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02 dezembro 2009

Os Aparados, de Leticia Wierzchowski

“Deus salvou o homem uma vez, mas a descendência de Noé não fez valer tal honra. Agora Deus perdeu a paciência.”

Os Aparados  Leticia W.

Hoje pela manhã, antes de começar a estudar alguns pontos de Análise do Comportamento que ficaram faltando, finalizei a leitura do romance nacional Os Aparados (2009), escrito pela gaúcha Leticia Wierzchowski, autora também do tão famigerado A Casa das Sete Mulheres.

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Sinopse (Record): Em um tempo não identificado, num mundo em agonia e totalmente alagado, personagens inesquecíveis vivem uma trama inquietante – e cheia de surpresas. Para proteger a neta adolescente – grávida de 7 meses – das catástrofes naturais que assolam a cidade grande, Marcus decide levá-la para um lugar afastado, no alto das serras gaúchas. Lá, o frágil relacionamento de avô e neta será testado, e os dois terão que aprender a ceder para sobreviver em um mundo à beira do caos.

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O livro possui 240 páginas e eu as li em três dias, o que é um grande feito. E poderia tê-las lido em menos tempo ainda, dois dias talvez, mas acabei estendendo em três mesmo por causa de uma esquisita e inesperada visita que recebi aqui em casa. De qualquer modo, quero dizer que, quando é lido em um fôlego só, Os Aparados fornece um excelente e empolgante entretenimento, tão empolgante que faz você virar página depois de página em um ritmo que nem percebe.

Os Aparados é tratado, desde o início, como uma história de fim de mundo. Mesmo assim, o leitor não pode se precipitar e esperar encontrar um livro em que catástrofes naturais medonhas são narradas, como ondas imensas inundando cidades inteiras, carros sendo arrastados pelas ruas e gente morrendo sem parar, à la 2012. Não. Se fosse para relacioná-lo com algum tipo de filme, eu diria que Os Aparados se parece bastante com Sinais, de M. Night Shyamalan. Os personagens são pouquíssimos, a trama é linear e – o que torna o livro original – o teor dramático, humano, é bem acentuado e restringido, ocupando o lugar da tragédia coletiva, tão comum nas histórias do gênero. Além de tudo, tal como em Sinais, em Os Aparados os personagens só têm contato com as catástrofes que acontecem lá fora através de noticiários dados na televisão.

No mundo lá em cima, nas serras gaúchas, enquanto Porto Alegre submerge lentamente nas águas do Guaíba, Marcus e Débora (os dois protagonistas) vivem seu drama dentro das quatro paredes do sítio isolado. Lá, embora o efeito das catástrofes quase não se faça notar, o que está em jogo é a relação avô/neta, uma relação frágil que revela um abismo entre os dois.

Uma das coisas que chamam a atenção em Os Aparados é a quantidade de elementos tecnológicos/modernos na história. Aliás, a tecnologia lá assume um papel crucial, principalmente para o personagem Arthur Medelli. Não se vê muito isso nos livros, essa coisa de colocar as pessoas usando laptops toda hora, iPods, sites de busca e até mesmo Orkut (ele é rapidamente mencionado em uma das páginas). Antes eu era um pouco avesso a essa idéia, mas agora vi que essa inserção de tecnologia popular na literatura pode ser bem aproveitada.

Bem, posso dizer que gostei muito do livro. Muito, mesmo. É um romance de história fácil, frugal, mas que faz o leitor pensar nas conseqüências do enredo. Os personagens ficam na mente por alguns dias, o que é agradável. E o suspense é sempre levado com habilidade através das páginas.

Os Aparados não é um livro pretensioso, mas eu já soube que em breve vai virar filme (aliás, ele já foi escrito com base no pedido de uma produtora de marketing). Tudo bem. A história tem um excelente potencial para o cinema. Se cair nas mãos de um diretor e de um roteirista competentes, pode se transformar em um muito agradável longa-metragem.

P.S.: A primeira coisa que eu me perguntei quando vi a capa do livro, ainda empoleirado na estante da livraria, foi: O que essa chave tem a ver com a história? Terminei a leitura e até agora não sei. A única explicação que tenho, e que acho mais coerente, é a de que a silhueta do corte da chave remete à silhueta das montanhas gaúchas. E, ainda, que o nome aparados, que remete ao nome das serras, lembra o modo como as chaves são feitas.

Aceito mais sugestões.

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Abaixo, um trecho interessante que destaquei.

