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08 agosto 2009

Solo de Clarineta - Erico Verissimo (trecho)

solo_clarineta

Em 1973 - dois anos antes de morrer, portanto - Erico Verissimo achou viável começar a escrever as suas memórias.

O seu livro autobiográfico intitula-se Solo de Clarineta, foi dividido em dois grandes volumes e, como o próprio autor enfatizou no prefácio, "é uma história particular narrada em tom de quase romance, mas que vai contada com a maior franqueza".

Abaixo, segue-se o prólogo do volume 1. Como é um dos textos literários mais interessantes que já li, achei que valia a pena transcrevê-lo na íntegra.

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1

O meu amigo mais íntimo é o sujeito que vejo todas as manhãs no espelho do quarto de banho, à hora onírica e displicente em que passo pelo rosto o aparelho de barbear. Estabelecemos diálogos mudos, em uma linguagem misteriosa feita de imagens, ecos de vozes – alheias ou nossas, antigas ou recentes –, relâmpagos súbitos que iluminam faces e fatos remotos ou próximos, nos corredores do passado — e às vezes, inexplicavelmente, do futuro —; enfim, uma conversa que, quando analisamos os sonhos da noite anterior, parece processar-se fora do tempo e do espaço. Surpreendo-me quase sempre em perfeito acordo com o que o Outro diz e pensa. Sinto, no entanto, um pálido e acanhado desconforto por saber que existe no mundo alguém que conhece tão bem os meus segredos e fraquezas… uns olhos assim tão familiarizados com a minha nudez de corpo e espírito. Talvez seja por isso que com certa freqüência entramos em conflito.

Mas a ridícula e bela verdade é que no fundo, bem feitas as contas, nós nos queremos um grande bem. Estamos habituados um ao outro. Envelhecemos juntos. A face do Outro é o meu calendário implacável. "Os cabelos te fogem, homem", murmuro-lhe às vezes, "Tuas carnes se tornam flácidas. Vejo a escrita do tempo no pergaminho do teu rosto". "E como imaginas que estás?", replica o meu reflexo. Acabamos consolando-nos mutuamente com a idéia de que conservamos a mocidade de espírito. Mas até onde isso será verdade? Encolhemos os ombros e passamos a outras considerações e devaneios, enquanto o barbeador elétrico zumbe, e o incansável calígrafo invisível continua no seu sutil trabalho de amanuense da Morte.

No Homem do Espelho reconheço os olhos escuros e melancólicos de minha mãe. Essa cabeçorra, quase desproporcional ao resto do corpo, herdei-a de meu pai. Quanto à pele morena, talvez me tenha vindo de algum remoto antepassado índio ou mouro. As sobrancelhas negras e espessas — que passaram a vida no vão esforço de dar a essa cara um ar façanhudo, decerto com o propósito de atenuar a mansuetude quase humilde dos olhos — foram suavizadas pela prata com que o tempo as retocou.

Eu gostaria de simplificar o problema de meu temperamento apresentando-me como a manifestação de uma dicotomia, segundo a qual tendências que herdei de minha mãe — sobriedade, senso de responsabilidade, devoção ao trabalho, à ordem e à normalidade — podem ser comparadas com os muros de uma cidadela sitiada e repetidamente atacada por insidiosos e alegres bandos de guerrilheiros constituídos por certos componentes do caráter de meu pai: sensualidade, auto-indulgência, inclinação para o ócio e para uma espécie de hedonismo irresponsável.

"Mas a coisa não é tão simples e nítida assim", observa o Outro.

"Eu sei, eu sei", respondo em pensamentos, "mas vamos adiante, companheiro. É pelos sendeiros do erro e da dúvida que havemos de chegar um dia ao reino da verdade."

O Fantasma foca em mim os seus olhos secretamente céticos e murmura: "Será que esse reino existe mesmo fora da mitologia?"

Ambos encolhemos os ombros. Nem eu sei sobre a verdade, nem ele sabe, e nem ninguém mais: esta é a verdade.

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"Não esperem que estas memórias formem um documento histórico", adverte. "Elas não tem a intenção de fazer nenhum perfil de minha época ou dos meus contemporâneos. É antes um livro sincero, que dedico especialmente àqueles que me têm lido durante todos esses anos."

