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07 julho 2009

Um Lugar ao Sol, de Erico Verissimo

um lugar ao sol

Hoje - ao final de uma tarde fria e monótona de inverno, ao longo do qual praticamente não fiz nada além de ler e comer Fandangos -, finalizei a leitura de um belo e inesquecível romance nacional: Um Lugar ao Sol (1936), do incrível e ímpar escritor gaúcho Erico Verissimo. (Sem acento, mesmo!)

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Sinopse (Livraria Travessa, com algumas modificações minhas): [Depois que o pai é assassinado a mando do prefeito de Jacarecanga e a família perde seu suntuoso casarão por uma hipoteca não paga, a jovem professora Clarissa se muda para Porto Alegre com a mãe, Clemência, e o primo, Vasco. Primeiro eles se hospedam na pensão de tia Eufrasina; depois, na casa da professora Fernanda; e, enquanto Clarissa enfrenta precocemente a luta pela sobrevivência na cidade grande, Vasco se envolve com a boêmia local e conhece um estudante de medicina cujas atividades revolucionárias incitam a ira do Estado policial.

Uma miríade de subtramas e personagens secundários desfila ao longo do romance: um conde austríaco bem-apessoado e cavalheiresco que lê Dom Quixote; uma dona de pensão pardacenta e bolachuda, mas extremamente simpática; um ex-bancário que aprecia as mais finas valsas de Chopin; um imigrante espanhol que vive a falar da política brasileira... O resultado é uma dose alentada de vida, capturada em sua essência mais laboriosa e vibrante, por vezes negra, mas sempre profundamente emocionada.]

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O que falar de um livro cuja leitura tanto amámos? Como traduzir em palavras todos os sentimentos, imagens e reflexões que aquelas páginas nos despertaram? Eu não sei muito bem como fazer isso. Corro o sério risco de parecer bajulador demais, mas a verdade absoluta é que Erico Verissimo mudou a minha concepção do que é possível esperar da literatura brasileira - aliás, é uma pena que ele já tenha falecido há 34 anos e nada mais seu venha a ser publicado.

Antes, eu lia escritos de certos autores nacionais pomposos e invariavelmente acabava pensando: "De onde será que vem toda essa aura ao redor do Fulano? De onde vem esse título de 'um dos melhores romancistas do Brasil' de Cicrano? Não vejo nada de brilhante nestas páginas". Sim, era isso o que eu pensava quando entrava na minha livraria predileta e percorria as prateleiras dos meus conterrâneos. Julgava a literatura brasileira algo estéril, seco, opaco, desprovido de verdadeira arte; porém, com a aparição de Verissimo, vi que ainda é factível descobrir nomes brasileiros realmente bons no ramo da 3ª Grande Arte.

Mas, sem mais volteios, vamos ao romance em si. Um Lugar ao Sol é a continuação de Música ao Longe (já resenhado aqui no Artigos Efêmeros), que por sua vez é a continuação de Clarissa (obra cuja posse pretendo ter dentro em pouco). Apesar de comporem uma trilogia, os três romances podem ser lidos muito bem separadamente em ordem aleatória, sem que isso afete qualquer coisa na compreensão da história da Família Albuquerque - os personagens e as situações anteriores são apresentados com a devida contextualização.

A prosa rica em adjetivos inauditos e metáforas bem elaboradas, além de um texto enxuto e desprovido de rodeios - sem contar, ainda, com a incrível atualidade do livro -, faz de Um Lugar ao Sol um romance cuja leitura não podemos postergar por falta de interesse ou por monotonia. Apesar de ter sido escrito no começo do século passado e de ter algumas conjugações verbais fixadas no "tu" (coisa de que algumas pessoas não gostam), o estilo de escrita é agradabilíssimo e conversado, espraiado, sem passagens muito densas.

E, nossa, como é fácil gostar dos personagens do livro! Na verdade, como é fácil se sentir atraído por todos os personagens que o autor cria! São sempre indivíduos simples, frugais, carcomidos por pequenas frustrações e sempre à cata de um sentido aceitável para a vida! Temos, no caso de Um Lugar ao Sol, o jovem Vasco Bruno Albuquerque - primo de Clarissa -, em cujas veias parece correr ainda o sangue aventuresco e rebelde do pai, que fugiu da família há tempos e foi percorrer o mundo sozinho "como um gato orgulhoso". É essa espécie de atavismo que faz Vasco sentir uma ânsia desenfreada por abandonar tudo e todos e andar pelo planeta de Norte a Sul, como o pai, conhecendo lugares longínqüos e misteriosos, vivendo do que o dia traz, do que as pessoas oferecem e do que é possível fazer com as próprias mãos - sim, me senti brutalmente identificado com este sujeito, Vasco Bruno.

