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06 novembro 2011

Ciência e poesia, lado a lado

A verdadeira ciência é aquela que fala não do que os homens fazem da natureza, mas de como eles se relacionam com ela.

O ócio é uma coisa maravilhosa. Ultimamente venho pensando em algumas coisas que, sem dúvida, merecem postagens aqui no Gato Branco em Fuligem de Carvão. É fato que eu estou começando a achar interessante a idéia de usar este espaço não só para publicar minhas impressões sobre os livros que leio, mas, também, para expor o que eu penso sobre determinados assuntos de interesse público. A propósito, algumas postagens dessa natureza crítico-reflexiva foram extremamente bem recebidas pelos meus leitores, como é o caso de Ônibus 174, A tendência do uso de aspas em diálogos e A questão da tecnologia nas escolas, todas muito visitadas e comentadas pelas pessoas que aportam ao acaso por aqui.

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É curioso. Nessa semana meu pai comprou o livro Deus, um delírio, best-seller escrito pelo ateu Richard Dawkins, famoso pelos seus ataques impiedosos às instituições religiosas em geral. E, embora eu esteja pensando muito sobre o debate eterno entre ateus e religiosos fanáticos (e sobre a importância da religião nas diversas áreas do ser humano), hoje tive vontade de escrever sobre outra coisa totalmente diferente. Algo que me chamou a atenção durante a leitura do livro Os devaneios do caminhante solitário, de Jean-Jacques Rousseau. É uma coisa que não tem nada a ver com religião ou com a falta dela, a propósito.

Quem já leu mais de um livro científico escrito no século XVIII pode ter percebido uma coisa curiosa (e interessantíssima) que eu só percebi muito recentemente, através da leitura da já mencionada obra de Rousseau. De maneira sucinta, é isto: naquela época os cientistas misturavam arte e ciência em seus escritos de uma forma tão maciça que se torna impossível dissociá-las. A pessoa que já leu as primeiras partes de O discurso do método, de Descartes, por exemplo, entende o que eu estou querendo dizer. Ou mesmo quem já leu algum manuscrito publicado por Isaac Newton.


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Frontispício de uma obra de Descartes


O que esses livros científicos dos séculos passados têm em comum? Simples: são tratados que dissecam a natureza, mas tratam, fundamentalmente, da relação pessoal entre o Homem e a Natureza. Qualquer leitura cuidadosa desses textos revela isso de modo evidente, e essa característica foi algo que se perdeu no seio da tradição científica. Hoje, qualquer estudo que seja dotado de um valor humano mais profundo e pessoal é considerado de pouco valor científico, porque não atende às exigências de impessoalidade promovidas pelo positivismo de tempos idos.

Para se ter uma idéia, os discursos de Descartes e Newton (por exemplo) não se referem a discursos científicos, mas, antes, a tratados filosóficos. O que as pessoas hoje entendem por ciências exatas era, naquele tempo, cunhado por "meditações", "devaneios" e outras palavras que sugerem pensamento reflexivo emocional, e não meramente racional. O que Rousseau mais fez em seus escritos políticos foi desnudar a condição humana a partir do seu ponto de vista, que ele não cansava de frisar. Descartes, hoje tido como um dos ilustres senhores do pensamento analítico, escreveu no início da Quarta Parte de seu Discurso do método a mais bela tentativa de se livrar dos preconceitos que invadiam sua mente.

Esses autores, diferentemente do que o senso-comum hoje imagina, não se limitavam apenas a elucubrações lógicas e deduções analíticas baseadas em números. Eles tinham um profundo interesse em relacionar seus estudos com a sua visão pessoal de mundo, partindo para o lado emocional mesmo. Basta lembrar que, com sua premissa de dividir o pensamento racional no maior número de partes possíveis, Descartes provou a existência de Deus, que era uma grande paixão sua.


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Um dos primeiros exemplares de Principia, de Newton. Observe o caráter ambivalente da obra trazido no título.


Os estudos científicos daquela época se confundiam mesmo com poesia. Deve ser por isso que sinto um prazer especial em lê-los. Muitos parágrafos dos escritos de Newton ou Rousseau são capazes de fazer inveja aos mais prolíficos romancistas e poetas. Na época em que esses autores vingaram, havia um certo deleite em mostrar o lado artístico da Ciência. Hoje, em prol de um saber mais neutro e definitivo, isso foi posto de lado. Algumas universidades chegaram ao ponto de desencorajar os pesquisadores a utilizarem os verbos em primeira pessoa, tornando as coisas o mais impessoal possível. Não que isso seja algo condenável. Mas é preciso saber alargar os conceitos de Ciência e abrir as possibilidades para estudos que necessitam de um embasamento mais pessoal.

Citei Descartes, Newton e Rousseau por serem os expoentes máximos disso que eu chamo de ciência poética. Se você nunca leu nada desses autores, sugiro que vá atrás de uma obra de pelo menos um deles. Você vai se surpreender ao enxergar não somente deduções analíticas e suposições baseadas na lógica, mas o mais puro pensamento meditativo e filosófico – coisa de que sinto falta nos escritos científicos de hoje.


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A associação da imagem destes pensadores com os números faz supor que eles se preocupavam apenas com a Lógica.


A seguir, para finalizar, deixo com vocês alguns trechos extraídos de O discurso do método, de René Descartes. São trechos bonitos que poderiam figurar em qualquer livro nas estantes de literatura.

