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08 abril 2012

Filme: Xingu (2012)

Ontem pela tarde eu deixei os livros de literatura de lado e fui ao cinema conferir, junto com um amigo, a mais recente e comentada produção nacional, Xingu – dirigida pelo gabaritado Cao Hamburger, considerado pela crítica como um dos melhores diretores do país, apesar de sua por enquanto curta carreira.

Em linhas gerais, posso dizer que o filme resume os principais meandros da saga dos três irmãos Villas-Boas no coração da Floresta Amazônica, em sua inusitada missão de estabelecer contato com os povos indígenas espalhados naquela região. O que começa como uma simples "busca por aventura" (nas palavras do próprio Cláudio Villas-Boas) acaba se transformando em um verdadeiro compromisso humanista, já que os três irmãos passam a se identificar plenamente com as culturas indígenas e a buscar uma solução para a questão problemática que, naqueles tempos de expansionismo industrial, foi levantada: o que fazer com os índios brasileiros? Educá-los e torná-los civilizados, livrar-se deles como se sequer existissem ou preservá-los, com toda a sua bagagem cultural?

Os irmãos apostaram nesta última opção, e o filme, de um modo geral, retrata a luta que eles tomaram para si com o objetivo de garantir os direitos aos povos indígenas presentes no território do nosso país, o que culminou na criação do Parque Nacional do Xingu – cujos 50 anos de existência foram comemorados em 2011.

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De início, não há como se deixar enganar: o tom aventuresco do filme – que o próprio pôster claramente se encarrega de exibir – está presente em toda a obra, desde o início até o fim da narrativa. A idéia de uma expedição a lugares exóticos, o contato com civilizações diferentes e desconhecidas, a paixão pela exploração geográfica, os mapas sendo traçados na tela (a la Indiana Jones) e fantásticas tomadas de paisagens da floresta e dos rios dão a Xingu um elemento essencial que caracteriza o filme: o apelo à aventura. E é justamente esse apelo que fisga o telespectador, que o convida à história, que o faz mergulhar no mesmo universo fascinante que os irmãos mergulharam há meio século.

É precisamente nesse ponto que entra a sensibilidade dos produtores do filme. Porque, mesmo com esse elemento aventuresco tão saltado aos olhos do telespectador, o que verdadeiramente subjaz é a carga dramática, não só da missão humanista encabeçada pelos irmãos, mas do contato mesmo com as tribos indígenas que até então eram desconhecidas pelo homem branco. É quando se explora esse drama que o filme ganha força e consistência. A cena da primeira aproximação dos irmãos com os índios, por exemplo, é relevante não pelo caráter da aventura, mas pelo sentido que isso tem para nós, brasileiros; quando vi tal cena, a primeira coisa em que pensei foi "É tão estranho o fato de haver outras pessoas no nosso território que nós, ditos civilizados, consideramos inferiores, por uma mera questão de grau, não de essência".


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Cláudio Villas-Boas dividindo, junto com os índios, os territórios a serem ocupados pelas diferentes tribos no Parque Nacional


Sem soltar nenhum tipo de spoiler, eu gostaria de deixar aqui a minha impressão sobre a última cena do filme. Que cena! Na minha opinião, ela captura todo o cerne do choque entre as civilizações, todo o desentendimento humano que surge desse conflito, numa única tomada sem palavras ou diálogos… Apenas com um olhar que traduz toda a comunicação deficiente entre o homem branco e o indígena. Realmente é uma cena muito bem feita. Quem já assistiu sabe do que estou falando.

Em suma, me alegra muito saber que o cinema nacional possui uma vertente que se preocupa não só com as boas idéias, mas também com a qualidade da produção dos filmes. Xingu é um exemplo dessa vertente. Com uma trilha sonora impecável, roteiro consistente, história relevante, fotografia excelente e atuações marcantes – com destaque para Maiarim Kaiabi, um indígena que dá shows de interpretação –, o filme dirigido por Hamburger dá esperança mesmo aos que mais desacreditavam do cinema nacional, como eu.

É isso, Brasil. Mostre os bons filmes que você sabe fazer.


A seguir, o trailer do filme.

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07 janeiro 2012

Lá onde os tigres se sentem em casa, de Jean-Marie Blas de Roblès

"Seria preciso estar irremediavelmente privada da liberdade para descobrir o valor do simples fato de viver?" (p. 265)

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Sempre alimentei uma espécie de admiração pelos escritores viajantes, o que pode ser facilmente explicado pela minha própria vontade de viajar através de países distantes e exóticos e de escrever, no regresso dessas excursões, meus próprios livros. Para mim, não há dúvida de que essa é uma bela maneira de passar o tempo na Terra.

Conheci há pouco tempo Jean-Marie Blas de Roblès, um arqueólogo submarino que nasceu na Argélia, morou no Tibete, Indonésia, Peru, China, Iêmen, Líbia e, dentre outros lugares, Brasil. Durante o tempo em que esteve aqui, Roblès lecionou na Universidade de Fortaleza – aquela em que estudo, aliás – e tirou da capital do Ceará boa parte da experiência que usaria para escrever o romance Lá onde os tigres se sentem em casa (Là où les tigres sont chez eux, 2008), que li essa semana.

Um livro curioso, sem dúvida, principalmente porque se trata de um romance estrangeiro cuja trama se desenrola em nosso país, do início ao fim.


Sinopse: O livro conta a história de Eléazard von Wogau, jornalista correspondente de uma agência francesa, que mora já há alguns anos em Alcântara, no Maranhão. Como tem pouco trabalho, se dedica à leitura da biografia de Athanasius Kircher, jesuíta alemão do século XVII. A história desse padre barroco, um pouco científico, um pouco charlatão, apaixonado pelo orientalismo e pela matemática, se mistura a de outros personagens: Elaine, a ex-mulher de Eléazard, bela arqueóloga que partiu em expedição pela floresta amazônica; Loredana, sedutora jornalista italiana; Nelson, garoto pobre da favela sedento por vingança; Moreira, o governador corrupto; ou ainda Moema, a jovem idealista filha de Eléazard e Elaine.


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Lá onde os tigres se sentem em casa ("Tigres", para resumir o título) é um romance simultaneísta – ou seja, diversas narrativas se cruzam no decorrer da história, o que lhe confere um caráter eclético de enredos acontecendo ao mesmo tempo, às vezes até se mesclando. O grande atrativo deste estilo de narração está em não atribuir a nenhum personagem específico o papel de protagonista: todas as histórias paralelas são igualmente importantes, igualmente atraentes e merecem a mesma atenção do leitor. Pessoalmente, tenho uma ótima experiência com romances simultaneístas. Sempre os achei muito interessantes.

O livro é dividido em 32 longos capítulos (sem contar com prólogo e epílogo) que não são cansativos, porque há muitos intervalos dentro deles. Eu até diria que, de um modo geral, as 700 páginas do volume não cansam o leitor, embora isso seja uma opinião bem mais pessoal. A verdade é que a linguagem de Roblès oscila entre a objetividade e o floreio, o que significa que há passagens bem fluidas e outras mais densas, mais subjetivamente sofisticadas. Isso dá ao livro o caráter erudito normal que a própria obra propõe desde o começo: a meta não é apenas contar uma história, mas contá-la com intelectualismo e com palavras escolhidas a dedo (recorri ao dicionário várias vezes). É claro que esse caráter pedante não pode ser considerado um defeito. A psicologia dos personagens fica bem melhor explorada, e alguns diálogos são bem profundos. É uma boa experiência geral.

