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28 maio 2012

A Profecia Celestina, de James Redfield

"Ele jurara então que um dia moraria naquele vale perfeito, com suas enormes árvores velhas e suas sete nascentes, e acabara construindo um lago e uma cabana, e dando longas caminhadas (…)" (p. 27)

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Finalmente, depois de passar quase um mês com o Blog estagnado, volto a postar aqui uma resenha de livro. Esse atraso nas postagens se deveu, em parte, pela quantidade assustadora de coisas que tive de resolver nas últimas três semanas, todas no plano acadêmico: provas, seminários, grupos de pesquisa, monitoria etc. Tudo isso consumiu meu tempo de maneira arrasadora; porém, agora que as férias estão acenando no horizonte (ufa!), o Gato Branco voltará a funcionar a pleno vapor outra vez.

E eu retorno agora para contar um pouco das minhas reflexões sobre o livro que andei lendo nesse período atribulado (e que demorei 21 dias para ler, quando normalmente o teria feito em 4 ou 5). A Profecia Celestina (The Celestine Prophecy, 1993), escrito pelo professor norte-americano James Redfield, tornou-se um fenômeno mundial na época em que foi publicado, figurando na lista dos mais vendidos do New York Times por três anos, iniciando, assim, um grande interesse do público por assuntos ligados à chamada Nova Era ou Paradigma Transcendental.


Sinopse: Um antigo manuscrito é encontrado nas florestas do Peru, contendo nove ensinamentos que a sociedade maia pretendia transmitir às civilizações futuras. A Profecia Celestina, de James Redfield, é uma aventura de corpo e alma, onde o leitor é convidado a participar de uma saga em busca da verdade espiritual. A cada capí­tulo, acompanha-se as aventuras do protagonista em busca da sua própria verdade. Seu destino é chegar no alto das montanhas dos Andes e compreender o significado contido nas nove visões, impedindo que as autoridades locais censurem sua divulgação. Ao longo deste caminho, o leitor é apresentado a um modelo de consciência inteiramente novo.


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Quem já leu alguma coisa relacionada à Nova Era (alguma coisa consistente, de preferência) provavelmente reconhecerá em A Profecia Celestina muitos pontos familiares: coisas que, por mais originais que soem, não serão de todo inéditas. O primeiro desses pontos, que eu considero o princípio norteador dos pensamentos do novo paradigma, é a reflexão sobre a transição da Era Moderna para a Era Contemporânea, ou Pós-moderna: se ali nós buscávamos nos amparar em conquistas materiais e no domínio exploratório da natureza, aqui nós adquirimos uma espécie de consciência ecológica (em um sentido bem mais amplo que aquele do senso-comum) e uma atenção voltada para os assuntos que escapam à ciência newtoniana da causa-e-efeito.

Segundo os adeptos dessa nova corrente filosófica, é essa mudança de consciência que permitirá ao ser humano a continuidade de sua existência no planeta; porque, do jeito como estamos vivendo e tocando nossas vidas atualmente, a extinção do bem-estar (ou mesmo da espécie) será certa. Conseqüentemente, encoraja-se a percepção intuitiva, o ócio, a mudança nos princípios da ciência moderna, o freio no desenvolvimento material voraz, e assim por diante – em prol de uma sociedade mais espiritual e sustentável. Para entender melhor esse pensamento, recomendo o sensacional livro O ponto de mutação, do físico austríaco Fritjof Capra, que mostra por a+b a necessidade de mudarmos nosso estilo de vida global contemporâneo (o que inclui essa mudança de consciência).

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Embora ambos reflitam sobre os mesmos assuntos e estejam inseridos na mesma corrente de pensamento, enquanto o ensaio de Capra é mais voltado para o contexto científico, o livro de Redfield é a forma romanceada de abordar o impacto da Nova Era em nossas vidas pessoais. Certamente, alguns exageros são cometidos nessa empreitada. Visualizar campos de energia nas pessoas é um desses excessos, e eu preferi interpretar essa idéia de aura de uma maneira metafórica, buscando entender a necessidade de estar atento e sensível aos conflitos e anseios das pessoas próximas a nós – o que acabaria nos dando uma percepção do seu íntimo, por assim dizer.

Outro exagero é a afirmação de que podemos fazer as plantas crescerem mais viçosas apenas com a força do pensamento, transmitindo-lhes energia. Convém dizer: não sou tão cético a ponto de rir e rejeitar totalmente essas hipóteses, mas não acredito que elas se dêem de acordo com o que o livro aponta. A propósito, sei que os alimentos cultivados por nós mesmos trazem muito mais benefícios que aqueles industrializados, e essa é uma das reflexões do romance.

Muitas pessoas criticam as coincidências excessivas presentes no enredo da história, mas elas só começaram a me incomodar um pouco, mesmo, no terço final. Até lá, não senti dificuldades em ver que alguns personagens realmente poderiam se reencontrar e trocar idéias convenientes – mas a coisa começou a ficar forçada a partir do penúltimo capítulo. O livro preconiza que devemos sempre dar atenção às chamadas coincidências que acontecem em nossas vidas (reencontrar pessoas, objetos ou caminhos) porque elas trazem consigo uma espécie de mensagem que nos conduzirá ao lugar que sempre quisemos. Esse "ensinamento" é muito interessante porque é muito simples e óbvio: estar atento às coincidências não é outra coisa senão estar atento às oportunidades. E você pode encontrá-las em muitos lugares, levando em consideração que a palavra "oportunidade" remete à oportunidade de crescimento espiritual, não material.

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Apesar de alguns leves defeitos (que alguns leitores podem mesmo nem considerar como defeitos), A Profecia Celestina é um livro difícil de ser criticado por pessoas que toleram diferentes visões de mundo. Sermos reservados e afirmarmos que não compartilhamos das propostas apresentadas no romance é algo diferente de negarmos e repudiarmos essa nova consciência emergente. O que separa as várias obras que tratam desse tema é uma questão de grau (umas mais elucidativas e racionais, outras mais espirituais e transcendentais), nunca de essência. O novo paradigma já se mostrou suficientemente necessário em nossa sociedade para que o critiquemos: o argumento do "esse-livro-é-pura-viagem" já não parece mais tão palpável.

Minha sugestão é que se leia algo sobre a Nova Era antes de pegar este romance. Se você nunca tiver escutado falar sobre essa veia filosófica, pode correr o risco de não entender a idéia geral do livro, achá-lo apelativo e fantasioso. No entanto, se achar que está suficientemente aberto para novos modos de compreensão do ser humano (sempre com o habitual olhar crítico saudável), fica aqui a minha dica da semana. Dá boas discussões e boas rodas de conversa.

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Vale lembrar:

> A Profecia Celestina continua com A Décima Profecia e O Segredo de Shambala – e, mais recentemente, com A décima segunda revelação. Com exceção do último título, originalmente a saga foi pré-concebida, descartando a idéia de que o sucesso do primeiro livro deu margem à produção dos outros.

> Existe o filme homônimo, lançado em 2006.

> O primeiro capítulo do livro, "Massa crítica", encontra-se disponível aqui.