Ainda falando de personagens: outra que me chamou bastante atenção foi "la bela madonina dos olhos tropicales", Lu, dezessete anos, cuja irreverência e despropósito para com a família me fez lembrar e muito os jovens desvairados de hoje - xingando os pais, batendo os pés no chão, fugindo de casa para ir com o namorado às baladas da noite no Cassino. O comportamento da garota é tão próximo dos dias atuais que, sem querer, acabei imaginando a jovem Lu vestida de calças jeans e camisetas apertadas contra os seios - visto que naquela época provavelmente imperavam os vestidinhos bem-ajustados e comportados. Curioso, não, a força da expressão?

Bom, não quero me demorar aqui falando de cada um dos muitos personagens do livro... Mas não poderia deixar de citar também o velho, irascível e cínico dr. Seixas (Seria o mesmo de Olhai os Lírios do Campo?), que, iludido com a vida e com os homens de idade, vituperava para Dona Magnólia e para o rev. Bell: "O mundo está perdido! E a culpa é nossa, dos velhos, que deixamos para os jovens todos os nossos malditos erros! É por isso que eles são assim, arredios!" E não posso deixar de citar a hilária cena em que, entrando na casa do sr. Orozimbo, Seixas flagra Lu e o namorado na cozinha, entregues a amassos pesados, somente para falar: "Então, brincando de ioiô?" (xDDD)

Existe uma imensa amplitude de reflexões que o autor empresta aos seus personagens ao longo da obra; reflexões que vão desde a vacuidade carnal do amor até a filosofia por trás da arte de escrever livros, passando pela metafísica profunda da existência dos seres humanos e pelos sentimentos emanados por causa da simples falta de um emprego. Em dados momentos, damos com Noel pondo-se a pensar sobre o trabalho artesanal e regozijante que é fazer literatura, enquanto, do outro lado da cidade, o conde austríaco Oskar conversa com Vasco sobre a existência humana e a resume em metáforas, enquanto tomam café.

"Eu acho, jovem amigo", diz ele, "que a humanidade não passa de um parque de diversões que foi lotado por máquinas que os homens construíram - máquinas cinzentas, sujas, engraxadas, que espirram óleo nas pessoas que estão no parque. E eu, como bom gentleman, tento apenas passear pelo belo parque, fazendo o possível para que estas máquinas terríveis não me espirrem qualquer coisa da sua sujeira". (Estas palavras são minhas, e não do autor; somente resumi o pensamento do personagem Oskar.)

Enfim... É a prosa irresistível de Erico, a boa edição da Companhia das Letras (se bem que, para uma edição comemorativa, faltou as orelhas), o otimismo incurável da personagem Fernanda (24 anos e já dona-de-casa), a insaciável sede de viagens de Vasco ("O mundo! Que coisa bela é o mundo!"), as aventuras rocambolescas de Lu ("Ela é jovem, está em busca do prazer."), as frustrações cômicas de Amaro Terra ("Ex-bancário. Desempregado e pianista."), a docilidade frágil e enervante de Clarissa ("Ela sorri aos canários da primavera.") - enfim, é tudo isto, e mais todo o resto, que fazem de Um Lugar ao Sol um dos livros mais impressionantes que já li.

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Aqui vai um pequeno fragmento do texto que, como de praxe, sempre costumo colocar no final das minhas resenhas. Longe de ser "O melhor" trecho, esta passagem me chamou a atenção apenas por ser de uma docilidade e expressão únicas. (Não sei se quem que não leu o livro vai achá-la tão marcante quanto eu achei.)

Na cena em questão, acontece que o dr. Seixas é chamado em domicílio para dar o prognóstico do enfermo sr. Orozimbo, e, atendendo aos pedidos insistentes de Dona Magnólia, vai ver também o caso da irreverente Lu e "dar-lhe conselhos para que ela pare com esta revolta enervante" e com esta vida de "rapariga farrista".

