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02 julho 2009

A Paisagem para além da janela do trem - parte primeira.

Bem, este texto se trata basicamente de uma história fantástica que eu criei levado em grande parte pela impulsividade frenética; isto é, foi um texto feito quase que às três pancadas, como se diz, à base do "Quanto mais imaginação e imprevisibilidade, melhor". Portanto, se porventura o leitor achar alguma passagem enfadonha, incongruente ou simplesmente aborrecível - o que sem dúvida vai acontecer -, então perdoe a mente conturbada do escritor que a redigiu. :)

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estação meires

A Estação Ferroviária Meires fica localizada à margem da cidade de Fortaleza; digo, muito distante mesmo da metrópole, numa região rural e silenciosa aonde quase ninguém consegue chegar de automóvel, a vários e vários quilômetros dos ônibus barulhentos e dos edifícios cheios de gente que abarrotam o centro da Cidade da Luz. Se alguém se der ao trabalho de consultar um mapa geográfico, por exemplo, de qualidade cartográfica ímpar, verá em detalhes que a Estação Meires fica situada a aproximadamente 50 quilômetros da periferia de Fortaleza, na direção Leste da Rosa dos Ventos, rumo às Colinas Distantes, em uma localidade onde os trens são tidos como o principal meio de transporte.

Acho que isso é o máximo que eu posso dizer.

Depois de sair da cidade a bordo de ônibus intermunicipais muito surrados (com direito a motoristas ouvindo "Let the Sunshine"), aqui cheguei eu, na Estação Ferroviária Meires, praticamente fugido do centro urbano e dos aborrecimentos que assaltam nossos dias. Estou sentado em um dos muitos bancos de madeira que pontilham a plataforma de espera da Estação Ferroviária Meires, uma grande plataforma de concreto envelhecido.

Devo dizer que não há mais ninguém além de mim por aqui, ninguém em meu campo de visão, nenhum ruído humano. Apenas eu, mesmo, como indivíduo.

Ao meu lado, sobre o banco de madeira, está a minha mochila de viagem com os meus poucos pertences dentro. À minha frente, em um nível um pouco mais rebaixado, estão os trilhos do trem. Para além deles e para aquém do banco onde estou sentado não há vivalma num raio de muitos quilômetros, exceto, é claro, o sujeito que me vendeu as passagens: um chefe-de-estação idoso que tem o olhar perdido e vago e que gagueja a cada duas palavras ditas. Lá está ele, a dez metros atrás de mim, assistindo a um programa de televisão dentro da sua minúscula portaria onde se lê sobre a entrada: Compra de Passagens. Ele usa sobre a cabeça uma espécie de quepe militar e fuma vez por outra um charuto barato. O som da sua televisão chega até os meus ouvidos apenas como um leve murmúrio chiado e artificial, ao longe, intercalado por estática; o vento se encarrega de levar estas ondas sonoras desagradáveis para bem longe daqui.

Da minha parte, enquanto o trem não dá as caras por aqui, ponho-me a esquecer o ruído distante da televisão do senhor e a refletir sobre a beleza misteriosa deste lugar. Olho ao redor: a Estação Meires é um lugar interessante e bonito porque é um lugar vazio, amplo e plano – e silencioso, conseqüentemente. Acima da minha cabeça, a muitos metros, estende-se o clássico telhado de ferro na forma de parábola, em cujos trançados de vigas muitos passarinhos já fizeram seus ninhos e voam de lá para cá, cantarolando. A imensidão espacial que há entre esse telhado de ferro e o piso de concreto da estação deixa qualquer um enlevado. Para os lados do banco onde estou sentado, consigo apenas divisar alguns contêineres de carga que jazem silenciosamente sobre o piso da estação, uns atrás dos outros e uns sobre os outros, à espera de algum guindaste que os coloque sobre os vagões de algum trem específico. Uma golfada de vento forte quase regular atravessa a Estação e faz voar uma miríade de papéis abandonados.

O silêncio é acolhedor. O ruído do redemoinho das folhas de papel é hipnótico. Não posso deixar de perceber estas maravilhas.