23 abril 2012

Norwegian Wood, de Haruki Murakami

"Nós somos seres imperfeitos vivendo num mundo imperfeito". (p. 330)

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Há exatos 25 anos, em 1987, o escritor japonês Haruki Murakami publicava aquele que seria o seu livro mais arrebatador, mais famoso e mais vendido de todos os tempos: Norwegian Wood (Norwegian Wood, 1987), já considerado pela crítica como uma espécie de O apanhador no campo de centeio oriental. Embora o autor não goste muito dessa comparação – pelo fato de ser super fã de J. D. Salinger, talvez – ela não é aleatória: ambas as obras giram ao redor do mesmo tema, a passagem tortuosa da adolescência para a vida adulta e os dilemas e contradições que essa transição carrega consigo.

Murakami é reconhecidamente o autor oriental mais ocidentalizado de que se tem notícia na contemporaneidade. Seus livros, ainda que se passem exclusivamente em localidades japonesas, fazem referência a tantos ícones da cultura ocidental moderna que o leitor percebe de cara a influência da globalização nos escritos do autor. O próprio título do livro, extraído da famosa canção dos Beatles, já nos mostra essa consciência globalizada. E, talvez pelo fato de serem mesmo bem "universais" – saindo do hermetismo das tradições japonesas, tão caras à literatura desse país – os livros de Murakami são traduzidos para dezenas de idiomas. E vendem bem. Só no país de origem do autor, Norwegian Wood vendeu 4 milhões de cópias.


Sinopse: Toru Watanabe é um jovem estudante de teatro que vive uma vida aparentemente normal em Tóquio, onde mora em um alojamento exclusivo para universitários e tem de conviver com colegas excêntricos. No entanto, seu universo pacato é abalado depois que ele reencontra uma antiga e tímida amiga. Essa garota, Naoko, era a namorada do seu melhor amigo, que, aos 17 anos, suicidou-se. Esse é praticamente o único fato que une os dois, e ambos tentarão viver uma espécie de amor proibido, cheio de encontros e desencontros, tendo ainda que suportar a perda do ente em comum. Nesse meio-tempo, Midori, uma energética e sensual amiga de Toru, entra em cena para completar o frágil triângulo amoroso.


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Norwegian Wood e Kafka à beira-mar, respectivamente: talvez as duas maiores obras de Haruki Murakami


Todo escritor possui um livro que, atingindo sucesso inesperado no período pós-publicação, concede ao seu autor a oportunidade de fazer da literatura uma profissão para o resto da vida. No caso de Murakami, essa obra-prima é justamente Norwegian Wood. Curiosamente, ela é a que mais destoa de toda a sua bibliografia. Reconhecido por escrever romances pertencentes ao gênero do realismo fantástico, em que uma história aparentemente banal e cotidiana ganha contornos fantasiosos e surreais, Murakami tem em Norwegian Wood o momento mais "equilibrado" de sua carreira: um livro cuja história é completamente real, no sentido mais acadêmico do termo.

Sem lançar mão de nenhum evento fantástico (em Kafka à beira-mar, por exemplo, um dos protagonistas tem a habilidade de conversar com gatos), o autor conseguiu aproximar os leitores que se sentem mais atraídos por um enredo pé-no-chão, mesmo que essa não tenha sido sua intenção ao escrever o livro. De qualquer forma, o amor trágico e inocente entre Watanabe e Naoko, ambientado no já depressivo final da década de 60, conquistou leitores no mundo inteiro e fez com que milhares de jovens se identificassem com os personagens principais – e esse é mais um ponto em comum com Salinger.


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Edições do livro em português: à esquerda, capa da Ed. Objetiva; à direita, lançamento da Ed. Civilização


A bem da verdade, o sucesso de Norwegian Wood não se deve exclusivamente à história e aos fatos que nela se desenvolvem; antes de tudo, o livro é excelente porque é excepcionalmente bem escrito. A história, em si, talvez não possuísse força suficiente para chegar até onde chegou se não fosse a habilidade ímpar do autor com as palavras. Mesmo que a criatividade de Murakami seja um claro diferencial, histórias de amor com pitadas de nostalgia e tragicidade não fazem parte dos enredos mais originais da literatura; a diferença está, sim, no modo como ela é contada. E nisso Murakami é mestre, como qualquer pessoa que lê seus livros pode constatar. 

Alguns livros necessitam ser lidos em momentos bem específicos de nossas vidas, para que possam mexer completamente com nossa consciência e visão de mundo. Nesse aspecto, sempre costumo dizer que eu li Norwegian Wood um pouquinho antes do momento-chave, mas que, mesmo assim, seu efeito não foi menor. Eu havia acabado de ingressar na universidade e ainda estava um pouco alienado com relação a certas coisas da vida, além de muito mergulhado na veia romântica da literatura. Entrar em contato com este livro foi, a priori, uma espécie de choque: meio que a contragosto, entendi que a boa literatura é aquela que nos deixa um pouco contrariados, que é ousada o suficiente para nos mostrar que nem tudo são flores e que estávamos enganados acerca de diversos aspectos da vida cotidiana.


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Cena do filme homônimo baseado no livro, dirigido por Anh Hung Tran: segundo os leitores, produção aquém da obra literária


Norwegian Wood me proporcionou essa abertura de olhos para algumas coisas que antes eu não conseguia – ou não admitia – enxergar. É um romance cru, em vários aspectos, doloroso e real demais para aquilo a que eu estava acostumado na época. Na trama, por exemplo, o sexo é um fator de destaque, e sua aparente banalização e frugalidade tem um sentido que só pude perceber algum tempo depois. Toru Watanabe talvez seja o tipo do personagem com o qual milhares de jovens da mesma faixa etária – 19, 20 anos – se identificam: solitário, pensativo, leitor voraz, possui um círculo fechado de amigos, que ele conquistou na base mesma do acaso.

Em suma, eu poderia escrever durante horas e horas sobre todos os detalhes do livro que fizeram de mim uma pessoa diferente daquela que eu era antes de sua leitura, mas sei que isso não se faz. Vou deixar que os possíveis leitores de Norwegian Wood se sintam eles mesmos abalados pela obra, para que possam tirar dela suas próprias conclusões e repensar alguns aspectos de sua própria vida. Porque, se você tem entre 15 e 25 anos de idade, isso certamente vai acontecer. E quem já passou por essa idade vai sentir na pele um sentimento bem gostoso – e amargo, quem sabe – de nostalgia.

16 abril 2012

A ilha do dr. Moreau, de H. G. Wells

"O estudo da natureza deixa um homem tão despido de remorsos quanto a própria natureza." (p. 98)

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Durante os períodos do ano de não-férias, minha atividade como leitor se resume basicamente a sair catando feriados prolongados espalhados pelo semestre, na tentativa de encontrar potenciais tempos disponíveis para a leitura de livros mais prazerosos que alguns daqueles vistos na faculdade. Por isso, sempre que surge no horizonte um recesso como o da Páscoa, por exemplo, escolho um título da minha pilha de livros para ler e o devoro. Desse jeito procuro sair do pretexto de que só é possível mergulhar na literatura nos períodos em que não estamos estudando ou trabalhando.