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Uma coisa bem interessante em Tigres é a alternância entre o Brasil da década de 1980 e a Europa do século XVII. Extremamente pitoresca, essa temporalidade cruzada é ela própria um marco do enredo, uma jogada estilística que eu achei maravilhoso perceber. Uma hora estamos na Favela do Pirambu, em Fortaleza, acompanhando as penúrias de Nelson, e logo depois passamos à Roma regida pelo Vaticano, em que Kircher prepara mais uma discussão filosófica sobre aquela ciência medieval da qual todos faziam parte. Essa transição de tempo, lugar e temática deixa o romance bem mais dinâmico.

Não é sempre que nós temos a oportunidade de ler um romance estrangeiro passado essencialmente no Brasil, com tantos detalhes geográficos e culturais do nosso conhecimento. Roblès oferece isso aos brasileiros com Tigres. É diferente, por exemplo, ler uma ação desenvolvida na Avenida Tibúrcio Cavalcante, apenas a alguns metros da porta da minha casa e por onde passo todos os dias. A sensação é distinta, o leitor brasileiro se sente mais próximo da história e do lugar na qual ela se desenvolve. Sem dúvida.

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Ok, e quanto à história em si? Eu diria que ela é instigante. Essa talvez seja a palavra mais adequada para qualificar o romance de Roblès. Eu, pelo menos, fiquei extremamente curioso para saber qual seria o destino dos personagens, o que eles fariam em seguida e o que mudaria o curso de seus caminhos. Em alguns momentos as histórias paralelas se encontram, mas, durante a maior parte do livro, cada uma segue mesmo suas veredas próprias. Eu diria até que o denominador comum dos personagens é o sentimento de inconformidade com a vida, como se cada um sentisse que é preciso dar mais de si para não cair em uma monotonia incontornável. Há também uma certa busca pela identidade encontrada nesses personagens, o que muito me agradou. Em suma, a história é muito boa. O fio que une todas elas também é convincente.

Um dos grandes méritos do livro consiste em não cair nos lugares-comuns que a literatura estrangeira reserva ao território brasileiro. Longe de regionalismos e de chavões, Roblès se mostra atento às variações culturais do país, servindo-se dele não apenas como um mero pano de fundo, mas como um Brasil repleto de exotismo e encantos – às vezes desconhecidos por nós mesmos. Além disso, o autor mostra seu vasto domínio sobre a geografia local, descrevendo cenários que vão desde a floresta fechada do interior do Mato Grosso até as praias isoladas de Canoa Quebrada, no Nordeste. Esse cuidado com a verossimilhança topográfica inspira respeito à obra e um certo alívio por parte do leitor, ao ver algo não leviano retratado naquelas páginas.

Uma história interessante, repleta de encantos e belezas; um ensaio sobre alguns aspectos da condição humana, principalmente sobre a realidade das pessoas que não se encontram nos seus lugares de origem, na sua zona de conforto.


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Edições do original francês

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Disponibilizo aqui uma entrevista com o autor para o blog O Globo, na qual ele fala sobre o processo de criação do livro.


Lá onde os tigres se sentem em casa (2008)

Jean-Marie Blas de Roblès

710 páginas

Editora Record

Nota: 10/10

15 agosto 2011

A volta ao mundo em 80 dias, de Júlio Verne

"A verdade é que havia muitos anos que Fíleas Fogg não saía de Londres." (p. 14)

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A maioria das pessoas ao meu redor sabe que eu não consigo ler um livro de literatura no período em que as aulas da universidade estão recomeçando. Os professores indicam muitas apostilas, livros, textos para ler, trabalhos, e aí acaba ficando difícil encontrar um tempo de sossego para se dedicar à arte das letras.

Mas sou incurável e não aprendo. Faltando dois dias para a volta às aulas, fui à livraria e voltei para casa com A volta ao mundo em 80 dias (Le tour du monde en quatre-vingt jours, 1873), do famosíssimo escritor francês Júlio Verne, clássico autor de aventuras e ficção-científica. Costumo dizer que ele foi o precursor dos romances de techno-thriller.

Na minha opinião, das obras-primas de Verne, o livro que terminei de ler ontem é o de que menos gostei. Isso não significa dizer que ele seja ruim. Apenas foi pouco desenvolvido.


Sinopse: Fíleas Fogg, um cavalheiro britânico, aposta com os colegas do seu clube que fará a volta ao mundo em apenas oitenta dias. Acompanhado do seu criado Fura-Vidas, um parisiense esperto e expedito, Fogg dá início à sua jornada. Para ganhar a aposta, teria de regressar a Londres em 21 de Dezembro de 1872, às vinte horas e quarenta e cinco minutos.

Acusado, porém, de ser um audacioso assaltante do Banco da Inglaterra, Fíleas Fogg será permanentemente perseguido pelo detetive Fix, que, todavia, parece nunca conseguir detê-lo.


Quem já leu no mínimo dois ou três livros de Júlio Verne, sabe que seus romances são verdadeiros libelos científicos, que exaltam a tecnologia e o progresso humano e mostram quão divertidas podem ser algumas incursões baseadas nos campos da ciência. Todo mundo sabe que muitas invenções modernas, como por exemplo o submarino, foram "profetizadas" pelo famoso escritor francês. Verne era um amante da ciência e da tecnologia, e isso fica claro na totalidade de seus livros.

A volta ao mundo em 80 dias, como não poderia deixar de ser, reflete esse tipo de relação entre Júlio Verne e o progresso científico. Neste livro, porém, fica muito mais clara a proposta geral do autor, pelo menos na minha opinião. Verne queria mostrar ao mundo onde a sociedade da época estava se situando no desenvolvimento do transporte inter-urbano. Para tanto, criou uma história na qual o personagem principal se disse capaz de dar a volta ao redor do planeta em apenas 80 dias – um recorde incrível na época – utilizando-se dos meios de transporte vigentes.


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Cartaz do filme produzido em 2004, com Jackie Chan


A idéia do livro é boa. Aliás, é ótima. Muito original e criativa, dá margem a um enredo inesgotável, milhares de situações e vários desfechos. Fazer com que um grupo de personagens tenha que dar a volta ao mundo – uma viagem longuíssima – em um tempo determinado é genial, porque prende a atenção do leitor e dá dinâmica à história. Ainda mais se esse grupo estiver sendo perseguido por um inspetor da polícia.

O problema é que, infelizmente, Verne explorou pouco esse material que tinha nas mãos. Ao invés de destrinchá-lo da maneira mais rica possível, incrementando a história com detalhes mais minuciosos e bem trabalhados, o autor apenas escreveu um thriller raso e despreocupado, cujo único objetivo era o divertimento puro do leitor. Foi essa a sensação que tive. Mesmo os trechos em que ele narra fatos históricos dos países visitados parecem superficiais e deslocados. Fui com muita sede ao pote, como dizem.

Achei pouco 190 páginas, dada a grandiosidade da idéia. Ficou uma sensação de correria e pressa; poucas descrições de lugares, poucas descrições de costumes, quando eu esperava um cuidado maior nesse aspecto. (Talvez tenha sido essa a intenção do autor, a rapidez, já que todos os personagens tinham pressa…)


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Mais edições do livro em português


De um jeito ou de outro, isso não foi o que mais me incomodou no livro. É aceitável o fato de que o autor tenha dado menos atenção aos países e mais aos seus personagens, porque, no final das contas, Fíleas Fogg tinha pressa em dar a volta ao mundo, pulando de transporte em transporte, e Verne quis transmitir essa sensação de correria ao texto. Pelo menos eu faço questão de enxergar as coisas assim.