05 agosto 2009

Sobre o primeiro dia de aula do segundo semestre.

Nota:

Como o próprio título acima já diz muito bem, a crônica a seguir fala sobre a minha volta às aulas na universidade. Não é um assunto muito interessante para os leitores do blog, reconheço. Para ser sincero, não sei nem por que o escrevi, quanto mais por que o publiquei. Como sempre, ao que parece, os meus textos se escrevem sozinhos, contra a minha vontade.

Os comentários finais foram escritos pela própria Natália Lima - minha amiga de longa data - ao término da sua leitura do post. Achei que, já que a maior parte do texto fala sobre nós dois, ela tinha o direito de pelo menos ler e dar a sua opinião - mesmo que os seus comentários sejam por demais impertinentes e "engraçadinhos".

Well, espero que gostem! (Lembrei agora que esta é a mesma frase que o diretor M. Night Shyamalan fala nos bônus dos DVDs de seus filmes...)

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Hoje é o meu primeiro dia de aula do segundo semestre de Psicologia na Universidade de Fortaleza. A desvantagem disso é que naturalmente tive de acordar muito cedo, pontualmente às cinco horas, levantar da cama com o céu ainda escuro, para poder imprimir o fluxograma das disciplinas, tomar um banho bem tomado, beber o café-da-manhã em sossego, escovar os dentes, etc., etc. E ir para a aula.

Não que isso seja ruim, isso de acordar muito cedo. Eu até gosto. Gosto de verdade. O problema é que eu não estava mais acostumado a tamanho sacrifício, tendo em vista que desde os primeiros dias de férias eu dormia por volta das três horas da madrugada, agarrado invariavelmente a um livro de literatura, café andino de um lado, Coca-Cola do outro. Ainda ia para a cama a contragosto, sem sono. E, conseqüentemente, me acostumei a acordar tarde no dia seguinte.

Por isso que senti certo problema no primeiro dia de aula. Acho que todo mundo sente essa dificuldade em acordar cedo na primeira semana de aula: é normal e justificável. Além de tudo, levantar-se da cama contra a vontade é uma espécie de sacrifício.

De qualquer forma, apesar do "sacrifício" de levantar às cinco da manhã ao som rascante do rock 'All Along the Watchtower' (Neil Young, meu alarme matinal), não acordei de mau-humor. Porque, mesmo tendo consciência de que ficar de pernas para o ar é maravilhoso - e de que ler literatura até altas horas da noite é divino -, eu percebi que já era tempo de voltar mesmo à ativa.

Sendo assim, depois de minhas longas e tediosas férias de julho - nas quais eu não encontrava absolutamente nada de útil para fazer, a não ser ler livros em demasia e comer salgadinhos {1} - volto novamente à ativa. Isto é, volto aos estudos. Volto à vida normal, enfim.

E é com este tipo de pensamento implantado na cabeça ("Volto à vida normal...") que passo pelos portões da universidade às sete horas da manhã, cumprimento o porteiro com um aceno de mão e começo a caminhar para a área do campus onde ficam os blocos de Psicologia.

Enquanto caminho, o silêncio é absoluto: o único som vem do baque surdo que os meus tênis produzem no calçamento de pedra, e do chilrear dos pássaros nos arbustos mais próximos. A mochila está nas minhas costas com quase que nenhum peso dentro. O sol está se embrenhando por detrás das copas das árvores, e lança seus raios esplendorosos sobre as cabeças das pessoas que passam pelo Caminho Principal, rumo ao Centro de Convivência, todas elas presas à rotina que nunca há de mudar. Entram férias, saem férias - penso - e as coisas continuam do mesmo jeito. É assim. Sempre foi assim. Não há de mudar.

Ao cabo de cinco minutos de caminhada pelo Passeio Principal, sob o sol quente da manhã, eu saio do descampado e entro nas instalações do Bloco M, subindo as escadarias em seguida e procurando pela sala de número 21. Pelo menos é o que está escrito no meu fluxograma: Teorias Psicológicas I: Behaviorismo - M/21.

