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17 abril 2010

Do Diário de Sílvia, de Erico Verissimo

“Devemos ter a coragem de examinar de quando em quando a coleção de faces que não usamos em público.” (p. 44)

Do Diário de Sílvia Erico Verissimo

Durante a tarde modorrenta de hoje (chuvosa, silenciosa e fria, perfeita), eu finalizei a leitura do livro Do Diário de Sílvia (1962), parte integrante da saga O Tempo e o Vento. Assim como Ana Terra e Um Certo Capitão Rodrigo (dois outros volumes que fazem parte da saga), Do Diário de Sílvia foi editado em um pequeníssimo volume (de 100 páginas) e vendido como história à parte.

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Sinopse: Em Do Diário de Sílvia, uma professora de 25 anos passa a limpo sua vida, o casamento em ruínas, o amor pelo cunhado e a perda paulatina da fé.

O exército de Hitler invade a França. No Brasil, Getulio Vargas faz um discurso pró-Eixo. Enquanto isso, na pequena cidade de Santa Fé, Sílvia vê desmoronar seu casamento com Jango Cambará, um fazendeiro rude e pouco carinhoso. Ela se casou sem amor e agora, em sua vida de casada, "fala e se movimenta sem convicção". Como tudo foi dar tão errado?

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Eu costumo dizer que O Diário de Anne Frank é um ótimo livro (como documento histórico, então, nem se fala), mas ele pode parecer enfadonho para alguns leitores porque, sobretudo, não há um enredo que segue uma determinada linha padronizada, clássica da literatura: apresentação dos personagens, apresentação do conflito, desenrolar do conflito, clímax e desfecho. A evidente ausência desses elementos ocorre porque, como todo diário pessoal, as notas do confidente não passam disso: notas de confidente.

Do Diário de Sílvia apresenta esse mesmo… defeito? Não, claro que não; isso não é um defeito. O problema é que, como o livro é vendido independentemente da saga O Tempo e o Vento, o leitor espera encontrar nele algo que tenha aquilo que eu disse antes, e que os diários de fato não possuem: começo, meio e fim bem definidos. Ou seja, esperam encontrar uma história.

Há ainda outra coisa importante: embora eu não tenha lido O Tempo e o Vento inteiro, sei que Do Diário de Sílvia é uma espécie de transição de uma determinada parte para outra parte. Em outras palavras, é através do diário da senhorita Sílvia que o leitor da trilogia fica sabendo o que aconteceu com personagens que surgiram antes (como é o caso de Maria Valéria, Toríbio Cambará, Arão Stein, e outros).

Em suma, não acho que a Cia. das Letras deveria vender esse livro isoladamente, porque é necessária a leitura de boa parte da saga para aproveitar a leitura deste.

No mais, como não poderia deixar de ser aqui, tudo o que Erico Verissimo escreveu é digno de nota. Tudo o que ele escreveu é belo, universal e faz as pessoas refletirem. Não é à toa que o tenho na mais alta conta: depois de ler livros como Caminhos Cruzados e Um Lugar ao Sol, percebi que tudo o que a literatura brasileira tem de mais belo está ali – ali naquele autor.

No caso de Do Diário de Sílvia, nosso Erico Verissimo dá uma de Liev Tolstoi e encarna um personagem feminino. O resultado: já vi mulheres comentando em sites como o Skoob que muitos sentimentos profundos do universo delas está contido ali no livro. Quem sou eu para dizer o contrário?

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“A solidão e o tédio são as duas mais graves doenças de nossa época. Podem levar o homem ao desespero e ao suicídio. (Quem foi mesmo que escreveu que é o tédio que leva as nações à guerra?) São enfermidades do espírito a que estão sujeitas principalmente as pessoas sem fé. Porque não pode sentir-se só quem conta com Deus, a mais poderosa e confortadora presença do Universo. Não pode sucumbir ao tédio quem sabe apreciar em toda a sua beleza, riqueza e mistério o mundo e a vida que o Criador lhe deu.” (p. 71)

P.S.: não sou religioso.

09 abril 2010

Vale a pena ler de novo: Álbum de Viagens, de Michael Crichton

“Sentia uma real necessidade de rejuvenescimento, de experiências que me afastassem das coisas que fazia habitualmente, da vida rotineira que levava.” (p. 9)

Principal característica do post: conversa descontraída.

