“Devemos ter a coragem de examinar de quando em quando a coleção de faces que não usamos em público.” (p. 44)
Durante a tarde modorrenta de hoje (chuvosa, silenciosa e fria, perfeita), eu finalizei a leitura do livro Do Diário de Sílvia (1962), parte integrante da saga O Tempo e o Vento. Assim como Ana Terra e Um Certo Capitão Rodrigo (dois outros volumes que fazem parte da saga), Do Diário de Sílvia foi editado em um pequeníssimo volume (de 100 páginas) e vendido como história à parte.
~~
Sinopse: Em Do Diário de Sílvia, uma professora de 25 anos passa a limpo sua vida, o casamento em ruínas, o amor pelo cunhado e a perda paulatina da fé.
O exército de Hitler invade a França. No Brasil, Getulio Vargas faz um discurso pró-Eixo. Enquanto isso, na pequena cidade de Santa Fé, Sílvia vê desmoronar seu casamento com Jango Cambará, um fazendeiro rude e pouco carinhoso. Ela se casou sem amor e agora, em sua vida de casada, "fala e se movimenta sem convicção". Como tudo foi dar tão errado?
~~
Eu costumo dizer que O Diário de Anne Frank é um ótimo livro (como documento histórico, então, nem se fala), mas ele pode parecer enfadonho para alguns leitores porque, sobretudo, não há um enredo que segue uma determinada linha padronizada, clássica da literatura: apresentação dos personagens, apresentação do conflito, desenrolar do conflito, clímax e desfecho. A evidente ausência desses elementos ocorre porque, como todo diário pessoal, as notas do confidente não passam disso: notas de confidente.
Do Diário de Sílvia apresenta esse mesmo… defeito? Não, claro que não; isso não é um defeito. O problema é que, como o livro é vendido independentemente da saga O Tempo e o Vento, o leitor espera encontrar nele algo que tenha aquilo que eu disse antes, e que os diários de fato não possuem: começo, meio e fim bem definidos. Ou seja, esperam encontrar uma história.
Há ainda outra coisa importante: embora eu não tenha lido O Tempo e o Vento inteiro, sei que Do Diário de Sílvia é uma espécie de transição de uma determinada parte para outra parte. Em outras palavras, é através do diário da senhorita Sílvia que o leitor da trilogia fica sabendo o que aconteceu com personagens que surgiram antes (como é o caso de Maria Valéria, Toríbio Cambará, Arão Stein, e outros).
Em suma, não acho que a Cia. das Letras deveria vender esse livro isoladamente, porque é necessária a leitura de boa parte da saga para aproveitar a leitura deste.
No mais, como não poderia deixar de ser aqui, tudo o que Erico Verissimo escreveu é digno de nota. Tudo o que ele escreveu é belo, universal e faz as pessoas refletirem. Não é à toa que o tenho na mais alta conta: depois de ler livros como Caminhos Cruzados e Um Lugar ao Sol, percebi que tudo o que a literatura brasileira tem de mais belo está ali – ali naquele autor.
No caso de Do Diário de Sílvia, nosso Erico Verissimo dá uma de Liev Tolstoi e encarna um personagem feminino. O resultado: já vi mulheres comentando em sites como o Skoob que muitos sentimentos profundos do universo delas está contido ali no livro. Quem sou eu para dizer o contrário?
~~
“A solidão e o tédio são as duas mais graves doenças de nossa época. Podem levar o homem ao desespero e ao suicídio. (Quem foi mesmo que escreveu que é o tédio que leva as nações à guerra?) São enfermidades do espírito a que estão sujeitas principalmente as pessoas sem fé. Porque não pode sentir-se só quem conta com Deus, a mais poderosa e confortadora presença do Universo. Não pode sucumbir ao tédio quem sabe apreciar em toda a sua beleza, riqueza e mistério o mundo e a vida que o Criador lhe deu.” (p. 71)
P.S.: não sou religioso.