É depois de alguns minutos rondando pelas escadarias do bloco - entrando e saindo de salas erradas, subindo e descendo por rampas duvidosas - que finalmente acho a sala certa e entro. O relógio analógico da parede marca sete e vinte e cinco. Poucas são as pessoas que já estão aqui dentro. Uma senhora de seus 30 anos de idade, sentada junto à porta, escreve algo em seu caderno rosa - me parece uma mulher despreocupada e feliz, do tipo que cursa a faculdade por mero capricho. Um rapaz ouve MP4 lá no fundo da sala - estaria ele dormindo? aquelas mechas de cabelo sobre os olhos não me enganam... -, e uma adolescente melancólica de seus 18 anos risca com um lápis imaginário o tampo da sua carteira. Percorro a sala e me sento na última classe da primeira fila, perto das janelas - é o meu lugar preferido. A jovem melancólica não dá sinal de que notou a minha presença, e continua a fazer o seu desenho invisível, com o olhar distante e vago de quem tem a certeza absoluta de que nada neste mundo vale a pena.

(A propósito, ela me lembra muito a personagem Chinita, de Caminhos Cruzados. Fantasiosa e irreal.)

Os minutos passam. Enquanto a professora Sara Correia não chega, retiro da minha mochila uma edição recente de De Cabeça Para Baixo, do Fernando Sabino, e começo a ler. Passei o primeiro semestre inteiro com este hábito (ler um livro antes de o professor chegar) e percebi, surpreso, que os alunos ao meu redor me olhavam com certa repulsa. Passei boa parte do meu tempo tentando descobrir nos seus olhos o que eles queriam dizer com aquela insistência em me fitar; e descobri que a maioria das pessoas acha que qualquer coisa fora do curso - incluindo literatura - é tida como mera perda de tempo.

Triste. É só o que eu tenho a dizer.

De qualquer forma, sob olhares hostis ou não - o que as pessoas pensam sobre mim é problema delas -, abro o livro do Sabino e dou boas risadas com as piadas que o autor lá põe. Quando estou no final do capítulo "Pelas Rivieras da Vida", ouço vagamente a pronúncia do meu nome no ar. É uma sensação da qual ninguém escapa, esta de estar sendo chamado por outrem. Então, lentamente, como quem não quer nada, tiro os olhos do livro e vasculho o redor, fazendo o possível para isto parecer a coisa mais natural do mundo.

E quando bato os olhos diretamente na figura da minha amiga Natália Lima, solto um suspiro de descaso; ela está rindo na soleira da porta da sala, balançando a cabeça como quem diz: "Bobo!" {2} Só então a adolescente melancólica parece acordar e ergue a vista para nós. A presença animada de Natália é capaz de despertar qualquer mortal do mais profundo devaneio.

Minha amiga caminha até mim. Guardo o livro do Sabino na mochila: sei que não vou mais conseguir ler daqui para frente. Natália está sem bolsa, percebo no mesmo instante em que ela fica a três passos de mim. "Você está matriculada nessa sala?", pergunto, duvidando. "Não, não", ela responde, penteando os cabelos com a mão, sentando-se ao meu lado. Ainda rindo, diz: "Só vim ver você, chato!"

"Uma das poucas pessoas que fazem isso", digo. Ela ri. "Estou estudando na sala 34. Fica no terceiro andar do bloco M", diz ela, e aponta para cima, para o teto.

"Qual é a sua segunda aula?", pergunta depois de um tempo. Tenho de consultar o meu fluxograma para responder com precisão: "Fundamentos Históricos e Epistemológicos da Psicologia, às nove e meia. E a sua?" "Filosofia, com o Ricardo. Acaba às onze. Olha, a gente pode se encontrar depois da aula, que tal?", ela propõe. E engata: "Faz tanto tempo que a gente não se vê".

"É verdade. O nosso último contato foi...", ergo a vista para o alto, fingindo um complicado cálculo mental. "O nosso último contato foi naquela vez em que você me acordou às quatro horas da madrugada para bater papo-furado no telefone". (Ver post 'Sobre insônia e a escuridão do meu quarto'.)

Rimos. Ou melhor, eu rio; Natália gargalha. Ela está feliz hoje, percebo. Não é muito difícil perceber isso nela, porque é o tipo do negócio que fica logo visível no primeiro minuto. Só acho estranho o fato de ela estar feliz no primeiro dia de aula.