"(...) a diversidade de nossas opiniões não se origina do fato de serem alguns mais racionais que outros, mas apenas de dirigirmos nossos pensamentos por caminhos diferentes e não considerarmos as mesmas coisas. Pois é insuficiente ter o espírito bom, o mais importante é aplicá-lo bem. As maiores almas são capazes dos maiores vícios, como também das maiores virtudes, e os que só andam muito devagar podem avançar bem mais, se continuarem sempre pelo caminho reto, do que aqueles que correm e dele se afastam." (p. 1)

" (…) percebi que, ao mesmo tempo que eu queria pensar que tudo era falso, fazia-se necessário que eu, que pensava, fosse alguma coisa. E, ao notar que esta verdade "penso, logo existo" era tão sólida e tão correta que as mais extravagantes suposições dos céticos não seriam capazes de lhe causar abalo, julguei que podia considerá-la, sem escrúpulo algum, o primeiro princípio da filosofia que eu procurava." (p. 12)

"Ademais, não pretendo falar aqui a respeito dos progressos que no futuro espero fazer nas ciências, nem me comprometer em relação ao público com qualquer promessa que eu não esteja seguro de cumprir: mas direi unicamente que decidi não empregar o tempo de vida que me resta em outra coisa que não seja tentar adquirir algum conhecimento da natureza, que seja de tal ordem que dele se possam extrair normas mais seguras do que as adotadas até agora." (p. 27)

11 setembro 2011

11 de Setembro de 2001, 8:46 a.m.

Quem viu ao vivo, não esquece. O World Trade Center é a veia aberta dos Estados Unidos.

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Ontem, no dia 10 de setembro, meu irmão completou 29 anos de idade. Há dez anos, portanto, acontecia exatamente a mesma coisa: minha pequena família comemorava o aniversário dele. Era 10 de setembro de 2001, estávamos em uma segunda-feira agitada, alguns tios vinham nos visitar de hora em hora, e lembro que ganhei o direito de não ir para o colégio nesse dia.

No fundo, era um 10 de setembro como qualquer outro que havia existido até então. Como criança, eu gostava dessa data porque era o dia em que, por hábito, mamãe fazia bolo de chocolate e deixava eu comer quantos brigadeiros quisesse. O meu vizinho (criança, como eu) passava lá em casa também, e geralmente ficávamos eu, ele e meu irmão jogando Ludo ou baralho. 10 de setembro era, no frigir dos ovos, um dia que trazia uma animação à qual eu estava habituado. Um dia comum, em vários os aspectos, tirando o fato de que meu irmão sempre ficava mais velho e eu tinha carta branca para comer doces e faltar aula.

O aniversário do meu irmão naquele ano seguiu, portanto, sua rotina de praxe. Mas do dia seguinte eu nunca irei esquecer, naturalmente, assim como bilhões de outras pessoas ao redor do mundo também não. Afinal, ninguém tinha idéia do que aconteceria na terça-feira daquela semana.



Lembro que eu me levantei da cama de manhã cedo, tomei um café com pão e fui ligar a TV do meu quarto para jogar video-game. Como eu estudava no colégio à tarde, tinha a manhã toda para me divertir, e jogar video-game era uma das prioridades na minha lista de coisas a fazer. Assim, fui a primeira pessoa em casa a entrar em contato com a notícia. Mas que criança de 9 anos entenderia a dimensão daquela catástrofe?

Quando a imagem da televisão se materializou por completo na minha frente, vi um prédio alto pegando fogo. Uma fumaça negra e densa subia violentamente para o céu e se espalhava sobre a cidade de Nova York. No canto inferior direito da tela, estava escrita a clássica expressão ao vivo. De início, não dava para saber com precisão do que se tratava: era um prédio pegando fogo no centro comercial de Nova York e, não sei por quê, esse fato pareceu banal para mim.

Mudei de canal e liguei meu Super Nintendo. Cinco minutos depois, minha mãe me chamava da sala, com uma urgência estranha e assustada na voz. "Olha", ela me disse, apontando para a televisão, enquanto eu ia esbugalhando os olhos e assistia à notícia que havia deixado passar há pouquíssimo tempo.


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Então meu pai e meu irmão se aproximaram também. Ficamos os quatro assistindo bestificados àquilo tudo, àquela tragédia bizarra que era assustadora nos menores detalhes: desde as sirenes de ambulância soando nas ruas de Manhattan até as pessoas caindo do World Trade Center, deliberadamente. Lembro que a cidade de Belém estava toda silenciosa naquela manhã, uma coisa que não era muito comum em um dia da semana; acho que estavam todos vendo televisão no mesmo momento e ninguém falava absolutamente nada.

Quando o segundo avião se chocou contra a Torre Sul, todas as pessoas tiveram a súbita certeza de que se tratava de um ataque terrorista. O engraçado é que, a meu modo, eu já tinha essa certeza antes mesmo disso acontecer. Na minha singela opinião de criança, um avião não poderia colidir por acidente com um prédio daquele tamanho; de propósito, alguém tinha direcionado ele para lá. Então, quando o segundo avião veio, só pude pensar: Eles querem destruir a outra torre também, é isso.


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11 de setembro de 2001 entrou para o conjunto de datas de que as pessoas nunca se esquecerão, principalmente aquelas que viveram o episódio e têm uma lembrança nítida dele, como eu. Faz parte do grupo de datas que você carrega durante toda sua vida na cabeça, como uma lembrança, geralmente acompanhada da frase "Quando aconteceu, eu estava fazendo tal coisa". Foi assim com a morte de Ayrton Senna, por exemplo. Foi assim com a morte da princesa Diana e do presidente Getúlio Vargas.