Ainda de onde eu estou, posso divisar os trilhos de trem que surgem lá fora, sobre a terra batida das Colinas, e que entram na Estação como o curso de um rio canalizado e manso. Lá fora, para além da Estação, claro, o sol: brilhando e fazendo do dia um ótimo espaço para divagar. O céu é limpo e azul, e as nuvens, esparsas.

Ótimo horário para escrever.

Na realidade, eu não poderia ter escolhido um dia melhor para iniciar a minha viagem às Montanhas.

Espero que Fernanda não se importe com a minha maneira particular de procurar inspiração e fugir das pessoas.

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[continua...] <-- Parece coisa de folhetim ou de filme de segunda categoria.

A Paisagem para além da janela do trem - parte segunda.

Continuação do post anterior. Mais loucuras, mais imprevisibilidades, mais incongruências. (Assim pareço até o Erico Verissimo, criticando impiedosamente o próprio trabalho.) ^^

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A primeira coisa que eu percebo quando entro no vagão comercial de um trem da tal companhia Railway Trans-142 é que a cabine para os passageiros é muito grande para alguém que pretende fazer uma viagem de dois dias sozinho, como eu, agora, por exemplo.

(Bom, deixe-me explicar o que aconteceu antes. Há alguns minutos, enquanto eu esperava o trem na Estação Meires, este surgiu deslizando silenciosamente pelos trilhos que vêm do campo e conduzem à plataforma, saindo da luz do sol de lá de fora e entrando na sombra daquela imensa estrutura. A locomotiva demorou alguns segundos para estacar, e, quando o fez, um halo gigante de fumaça cinza se formou ao redor da maquinaria [locomotiva a vapor!]

Ótimo. Peguei minha mochila sobre o banco e subi então da plataforma diretamente para o vagão dos passageiros. Agora entro na cabine, percebendo não sem surpresa que eu sou o único passageiro – ou pelo menos um dos únicos – que está a bordo deste trem.)

Entro e me detenho a observar por uns instantes a cabine dos passageiros. É aqui onde eu vou passar a viagem inteira. Há, do lado direito do aposento, uma grande janela envidraçada que ocupa toda a área da parede (ou pelo menos boa parte dela), e que fornece uma bela vista panorâmica da zona rural das Colinas Distantes – um campinho de futebol abandonado, uma casinha rústica de tijolos com quintal, uma indústria fumegante lá ao longe, uma árvore isolada e esquecida dando sombra para ninguém.

campos verdes blog

A luz do sol de 9 horas e 30 minutos da manhã entra por esta janela e inunda toda a cabine, dourando o assoalho de madeira e as prateleiras polidas com uma coloração âmbar ofuscante. Todo o ambiente da cabine é requintado e feito sob medida, digamos assim, ao clássico estilo Belle Époque. Sinto-me verdadeiramente em pleno século XIX. A temperatura deve estar em torno dos 28º C, e eu finalmente vejo razão para tirar o meu casaco.

Suspiro, deixo as minhas bagagens (ou melhor, minha mochila e o meu casaco) sobre uma prateleira que há na parede – numa parte sobre a janela de vidro – e sento-me pesadamente na poltrona acolchoada da cabine; nesse ato, percebo que o tecido do estofado está rasgado em vários lugares, e uma esponja amarelada surge pelas frestas. Minha tentativa de remediar este problema, procurando enfiar as esponjas de volta aos seus lugares, é vã e acabo desistindo.

Demora mais ou menos 20 minutos para que o trem comece então a deslizar pelos trilhos, saindo da Estação Meires e ganhando os campos verdejantes das Colinas Distantes, apitando sua clássica buzina como nos tempos antigos. Este apito agudo característico de trem tem um valor sentimental desagradável muito grande para mim – é verdade. Me faz lembrar dos tempos miseráveis de criança em que Jéssica e eu íamos até a Estação Ferroviária Locastev entregar o almoço de papai, enquanto ele trabalhava como um louco na companhia, sempre sob o olhar raivoso e os sermões severos do sr. Van Dan, seu chefe. Mamãe ficava em casa preparando as comidas e cuidando da nossa criação de galinhas, enquanto Seu Leocádio vendia quinquilharias na lojinha da frente e dormia com ela de vez em quando, sem que nós, filhos, naquela época, soubéssemos.