Ficamos em silêncio, e aproveito o momento para olhar ao redor. As únicas pessoas que me acompanhavam antes ainda estão lá em seus lugares: a senhora com o seu caderno rosa, o rapaz com o seu MP4 nos ouvidos (sim, ele está dormindo, constatei agora), e a adolescente que cruza as pernas e põe a mão sob o queixo. Pelas janelas da classe, o sol entra em rajadas douradas. Lá fora, no corredor, as pessoas passam de um lado para o outro.

"Pois bem, Marlito", Natália diz, abanando a mão como se espantasse uma mosca. Consulta o relógio de pulso, onde os ponteiros fazem a sua viagem circular, e, levantando-se no momento em que a sineta toca no corredor, Natália diz para mim: "Nos vemos na Praça 14 às onze horas, depois da segunda aula!".

E some porta afora, acenando e sorrindo, no momento em que a professora Sara entra, cercada de alunos. Penso: Ninguém melhor do que a Natália para ir embora assim de repente. {3}

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Existe ao lado do Bloco P, para o leste do campus, encoberta por várias mangueiras e pinheiros - o que dá um aspecto de terreno rural e sombrio -, uma pequena praça denominada de "Praça 14". No centro dela, rodeada por fontes majestosas de água, foi construída uma estátua do senhor Edson Queiroz, fundador glorioso da UNIFOR.

É nesse lugar que eu estou agora, sob a gigantesca sombra de uma árvore, conversando com a Natália e perdendo o meu precioso tempo. {4} Aliás, era neste mesmo lugar que eu costumava jogar Paciência, solitário, quando não tinha nada para fazer no intervalo entre duas aulas - o que acontece com certa freqüência ainda hoje.

"Aposto que você vai escrever um texto no seu blog falando sobre o dia de hoje", sentencia Natália, deitada sobre o banco de cimento da praça com um livro de literatura nas mãos: Grande Sertão: Veredas. Mas ela não está lendo - está apenas analisando a arte da capa. "Você sempre escreve sobre dias como esse. Eu já até sei".

Encosto a cabeça na guarda do banco. Uso a minha mochila como travesseiro. Um vento passa pela praça deserta, arrastando consigo folhas e pedaços de papel. "Acertou em cheio!", falo. "Daqui a alguns dias o texto estará lá. Será um texto vazio e sem sentido, mas ele estará lá, e você poderá fazer alguns comentários nele".

"Fechado", ela diz, fechando o Grande Sertão. Um papel de propagandas do Beach Park Resort passa flutuando pelos meus pés e vai cair em um bueiro lá na frente.

"Aqui nessa praça deve ser bom fazer a sesta", diz Natália, observando a paisagem bucólica que se estende a algumas centenas de metros à nossa frente: campos verdes amplos e planos, uma quadra de futebol ao ar livre, árvores e mais árvores ao sol.

Concordo. E sem mais nada de interessante para fazer, ou dizer, abro o meu caderno na divisória da matéria Psicanálise. Quando Natália vê o que eu estou fazendo, põe-se sentada ao meu lado e pede: "Poxa, agora que eu me lembrei, será que você poderia me emprestar os resumos de Humanismo? O Antônio é péssimo em fazer resumos. Acho que o seu professor é melhor".

"Na verdade", esclareço, "quem faz os meus resumos sou eu mesmo". Não quero parecer o rapaz inteligente que se auto didata. É apenas a verdade - e eu não sou o único que faz isso.

"Tudo bem. Serve. Deixa eu dar uma olhada".

Folheio o caderno, encontro a disciplina de Humanismo e lhe entrego os resumos, "não sem antes me certificar de que não há nenhuma anotação nele que não possa ser lida por ela." (MURAKAMI, Haruki. Norwegian Wood. 1987.) {5}

Depois de muito tempo em silêncio, após ter lido várias páginas do meu caderno enquanto eu contemplava a paisagem, Natália sugere de supetão: "Ei, cara... Os seus resumos são excelentes! Você poderia ganhar dinheiro com isto". Olho para ela, inexpressivo. O sol se esconde por trás de uma nuvem. Ela continua: "Vender grandes resumos das matérias para os alunos, já pensou? Colocaria os arquivos em um CD e venderia cada resumo por 6 ou 7 reais".

