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13 março 2011

O amante de lady Chatterley, de D. H. Lawrence

"Mas toda partida significa um encontro em algum outro lugar. E cada novo encontro é uma nova ligação." (p. 376)

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Como eu não tenho o costume de viajar durante os longos feriados nacionais (estradas abarrotadas, multidão em todos os lugares), resolvi trazer um livro para casa para passar esses cinco dias.

E o livro que comprei não foi outro que não O amante de lady Chatterley (Lady Chatterley's lover, 1928), escrito pelo polêmico inglês D. H. Lawrence.

Muitos romances atuais que hoje se julgam "obscenos" não chegam nem aos pés deste, publicado há 83 anos.


Sinopse: Poucos meses depois de seu casamento, Constance Chatterley, uma garota criada numa família burguesa e liberal, vê seu marido partir rumo à guerra. O homem que ela recebe de volta está paralisado da cintura para baixo, e eles se recolhem na vasta propriedade rural dos Chatterley.

Inteiramente devotado à sua carreira literária e depois aos negócios da família, Clifford vai aos poucos se distanciando da mulher. Isolada, Constance encontra companhia no guarda-caça Oliver Mellors, um ex-soldado que resolveu viver no isolamento após sucessivos fracassos amorosos.


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Quando o livro foi lançado, em 1928, pouquíssima gente deve ter tido a oportunidade de lê-lo imediatamente. Porque não passou muito tempo e D. H. Lawrence foi processado por "falta de pudor", e o livro, retirado sumariamente das estantes das livrarias.

O amante de lady Chatterley só voltou a ver o mundo novamente quando a editora Penguin contratou um bom time de advogados e enfrentou o processo que era responsável por manter o romance banido. Em 1960, 32 anos depois, o livro voltou a ser publicado de maneira oficial. Até então, circulavam muitas e mutiladas versões incompletas da história, chamadas de "edições piratas", para a amarga decepção do autor.

Considero que seja importante entender a história por trás desse livro. Porque Lawrence realmente escreveu uma coisa que deixa o queixo de muitas pessoas caído, até hoje. Por exemplo, ler as palavras "foder", "trepar", "boceta" ou "pau" em um romance da década de 20 ainda impressiona muita gente.

De qualquer forma, obsceno ou não, muito ou pouco pervertido, O amante de lady Chatterley é um romance extremamente bem escrito, cuja linguagem pertence ao tipo daquelas que fluem sem obstáculos, mesmo nas passagens mais densas. Costumo dizer que é muito pouco comum encontrar um autor que saiba ser cristalino sem perder a profundidade, como Lawrence ou Dostoiévski.

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E a história que Lawrence escreveu possui uma trama interessante. Pelo menos foi o que eu achei – algumas pessoas a consideram monótona. De fato, o cenário como um todo não muda muito – varia entre a casa de Wragby e o bosque de Mellors, e depois Veneza – e os personagens são reduzidos. Mesmo assim, a tensão existente entre Clifford e Connie, e todo aquele dilema que a moça enfrenta entre a liberdade e a rotina conservadora, são suficientes para fazer do livro um troço muito instigante e reflexivo.

E o que torna a coisa mais bárbara ainda é o fato de que todos os personagens têm razão e estão equivocados, ao mesmo tempo. De modo que é difícil tomar o partido de alguém. Se por um lado Connie tinha razão em procurar a felicidade em outro homem, ela estava também errada por abandonar o marido paralítico. E o marido estava errado por considerar a classe proprietária a senhora de tudo, assim como tinha razão em manter a estabilidade matrimonial e fornecer emprego aos mineiros. Mellors, o amante, foi insensível ao trair o próprio patrão, embora tivesse suas boas razões para tanto.

E é assim que o romance de Lawrence passeia pelas baixezas humanas, revelando todas as fraquezas das pessoas e as suas razões, nem sempre politicamente corretas. Considerei o livro muito bom, de um modo geral. Sem dúvida, um romance sobre infidelidade que deve figurar entre os clássicos absolutos da História da literatura.

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Apesar de toda a sordidez presente nas páginas do livro, o final foi muito equilibrado. Mas não vou me deter muito no final da história por motivos óbvios.

Para quem gosta de personagens bem construídos e tramas instigantes, O amante de lady Chatterley é um prato farto.