No feriado da semana passada, vislumbrei uma ótima oportunidade para ler o clássico A ilha do dr. Moreau (The island of Doctor Moreau, 1896), um livro que já estava há algum tempo em minhas mãos. Lançado recentemente pela Alfaguara com a qualidade editorial indiscutível de sempre, o romance, mistura de ficção-científica com história de aventura, foi escrito pelo icônico H. G. Wells no final do século XIX, antes de seu famoso O homem invisível e depois do ousado A máquina do tempo.


Sinopse: À deriva, sem esperanças de sobreviver em alto-mar, Charles Prendick é resgatado por um navio em missão das mais incomuns: levar a uma pequena ilha no Pacífico algumas espécies de animais selvagens. Ainda debilitado, Prendick é obrigado a desembarcar no local junto com o carregamento. Lá, ele conhece a figura do dr. Moreau – um cientista que, exilado por suas pesquisas controversas na Inglaterra, realiza experimentos macabros com seus animais.


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Uma rápida olhada na sinopse de A ilha do dr. Moreau já sugere que o romance se localiza precisamente na interseção entre as histórias de aventura em lugares exóticos e a dita ficção-científica pura. Naquela época, as histórias que narravam as peripécias dos protagonistas em terras distantes, geralmente povoadas por seres desconhecidos e hostis, encontrou uma ligação com a literatura considerada "racional", guiada por promissores avanços na ciência – o que hoje, talvez, podemos chamar de gênero do techno-thriller. O livro que li nesse feriado se encontra justamente no meio dessas duas vertentes: aventura e ficção-científica.

Além de entreter o leitor com o relato simples e aventuresco do protagonista – que narra toda a sua estadia na selvagem ilha de Moreau –, Wells promove diversas reflexões a respeito dos mais variados assuntos, como a origem das convenções sociais, o lado obscuro e cruel da pesquisa científica, a desumanidade do processo colonizador e a evolução das espécies segundo Darwin, dentre outras coisas. Essa importância bidimensional da obra, por assim dizer, dá um grande valor ao romance, uma vez que pretende sair da mesmice dos assuntos da ficção-científica (que naquela época se voltavam muito para o espaço sideral e o futuro) e entrar também no mundo da aventura, da ação e do suspense, costurando esse tecido todo com a linha fina das reflexões sociais e políticas.


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Cena de uma das várias adaptações para o cinema. Essa é de 1996, com os atores Marlon Brando e Val Kilmer


A história mesma do livro, por si só, já suscita uma grande reflexão no leitor, pelo simples fato de que – pelo menos para a época – ela era extremamente original e provocadora: chegou a ser duramente criticada pelo jornal The Guardian, que acusou o livro de fazer uma sátira ao Criador. Mesmo tendo sido escrito há mais de um século, A ilha do dr. Moreau é um livro atual e embala algumas polêmicas recentes. A idéia de modificar fisiologicamente seres vivos, com o intuito de provar algo ou simplesmente experimentar, encontra suas bases nos avanços contemporâneos da biomedicina e da biotecnologia, ainda que hoje uma experiência do naipe da de Moreau seja eticamente inviável.

O único pecado do livro é não ter aprofundado muito a filosofia por trás da história e os personagens que compõem a trama. O próprio Moreau, por exemplo, seria uma figura muito mais marcante caso fosse melhor explorada, da mesma maneira que o Capitão Nemo, em Vinte mil léguas submarinas, foi. O isolamento de Moreau, em parte voluntário, em parte forçado, sua excentricidade e sua fixação pelas metas das pesquisas científicas dariam excelentes panos de fundo para um desenvolvimento melhor de sua personalidade. O mesmo se pode dizer de Prendick, de cujo passado o leitor conhece apenas alguns detalhes irrisórios. Montgomery, espécie de enfermeiro e braço-direito de Moreau, é talvez o personagem mais complexo da história, com todos os seus dilemas, paixões e decepções destilados rapidamente aqui e ali.


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Duas edições de A ilha do dr. Moreau: a primeira faz parte da coleção "Mestres do Horror e da Fantasia", e a segunda, da "Clássicos Ilustrados", adaptada.


Uma obra contemporânea que lembra bastante o livro de Wells é a não menos clássica Jurassic Park – O parque dos dinossauros, do saudoso norte-americano Michael Crichton – um escritor cuja imaginação prolífica não o deixava abaixo de nenhum ficcionista do final do século XIX. Embora as duas histórias tenham diferenças óbvias que as colocam em lugares distintos, ambas possuem uma miríade de detalhes em comum, sendo que a mais destacada delas é: alguém usa o isolamento natural de uma ilha para criar seres através da tecnologia científica, o que, não obstante, sai terrivelmente errado.

Ainda que seja um título mais voltado para a ação e o entretenimento, os capítulos finais (especialmente os dois últimos) são os responsáveis por elevar a obra a patamares mais densos. De qualquer modo, é um romance de importância literária indiscutível, uma parábola provocativa sobre evolução, humanidade e ciência, além de envolvente relato de suspense. A ilha do dr. Moreau certamente tem seu lugar reservado nos arquivos dos grandes clássicos mundiais.

18 março 2012

A questão do desestímulo à literatura nas escolas

Toda semana da minha vida parece conter em si um episódio que me faz pensar muito sobre como as coisas andam na nossa sociedade. Geralmente são acontecimentos simples, até meio bestas, irrisórios, mas que conseguem me lançar em uma verdadeira consideração sobre alguns aspectos cotidianos. Às vezes estou até distraído; mas quando esses eventos ocorrem, não consigo mais pensar em outra coisa senão no que eles despertaram em mim.

Ontem de manhã, participei de uma aula sobre pesquisa em banco de dados virtual na universidade. Essa é uma aula que, dentre outras coisas, nos ensina a acessar e usar os bancos de informação existentes no meio acadêmico relacionado às mais diversas áreas. Alguns domínios, como o Academic Search Elite, por exemplo, permitem ao aluno da universidade acessar artigos e livros científicos internacionais, publicados em várias revistas e periódicos de outros países. Aquele que domina a língua inglesa tem, praticamente, um mundo de conhecimento à sua frente.


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Quem tem medo de literatura clássica?


Mais ou menos no final da aula, a instrutora (uma jovem e inteligente bibliotecária) admitiu que, como ainda tínhamos algum tempo livre, queria nos mostrar "uma coisa interessante". Acessando o domínio do Portal da Pesquisa, ela começou a listar na nossa frente dezenas de títulos nacionais do campo da literatura clássica: "E isso aqui", ela disse, rolando a tela do computador em que aparecia uma miríade de links, "isso aqui nos permite ter acesso a grandes obras nacionais, aquelas que vocês leram no Ensino Médio, como Iracema, Dom Casmurro e O cortiço". Vi nomes como Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e João do Rio.

Atrás de mim, uma menina resmungou: "Argh!"

Não tive como deixar de pensar que isso resume como a maioria das nossas escolas, ao invés de incentivarem o gosto pela leitura nacional consagrada, só tornam as coisas mais difíceis. Entendo que, quando os tempos mudam, mudam-se os gostos, e é no mínimo ingenuidade querer que os jovens de hoje apreciem e se deleitem com livros que foram escritos há um século, obras românticas que possuem linguagem arrastada, floreada e de difícil compreensão. Não é a idéia certa querer que louvem Machado de Assis ou José de Alencar. Não.