Álbum de Viagens Michael Crichton

O quadro Vale a Pena Ler de Novo é um tópico novo do blog que se destina a mostrar às pessoas (leia-se: meus amigos) aqueles livros que eu li e que são interessantes para uma releitura posterior. Existem vários títulos por aí afora que demandam uma nova leitura, seja para uma melhor assimilação do conteúdo ou simplesmente porque o leitor o achou muito bom e quer lê-lo uma segunda vez. O objetivo do Vale a Pena Ler de Novo é servir de guia para mostrar que livros são esses e falar um pouco sobre a minha experiência pessoal com eles.

Partindo do princício de que os blogs são espécies de diários virtuais, tão pessoais, eu devo bater na tecla que diz que os livros aqui expostos são expostos por conta do meu gosto pessoal, e não necesseriamente fazem parte dos títulos que eu julgo universalmente clássicos.

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Eu tenho o costume de dizer para os meus amigos e familiares que foi Michael Crichton quem me ensinou a ler livros de literatura. Como eu já andei dizendo por aqui, Jurassic Park foi o primeiro livro “para adultos” que li, e ele foi o bastante para que depois viessem, em rápida sucessão, os outros volumes do autor: Mundo Perdido, Linha do Tempo, Esfera, Estado de Medo, Next, Um Caso de Necessidade, etc.

Pode-se dizer que é por conta de Michael Crichton que, até hoje, eu gosto de livros de aventura. Certas coisas surgem na nossa infância e não mudam nunca. Se eu pegar um livro hoje e constatar que ele tem boas doses de aventura, eu logo associo o gênero a Crichton.

Li Álbum de Viagens pela primeira vez quando tinha 16 anos, e posso dizer que ele mudou uma parte significativa da minha filosofia de vida. (Que filosofia de vida um cara de 16 anos pode ter? Mas tudo bem.) Naquela época, todos os relatos de Crichton – suas idas ao Oriente, seus mergulhos em águas de Bornéu, suas escaladas em pirâmides astecas no México, suas jornadas nas savanas africanas – tudo isso abriu meus horizontes até então diminutíssimos, resumidos às paredes do meu quarto e da sala de aula.

Eu lia o livro avidamente e, à medida que o lia, via quão insignificante a minha vida iria continuar sendo até que eu tomasse a resolução de não deixar que ela seguisse esse curso monótono de rotinas e hábitos. Essa idéia persiste até hoje dentro da minha cabeça, e posso dizer que ela veio junto com esse livro. Lendo as excurssões perigosas de Crichton – que já era meu ídolo literário há seis anos – eu sentia invejas e ansiava por ter uma existência cambiante como a dele.

Inclusive, embriagado pelo desejo de viver experiências novas e arriscadas, cheguei a convidar minha namorada da época para uma excurssão até o litoral do estado via ônibus, onde daríamos um passeio tal qual o passeio de Crichton pelas praias de Cingapura. (O plano obviamente não deu certo, por vários motivos; dentre eles, o da consciência de que uma viagem de ônibus não seria nem um pouco empolgante).

Embora hoje eu continue achando que as aventuras de Crichton realmente foram empolgantes e epifânicas, passei a interpretá-las por um outro ângulo (isso depois da releitura do livro). Vejo-as agora como viagens feitas por um escritor de best-sellers bem sucedido e cheio da grana, que, junto com um punhado de outros turistas estribados, brincava de Indiana Jones. Pode parecer uma visão talvez cruel e sem dúvida decepcionante, e vocês podem ainda estar se perguntando “Se Marlo Renan se decepcionou em parte com a releitura do livro, por que a recomenda?” mas a verdade é que, mesmo com o defeito que indiquei no começo deste parágrafo, uma segunda leitura de Álbum de Viagens vale a pena.

Eu poderia citar vários motivos para explicar isso, porém vou me deter apenas aos principais: (a) Crichton é dono de uma escrita cristalina e perfeita, e dar uma reolhada no jeito como ele escrevia não é demais, não mesmo. (b) O livro não conta apenas as peripécias do autor ao redor do mundo, mas também mostra o que Crichton pensava durante a universidade de medicina, como lidava com os professores carrascos e, o mais legal de tudo, como ele abandonou a faculdade perto do final para se tornar escritor. (c) Essa é a obra mais estritamente pessoal dele. E isso, por si só, é impressionante, porque Michael Crichton era autor de best-sellers conhecidíssimos e era tido como alguém destituído de vida pessoal. É como se, nos dias de hoje, um Dan Brown da vida lançasse um livro falando sobre suas experiências pessoais e fosse totalmente sincero contando-as.