Eu sei: Ela está metade brincando, metade falando sério. Natália é do tipo de pessoa que não consegue ter uma idéia genial sem associá-la logo a seguir com o comércio. Na verdade, a idéia nem precisa ser genial, que ela já está logo vinculando a dinheiro. {6}

Abano a mão, soltando um muxoxo, e digo que ficar rico dessa maneira não tem graça. Ela concorda. "Mega-sena é melhor", diz.

Minutos depois, sinto um vazio na minha cabeça maior do que o habitual. É a fome do meio-dia que está assaltando os nossos estômagos, penso. Anuncio o problema, Natália entende, e saímos da Praça 14 para que cada qual pegue um ônibus para a sua casa.

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Comentários:

{1} Ler livros eu até entendo... mas... comer salgadinhos é algo útil? Se for, a humanidade está a salvo por causa de você! (nota de Natália Lima)

{2} Na verdade, eu estava pensando em outro adjetivo, mas deixa pra lá. "Bobo" é mais bonitinho, mesmo.

{3} Melhor do que eu, nesse quesito, só você.

{4} Seu "precioso tempo" que poderia ser gasto em... ? Comer salgadinhos?

{5} Ei, mesmo que você se pareça bastante com o Toru, eu não tenho nada a ver com a Midori!

- Pior que tem, ó. - (nota do autor)

{6} Vamos ser honestos, você também é assim...

31 julho 2009

O Resto é Silêncio, de Erico Verissimo

"Olha o mundo com uma curiosidade temperada de indolência e uma malícia misturada de ternura". (pág. 75, 20ª edição)

O Resto é Silêncio Erico Verissimo

Ontem pelo entardecer eu finalizei a leitura de O Resto é Silêncio (1943), romance nacional do escritor gaúcho Erico Verissimo, cuja obra estou lendo em rápida sucessão ao longo dos últimos tempos. Este já é o quinto trabalho que devoro do autor, depois de ter passado por Ana Terra, Olhai os Lírios do Campo, Música ao Longe e Um Lugar ao Sol - todos resenhados aqui, com exceção do primeiro. 

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Sinopse: Abril. Sexta-feira da Paixão. A queda de uma rapariga "loura, alva e franzina" de um dos últimos andares do edifício Império é o ponto de partida para unir o trágico acontecimento à vida de sete outras pessoas, testemunhas do fato. O escritor Antônio Santiago, alter-ego do autor e uma das personagens que testemunham a queda, encarrega-se de investigar o paradeiro da moça antes do acidente (que se tem por suicídio); e, ao longo da trajetória, percebe que "os seres humanos pouco ou nada sabem uns sobre os outros".

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Influenciado pelas novelas do escritor norte-americano Aldous Huxley - as quais traduzia para a Editora Globo -, Erico Verissimo incorporou a idéia de utilizar nos seus livros a técnica da "ausência de personagem principal" e das "muitas tramas entrelaçadas", coisa que não poderia deixar de acontecer em O Resto é Silêncio.

Particularmente, gosto das duas técnicas: sem personagem central, não há a preocupação de deixar as demais caírem no esquecimento ou se tornarem psicologicamente superficiais, tendo todas elas, pois, o mesmo valor; e por outro lado, as histórias entrelaçadas (batizadas de "contraponto", por causa do romance homônimo de Huxley) deixam o enredo bem mais interessante, sem dúvida.

É curioso notar que nos livros do autor sempre há uma espécie de molde caricatural de que ele se vale para construir as suas personagens. Por exemplo: temos amiúde o caso do "aristocrata pomposo" (Aristides e Ximeno, no romance em questão), do "politicamente revoltado" (Roberto, namorado de Nora), do "ingênuo e correto com ar professoral" (Antônio), da "apaixonada platônica" (Rita), do "pobre-diabo que faz reflexões filosóficas" (O Chicharro), entre tantas outras.

Lendo assim, tem-se a impressão de que estou zombando do método de construção do autor, mas não é nada disso - muito pelo contrário. Acho incrível que, apesar de o estilo das personagens estar sempre se repetindo, a história dos livros de Erico nunca deixem de ser interessantes e, sobretudo, surpreendentes.