01 março 2011

A cura de Schopenhauer, de Irvin D. Yalom

"A maior sabedoria é ter o presente como objeto maior da vida, pois ele é a única realidade, tudo o mais é imaginação." (p. 76)

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Foi depois do sucesso de Quando Nietzsche chorou que eu comecei a ver os outros livros do autor Irvin D. Yalom serem lançados por aqui pelo Brasil.

Na semana passada, contrariando meu hábito de não ler nenhum tipo de literatura no período de aulas, eu comecei o romance A cura de Schopenhauer (The Schopenhauer cure, 2005), e o terminei ontem.

A leitura foi feita em conjunto com minha queridíssima amiga Gleici Ketlem, leitora de livros tão voraz quanto eu. Te adoro, Gle! :)


Sinopse: Ao descobrir-se portador de um câncer fatal, Julius Hertzfeld faz uma avaliação de sua longa carreira como psicoterapeuta e decide procurar seu maior fracasso – um antigo paciente chamado Philip Slate, viciado em sexo que curou a si mesmo seguindo as doutrinas de Schopenhauer – e o convida a participar de sua terapia em grupo.

A presença de uma ex-conquista de Philip, que o odeia pela frieza com que a descartou, obriga-o a encarar o passado e desencadeia conflitos entre os pacientes e acirradas discussões filosóficas com Julius.


De Irvin D. Yalom eu só havia lido Quando Nietzsche chorou, que recebi de presente do meu amigo padre Alfred – alemão que estuda comigo na universidade. A história é um misto de ficção e fato, em que o analista Joseph Breuer (mentor e amigo de Sigmund Freud) trata um paciente mais que extraordinário: ninguém menos que o filósofo Friedrich Nietzsche, portador de uma angst terrível. Enquanto o maduro Breuer analisa Nietzsche sessão após sessão, vemos um Freud jovem e cheio de expectativas ter os seus primeiros insights sobre a teoria do inconsciente.

Em A cura de Schopenhauer, temos um enredo bem menos ambicioso. Não é um épico, e as personagens não são figuras importantíssimas das ciências humanas, como ocorre no Quando Nietzsche chorou. Estamos diante de um enredo mais linear que o do best-seller do autor, mais enxuto, talvez, mais descomplicado. Mesmo assim, mesmo com essa simplicidade aparente, digo que gostei mais deste, A cura de Schopenhauer.

O livro é ótimo. Mas sou de certa forma suspeito para falar isso, porque, na condição de estudante de Psicologia, me interesso por temas que nem sempre interessam a terceiros. Isso não significa, óbvio, que quem não é do ramo da Psicologia não vai gostar do livro que acabei de ler ontem. No entanto, é aconselhável que o leitor tenha pelo menos um mínimo de interesse por psicoterapias, psicologia, filosofia e coisas afins.


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Capa de Quando Nietzsche chorou e foto de Arthur Schopenhauer


Um dos maiores atrativos do livro são os capítulos em que Yalom conta a vida de Schopenhauer, de maneira resumida e voltada para curiosidades sobre esse excêntrico filósofo alemão. Esses capítulos são como que inseridos à parte na história, geralmente alternando com os capítulos em que se narra o enredo propriamente dito. A biografia de Schopenhauer é destilada com leveza e graça, e isso é um ótimo ponto de apoio para quem está lendo o livro, além de ser fonte cheia para quem está atrás de saber algo sobre a vida desse homem.

De um modo geral, A cura de Schopenhauer é um livro que só se passa em um único cenário, salvo na ocasião em que se narra a viagem de Pam à Índia. Fora isso, todo o drama dos personagens tem lugar na sala da terapia de grupo, o que, para uns, pode ser extremamente monótono e desinteressante. Realmente, acho que Yalom poderia ter expandido mais o palco e ter mostrado a vida dos personagens mais para além do grupo terapêutico. Erro dele? Não necessariamente. Apenas uma preferência em dar ênfase à psicoterapia.

Cada capítulo é iniciado com um trecho da obra de Schopenhauer, todos muito bonitos e reflexivos. Um que achei bastante especial foi o seguinte:

A vida pode ser comparada a um bordado que, no começo, vemos pelo lado direito e, no final, pelo avesso. O avesso não é tão bonito, mas é mais esclarecedor, pois deixa ver como são dados os pontos. p. 238

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Em suma, adorei A cura de Schopenhauer, livro que achei mais interessante do que Quando Nietzsche chorou, best-seller de Irvin D. Yalom. Agora fiquei com mais vontade de ler os escritos de Schopenhauer; eu já tinha lido A arte de escrever, que achei belíssimo. Talvez eu vá atrás de O mundo como vontade e representação.