O problema é que nossos colégios de Ensino Médio (ou a maioria, devo frisar, para não cair em generalizações) não estimulam da maneira como deveriam a leitura e, principalmente, o respeito pelos clássicos brasileiros. Eu mesmo vim de um colégio do Ensino Médio cuja única preocupação era resumir as obras em estudos dirigidos e em simulados que sempre castravam nove décimos do valor artístico do livro. Pelo que soube mais tarde, através de colegas que estudaram em outras instituições, a realidade é a mesma nas mais diversas escolas do Brasil: transforma-se grande obras nacionais em apostilas de estudo, que você não deve ler por prazer, mas decorando cada capítulo como se fosse uma questão de vestibular em potencial.


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Edição de Iracema e O cortiço: por que tanta aversão por parte dos jovens?


Como eu disse, a relação dos jovens com os clássicos deve estar para além do gosto pessoal. É o que eu acho. Não penso que os adolescentes brasileiros do século XXI devam idolatrar Castro Alves, por exemplo, ou Visconde de Taunay. Mas eles devem, sim, entender a importância desses autores para a construção da nossa literatura – e da nossa identidade, conseqüentemente. E o respeito aos grandes clássicos é o mínimo que devemos exigir.

O que acontece é que a maioria dos professores não explica a importância do livro, seu contexto histórico, quando foi escrito, por quem foi escrito e, principalmente, com que finalidade foi escrito. A única coisa que dizem é: "Leia e estude, porque isso é questão de vestibular". Às vezes, destilam a biografia do autor de maneira sistemática e seca, transformando-a em dados a memorizar. Não há uma pessoa sequer que se sinta à vontade com isso. Por que reclamar dos jovens, se são as escolas que criam essa lógica, na maioria das vezes?

Aí aparece um suposto entendido do assunto e coloca uma pergunta na avaliação do tipo: "O que Machado de Assis quis dizer com 'olhos de cigana oblíqua e dissimulada'"? A resposta certa, aquela que deveria ser estimulada, é: nada que possa ser resumido em um item de questão objetiva. Mas quem vai se atrever a educar nossos alunos a partir desse princípio?

26 fevereiro 2012

Niétotchka Niezvânova, de Fiódor Dostoiévski

"Os resultados de tudo o que iniciava eram belos e autênticos, mas à custa de erros e desvios incessantes." (p. 116)

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Decidi usar os cinco dias de feriado do Carnaval para pôr em dia a leitura de um dos livros mais distintos do russo Fiódor Dostoiévski, famoso autor dos clássicos e monumentais Crime e Castigo e Os irmãos Karamázov. Conheci o romance Niétotchka Niezvânova (Niétotchka Niezvânova, 1849) a partir da indicação de uma professora minha. No momento em que ela me disse que este livro é um verdadeiro estudo psicológico do desenvolvimento e uma espécie de documento histórico onde podíamos encontrar muitas idéias que Sigmund Freud abordaria depois, pensei: "Tenho que lê-lo".

Vale lembrar que a verdadeira intenção de Dostoiévski era escrever um grande romance que abarcasse toda a vida de sua personagem principal, Ana, desde a infância até a maturidade; mas, pelo fato de ter sido preso, quase morto e enviado à Sibéria (onde permaneceu uma década), o autor abandonou o ambicioso projeto inicial e fez de seu Niétotchka Niezvânova um pequeno romance de 200 páginas. Acredito que essa informação seja importante antes de iniciarmos a leitura do livro.


Sinopse: 'Niétotchka Niezvânova' narra os primeiros passos de Ana, que, desde muito cedo, convive no mundo com os problemas éticos e emocionais dos adultos. Precocemente órfã, é transferida para o lar de um distinto príncipe, onde trava contato com Kátia, a filha do nobre. Uma relação conturbada e pontuada de ambigüidade se instala entre as duas, até que ambas se declaram perdidamente apaixonadas uma pela outra.


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Se há uma coisa que caracteriza todos os romances russos do século 19, sem distinção de autor, é o fato de que eles constituem verdadeiros tratados psicológicos sobre a condição humana e as relações estabelecidas entre as pessoas, guiadas, invariavelmente, pelos preceitos morais e culturais da época. A lista de livros russos que gira em torno dessa idéia é imensa: Anna Karênina, Crime e castigo, Pais e filhos, Almas mortas, e assim por diante. Os autores russos desse período pareciam estar unanimemente ligados a esse tipo de tema, e a maioria deles escreve visando o mesmo ponto, por assim dizer.

Com Niétotchka Niezvânova acontece o mesmo, embora o romance seja bem curto e econômico. A personagem que dá título ao livro (e que narra a história) é hipersensível e extremamente atenta a tudo o que a rodeia, incluindo as relações familiares a que ela se sujeita em diferentes momentos da sua vida. Assim, a pequena garota, que se vale de uma visão retrospectiva para narrar a história, esmiúça suas pequenas tormentas, seus pequenos "delírios", e tudo aquilo que foi responsável pela sua "maturidade precoce".

Confesso que, entre a escrita de Tolstói e a de Dostoiévski, prefiro a do primeiro. Mas não se pode negar que o autor de Crime e castigo escreve com vontade, com sede de desnudar suas personagens e com uma avidez que demonstra seu talento em criticar a sociedade e as convenções sociais, além de expor tudo aquilo que atormenta o íntimo dos indivíduos. Repleto de ponto-e-vírgulas e outras pontuações de pausa abrupta, seu texto é às vezes bastante truncado – mas não perde a beleza excêntrica típica dos russos.

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Num primeiro momento, Dostoiévski dividiu Niétotchka Niezvânova em três partes muito bem delineadas: Infância, Vida nova e O mistério – que, embora não estejam mais oficialmente nomeadas, podem muito bem ser percebidas pelo leitor. A primeira delas, Infância, é o testemunho de Niétotchka sobre o começo da sua vida, sobre os seus primeiros passos como pessoa: vivia em um casebre rústico e se relacionava basicamente com o padrasto (um violinista fracassado que jurava ser o único músico talentoso do mundo) e com a mãe (que misturava severidade, amor e disciplina na educação da filha).

Com a morte de ambos, Niétotchka passa a residir na casa do príncipe K., na condição de órfã, onde conhece a pequena e bela princesinha Kátia, com a qual mantém relações declaradamente homoeróticas. Inicia-se Vida nova. Essa é uma das partes mais brilhantes do romance, na minha opinião, pois ainda é difícil para mim imaginar um livro da metade do século 19 discorrendo sobre um ingênuo relacionamento homossexual – entre crianças, ainda por cima. Palmas para Dostoiévski, e palmas para todos os outros autores que, desde muito cedo, buscavam convencer a sociedade da ignorância dos seus preconceitos.

Depois de um imprevisto na casa do príncipe, a protagonista passa a residir na mansão da irmã mais velha de Kátia, Aleksandra, onde começa a desconfiar de algo no relacionamento tortuoso desta com seu marido, Piotr. Essa parte, O mistério, é destinada a mostrar ao leitor a maturidade de Niétotchka, que passa a ler livros com voracidade e a se dar conta do mundo à sua volta, sobre o qual começa a emitir suas opiniões – até que se envolve em um turbulento problema conjugal entre Aleksandra e seu rude esposo.