Quanto à questão das tramas entrelaçadas, creio que este estilo de história esteja muito em voga nos dias de hoje. Não é mesmo? Tomemos o caso do longa-metragem estadunidense Crash - No Limite, ou do muito parecido Magnólia (ou ainda do espanhol Amores Brutos e do aclamado Babel): todos trazem uma miríade de personagens - em sua maioria, desajustados e díspares - cujos dramas acabam se misturando e se esbarrando ao longo do roteiro. E é justamente isso o que acontece em O Resto é Silêncio. (Lembro que, quando criança, eu costumava vibrar com este tipo de história, e cheguei até mesmo a esboçar o script de uma desse mesmo jeito. Parou na página 70.)

Quanto às personagens do romance, em si, é muito fácil gostar de todas elas. Como sempre ocorre nos livros de Erico Verissimo, suas personagens são pessoas sinceras (na maioria das vezes), simples, ingênuas, e que buscam um sentido paupável para a existência. No entanto, apesar da simpatia que senti por todas as figuras do livro, me senti bastante inclinado a identificar-me com duas delas em especial - femininas, a propósito: Nora e Marina.

Nora é uma das jovens filhas do escritor Antônio Santiago e possui uma espécie de cinismo e ternura que, misturados,  combinam bem comigo. A discussão que ela tem com o namorado Roberto, por exemplo, entre as páginas 289 e 297, é simplesmente marcante. Assumindo o papel do "politicamente revoltado", ele repugna os hábitos burgueses e, sem querer, na cena em questão, manifesta a sua antipatia denegrindo o costume que as mulheres têm de se pintarem.

E eis que Nora retruca: "Roberto, de fato a pintura das minhas unhas não é totalmente necessária. Assim como essa sua gravata, que também não me parece absolutamente indispensável". Nora possui ainda um desligamento da realidade tal que, em determinadas situações - mesmo as mais sérias -, ela consegue se visualizar como se estivesse representando um papel de teatro ou encenando em um filme. Vez por outra eu tenho a mesma sensação.

Marina, por sua vez, é a esposa do vaidoso maestro Bernardo Rezende, que está de passagem pela cidade de Porto Alegre a título de conduzir uma orquestra no Theatro São Pedro; assumindo o papel do "vaidoso deplorável", ele tem os olhos voltados apenas para a carreira em ascensão. A propósito da perda da pequena filha Dicinha em um passado distante - e da qual Bernardo não parece sentir a menor mágoa -, Marina acha o mundo triste, hostil e opaco, além de estar sempre na ânsia de encontrar algo que mude o rumo de sua vida.

Enfim... Estamos talvez diante de um dos romances mais maduros e profundos do autor, O Resto é Silêncio, sendo até mesmo considerado por muitos críticos estrangeiros como "a essência da literatura brasileira". É um romance também bastante sombrio, talvez o mais sombrio de sua obra.

Da minha parte, a minha confiança em Erico ainda está alta. Vamos esperar para ver o que Clarissa e Caminhos Cruzados têm de bom para trazer.

(Pequeno parênteses: lamento apenas o fato de eu, mais uma vez, ter sido vítima dos editores que insistem em colocar revelações de enredo nas orelhas dos livros e afins. Se bem que, nesse caso, confesso ter sido eu o único culpado: li sem querer a Crônica Literária que está no final da edição, sem nem mesmo ter acabado a leitura do romance. Tsc, tsc. Resultado: fiquei sabendo antes do tempo que a personagem... Ah, deixa pra lá.)

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Segue abaixo um dos trechos mais interessantes do livro, na minha opinião. Há outros tão e mais interessantes quanto ele, obviamente, mas resolvi transferi-lo para cá por causa da brevidade. Está localizado na altura da página 285 - 20ª edição.

É uma pequena passagem que trata de uma conversa entre o jornalista Roberto e o ex-tipógrafo O Chicharro. Este último e misterioso senhor, divagando, afirma:

"Você é muito menino, ainda não sabe de certas coisas... Mas viver é morrer em prestações. Cada criança que nasce assina com a vida um contrato de compra e venda... e nós nunca sabemos o prazo certo do vencimento. [...] A criança assina o contrato e o vendedor, que é a Morte, passa a cobrar as prestações anualmente. Cada ano nós morremos um pouco. Quando vamos ficando velhos, as prestações já não são anuais, e sim semanais. Por fim o contrato se vence. E o pior de tudo é que nós continuamos sem saber o que compramos. Por acaso você sabe?"