O que incomoda de verdade é a falta de verossimilhança em algumas (muitas) situações envolvendo os personagens. Júlio Verne era excelente em emular invenções e aparatos científicos, mas, pelo menos nessa sua obra, ele pisou na bola em algumas passagens que envolviam assuntos mais humanos. Aouda é uma personagem que surge ao acaso, permanece na história por acaso e, por acaso, termina o livro de um determinado jeito. É uma personagem totalmente à margem, apagada, e suas ações não têm o menor nexo. Dói vê-la sendo levada de um lado para o outro, absolutamente à mercê dos protagonistas.

O próprio Fíleas Fogg tem qualquer coisa de inverossímil. Sempre inexpressivo, sempre calado, sempre matemático demais, o inglês que protagoniza o romance de Verne não parece demonstrar nada de humano, nem quando um atraso de trem põe em risco boa parte de sua fortuna e sua honra. O personagem mais convincente é sem dúvida Fura-Vidas, expressivo, emotivo… em suma, vivo.


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Rota percorrida pelos aventureiros do romance


Mesmo com esses defeitos, ainda recomendo a leitura de A volta ao mundo em 80 dias. Continuo gostando do modo como Júlio Verne conduz uma história de ação/aventura, continuo gostando da visão que ele tem do progresso da humanidade (iluminista, por que não?) e continuo gostando do final dos seus livros, geralmente pouco previsíveis.

11 julho 2011

Música: Shine on you crazy diamond, do Pink Floyd

Queria que você estivesse aqui.

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Eu costumo dizer que o entardecer de domingo é a hora mais apropriada possível para se escutar a música Shine on you crazy diamond, da banda britânica Pink Floyd. Não posso afirmar isso com certeza, mas acredito que na primeira vez em que ouvi essa canção – e isso faz muito tempo – estávamos em um domingo à tarde, às portas da noite. E, no final das contas, essa música memorável ficou associada na minha mente a esse horário do primeiro dia da semana.

Essa associação chega a ser muito importante para mim pelo simples fato de ser muito conveniente para todos. Quais são os sentimentos que nós geralmente sentimos quando estamos em um domingo, ao pôr-do-sol, às beiras de uma longa, tediosa e cansativa semana? Além de totalmente propenso à meditação sobre a vida, eu fico relativamente deprimido, tentando juntar forças para encarar as brabas atividades semanais. E não há trilha sonora melhor para embalar esse contexto de emoções do que Shine on you crazy diamond.

Como todos os fãs de Pink Floyd sabem, essa música se encontra no álbum Wish you were here, cuja arte da capa se encontra aí em cima. Shine on you crazy diamond abre e fecha o álbum, já que é dividida em duas grandes partes – a primeira com 13:32 minutos, e a segunda, com 12:22, totalizando uma viagem de 25:54. Nessa postagem, eu me detenho especificamente à primeira parte (a que abre o CD), pois ela é a minha preferida das duas, muito embora a parte II também seja excelente.


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Encarte do CD. Tão sinistro quanto a capa


Quando eu era criança, tinha medo da capa desse vinil. Disso eu lembro bem. Antes mesmo de conhecer qualquer música do Pink Floyd, eu vasculhava a discoteca do meu irmão a fim de olhar as capas dos CDs, e uma das que eu peguei certo dia foi justamente a de Wish you were here. Fiquei olhando para aquela foto durante dezenas de minutos, bestificado. "O cara está pegando fogo tranqüilamente. Que horrível". E passei a evitar olhar para aquele CD.

Hoje, tenho essa arte de capa como uma das minhas preferidas de todos os tempos. Acho que antigamente sabiam fazer capas de CDs de rock realmente boas, sem que precisassem colocar nelas um integrante da banda sequer. Essa do Floyd, por exemplo, é tão cheia de possibilidades de interpretação que eu sempre me pego encontrando um novo significado para ela. O sentido que mais gosto de dar a essa imagem é justamente a mais difundida entre os fãs: a banda Pink Floyd está se despedindo formalmente do seu co-fundador principal, Syd Barrett, que fora consumido pelas drogas e teve que se afastar dos palcos.

Aliás, é de conhecimento geral que Shine on you crazy diamond é uma homenagem ao ex-integrante da banda. Também gosto de ouvir essa música lembrando desse bonito detalhe.


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Uma foto da banda em que Gilmour e Barrett estão juntos


Para ser absolutamente sincero, não tenho o costume de escutar essa música na íntegra, embora a ache belíssima de qualquer modo. (Tenho uma teoria que diz que os fãs da banda não ouvem mais com a mesma freqüência as longas músicas do Floyd na íntegra, apenas os trechos que mais apreciam). Mesmo assim, é um hino, e gosto de escutá-la do começo ao fim pelo menos uma vez no mês.

De resto, me bastam os 4 minutos iniciais da música para que grande parte dos meus problemas sejam esquecidos. Estou falando da magnífica e famosa introdução de Shine on you crazy diamond, que começa com notas sutis do teclado de Richard Wright, em um longo lamento, que se junta a seguir com os acordes igualmente singelos da guitarra de David Gilmour. O curioso é que são notas dispersas, mas incrivelmente precisas. Fica a impressão de que elas não poderiam se arrumar de outra maneira que não aquela. É impressionante.

Igualmente impressionante é o poder sedativo desses quatro minutos iniciais. Dão a sensação de que você está entrando em um mundo novo, aconchegante, no qual pode finalmente respirar em paz, sem a presença de nada que lhe perturbe o espírito. Definitivamente, a introdução dessa música é um convite. Um convite a este mundo novo sem tribulações, asséptico e pacífico.

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Eu gostaria de falar mais sobre Shine on you crazy diamond aqui, mas, pelo que sempre se mostrou, fica difícil traduzir em palavras o sentimento despertado por uma música. É por isso que, no final deste artigo, disponibilizo o áudio para quem quiser experimentar por conta própria a primeira faixa do emblemático Wish you were here. Que ela consiga relaxar as almas inquietas e atormentadas que passam por este blog, se é que passam almas inquietas por aqui além da minha própria.

É isso. Deixo vocês com os versos (traduzidos) que compõem essa belíssima música que é Shine on you crazy diamond.


Lembra quando você era novo?
Você brilhou como o sol.
Brilhe, seu diamante louco.
Agora há um olhar em seus olhos
Como buracos negros no céu.
Brilhe, diamante louco.
Você foi surpreendido pelo fogo cruzado
Da infância e do estrelato,
Fundido na brisa de aço.
Venha, alvo de risos distantes.
Venha, seu desconhecido, sua lenda,
seu mártir, e brilhe!

Você alcançou o segredo cedo demais,
Você chorou para a lua.
Brilhe, diamante louco.
Ameaçado pelas sombras da noite
E exposto à luz.
Brilhe, diamante louco
Bem, você desgastou suas boas vindas
Com precisão aleatória.
Cavalgou na brisa de aço.
Venha, sonhador, seu visionário,
Venha, pintor, flautista,
prisioneiro, e brilhe!

Ninguém sabe onde você está,
Quão perto ou longe.
Brilhe, diamante louco.
Empilhe muitas camadas a mais
E estaremos nos unindo lá.
Brilhe, diamante louco.
E nós nos aqueceremos na sombra
Do triunfo de ontem,
E velejaremos na brisa de aço.
Venha menino,
Ganhador e perdedor,
Venha mineiro da verdade e da ilusão,
E brilhe!


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22 maio 2011

A carta de Chris para Ron

Na última terça-feira, meu professor de Psicologia Social II resolveu passar para os seus alunos uma exibição do filme Na Natureza Selvagem, dirigido por Sean Penn e estrelado por Emile Hirsch.

O filme conta a história verídica de Christopher McCandless, jovem americano de família rica que abandonou toda a sua vida burguesa de conforto para partir rumo ao Alasca, numa aventura de provação e auto-descobrimento. Ao longo do caminho, ele encontrou várias pessoas dispostas a ajudá-lo em sua jornada; Ron Franz foi uma delas, um velhinho solitário de 70 e poucos anos, que se afeiçoou muito a Chris.