Em suma, Niétotchka Niezvânova é um livro recomendado para quem quer entrar no universo de Dostoiévski pela primeira vez e sentir, na ponta dos dedos, toda a profundidade do autor, toda a sua preocupação com o destino de suas personagens e toda a gama de sentimentos que elas externalizam.

12 fevereiro 2012

A infância do mago, de Hermann Hesse

"Por muito tempo vivi no paraíso, ainda que meus pais tenham me apresentado bem cedo à serpente."

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Entrei na livraria e lá estava ele, meio abandonado, entre uma edição enorme de um livro de gastronomia e um atlas colorido do corpo humano. Estava na pilha de livros que em breve seriam despachados para as suas respectivas estantes, de onde, cedo ou tarde (ou nunca), os clientes da loja os tirariam e os levariam para casa. Havia outros romances em meio àquele monte de livros aleatórios empilhados – inclusive romances de outros autores consagrados – mas foi A infância do mago (1922) que me chamou mais atenção.

Quem escreveu este conto singelo foi o alemão Hermann Hesse, bem conhecido da comunidade literária mundial, que o considera como um dos melhores autores de todos os tempos. Hesse recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1946, poucos meses depois de ser agraciado com outra prestigiada condecoração, o Prêmio Goethe.

Eu nunca havia lido nada do autor e, por pura curiosidade – que não deixa também de ter algo místico, pois senti como que uma força direcionando minha mão para resgatar o livro daquela pilha – sentei-me numa das poltronas da livraria e comecei a lê-lo. Terminei a leitura meia hora depois, com a sensação premente de que preciso conhecer mais desse escritor tão talentoso.


Sinopse: 'A infância do mago' conta, em poucas páginas, os primeiros passos de um garoto que nasce e cresce em meio a uma região bucólica, cercada por bosques e animais, onde convive com seu pai – inteligente e correto –, sua mãe – que esconde uma ponta de mistério – e seu avô – figura que encanta ao máximo o menino. O livro é, acima de tudo, uma ode à infância despreocupada e ingênua.


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Seguramente não é à toa que uma editora resolve publicar um único conto em formato de livro, com capa, introdução, posfácio e tudo o mais a que um grande romance tem direito. Em vez de pertencer a uma coletânea, a editora José Olympio decidiu que A infância do mago teria uma edição própria. É difícil encontrar um conto publicado isoladamente, por mais que o autor que o escreveu seja consagrado nos meios literários e tenha a graça da boa recepção do público. De qualquer forma, a edição do conto pertence a uma coleção intitulada Sabor Literário, cujas obras não ultrapassam as 200 páginas.

A verdade é que este conto de Hermann Hesse é apaixonante. O único ponto negativo é que ele não possui mais que 40 páginas, e quando o leitor está se familiarizando com o protagonista, com sua vida e o contexto que o rodeia, a história termina. A única coisa concreta que posso dizer é que a premissa de A infância do mago daria um ótimo romance, se fosse desenvolvida de acordo. Mas a idéia mesma do autor é apenas mostrar ao leitor um alento de vida, um flash da infância de um personagem aleatório (que tem muito do autor, diga-se de passagem) e o paradoxo de se tornar adulto aos poucos.

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A essência do conto gira justamente em torno dessa idéia: a agonia de se tornar adulto, desprender-se das fantasias da infância, ser forçado a aceitar uma realidade com a qual não se concorda. O protagonista, no início da história, narra a sua vida despreocupada de menino que vive em uma cidadezinha rural afastada da metrópole, com seus celeiros, seus bosques, seus rios e seus animais. Uma das belezas do conto está na riqueza dos detalhes da vida infantil do menino, com suas suposições, seus sonhos, suas aspirações e suas vivências. Experiências que são compartilhadas, se não universalmente, pelo menos por boa parte da população mundial.

Aos poucos, o garoto vai crescendo e deixando de lado as experiências infantis, até que adquire a consciência de que está de fato entrando na realidade – ou, como ele mesmo gosta de dizer, no mundo dos adultos, que antes lhe parecia ridículo. Eu diria que a segunda beleza do conto está nesse processo de amadurecimento, que põe lado a lado o mundo das crianças (com sua despreocupação aberta) e o mundo dos adultos (com suas regras "ridículas" e aborrecidas). As reflexões que partem daí são excelentes e, embora rápidas, deixam o leitor pensando no assunto por um bom tempo.

Se os livros no Brasil não fossem absurdamente caros, eu teria levado o volume para casa na mesma hora. Mas, realmente, não deu. De qualquer maneira, fica a dica para quem quer gastar alguns minutos lendo um dos melhores contos que tive a oportunidade de ler esse ano.

05 fevereiro 2012

Mar de papoulas, de Amitav Ghosh

"Era normal, nesses tempos, ser tão pródigo sem um motivo oculto?" (p. 198)

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Um autor que pretende escrever um romance que traga ao leitor, ao mesmo tempo, um denso contexto histórico-político-cultural e uma boa dose de entretenimento e aventura (de modo que nenhuma das duas partes saia perdendo), esse autor precisa ter uma imaginação muito fértil e um bom-senso geral que não é reservado a todos os escritores. Em todos os aspectos, é um trabalho admirável, porque o leitor não só é presenteado com uma história cheia de bagagem intelectual, como também toma parte em grandes aventuras, cheias de ação e suspense.

Foi por esse talento perspicaz que o suplemento literário do The Observer comparou o indiano Amitav Ghosh aos célebres Alexandre Dumas, Liev Tolstói e Charles Dickens; segundo o jornal, Ghosh possui o viés aventuresco do francês, a penetração psicológica do russo e o apelo emocional do inglês. Isso tudo por conta do romance Mar de papoulas (Sea of poppies, 2008), primeiro volume da ambiciosa "trilogia do Ibis", que se propõe a mergulhar o leitor no conturbado comércio do ópio perpetrado nas Índias Orientais do século 19.


Sinopse: É um romance épico, cujo pano de fundo são as guerras do ópio na China e no Extremo Oriente do século XIX. Ele narra a jornada do navio Ibis – uma embarcação inglesa que se envolve no perigoso comércio do ópio com a China – e sua inusitada tripulação, formada por oficiais ingleses, um americano mestiço, escravos libertos, fugitivos e condenados – cada qual com suas ambições e seus dramas pessoais. Ghosh descreve desde as dificuldades dos plantadores de papoula na Índia – com sua tradição e seus amores proibidos - até as lutas e os desejos dos inusitados tripulantes do navio.


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Amitav Ghosh é conhecido no mundo inteiro pela sua extrema dedicação ao contexto histórico em que suas histórias estão inseridas. Invariavelmente, ele passa vários anos estudando um assunto antes de escrever sobre o que quer que seja – e seu interesse já foi dos conflitos políticos na Birmânia ao exótico arquipélago das Sundarbans. No caso do romance em questão, consultando os mais diversos estudiosos, cronistas, linguistas e pesquisadores, Amitav reconstruiu a Índia da metade do século 19, imersa no mais exploratório mercado colonialista britânico. Lugares, costumes e eventos são tão fielmente retratados que é impossível não se deixar impressionar pela riqueza de detalhes que o autor se dispõe a relatar. A densidade desse contexto é tão profunda que faz de Mar de papoulas não só um romance, mas também uma espécie de documento histórico.

