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17 setembro 2009

Quando Nietzsche Chorou, de Irvin D. Yalom

"Agora sei o que é assumir o controle de meu destino. É terrível e maravilhoso."

Quando Nietzsche Chorou Irvin D. Yalom

Hoje pelo início da tarde, após um grande debate que tive com o meu pai sobre a origem do Universo, eu finalizei a leitura do romance Quando Nietzsche Chorou (When Nietzsche Wept, 1992), escrito pelo eminente psiquiatra Irvin D. Yalom, norte-americano filho de imigrantes russos.

O livro foi o presente de aniversário que recebi do meu amigo Alfred, o padre alemão que estuda Psicanálise comigo na universidade.

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Sinopse: De férias em Veneza, o clínico-geral Josef Breuer encontra a jovem russa Lou Salomé, que lhe pede um favor excêntrico: tratar da depressão suicida de seu amigo Friedrich Nietzsche.

O que se estabelece entre ambos é uma relação na qual as funções de médico e paciente se confundem, pois Breuer encontra na filosofia de Nietzsche algumas respostas para suas próprias dores existenciais.

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As primeiras vinte ou trinta páginas do livro me empolgaram de verdade. "Parece ser realmente uma história muito boa", eu disse para a Natália, uma amiga minha que, assim como eu, é absolutamente aficcionada por literatura. "É mesmo?", ela retorquiu. "Sim", respondi, "pode ser uma boa maneira de mergulhar na filosofia de Fritz Nietzsche e na psicoterapia. Estou gostando do começo: há uma espécie de mistério envolvente."

Porém, quando cheguei à primeira centena de páginas, confesso que não me motivava mais tanto a idéia de pegar o livro novamente e lê-lo. Acho que o tempo escasso proveniente do absurdo de trabalhos na universidade atrapalhou muito a leitura, sim, mas a verdade é que perdi a empolgação subitamente. A trama do livro não conseguia mais despertar o meu interesse; o enredo, para mim, se tornou muito linear, pouco complexo, baseado apenas em extensos e por vezes enfadonhos diálogos entre Breuer e Nietzsche.

Além disso, o estilo narrativo da linhagem "best-seller" me desgostou um pouco. O ritmo da leitura então começou a se arrastar.

No entanto, outra guinada ocorreu de repente, desta vez para cima de novo, como no começo. À altura da página 200, mais ou menos, a trama começou a se intrincar e os personagens começaram a ganhar uma importância maior na história; de modo que a falta de ânimo que eu sentira no desenvolvimento foi compensada pelos momentos agitados do final do livro. E o resultado absoluto foi este: gostei muito, e o recomendo para qualquer pessoa que se interesse pelo assunto.

Tecnicamente, o que temos aqui é um romance que mistura realidade e ficção de uma maneira tal que, se não fosse pela nota do autor nas últimas páginas, não saberíamos precisar onde termina o fato e onde começa a imaginação. Lou Salomé, por exemplo, foi uma jovem que realmente existiu e que realmente se envolveu com Nietzsche, ao passo que o cunhado de Breuer, Max - que eu imaginava ter existido na realidade -, era fruto da criação do autor. Tendo essa confusão em vista, pode-se muito bem abandonar a tentativa de dizer o que é real e o que não é, e simplesmente curtir a história.

Uma coisa que eu achei bem interessante no livro foi ver o papel totalmente secundário de Sigmund Freud, o próprio fundador da Psicanálise. Os únicos momentos em que ele aparece são nas rápidas lições médicas com Breuer, dentro da biblioteca da mansão deste. No restante do enredo, o grande Freud praticamente não dá as caras, mas ainda é curioso ver que as formulações que ele tem com Breuer são a base do que mais tarde viria a ser seu estudo dos sonhos e do inconsciente.

Enfim, Quando Nietzsche Chorou é um ótimo romance. Apesar de ter me faltado ânimo no miolo do livro, devo dizer que isso não se deveu a alguma qualidade ruim da história, mas antes a uma exigência meio elevada da minha parte. É um livro bem didático, também: a explanação da Teoria do Eterno Retorno, por exemplo, é bastante clara e provocadora, e me fez pensar muito sobre as coisas.