Além de ter uma história muito interessante e instigante, o filme em si é visualmente lindo, e talvez tenha sido por esse motivo que já o assisti 8 vezes. A idéia deste post é mostrar a carta mais famosa que Chris escreveu a Ron, carta que está publicada no livro Na natureza selvagem, de Jon Krakauer. Acho que vale a pena lê-la.


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"(…)

Ron, eu realmente gostei de toda a ajuda que você me deu e do tempo que passamos juntos. Espero que não fique muito deprimido com nossa separação. Pode levar um bom tempo até que a gente se veja de novo. Mas desde que eu saia inteiro desse negócio do Alasca você terá notícias minhas no futuro. Gostaria de repetir o conselho que lhe dei antes: acho que você deveria realmente promover uma mudança radical em seu esti­lo de vida e começar a fazer corajosamente coisas em que talvez nunca tenha pensado, ou que fosse hesitante demais para tentar.

Tanta gente vive em circunstâncias infelizes e, contudo, não toma a iniciativa de mudar sua situação porque está condicionada a uma vida de segurança, conformismo e conservadorismo, tudo isso que parece dar paz de espíri­to, mas na realidade nada é mais maléfico para o espírito aventureiro do homem que um futuro seguro. A coisa mais essencial do espírito vivo de um homem é sua paixão pela aventura. A alegria da vida vem de nossos encontros com novas experiências e, portanto, não há alegria maior que ter um horizonte sempre cambiante, cada dia com um novo e diferente Sol.

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Se você quer mais de sua vida, Ron, deve abandonar sua tendência à segurança monótona e adotar um estilo de vida confuso que, de inicio, vai parecer maluco para você. Mas depois que se acostumar a tal vida verá seu sentido pleno e sua beleza incrível.

Em resumo, Ron, saia de Salton City e caia na estrada. Garanto que ficará muito contente em fazer isso. Mas temo que você ignore meu conselho. Você acha que eu sou teimoso, mas você é ainda mais teimoso do que eu. Você tinha uma chance mara­vilhosa quando voltou da visita a uma das maiores vistas da Terra, o Grand Canyon, algo que todo americano deveria apreciar pelo menos uma vez na vida. Mas, por alguma razão incompreensível para mim, você só que­ria voltar correndo para casa, direto para a mesma situação que vê dia após dia. Temo que você seguirá essa mesma tendência no futu­ro e assim deixará de descobrir todas as coisas maravilhosas que Deus colocou em torno de nós para descobrir.

Não se acomode nem fique sen­tado em um único lugar. Mova-se, seja nômade, faça de cada dia um novo horizonte. Você ainda vai viver muito tempo, Ron, e será uma vergonha se não aproveitar a oportunidade para revolucionar sua vida e entrar num reino inteiramente novo de experiências.

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Você está errado se acha que a alegria emana somente ou principal­mente das relações humanas. Deus a distribuiu em toda a nossa volta. Está em tudo e em qualquer coisa que possamos experimentar. Só temos de ter a coragem de dar as costas para nosso estilo de vida habitual e nos comprometer com um modo de viver não convencional.

O que quero dizer é que você não precisa de mim ou de qualquer outra pessoa em volta para pôr esse novo tipo de luz em sua vida. Ele está sim­plesmente esperando que você o pegue e tudo que tem a fazer é estender os braços. A única pessoa com quem você está lutando é você mesmo e sua teimosia em não entrar em novas situações.

(…)

Você verá coisas e conhecerá pessoas e há muito a aprender com elas. Deve fazer isso no estilo econômico, sem motéis, cozinhando sua comida como regra geral, gastando o menos que puder e vai gostar imensamen­te disso. Espero que na próxima vez que o encontrar você seja um homem novo, com uma grande quantidade de novas aventuras e experiências na bagagem. Não hesite nem se permita dar desculpas. Simplesmente saia e faça isso. Simplesmente saia e faça isso. Você ficará muito, muito con­tente por ter feito."

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17 abril 2011

A Suíte Elefanta, de Paul Theroux

"Os romances indianos que ela lera nos Estados Unidos não a haviam preparado para o que via ali." (p. 206)

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Ocupado como estou nessas últimas semanas, imerso em estágios e trabalhos da faculdade, eu ando deixando o blog como que entregue às moscas. O post mais recente datava de duas semanas atrás.

É horrível quando o domingo vai chegando ao fim e eu me dou conta de que não há nenhum livro lido recentemente, nenhum acontecimento extraordinário no meu cotidiano, nenhuma música que renda um texto. É desanimador.

Mas, decidido a escrever algo hoje, olhei para a minha estante e vi um livro que li há algum tempo e que merece um comentário: chama-se A Suíte Elefanta (The Elephanta Suite, 2007), e foi escrito pelo famoso Paul Theroux, norte-americano conhecido por suas viagens de trem ao redor do mundo.


Sinopse: A Suíte Elefanta é um livro ousado, que desmonta os lugares-comuns sobre a Índia ao apresentar ao leitor um universo complexo e multifacetado, de estranhamentos, preconceitos e situações extremas. Paul Theroux consegue, em três histórias, capturar esse mundo contemporâneo marcado pelo tumulto e ambição de um lado, e pela espiritualidade de outro.


Dividido em três grandes contos, A Suíte Elefanta sai do gênero "relato de viagem", bastante associado ao autor, e se situa no campo da ficção. As obras de ficção de Theroux, embora pouco conhecidas, são muitas. Talvez o livro de ficção mais famoso dele seja o desconcertante romance A costa do Mosquito (que possui uma sinopse interessantíssima e que ainda estou pensando em ler).

Comprei A Suíte Elefanta numa época da minha vida em que eu estava fascinado por viagens a lugares exóticos. Lembro também que li esse livro ao mesmo tempo em que lia Vinte mil léguas submarinas, de Jules Verne.

Curiosidades à parte, devo admitir que essas três pequenas novelas de Theroux me deixaram um pouco decepcionado – e aqui eu vou direto ao assunto. Depois que terminei A Suíte Elefanta e folheei alguns outros títulos do autor, pude comprovar aquilo de que eu andava suspeitando: Theroux se posiciona deliberadamente numa espécie de pedestal americano e, só então, com esses olhos irônicos de pessoa considerada pertencente a uma sociedade mundialmente tida como exemplar, julga os países exóticos que visita. Se essa não é uma postura usual do autor (e acredito mesmo que não seja), pelo menos ela ficou muito clara no livro em questão.


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"(…) suas experiências com mulheres eram poucas (…)"


Na primeira novela, um casal da alta sociedade americana se hospeda em um hotel indiano cinco estrelas que, com seu isolamento estratégico, deixa a confusão e o caos político da região do lado de fora. Os dois americanos, assustados com a agitação civil daquela região, se refugiam no conforto do hotel, onde ainda têm de tratar com funcionários duvidosos.

Na segunda história, um executivo norte-americano vai à Índia e, depois de deixar claro que repudia todo e qualquer contato com o povo local, acaba se relacionando (para o bem ou para o mal) com sujeitos indianos suspeitos – em especial, as prostitutas Indru e Sumitra.

No último conto, Alice, uma jovem norte-americana, arranja um emprego de professora de inglês para funcionários indianos de telemarketing. Aos trancos e barrancos, a coisa vai bem, até que ela se vê vítima de um terrível acontecimento, fruto de sua relação com o povo indiano. Não é preciso muita imaginação para perceber a sagacidade irônica de Theroux: o nome da protagonista, Alice, faz referência ao famoso título de Lewis Carrol, Alice no país das maravilhas.

