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05 março 2009

Caçando Carneiros, de Haruki Murakami



Hoje pela tarde, sentado na minha cama e contemplando as pesadas nuvens cor de chumbo que corriam pelo céu da cidade, terminei a leitura do romance japonês Caçando Carneiros (Hitsuji o Meguru Boken, 1982). É o terceiro livro que leio do escritor nipônico Haruki Murakami, nascido em 1949 em Tóquio e autor do best-seller Norwegian Wood.

Para começo de conversa, é muito - mas muito - difícil mesmo tentar bolar uma sinopse convincente para Caçando Carneiros. Sinceramente, sozinho, eu não conseguiria. Quem já leu o livro pode entender o que eu estou dizendo, e sabe o quanto é penosa a tarefa de resumi-lo. No entanto, vou tentar descrevê-lo de uma forma bastante objetiva e, claro, sem spoilers:

Sinopse: O livro é narrado em 1ª pessoa por um jovem publicitário de carreira enfadonha, que, aos aproximadamente 30 anos, trabalha em Tóquio e possui como sócio um antigo amigo bêbado de plantão. Nenhum dos personagens possui nome - nenhum mesmo, sequer o gato de estimação. A certa altura dos acontecimentos, um homem misterioso visita o protagonista no seu escritório e após uma longa conversa compete-lhe a extraordinária tarefa de caçar um carneiro (igualmente misterioso) nas regiões longínqüas de Hokkaido, uma cidadezinha provinciana do Japão. O homem revela que o tal carneiro é capaz de entrar na alma das pessoas e sugar-lhes todo o espírito de vida, a fim de mostrar seu imensurável poder e assim construir um grandioso império (sim, ainda estamos falando do carneiro). E mais: o sujeito diz que, se o jovem publicitário não encontrar o carneiro dentro do período de um mês, sua própria vida estará arruinada. Acontece que o jovem não sabe absolutamente nada sobre o que está se sucedendo, e não sabe também por que lhe foi competida aquela tarefa irracional.

A princípio, pode parecer um enredo completamente desinteressante e sem pé nem cabeça. Um carneiro que entra na alma das pessoas? Que maluquice é essa? Eu diria que muitas pessoas que lêem o livro realmente não gostam; odeiam-no. Mas a questão é justamente essa. Mesmo sendo absurdo, fantástico e sem pé nem cabeça, Caçando Carneiros conseguiu chamar a minha atenção. E o resultado final foi que eu gostei muito. Muito mesmo.

Tudo bem que, na verdade, as primeiras páginas são destituídas de ânimo. Fica a sensação de "Já li isso em Norwegian Wood", e, quanto mais as páginas passam, mais fica a pergunta: "Sim, e aí? O que há de interessante nisso?" Cheguei a me imaginar sentado nessa mesma cadeira em que estou agora e escrevendo uma crítica severa a Murakami. Porém, contrariando minhas expectativas, o livro conseguiu dar uma guinada. E a guinada foi boa.

A trama de Caçando Carneiros começa a ficar curiosa depois que o protagonista arruma as malas e passa a ir atrás do misterioso carneiro. Não importa se você entende ou não a história; Murakami, com seu inabalável poder de narração, cria um ambiente aconchegante e convidativo nas páginas, que prende o leitor e acaba fazendo suscitar na sua cabeça uma espécie de "Nossa, quero ver como tudo isso vai acabar". De fato, o romance então ganha vida a partir da segunda metade do livro e todo aquele cenário de submundo japonês fica para trás, dando lugar a uma incrível atmosfera rural e nostálgica no momento em que o protagonista desembarca em Hokkaido. As descrições que Murakami consegue fazer das paisagens rurais são de tirar o fôlego.

(Aliás, o que me impressiona realmente é a habilidade que Haruki Murakami tem em saber descrever ambientes e arremessar o leitor para dentro deles - arremessar, mesmo, esse é o termo certo. Consigo sempre visualizar cada mínimo detalhe dos seus cenários, e a imagem fica impregnada no meu cérebro feito cola. Enxergo todas as nuanças, todos os jogos de luz, sinto o cheiro do lugar, sinto na pele o vento que ele descreve, ouço o timbre da voz dos personagens. É realmente fabuloso quando um escritor atinge esse nível de qualidade. Nem me esforçando eu consigo esquecer seus cenários. E, mesmo depois de muito tempo que o livro é lido, eu ainda não consigo. A fotografia do ambiente fica na minha mente como que para sempre.)

Bem, sinto que devo encerrar minha descrição do livro por aqui. Qualquer coisa que eu revele depois disso (ou que eu esclareça melhor) se torna spoiler. Ademais, eu recomendaria Caçando Carneiros para alguém que já tenha tido um contato melhor com Murakami. Talvez assim a interação com seu habitual mundo fantástico seja menos "dolorosa" ou "traumática".