Conclusão: interessantíssimo para quem quer ler algo sobre psicoterapia ou filosofia. Nesse aspecto, recomendadíssimo.

20 fevereiro 2011

Nintendo, PS3 e Uncharted

"A tecnologia só é tecnologia para quem nasceu antes de ela ter sido inventada." (Alan Kay)

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Quando meu irmão anunciou, no final do ano passado, que iria comprar um console Playstation 3 para nos divertirmos e esquecermos o mundo real, a primeira coisa na qual pensei foi: Quais serão os jogos?

Sempre adorei video-games. Minha época de jogador de Super Nintendo foi áurea, extremamente proveitosa; eu curtia os mais variados jogos que aquele console simpático da Nintendo poderia oferecer, e joguei muitos deles, desde o insubstituível Mario Bros até o sanguinolento Mortal Kombat Ultimate, passando pelos games baseados em quadrinhos e filmes, etc.

Um jogo do Super Nintendo que eu adorava (e que nunca tive, até baixar um milagroso emulador do console) era o clássico Donkey Kong Country. Gostava dos gráficos, que naquela época eram o máximo, e gostava também da idéia do game, que ia conduzindo o jogador através de uma série de desafios que aumentavam sistematicamente o nível de dificuldade com o passar das fases.

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Donkey Kong

O Super Nintendo foi (acreditem) o último video-game que tive e que pude chamar de meu. Quando o fabuloso Nintendo 64 foi lançado e o queixo de todas as crianças daquela geração caíram nos seus pés, minha prima não perdeu tempo e comprou (ou melhor, o pai dela comprou para ela) aquele indescritível console que reproduzia jogos em três dimensões. Eu, claro, ia para a casa dela e monopolizava providencialmente o joystick. Um dos jogos de que mais gostava era 007 – GoldenEye; e quando eu percebi que atirava nos pés dos inimigos e eles reagiam pulando e segurando as próprias botas, achei que a humanidade havia alcançado o ápice no que se referia aos video-games.

Um outro jogo que me fazia ficar sentado a tarde toda na frente da TV da minha prima era Mario Party. Até hoje, com o emulador do N64 aqui no PC, Mario Party está entre os remanescentes daquela época com os quais me divirto até os dias atuais. Gostaria de ter um Nintendo Wii e ver o que fizeram com essa famosa franquia dos jogos do Mario, que já está na oitava edição.

O nome da Nintendo deixou de ser sinônimo de video-game quando descobri que havia um sinistro console fabricado pela Sony. A única coisa produzida pela Sony que eu conseguia imaginar era rádio de pilha e disckman. Achei que estavam tirando sarro da minha cara quando disseram que os jogos do Playstation eram rodados através de CD's. Numa época em que até mesmo os aparelhos de DVD eram raros, ter um console que rodava jogos por CD era uma coisa que sequer passava pela minha rica imaginação.

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James Bond – GoldenEye (N64)


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Mario Party 2 (N64)


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Playstation (vamos ser sinceros… qual é o mais simpático, este ou o quadradão SNES?)


O tempo passou, o Playstation foi evoluindo, chegou a sua terceira edição (que meu irmão comprou no final do ano passado) e agora eu ando fascinado com um jogo que atende pelo nome de Uncharted. Extremamente desligado do mundo circundante, passo o dia inteiro conduzindo o personagem Nathan Drake pelos confins do mundo, superando perigos dignos de Indiana Jones que, quando criança, eu pensava que só saíam da cabeça de Steven Spielberg.

Os jogos da série Uncharted são muitíssimos parecidos com os de Lara Croft, sendo que o game produzido pela Naughty Dog tem um personagem masculino como herói. E como é cativante a personalidade de Nathan Drake! Nada de aventureiros durões, absolutamente inteligentes e sérios; Drake é cômico como ninguém, visual descolado, solta piadas irônicas o tempo todo sobre a cilada em que se meteu, além de ser ousado e "seja o que Deus quiser". Um cara muito simpático que, se fosse real, eu gostaria de conhecer pessoalmente.

Ando jogando Uncharted 2 e estou impressionado com a qualidade do game, em vários aspectos. Em primeiro lugar, a jogabilidade é leve e fácil; ou seja, não chega a ser nenhum bicho-de-sete-cabeças. Facilidade que eu já havia percebido na primeira edição do jogo. Em segundo lugar, os encarregados do cenário capricharam dessa vez: quando Drake está no Nepal em meio a uma explosiva guerra civil, o que não falta é destruição por todos os lados, caixas jogadas nas ruas, carros capotados, prédios tombados, fumaça, entulho etc. E tudo isso com uma riqueza de detalhes que me deixou verdadeiramente impressionado.