Depois dos atentados terroristas em Nova York eu percebi, com uma clareza maior que antes, o quanto o mundo é um lugar difícil para viver – o quanto ele pode ser perigoso e cruel, uma vez que nem todas as pessoas concordam umas com as outras. Seqüestrar vários aviões cheios de gente e lançá-los contra alvos em terra é uma ação que eu demorei muitos e muitos anos para entender e digerir – se é que de fato eu a digeri por completo. Ler sobre o Holocausto nos livros de História é uma coisa diferente de ver ao vivo várias pessoas se atirando de prédios em chamas, a centenas de metros do chão. Quando se vive o episódio, quando o vemos "com os próprios olhos", a coisa é diferente: marca uma informação na nossa consciência como que a ferro em brasa.


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A homenagem habitual feita às torres ao longo da década


Hoje o mundo inteiro está lembrando os acontecimentos do dia 11 de setembro de 2001. Uma década se passou desde então: uma década de guerra, sofrimento, medo e crueldade. Não é a melhor maneira de começar um século, sem dúvida. Se os dez primeiros anos do século 21 foram vividos dessa maneira, o que esperar dos próximos tempos? Depois de um período de guerras, sobrevém a paz? O que esperar? Mais guerras, mais desavenças? Até quando?

Escrevi esta crônica como uma espécie de referência a esse episódio que marcou tanto a vida de milhões de pessoas. Sempre me abalei com o 11 de Setembro. Até hoje, paro o que estiver fazendo para assistir a um vídeo sobre os atentados, ou ler uma notícia, ou o que quer que seja. Aliás, há algum tempo li um livro intitulado 102 minutos, escrito por Jim Dwyer e Kevin Flynn, que discorre sobre a luta pela sobrevivência dentro das torres do World Trade Center, no momento dos ataques. A resenha sobre o livro feita no blog pode ser acessada por aqui.


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O "Marco Zero" reconstruído: nova definição do panorama da cidade


Logo após os atentados terroristas, eu, na minha ingênua compreensão do mundo, num lampejo de certeza, percebi que aquele assunto não se esgotaria naquele dia. Nem mesmo naquela semana. Só não podia prever que duraria tanto tempo, a ponto de eu escrever, dez anos depois, um texto sobre o acontecimento no meu blog. Naquela época ninguém sabia sequer o que era um blog.

Ontem, através de alguns vídeos veiculados pela agência de notícias Reuters, fiquei sabendo que o prédio que substituirá as Torres Gêmeas já está perto de ser finalizado. A praça arborizada aos seus pés, que servirá de memorial para as vítimas, deve ser inaugurada no dia 12 deste mês. Pelas fotos que tive a oportunidade de ver, é um lugar bonito e triste ao mesmo tempo. Paira no ar uma mistura confusa de lamento, dor, saudade e patriotismo. De qualquer modo, como eu disse, é um lugar bonito, e é um local que não poderia deixar de existir. Aquela praça deixa clara, sobretudo, a idéia de que as pessoas de hoje pretendem transmitir o peso dessa tragédia às gerações futuras – com a esperança de que coisas semelhantes não se repitam, na melhor das hipóteses.

03 setembro 2011

A questão da tecnologia nas escolas

Tablets devem substituir livros? Será essa, de fato, a pergunta central?

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De uns tempos para cá – mais especificamente, desde que surgiram os e-books e os e-readers –, muitas pessoas passaram a discutir o futuro dos livros físicos. Há quem defenda a idéia de que brochuras impressas são coisa do passado e serão facilmente substituídas por arquivos eletrônicos, assim como há, também, quem pense que as mídias digitais jamais terão o poder de acabar com os livros palpáveis. É uma discussão longa e acalorada, na qual estão incluídos muitos especialistas e muitos "leigos" que gostam de dar um palpite de plantão (eu, por exemplo).

Como grande apreciador da literatura e de tudo o que faz referência a ela, eu acredito que a tela dura de um e-reader não substitui uma folha de papel maleável e bem impressa. Com as mãos em um objeto dessa natureza tecnológica, nunca vou conseguir me concentrar direito em um livro de Tolstói ou Henry David Thoreau, por exemplo. Essa rejeição pode ser explicada em termos de romantismo da minha parte, mas a literatura é feita exatamente deste estofo: romantismo. É uma questão de conforto de espírito. No meu caso, ler um livro em um e-reader é uma experiência muito inferior a ler um livro em uma edição impressa e bem feita, por vários motivos pessoais.

De qualquer modo, a idéia deste post não é discutir o futuro dos livros impressos de literatura. Quando eu estava indo para a universidade, um dia desses, me deparei com o seguinte outdoor promovido por uma escola particular de Fortaleza:


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A polêmica gerada a partir daí alcançou grandes proporções. Dizer que dentro de uma escola os alunos não utilizarão mais livros, e sim tablets, deixou muitas pessoas com a pulga atrás da orelha. Alguns responsáveis pela diretoria do Ari de Sá foram chamados para conceder entrevistas e esclarecer o que quiseram afirmar com a frase contida nesse outdoor, que, para mim, mais parece uma provocação do que uma tentativa de comunicar uma novidade.

Na verdade, existe uma certa corrida tecnológica entre os colégios particulares de Fortaleza – e acredito que em outras cidades do Brasil, também. A primeira a alardear a idéia dos tablets, aqui, foi a escola 7 de Setembro, mas ela restringiu seu uso apenas em laboratórios paradidáticos. Pouco tempo depois, o outdoor acima, da escola concorrente, foi lançado, ampliando a utilização dos tablets para a sala de aula. E agora uma terceira concorrente, a Christus, afirmou que suas lousas serão digitais e em 3D.