É comum achar que o excesso de detalhes factuais torna um livro enfadonho e monótono, porque não dá margem à criação de personagens envolventes e enredos originais. Isso não é verdade, principalmente quando o nome de Ghosh está no meio. Sua imaginação é tão larga e inventiva que, não raro, o leitor se surpreende com os caminhos que seus enredos geralmente tomam. Sua capacidade para envolver é muito grande, e mesmo nas passagens mais densas (que em Mar de papoulas não são muitas, aliás) nós somos levados a acompanhar o que ele escreve com o maior dos entusiasmos. Tudo o que passa pela pena do indiano parece se transformar em algo incrivelmente atraente.

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Esse talento de Ghosh em envolver o leitor nos mais diversos assuntos tem uma explicação: sua escrita. Dotada de uma beleza que não é comum de encontrar nos autores anglo-indianos, ela possui uma espécie de técnica característica do autor: sempre clara, sempre cristalina, sem hermetismos, sem turvar as suas águas para sugerir profundidade. Amitav Ghosh é um autor que sempre procura se fazer entender, e é isso o que o torna tão envolvente em muitos aspectos. Nada de meias-palavras, nada de buracos na trama; tudo é dito e explicado da maneira mais elegante possível, o que não deixa de pôr o leitor para pensar em muitas passagens.

A propósito, em Mar de papoulas Amitav Ghosh adquiriu um hábito que pode irritar alguns leitores: embora sua escrita seja lúcida e fluente, no livro ele não hesita em colocar uma centena de verbetes nativos entre os personagens, e nem sempre esse vocabulário excêntrico vem acompanhado de uma explicação, de modo que resta ao leitor pesquisar na internet ou tentar seguir adiante. A presença dessas palavras obscuras não interfere no andamento geral da história, necessariamente, mas pode ocasionar muitas paradas na leitura no caso dos leitores que não gostam de deixar nada passar batido. Para o bem ou para o mal, a verdade é que esses vernáculos só tornam a história mais verossímil e fascinante ainda.

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Ao longo do livro, somos apresentados a uma galeria de personagens tão díspares quanto originais, que amamos ou odiamos, dependendo de quais são as suas motivações e interesses. Particularmente, me afeiçoei muito à personagem Paulette Lambert, uma adolescente de origem francesa que nasceu em Calcutá e que é filha de um botânico amante de Rousseau. Existe algo de extremamente cativante em sua inocência, que aos poucos dá espaço a um amadurecimento mais perceptível, na medida em que o livro prossegue. Também gostei muito de Kalua, um simplório camponês que começa a história ganhando a vida como transportador de pessoas da aldeia para a cidade.

Ainda que seja dinâmico e fluído em sua linguagem e em sua história, acredito que o livro deva ser lido da maneira mais devagar possível; só assim somos capazes de assimilar a maior parte dos detalhes, a atmosfera e as sutilezas presentes na obra. É um livro apaixonante, sem dúvida, desde o capítulo inicial até a última linha: o tipo do romance que deixa uma espécie de saudade no leitor, fazendo-o rememorar constantemente determinadas cenas e diálogos. Finalmente, pela primeira vez na vida, posso dizer que estou ansioso pelo próximo título de uma trilogia que ainda está sendo escrita.


Mar de papoulas foi finalista do prestigiado Booker Prize, tendo sido eleito um dos melhores livros do ano pelos jornais The Washington Post, Economist e San Francisco Chronicle.


Mar de papoulas (2008)

Amitav Ghosh

536 páginas

Editora Alfaguara

Nota: 10/10

22 janeiro 2012

Poemas completos de Alberto Caeiro, de Fernando Pessoa

"Ninguém pode provar que é mais que só diferente." (p. 109)

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Havia uma espécie de certeza antecipada quando tive nas mãos, pela primeira vez, o livro que reúne todos os poemas escritos pelo heterônimo mais bucólico, simpático e fleumático inventado pelo português Fernando Pessoa. Antes mesmo de terminar a leitura da primeira estrofe do poema que abre a coletânea, tive a certeza de que aquele seria um livro para sempre meu. Até hoje, depois de tantos anos, Alberto Caeiro é o autor que ocupa minha cabeceira; suas frases, seus versos, sempre de uma serenidade ímpar, são capazes de amansar qualquer estado de espírito.

Li os Poemas Completos (que foram escritos entre 1910 e 1935) com a sensação nítida de que cada frase me despertava para uma nova perspectiva de vida. Uma nova filosofia nascia ali, diante de mim, e eu a assimilava como quem, isolado no deserto, encontra um poço cheio de água potável: com avidez, me deliciando com cada palavra. Mas o mais curioso é que as idéias e o discurso de Caeiro não eram de todo novidades para mim: seu desprendimento, sua simplicidade, seu minimalismo já estavam incutidos naquilo que eu imagino ser minha personalidade. Desse modo, naquela época, identifiquei meus sentimentos e pude vê-los verbalizados em poesia. Nada melhor, ainda mais quando estamos falando da qualidade de um Fernando Pessoa.


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"Toda a paz da natureza sem gente vem sentar-se a meu lado." (p. 31)


Para quem ainda não sabe, o poeta Fernando Pessoa, num súbito lampejo de compreensão, entendeu que sua alma era dotada de pontos de vista e estilos tão distintos que não seria possível assinar todos os seus escritos sob o mesmo nome. Além de "Fernando Pessoa" (que, desnecessário dizer, era ele mesmo), o autor criou uma dezena de heterônimos que correspondiam a personagens diferentes, ou, antes, a autores diferentes. De todos esses autores distintos, sobreviveram ao curso do tempo apenas três, que são a tríade mais famosa e mais rapidamente associada ao nome do poeta português: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Há também o existencialista Bernardo Soares, mas este, infelizmente, deve seu reconhecimento pelo público a apenas uma única obra em prosa: O livro do desassossego.

Vale lembrar que heterônimo não é o mesmo que pseudônimo. No segundo caso, o autor apenas esconde seu nome verdadeiro e publica outro no lugar, como um nome substituto artístico pelo qual ele pretende ser reconhecido. No heterônimo, o artista cria autores diferentes dele mesmo, com biografia e obra distintas da sua própria. Fernando Pessoa mesmo costumava dizer que Alberto Caeiro era seu "mestre", e que toda a sua obra partia de um ou outro pressuposto do famoso guardador de rebanhos. Às vezes eu fico pensando que psiquiatras e outros estudiosos científicos não vêem nisso senão um belo traço de esquizofrenia.


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"Não sei o que é a natureza: canto-a." (p. 69)


Não precisei chegar sequer na metade dos Poemas completos para perceber que eu já adorava o livro e que o tinha como a mais bela coletânea de estrofes em língua portuguesa lida até então. Quanta poesia inteligente, quantos versos claros e serenos! Se existe uma coisa que é comum a todos os heterônimos de Fernando Pessoa (e isso só pode ser explicado como um traço intrínseco do autor), é que sua poesia não é do tipo que turva as águas para sugerir profundidade. Não consigo encontrar outra característica mais louvável em um poeta: clareza e sensibilidade. Caeiro escreve com uma calma tão evidente, com uma serenidade tão absoluta, que nada poderia advir daí senão os versos mais interessantes e cristalinos possíveis.