Mesmo achando agora que as excursões de Crichton eram, na verdade, “passeios” de alguém rico, a releitura do livro Álbum de Viagens vale a pena para se deparar outra vez com as belas lições que o autor extraía de cada experiência.

Acho que a idéia é essa, mesmo.

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“Freqüentemente, tenho a impressão de que busco uma região distante no mundo para me lembrar de quem realmente sou. Não há qualquer mistério sobre a razão dessa atitude. Deslocado do seu ambiente habitual, privado de seus amigos, de suas rotinas diárias, de sua geladeira cheia de comida, de seu armário cheio de roupas – destituído de tudo isso, você é compelido à experiência direta.” (p. 10)

04 abril 2010

À Espera de Um Milagre, de Stephen King

“Ei, pessoal! Venham cá ver o que o sr. Guizos sabe fazer!” (p. 145)

À Espera de Um Milagre Stephen King

Hoje pelo início da manhã, com uma terrível dor no pescoço, eu finalizei a leitura do romance À Espera de Um Milagre (The Green Mile, 1996), escrito por um dos mais conhecidos autores norte-americanos contemporâneos: o mestre do terror Stephen King, de O Iluminado e Carrie, A Estranha.

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Sinopse: Paul Edgecombe é um homem velho. E no asilo para idosos onde agora passa os seus dias, é assaltado por lembranças do passado. Por muito tempo, ele foi guarda do presídio onde ficavam os condenados à morte. E agora há uma lembrança especial, assustadora, que o atormenta e que não o deixará em paz até que ele a conte em detalhes: a de John Coffey, indiciado pela morte de duas meninas.

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“Aconteceu em 1932, quando a penitenciária estadual ainda ficava em Cold Mountain. E, é claro, a cadeira elétrica também estava lá.” É assim que tem início À Espera de Um Milagre, um livro fantástico (em ambos os sentidos: bom e sobrenatural) que possui 500 páginas e que demorei uma semana para ler. Embora eu ainda não tenha tido contato com nenhuma outra obra de King, posso já afirmar, com certa ousadia mas sem medo de estar comentendo um equívoco, que este é um dos melhores, se não o melhor, livro de Stephen King.

O estilo de escrita do autor é impecável neste romance; todos aqueles detalhes que os bons escritores escrevem e que dão gosto à leitura estão lá. King possui uma maneira singular de contar suas histórias, e isso revela seu pleno domínio sobre a arte literária, nos mostrando expressões e descrições que dizem muito em poucas palavras.

Uma coisa interessante neste livro é que ele foi escrito em seis partes independentes, ou seja, à medida que o autor finalizava uma parte, ele a publicava imediatamente. Como, por exemplo, os romances folhetinescos de Dickens e José de Alencar. Desse modo, os leitores eram obrigados a esperar até que King publicasse uma nova parte; e, o que é mais interessante, nem o próprio King sabia como a história do detento John Coffey iria terminar. É esse improviso que torna, em parte, o romance tão interessante.

Ah, claro, existe também o filme homônimo que foi baseado no livro, e que inclusive chegou a concorrer ao Oscar 2000 na categoria de melhor filme, melhor ator coadjuvante, melhor roteiro adaptado e melhor som. Ainda não o assisti, mas, como gostei tanto do livro, é certo que eu passe mais tarde em uma locadora e o pegue para vê-lo com uma boa pipoca acompanhando.

Capa do DVD duplo

 Um dos pôsters do filme

A história de Stephen King nos faz refletir sobre as injustiças de que o sistema penitenciário não está livre. Nos faz refletir sobre como um homem inocente pode ser duramente (e, em certas ocasiões, irremediavelmente) condenado. Mas, mais do que isso, acima de tudo, nos faz refletir sobre as dúvidas do ser humano, sobre o que é certo e o que é errado, sobre o que é realmente importante e o que não é. Longe de moralismos, o livro traz esta bela reflexão como brinde.

Leitura altamente recomendada.