Em outras palavras, a escrita de Theroux deixa transparecer o sutil preconceito que ele tem com relação a outros lugares e outras culturas. Na verdade, não se trata de um preconceito propriamente dito, já que ele vai até o país conferir tudo com os próprios olhos; trata-se, antes, de um leve deboche, de julgar a cultura alheia como inferior apenas pelo fato de ela ser diferente da sua – mais desorganizada e caótica, sim, mas movida por valores diferentes.


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"(…) um maluco magrelo e queimado de sol, usando um turbante e com um pano a cobrir-lhe o baixo ventre (…)"


Isso que eu estou falando pode soar como um discurso estéril e muito politicamente correto, mas a verdade é que me incomoda esse tipo de julgamento entre culturas. Em A Suíte Elefanta, esse pedestal de que falei antes fica claro quando o leitor percebe que, em todas as três histórias, os norte-americanos figuram como frágeis e manipuláveis, vítimas do caos e da crueldade da Índia, que os seduz e os leva a cair em tentação, quando não os aniquila mesmo.

Não estou dizendo que Theroux é um patriota defensor do estilo de vida americano (realmente não é, basta conferir algumas páginas de A costa do Mosquito), mas esse tipo sutil de preconceito que ele tem com relação aos países exóticos que escolhe para visitar me deixa com um pé atrás.

Lendo A Suíte Elefanta, eu fiquei com a impressão de que estava inconscientemente comprando os argumentos norte-americanos.


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"(…) era ela quem estava feliz no trem que sacolejava (…)"


Em todas as novelas, Theroux faz questão de frisar o quanto a Índia é suja e caótica, fedorenta e opressora. Não estou aqui para discordar disso, até porque esse quadro reflete bem o que eu imagino ser o país de Gandhi. Mas, levando em conta todo o contexto de vida do autor e sua influência sobre os leitores norte-americanos, ter uma posição tão irônica e desdenhosa para com o país em questão é algo discutível.

Por fim, repito uma coisa que pode ter passado despercebida: não acredito que todos os livros de Theroux sejam assim. Sei que ele é capaz de transmitir aos seus leitores o que há de melhor na cultura alheia, o que há de mais frutífero e encantador. No entanto, infelizmente, A Suíte Elefanta não se propõe a fazer isso. Pelo contrário, faz questão de mostrar um povo atrasado, feio, barulhento, fedido e suspeito. E foi aí que o autor errou a mão: nessa visão parcial e tendenciosa, quase incontornável.


Conclusão: se o leitor quer entrar em contato com o mais famoso escritor de relatos de viagem, recomendo outro livro dele para isso.

09 janeiro 2011

Filme: Um olhar do Paraíso

Uma boa história e efeitos visuais fantásticos fazem de Um olhar do Paraíso um filme imperdível

Um Olhar Do Paraiso

Entre os meus amigos mais chegados, já virou motivo de piada o fato de eu só gostar de filmes mal-recebidos pela crítica cinematográfica. Foi assim com A vila, de M. Night Shyamalan, Fim dos tempos (do mesmo diretor, diga-se de passagem)… e agora, para completar o quadro, adorei o mais recente filme do neozelandês Peter Jackson, Um olhar do Paraíso (The lovely bones, 2010).

Que, infelizmente, tanto a crítica quanto o público não hesitaram em massacrar.


Sinopse: Susie Salmon é uma garota de 14 anos que vive no subúrbio da Filadélfia, com os pais e dois irmãos – uma pré-adolescente da idade de Susie e um menino menor. A família é mergulhada em uma rotina perfeita e comum, com pais adoráveis e filhos adoráveis; mas tudo muda quando, certa tarde, Susie é estuprada e brutalmente assassinada por um dos vizinhos, o psicopata George Harvey.

Depois de sua morte, Susie passa a habitar um mundo fantástico (o Céu?), em que, na companhia de uma garotinha também pós-morte, poderá acompanhar o drama das pessoas que ela deixou para trás.


Assisti ao filme na semana retrasada, poucas horas depois da primeira meia-noite de 2011, e já posso afirmar, sem medo, que Um olhar do Paraíso foi um dos melhores filmes que vi até hoje. Pode parecer uma afirmação leviana e impulsiva, fanática, mas não é. Mesmo depois de vários dias, continuo dizendo que ele é um dos melhores.

Às vezes é difícil para mim entender por que um longa-metragem tão bom (pelo menos, normal) pode ser tão duramente criticado pela maioria das pessoas, a ponto de o chamarem de "o pior de 2010", "vergonhoso" e "puramente vazio". Por que tamanha aversão por um filme que é, repito, pelo menos normal?

E o pior de tudo é que, de todas as críticas negativas que li, nenhuma me pareceu ter argumentos suficientemente convincentes. Falarei delas mais adiante.

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Para começo de história, os produtores do filme tiveram a felicíssima idéia de não inserir o pós-morte de Susie no mesmo plano clichê daqueles fantasmas que estão circulando entre os vivos, mas que não conseguem interagir com eles porque são invisíveis e não podem mexer nenhum objeto (como o espectro de Patrick Swayze em Ghost, embora Ghost seja um filme excelente).

Em Um olhar do Paraíso, a coisa não é assim, o que torna o filme muito mais original: o mundo fantástico em que a protagonista está inserida interage com o mundo "dos vivos" de uma maneira muito mais simbólica, quase junguiana, e assim o telespectador vai captando pistas interessantes que fazem o elo entre o mundo de lá e o de cá. Por exemplo, a cena das garrafas-caravelas se quebrando na orla da praia, que é impagável. Há também a cena do reflexo da chama da vela no vidro da janela, belíssima, em que o pai "entra em contato" com Susie pela primeira vez.

Idéia semelhante pode ser vista no filme Amor além da vida, com Robin Williams. Aliás, paralelos entre esses dois filmes são quase que obrigatórios. Um olhar do Paraíso pega emprestado muitos cenários do filme de Williams, incluindo a evidente sugestão das cores vivas. Até mesmo algumas cenas são parecidíssimas, como a da árvore se desfolhando ou da protagonista sendo tragada por uma espécie de grama aquática.


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Pela seleção de fotos que eu estou colocando aqui, acho que dá para ter uma idéia da qualidade visual do longa. E me refiro não só ao tocante aos efeitos especiais, mas à fotografia de um modo geral: à imagem do filme. Movimentações de câmera agradáveis, iluminação fora de série, paisagens de tirar o fôlego, seqüências de prender a atenção de qualquer um.

Na minha opinião, uma das características mais marcantes do filme é a coexistência de elementos chocantes e belos ao mesmo tempo, em um mesmo plano narrativo. Embora Um olhar do Paraíso seja por demais açucarado (e essa foi uma das maiores críticas a ele), os elementos violentos continuam lá, assombrando o telespectador – pelo menos, assombraram a mim.

A questão do estupro, mesmo não tendo sido mostrada de maneira explícita, é óbvia, e isso mexeu comigo. Além do mais, a garota foi esquartejada, que é outra coisa que salta aos olhos durante o filme. Então, o que mais queriam? Sexo explícito? Violência gratuita? (Diga-se de passagem, uma das cenas é banhada em sangue.)

Achei de muito bom gosto – e é algo que evidencia a habilidade de Jackson – apenas sugerir as coisas, poupando tomadas violentas desnecessárias, que em nada acrescentariam à história. E, ainda assim, chocar o telespectador.

Outra crítica muito freqüente e pouco convincente afirma que o filme é desprovido de propósito e muito confuso. Falando com franqueza, não consegui achar nada de confuso em Um olhar do Paraíso (e não me considero nenhum expert em filmes), até porque a trama toda é encaixada e arrumada de um jeito que o telespectador sempre consegue acompanhar. No mais, a história despertou em mim reflexões sobre a inesgotável questão da vida após a morte (se existe, como será), de modo que taxá-lo de "vazio" também não me pareceu cabível.


