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22 maio 2011

A carta de Chris para Ron

Na última terça-feira, meu professor de Psicologia Social II resolveu passar para os seus alunos uma exibição do filme Na Natureza Selvagem, dirigido por Sean Penn e estrelado por Emile Hirsch.

O filme conta a história verídica de Christopher McCandless, jovem americano de família rica que abandonou toda a sua vida burguesa de conforto para partir rumo ao Alasca, numa aventura de provação e auto-descobrimento. Ao longo do caminho, ele encontrou várias pessoas dispostas a ajudá-lo em sua jornada; Ron Franz foi uma delas, um velhinho solitário de 70 e poucos anos, que se afeiçoou muito a Chris.

Além de ter uma história muito interessante e instigante, o filme em si é visualmente lindo, e talvez tenha sido por esse motivo que já o assisti 8 vezes. A idéia deste post é mostrar a carta mais famosa que Chris escreveu a Ron, carta que está publicada no livro Na natureza selvagem, de Jon Krakauer. Acho que vale a pena lê-la.


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"(…)

Ron, eu realmente gostei de toda a ajuda que você me deu e do tempo que passamos juntos. Espero que não fique muito deprimido com nossa separação. Pode levar um bom tempo até que a gente se veja de novo. Mas desde que eu saia inteiro desse negócio do Alasca você terá notícias minhas no futuro. Gostaria de repetir o conselho que lhe dei antes: acho que você deveria realmente promover uma mudança radical em seu esti­lo de vida e começar a fazer corajosamente coisas em que talvez nunca tenha pensado, ou que fosse hesitante demais para tentar.

Tanta gente vive em circunstâncias infelizes e, contudo, não toma a iniciativa de mudar sua situação porque está condicionada a uma vida de segurança, conformismo e conservadorismo, tudo isso que parece dar paz de espíri­to, mas na realidade nada é mais maléfico para o espírito aventureiro do homem que um futuro seguro. A coisa mais essencial do espírito vivo de um homem é sua paixão pela aventura. A alegria da vida vem de nossos encontros com novas experiências e, portanto, não há alegria maior que ter um horizonte sempre cambiante, cada dia com um novo e diferente Sol.

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Se você quer mais de sua vida, Ron, deve abandonar sua tendência à segurança monótona e adotar um estilo de vida confuso que, de inicio, vai parecer maluco para você. Mas depois que se acostumar a tal vida verá seu sentido pleno e sua beleza incrível.

Em resumo, Ron, saia de Salton City e caia na estrada. Garanto que ficará muito contente em fazer isso. Mas temo que você ignore meu conselho. Você acha que eu sou teimoso, mas você é ainda mais teimoso do que eu. Você tinha uma chance mara­vilhosa quando voltou da visita a uma das maiores vistas da Terra, o Grand Canyon, algo que todo americano deveria apreciar pelo menos uma vez na vida. Mas, por alguma razão incompreensível para mim, você só que­ria voltar correndo para casa, direto para a mesma situação que vê dia após dia. Temo que você seguirá essa mesma tendência no futu­ro e assim deixará de descobrir todas as coisas maravilhosas que Deus colocou em torno de nós para descobrir.

Não se acomode nem fique sen­tado em um único lugar. Mova-se, seja nômade, faça de cada dia um novo horizonte. Você ainda vai viver muito tempo, Ron, e será uma vergonha se não aproveitar a oportunidade para revolucionar sua vida e entrar num reino inteiramente novo de experiências.

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Você está errado se acha que a alegria emana somente ou principal­mente das relações humanas. Deus a distribuiu em toda a nossa volta. Está em tudo e em qualquer coisa que possamos experimentar. Só temos de ter a coragem de dar as costas para nosso estilo de vida habitual e nos comprometer com um modo de viver não convencional.

O que quero dizer é que você não precisa de mim ou de qualquer outra pessoa em volta para pôr esse novo tipo de luz em sua vida. Ele está sim­plesmente esperando que você o pegue e tudo que tem a fazer é estender os braços. A única pessoa com quem você está lutando é você mesmo e sua teimosia em não entrar em novas situações.