Mas isto é passado, penso agora, enquanto olho para a paisagem viva que começa a se mexer através da grande janela da cabine. Afundo-me então na poltrona rasgada e me ponho a pensar.

Tenho a leve sensação de que, com esta viagem, estou tentando fugir da cidade e da civilização que nela vive. Estou fugindo de todos: da minha família desagradável, dos meus amigos que nunca tive, das minhas namoradas desvairadas, dos meus sócios interesseiros e ambiciosos. Para ser sincero – sincero de verdade, pois há pessoas neste planeta que mentem com sinceridade – acho que essa questão de fugir dos outros seres humanos e tentar encontrar uma certa paz interior não é algo condenável – de maneira alguma. Creio que este tipo de liberdade não nos deveria ser negada; não somos necessariamente obrigados a viver em sociedade sempre. Também faz parte da natureza humana isolar-se.

É o que eu acho.

Fecho os olhos e recosto a cabeça na guarda da poltrona. O movimento trepidante do vagão me deixa sonolento.

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[Continua...]

11 junho 2009

Sobre o espelho do banheiro, metafísica e música.

Se, ao término da leitura deste post, meus queridos leitores acharem que fiquei louco de vez, esclareço: Não, não fiquei, essa é apenas a maneira humorística com que eu encaro as coisas. Minha tendência a querer transformar tudo em história acaba fazendo com que todas as coisas ao meu redor pareçam pitorescas demais! xD

(Este esclarecimento vale também para os futuros posts). ^^

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A primeira coisa que eu costumo fazer ao acordar de manhã, antes de tudo, é consultar o relógio que está sobre a mesinha-de-cabeceira do meu quarto. Não sei bem por que razão faço isso, mas a verdade é que sinto uma real exigência de ver as horas assim que desperto. É como se fosse um ritual, como se fizesse parte da minha liturgia de todos os dias, o ponto de partida para tudo, o início do meu funcionamento físico e mental: acordo e olho para o relógio.

Hoje, por exemplo, acordo com a cabeça meio pesada e olho para os dígitos que lá estão sobre a mesinha: 8 e 16 da manhã. A cortina da janela que fica em cima da minha cama está parcialmente cerrada, e através do seu fino tecido de seda marrom uma rajada de luz matinal penetra pelo quarto, deixando-o em uma semi-penumbra interessante, e que me faz ter mais sono ainda. A barra da cortina balança suavemente. Sinto uma leve inclinação a mergulhar de novo na inconsciência, a ir visitar os recantos da minha mente e ir ver que tipo de sonhos eles produziram para mim.

No entanto, penso: Hoje é feriado, e quero aproveitar a incrível camada de silêncio que recai sobre a cidade nas primeiras horas do dia. Levanto-me da cama. Tiro as meias (durmo com elas, senão é resfriado na certa), desligo o despertador (que nunca me acorda na hora pretendida) e me dirijo até o banheiro, não sem antes tropeçar nos meus chinelos que estão perto da porta. Entro no box e permito que a ducha de água fria caia sobre mim e me renove o espírito, enquanto assobio desajeitadamente 'Run Through The Jungle', do Creedence Revival. Mas as gotas de água que caem do chuveiro passam pelos meus lábios e apenas um som esquisito e atravancado sai da minha boca.

Renovar o espírito?, penso agora, enquanto escrevo. Que coisa mais transcendental, mais mística. Deve ter sido alguma manifestação do Deus-Bola que me fez escrever isso.

Saio do banho e, ainda enxugando os cabelos com a toalha, me olho sem querer no grande espelho que está sobre a pia. Paro de me enxugar e tento esboçar um sorriso para mim mesmo, para ver se a minha simpatia me convence. E fico afinal assim, observando a minha própria imagem por um bom tempo, toalha ao redor da cintura, mãos apoiadas na bancada da pia.

Quando eu era pequeno, tinha a mania de ficar a me olhar no espelho durante tantos minutos, que eu chegava a me perguntar se quem estava ali do outro lado era mesmo eu. Pensava: Então, esse aí sou eu? É esse o corpo que o Cosmos me deu? Ainda me era muito estranho que fosse. Sentia mais como se o Marlo observador, o real, fosse uma espécie de consciência separada, e o outro Marlo, o observado no espelho, fosse a projeção da minha consciência na terra.