Poemas Completos é recheado de frases breves extremamente carregadas de sentido. É o caso de, por exemplo, "Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir" ou "Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a natureza os pôs". Simples, direto e de uma beleza inquestionável, que abre mão dos mais rocambolescos recursos para se fazer entender. Antes de tudo, apela para a humanidade do leitor, e só assim ela almeja fazer sentido. É uma poesia humanista, por que não?


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"Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado." (p. 53)


Nunca tive prazer ou necessidade de riscar um livro, sublinhando passagens importantes ou fazendo anotações nas margens das páginas; no entanto, aqui eu tive que deixar de lado essa tradição. Risquei estrofes, sublinhei versos, pus asteriscos em poemas inteiros e circulei vários trechos que julguei como portadores de uma essência que não podia ser perdida, e sim lembrada para sempre. Fiz isso sem o menor constrangimento. O entusiasmo ao marcar essas passagens foi tão grande que, mesmo hoje, sou capaz de citar estrofes inteiras de cor. A minha preferida é:

"Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros,

Quer para fazer o bem, quer para fazer o mal.

A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.

Querer mais é perder isso, e ser infeliz." (p. 71) 


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"Eu acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido." (p. 111)


Poemas completos de Alberto Caeiro é um livro que significa muito para mim. Na época em que o li, lembro que ele serviu como uma espécie de muleta, na qual eu me apoiava e até mesmo me baseava, fazendo daqueles versos as palavras que eu queria dizer cotidianamente, para todos, alardeando minha nova atitude perante a vida. Esses livros – que realmente nos tocam e nos mudam, estilhaçando-nos com sua verdade óbvia – são raros. Quando encontrados, devem ser preservados, como se fossem uma parte de nossa própria anatomia – coisa que, apenas por pouco, não são de fato.


Poemas completos de Alberto Caeiro (1910-1935)

Fernando Pessoa

205 páginas

Editora Martin Claret

Nota: 10/10

15 janeiro 2012

O espetáculo mais triste da Terra, de Mauro Ventura

"Naquele trágico domingo, Niterói era uma cidade doída e confusa." (p. 200)

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Nem uma febre e nem uma gripe das mais desagradáveis foram capazes de impedir que eu terminasse a leitura do livro O espetáculo mais triste da Terra – O incêndio do Gran Circo Norte-Americano (2011), escrito pelo jornalista carioca Mauro Ventura, filho do conhecido Zuenir Ventura. O resfriado consumiu todo o meu estoque de medicamentos, mas não conseguiu me deixar acamado a ponto de me separar da minha estante.

Ando me interessando bastante por obras de autores que lançam mão do chamado "jornalismo investigativo", gênero moderno provavelmente iniciado com Truman Capote, cuja linha principal mistura reportagem e veia crítica usando pinceladas de romance. Sem dúvida, é um gênero que possui um alto grau informativo e uma boa dose de entretenimento, a depender do autor em questão. Jon Krakauer, por exemplo, é um nome bem conceituado nessa área de não-ficção, e seus livros são tão empolgantes quanto críticos e socialmente engajados.

A leitura do livro de Ventura, excelente, me deixou a par de uma das piores tragédias brasileiras de todos os tempos.


Sinopse: Com base num minucioso trabalho de campo e de pesquisa, Mauro Ventura traz à tona um drama sem precedentes na história do Brasil: o incêndio no Gran Circo Norte-Americano, que tem entre seus heróis médicos, escoteiros, religiosos e até uma elefanta, que salvou dezenas de espectadores ao abrir um rasgo na lona. No dia 17 de dezembro de 1961 acontecia, em Niterói, a maior tragédia circense da história e o pior incêndio com vítimas do Brasil. Mais de 3 mil espectadores, a maioria crianças, lotavam a matinê do circo, anunciado como o mais famoso da América Latina, quando a trapezista Antonietta Stevanovich deu o alerta de fogo. Em menos de dez minutos, as chamas devoraram a lona, justamente no momento em que o principal hospital da região se encontrava fechado por falta de condições.


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Cartaz anunciando o espetáculo do Gran Circo Norte-americano em Niterói


"O que eu acho impressionante", diz meu pai, que nasceu uma década antes da tragédia, "é que eu nunca tenha ouvido falar desse episódio. Só fiquei sabendo dele na semana passada, por conta do lançamento desse livro. Como um acontecimento tão dramático e cruel pode ter passado em branco, justamente para mim, que vivia no Rio de Janeiro?". Justamente pelo fato de ter sido dramático e cruel, o incêndio do Gran Circo Norte-Americano foi relegado ao esquecimento voluntário pelo povo da própria cidade.

Para reconstruir a catástrofe de Niterói, Mauro Ventura entrevistou mais de uma centena de pessoas (entre testemunhas, médicos e vítimas) e se valeu de uma miríade de documentos, vídeos e artigos publicados no país sobre o assunto. O resultado dessa pesquisa meticulosa pode ser observado no seu livro: um panorama detalhista que conta dramas familiares particulares (muitas pessoas perderam a família inteira no incêndio), atos de heroísmo e as operações do governo para lidar com a situação (verbas disponibilizadas, pedidos de ajuda a países vizinhos e assim por diante).

De um modo geral, como o próprio Mauro Ventura gosta de dizer, O espetáculo mais triste da Terra se propõe a dar rosto à tragédia, na medida em que oferece ao leitor um mar de histórias das pessoas afetadas pelo incêndio. Enquanto eu estava lendo o livro, não raro me assombrava e me compadecia de certos episódios, de certos personagens que acabam nos tocando, de uma maneira ou de outra. É o caso de Lenir Queiroz, da chefe de escotismo Maria Pérola, da menina Maria José, e de muitos outros.


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O corredor da saída principal do circo, pelo qual centenas de pessoas tentaram passar ao mesmo tempo


A linguagem que Mauro Ventura utiliza para dar voz ao seu texto é a mesma de certas reportagens de revistas informativas. Isso não diminui o valor da obra, naturalmente. É uma narração corriqueira, ágil, sem deixar de lado a minúcia típica do jornalismo. Livre de excessos, Ventura destila os principais acontecimentos para o leitor, as principais informações e os personagens mais destacáveis. Se for para comparar o autor com Jon Krakauer (que é talvez o único que conheço do gênero), eu diria que Mauro Ventura é uma espécie de versão resumida do autor norte-americano, mas com qualidade semelhante. Enquanto Krakauer detalha demais os episódios que reconstrói, Mauro, no livro em questão, dá uma visão mais panorâmica do acontecimento, focando apenas as partes de maior importância.

O livro todo é excelente, e gostei particularmente dos capítulos que narram a crise no Hospital Antonio Pedro (o principal da cidade, que, desgraçadamente, encontrava-se em greve no dia do incidente), o gesto humanitário da escoteira Maria Pérola, as histórias de Marlene e Lenir e as investigações iniciadas depois da tragédia. Aliás, a causa do incêndio do Gran Circo Norte-americano continua um mistério até hoje, visto que há uma rede de informações desencontradas que ora apontam um culpado criminoso (Dequinha), ora apontam falhas no sistema de segurança da casa de espetáculo, e ora apontam fatores naturais. Nunca se chegou a uma conclusão racional baseada em provas, e se na época Dequinha e Bigode foram sentenciados à prisão, foi somente para dar uma satisfação imediata aos cidadãos de Niterói.