(…)

Você verá coisas e conhecerá pessoas e há muito a aprender com elas. Deve fazer isso no estilo econômico, sem motéis, cozinhando sua comida como regra geral, gastando o menos que puder e vai gostar imensamen­te disso. Espero que na próxima vez que o encontrar você seja um homem novo, com uma grande quantidade de novas aventuras e experiências na bagagem. Não hesite nem se permita dar desculpas. Simplesmente saia e faça isso. Simplesmente saia e faça isso. Você ficará muito, muito con­tente por ter feito."

~~~~

08 maio 2011

Skinner e a ciência do comportamento humano

"O comportamento é a base de todos os fenômenos humanos."

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As pessoas que me conhecem há muito tempo sabem que, quando estou em período de aulas (ou seja, de fevereiro a junho e de agosto a novembro), eu não tenho a menor vontade de ler os livros de arte – em outras palavras, a literatura propriamente dita. Nessa época de trabalhos exigentes e provas que abarcam todo o conteúdo dado no semestre, não me sinto propenso a dedicar muitas horas do dia à leitura de entretenimento.

Mas, como adoro livros, não posso deixar de ir religiosamente à minha livraria predileta quase todos os dias. O que é doloroso é ver aquele mundo de livros prazerosos e não poder ler nenhum, pela mera falta de tempo. Então, imagino, o jeito é dar uma olhada nos livros técnicos; assim eu não fico com a consciência pesada por estar simplesmente me divertindo, e não estudando.

Então, hoje, entrei na livraria e fui direto à ala dos manuais de Psicologia. Para quem ainda não sabe, embora eu tenha muito interesse pelos livros técnicos, raramente dou uma olhada no que as editoras estão lançando, a não ser que um professor da minha estima comente algo sobre um novo compêndio ou sobre um novo teórico que merece ser lido. Se não for por isso, eu realmente não me sinto motivado a ir até aquele recôndito escondido das prateleiras de Psicologia.

Mas, afinal, vamos pôr fim a esse blablablá todo e ir direto ao assunto deste post, que, espero, seja interessante mesmo para aqueles que não estudam psicologia.


B.F. Skinner

B. F. Skinner (1904-1990), principal cientista do comportamento humano


Voltando à livraria: eu estava passando os olhos pela estante e uma coisa me chamou atenção. Na verdade, a ausência de uma coisa. Eu não conseguia encontrar livros que abordassem a Análise do Comportamento, ou mesmo qualquer coisa que se aproximasse do behaviorismo. A Análise Comportamental (sustentada pela filosofia behaviorista) é uma das três correntes teóricas básicas da psicologia; um dos três pilares que sustentam todo o edifício teórico do que foi estudado até então em psicologia. As outras duas correntes, obviamente não menos importantes, são a psicanálise (iniciada por Sigmund Freud) e o humanismo fenomenológico. A partir dessas três, muitas sub-vertentes foram fundadas, em diferentes  épocas e lugares do planeta.

Se uma pessoa que ingressa na psicologia tem como preceito básico a noção de que essa ciência estuda, fundamentalmente, a mente humana, sem dúvida ela ficará extremamente surpresa ao se deparar com a Análise do Comportamento. Por quê? Porque, diferentemente das duas outras correntes, a A.C. não se propõe a considerar a psique humana. E, já que estamos falando de teorias psicológicas, isso pode parecer um absurdo.

No entanto, principalmente nos Estados Unidos da América, a A.C. é vastamente propagada e aceita nos dias de hoje. Talvez porque seus principais precursores, Watson e Skinner, eram norte-americanos. De qualquer forma, o fato é que, como abordagem psicológica, a A.C. faz tanto "sucesso" como qualquer outra das duas, psicanálise e humanismo fenomenológico. Além de muito propagada, ela não deixa de ser, também, bastante polêmica.


rato

Os ratos são os animais comumente utilizados nas universidades, para o estudo do comportamento. Não são poucas as polêmicas que surgem a partir da questão ética da utilização desses animais em laboratório


De um modo geral, desde Skinner, o que a A.C. defende é a idéia de que são dois os tipos de comportamento que apresentamos. O primeiro, comportamento reflexo ou respondente, abarca todas as nossas respostas involuntárias ao ambiente: dilatação da pupila no escuro, salivação diante de comida, sudorese depois de exercícios etc. É, segundo um professor meu, o kit básico evolutivo para a nossa sobrevivência neste planeta.

O outro tipo, o comportamento operante, é constituído por todos os nossos atos e gestos que foram "aprendidos" segundo contingências de reforço e punição. Exemplos:

Se eu percebo que várias garotas bonitas estão interessadas em mim depois que comecei a fazer uma bateria de exercícios na academia, é provável que eu continue freqüentando esse espaço e exercitando meus músculos. Essa relação atende pelo nome de "reforçador positivo"; "positivo" porque um estímulo reforçador (as garotas) foi acrescentado ao ambiente como conseqüência do meu comportamento de fazer exercícios. (Não consigo imaginar um exemplo mais bobo que esse.)

Se eu percebo que beber 2 litros de água por dia está ajudando a combater meu cálculo renal, então, mais uma vez, é provável que eu continue emitindo esse comportamento nos dias subseqüentes. Aí temos uma relação de "reforço negativo"; "negativo" porque um estímulo aversivo (cálculo renal) está sendo subtraído do ambiente com a emissão do meu comportamento de beber água.


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Skinner usava pombos em seus experimentos: pombos também têm superstições


Essa exposição teórica brevíssima tem o objetivo de mostrar quão categórica e disciplinar é a Análise do Comportamento proposta por B. F. Skinner. Objetividade e rigor científico, como todos sabem, são os ideais básicos de toda teoria do mundo acadêmico. E o problema está justamente aí. A proximidade com esse universo científico rigoroso e observável é o que faz a A.C. receber tantas críticas, já que a psicologia, como ciência que estuda a psique humana, defende a idéia da subjetividade e da impossibilidade de universalizar conceitos de modo lógico.

Justamente por esse motivo, o estudo analítico do comportamento humano tem recebido críticas fervorosas de grande parte da comunidade científica de psicologia; "psicologia newtoniana mecanicista" e "psicologia biológica universalizante" são os principais xingamentos. Acredito que, se os críticos entendessem que a A. C. é honesta a ponto de admitir que não estuda a mente humana porque a considera subjetiva e individual demais, aí talvez essas críticas não fossem feitas. O objetivo da A. C. não é universalizar conceitos; é, antes, estudar conceitos que são universais por si sós – os fenômenos do comportamento humano.


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Livro que comprei. Capa enigmática, convenhamos. Preço salgado: R$ 78,00


Bem… o post acabou saindo muito diferente do que eu pretendia no início. Meu objetivo era falar alguma coisa pessoal sobre o mais famoso cientista do comportamento, B. F. Skinner, e sobre o livro dele que encontrei hoje na livraria, em meio a ensaios e tratados de Freud e Carl Rogers. O livro se chama Ciência e comportamento humano e é considerado o manual básico da Análise do Comportamento, já que todos os principais conceitos da teoria são abordados e discutidos pelo próprio criador deles.

Eu tenho afeição pela A.C. desde que fiz meu trabalho com ratos de laboratório e pude, enfim, perceber como o comportamento dos seres vivos (de um modo geral) é universal. Mas isto já é assunto para outro post.

24 abril 2011

A Garota das Laranjas, de Jostein Gaarder

"Ela tinha gosto de baunilha. Seu cabelo cheirava a limão fresco." (p. 85)

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Quando vislumbrei o feriadão da Semana Santa se aproximando, pensei: vou usar esse pequeno recesso para ler um dos dois livros que minha amiga Gleici me deu. Qualquer feriado de quatro dias é uma oportunidade para a leitura de um bom romance.

E o livro em questão não é outro que não A Garota das Laranjas, (Appelsinpiken, 2005), escrito por um dos mais populares autores contemporâneos: estamos falando de Jostein Gaarder, filósofo norueguês conhecidíssimo por seu célebre O Mundo de Sofia, que lhe deu projeção internacional como romancista no começo dos anos 1990.


Sinopse: Pouco antes de morrer, Jan Olav escreve uma longa carta ao filho de três anos e a esconde no forro de um carrinho de bebê, para que seja descoberta apenas quando ele for mais velho.

A história que o pai conta é do tempo em que ainda era um jovem estudante de medicina: a sua busca por uma moça desconhecida, que ele vê por acaso nas ruas de Oslo, sempre carregando um saco cheio de laranjas. Apaixonado, o rapaz persegue os diversos mistérios que cercam os seus encontros fugidios com a garota das laranjas, numa aventura que culmina numa grande revelação.

Repleta de mistérios e reflexões, A Garota das Laranjas aborda temas como a perda, reencontros e relações entre a família.


Extremamente cativante. Essa talvez seja a expressão mais adequada para que eu possa me referir a este livro tão simples e, por isso mesmo, tão gostoso. Gaarder acertou a mão quando escreveu A Garota das Laranjas, conseguindo, logo nas primeiras páginas, captar a atenção do leitor da maneira mais agradável possível – inclusive ao falar de assuntos relativamente delicados, como morte e o vazio que um marido deixa atrás de si, mesmo quando ele é substituído por outro homem.