Eu sabia que, no final das contas, essa era uma questão que nunca ficaria resolvida em definitivo. Imagino todas as questões de metafísica que há no mundo... São infinitas, concluo. Deve ser por isso que as pessoas acreditam em Deus; diante de tantas perguntas sem resposta, elas precisam de algo em que se agarrar com firmeza. Mas quem disse que Deus é algo firme? Não é concreto. Ninguém nunca o viu. O Deus-Bola que está sobre a minha mesinha-de-cabeceira é mais firme e concreto do que Ele, e todas as pessoas o vêem e o tocam, ficando deslumbradas com os seus raios violetas e azuis.

Tento pensar em um mundo sem religião. Mas desisto de filosofar sobre essas coisas logo tão cedo do dia. E depois de um extenso momento de auto-observação na frente do espelho, caio na real e percebo que a minha barba está grande demais. Este é um problema verdadeiro, e não metafísico, reflito. Passo a mão pelo meu rosto. É incrível, penso. Minha barba cresce em uma velocidade irritante. Eu a fiz anteontem; e, hoje, aqui está ela de novo. Meu Deus!

E é pensando nisso que tiro a gilete do estojo e trato de extirpar aquela barba inconveniente dali. Durante essa atividade, vejo um céu de um azul celeste gritante através da pequena janela do banheiro, refletida pelo espelho à minha frente. Adoro esse tipo de céu. Acho muito bonito. E o silêncio é também uma coisa muito reconfortante. Nenhum barulho de buzina de carro, ninguém gritando no meio da rua, nenhum vizinho de cima arrastando os móveis.

Para ser sincero, consigo até escutar o barulho da lâmina raspando meu rosto.

(Lembro-me de que um amigo meu, no 2º Ano do Ensino Médio, certa vez me confessou que adorava tocar instrumentos musicais dentro do banheiro da sua casa. Ele era motivado a dedilhar no violão sobre o piso de lajotas mesmo, próximo ao box do chuveiro. Justificou a prática absurda dizendo que a acústica que existe naquele cubículo é simplesmente fantástica. Acho que deve ser verdade. Mas não deixa de ser excêntrico!...)

Acabo o escanhoamento dentro de cinco minutos, saio do banheiro e vou até a cozinha. Pregado na porta da geladeira está um aviso escrito em letras minúsculas que eu mal consigo enxergar: "Saímos, e você vai ficar sozinho aqui em casa até as 3 horas da tarde, mais ou menos. Fomos deixar o Alexandre na casa do colega dele, dentre outras coisas. Ass.: Martha. Beijos, e até mais!"

Minha mãe é do tipo de pessoa séria, concentrada, mas que mesmo assim consegue passar uma imagem bem engraçada quando quer. Por exemplo, lendo esse bilhete, fica a impressão de que ele nem é um bilhete em si, mas de que é um aviso de penintência. Você vai ficar sozinho em casa até as 3 horas da tarde. Se vire.

Desprego o pequeno pedaço de papel da porta da geladeira, amasso-o e o jogo no lixo. Depois acendo as luzes da cozinha, que vacilam antes de se fixar. Diviso a seguir sobre o fogão uma panela inox tampada. Penso: Ali deve haver comida. Me precipito até ela, abro-a a muito custo por causa da pressão interior, apenas para descobrir um fundo vazio. Sem nenhum problema, reflito.

"Hoje teremos China In Box para o almoço", anuncio para o pingüim de porcelana que fica sobre a geladeira.

"Menos mal", ouço ele responder. Lembro que a solidão faz as pessoas ficarem loucas. E me pergunto quanto tempo demora para que elas sucumbam totalmente à loucura.

Abro o armário que fica sobre a pia e, por detrás da lata de biscoitos, pego de dentro do depósito um pão de massa fina. Logo no momento em que o pego, porém, desisto da idéia de comê-lo. Meus olhos pousam sobre a lata de biscoitos. Por que não? Faço uma tigela de leite rapidamente (com direito aos cereais do Tigre Tony) à guisa de acompanhamento. Enquanto preparo o meu próprio lanche, abrindo gavetas e retirando talheres, assobio uma versão inventada de 'Just Another Day'.