“Ele se afasta pensando que tem que fazer alguma coisa. Sem saber para onde ir, segue no rumo do pomar. (…) Ele caminha pelo terreno íngreme, afundando os pés na terra fofa e úmida. Está nervoso. Não pode simplesmente ficar ali parado à espera de que os acontecimentos sigam seu rumo. Vai chover outra vez. Mais terra vai cair, isolando o alto da montanha: ele e a neta ficarão separados do mundo. É engraçado, foi isso o que sempre quis, sair do mundo. (…) Aquele mundo lá de baixo não serve mais, está podre, doente, exaurido. E, agora que aconteceu, sente medo. Este pequeno universo que criou é tão frágil quanto todo o resto.” (p.159)

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WIERZCHOWSKI, Leticia. Os Aparados. Rio de Janeiro/São Paulo: Record. (2009)

26 novembro 2009

Terra dos Homens, de Antoine de Saint-Exupèry

“Trabalhando só pelos bens materiais construímos nós mesmos nossa prisão. Encerramo-nos lá dentro, solitários, com nossa moeda de cinza que não pode ser trocada por coisa alguma que valha a pena viver.” (p. 25)

Terra dos Homens A. de Saint-Exupèry

Hoje pela manhã finalizei a leitura do livro Terra dos Homens (Terre des Hommes, 1939), escrito pelo francês Antoine de Saint-Exupèry. Sim, este mesmo: Saint-Exupèry, o autor do mundialmente venerado O Pequeno Príncipe. (Acho que eu sou a única pessoa na cidade que leu algo desse sujeito que não seja o seu tão famoso livro infantil.)

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Sinopse (Armando Nogueira): Saint-Exupèry tornou-se piloto civil aos 21 anos. Aos 26 integrou a equipe que foi sobrevoar o Saara e os Andes levando o correio aéreo da Europa para a África e a América do Sul. (...) Como devia ser a emoção de voar em aparelhos tão pequenos, contando apenas com a hélice e sem nenhuma presurização? É dessa emoção a matéria deste livro.

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A prateleira do meu quarto é composta por seis nichos diferentes; nos dois primeiros nichos de baixo, ponho os livros que venho comprando ao longo dos últimos anos. Nos últimos dois de cima, estão aqueles livros da família que são transmitidos de geração para geração, passados de mãos em mãos (das mãos do avô para as do neto, e assim sucessivamente). Certa noite, deitado na cama, olhei para esses dois nichos da minha prateleira, e vi, no meio de tantos volumes envelhecidos, um título: Terra dos Homens.

Um verdadeiro achado. Ele está na nossa família há anos, décadas mesmo, e, segundo me disseram, fora presente para o meu pai, dado por uma ex-namorada dele - em um tempo onde, note-se bem, as namoradas ainda davam livros de presente para os seus namorados. Isso confere ao livro um caráter mais pictórico ainda, creio. Peguei o volume lá de cima, quase caindo no ato, e deitei-me na cama para começar a lê-lo. No momento em que o abri, a capa se despregou e caiu das minhas mãos.

Terra dos Homens é um livro de memórias. Saint-Exupèry nos conta sobre o ofício de pilotar pequenos aviões-correio, cruzando os desertos da Arábia e os oceanos do sul da Europa. O texto todo é dividido em oito capítulos pequenos (A Linha, Os Companheiros, O Avião, O Avião e o Planeta, Oásis, No Deserto, No Centro do Deserto e Os Homens), todos eles trazendo-nos pequenas e despretensiosas lições, lições estas tão despretensiosas que podemos dizer que o autor nem cogitou em denominá-las “lições”.

A verdade é que Terra dos Homens é um livro que fala diretamente às nossas partes mais sensíveis, mais poéticas. É com um estilo do tipo haicai que Exupèry narra as suas aventuras aéreas pelo mundo, contando-nos desde a sua relação com um escravo (o qual mais tarde comprou apenas para libertá-lo), até a queda do seu avião no deserto das Arábias, onde ficou com o companheiro Prévot durante vários dias, morrendo de sede e tendo alucinações, até ser encontrado por um beduíno.

Para ser sincero, tenho pouca coisa a falar sobre este livro, com a exceção de que gostei imensamente dele. É um relato simples, frugal e, ao mesmo tempo, ricamente poetizado, cheio de frases que nos põe a refletir bastante. É o tipo do livro que deixa uma impressão indelével em nossa mente. A propósito, adorei o capítulo Oásis, onde ele nos conta sobre uma noite em que se viu convidado por um casal de estancioneiros a jantar em sua casa; lá, Exupèry fica como que hipnotizado pelas duas moças filhas do patriarca e pelo “império” que elas exerciam sobre os elementos naturais da casa, como as víboras que surgiam debaixo da mesa da sala na hora do jantar.