A confrontação com a morte, aliás, é um dos temas mais presentes no livro. Isso para não dizer que ele está manifesto praticamente desde a primeira até a última página; afinal de contas, quem escreve a maior parte da história é um pai que está à beira da morte e sabe disso. Por essa razão, ao dirigir-se ao filho maduro com quem nunca pôde conversar, o pai procura incutir-lhe divagações filosóficas que dizem respeito à condição do Homem no mundo.


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Edições norte-americana e norueguesa, respectivamente


Mas o objetivo geral da carta que o pai escreve a seu filho Georg não é, necessariamente, apenas de cunho filosófico. O que Jan Olav de fato deseja é contar ao seu filho a sua relação de adolescente com a "garota das laranjas", lá pela ida década de 1970. E eu diria que é nesse relato da história de amor entre Olav e a garota das laranjas que o livro mais cativa. O que me agradou bastante foi ler, sobretudo, uma história de amor sem exageros, perfeitamente convincente, mas que nem por isso deixa de ser bonita, reflexiva, singela e calorosa.

Sim, calorosa.

Muitas pessoas julgam erroneamente A Garota das Laranjas pela capa, e ela de fato faz crer que o livro seja infantil, ou, no mínimo, muito infanto-juvenil. Tudo bem, a história diverte leitores de todas as idades, mas, como eu disse em um tópico de discussão do Orkut, a ingenuidade e a inocência do livro são apenas aparentes. Ele é recheado de sugestões que ficam soltas no ar, e que de certo modo são interpretadas de uma maneira peculiar por aqueles leitores não tão novos.

Me sinto inclinado a dizer que este é um romance muito maduro, muito "adulto", de certa forma. Existem certas coisas nas entrelinhas (certas reflexões, certos detalhes) que escapam a um olhar menos preparado e – vamos dizer assim – menos treinado pelo tempo. De qualquer forma, essa temática de entrelinhas foi uma das coisas que mais me fizeram gostar do livro; garante, acima de tudo, que Gaarder se dirige de diferentes formas a leitores de diferentes idades.


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Outros títulos do autor lançados no Brasil


É isso. Com o estilo característico de Jostein Gaarder, leve e fluido, a história traz um charme irresistível. Estamos diante de um "conto de fadas moderno", plausível, sem apelos fantasiosos.

Por fim, resta dizer que A Garota das Laranjas superou fácil O Mundo de Sofia, que era o único livro de Gaarder que eu havia lido até então. Não que o livro mais famoso do autor seja ruim ou vazio, longe disso. Apenas não me cativou tanto quanto o que li nesse feriado. O Mundo de Sofia me pareceu algo muito didático, uma obra que está mais para manual do que para romance propriamente dito. Não é à toa que o livro será usado como "apostila de estudo" em algumas escolas do Brasil, com o advento da disciplina Filosofia na grade curricular.

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Eu soube agora mesmo que há uma espécie de filme de A Garota das Laranjas, intitulado Appelsinpiken (título original do livro). Ao que tudo indica, é norueguês, e não teve repercussão alguma por aqui pelo Brasil. Quem conseguir baixá-lo pela Internet, por favor, me avise.

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17 abril 2011

A Suíte Elefanta, de Paul Theroux

"Os romances indianos que ela lera nos Estados Unidos não a haviam preparado para o que via ali." (p. 206)

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Ocupado como estou nessas últimas semanas, imerso em estágios e trabalhos da faculdade, eu ando deixando o blog como que entregue às moscas. O post mais recente datava de duas semanas atrás.

É horrível quando o domingo vai chegando ao fim e eu me dou conta de que não há nenhum livro lido recentemente, nenhum acontecimento extraordinário no meu cotidiano, nenhuma música que renda um texto. É desanimador.

Mas, decidido a escrever algo hoje, olhei para a minha estante e vi um livro que li há algum tempo e que merece um comentário: chama-se A Suíte Elefanta (The Elephanta Suite, 2007), e foi escrito pelo famoso Paul Theroux, norte-americano conhecido por suas viagens de trem ao redor do mundo.


Sinopse: A Suíte Elefanta é um livro ousado, que desmonta os lugares-comuns sobre a Índia ao apresentar ao leitor um universo complexo e multifacetado, de estranhamentos, preconceitos e situações extremas. Paul Theroux consegue, em três histórias, capturar esse mundo contemporâneo marcado pelo tumulto e ambição de um lado, e pela espiritualidade de outro.


Dividido em três grandes contos, A Suíte Elefanta sai do gênero "relato de viagem", bastante associado ao autor, e se situa no campo da ficção. As obras de ficção de Theroux, embora pouco conhecidas, são muitas. Talvez o livro de ficção mais famoso dele seja o desconcertante romance A costa do Mosquito (que possui uma sinopse interessantíssima e que ainda estou pensando em ler).