Um dos trechos de que gostei bastante:

Eu ri. Dessa vez, com sucesso.
"Essa não. E onde você vai achar alguém que não sofra desse mal?"
"Não vamos generalizar, já disse. É claro que todo ser humano tem suas fraquezas. Mas a fraqueza verdadeira é quase tão rara quanto a força verdadeira. Você não conhece essa fraqueza que arrasta incessantemente para as trevas. Mas ela existe, de fato. Você não pode resolver todos os problemas generalizando-os."

25 fevereiro 2009

Factótum, de Charles Bukowski


Na semana passada reli um dos clássicos da literatura beat norte-americana: Factótum (Factotum, 1975), do escritor free-lance Charles Bukowski, nascido em 1920 na Alemanha e criado a vida inteira nos Estados Unidos.


Sinopse (L&PM Pocket): Em Factótum, segundo romance de Charles Bukowski, publicado em 1975, encontramos mais uma vez Henry Chinaski, alter ego do autor, protagonista de vários dos seus livros e um dos mais célebres anti-heróis da literatura americana. Durante a Segunda Guerra Mundial, o loser Henry é considerado "inapto para o serviço militar" e não consegue entrar para o exército. Assim, enquanto os Estados Unidos se unem em torno da guerra e os homens alistados são vistos como heróis, Chinaski, sem emprego, sem profissão nem perspectiva, cruza o país, arranjando bicos e trampos, fazendo de tudo um pouco - daí o nome do livro -, na tentativa de subsistir com empregos que não se interponham entre ele e seu grande amor: escrever. Em meio a tragos, perambulações por ruas marginais, tentativas de ser publicado, vivendo da mão para a boca, o autor iniciante Henry Chinaski come o pão que o diabo amassou.

Devo admitir que Factótum não é um livro para qualquer pessoa. Antes de tudo, fala sobre vagueação sem eira nem beira, sexo explícito e selvagem, bebedeiras insanas, personagens indolentes sem a mínima ambição de vida, protagonistas que namoram prostitutas, etc. Não é um texto que seria elogiado por muita gente, tampouco por muitos críticos. E de fato, algumas cenas são tão pesadas que alguém poderia se perguntar o que levou uma editora a publicar aquilo. Um leitor de Stephanie Laurens ou Nora Roberts, por exemplo, ficaria boquiaberto ante tamanha sordidez num único lugar. Mas, sobretudo, é nessa base sórdida que os romances de Bukowski se sustentam, e é nela que a obra Factótum se apóia com glamour. Porque, como diria alguém, o diamante pode ser encontrado até mesmo na mais suja pocilga.


O mérito do livro consiste em apresentar, nua e cruamente, a realidade periférica dos Estados Unidos no final da 2ª Guerra Mundial, do ponto de vista dos excluídos e desafortunados, sem eufemismos ou efemeridades; e ruindo por terra todo e qualquer tipo de sonho americano, mostrando que qualquer lugar pobre e miserável é pobre e miserável do mesmo jeito. Gente suja, feia, ímpia e maltrapilha pulula nas páginas - e deixa para trás essa visão de que toda literatura deve ostentar, ao menos, um personagem bonitinho e moralmente correto.


Apesar disso, um dos pontos fortes do livro é o toque de humanismo dentro do protagonista Henry Chinaski, que, mesmo bebendo desvairadamente e transando com mulheres selvagens como ninguém, possui um toque de bom-senso e - podemos dizer - filantropia. É cômico observar certo ar romântico que surge dentro dele em alguns momentos: "Numa manhã de domingo, me peguei no meio do gramado frontal com Gertrude e Hilda. As garotas faziam bolas de neve, gargalhavam e gritavam, jagavam-nas em mim. (...) Gertrude lançava uma, gritava. Ela era deliciosa. Toda fogaréu e luz". É esse viés levemente romântico - que aparece só de vez em quando - que equilibra o texto de Bukowski.


Além de tudo, Factótum é um livro extremamente bem-humorado, o que faz com que suas páginas indecentes se tornem muitas vezes engraçadas ao invés de aquerosas. Algumas passagens são tão absurdas e extravagantes que nos fazem rir: "Ela me obrigou a deitar no chão, dando um tremendo puxão no meu saco, quase partindo meu pau ao meio com os dentes. (...) Era como se eu estivesse sendo devorado por um animal impiedoso. Meu pau endureceu, coberto de cuspe e sangue. A visão daquilo a enlouqueceu. Era como ser devorado vivo. Se eu gozar, pensei, jamais me perdoarei".


O que difere Bukowski dos outros autores do gênero é o seu estilo de escrita, muito bem delineado e estruturado, o que, mais uma vez, faz com que Factótum tenha seu brilho próprio. É verdade que é um brilho distorcido, esmaecido, mas, ainda assim, é um brilho. Alguma coisa chama atenção no livro, e dizer o que é não é fácil. Talvez seja a sinceridade com que ele foi escrito, ou os diálogos que são memoráveis; mas a verdade é que Factótum nunca poderá ser considerado "lixo literário", como certos críticos definem.