Mas o dr. Seixas, como sempre, apesar de ser amigo da família, acaba se revoltando contra a arenga da senhora e despeja:

"Olhe bem, dona Mag. Nós somos os culpados, nós os mais velhos. Fazemos guerras, loucuras, não temos juízo no miolo, estragamos o mundo e os jovens que vêm atrás de nós é que sofrem. Que culpa têm eles? Por que é que fizemos a Grande Guerra? Que foi que o mundo lucrou? Lucrou isto: toda essa pobre rapaziada hoje não sabe a quantas anda. Nós os velhos malucos, viciados e egoístas é que temos a culpa..."

O dr. Seixas fumava, sombrio. Continuou:

"Não adianta, não adianta. Hoje, depois... Mais tarde ou mais cedo a Lu vai embora, foge. Tem dezessete anos. Os mais moços não compreendem os mais velhos. É a vida. Não se iluda."

(...)

O doutor entrou no quarto de Lu. Segurou a menina pelos braços e olhou-a bem no rosto. Lu sorriu. Com o toco do cigarro colado ao lábio inferior, o doutor olhava firme para aqueles olhos dum verde sensual fresco e vítreo. Depois sorriu e largou-a. Voltou para a sala.

"Não houve nada. Boto a minha mão no fogo por aquela garota."

Enterrou o chapéu na cabeça e encaminhou-se para a porta. Voltou-se antes de sair.

"Não tem jeito, dona Mag. Nós somos os culpados. Nós, as pessoas que já estiveram antes aqui nesta terra e fizeram do mundo um lugar pior. Não se iluda. E não culpe a menina."

Disse isso e se foi.

***

(VERISSIMO, Erico. Um Lugar ao Sol, págs. 362-3. Companhia das Letras, 2005.)

02 julho 2009

A Paisagem para além da janela do trem - parte primeira.

Bem, este texto se trata basicamente de uma história fantástica que eu criei levado em grande parte pela impulsividade frenética; isto é, foi um texto feito quase que às três pancadas, como se diz, à base do "Quanto mais imaginação e imprevisibilidade, melhor". Portanto, se porventura o leitor achar alguma passagem enfadonha, incongruente ou simplesmente aborrecível - o que sem dúvida vai acontecer -, então perdoe a mente conturbada do escritor que a redigiu. :)

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estação meires

A Estação Ferroviária Meires fica localizada à margem da cidade de Fortaleza; digo, muito distante mesmo da metrópole, numa região rural e silenciosa aonde quase ninguém consegue chegar de automóvel, a vários e vários quilômetros dos ônibus barulhentos e dos edifícios cheios de gente que abarrotam o centro da Cidade da Luz. Se alguém se der ao trabalho de consultar um mapa geográfico, por exemplo, de qualidade cartográfica ímpar, verá em detalhes que a Estação Meires fica situada a aproximadamente 50 quilômetros da periferia de Fortaleza, na direção Leste da Rosa dos Ventos, rumo às Colinas Distantes, em uma localidade onde os trens são tidos como o principal meio de transporte.

Acho que isso é o máximo que eu posso dizer.

Depois de sair da cidade a bordo de ônibus intermunicipais muito surrados (com direito a motoristas ouvindo "Let the Sunshine"), aqui cheguei eu, na Estação Ferroviária Meires, praticamente fugido do centro urbano e dos aborrecimentos que assaltam nossos dias. Estou sentado em um dos muitos bancos de madeira que pontilham a plataforma de espera da Estação Ferroviária Meires, uma grande plataforma de concreto envelhecido.

Devo dizer que não há mais ninguém além de mim por aqui, ninguém em meu campo de visão, nenhum ruído humano. Apenas eu, mesmo, como indivíduo.

Ao meu lado, sobre o banco de madeira, está a minha mochila de viagem com os meus poucos pertences dentro. À minha frente, em um nível um pouco mais rebaixado, estão os trilhos do trem. Para além deles e para aquém do banco onde estou sentado não há vivalma num raio de muitos quilômetros, exceto, é claro, o sujeito que me vendeu as passagens: um chefe-de-estação idoso que tem o olhar perdido e vago e que gagueja a cada duas palavras ditas. Lá está ele, a dez metros atrás de mim, assistindo a um programa de televisão dentro da sua minúscula portaria onde se lê sobre a entrada: Compra de Passagens. Ele usa sobre a cabeça uma espécie de quepe militar e fuma vez por outra um charuto barato. O som da sua televisão chega até os meus ouvidos apenas como um leve murmúrio chiado e artificial, ao longe, intercalado por estática; o vento se encarrega de levar estas ondas sonoras desagradáveis para bem longe daqui.