Comprei A Suíte Elefanta numa época da minha vida em que eu estava fascinado por viagens a lugares exóticos. Lembro também que li esse livro ao mesmo tempo em que lia Vinte mil léguas submarinas, de Jules Verne.

Curiosidades à parte, devo admitir que essas três pequenas novelas de Theroux me deixaram um pouco decepcionado – e aqui eu vou direto ao assunto. Depois que terminei A Suíte Elefanta e folheei alguns outros títulos do autor, pude comprovar aquilo de que eu andava suspeitando: Theroux se posiciona deliberadamente numa espécie de pedestal americano e, só então, com esses olhos irônicos de pessoa considerada pertencente a uma sociedade mundialmente tida como exemplar, julga os países exóticos que visita. Se essa não é uma postura usual do autor (e acredito mesmo que não seja), pelo menos ela ficou muito clara no livro em questão.


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"(…) suas experiências com mulheres eram poucas (…)"


Na primeira novela, um casal da alta sociedade americana se hospeda em um hotel indiano cinco estrelas que, com seu isolamento estratégico, deixa a confusão e o caos político da região do lado de fora. Os dois americanos, assustados com a agitação civil daquela região, se refugiam no conforto do hotel, onde ainda têm de tratar com funcionários duvidosos.

Na segunda história, um executivo norte-americano vai à Índia e, depois de deixar claro que repudia todo e qualquer contato com o povo local, acaba se relacionando (para o bem ou para o mal) com sujeitos indianos suspeitos – em especial, as prostitutas Indru e Sumitra.

No último conto, Alice, uma jovem norte-americana, arranja um emprego de professora de inglês para funcionários indianos de telemarketing. Aos trancos e barrancos, a coisa vai bem, até que ela se vê vítima de um terrível acontecimento, fruto de sua relação com o povo indiano. Não é preciso muita imaginação para perceber a sagacidade irônica de Theroux: o nome da protagonista, Alice, faz referência ao famoso título de Lewis Carrol, Alice no país das maravilhas.

Em outras palavras, a escrita de Theroux deixa transparecer o sutil preconceito que ele tem com relação a outros lugares e outras culturas. Na verdade, não se trata de um preconceito propriamente dito, já que ele vai até o país conferir tudo com os próprios olhos; trata-se, antes, de um leve deboche, de julgar a cultura alheia como inferior apenas pelo fato de ela ser diferente da sua – mais desorganizada e caótica, sim, mas movida por valores diferentes.


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"(…) um maluco magrelo e queimado de sol, usando um turbante e com um pano a cobrir-lhe o baixo ventre (…)"


Isso que eu estou falando pode soar como um discurso estéril e muito politicamente correto, mas a verdade é que me incomoda esse tipo de julgamento entre culturas. Em A Suíte Elefanta, esse pedestal de que falei antes fica claro quando o leitor percebe que, em todas as três histórias, os norte-americanos figuram como frágeis e manipuláveis, vítimas do caos e da crueldade da Índia, que os seduz e os leva a cair em tentação, quando não os aniquila mesmo.

Não estou dizendo que Theroux é um patriota defensor do estilo de vida americano (realmente não é, basta conferir algumas páginas de A costa do Mosquito), mas esse tipo sutil de preconceito que ele tem com relação aos países exóticos que escolhe para visitar me deixa com um pé atrás.

Lendo A Suíte Elefanta, eu fiquei com a impressão de que estava inconscientemente comprando os argumentos norte-americanos.


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"(…) era ela quem estava feliz no trem que sacolejava (…)"


Em todas as novelas, Theroux faz questão de frisar o quanto a Índia é suja e caótica, fedorenta e opressora. Não estou aqui para discordar disso, até porque esse quadro reflete bem o que eu imagino ser o país de Gandhi. Mas, levando em conta todo o contexto de vida do autor e sua influência sobre os leitores norte-americanos, ter uma posição tão irônica e desdenhosa para com o país em questão é algo discutível.

Por fim, repito uma coisa que pode ter passado despercebida: não acredito que todos os livros de Theroux sejam assim. Sei que ele é capaz de transmitir aos seus leitores o que há de melhor na cultura alheia, o que há de mais frutífero e encantador. No entanto, infelizmente, A Suíte Elefanta não se propõe a fazer isso. Pelo contrário, faz questão de mostrar um povo atrasado, feio, barulhento, fedido e suspeito. E foi aí que o autor errou a mão: nessa visão parcial e tendenciosa, quase incontornável.


Conclusão: se o leitor quer entrar em contato com o mais famoso escritor de relatos de viagem, recomendo outro livro dele para isso.