Na esteira dessa corrida, o público alavancou debates sobre a questão dos livros físicos e das mídias digitais. Ao lado da tentativa de parecer mais tecnológico que o concorrente, cada colégio apóia a idéia de que, se o avanço científico está aí, vamos utilizá-lo nas escolas também – vamos incorporar tablets e outros aparatos modernos nas salas de aula. É um pensamento aplicado e sistemático que não deve ser criticado, na minha opinião; do contrário, nossas escolas seriam antros conservadores atrasados e obsoletos.


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Existe toda uma questão de logística por trás dessa prática de incorporar tablets nas escolas. Todos nós sabemos que o peso da mochila de uma criança da sétima série (oitavo ano) é grande e muito prejudicial à sua saúde, dada a quantidade enorme de livros que ela tem que carregar todos os dias. Com um único objeto ali dentro, esse peso sem dúvida seria reduzido a mais da metade, se é que existiria. Por outro lado, as crianças passariam a ser um dos alvos mais procurados por assaltantes – mais do que já são, aliás. Uma série de fatores estão implicados nessa aventura de pôr os tablets nas costas dos alunos, e todos eles devem ser pensados com muita consideração.

De minha parte, penso no que eles podem ajudar – ou atrapalhar – no estudo dos alunos. Às vezes acho que o tablet é uma engenhoca tão curiosa e sedutora que poderia mesmo desviar com uma facilidade muito grande a atenção das crianças na hora das explicações. De outra maneira, a presença dos tablets poderia tornar mais atraente e acessível o conhecimento que antes era tão enfadonho nos livros.


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As pessoas ligadas de alguma maneira à área da educação estão discutindo todos esses detalhes, sem dúvida. Pelo menos é isso o que eu espero. Seria de uma inconseqüência muito grande projetar a implantação de tablets nas escolas sem antes analisar o impacto deles nesse campo. É uma idéia inovadora? Com certeza. E promissora, também. Mas, como quase tudo no mundo, é uma idéia que tem seus reveses. E os prós e os contras devem ser colocados todos numa balança, para que uma decisão arbitrária não prejudique o nosso sistema educacional – que, convenhamos, já tem seus problemas e não precisa de mais nenhum.

No fundo, não importa se os alunos estão estudando com tablets, livros ou papiros. O que importa é que eles estejam estudando de forma satisfatória e também o que está sendo ensinado a eles. Um plano de educação totalmente equivocado pode ser feito utilizando-se tablets ou computadores, enquanto um ensinamento consistente e construtivo pode ser repassado com a ajuda de livros físicos. Tablets e livros são apenas instrumentos, que podem ser utilizados de maneira correta ou incorreta, de acordo com a política dos colégios. É nessa política que nós, cidadãos, devemos estar de olho, e não na simples questão da implantação dos tablets.


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Além do mais, como pude conferir em outra discussão na internet, vale refletir sobre o que os colégios estão vendendo atualmente. Educação ou simples tecnologia? Não consigo dissociar essa corrida tecnológica entre os colégios de Fortaleza da frase que existe por trás: "Venha para o nosso colégio, possuímos mais tecnologia que o concorrente". No fundo, os projetos de ensino são os mesmos, que preparam o aluno não para a vida, mas para o vestibular – e, se possível, para o 1º lugar no ENEM. A educação anda perdendo espaço para a competição nos dias de hoje.

Por último, devo dizer que os livros físicos não devem ser mostrados como inferiores a qualquer tipo de aparelho moderno que seja. Essa é uma tendência que me preocupa quando vejo as propagandas de tablets nas escolas, principalmente no outdoor que coloquei lá em cima. O livro físico é uma ferramenta magnífica que tem inúmeras vantagens sobre os tablets, assim como os tablets têm certas vantagens sobre os livros. São ferramentas separadas; você pode optar pelos tablets, mas isso não significa que eles substituam os livros. Convém ter isso sempre em mente.

22 agosto 2011

Ônibus 174

Quando aconteceu, eu tinha apenas oito anos de idade. Naquela época, não me ligava em mais nada no mundo que não fosse meu video-game, minha bola de futebol (com a qual eu brincava com meus amigos de infância do condomínio), minha bicicleta e o filé na chapa que minha mãe fazia nas noites de sábado.

Na infância, o mundo das minhas prioridades era restrito. Nunca fui de ligar a TV para ver o que estava passando nos noticiários ou em qualquer outro tipo de programa que fosse. Mesmo hoje, não lembro de ninguém lá em casa comentando sobre o fato no dia em que ocorreu. Minha memória sempre foi péssima. Ou talvez meus pais e meu irmão não tivessem comentado nada mesmo de propósito, para não me deixar impressionado.

A verdade é que fui tomar conhecimento desse episódio apenas no ano passado ou retrasado, quando um professor da universidade comentou sobre ele para os alunos de Psicologia Social. Aliás, antes disso, se não me engano, um amigo meu já me falara sobre o famoso documentário dirigido por José Padilha (cujo título dá nome a esta postagem), produzido em meados de 2002. De uma maneira ou de outra, fiquei sabendo da história há pouco tempo.


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Documentário dirigido por José Padilha. Recomendado.


No Rio de Janeiro, no dia 12 de junho de 2000, por volta das duas e meia da tarde, o ônibus da linha 174 (Central-Gávea) parou para que um homem de 21 anos subisse. Estavam nas redondezas do bairro do Jardim Botânico, seu nome era Sandro do Nascimento e ele estava armado com um revólver.