29 março 2010

O Cromossomo Calcutá, de Amitav Ghosh

“(…) o único modo de escapar da tirania do conhecimento é voltá-lo para si mesmo.” (p. 275)

O Cromossomo Calcutá Amitav Ghosh

Hoje pelo início da manhã eu finalizei a leitura do romance O Cromossomo Calcutá (The Calcutta Chromosome, 1996), escrito pelo indiano Amitav Ghosh e vencedor do Prêmio Arthur C. Clarke, nos Estados Unidos. Ghosh passou a infância em Bangladesh e Sri Lanka, estudou em Nova Délhi e Oxford e atualmente é professor em Colúmbia, Nova York.

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Sinopse: Na Índia devastada pela malária do final do século XIX, cientistas ingleses se mobilizam em busca da cura para a terrível doença. À frente está o médico militar Ronald Ross, que por seu trabalho receberia o Nobel de Medicina em 1902. Enquanto pesquisa, Ross torna-se vítima de uma seita de fanáticos religiosos interessados em desvendar os segredos de uma desconhecida e surpreendente mutação genética que está ligada à doença e que promete a imortalidade da alma.

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Impulsionado pela qualidade extraordinária do romance Maré Voraz (o qual ganhou a honra de figurar como destaque do mês aqui no Artigos Efêmeros), eu fiquei com uma insaciável vontade de adquirir outros títulos do autor. Ghosh é dono de uma escrita cristalina e atraente ao extremo, e suas histórias são verdadeiras amostras de como a imaginação de alguém pode ser livre, poderosa e estonteante.

Infelizmente, aqui no Brasil existem apenas três livros seus traduzidos para o português: Maré Voraz, O Cromossomo Calcutá e O Palácio de Espelho. Este último livro, inclusive, é um verdadeiro tijolão, uma espécie de monumento editorial mesmo, e talvez seja por isso que eu ainda esteja avaliando-o melhor. Afinal de contas, não seria agradável comprar um livro caríssimo, gigantesco, para depois se decepcionar.

De qualquer modo, seria difícil se decepcionar com Amitav Ghosh. Em O Cromossomo Calcutá, por exemplo, o autor revela uma qualidade interessante que poucos outros escritores  conseguem apresentar quando se trata de expor um assunto árido e de difícil compreensão: clareza. Esse é o trunfo de Ghosh, a sua característica mais diferenciadora. Percebe-se o cuidado e a preocupação que ele tem em não deixar o leitor “boiando” enquanto lê; toda passagem que exige uma explicação mais exigente é escrita de modo claro, limpo e interessante. O resultado disso é que você não se perde em nenhum momento da trama.

Mesmo assim, é fácil perceber por que a maioria dos leitores não apreciou o romance. O enredo de O Cromossomo Calcutá beira o delírio literário. Ghosh realmente pôs sua imaginação para correr solta, e isso é evidente quando o livro vai avançando e tomando proporções assustadoras. Não é uma história nem um pouco convencional. Aliás, é muito diferente de tudo o que eu já tinha lido até hoje. Achei-a de fato originalíssima e surpreendente, além de muito imaginativa. Vale a pena os fãs de ficção científica e suspense darem uma olhada. No entanto, que a ressalva seja feita: prepare-se para um livro totalmente fora do padrão imaginado.

Particularmente, eu adorei o livro. Embora o final tenha deixado um pouco a desejar (é confuso e abrupto), todo o desenvolvimento da história compensa, na minha opinião. Personagens e acontecimentos que parecem não ter nenhuma importância na trama vão ganhando um papel cada vez mais proeminente, e isso é muito interessante.

Só como comparação, O Cromossomo Calcutá lembra muito os romances iniciais de Michael Crichton: ficção científica e suspense mesclados em uma trama em que não se sabe onde termina a realidade e onde começa a fantasia.

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Abaixo, transcrevo um pequeno trecho do livro que achei interessante, embora não tenha trazido nenhuma revelação para mim (era algo que eu já sabia):

“Os biólogos sofrem uma pressão muito grande para que suas descobertas acompanhem as ideologias políticas. Os políticos de direita querem que eles descubram os genes responsáveis por tudo, desde a pobreza até o terrorismo, a fim de obter um álibi para castrar os pobres ou jogar uma bomba nuclear no Oriente Médio. Já a esquerda fica em pé de guerra se disserem qualquer coisa, não importa o quê, sobre expressão biológica de características humanas (…)” (p. 227)