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Por fim, é preciso confessar que não acho o filme totalmente desprovido de defeitos. Algumas coisas no roteiro (especificamente no roteiro) poderiam ser aparadas e modificadas, claro. Isso eu não nego. E só não menciono aqui o que eu queria que mudasse porque estaria revelando informações do enredo – em outras palavras, spoilers. Portanto, fica só a menção: uma ou duas cenas finais poderiam ser mudadas.

Além disso, a interpretação de um determinado ator poderia ser mil vezes melhorada e mais convincente. Estou falando dele mesmo, Mark Wahlberg (pai de Susie), cujas atuações são sempre muito criticadas por todos – e com razão. Desde muito tempo eu acho que Wahlberg força a barra em querer continuar sendo ator de cinema.

Porém, mesmo levando em conta essas pequenas falhas, incluindo cenas que certamente poderiam ser modificadas, o filme não perde seu brilho, e é, pelo menos para mim, uma das notáveis produções de 2010.


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02 janeiro 2011

Cemitério de navios, de Mauro Pinheiro

"A história de qualquer maneira nunca tem fim, são os personagens que aos poucos desaparecem." (p. 35)

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Hoje de manhã, antes de sair para o supermercado para reabastecer minha geladeira, eu finalizei a leitura de Cemitério de navios (1993), romance de estréia do carioca Mauro Pinheiro, 53 anos.

Eu só conhecia deste autor o livro Quando só restar o mundo, que é uma obra belíssima e tocante sobre viagens pelo Brasil, amizade e desprendimento. Foi por isso que fui atrás de Cemitério de navios: queria entrar em contato com outros trabalhos desse escritor.


Sinopse: Cinematográfico, Cemitério de navios é um road-book, uma longa viagem do Rio de Janeiro ao Piauí. A história de um rapaz preocupado em refazer a trajetória de um amigo que sempre manda pistas falsas sobre seu paradeiro. Poético, por vezes selvagem, Mauro Pinheiro lembra um Jack Kerouac dos anos 90, espanando o pó das estradas mais esburacadas do Brasil.


Eu penso que Mauro Pinheiro é a maior autoridade da literatura brasileira sobre road-books, ou seja, livros que têm como pano de fundo a estrada, pela qual os personagens estão sempre se deslocando, cruzando o país, com um cenário totalmente mutável. Posso estar errado (alguém me corrija se eu realmente estiver), mas acho que Mauro é o único escritor nacional que de fato tem a estrada como ingrediente indispensável em seus livros.

Também, olhando para a biografia dele, a coisa não podia deixar de ser diferente. Mauro Pinheiro saiu de casa e viajou pelo país (sozinho) com apenas 17 anos; ao completar 21, foi para o exterior e morou no Iraque, na Bélgica e na França, onde começou a escrever Cemitério de navios. Já trabalhou como cortador de lenha, operário de uma fábrica de perfumes e criador de cabras.

Portanto, é natural que seus livros falem sobre viagens…


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Um dia bato uma foto desse Cubo Mágico solucionado, prometo


Quando li a primeira frase de Cemitério de navios, fiquei quase que literalmente de queixo caído. Diz ela: Talvez certas revelações importantes só aconteçam durante a noite. Acontece que, na mesma noite, um pouco antes, eu havia tido uma revelação importante – nada espiritual, claro, mas apenas uma informação que recebi e que mexeu comigo. Na ocasião, só pude pensar: este será um daqueles livros que me lêem.

Infelizmente, não foi. Devo admitir que, ao contrário do que aconteceu com Quando só restar o mundo, eu fui perdendo o ânimo à medida que prosseguia com a leitura. Algumas frases de efeito aqui, outras ali, espaçadas… apenas isso. O tom poético dessa vez não funcionou, e ficou parecendo que o autor queria apenas testar sua habilidade em construir frases bonitas (como romance de estréia, isso é perdoável).

Atualmente, sua linguagem é madura e disciplinada sem perder o viés poético e corriqueiro. Mas, em Cemitério de navios, ela é mais dada a experimentalismos e cacoetes, muito informal. Por exemplo, o uso de "Belô" para substituir "Belo Horizonte", ou de "rodô" para substituir "rodoviária", é irritante. Mesmo assim, vemos que Mauro escreve bem, e durante a leitura não deixa de ficar martelando na cabeça do leitor um pensamento do tipo: "Esse cara é uma promessa para o futuro literário do Brasil".


É preciso continuar caminhando, talvez haja um lugar onde eu queira chegar. Um lugar que se construa à medida que o persigo e o invento. (…) É preciso sempre preencher com um sonho de luz esse lapso entre as trevas que chamamos vida. (p. 159)


Por fim, o livro só não recebeu uma nota imaginária ruim porque o final foi muito bacana. Na verdade, eu diria que o livro é um mosaico, e só quando se chega ao final é que se pode contemplá-lo de longe, observando a imagem que se forma. Nos últimos capítulos, a história consegue mostrar sua forma, seus contornos, e é interessante acompanhar as revelações que se sucedem.

Ah, vale a pena lembrar que, diferentemente do que a sinopse diz, o livro não possui nada de "cinematográfico".

Conclusão: um livro interessante para quem já entrou no universo de Mauro Pinheiro. Para os iniciados, não tão recomendado…

Resenha de Quando só restar o mundo aqui.

23 agosto 2010

Quando só restar o mundo, de Mauro Pinheiro

"E qual seria a matéria-prima do destino? O tempo? As pessoas?" (p. 8)

Quando só restar o mundoMauro Pinheiro

Eu já descobri há muito tempo que um passeio despretensioso por uma livraria qualquer, além de muito prazeroso, pode trazer também muitas revelações, principalmente se você é alguém que gosta de ler livros que os outros desconhecem. Foi assim – passeando sem objetivo pela livraria – que descobri Coração, de Natsume Soseki, Templo, de Matthew Reilly e Um país distante, de Daniel Mason (ótimos e desconhecidos livros).

Sábado passado, foi totalmente por acaso que dei de cara com Quando só restar o mundo (2002), romance escrito pelo carioca Mauro Pinheiro, nome até então quase anônimo no nosso circuito literário brasileiro. Vocês já ouviram falar dele? Eu também não, até semana passada. E continuaria hoje sem saber quem era, se não tivesse levantado o olhar sem querer e visto aquele volume de meras 122 páginas espremido entre a parede da estante e um catálogo sobre a Revolução Francesa.

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Sinopse: Pedro Paulo é desencantado com a profissão, estéril, inadaptado ao universo nem sempre ético do mercado financeiro, em crise de solidão. Pede demissão do emprego, destruindo seu mundo estável e confortável, e parte de carro para procurar na Bahia a mulher que o abandonou. Mas na estrada se vê inesperadamente envolvido numa perigosa aventura com outra mulher, a misteriosa Serena, e seu filho pequeno.

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No site da editora Rocco (aqui), há o seguinte trecho da biografia do escritor:

"Mauro Pinheiro nasceu no Rio de Janeiro. Morou no subúrbio até os dezessete anos, quando decidiu intervir no destino que lhe parecia óbvio, e botou o pé na estrada. Viajou pelo Brasil durante três anos, vivendo de bicos e da solidariedade dos amigos que fez."

Isso lembra, em quase tudo, a história do andarilho Christopher McCandless, norte-americano de classe alta que abandonou o "destino que lhe parecia óbvio" e circulou durante dois anos pelos Estados Unidos, fazendo amigos pela estrada, até ser encontrado morto dentro de um ônibus no Alasca.