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A seguir, um dos trechos do livro que têm relação com a Teoria do Eterno Retorno. Não sei se esta passagem surte o mesmo efeito tanto nas pessoas que não leram o livro, quanto nas que o leram.

"Cada vez que você escolhe uma ação, deve estar disposto a escolhê-la por toda a eternidade. O mesmo se dá com cada ação não realizada, cada pensamento natimorto, cada escolha evitada. Toda a vida não vivida ficará latejando dentro de você, invivida por toda a eternidade. A voz ignorada de sua consciência continuará clamando para sempre. (...) Este momento existe para sempre e você sozinho é a sua platéia."

(YALOM, Irvin D. Quando Nietzsche Chorou, página 306, editora Agir; 35ª edição.)

10 setembro 2009

Sociedade dos Poetas Mortos (1989)

"Poesia, romance, imaginação... É para isso que o homem verdadeiramente vive".

dead p. s.

Estados Unidos, 1959. Uma escola preparatória reconhecida pela disciplina ortodoxa e rígida admite um novo professor para lecionar literatura naquela temporada: John Keating, cuja imaginação, humor e sabedoria nada convencionais irão abalar o sistema estabelecido e inspirar os jovens alunos a transformarem suas vidas em algo extraordinário.

Ontem pela noite - após uma tentativa frustrada de assistir ao filme Up em uma sessão 3D -, passei pelo shopping center e, na seção de DVDs de uma determinada loja popular, deparei-me com nada mais nada menos que Sociedade dos Poetas Mortos (Dead Poets Society) por uma soma irrisória de 13 reais. Sem hesitar, enfrentei uma fila quilométrica e o levei para casa.

É um filme magnífico, e eu afirmo isso com toda a categoria possível. Sem correr o risco de parecer exagerado, posso dizer que este filme é o tipo do filme que mexe profundamente com as pessoas que sempre, por algum motivo, questionaram o poder das ordens pré-estabelecidas e se enlevaram com a carga emocional da linguagem poética.

Nem sempre é fácil falar sobre um filme - ou um livro - de que gostamos tanto. Porém, quanto a Sociedade dos Poetas Mortos, digo somente que ele entrou para a minha Lista dos Filmes que Mudaram a Minha Vida e que realmente vale a pena assisti-lo. Não deixe de vê-lo sob nenhum pretexto.

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A seguir, disponibilizo o trailer:


Direção: Peter Weir / Roteiro: Tom Schulman / Elenco: Robin Williams, Ethan Hawke, Robert Sean Leonard.

04 setembro 2009

Clarissa, de Erico Verissimo

"Onde estará então a menina em flor que corria no pátio atrás das borboletas?" (página 132)

Clarissa Erico Verissimo

Hoje pela manhã - antes de receber a notícia de que os estúdios Disney compraram a Marvel Comics - finalizei a leitura do livro nacional Clarissa (1933), que é o primeiro romance de Erico Verissimo e, conseqüentemente, o ponto de partida para a sua carreira literária meteórica.

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Sinopse: Clarissa é uma jovem de 13 anos que mora na pensão da tia enquanto estuda  em  Porto Alegre.  Curiosa, procura descobrir o mundo e a vida.  Observa com meticulosa atenção as pessoas que moram no pensionato e  na  vizinhança: Ondina, a  infiel  esposa  de Barata; Amaro, o músico triste e contemplativo; o distraído major Pombo; a conservadora tia Zina e seu desempregado marido;  a família rica que mora ao lado; e a viúva com o filho mutilado na casa à direita.

"Clarissa" mostra o despertar de uma adolescente para o mundo. No pequeno universo da pensão onde mora na capital gaúcha, a jovem entra em contato com realidades densas e misteriosas que seu otimismo juvenil não imaginava que existissem. (...)

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Eu acompanho a obra de Erico Verissimo desde o início de junho deste ano. Os seus primeiros livros constituem aquilo a que os críticos mais entendidos chamam de "Ciclo de Romances", que são vários livros com histórias diferentes, mas que, por se passarem no mesmo lugar (Porto Alegre) e no mesmo período (década de 30), acabam tendo os seus enredos entrelaçados.