Nota 10.

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O livro é cheio de partes muitíssimo interessantes, e todas elas teriam o direito de estar aqui, mas transfiro para cá apenas uma única dentre todas elas:

“A vida nos separa dos companheiros e nos impede de pensar muito nisso. Eles estão em algum lugar, não se sabe bem onde (…).

Mas pouco a pouco descobrimos que não ouviremos nunca mais o riso claro daquele companheiro; descobrimos que aquele jardim está fechado para sempre. Então começa o nosso verdadeiro luto, que não é desesperado, mas um pouco amargo. Nada, jamais, na verdade, substituirá o companheiro perdido. Ninguém pode criar velhos companheiros. Nada vale o tesouro de tantas recordações comuns, de tantas horas más vividas juntos, de tantas reconciliações, de tantos impulsos afetivos. Não se reconstroem essas amizades. Seria inútil plantar um carvalho na esperança de ter, em breve, o abrigo de suas folhas.” (p. 24)

08 novembro 2009

Cidade de Ladrões, de David Benioff

"Teria sido um gesto sem sentido, (...) mas gestos sem sentido pareciam ser tudo o que nos tinha restado. (p. 248)"

CidadedeLadres_thumb1  D.Benioff_thumb1

Pelo início da tarde de hoje, depois de assistir à última produção cinematográfica de O Grande Gatsby, finalizei a leitura do romance norte-americano Cidade de Ladrões (City of Thieves, 2008), escrito pelo jovem talentoso David Benioff.

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Sinopse (minha): 2ª Guerra Mundial. Rússia sendo atacada por nazistas. Lev Beniov, protagonista deste romance que tem como pano de fundo eventos marcantes da História contemporânea, é um jovem tímido e solitário. Preso pelos russos por não respeitar o toque de recolher, acaba por dividir a cela com Kolya, um rapaz carismático, acusado de abandonar a frente de batalha. Para que não sejam executados, os dois recebem de um coronel uma missão aparentemente impossível: encontrar, na cidade gelada e sem alimentos, uma dúzia de ovos para que a filha do oficial tenha um bolo de casamento.

Em uma cidade onde as pessoas viram canibais e devoram pombos da rua para não passar fome, a idéia de encontrar 12 ovos parece impossível. E é para realizar esta missão que Lev e Kolya cruzam a Rússia em uma aventura inesquecível, marcante, onde a tal missão do coronel é apenas o fio condutor.

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Já fazia algum tempo que eu não me empolgava tanto com uma leitura. A última vez que eu me empolguei de verdade - tirando os romances de Erico Verissimo, nos últimos meses -foi no início do ano, talvez, lendo Kafka à Beira-mar, livro cujas quase 600 páginas foram devoradas em um fôlego erótico. Os livros que eu vim lendo ultimamente (repito: com a exceção de Erico) foram apenas passatempos frugais e despercebíveis.

Novembro não parece ser um mês que prometerá muitas leituras para mim (ando meio ocupado), mas, de qualquer forma, prometendo ou não, na última sexta-feira que precedeu o feriado de Finados eu estava sem a mínima idéia de que livros poderia comprar para me divertir na longa folga. Mas uma coisa era certa: eu queria ler. Então, quase inconscientemente, passei pela livraria mais próxima e, ainda com a mochila nas costas (eu havia acabado de voltar da universidade), me pus a percorrer as estantes da loja.

Foi por puro acaso que encontrei Cidade de Ladrões. Ele estava ali sobre aquela prateleira abarrotada, fora do seu devido lugar, largado a esmo por algum cliente ou funcionário desleixado. É engraçado como estas coisas acontecem: peguei o livro, muito pouco interessado, abri-o na primeira página e, como sempre faço, comecei a lê-la.

A linguagem ágil, elegante e precisa de Benioff logo me chamou a atenção. Li o prólogo inteiro ali em pé mesmo, minhas costas protestando contra o peso da mochila. Animado, levei o livro para o segundo andar da livraria, sentei-me a uma cadeira extremamente confortável (gosto de lá por causa dessa cadeira) e comecei a devorar o exemplar que tinha nas mãos. Só mais tarde me dei conta de que já havia ido longe demais na leitura e que, assim, poderia levá-lo para casa sem hesitar.