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Ao entardecer, bombeiros tentam apagar o fogo que devorou a lona do circo


Recomendo O espetáculo mais triste da Terra para quem quiser conhecer o mais trágico acidente circense da História e o pior incêndio brasileiro. Embora o livro apresente uma grande dose de detalhes assombrosos e trágicos, vale a pela a leitura, não por conta do apelo ao drama, mas pela carga de informação referente ao episódio. Um livro excelente, sem dúvida.

07 janeiro 2012

Lá onde os tigres se sentem em casa, de Jean-Marie Blas de Roblès

"Seria preciso estar irremediavelmente privada da liberdade para descobrir o valor do simples fato de viver?" (p. 265)

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Sempre alimentei uma espécie de admiração pelos escritores viajantes, o que pode ser facilmente explicado pela minha própria vontade de viajar através de países distantes e exóticos e de escrever, no regresso dessas excursões, meus próprios livros. Para mim, não há dúvida de que essa é uma bela maneira de passar o tempo na Terra.

Conheci há pouco tempo Jean-Marie Blas de Roblès, um arqueólogo submarino que nasceu na Argélia, morou no Tibete, Indonésia, Peru, China, Iêmen, Líbia e, dentre outros lugares, Brasil. Durante o tempo em que esteve aqui, Roblès lecionou na Universidade de Fortaleza – aquela em que estudo, aliás – e tirou da capital do Ceará boa parte da experiência que usaria para escrever o romance Lá onde os tigres se sentem em casa (Là où les tigres sont chez eux, 2008), que li essa semana.

Um livro curioso, sem dúvida, principalmente porque se trata de um romance estrangeiro cuja trama se desenrola em nosso país, do início ao fim.


Sinopse: O livro conta a história de Eléazard von Wogau, jornalista correspondente de uma agência francesa, que mora já há alguns anos em Alcântara, no Maranhão. Como tem pouco trabalho, se dedica à leitura da biografia de Athanasius Kircher, jesuíta alemão do século XVII. A história desse padre barroco, um pouco científico, um pouco charlatão, apaixonado pelo orientalismo e pela matemática, se mistura a de outros personagens: Elaine, a ex-mulher de Eléazard, bela arqueóloga que partiu em expedição pela floresta amazônica; Loredana, sedutora jornalista italiana; Nelson, garoto pobre da favela sedento por vingança; Moreira, o governador corrupto; ou ainda Moema, a jovem idealista filha de Eléazard e Elaine.


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Lá onde os tigres se sentem em casa ("Tigres", para resumir o título) é um romance simultaneísta – ou seja, diversas narrativas se cruzam no decorrer da história, o que lhe confere um caráter eclético de enredos acontecendo ao mesmo tempo, às vezes até se mesclando. O grande atrativo deste estilo de narração está em não atribuir a nenhum personagem específico o papel de protagonista: todas as histórias paralelas são igualmente importantes, igualmente atraentes e merecem a mesma atenção do leitor. Pessoalmente, tenho uma ótima experiência com romances simultaneístas. Sempre os achei muito interessantes.

O livro é dividido em 32 longos capítulos (sem contar com prólogo e epílogo) que não são cansativos, porque há muitos intervalos dentro deles. Eu até diria que, de um modo geral, as 700 páginas do volume não cansam o leitor, embora isso seja uma opinião bem mais pessoal. A verdade é que a linguagem de Roblès oscila entre a objetividade e o floreio, o que significa que há passagens bem fluidas e outras mais densas, mais subjetivamente sofisticadas. Isso dá ao livro o caráter erudito normal que a própria obra propõe desde o começo: a meta não é apenas contar uma história, mas contá-la com intelectualismo e com palavras escolhidas a dedo (recorri ao dicionário várias vezes). É claro que esse caráter pedante não pode ser considerado um defeito. A psicologia dos personagens fica bem melhor explorada, e alguns diálogos são bem profundos. É uma boa experiência geral.

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Uma coisa bem interessante em Tigres é a alternância entre o Brasil da década de 1980 e a Europa do século XVII. Extremamente pitoresca, essa temporalidade cruzada é ela própria um marco do enredo, uma jogada estilística que eu achei maravilhoso perceber. Uma hora estamos na Favela do Pirambu, em Fortaleza, acompanhando as penúrias de Nelson, e logo depois passamos à Roma regida pelo Vaticano, em que Kircher prepara mais uma discussão filosófica sobre aquela ciência medieval da qual todos faziam parte. Essa transição de tempo, lugar e temática deixa o romance bem mais dinâmico.

Não é sempre que nós temos a oportunidade de ler um romance estrangeiro passado essencialmente no Brasil, com tantos detalhes geográficos e culturais do nosso conhecimento. Roblès oferece isso aos brasileiros com Tigres. É diferente, por exemplo, ler uma ação desenvolvida na Avenida Tibúrcio Cavalcante, apenas a alguns metros da porta da minha casa e por onde passo todos os dias. A sensação é distinta, o leitor brasileiro se sente mais próximo da história e do lugar na qual ela se desenvolve. Sem dúvida.

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Ok, e quanto à história em si? Eu diria que ela é instigante. Essa talvez seja a palavra mais adequada para qualificar o romance de Roblès. Eu, pelo menos, fiquei extremamente curioso para saber qual seria o destino dos personagens, o que eles fariam em seguida e o que mudaria o curso de seus caminhos. Em alguns momentos as histórias paralelas se encontram, mas, durante a maior parte do livro, cada uma segue mesmo suas veredas próprias. Eu diria até que o denominador comum dos personagens é o sentimento de inconformidade com a vida, como se cada um sentisse que é preciso dar mais de si para não cair em uma monotonia incontornável. Há também uma certa busca pela identidade encontrada nesses personagens, o que muito me agradou. Em suma, a história é muito boa. O fio que une todas elas também é convincente.

Um dos grandes méritos do livro consiste em não cair nos lugares-comuns que a literatura estrangeira reserva ao território brasileiro. Longe de regionalismos e de chavões, Roblès se mostra atento às variações culturais do país, servindo-se dele não apenas como um mero pano de fundo, mas como um Brasil repleto de exotismo e encantos – às vezes desconhecidos por nós mesmos. Além disso, o autor mostra seu vasto domínio sobre a geografia local, descrevendo cenários que vão desde a floresta fechada do interior do Mato Grosso até as praias isoladas de Canoa Quebrada, no Nordeste. Esse cuidado com a verossimilhança topográfica inspira respeito à obra e um certo alívio por parte do leitor, ao ver algo não leviano retratado naquelas páginas.

Uma história interessante, repleta de encantos e belezas; um ensaio sobre alguns aspectos da condição humana, principalmente sobre a realidade das pessoas que não se encontram nos seus lugares de origem, na sua zona de conforto.


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Edições do original francês

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Disponibilizo aqui uma entrevista com o autor para o blog O Globo, na qual ele fala sobre o processo de criação do livro.


Lá onde os tigres se sentem em casa (2008)

Jean-Marie Blas de Roblès

710 páginas

Editora Record

Nota: 10/10