Da minha parte, enquanto o trem não dá as caras por aqui, ponho-me a esquecer o ruído distante da televisão do senhor e a refletir sobre a beleza misteriosa deste lugar. Olho ao redor: a Estação Meires é um lugar interessante e bonito porque é um lugar vazio, amplo e plano – e silencioso, conseqüentemente. Acima da minha cabeça, a muitos metros, estende-se o clássico telhado de ferro na forma de parábola, em cujos trançados de vigas muitos passarinhos já fizeram seus ninhos e voam de lá para cá, cantarolando. A imensidão espacial que há entre esse telhado de ferro e o piso de concreto da estação deixa qualquer um enlevado. Para os lados do banco onde estou sentado, consigo apenas divisar alguns contêineres de carga que jazem silenciosamente sobre o piso da estação, uns atrás dos outros e uns sobre os outros, à espera de algum guindaste que os coloque sobre os vagões de algum trem específico. Uma golfada de vento forte quase regular atravessa a Estação e faz voar uma miríade de papéis abandonados.

O silêncio é acolhedor. O ruído do redemoinho das folhas de papel é hipnótico. Não posso deixar de perceber estas maravilhas.

Ainda de onde eu estou, posso divisar os trilhos de trem que surgem lá fora, sobre a terra batida das Colinas, e que entram na Estação como o curso de um rio canalizado e manso. Lá fora, para além da Estação, claro, o sol: brilhando e fazendo do dia um ótimo espaço para divagar. O céu é limpo e azul, e as nuvens, esparsas.

Ótimo horário para escrever.

Na realidade, eu não poderia ter escolhido um dia melhor para iniciar a minha viagem às Montanhas.

Espero que Fernanda não se importe com a minha maneira particular de procurar inspiração e fugir das pessoas.

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[continua...] <-- Parece coisa de folhetim ou de filme de segunda categoria.

A Paisagem para além da janela do trem - parte segunda.

Continuação do post anterior. Mais loucuras, mais imprevisibilidades, mais incongruências. (Assim pareço até o Erico Verissimo, criticando impiedosamente o próprio trabalho.) ^^

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A primeira coisa que eu percebo quando entro no vagão comercial de um trem da tal companhia Railway Trans-142 é que a cabine para os passageiros é muito grande para alguém que pretende fazer uma viagem de dois dias sozinho, como eu, agora, por exemplo.

(Bom, deixe-me explicar o que aconteceu antes. Há alguns minutos, enquanto eu esperava o trem na Estação Meires, este surgiu deslizando silenciosamente pelos trilhos que vêm do campo e conduzem à plataforma, saindo da luz do sol de lá de fora e entrando na sombra daquela imensa estrutura. A locomotiva demorou alguns segundos para estacar, e, quando o fez, um halo gigante de fumaça cinza se formou ao redor da maquinaria [locomotiva a vapor!]

Ótimo. Peguei minha mochila sobre o banco e subi então da plataforma diretamente para o vagão dos passageiros. Agora entro na cabine, percebendo não sem surpresa que eu sou o único passageiro – ou pelo menos um dos únicos – que está a bordo deste trem.)

Entro e me detenho a observar por uns instantes a cabine dos passageiros. É aqui onde eu vou passar a viagem inteira. Há, do lado direito do aposento, uma grande janela envidraçada que ocupa toda a área da parede (ou pelo menos boa parte dela), e que fornece uma bela vista panorâmica da zona rural das Colinas Distantes – um campinho de futebol abandonado, uma casinha rústica de tijolos com quintal, uma indústria fumegante lá ao longe, uma árvore isolada e esquecida dando sombra para ninguém.

campos verdes blog

A luz do sol de 9 horas e 30 minutos da manhã entra por esta janela e inunda toda a cabine, dourando o assoalho de madeira e as prateleiras polidas com uma coloração âmbar ofuscante. Todo o ambiente da cabine é requintado e feito sob medida, digamos assim, ao clássico estilo Belle Époque. Sinto-me verdadeiramente em pleno século XIX. A temperatura deve estar em torno dos 28º C, e eu finalmente vejo razão para tirar o meu casaco.