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Outra coisa: as seqüências de ação do jogo são impagáveis. Para citar apenas duas, fico com aquela em que Drake e Elena estão dentro de um prédio, no Nepal, e são atacados por um helicóptero das forças inimigas; o edifício vai tombando aos poucos e o objetivo é pular para a janela de outro prédio, vizinho, enquanto os móveis caem sobre eles. Fantástico. Para quem se fascinava com as seqüências de Batman & Robin no SNES, Uncharted é estonteante.

A outra grande seqüência é a do trem. Num determinado momento, antes de ir parar no Tibet, Drake sobe em um trem inimigo e percorre toda a sua extensão (pelo menos, boa parte dela), abatendo os capangas dos vilões, subindo e descendo pelos vagões. O que mais impressiona nesse capítulo da aventura é o cenário, fantástico, que vai se desfilando enquanto o trem anda. A locomotiva passa em alta velocidade por pântanos, florestas densas, pontes, desfiladeiros, túneis etc. E esse cenário fantástico nunca se repete, por mais que você se demore de propósito. Impressionante.

Corre um boato de que Uncharted será transformado em filme. Se preservarem nas telas dos cinemas a carga de dinamismo presente nos jogos, fico satisfeito. Além disso, claro, a história deve estar à altura. Mas a origem de Drake é muito vaga, ainda não foi desenvolvida de forma apropriada pelos próprios criadores, e então fica difícil fazer um filme contando de onde veio o personagem de Uncharted. 

Se esse game fosse um livro, eu digo que teria sido escrito por Matthew Reilly.

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Portanto, fica a recomendação para quem gosta de jogos de aventura a la Indiana Jones. Uncharted é um jogo que, sem dúvida, você não vai se arrepender de ter – e, óbvio, de jogar.

13 fevereiro 2011

Admirável mundo novo, de Aldous Huxley

"O sentimento está à espreita nesse intervalo de tempo entre o desejo e sua satisfação." (p. 84)

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Sempre tive uma vaga vontade de ler o livro Admirável mundo novo (Brave new world, 1932), mas nunca consegui ter o ânimo nem o tempo necessário para tanto. Além disso, eu também não me sentia estimulado intelectualmente para encará-lo. Estar empolgado para ler algo sobre uma sociedade utópica baseada em 700 anos no futuro não era o bastante; eu tinha que estar, também, disposto a encarar um bom ensaio sociológico em forma de romance.

Acontece que, na semana passada, meu professor de Psicologia Social II indicou o mais famoso livro de Aldous Huxley como leitura complementar. Era o empurrão que faltava. Li o livro.

E o achei maravilhoso.


Sinopse: 'Admirável mundo novo' narra um hipotético futuro no qual as pessoas são modeladas biologicamente e condicionadas psicologicamente a viverem em harmonia com as leis e as regras sociais, dentro de uma ditadura científica que torna o mundo absolutamente estável, feliz e inócuo.

Nesse mundo está Bernard Marx, um psicólogo que se sente desajustado na sociedade da Londres perfeita. Ao fazer uma viagem ao Novo México, Bernard traz para Londres um sujeito chamado John, tido como "selvagem" por pertencer a uma comunidade marginal cujos hábitos foram ultrapassados há séculos. Passando a residir em Londres, John, moralista e conservador, impulsionado por Bernard, começa a entrar em conflito com as rígidas regras sociais.


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O ano é 632 d.F. Ou seja, 632 anos depois de Nosso Ford, figura essa que substituiu Cristo depois da Guerra dos Nove Anos. Assim como no exemplar modelo fordiano de produção em série, tudo o que acontece no admirável mundo novo é fabricado em massa e distribuído como tal: diversão, trabalho, educação e até mesmo os seres humanos, que são produzidos em laboratório, aos montes, de forma organizada e conveniente, para depois serem separados em castas específicas.

Dessa forma, todos os dispositivos sociais assumem a sua função de serem, por excelência, voltados para as massas, para o coletivo. Não há lugar para a individualidade. Todos os espaços sociais são forjados de forma apropriada, para que as engrenagens dessa sociedade absolutamente estabilizada continuem funcionando, sempre em prol da união entre os indivíduos. É por isso que toda e qualquer atividade solitária – incluindo as que geram prazer ou estimulem o pensamento crítico, como a leitura – são desestimuladas.