Estou falando isso (fazendo essa relação) porque gosto de coisas desse gênero aventuresco. Pessoas que têm visão para perceber que suas vidas são valiosas demais para serem desperdiçadas dentro de um escritório ou na frente de um computador – ou nas duas coisas simultaneamente – essas pessoas sempre me atraíram. Tenho simpatia por elas. Porque, no fundo, penso do mesmo jeito.

Como viajante inveterado, Mauro Pinheiro não poderia deixar de transportar esse sentimento desprendido para os seus livros. Todos eles – quatro, até agora – estão incluídos no gênero que eu resolvi chamar de road book: livros cujas tramas estão baseadas em viagens sem rumo pelas estradas, cujo objetivo é, necessariamente, a viagem em si, e não o destino.

Quando só restar o mundo é um clássico desse gênero. Durante a viagem que os três protagonistas (Pedro, Serena e seu filho) empregam ao longo da história, nós leitores somos transportados para praias desertas do nordeste, bares de estrada, pousadas baratas e paisagens tropicais. Essencialmente brasileiro nesse aspecto do cenário, o romance, embora curto, vai desfiando uma trama singela que cativa e emociona qualquer um.

Li o livro em um final-de-semana. É uma leitura rápida, fluída. A linguagem da narrativa é deliciosa e se situa no meio-fio que separa o formal do coloquial. Como definiu muito bem Jason Tércio,

"Com uma linguagem coloquial, sem maneirismos experimentalóides, Mauro narra muito habilmente uma aventura literária que emociona e nos faz pensar na fragilidade e no efêmero da existência, mas sobretudo na importância crucial da liberdade."

Conclusão: Muito recomendado. Estamos diante de um livro que merece ser lido, e de um autor que merece ser apreciado.

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A seguir, um trecho de entrevista com o autor disponibilizado no site da Rocco. (Para ter acesso a toda a entrevista, acesse aqui.)

"Eu passei boa parte da vida nas estradas, é natural que minhas histórias sejam impregnadas de viagens. Com dezessete anos me desiludi com o vestibular. Passei uns três anos viajando pelo Brasil. Depois, mais dez anos no exterior. Talvez eu use as estradas para falar das coisas que me emocionam, como a amizade, os encontros e desencontros entre os seres – coisas que não acontecem unicamente nelas, mas que eu pude experimentar através delas."

09 agosto 2010

Sete anos no Tibet, de Heinrich Harrer

"Meu maior desejo é que este livro possa trazer alguma simpatia por um povo cuja vontade de viver em paz e liberdade recebeu tão pouca solidariedade de um mundo indiferente." (p. 317)

Sete anos no TibetH. Harrer

Eu estava perambulando à toa por uma livraria da cidade, junto com meu irmão, quando me deparei com um exemplar de Sete anos no Tibet (Seven years in Tibet, 1953). O livro foi escrito pelo aventureiro alemão Heinrich Harrer e conta como ele e seu amigo, Peter Aufschnaiter, chegaram e se estabeleceram na capital do Tibet depois de cruzarem boa parte da cadeia montanhosa do Himalaia, fugindo da polícia anglo-indiana e de um campo de concentração na cidade de Dehra Dun. Em Lhasa, capital do Tibet, Harrer acabou se tornando algo que nem ele mesmo poderia prever: professor de Sua Santidade o Dalai Lama.

Assim que li a sinopse na contra-capa do livro, imaginei que ninguém poderia passar por uma aventura maior do que essa. E, como eu sempre fui fã de aventuras, comprei o livro no ato. (Só fui saber da existência do filme depois.) O volume que eu adquiri foi publicado pela editora L&PM Pocket, mas há uma outra, mais elaborada, lançada pela Asa – infelizmente, fora de circuito.

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Sinopse: Heinrich Harrer é considerado um dos maiores alpinistas e aventureiros do século XX. Este livro conta como ele e seu companheiro, Peter Aufschnaiter, chegaram até a Cidade Proibida do Tibet – Lhasa – depois de fugirem de um campo de prisioneiros de guerra na Índia, em 1943. Nessa fuga, que durou quase dois anos pelo interior da Ásia, ambos atravessaram todos os tipos de perigo, ao cabo dos quais foram acolhidos na cidade sagrada de Sua Santidade, o Dalai Lama.

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Poucas coisas me angustiam tanto quanto não acabar de ler um livro grosso nas férias e arrastá-lo para o período de aulas. Foi isso o que aconteceu com Sete anos no Tibet: comprei-o nas férias, comecei a lê-lo nas férias, mas as férias acabaram e agora eu tive de terminá-lo no final-de-semana passado, depois de vários dias parado. O ritmo da leitura foi quebrado e o ânimo para pegar outra vez no livro desaparecera, tudo por conta das inúmeras atividades acadêmicas que eu tenho de enfrentar.

Bem, depois que Heinrich Harrer se juntou a uma expedição de alpinistas que escalariam o monte Nanga Parbat no Himalaia, a primeira coisa que o grupo fez foi ficar uma temporada na Índia para sondar o melhor percurso até a montanha. Acontece que, enquanto eles estavam por lá, encantados com o povo indiano e a beleza natural do país, a 2ª Guerra Mundial rebentou e a Inglaterra declarou guerra à Alemanha em nome de todo o seu império – Índia incluída.

Como Harrer e os outros alpinistas eram alemães, a polícia indiana os prendeu em um campo de concentração e não apresentou a menor perspectiva de tirá-los de lá. Este é o ponto de partida do livro: Harrer narra a sua fuga (cômica) da prisão e a conseqüente jornada que empregou pelo interior montanhoso da Ásia até chegar ao Tibet, junto com um outro integrante da expedição inicial, Peter Aufschnaiter.

Cena do filmeHarrer e Dalai Lama

1º) Cena do filme Sete anos no Tibet ; 2º) Harrer e o Dalai Lama juntos

A linguagem que Harrer utiliza no seu livro pertence àquela classe de linguagens objetivas, cristalinas e encantadoras – ou seja, de coisas muito bem escritas. As palavras são extremamente bem escolhidas e a harmonia das frases embala o leitor. (Eu leio e releio uma mesma frase várias vezes só pelo fato de ela ter sido bem construída. Exemplo: "Alimentado por numerosos riachos vindos do Himalaia, esse rio fica cada vez maior e, à medida que cresce, mais tranqüilo fica o seu curso.")

Existe uma particularidade na narrativa do livro que vale a pena ser comentada: ela não constitui o modelo típico de narrativa de viagem contemporâneo, em que o autor narra a sua aventura como se fosse um thriller de ação. Não. Provavelmente pelo fato de ter sido escrito na década de 50 – uma década de literatura ainda conservadora –, Sete anos no Tibet apresenta uma narrativa totalmente sincera, totalmente despida de qualquer atrativo "colorido". Ali temos Harrer contando a sua história, e nada mais; nada de trechos de tirar o fôlego, nada de suspense, nada de história de amor inserida. Apenas a realidade essencial dos fatos.

Harrer e Dalai Lama (2)

Embora esse modelo "frio" de narrativa seja interessante pelo fato de ser sincero, confesso que fiquei um pouco incomodado. Porque, dada a vastidão quase inconcebível da aventura de Harrer, era de se esperar que o autor fizesse um discurso mais detalhado dos fatos. Nas partes mais instigantes e atrativas da aventura, o relato às vezes me parecia despojado de emoção, panorâmico demais, seco demais, como um diário. E o que poderia ser algo bacana por conta dos detalhes acaba passando despercebido, fazendo com que a história tenha suas partes monótonas. (Vale lembrar que o livro, que possui mais de 300 páginas, não tem diálogos.)