18 julho 2009

Sobre a fragilidade dos sonhos - parte primeira.

Nota:

"Fragilidade dos sonhos" é uma expressão literária que me lembra muito uma música. Uma música instrumental chamada "Best Unsaid", do compositor norte-americano Michael Brook. Quem tiver a saudável oportunidade de escutá-la, escute. É uma linda melodia: suave e ondulante como o marulho de um oceano, dessas que nos fazem pensar em dias melhores, em desligamento da realidade, em pródigos dias de utopia... Coisas desse tipo.

Bem, o texto a seguir fala de um episódio que ocorreu comigo e com uma amiga, há muito tempo - ainda na época em que Crepúsculo não era febre, em que Barack Obama não era presidente dos E.U.A e em que eu acreditava na boa fé ingênua das pessoas. Na realidade não sei por que razão escrevi sobre isso, quais as forças que me obrigaram a fazê-lo.

A verdade é que o escrito aí está.

O final pode ser interpretado como uma filosofia salvacionista barata, mas eram essas as idéias que povoavam a minha cabeça na época. E como o objetivo aqui é ser sincero, não pude deixá-las passar. Tentando ofuscar um pouco essas filosofias de folhetim, me senti inclinado para o humor na hora de escrever esta primeira parte do texto; na segunda, a tendência foi mais para o lado sério. Não sei se fui bem-sucedido em qualquer uma das duas.

A verdade é absoluta e sempre triunfará. Não há nada de errado nisso, apenas não é assim. (Mark Twain)

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"Vamos rápido, Marlo... Ou você quer perder a aula da professora Fátima?", diz Sabrina, à minha frente, enquanto percorremos os corredores apertados do Shopping Center Del Paseo, abarrotado de gente naqueles dias de outubro. Minha amiga está a mais ou menos dois metros de distância de mim e, preocupada com o horário da aula de Biologia, faz questão de andar mais rápido que eu, que não estou tão empolgado quanto ela.

"Se você me esperasse, Sabrina, ficaria mais fácil acompanhá-la", digo. Não estou muito familiarizado com os antros labirintosos do Del Paseo, e perdê-la de vista ali seria algo desastroso. Ela então abre os braços, divertida. "Tudo bem, tudo bem", concede e atrasa o ritmo, sempre olhando para o relógio do pulso e para as fachadas das lojas ao redor.

São duas horas de uma tarde de sexta-feira, e estamos procurando juntos naquele shopping um restaurante que possa nos oferecer comida boa e barata àquela hora do dia. Saímos do colégio à uma hora da tarde, pegamos o bonde que vai direto ao Del Paseo (estabelecimento mais próximo) e agora cá estamos, à procura de um almoço decente, antes que a aula de Biologia comece e tenhamos de assistir à preleção da professora Fátima mortos de fome.

"Essas aulas em horários quebrados são ridículas", Sabrina fala, desviando-se das pessoas e abrindo caminho. Sigo-a por trás, cruzando com os transeuntes. "Poderiam colocar todas em um turno só", ela continua. "Ficaria bem melhor, bem mais fácil". Um curto silêncio. "O que será que há de errado com as autoridades?"

"Olha, podemos comer um hamburguer", proponho, já tentando acompanhar os passos da minha amiga, que outra vez aumentaram e me deixaram para trás. "Ou um simples Kalzone", arremato. Mas ela olha para mim por sobre o ombro, sorri o seu sorriso de esfinge, e corta: "Não fale besteiras. Almoçar um hamburguer? Um Kalzone? É por isso que você não se alimenta direito, menino".

É por isso que você não se alimenta direito. Faço reflexões. Sabrina não é do tipo de garota que se preocupa em ter uma alimentação saudável, pelo menos não em larga medida. Eu sei disso. Muitas horas de conversa já me revelaram esse detalhe. E ela também não é do tipo que se preocupa febrilmente com o horário de uma aula. Por outro lado, não sou do tipo de pessoa que come hamburguers e Kalzones toda a semana - na verdade, sequer me lembro da última vez em que comi este último.

As coisas estão trocadas, concluo. Comportamentos contraditórios em pessoas que não apresentam determinado naipe de personalidade. Isso geralmente acontece em indivíduos que se encontram sob pressão.