No meu caso, o que mais chamou atenção no livro de Huxley foi a presença de uma promiscuidade explícita e natural no modo de vida dos indivíduos que compõem a Sociedade. Isso porque os administradores do Novo Mundo acreditam na idéia – sustentada por Freud, diga-se de passagem – de que os impulsos sexuais, quando não satisfeitos, tendem a desestabilizar os membros da Sociedade, uma vez que desejos reprimidos podem gerar sentimentos desatinados e perigosos para a ordem das coisas.

Reprimido, o impulso transborda, e a inundação é sentimento; a inundação é paixão; a inundação é loucura até (…) Reduza-se esse intervalo, derrubem-se todos esses velhos diques inúteis. (p. 84)

Por essa razão, desde bebês, os membros do Novo Mundo são condicionados à promiscuidade (entre outras coisas que satisfaçam os primitivos desejos humanos), seguindo ao pé da letra um famoso jargão de sua educação infantil: "Cada um pertence a todos".


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Analisando o romance nos dias de hoje, o elemento do sexo pode parecer uma coisa trivial, mas, para uma obra que foi publicada em 1932, isso constituía uma pura heresia, algo totalmente chocante e surpreendente para a sociedade. Fico imaginando a reação de alguns conservadores do início do século passado ao lerem a passagem em que as crianças estão brincando de jogos eróticos no jardim do parque. Não surpreende que o livro tenha sido proibido em muitos lugares (incluindo escolas) da época; não só na Inglaterra, mas em alguns pontos do Brasil, também.

Outra coisa muitíssimo instigante no futuro projetado por Aldous Huxley é que a comunidade mundial é dividida em 5 grandes castas: Alfa, Beta, Gama, Delta e Ípsilon. Enquanto as duas primeiras se ocupam com um trabalho mais mental e intelectualizado, as três últimas se encarregam do pesado trabalho manual nas corporações. E o x da questão é que todas as pessoas concordam com o estado em que elas vivem. Tanto as Ípsilons quanto as Alfas estão satisfeitas vivendo no espaço social que lhes foi destinado, sendo que as Alfas possuem uma consciência mais refinada da situação geral – e por isso, curiosamente, são um pouco menos felizes.

Bem, eu não vou abordar todas as milhares de questões levantadas pelo livro, não só porque a postagem ficaria imensa, mas também porque é melhor ler o romance sem muita idéia do que se pode encontrar pela frente. Além do mais, qualquer coisa que eu escrever aqui será incompleta e poderá trazer uma visão distorcida da obra. Portanto, vou me conter e apenas dizer que recomendo muitíssimo a leitura desse romance, tanto para os que gostam de ensaios sociológicos, quanto para os que também curtem uma história envolvente.


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Só posso dizer, por enquanto, que Admirável mundo novo foi uma leitura fascinante para mim. Huxley é extremamente ácido em sua ironia, em seu sarcasmo, e todas as páginas são recheadas de zombaria e deboche às convenções sociais – não apenas do Mundo Novo, mas da nossa própria sociedade, que se vê refletida em 632 d.F.

Aliás, a ironia do livro já começa no título.

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Tive o imenso prazer de ler Admirável mundo novo junto com uma grande amiga minha, a Gleici Ketlem. Pela indicação que eu fiz, ela baixou o romance pelo PC e começamos praticamente no mesmo dia, terminando também quase no mesmo dia. Descobri que ler um livro na mesma hora em que uma pessoa querida também lê é extremamente agradável. Valeu, Gle! Te adoro! :)


"Livraram-se deles. Sim, é bem o modo dos senhores procederem. Livrar-se de tudo que é desagradável, em vez de aprender a suportá-lo. Se é mais nobre para a alma sofrer os golpes de funda e as flechas da fortuna adversa, ou pegar em armas contra um oceano de desgraças e, fazendo-lhes frente, destruí-las... Mas os senhores não fazem nem uma coisa nem outra. Não sofrem e não enfrentam. Suprimem, simplesmente, as pedras e as flechas. É fácil demais." (p. 364)


Vale lembrar que o livro de Aldous Huxley foi adaptado para o cinema por Leslie Libman e Larry Williams, em 1998.

Por fim, deixo os leitores do blog com as palavras do próprio Huxley sobre ditaduras científicas e questões de ordem social no mundo de hoje. Ele morreu em 1963, no mesmo dia em que J. F. Kennedy foi assassinado.

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