Suspiro, deixo as minhas bagagens (ou melhor, minha mochila e o meu casaco) sobre uma prateleira que há na parede – numa parte sobre a janela de vidro – e sento-me pesadamente na poltrona acolchoada da cabine; nesse ato, percebo que o tecido do estofado está rasgado em vários lugares, e uma esponja amarelada surge pelas frestas. Minha tentativa de remediar este problema, procurando enfiar as esponjas de volta aos seus lugares, é vã e acabo desistindo.

Demora mais ou menos 20 minutos para que o trem comece então a deslizar pelos trilhos, saindo da Estação Meires e ganhando os campos verdejantes das Colinas Distantes, apitando sua clássica buzina como nos tempos antigos. Este apito agudo característico de trem tem um valor sentimental desagradável muito grande para mim – é verdade. Me faz lembrar dos tempos miseráveis de criança em que Jéssica e eu íamos até a Estação Ferroviária Locastev entregar o almoço de papai, enquanto ele trabalhava como um louco na companhia, sempre sob o olhar raivoso e os sermões severos do sr. Van Dan, seu chefe. Mamãe ficava em casa preparando as comidas e cuidando da nossa criação de galinhas, enquanto Seu Leocádio vendia quinquilharias na lojinha da frente e dormia com ela de vez em quando, sem que nós, filhos, naquela época, soubéssemos.

Mas isto é passado, penso agora, enquanto olho para a paisagem viva que começa a se mexer através da grande janela da cabine. Afundo-me então na poltrona rasgada e me ponho a pensar.

Tenho a leve sensação de que, com esta viagem, estou tentando fugir da cidade e da civilização que nela vive. Estou fugindo de todos: da minha família desagradável, dos meus amigos que nunca tive, das minhas namoradas desvairadas, dos meus sócios interesseiros e ambiciosos. Para ser sincero – sincero de verdade, pois há pessoas neste planeta que mentem com sinceridade – acho que essa questão de fugir dos outros seres humanos e tentar encontrar uma certa paz interior não é algo condenável – de maneira alguma. Creio que este tipo de liberdade não nos deveria ser negada; não somos necessariamente obrigados a viver em sociedade sempre. Também faz parte da natureza humana isolar-se.

É o que eu acho.

Fecho os olhos e recosto a cabeça na guarda da poltrona. O movimento trepidante do vagão me deixa sonolento.

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[Continua...]

11 junho 2009

Sobre o espelho do banheiro, metafísica e música.

Se, ao término da leitura deste post, meus queridos leitores acharem que fiquei louco de vez, esclareço: Não, não fiquei, essa é apenas a maneira humorística com que eu encaro as coisas. Minha tendência a querer transformar tudo em história acaba fazendo com que todas as coisas ao meu redor pareçam pitorescas demais! xD

(Este esclarecimento vale também para os futuros posts). ^^

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A primeira coisa que eu costumo fazer ao acordar de manhã, antes de tudo, é consultar o relógio que está sobre a mesinha-de-cabeceira do meu quarto. Não sei bem por que razão faço isso, mas a verdade é que sinto uma real exigência de ver as horas assim que desperto. É como se fosse um ritual, como se fizesse parte da minha liturgia de todos os dias, o ponto de partida para tudo, o início do meu funcionamento físico e mental: acordo e olho para o relógio.

Hoje, por exemplo, acordo com a cabeça meio pesada e olho para os dígitos que lá estão sobre a mesinha: 8 e 16 da manhã. A cortina da janela que fica em cima da minha cama está parcialmente cerrada, e através do seu fino tecido de seda marrom uma rajada de luz matinal penetra pelo quarto, deixando-o em uma semi-penumbra interessante, e que me faz ter mais sono ainda. A barra da cortina balança suavemente. Sinto uma leve inclinação a mergulhar de novo na inconsciência, a ir visitar os recantos da minha mente e ir ver que tipo de sonhos eles produziram para mim.

No entanto, penso: Hoje é feriado, e quero aproveitar a incrível camada de silêncio que recai sobre a cidade nas primeiras horas do dia. Levanto-me da cama. Tiro as meias (durmo com elas, senão é resfriado na certa), desligo o despertador (que nunca me acorda na hora pretendida) e me dirijo até o banheiro, não sem antes tropeçar nos meus chinelos que estão perto da porta. Entro no box e permito que a ducha de água fria caia sobre mim e me renove o espírito, enquanto assobio desajeitadamente 'Run Through The Jungle', do Creedence Revival. Mas as gotas de água que caem do chuveiro passam pelos meus lábios e apenas um som esquisito e atravancado sai da minha boca.