Me sento então à mesa da cozinha e fico ali, deleitando-me com aquele pacote de biscoitos Passatempo enquanto os cereais ficam mais murchos e mais gostosos, afundados ao leite. O silêncio continua, e os raios do sol entram pela janela comprida que há na despensa logo ali. Projeta-se então um jogo de luzes e sombras na parede, bem sobre a minha cabeça. A geladeira estala ao meu lado tentando manter a temperatura. Penso: De uma forma ou de outra, todos nós estamos tentando manter nossa temperatura neste mundo.

O pingüim de porcelana parece concordar lá de cima.

Sem nada melhor para fazer depois de terminar o lanche matinal, ligo o computador e passeio pela Internet. O silêncio continua. Decido ouvir um pouco de música para fazer o ar vibrar. Começo com Beatles, apesar de não ir muito com a cara do Paul McCartney. Ouço deles 'Norwegian Wood' e 'Strawberry Fields Forever', passando por 'Yellow Submarine', 'A Hard Day's Night' (adoro essa) e 'Can't Buy Me Love'. Depois vou para The Clash e escuto o álbum 'From Here to Eternity' (gosto desse nome). Em seguida puxo uma coletânea de Simon & Garfunkel e ouço 'Cecilia', 'Bridge Over Trouble Water', 'The Boxer' e a clássica 'I am Rock'.

Por último, escuto o álbum duplo do 'Pulse', do Pink Floyd, na íntegra. Floyd é essencial.

Quando a 'One of These Days' termina de tocar, ergo os olhos da tela do computador para o relógio da parede da sala: 12 e 10 da tarde, verifico. Passei duas horas e meia do dia escutando música. Quando ouço música, os minutos se estagnam ao meu redor - ou melhor, eles passam e eu não acompanho o seu ritmo. Percebo então que está na hora de almoçar; desligo o computador, tomo nas mãos a lista telefônica da cidade, folheio as páginas amarelas e disco o número do China In Box Delivery, fitando o mapa da Região 14 da metrópole.

Uma moça simpática me saúda com um "Boa tarde!" efusivo do outro lado da linha, anunciando que é da referida empresa. Retribuo a saudação, sento-me no sofá da sala e peço uma porção de yakisoba tradicional com bastante verduras. Não sei se este tipo de pedido é viável, mas mesmo assim falo rindo: "Com bastante verdura!" A moça ri também, achando autêntica graça na minha fala, e pergunta se eu quero comer a yakisoba com hashi. Digo que sim. Adoro aqueles pauzinhos. Enquanto anota o meu pedido, a recepcionista do China In Box ri outra vez e diz que comida chinesa não é nada sem eles, realmente, e que o seu namorado às vezes coleciona os hashi quando saem ambos para jantar fora.

Então existe uma pessoa mais desocupada do que eu, penso.

Desligamos. E enquanto o almoço não bate à minha porta, vou até o quarto e fico relendo alguns trechos de 'Um Homem Extraordinário', de Anton Thekhov, e imaginando o que aquele sujeito misterioso faria se estivesse no meu lugar.

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Nova fotografia do Deus-Bola (agora mais de perto! Estou me arriscando!):

PB0500652

Capa do CD duplo 'Pulse' (a mais bela obra de arte que eu já vi em uma capa de disco!):

PULSE - Pink Floyd

O Pingüim Eloqüente que adora comida chinesa, sobre a geladeira da cozinha (ele me dá calafrios!):

pingüim

10 junho 2009

Sobre insônia e a escuridão do meu quarto - parte primeira.