Contam as crônicas que o rapaz não deu início ao seqüestro assim que subiu no ônibus. Ao que parece, a escolha do transporte foi totalmente aleatória, uma vez que o crime não era premeditado e deu-se por impulso. Segundo o que dizem as testemunhas, um dos passageiros do ônibus o viu com o revólver preso na cintura do calção, desceu na parada mais próxima e alertou um carro da polícia que estava passando pelo bairro. 

A viatura não hesitou em interditar a passagem do ônibus. Os policiais saíram do veículo e fizeram uma série de gestos para o motorista e os passageiros, o que provocou uma confusão generalizada. Começou aí. Sandro do Nascimento sacou o revólver enquanto as pessoas que podiam fugir saltavam pelas janelas e pela porta traseira. Depois de alguns segundos de gritaria e desespero coletivo, sobraram dentro dez indivíduos, fora o assaltante. Várias delas foram libertadas de imediato ou poucos momentos mais tarde, sendo que os reféns mais conhecidos desse trágico episódio são os que ficaram até o final do seqüestro: um grupo de 4 jovens mulheres.


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Mensagem escrita no vidro do ônibus, a mando do seqüestrador.


Não é a idéia central da postagem descrever detalhe por detalhe tudo o que aconteceu dentro do ônibus seqüestrado – até porque essa é uma tarefa bem difícil, já que não dá para ter uma noção nítida das coisas que aconteceram lá dentro, e que foram muitas, uma vez que o episódio durou mais de quatro horas. Dá para esboçar o básico: Sandro andando de um lado para o outro do ônibus, segurando a arma apontada para a cabeça de uma das quatro jovens (todas tiveram essa infeliz oportunidade), os policiais do lado de fora tentando dialogar com o criminoso, uma multidão irritada e curiosa nas proximidades, repórteres, todo mundo.

O final trágico todos conhecem: no início da noite, Geísa Gonçalves, uma das reféns, é levada para fora do ônibus, carregada pelo seqüestrador. Usando-a como escudo, Sandro se aproxima dos policiais que estão mais perto. Depois de alguns segundos de conversa, um soldado se aproxima furtivamente pelo lado do assaltante e, numa abordagem das mais desastradas do mundo, atira, acertando não o criminoso, mas a refém. Geísa tem  o queixo raspado pela bala, o que a faz cair no chão junto com o criminoso. A confusão que se seguiu é indescritível: a população, que assistia a tudo impassível, invade o cerco e tenta a todo custo pisotear Sandro, que, por sua vez, dispara três tiros nas costas de Geísa, matando-a.

Colocado da maneira que foi possível no camburão da viatura policial pelos soldados, Sandro foi morto por asfixia ali dentro. Enquanto isso, o carro da polícia seguia pelas ruas do Rio de Janeiro. E foi esse o desfecho que a população do Brasil inteiro assistiu ao vivo pela TV.


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Abordagem do policial: mal-sucedido que custou caro.


Logo após esse episódio, discussões acerca da culpa/inocência de Sandro foram levantadas no país inteiro. Pessoas diziam que ele fora absolutamente culpado por tudo o que aconteceu, enquanto outras, por sua vez, defendiam a inocência do assaltante, na medida em que viam que ele era fruto de um sistema doentio de exclusão social.

Me parece uma questão muito delicada e complexa para que eu exponha minha opinião assim, de repente. O que posso dizer é que, é verdade, Sandro foi vítima de uma sociedade que o menosprezou e lhe deu o pão amassado pelo diabo – sua mãe fora degolada à sua frente na infância, seus colegas de rua morreram na Chacina da Candelária, etc. Como diria uma das reféns em depoimento: "Isso não justifica seu ato no ônibus, mas ao menos induz". Quem é capaz de se colocar no lugar de Sandro, durante sua infância e adolescência, compreende um pouco o seu ato no ônibus como uma questão de revolta e vingança contra a sociedade que o massacrou no passado.

Por outro lado, isso não anula o fato de que Sandro teve a oportunidade de escolhas durante a sua vida. Adotado por uma mãe complacente e carente, o rapaz teve a oportunidade de ver que nem tudo estava perdido, e que um ambiente parecido com o familiar o aceitava de modo incondicional. Ele teve a opção de tirar desse ambiente acolhedor o ânimo e a força de vontade de que precisava para mudar de vida. Mesmo assim, Sandro optou pelo crime, pelo tráfico, pela delinqüência. E acabou por fazer o que fez naquele dia no Jardim Botânico, apontando um revólver para a cabeça de vários inocentes. E crime é crime, nem sempre deve ser justificado em termos de histórico de vida do criminoso.


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Todas as imagens desta postagem foram retiradas da internet.


Para finalizar (este post ficou maior do que eu esperava), vejo a questão da culpa nesse episódio inserida num contexto muito mais amplo e histórico. Sandro deve ser responsabilizado pelo que houve? Claro que sim; do contrário, estaríamos caindo em um discurso moralizante evasivo e tendencioso. Mas a culpa também deve ser do Estado, de um modo geral, que nada faz para inibir a existência de mais Sandros na nossa sociedade.

Verbas públicas destinadas à segurança e à educação são desviadas para o cofre de políticos que não precisam de dinheiro, enquanto a população sofre na pele as conseqüências desse ato mesquinho de roubo. O que deveria ser feito na tentativa de tirar todos os meninos de rua da condição em que vivem e colocá-los em escolas sérias não é feito, pelo simples fato de que a prioridade corresponde a determinados segmentos da população, principalmente os segmentos que possuem maior poder aquisitivo. Medidas paliativas, como colocar esses meninos de rua em creches promovidas por ONGs, é uma boa ação, mas – infelizmente – não resolve o problema como deveria ser resolvido. A raiz é mais funda.