Renovar o espírito?, penso agora, enquanto escrevo. Que coisa mais transcendental, mais mística. Deve ter sido alguma manifestação do Deus-Bola que me fez escrever isso.

Saio do banho e, ainda enxugando os cabelos com a toalha, me olho sem querer no grande espelho que está sobre a pia. Paro de me enxugar e tento esboçar um sorriso para mim mesmo, para ver se a minha simpatia me convence. E fico afinal assim, observando a minha própria imagem por um bom tempo, toalha ao redor da cintura, mãos apoiadas na bancada da pia.

Quando eu era pequeno, tinha a mania de ficar a me olhar no espelho durante tantos minutos, que eu chegava a me perguntar se quem estava ali do outro lado era mesmo eu. Pensava: Então, esse aí sou eu? É esse o corpo que o Cosmos me deu? Ainda me era muito estranho que fosse. Sentia mais como se o Marlo observador, o real, fosse uma espécie de consciência separada, e o outro Marlo, o observado no espelho, fosse a projeção da minha consciência na terra.

Eu sabia que, no final das contas, essa era uma questão que nunca ficaria resolvida em definitivo. Imagino todas as questões de metafísica que há no mundo... São infinitas, concluo. Deve ser por isso que as pessoas acreditam em Deus; diante de tantas perguntas sem resposta, elas precisam de algo em que se agarrar com firmeza. Mas quem disse que Deus é algo firme? Não é concreto. Ninguém nunca o viu. O Deus-Bola que está sobre a minha mesinha-de-cabeceira é mais firme e concreto do que Ele, e todas as pessoas o vêem e o tocam, ficando deslumbradas com os seus raios violetas e azuis.

Tento pensar em um mundo sem religião. Mas desisto de filosofar sobre essas coisas logo tão cedo do dia. E depois de um extenso momento de auto-observação na frente do espelho, caio na real e percebo que a minha barba está grande demais. Este é um problema verdadeiro, e não metafísico, reflito. Passo a mão pelo meu rosto. É incrível, penso. Minha barba cresce em uma velocidade irritante. Eu a fiz anteontem; e, hoje, aqui está ela de novo. Meu Deus!

E é pensando nisso que tiro a gilete do estojo e trato de extirpar aquela barba inconveniente dali. Durante essa atividade, vejo um céu de um azul celeste gritante através da pequena janela do banheiro, refletida pelo espelho à minha frente. Adoro esse tipo de céu. Acho muito bonito. E o silêncio é também uma coisa muito reconfortante. Nenhum barulho de buzina de carro, ninguém gritando no meio da rua, nenhum vizinho de cima arrastando os móveis.

Para ser sincero, consigo até escutar o barulho da lâmina raspando meu rosto.

(Lembro-me de que um amigo meu, no 2º Ano do Ensino Médio, certa vez me confessou que adorava tocar instrumentos musicais dentro do banheiro da sua casa. Ele era motivado a dedilhar no violão sobre o piso de lajotas mesmo, próximo ao box do chuveiro. Justificou a prática absurda dizendo que a acústica que existe naquele cubículo é simplesmente fantástica. Acho que deve ser verdade. Mas não deixa de ser excêntrico!...)

Acabo o escanhoamento dentro de cinco minutos, saio do banheiro e vou até a cozinha. Pregado na porta da geladeira está um aviso escrito em letras minúsculas que eu mal consigo enxergar: "Saímos, e você vai ficar sozinho aqui em casa até as 3 horas da tarde, mais ou menos. Fomos deixar o Alexandre na casa do colega dele, dentre outras coisas. Ass.: Martha. Beijos, e até mais!"

Minha mãe é do tipo de pessoa séria, concentrada, mas que mesmo assim consegue passar uma imagem bem engraçada quando quer. Por exemplo, lendo esse bilhete, fica a impressão de que ele nem é um bilhete em si, mas de que é um aviso de penintência. Você vai ficar sozinho em casa até as 3 horas da tarde. Se vire.

Desprego o pequeno pedaço de papel da porta da geladeira, amasso-o e o jogo no lixo. Depois acendo as luzes da cozinha, que vacilam antes de se fixar. Diviso a seguir sobre o fogão uma panela inox tampada. Penso: Ali deve haver comida. Me precipito até ela, abro-a a muito custo por causa da pressão interior, apenas para descobrir um fundo vazio. Sem nenhum problema, reflito.