Desse modo, por exemplo, a personagem Fernanda - do livro Caminhos Cruzados - esbarra com Amaro Terra - de Clarissa - e com Vasco Bruno - de Música ao Longe - no livro Um Lugar ao Sol, que por sua vez nos apresenta o velho doutor Seixas, que aparecerá mais tarde em Olhai os Lírios do Campo e Saga.

Esse embaralhamento de enredos e personagens é uma das coisas que mais me chamam atenção na obra do escritor gaúcho. De qualquer forma, vou me ater aqui ao romance em questão, isto é, ao primeiro do Ciclo de Romances: Clarissa.

Clarissa é uma história extremamente lírica, poética e romântica, coisa de que antes eu não gostava muito, mas que agora passei a apreciar. (Por que não um pouco de lirismo para nos fazer sonhar neste mundo tão grotesco?) O livro nos fala sobre a construção da personalidade de uma garota ingênua de 13 anos que, em contato com as pessoas e coisas da sociedade, começa a montar a sua impressão e o seu caráter diante do mundo.

Como resumiu muito bem um estudioso da obra:

"Na monotonia cotidiana da pensão de sua tia Zina, Clarissa é um raio de sol, uma mancha rutilante de alegria. É a poesia da vida no meio do realismo mesquinho. Nela, tudo encanta porque tem a inocência que a angeliza, e o sabor das coisas naturais que ainda não sofreram as deformações da sociedade... Clarissa é qualquer coisa de agreste e puro. Clarissa é música e é poesia. Menina e moça - olhos abertos para o mistério da vida. Alma que amanhece."

Confesso que não tenho muito o que dizer a respeito deste romance, a não ser o fato de que adorei e o recomendo aos demais fãs de Erico. Isso basta?

Naturalmente, Clarissa está abaixo dos romances posteriores do autor (?), mas esse detalhe não deve ser justificativa para tirar o seu brilho e a sua mensagem fundamental, que tanto inspiraram gerações e gerações ao longo dos anos.

A única imperfeição do livro - que sinceramente não chega a ser uma imperfeição - talvez seja aquela que o próprio Erico - sábio, como sempre - menciona em um prefácio de 1961:

"Como conjunto, talvez o principal defeito dessa novela seja o seu excesso, não de beleza - o que não seria para lamentar - mas de 'boniteza', de joliesse, de prettiness. Eu como que me esmerei em focar instantes pictóricos e poéticos, numa sucessão de haicais e aquarelas."

Com efeito, a linguagem do livro é laureada, dourada, extremamente poética e espichada; e isso confere à obra um caráter romântico quase irreal, o que muito provavelmente desagrada certos leitores contemporâneos. Talvez Clarissa seja uma grande poesia em forma de prosa, ou uma grande suíte sinfônica escrita em caracteres literários, caracteres esses que apenas os olhos de um leitor sensível conseguem captar.

"Céus, como você lê esse homem!", exclamou Natália, minha amiga de universidade, após eu lhe contar que estivera lendo o sétimo livro de Erico Verissimo.

"Ora... Ele é bom!", justifiquei. "Suas histórias impressionam pela narrativa poética e pelas tramas surpreendentes. É um grande escritor brasileiro, sem dúvida. Foi ele que me incitou a fazer as pazes com a literatura nacional. Sério mesmo!"

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Abaixo, uma das bonitas passagens de Clarissa que sublinhei. Aliás, esta é uma mensagem que está constantemente presente em seus livros: a busca pela liberdade, o sonho incansável de percorrer o mundo e se livrar da modorrenta, pragmática, claustrofóbica e enfadonha rotina da cidade:

"Uma vez, há muitos, muitos anos, um menino olhou o mundo com olhos interrogadores. Tudo era mistério em torno dele. Era numa casa grande. O arvoredo que a cercava amanhecia sempre cheio de cantos de pássaros. O mundo não terminava ali no fim daquela rua quieta, que tinha um cego que tocava concertina, um cachorro sem dono que se refestelava ao sol, um português que pelas tardinhas se sentava à frente de sua casa e desejava boa tarde a toda a gente. Não. O mundo ia além. Além do horizonte havia mais terras, e campos, e montanhas, e cidades, e rios e mares sem fim. Dava em nós vontade de correr mundo, andar nos trens que atravessavam as terras, nos vapores que cortam os mares. Nos olhos do menino havia uma saudade impossível, a saudade de uma terra nunca vista."

