o diferencial na história.

Quando começamos a lê-la, não demora muito para percebemos que a obra não trata necessariamente de algo tangível, mas de uma metáfora, uma alegoria, cuidadosamente talhada por Pedrosa. A morte no formato das três sombras e outros aspectos do enredo deixam esse viés alegórico muito claro. No mais, de uma maneira geral, o autor segue a linha pós-moderna de arte, na qual o verdadeiro significado das metáforas é construído pelo próprio leitor.

Adorei entrar em contato com essa graphic novel. Portanto, fica a minha dica: uma bela obra de arte. Que pode ser lida em um dia mesmo, no máximo dois. Experimentem.


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13 junho 2011

Quinze dias em setembro, de Ryoki Inoue

"Estes, sim, precisavam enxergar que o mundo não tinha acabado e que a vida, como num espetáculo circense após a queda fatal da trapezista, teria de continuar." (p. 313)

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O caso é freqüente: muitos médicos abandonam a sua exaustiva e honrada profissão para tentar o reconhecimento como escritores. São vários os exemplos de personalidades que entraram nessa empreitada e conseguiram sucesso, como é o caso de Michael Crichton, Tess Gerritsen e Arthur Conan Doyle*. Todos esses ex-médicos conseguiram alavancar um grande número de leitores, e seus livros são bastante lidos inclusive no Brasil.

Temos também os exemplos não tão famosos, como por exemplo o do brasileiro Ryoki Inoue, paulista formado em medicina que, desde 1986, deixou o estetoscópio de lado e pôs as mãos na máquina de escrever. Até agora, publicou mais de 1.000 livros, e é por esse feito impressionante que seu nome está no Guinness Book.

Depois que eu descobri esse autor e soube desse detalhe, achei de boa política ler alguma coisa do escritor mais prolífico do mundo. Por que não? Será que ele tem qualidade, ou é só quantidade, mesmo?Escolhi um de seus romances mais famosos, Quinze dias em setembro (2008), e matei minha curiosidade.


Sinopse: Fefê é um playboy paulistano. Donovan e Steinberg são investigadores do FBI. Amina é médica. Samira sonha em ser modelo. Mathew e Natalie são jornalistas. Hafez, Mohamed e Ibrahim são religiosos extremistas. O que todos têm em comum? Suas vidas se encontram por causa de um único evento: o ataque terrorista às Torres Gêmeas do World Trade Center.

Com uma narrativa que transcorre simultaneamente em São Paulo e Nova York, Quinze dias em setembro possui uma trama repleta de ação, suspense e reviravoltas.


Desde o começo, uma coisa fica clara: o livro deve ser tratado como um romance de puro entretenimento. A escrita de Inoue é objetiva, sem floreios sofisticados. No início a narrativa alterna trechos rápidos que focam em diferentes personagens, apresentando-os ao leitor. Logo no prólogo, fica um tom de mistério suspenso no ar, porque a história começa já avançada para o atentado às Torres Gêmeas, e o leitor fica sem entender as motivações dos personagens que estão sendo apresentados. Só depois, quando o primeiro capítulo começa, é que o tempo retrocede até o início de tudo. E, então, a história efetivamente começa.

Logicamente, não é por ser um romance de puro entretenimento que o livro de Inoue é ruim. Pelo contrário, consegue prender bastante a atenção, principalmente da metade para nos capítulos finais. O problema, nesse caso, talvez esteja nos primeiros capítulos: fica a sensação de uma história que tem pouco a ver com a sinopse, que se arrasta. Além do mais, o personagem Fefê, principal protagonista no início, tem um caráter muito desagradável, e é duro ter que continuar a leitura sendo guiado só por esse jovem playboy imaturo.


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Escritor brasileiro Ryoki Inoue figura no Guinness como o autor mais prolífico do mundo


O segundo defeito sério do livro está na insistência do autor em utilizar a técnica de fazer os personagens verbalizarem explicitamente os seus pensamentos. São muitos os exemplos em que, no meio do texto, as aspas se abrem e o pensamento do personagem começa a ser destilado minuciosamente em primeira pessoa, o que é muito maçante na maioria das vezes. De repente, mesmo estando sozinho, alguém começa a murmurar consigo algo do tipo: "O que farei agora? Não posso deixar transparecer isso! Já sei! Vou fazer tal coisa, para que Fulano não pense mal de mim. Agirei assim e assim, e espero que nada dê errado…"

Esse recurso muito usado por novelas estraga (bastante) uma boa parte da experiência da leitura, pelo menos na minha opinião. Nas novelas até que o recurso se justifica, já que elas não têm outro meio de deixar claro o que vai pela cabeça do personagem… mas em um livro?

Bem, por mais que não pareça, eu garanto que, tirando esses dois defeitos (começo arrastado e a insistente "verbalização de pensamentos"), o livro consegue prender a atenção e ser bom. A trama intrincada e o submundo dos grandes milionários como João Antônio, aliados a falsidade ideológica e uma miríade de outros crimes, atrai e muito os admiradores de romances policiais. E, nesse caso, o romance de Ryoki tem sucesso e não desaponta.


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Juro que só depois de bater a foto é que eu me dei conta da coincidência do avião no marcador


Recomendo Quinze dias em setembro para quem quer uma leitura leve. Para quem não está a fim de quebrar a cabeça com conflitos psicológicos sérios, mas com intrigas policiais envolvendo o FBI, com direito a trapaças e dinheiro sujo. Nas mãos de Inoue, esses ingredientes de trama policial me entreteram muito.

Por fim, eu queria dizer que o romance ganha pontos quando analisa criticamente o atentado do dia 11/09. Os personagens Natalie e Mathew, como jornalistas, discutem em muitos trechos as conseqüências do ataque terrorista para o mundo – conseqüências econômicas e políticas. Com essa análise, o "entretenimento" ganha um toque mais sofisticado, já que não usa o trágico acontecimento como mero fio condutor.


* Conan Doyle abandonou a carreira de médico em 1891, quatro anos depois de ter escrito Um estudo em vermelho, primeira aventura de Sherlock Holmes.