"Hoje teremos China In Box para o almoço", anuncio para o pingüim de porcelana que fica sobre a geladeira.

"Menos mal", ouço ele responder. Lembro que a solidão faz as pessoas ficarem loucas. E me pergunto quanto tempo demora para que elas sucumbam totalmente à loucura.

Abro o armário que fica sobre a pia e, por detrás da lata de biscoitos, pego de dentro do depósito um pão de massa fina. Logo no momento em que o pego, porém, desisto da idéia de comê-lo. Meus olhos pousam sobre a lata de biscoitos. Por que não? Faço uma tigela de leite rapidamente (com direito aos cereais do Tigre Tony) à guisa de acompanhamento. Enquanto preparo o meu próprio lanche, abrindo gavetas e retirando talheres, assobio uma versão inventada de 'Just Another Day'.

Me sento então à mesa da cozinha e fico ali, deleitando-me com aquele pacote de biscoitos Passatempo enquanto os cereais ficam mais murchos e mais gostosos, afundados ao leite. O silêncio continua, e os raios do sol entram pela janela comprida que há na despensa logo ali. Projeta-se então um jogo de luzes e sombras na parede, bem sobre a minha cabeça. A geladeira estala ao meu lado tentando manter a temperatura. Penso: De uma forma ou de outra, todos nós estamos tentando manter nossa temperatura neste mundo.

O pingüim de porcelana parece concordar lá de cima.

Sem nada melhor para fazer depois de terminar o lanche matinal, ligo o computador e passeio pela Internet. O silêncio continua. Decido ouvir um pouco de música para fazer o ar vibrar. Começo com Beatles, apesar de não ir muito com a cara do Paul McCartney. Ouço deles 'Norwegian Wood' e 'Strawberry Fields Forever', passando por 'Yellow Submarine', 'A Hard Day's Night' (adoro essa) e 'Can't Buy Me Love'. Depois vou para The Clash e escuto o álbum 'From Here to Eternity' (gosto desse nome). Em seguida puxo uma coletânea de Simon & Garfunkel e ouço 'Cecilia', 'Bridge Over Trouble Water', 'The Boxer' e a clássica 'I am Rock'.

Por último, escuto o álbum duplo do 'Pulse', do Pink Floyd, na íntegra. Floyd é essencial.

Quando a 'One of These Days' termina de tocar, ergo os olhos da tela do computador para o relógio da parede da sala: 12 e 10 da tarde, verifico. Passei duas horas e meia do dia escutando música. Quando ouço música, os minutos se estagnam ao meu redor - ou melhor, eles passam e eu não acompanho o seu ritmo. Percebo então que está na hora de almoçar; desligo o computador, tomo nas mãos a lista telefônica da cidade, folheio as páginas amarelas e disco o número do China In Box Delivery, fitando o mapa da Região 14 da metrópole.

Uma moça simpática me saúda com um "Boa tarde!" efusivo do outro lado da linha, anunciando que é da referida empresa. Retribuo a saudação, sento-me no sofá da sala e peço uma porção de yakisoba tradicional com bastante verduras. Não sei se este tipo de pedido é viável, mas mesmo assim falo rindo: "Com bastante verdura!" A moça ri também, achando autêntica graça na minha fala, e pergunta se eu quero comer a yakisoba com hashi. Digo que sim. Adoro aqueles pauzinhos. Enquanto anota o meu pedido, a recepcionista do China In Box ri outra vez e diz que comida chinesa não é nada sem eles, realmente, e que o seu namorado às vezes coleciona os hashi quando saem ambos para jantar fora.

Então existe uma pessoa mais desocupada do que eu, penso.

Desligamos. E enquanto o almoço não bate à minha porta, vou até o quarto e fico relendo alguns trechos de 'Um Homem Extraordinário', de Anton Thekhov, e imaginando o que aquele sujeito misterioso faria se estivesse no meu lugar.

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Nova fotografia do Deus-Bola (agora mais de perto! Estou me arriscando!):

PB0500652

Capa do CD duplo 'Pulse' (a mais bela obra de arte que eu já vi em uma capa de disco!):

PULSE - Pink Floyd

O Pingüim Eloqüente que adora comida chinesa, sobre a geladeira da cozinha (ele me dá calafrios!):

pingüim