(VERISSIMO, Erico. Clarissa; páginas 34-5, editora Cia. das Letras, 5ª edição.)

27 agosto 2009

Os Sobreviventes, de Piers Paul Read

"Havia pouca chance de [o avião] ser encontrado, e menor chance ainda de algum dos quarenta e cinco passageiros ter sobrevivido ao desastre." (página 11)

sobreviventes Piers Read

Hoje pela tarde, antes que o sol pudesse se esconder completamente atrás do horizonte, finalizei a leitura do livro de não-ficção Os Sobreviventes (Alive: The Story of The Andes Survivors, 1975), escrito pelo romancista inglês Piers Paul Read e cujo objetivo o próprio título original já menciona: contar a história por trás do terrível acidente na Cordilheira dos Andes, em 1972, envolvendo uma jovem equipe amadora de rúgbi uruguaio.

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Sinopse: Nos picos nevados da Cordilheira dos Andes, onde só o vento quebra o silêncio, o único sinal de vida é a luta de 45 pessoas atingidas pelo destino da maneira mais cruel e dramática possível: a desesperada luta pela vida. O avião em que voavam, e que os levaria ao Chile, perdeu o senso de direção e chocou-se contra as montanhas geladas. Os sobreviventes, para não morrerem de fome, devoram os seus amigos mortos.

Read penetra com maestria na condição humana mais delicada e frágil, desvendando a vivência terrível de um confronto com a morte iminente e avassaladora.

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Essa talvez seja a história real mais impressionante de que eu já tomei conhecimento até hoje. Conheci-a há vários anos atrás, quando, em uma noite de Natal, meu irmão mais velho me disse: "Ei, Renan, hoje vai passar na TV o filme Vivos. Quero que você assista; essa história é bem famosa e marcante." De fato, assisti ao filme - que fala sobre o terrível acidente - junto com o meu irmão, e, como naquela época eu ainda era uma criança, não consegui dormir sozinho no quarto à noite. As imagens dos jovens uruguaios cortando a carne dos seus amigos mortos, para comê-la, mexeu profundamente comigo naquele tempo; e, por que não confessar?, mexe até hoje.

Tal história exerceu sobre mim um misto de fascinação e horror deslumbrado que, muitos anos depois, não me contive e pedi (como presente de Natal) para o meu pai o livro Milagre nos Andes - este escrito em 2007 por um dos próprios sobreviventes do desastre, Fernando Parrado. É um relato muito pessoal de onde transbordam as mais diversas emoções, frustrações e anseios no coração do jovem Parrado; lá, tudo é contado com sinceridade comovente, inclusive o triste fato da antropofagia necessária.

Finalmente, na semana passada, enquanto passeava displicentemente pelos corredores da biblioteca da Universidade de Fortaleza - à procura de um compêndio de Psicologia -, esbarrei com o livro Os Sobreviventes em uma das estantes. Eu sabia de antemão da existência desse livro: sabia que se tratava da tragédia dos Andes que tanto me fascinara quando criança e sabia que havia sido escrito imediatamente um ano após o acidente, por ninguém menos que Piers Read, um especialista na arte de contar histórias.

Resultado: aluguei o livro e comecei a lê-lo embaixo das árvores floridas da Universidade. Mal havia chegado à página 30, decidi que iria devolvê-lo e ir atrás de um sebo, na tentativa de comprá-lo. Minha melhor amiga, Natália, disse que eu era louco ao sair para comprar um livro cuja leitura poderia ter feito de graça. "Há certas coisas que devem permanecer conosco para sempre", repliquei, sorrindo.