Cidade de Ladrões prende a atenção do leitor logo no início. Depois que você acaba de ler o prólogo e o primeiro capítulo, fica quase impossível largar o livro. Atenção: apesar de se tratar de uma história sobre o cerco nazista na 2ª Guerra Mundial, não espere um melodrama choroso ou um retrato mórbido da sociedade russa naquela época. Cidade de Ladrões é, antes de tudo, uma aventura intensa, marcada por um humor um pouco pesado (em grandes doses, pornográfico) e por momentos de reflexão e graça literária. As palavras que eu usaria para qualificar o livro são: Inteligente, divertido, leve, emocionante e original.

A dupla de protagonistas (Kolya e Lev) é tão carismática que pertence àquele grupo de personagens que ficam na nossa mente por anos a fio, se não para sempre. Lev, pela sua ingenuidade, medo e paixão; Kolya, pelo seu humor extraordinário e pela altivez das ações, como se nada daquele mundo em guerra lhe pertencesse realmente.

É um livro que comove, sim, mas a dose forte de emoção foi adiada apenas para as últimas páginas, o que revelou-se ser uma decisão acertadíssima do autor. Sem mais palavras, eu compararia este romance com o romance histórico Sangue Asteca, de Gary Jennings. Por alguma razão acho que os dois se parecem. É exatamente o mesmo estilo de aventura, a mesma opção de história.

Benioff é capaz de brincar com uma trama que, através da aparente simplicidade e da carga de questionamentos, comovem o leitor naturalmente, sem que para isso haja a necessidade de passagens clichês.

Livro nota 10, enfim. Estou aguardando o próximo lançamento de Benioff, coisa que, infelizmente, pode demorar um pouco, visto que o autor trabalha mais para o cinema (escrevendo roteiros) do que para a literatura. (Traduzam logo o seu A 25ª Hora, por favor!)

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Abaixo, um trecho do texto.

"Em pouco tempo atingimos o limite da cidadezinha. Saímos da estrada e corremos através dos campos congelados das fazendas, passando por silhuetas de tratores abandonados. Lá em Krasnogvardeysk podíamos ouvir o barulho de motores de carro acelerando e pneus com corrente rodando sobre a neve. Na escura distância à nossa frente podíamos ver a margem escura da grande floresta esperando para nos receber, para nos ocultar dos olhos de nossos inimigos." (p. 260)

25 outubro 2009

O Escafandro e a Borboleta, de Jean-Dominique Bauby

"Longe desse escarcéu, no silêncio reconquistado, posso ouvir as borboletas voando pela minha cabeça." (p. 105)

O escafandro e a Borboleta Jean D. Bauby

Na minha cabeça existe uma lista de histórias que mais me impressionaram e mais me inspiraram a viver uma vida de dedicação, esforço e altruísmo. Essas histórias ainda fizeram com que eu visse que os meus problemas mundanos, perto dos problemas extraordinários retratados nessas histórias, não são absolutamente nada dignos de nota.

Senão, vejamos...

Nessa minha lista está o verídico drama do Milagre dos Andes, em que um time de rúgbi teve de enfrentar as cadeias geladas de montanhas dessa cordilheira latina, após o seu avião chocar-se contra uma delas. Depois de 72 dias na neve, os rapazes conseguiram voltar para casa, não sem antes passarem por uma sucursal do inferno, onde a força de vontade e a fé teve de atingir o seu grau máximo para que a sobrevivência fosse possível.

Na mesma lista está a história famosíssima de Anne Frank, a adolescente alemã que, durante o período em que se manteve escondida com a família e alguns "amigos" em um prédio na Holanda, escreveu um diário que mais tarde se tornaria símbolo do Holocausto e da luta pela justiça, além de ser "um dos livros mais importantes do século XX", segundo o New York Times.

Continuando a seqüência da minha lista de "histórias humanas incríveis", temos a surpreendente aventura do norte-americano Christopher Johnson McCandless, jovem de família abastada que, embora de maneira um pouco equivocada e egoísta, abandonou o conforto de sua vida para ir trilhar os caminhos áridos do país, numa jornada de puro auto-conhecimento e simplicidade, onde a busca pela felicidade frugal reinava.

Pois bem. Devo dizer que, com o término da leitura do livro O Escafandro e a Borboleta (Le Scaphandre et le Papillon, 1997), essa minha lista de admirações ganhou mais um item.

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Sinopse: No dia 8 de dezembro de 1995, o redator-chefe da revista francesa Elle, Jean-Dominique Bauby, sofreu um terrível derrame cerebral que lhe deu uma das mais terríveis conseqüências prognósticas clínicas: todos os músculos do seu corpo ficaram paralisados e não permitiam o menor movimento, com a exceção de um - a pálpebra do olho esquerdo. E é com esta pálpebra que Bauby aprendeu a se comunicar com o mundo externo e, por fim, por incrível que pareça, conseguiu escrever um livro sobre a sua rotina no Hospital Becker, à beira-mar.