Inicia-se com este post o que eu denominarei de "textos-diários"; isto é, textos escritos por mim e que visam contar alguma coisa do meu dia às pessoas que se dão ao trabalho de ler o blog. Os fatos contidos neste texto (assim como nos próximos) são verídicos, e foram apenas levemente moldados para caberem na narrativa. Espero que gostem da novidade (antes eu só me limitava a escrever sobre os livros que lia) e, se pelo menos uma pessoa disser que está interessante, continuo com a coisa com o maior prazer - principalmente agora que descobri a incrível ferramenta blogueira do Windows, o Windows Live Writer! :D

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O relógio da minha mesinha-de-cabeceira marca exatamente 4 horas da manhã. Tudo está mergulhado na mais perfeita escuridão do quarto, e eu estou no 6º sono da noite quando o telefone ao lado da minha cama tilinta estridentemente. Salto da cama no mais pleno susto, indo parar do outro lado do colchão, completamente envolto pelos lençóis (foi uma péssima idéia instalar este telefone aqui ao lado, eu disse, mas ninguém me ouviu e o resultado é este). Consulto o relógio: certifico-me que é tarde da madrugada. Quem será que está telefonando a uma hora dessas?

Como há aqui em casa dois telefones conectados pela mesma linha - isto é, ambos tocam ao mesmo tempo, tanto o do meu quarto quanto o do quarto dos meus pais -, me precipito imediatamente sobre o aparelho a fim de que nenhuma chamada a mais possa interromper o sono das outras pessoas da casa (incluindo meu irascível irmão), que têm o sono mais leve do mundo. Sento-me na cama, ergo o fone e, mesmo com o ouvido levemente atordoado, escuto nitidamente alguém pronunciar o meu atípico nome lá do outro lado da linha:

"Marlo?"

Identifico a voz suave de uma garota. Penso: Pelo menos isso. E no instante seguinte reconheço que a dona da voz é a Natália, uma das minhas amigas mais problemáticas. Estou coçando as duas pálpebras com a mão direita, e, enquanto isso, fica rolando pela minha cabeça a seguinte pergunta: "O que será que ela quer?"

"Marlito, droga, eu não agüento mais isso...", diz ela. Como eu fico calado, ela continua: "Sabe, esse negócio de namorar com o Paulo não está dando certo de jeito nenhum!" Sua voz é chorosa, melódica, mas ela não está chorando, nem fazendo drama; está apenas irritada, suponho. Irritada com o Paulo, que eu não faço a mais remota idéia de quem seja.

"Poxa, garota...", digo, "você sabe que horas são?"

Ela faz uma pequena pausa, como que consultando o relógio de pulso, e diz a seguir na maior naturalidade: "São... 4 da manhã".

"Sabe, eu costumo estar dormindo nessa hora. E o pessoal aqui de casa também".

No entanto, sei por que ela teve confiança ao ligar para a minha casa de madrugada. Natália sabe que existe um telefone ao lado do meu ouvido enquanto eu estou dormindo. Se não fosse por isso, ela provavelmente jamais me telefonaria às 4 da manhã.

"Sério, eu peço um milhão de desculpas por estar te ligando a essa hora", ela admite, "mas estou sem conseguir dormir e precisando muito conversar com alguém. E eu sei que você pode me ajudar, Marlito!"

Ela sempre me chama de 'Marlito'. Ainda sentado sobre a cama e organizando as impressões, penso: Ser chamado de Marlito é o cúmulo. E imagino o que terá passado pela cabeça da Natália ao supor que eu sou psicólogo clínico 24 horas. Imagino-a na sua casa, sem conseguir dormir, revirando o corpo de um lado para outro sobre a cama, e finalmente erguendo o telefone e digitando o número da minha residência, em busca de socorro psicológico.

"Esse namoro está um saco, apesar de já fazer quase 5 meses", ela me diz. E eu, acostumado a ouvir essas queixas amorosas, recomendo que ela leia alguns versos de 'Poesias Completas de Alberto Caeiro', do Fernando Pessoa, porque assim, talvez, ela acalme os ânimos.

"Não, não, o Fernando não pode me ajudar dessa vez". Ela sempre se refere aos escritores pelo primeiro nome. Acho isso engraçado, e é a primeira pessoa na qual eu reparo essa mania. Por fim, pergunto se afinal ela está grávida, ou o que é. Quando recebo um "Não!, o que é isso, Marlo?!" suspiro aliviado e procuro mudar de assunto, agora que ela já conseguiu me despertar de vez.

"Eu só tive uma briga feia com ele. E não planejo ter filhos, você sabe", ela me diz, agora num tom de voz mais calmo e manso. Eu posso me gabar de ser um dos pouquíssimos homens para os quais ela declara seus sentimentos não-conversáveis. E imagino que, se um dia Natália souber que eu escrevi isso aqui, ela vai ficar... muito irritada comigo, na melhor das hipóteses.