Os Sobreviventes, apesar de tratar de uma história verídica, é narrado no mais completo e fascinante tom de romance. As cenas são escritas de forma detalhada, clara, sincera, de modo tal que fisga o leitor e é praticamente impossível, para este, largar o volume. A voz de Read é impecável. A história que ele conta, incrível. Juntas, as duas coisas não poderiam deixar de formar um belo e empolgante relato.

Das 45 pessoas que estavam no avião, indo em direção ao Chile, apenas 16 conseguiram retornar à sociedade e aos parentes. Mas não sem antes enfrentarem o suplício da queda do Fairchild nas montanhas, o caos infernal que se seguiu logo após, o frio avassalador, a fome pungente, o horror ante à idéia de ter que devorar o corpo dos próprios amigos para sobreviver, a desesperadora notícia de que os resgates haviam sido cancelados, tudo isso sem contar com a terrível avalanche que atingiu a carcaça do avião, certa noite, matando grande parte das pessoas que lá estavam tentando dormir.

Quanto à antropofagia a que os sobreviventes foram submetidos, diz Read:

"Chegaram, por necessidade, a comer quase todas as partes do corpo. Canessa sabia que o fígado continha reservas de vitaminas; por essa razão, comia e encorajava os outros a fazê-lo (...). Superada a repulsa em relação ao fígado, foi mais fácil passar para o coração, rins e intestinos [além dos cérebros e testículos, como é citado mais tarde]. (...) As camadas de gordura cortadas do corpo eram secadas ao sol até que se formasse uma crosta, e depois comida por todos. (...)"

Por mais tenebroso e assustador que o fragmento acima possa parecer, o livro de Read não se atém única e necessariamente a este mórbido detalhe de comer carne humana. (Muito embora a descrição na página 165 me tenha feito deixar o livro de lado e respirar fundo). De qualquer modo, narrando as experiências atrozes dos rapazes ou não, além das cenas macabras - que inevitavelmente teriam de estar lá -, o livro Os Sobreviventes também fala da perene esperança, da coragem soberba e, sobretudo, da determinação estóica de todas as pessoas envolvidas no acidente.

Todas elas, como uma grande equipe coordenada, ajudaram-se mutuamente durante os penosos 72 dias - umas em maior ou menor grau, por natureza - na tentativa de sobreviver nas montanhas hostis da Cordilheira dos Andes.

Para os 16 sobreviventes da tragédia, o inferno é gelado, ao contrário do que muitos pensam.

"Qual foi a coisa mais corajosa que você já fez?", perguntou Natália, minha amiga, após eu ter lhe contado a história do livro. A pergunta me pegou de surpresa, e senti que havia certa necessidade em parar para refletir sobre essa questão. Minha vida não é pontilhada de feitos heróicos; nunca salvei ninguém da morte, nunca ajudei ninguém a tomar uma decisão muito importante, nunca fui a peça-chave para uma situação delicada. O significa ser um herói, afinal de contas? Um mártir, é isso?

"A coisa mais corajosa que eu já fiz foi me levantar da cama hoje pela manhã, e enfrentar toda essa faina diária", respondi a Natália, e demos o assunto por encerrado.

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Abaixo, transcrevi um fragmento do texto de Piers Read que ilustra bem a situação dos rapazes no meio do seu suplício nos Andes.

"O frio terrível, combinado com as roupas molhadas, esgotava as forças. Não comiam nada há dois dias e sentiam-se então imensamente famintos. Os corpos daqueles que haviam morrido no desastre permaneciam enterrados na neve, fora do avião, de modo que os primos Strauch desenterraram um daqueles que tinham morrido com a avalancha e cortaram a carne do seu corpo diante dos olhos de todos. Anteriormente, a carne fora cozida ou pelo menos secara ao sol; agora não havia alternativa senão comê-la molhada e crua como saísse do osso, e como estavam famintos, muitos comeram grandes pedaços, que tiveram de mastigar e saborear. Foi terrível para todos; sem dúvida, para alguns foi impossível comer pedaços de carne cortada do corpo de um amigo que dois dias antes estivera vivendo ao lado deles."

(READ, Piers Paul; Os Sobreviventes, página 106, editora Nova Fronteira.)