"Aqui!", exclama Sabrina no momento em que entramos na praça de alimentação e passamos pelo mosaico grandioso que há no piso da entrada. "Já sei, comeremos comida chinesa", diz, escrutinando os arredores. "É uma comida saudável e barata, pelo menos até onde eu saiba", conclui.

As vidraças do shopping, em tons azulados, lá no alto, deixam passar a luz do dia e a transformam em feixes luminosos coloridos, que recaem sobre o piso lustroso de granito. Pelos meus olhos desfilam as fachadas das lanchonetes e dos restaurantes. A verdade é que as minhas costas estão totalmente doloridas por conta da mochila e do enorme peso que ela traz, e a minha vontade real é de sentar sem se importar bem onde. "Ótima escolha, comida chinesa", concordo, e me ponho a procurar mesas vazias.

Encontro uma, sento-me pesado a uma das mesas e ponho a minha mochila ao lado, em uma das cadeiras de alumínio. Assim é melhor, concluo, executando uma série de leves exercícios corporais. E bate então uma saudade da época em que eu levava para o colégio uma mochila com rodinhas, e saía arrastando-a pela rua, de mãos dadas com a minha mãe. Minhas costas agradeciam por aqueles dias.

Lá na frente, já na fila do estabelecimento e com bandejas e pratos na mão, Sabrina acena para mim e pergunta com gestos o que eu vou querer. Abano a mão e grito: "Qualquer coisa!" Ela sorri e se volta novamente para o balcão. Consulto o relógio do celular. Fico observando os dígitos por um bom tempo, até perceber que já é tarde demais.

Quanto a mim, tenho a leve sensação de que não vamos assistir a aula de Biologia nenhuma.

[Para ser sincero, tenho um escondido e tépido desejo de não comparecer a esta aula. Não que eu seja gazeteiro, vagabundo ou simplesmente desleixado - longe disso. Acontece que a professora Fátima tem uma famosa e asquerosa tendência a querer mostrar o lado negro e vil da Biologia para os seus alunos; entenda-se por "lado negro e vil" todas aquelas fotos repugnantes de feridas carnais, lesões epidérmicas e vermes saindo pelas bocas de um mortal. Eu já vi isso uma vez. E até mesmo, na penumbra da sala iluminada apenas pelo retro-projetor, vi a professora Fátima, a um canto, sorrindo entre divertida e irônica ante a pavorosa surpresa dos alunos. Ela é sádica, acima de tudo, e não poupa palavras grotescas durante as suas preleções.

Hoje, no caso, às duas horas da tarde, teremos uma aula sobre Doenças Sexualmente Transmissíveis, com direito a vídeos de dissecação de genitálias e fotografias com avisos do tipo "Conteúdo Não-Aconselhado para Pessoas Emocionalmente Instáveis". Certa vez, um amigo meu, durante uma dessas aulas tenebrosas, me confessou: "Droga, Marlo, vendo essas coisas a gente até perde a vontade de ir para a cama com uma garota!" (Lembro bem dessas palavras saltando no meio da escuridão e me pegando de surpresa. Pobre Rafael... Por onde será que ele anda hoje em dia? O que estará fazendo?)

Pelos quatro cantos do colégio percorre o rumor de que a professora Fátima, sexualmente impotente após um acidente com barbitúricos, desconta a raiva e a amargura nos alunos. Será verdade? Ninguém sabe. Mistério.

É por isso que, depois do almoço, não me sinto totalmente inclinado a entrar naquela classe. Não sem antes me certificar de qual é o "espetáculo" que a professora Fátima nos reserva.]

Cruzo então as mãos sob a nuca e, quando me ponho a contemplar a grande cúpula de vidro que há sobre a praça de alimentação do Del Paseo - uma clarabóia bem-feita e digna de apreço -, Sabrina chega com uma bandeja, dois pratos fumegantes e dois copos com suco. Põe tudo em cima da mesa e se senta à minha frente, arrastando a cadeira ao fazê-lo.

"Suco, Sabrina? Suco?!", brinco.

"Eles estavam sem Coca".

Coço a cabeça. "Está vendo? Esse é um dos problemas do monopólio".

(...)