O que nos resta é ter a consciência discriminativa de eleger políticos que contornem esse quadro tão negativo no nosso país. É preciso força de vontade, mais deles que nossa. Nós fazemos nossa parte, tentando encontrar quem faça a sua lá no Palácio do Planalto. É preciso evitar que pessoas como Geísa Gonçalves tenham suas vidas interrompidas – logo ela, uma promissora cidadã que, na condição de professora, apostava no futuro do Brasil.

08 agosto 2011

Facebook e Orkut

É meio difícil você não ter pelo menos um dos dois.

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Não sei bem por que este episódio ficou gravado de forma tão nítida na minha cabeça, mas a verdade é que me lembro dele como se fosse ontem: eu tinha uns 12 ou 13 anos de idade e estava deitado na cama do meu quarto, quando meu pai chegou do trabalho com uma revista semanal conhecida e a pôs sobre a mesa do hall. Levantei e, curioso, fui lá conferir. Na capa da revista havia uma série de estrelas amarelas estilizadas, acompanhadas de uma manchete enfática: Orkut – Como entender esse fenômeno?

Enquanto eu folheava a revista, tentando entender que fenômeno de nome estranho era esse, meu pai falava algo sobre o futuro das relações sociais. Sobre como as pessoas estavam, cada dia mais, se isolando fisicamente e se aproximando virtualmente – o que, em outras palavras, atendia pelo nome de globalização no século XXI. Utilizando como exemplo o Orkut, meu pai dizia que estávamos testemunhando uma nova era, a Era da Comunicação Virtual. Hoje vejo que ele estava certo, embora nem eu, nem ele próprio, nem minha mãe (que participava da conversa nesse dia) pudéssemos ter um vislumbre do que estava ainda pela frente.

Abri minha conta no Orkut pouco tempo depois. Comecei a participar desse grande fenômeno mundial um ou dois anos após ler a matéria da revista. Fui impulsionado, como sempre, pelos meus amigos mais próximos.  Uma de minhas amigas me disse "Não acredito que você não tem Orkut" e me chamou para participar da sua rede social; ainda na época (vale ressaltar) em que as pessoas tinham que ser convidadas por outras para entrar no Orkut.


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Sendo assim, peguei o Orkut desde o início. Ele ainda era azul e cor-de-rosa, as pessoas tinham porcentagens nos quesitos sexy, inteligente e confiável, você só podia postar doze fotos no único álbum disponível, depoimentos eram coisas sérias, as pessoas tinham que abrir o perfil alheio para responder os recados, a primeira letra do nome das comunidades era formada por silhuetas de bonequinhos… etc. Peguei o Orkut desde o início, mesmo.

Como todo mundo sabe, muita coisa mudou desde então. Para melhor, naturalmente. A interface do site ficou mais enxuta, mais organizada, apenas em tons de azul. Você pode postar quantas fotos quiser e ainda marcar seus amigos nelas. Aliás, você pode esconder seu álbum, se preferir. Conforme os usuários foram ficando mais exigentes, mais atualizações foram feitas no Orkut, e assim ele conseguiu prender um grande número de pessoas, a despeito das novas e atraentes redes sociais que despontavam na Web.

O Facebook certamente é o "rival" mais conhecido do Orkut. Enquanto este último contava com a esmagadora maioria de brasileiros na rede, aquele era bastante difundido nos Estados Unidos e na Europa, e fazia um tremendo sucesso por lá. Inevitavelmente, o Facebook conquistou os brasileiros também (coisa recente) e agora o site de relacionamentos criado pelo turco Orkut Buyokkokten está testemunhando uma sutil mas notável migração de usuários para a rede de Mark Zuckerberg.

Eu tenho as duas contas. E acho isso estranho.


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De uns tempos para cá, eu criticava muito o Facebook – tenho que admitir isso. Achava que mais uma rede social era apenas mais uma rede social, que as coisas mudavam apenas de aparência e de nome, mas a essência era basicamente a mesma – mandar recados para os amigos. Não é. Facebook e Orkut são tecnicamente bem diferentes um do outro; cada um tem suas vantagens e desvantagens.

Começou do mesmo jeito: amigos meus, impressionados pelo fato de eu não possuir uma conta no Facebook, insistiram para que eu abrisse uma. Depois de algum tempo, foi isso o que fiz de fato, mas com uma idéia inicial de reserva na cabeça: "sou apenas um observador, não vou interferir ativamente no site". No segundo dia eu já estava postando dezenas de coisas, tinha um perfil muitíssimo completo, havia curtido vários comentários, ingressado em eventos e participado de grupos.

O Facebook é uma mistura equilibrada de Twitter, MSN e Orkut. Pelo menos é assim que eu encaro o site. Em suma, você posta suas coisas no seu mural para quem quiser ver (com as devidas configurações de privacidade); qualquer pessoa autorizada por você pode comentar ou curtir suas postagens; você pode iniciar uma conversa em tempo real a partir desses comentários, com vários colegas interagindo ao mesmo tempo, o que dá a sensação de conversa de roda; você pode publicar vários materiais de seu interesse para as outras pessoas verem. E assim por diante.


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O Facebook é uma boa ferramenta, sim, não só para se divertir conversando com os amigos, mas também para otimizar grupos de estudo e/ou trabalho. É uma rede social cativante, sem dúvida. Tem grande mérito.

Mas ainda vou ficar com minha lendária conta no Orkut por dois motivos: lá eu possuo uma comunidade do filme O show de Truman, com mais de três mil pessoas, e posto regularmente nos diversos tópicos das muitas outras comunidades de que participo, alavancando discussões com os demais membros. Isso no Orkut é bem bacana, e é algo que não está presente no Facebook – pelo menos não na forma convencional.