P.S.: Para provar que a história não é "qualquer coisa", basta lembrar que o livro se transformou em um filme homônimo estrelado por Matt Dillon e Lili Taylor. Chegou até mesmo a ser premiado. A seguir, disponibilizo o trailer da película. Vale a pena conferir.


http://www.youtube.com/watch?v=ZYFT5RNW47I


É isso. Até mais.

15 fevereiro 2009

Contos de F. Scott Fitzgerald


Tenho a impressão de que Frances Scott Fitzgerald se destaca mais no campo da literatura rápida (contos) do que na área dos romances. Digo isso porque li, há alguns dias, duas de suas historietas mais famosas e gostei bastante delas: O Curioso Caso de Benjamin Button e O Boa-vida, ambos presentes na coletânea Seis Contos da Era do Jazz e Outras Histórias, lançada pela editora José Olympio recentemente.

Li apenas esses contos do livro, e isso se deu numa manhã qualquer de sexta-feira, quando eu voltava da universidade e visitava a minha livraria preferida. Encontrei a obra por acaso e a folheei interessado em achar O Curioso Caso de Benjamin Button. Li o conto em pé mesmo, vagarosamente, saboreando certas passagens, enquanto minha mochila castigava minha coluna. No final das contas, julguei o conto mais bem escrito que O Grande Gatsby, romance renomado do autor. Me parece que, quando Fitzgerald trabalha em poucas páginas, ele passa a ter um domínio melhor sobre a trama, as idéias se tornam mais coesas e interessantes, e suas frases têm um efeito maior.

Quanto ao texto em si, O Curioso Caso de Benjamin Button é completamente diferente do filme - como eu já havia suspeitado. No conto, Benjamin cresce(?) em casa, com o pai, coisa que não ocorre na trama da película. Somente esse fato já faz as duas histórias completamente diferentes. Também no conto, ele não conhece Daisy alguma, e sim uma mulher chamada Hildegarde Moncrief, com a qual casa-se e mantém uma relação instável, passando até mesmo a odiá-la depois.
Bem, não gostaria nem um pouco de estragar a surpresa daqueles que querem ler o conto. Portanto, leiam, pois a leitura é recomendada.

Em O Boa-vida, é-nos apresentado Jim Powell, um homem considerado "vadio" pelo narrador do texto e que mora em um quarto apertado sobre uma garagem da Tilly. Apesar da "vadiagem", Powell tem uma vida economicamente estável e participa de festas (marca registrada de Fitzgerald) sempre a convite de um amigo influente. Em uma das festas, certa noite, reconhece um rosto antigo: Nancy Lamar, amiga sua, uma bela e independente moça que há quinze anos não via.

Mais uma vez, considerei a escrita e a idéia da trama superior às de O Grande Gatsby. As frases do texto são tão simpáticas que eu as lia e relia várias vezes. Cheguei a ignorar a fome que me revolvia o estômago só para terminar a leitura do conto. Valeu a pena. Cheguei em casa e, ávido por mais leituras, encomendei Caçando Carneiros pela internet, do escritor japonês Haruki Murakami. Murakami é fã de Fitzgerald. E eu sou fã de Murakami.
P.S.: Durante certo período de sua carreira, Fitzgerald chegou a receber 14 mil dólares por cada conto que escrevia.

07 fevereiro 2009

Cem Dias Entre Céu e Mar, de Amyr Klink


Há alguns dias terminei a leitura de Cem Dias Entre Céu e Mar (1995), estréia literária do conhecidíssimo aventureiro Amyr Klink.

Comprei a edição da Companhia das Letras versão "para bolso". Eu já vinha colocando o olho nesse livro há algum tempo, mas, sem explicação, deixei para adquiri-lo somente agora. Não me arrependi de maneira alguma - ou melhor, me arrependi de não tê-lo comprado antes.

O livro é muito bom. É simples, pequeno (menos de 200 páginas), mas realmente cativante. Nele, Amyr narra a inaudita viagem que fez sobre um barco a remo cruzando o Atlântico Sul. Todos os detalhes da aventura estão muito bem retratados.

A seguir, um trecho de que gostei bastante:

E então pude constatar como tão poucas coisas eram suficientes para viver em paz e bem.
(...)
Ao se encaminhar para um objetivo, sobretudo um grande e distante objetivo, as menores coisas se tornam fundamentais. Uma hora perdida é uma hora perdida, e quando não se tem um rumo definido é muito fácil perder horas, dias ou anos, sem dar conta disso.
(...)
Nada de sacrifícios extremos ou esforços impossíveis. Nada de grandes sofrimentos. Ao contrário, basta apenas o simples, minúsculo e indolor esforço de decidir.