"Não sei como eu me relacionaria com os meus próprios filhos. É estranho, não é?", ela continua dizendo. Na escuridão do meu quarto, identifico nessa fala um trecho de 'Caçando Carneiros', de Haruki Murakami. Não tenho idéia de como eu poderia me relacionar com eles, diz o protagonista sem nome do livro.

(Às vezes eu acho que é bastante agradável conversar com minhas amigas pelo telefone. Sério. Sinto como se fosse possível perceber a tradução dos seus sentimentos através da linha telefônica. Cada pausa, cada suspiro distorcido pela transmissão significa alguma coisa relevante na conversa com uma mulher. Eu já aprendi isso!)

De qualquer forma, continuo sentado sobre a cama e observo o relógio outra vez: 4 e 15 da manhã. Graças à luz do luar que entra pela janela e acerta o relógio, posso distinguir o brilho dos dígitos e ver as horas.

Fico esperando que Natália mude de assunto; quero dizer, converse algo mais fácil, algo que não seja sobre filhos ou sobre o namorado incompreensível. Esses assuntos são densos demais para se conversar a essa altura, principalmente levando-se em conta minha cabeça entorpecida e a dela, não muito diferente. Posso acabar dando um conselho errado ou impulsivo para a pobre coitada. E ela vai acabar seguindo.

É preciso cerca de 5 segundos de silêncio para que Natália rume para outro caminho:

"E então", ela diz, animada, como se fossem onze horas da manhã e tivéssemos acabado de sair do campus, "será que o curso de segundo semestre na UNIFOR é difícil?" UNIFOR é o nome da universidade em que nós estudamos, e significa Universidade de Fortaleza. Gostamos desse nome porque lembra "Universidade de Tóquio" (Toudai), "Universidade de Harvard" ou "Universidade de Colúmbia". É um nome legal, que remete à internacionalização. É diferente de, por exemplo, Faculdade Integrada do Ceará.

"Marlo, que diabos, você está dormindo?", ela grita do outro lado, rindo. Rio também e digo que não, que não é de meu costume dormir pendurado ao telefone, por mais que alguém me azucrine ligando de madrugada e me deixando trôpego de sono.

"Pois bem", ela continua. Natália é da laia de mulheres que conseguem passar muito tempo falando. Ela fala qualquer coisa que vem à mente. "Eu fiquei sabendo que nós vamos mexer com ratos no próximo semestre. Estudar o comportamento deles em labirintos e tal. O que acha disso? Divertido, não é?"

"Muito", digo com sinceridade. Também ouvi esse boato pelos corredores. "Ainda bem que não são aranhas". Morro de medo de aranhas. Diagnóstico: aracnofobia - nível 1. Certa vez, apareceu uma gigantesca e peluda atrás do meu armário. Foi terrível. Podem me chamar do que quiserem.

Natália ri. "A propósito, quais são as cadeiras que você vai cursar nos próximos seis meses?", ela pergunta. "As minhas são Filosofia e Psicologia 1, Práticas Integrativas, que é obrigatória, Sociologia e Estudo da Memória... E você?"

Me sinto inclinado a dizer que, dessas que ela citou, pelo menos duas estão no meu fluxograma. Mas não tenho tanta certeza assim. Lembro de ter visto algo relacionado ao estudo do comportamento das crianças, com 6 créditos. Penso em me levantar da cama, ir até a mesa onde está o boletim universitário (que eu imprimi hoje mesmo) e ir conferir as disciplinas planejadas, mas acabo desistindo da idéia e me julgando trouxa demais por ter uma memória tão fraca. Deito-me na cama com o telefone ao ouvido. "Sinto muito, Natália, mas estou cansado demais para atravessar o meu enorme quarto [ironia] e responder isso para ti com precisão".

Ela ri. E eu me sinto o próprio Toru Watanabe quando Natália comenta: "Você fala de um jeito muito engraçado. Parece personagem de um livro". Mais uma vez, penso, Haruki Murakami interferindo na minha vida. Me calo para ouvir a próxima coisa que minha amiga tem a dizer.