Qualquer coisa eu passo a aceitar e utilizar hoje em dia. Menos Twitter: isso é meio sem sentido para mim, ainda. Aliás, totalmente sem sentido. Por que o sujeito vai se limitar a 140 caracteres por postagem? Para que ter um monte de gente seguindo o que você diz? Isso soa meio perigoso pra mim.

Mas vou fechar o bico. Vai que daqui a alguns meses eu abra uma conta no Twitter…

06 junho 2011

A tendência do uso de aspas em diálogos

Travessão ficará obsoleto?

Os leitores que gostam de se ater aos pequenos detalhes técnicos dos livros podem ter percebido que, desde o início deste ano, muitas editoras nacionais incorporaram o uso de aspas nos diálogos dos romances que publicam. Agradável ou desagradável, bonita ou feia, acredito que essa seja a tendência do atual mercado editorial brasileiro; daqui a uns dez anos, quem sabe, todos os livros nas livrarias do nosso país terão as aspas como pontuação principal em diálogos.

Por mais banal que o assunto possa parecer para algumas pessoas, ele é de extrema importância para mim, pelo menos. Espero que alguém me entenda.

Assim como muitos outros leitores que conheço, eu cresci folheando livros e vendo travessões nas falas dos personagens. Antes de tudo, achava enigmático e imponente aquele traço enorme que precedia a voz de um personagem. Aprendi nas escolas em que estudei que essa é a pontuação formalmente adequada para expressar a fala de uma pessoa em uma narrativa. Nas redações de português, quem colocasse aspas no lugar do travessão perderia ponto.

aspas

Os melhores livros que li na vida têm o travessão. Ou seja, os melhores diálogos que já tive a oportunidade de ler vieram com um travessão antes. Os romances esquisitos que eu costumava escrever quando criança usaram o travessão como recurso, e, inclusive, eu perdi algumas noites na época procurando aprender todas as regras que essa pontuação exigia.

Por essas e por outras coisas, não é de admirar que eu encare as aspas com um certo receio. Sempre gostei do travessão: acho-o mais expressivo, mais energético mesmo, mais adequado que as aspas.

Bem, quem já teve a oportunidade de folhear um livro importado, deve ter percebido que o uso de aspas é consensual no exterior. Todos os livros de fora são publicados com esse tipo de pontuação em diálogos, e, até ano passado (acredito eu), as editoras brasileiras traduziam essas aspas para travessões, que era a pontuação tradicional aqui. No entanto, hoje, os livros lançados estão sendo traduzidos para cá com as aspas intactas.

Lamento esse fato. Como eu disse, é provável que, daqui a alguns anos, a maioria ou a totalidade dos livros daqui estejam com as tais aspas. A editora Companhia das Letras, por exemplo, parece ter incorporado essa prática para valer: quase todos os romances lançados por ela (que não são poucos) já vêm com aspas para designar o diálogo entre os personagens. 

tipografia

Além da questão puramente estética, há também o forte fator expressivo da pontuação. Eu sempre achei que o uso de aspas deixa o romance mais silencioso, mais contido, mais fechado. Não sei quem concorda comigo, mas eu penso que as aspas dão a impressão de que aquela fala do personagem é uma reprodução. Algo como uma transcrição. Não sinto como se o personagem estivesse realmente dizendo qualquer coisa. Conseqüentemente, o texto não nos faz crer que a história esteja acontecendo agora – é mais como um relato de um evento que já ocorreu.

Por outro lado, o travessão deixa o diálogo mais vivo, mais direto, mais aberto. É como se o personagem realmente falasse, como se pudéssemos ouvir sua voz. Dá a impressão de que ele abre a boca sem a permissão do autor, de forma espontânea. E, assim, o romance deixa transparecer a idéia de que está acontecendo agora. Essa concepção sempre foi muito forte em mim.

Mas, com a nova tendência, o que os admiradores do travessão podem fazer? Dar de ombros. Reeducar os sentimentos. E, como a literatura é puro sentimento, acredito que essa seja uma tarefa importante.

30 maio 2011

Cinema: basear-se em alguma coisa

"Baseado na obra de Fulano de Tal" não significa que o filme será idêntico ao livro. Às vezes é bom ter isso em mente.

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Ontem fui ao cinema com um amigo meu de longa data. Fazia muito tempo que não nos víamos, e era hora de pôr a conversa em dia. Era hora, também, de sair e espairecer a mente, depois de tantos trabalhos exaustivos da faculdade.

Assistimos ao filme Os agentes do destino, com Matt Damon e Emily Blunt. Tirando o fato desagradável de chegar à sala com o filme já sendo exibido, posso dizer que adorei a história. Ela entrou para o grupo seleto de enredos que me fazem pensar nos personagens e na intriga principal muito tempo depois de os créditos finais já terem aparecido. Fiquei filosofando sobre diversas coisas, como livre-arbítrio e destino pré-estabelecido, que são os assuntos que regem o filme de um modo geral.

Mesmo assim, por mais tentador que seja, o objetivo principal deste post não é o de resenhar sobre a obra cinematográfica que vi ontem. A idéia é, antes de tudo, dar a minha opinião sobre uma frase muito importante que aparece no início de alguns filmes: Baseado na obra de Fulano. Embora muita gente preste atenção a essa frase, poucas são as pessoas que se preocupam realmente em aceitar o significado exato da palavra "baseado".