Mas esse é o único "problema" do livro. De um modo geral, adorei lê-lo, e pude ver que Harrer faz jus ao título de "um dos ocidentais que mais conhecem o Tibet". Suas descrições dos costumes e rituais tibetanos são – nesse caso – bem detalhados e esmiuçados, elucidativos.

E esse lance de um aventureiro fugir de um campo de concentração e acabar como professor do Dalai Lama é uma das coisas mais interessantes que já li na vida – é o acaso em prol de uma boa história. Todas as observações que o autor faz do país são transmitidas ao leitor, desde a acolhida inicial até os dias finais de sua estada por lá, quando a China comunista invadiu o território tibetano e Harrer teve de deixar o país.

Conclusão: um livro que, sem dúvida, merece ser lido. Mas encare-o desde já como uma fonte de informações, e não necessariamente como puro entretenimento.

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"A primeira coisa que fazia, todos os dias, era escutar as notícias, e muitas vezes lamentava e pensava em coisas que os ocidentais acham importantes. Aqui, o ritmo do iaque dita o ritmo de vida, e assim tem sido por milhares de anos. Será que o Tibet seria mais feliz se fosse transformado? (…) acelerar o ritmo da existência poderia roubar a paz e o lazer. Não se deve forçar um povo a utilizar novas invenções que estão muito à frente do seu estágio de evolução." (p. 222, grifos meus)

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Abaixo, o trailer do filme Sete anos no Tibet, estrelado por Brad Pitt e dirigido pelo "visionário" diretor Jean-Jacques Annaud. A música fica por conta de John Williams. (Infelizmente, não achei um vídeo legendado…)

30 julho 2010

Travessuras da menina má, de Mario Vargas Llosa

"Quer dizer, você esperava há dez anos que uma garota como eu aparecesse em sua vida?" (p. 27)

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Uma das primeiras providências que tomei ao chegar na cidade de Fortaleza-CE – onde iria morar pelos anos seguintes – foi adquirir livros com conteúdo mais profundo, denso, nada que se assemelhasse às histórias frugais que eu vinha lendo até então, em Belém-PA. Essa mudança de hábito literário nada tem a ver com as cidades em si, convém esclarecer. A questão é que, quando cheguei aqui, em Fortaleza, já contava 14 anos de idade e queria me ver livre das histórias "superficiais" (leia-se "de fácil digestão") que eu colecionava na minha prateleira.

Não sei se Travessuras da menina má (Travesuras de la ninã mala, 2006) atendeu perfeitamente essa exigência, porque, de certo modo, a história é escrita em moldes de best-seller e parece ser o romance menos profundo do autor. No entanto – e que isso fique bem claro – o livro é extremamente envolvente. Gostei muitíssimo de tê-lo lido.

Leia aqui a entrevista que o autor peruano Mario Vargas Llosa concedeu à Folha Online, na ocasião do lançamento do livro.

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Sinopse: O peruano Ricardo vê realizado, ainda jovem, o sonho que sempre alimentou – o de viver em Paris. O reencontro com um amor da adolescência o trará de volta à realidade. Lily – inconformista, aventureira e pragmática – o arrastará para fora do pequeno mundo de suas ambições. Ricardo e Lily – ela sempre mudando de nome e de marido – se reencontram várias vezes ao longo da vida, em diferentes cidades do mundo que foram cenários de momentos emblemáticos da História contemporânea.

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Ricardo Somocurcio, o protagonista da história, é um tradutor que trabalha para a Unesco, convertendo discursos e tratados de um idioma para outro. Acontece que na sua infância, ainda quando morava no bairro de Miraflores, no Peru, ele se apaixonou por uma misteriosa e sensual garota de nacionalidade incerta; desde esse fatídico encontro, jamais a esqueceu, mesmo depois de passados muitos anos. Ricardo se mudou para Paris – um sonho de criança – e parecia levar uma vida tranqüila e monótona de tradutor, até que reencontrou por acaso a tal garota – agora envolvida em uma violenta guerrilha comunista.

Esse é apenas o primeiro passo de uma jornada que iria durar décadas e décadas, para não dizer a vida toda dos dois, e irá transportar o leitor para vários países, em várias épocas diferentes – Inglaterra, França, Japão e Espanha, só para citar os principais. A Inglaterra dos hippies, a França conservadora – que se confunde com a personalidade de Ricardo –, o Japão dos mafiosos cruéis e a Espanha miscigenada são panos de fundo para essa história de amor nada convencional.

Se Dom Casmurro ficou cismado com os indícios de que Capitu o estava traindo, Ricardo Somocurcio parecia não se importar nem um pouco com o fato de sua amada estar dormindo com outros homens, por mais que tivesse certeza disso. Aliás, essa história de traição é algo que não importa em Travessuras da menina má, porque o fato é amplamente consumado por parte da protagonista. O próprio Llosa afirma que procurou fugir dos padrões que regem as histórias de amor tradicionais: "Queria fugir do lugar-comum", afirma. Assim, quando nos outros romances do gênero a traição possui um valor alto de tabu, aqui ela simplesmente é banal e corriqueira.

Edição originalEdição inglesaEdição portuguesa

Aliás, talvez nem possamos falar em "traição" propriamente dita. Ricardo e a Menina Má não eram cônjuges, sequer namorados no sentido usual do termo. E é esse o fio da meada do livro: enquanto ele, profundamente apaixonado por ela, ansiava por uma relação estável e tranqüila, ela, por sua vez, brincava com os sentimentos dele, vagando pelo mundo e casando-se com homens cuja posição social a beneficiaria. A história alterna momentos em que Ricardo fica sozinho em Paris, pensando na Menina Má, e momentos em que os dois se encontram, ou por obra do destino, ou deliberadamente – muitas vezes, deliberadamente.

É interessante ir acompanhando o desenvolvimento psicológico dos personagens – coisa que é mais bem trabalhada no caso da Menina Má – e é legal conhecer as amizades que tanto ela quanto Ricardo estabelecem ao longo de suas vidas, relações essas que, de um modo ou de outro, coadunam para que o casal-protagonista fique junto (como é o caso do Menino Sem Voz, responsável por uma das partes mais deliciosas do livro).

Assim como em Dom Casmurro, em Travessuras da menina má o autor teceu a trama de um jeito especial, de modo que fica no final uma dúvida no espírito do leitor. Se no primeiro o caso era "Traiu ou não traiu?", aqui a questão é "Amou ou não amou?" Há discussões acaloradas nas comunidades do Orkut, e uns leitores dizem que sim, que a Menina Má amou Ricardo à sua maneira excêntrica; enquanto outros dizem que não, que ela apenas brincou com o protagonista e que ele era um bobo em amá-la tão profundamente. E realmente é muito divertido ficar discutindo isso. É algo absolutamente comparável a Machado de Assis.

Pela rápida pesquisada que fiz na internet, vi que o livro tomou conta das livrarias brasileiras na época do seu lançamento, virando, inclusive, um best-seller por aqui. Não lembro disso (o que eu estaria fazendo na época?), mas de qualquer forma é interessante ver que um livro razoavelmente fora do circuito atraiu a atenção da massa. O sucesso de Travessuras da menina má é comparado ao de Caçador de pipas, e a vendagem do livro de Llosa, capaz de tirar qualquer editora da falência, foi a maior da companhia Objetiva.

Conclusão: muitíssimo recomendado.

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"Vou morrer", balbuciou, cravando as unhas no meu braço.

"Não vai morrer. Deixei que você fizesse comigo todas as canalhices do mundo, desde que éramos crianças, mas essa, de morrer, não. Isso eu proíbo."

Sorriu (…).

"Já era hora de me dizer alguma coisa bonita." (p. 183)