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Um feito extraordinário. Essas três palavras são capazes de resumir, de forma simples e precisa, a imagem de O Escafandro e a Borboleta. É um livro em que os limites do possível - como em muitas outras ocasiões que se vê por aí - são colocados à prova. Afinal de contas, como alguém que só consegue mexer a pálpebra do olho esquerdo pode escrever um livro de memórias?

"Simples" assim: um alfabeto distinto (em que as letras mais usadas do idioma são as primeiras) é ditado em voz alta para Jean-Dominique. Quando a letra pretendida por ele é proferida, Dominique pisca o olho uma vez. A letra é escrita então em um caderno à parte e a pessoa volta a ditar o alfabeto conveniente, desde o início, letra por letra. De súbito Dominique pisca o olho outra vez. E assim vão-se formando as palavras. E as frases. E as páginas inteiras.

Parece propício para nós imaginar que, pelo fato de se tratar de um escritor enfermo por uma debilidade tão devastadora, o relato de O Escafandro e a Borboleta seja constituído por uma espécie de telegrama mórbido onde as palavras são jogadas a esmo e o leitor que se vire para decifrar as derradeiras impressões de um doente tetraplégico como Bauby. No entanto, é um engano pensar assim. Este é um livro lindo e, muito mais que um simples relato funesto das semanas no hospital, é também um verdadeiro haicai de parábolas e pensamentos metafóricos escritos em linguagem viva e penetrante. Por sinal, às vezes passava pela minha cabeça o seguinte pensamento: Como é que o cara consegue manter uma calma tão estóica assim diante de uma guinada avassaladora em sua vida? Parece realmente ser algo que de fato não pertence ao mundo das coisas normais.

É claro que, apesar da aparente descontração narrada naquelas páginas, Bauby passa por momentos de melancolia bem difíceis. São situações cujas implicações realmente nos devem pôr para pensar. Por exemplo, o que dizer do momento em que Bauby vai passear pela orla da praia, de cadeira de rodas, em um dia de sol, na companhia da ex-mulher e dos filhos pequenos? Theóphile, o rapazinho, o contempla num mutismo doloroso; Celéste, a mocinha (mais nova que o irmão), limpa a boca babante do pai e lhe sorri de modo afetado. E Bauby reflete que é mais que horrível não poder passar a mão pelos cabelos dos filhos. Deve ser, mesmo.

Como muitas pessoas já devem saber, existe uma adaptação cinematográfica homônima deste livro. É uma produção francesa dirigida por Julian Schnabel (que foi indicado a melhor diretor pelo Cannes justamente por causa dessa obra) e produzida por Katheleen Kennedy (a mesma de Jurassic Park e O Curioso Caso de Benjamin Button).


Apesar de haver no filme muitos elementos largamente alterados ou fictícios - como naturalmente haveria de ser, já que seria uma história levada para os cinemas -, há também toda a gama de sensações que são encontradas no livro e que, de fato, são responsáveis por nos comover. Portanto, além do livro, recomendo o filme.

Em suma, como diria Elie Wiesel, O Escafandro e a Borboleta "conta como transformar dor em criatividade, sofrimento humano em milagre literário." Sem sombra de dúvidas, estamos diante de um livro incrível e altamente recomendado para aquelas pessoas que, sobretudo, amam a vida.

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Abaixo, segue-se uma passagem curta e aleatória do livro:

"É domingo. O sino badala gravemente as horas. Na parede, o pequeno calendário da Assistência Pública, cujas folhas vão sendo arrancadas dia após dia, já indica que é agosto. Por qual paradoxo o tempo, imóvel aqui, corre ali desenfreadamente? No meu universo encolhido as horas se espicham e os meses passam como relâmpagos. Não me conformo de estar em agosto. Amigos, mulheres, filhos se dispersaram no vento das férias." (p. 109)

A seguir, um pensamento muito interessante de Bauby, que (estranho) não se encontra no livro.

"Considero saudável estar só na maior parte do tempo. Estar acompanhado, mesmo pelos melhores, cedo se torna enfadonho e dispersivo. Adoro estar só. Nunca encontrei um companheiro tão sociável como a solidão. Estamos geralmente mais sós quando viajamos com outros homens do que quando permanecemos nos nossos aposentos. Um homem quando pensa ou trabalha está sempre só, deixai-o pois estar onde ele deseja; a solidão não é medida pelas milhas de espaço que separam um homem e os seus congêneres."