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Philip K. Dick

Os agentes do destino é baseado em um conto do escritor norte-americano Philip K. Dick, conhecido pela espécie de ficção-científica underground que produziu durante a sua vida. Nunca li nada desse autor, mas já assisti a uns dois ou três filmes cujo roteiro pega emprestado as idéias dele. Aquele filme esquisito com Keanu Reeves foi um. Como é mesmo o nome? O homem duplo. Alguém lembra?

Bem, tive a idéia deste post porque, lendo um site de críticas cinematográficas, vi que alguém comentou na resenha do filme Os agentes do destino algo do tipo: "Não gostei nem um pouco. Não tem absolutamente NADA a ver com o conto do K. Dick. Totalmente infiel. Parece outra história." Que eu saiba, o cara que escreveu esse comentário não está sozinho. Muitas pessoas não gostam de certos filmes porque eles simplesmente são infiéis à história original.

É aí que eu tento argumentar: pessoal, tais filmes são apenas baseados na história original. Não têm a pretensão de fazer uma cópia fiel do livro (ou do conto, enfim). Não têm o objetivo de retratar no cinema aquilo que já foi precisamente retratado no livro. O filme apenas se baseia no que a obra original propõe. Por mais que seja doloroso aceitar isso, nós, os fãs da história original, devemos encarar o fato de que as adaptações se baseiam em apenas alguns elementos da obra que lhe deu origem.

Vamos ao dicionário e aos significados da palavra:

Baseado:

1. assente em bases. Algo ou alguém fundamentado, inspirado em evento alheio. Que tem ou a que se deu fundamento.

2. cigarro de maconha.

Quando um filme se diz baseado em um conto ou livro, devemos sempre ter em mente que a intenção do filme é a de mostrar que buscou inspirações na história original – e não a de copiar ou transcrever para as telas a idéia na íntegra. Não faz muito sentido deixar de gostar de uma obra de cinema só porque ela não foi totalmente fiel àquilo que lhe deu origem. Mesmo assim, muitas pessoas gostam de usar esse argumento. "Não gostei. O filme estragou o livro."

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Cena do filme Os agentes do destino

Pelo menos para mim, fica muito mais interessante aceitar a idéia de que os roteiristas estão se inspirando na obra original para escrever o enredo do filme. Estão fazendo uma releitura, uma versão visual de duas horas. Se o filme vai ficar muito parecido ou muito diferente da história que lhe deu origem, pouco importa para mim. O que importa é que o filme traga elementos que me são familiares; e isso todos os filmes baseados em livros fazem.

Em Os agentes do destino, por exemplo, milhares de coisas foram alteradas do conto para o filme. Mas o filme conserva a idéia central, que diz respeito ao grupo de pessoas responsáveis por controlar o destino da humanidade. Isso ficou, e acredito que muitas outras referências tenham ficado também, embora boa parte da trama tenha sido invenção dos roteiristas. Mas é aí que reside a beleza do processo todo: no fato de que os artistas se inspiram entre si, buscam referências e inventam uma nova versão da obra, ampliando os horizontes.

Precisamos tomar cuidado ao criticar um filme usando o simples e errado argumento de que ele foi infiel à obra original. É melhor encarar as coisas de uma outra maneira: a versão cinematográfica é uma adaptação, uma nova perspectiva de analisar a história. Lógico que, se o filme for ruim de qualquer jeito, podemos criticá-lo; mas não se pode usar a falta de semelhança com o livro como argumento.

Com esse modo de encarar os filmes adaptados, podem ter certeza, a experiência de assisti-los fica muito mais agradável e interessante.

20 março 2011

Do mundo de Erico Verissimo

Na falta do que postar aqui, e para não deixar o blog passar duas semanas sem atualizações, copio na íntegra um depoimento que prestei a uma amiga minha, no período em que ela estava fazendo um trabalho de mestrado sobre escolas públicas e Erico Verissimo.

Convidado a falar (ou melhor, escrever) tudo o que viesse à cabeça sobre o meu "primeiro contato" com esse escritor gaúcho, eu pus no papel as primeiras impressões que tive quando me deparei com seus livros, bem como o contexto no qual eu estava inserido quando li boa parte de sua obra.


O escritor em momentos de criação, em seu escritório. Foto: Leonid Streliaev


Para quem interessar, aí vai:

"Conheci Erico Verissimo numa época árida da minha vida afetiva e, talvez por isso mesmo, eu o tenho agora como escritor favorito de todos os tempos – aquele que me acompanhou na hora em que mais precisei de companhia. Lembro como se fosse ontem: eu passeava pelos corredores da minha livraria predileta quando entrevi, solto em uma prateleira de literatura nacional, o clássico Olhai os lírios do campo, na edição que a Companhia das Letras lançou em homenagem ao centenário do autor.

Nesse tempo, eu andava profundamente desolado pelo término de um namoro. Mergulhar na literatura foi o ópio e o remédio que eu encontrei não somente para afogar as mágoas de uma relação não-resolvida, mas para também viajar sem sair de cima da minha cama ou, por extensão, da minha poltrona, coisa que sempre gostei de fazer. Em tese, eu era capaz de ler qualquer coisa em qualquer estado de espírito, e se o estado de espírito fosse pior, tanto melhor era. Para grandes enfermidades, somente grandes soluções – os livros.

Quando adentrei no mundo de Eugênio, Eunice e Olívia – protagonistas da obra-prima de Erico – fiquei perplexo diante da veracidade do que estava escrito ali. Lembro bem disto: fiquei abismado, porque nunca havia visto um livro com tantas verdades escritas no mesmo lugar. Foi uma pura e total identificação de pensamentos, meus e os do Erico. Quanto mais lia Olhai os lírios do campo, mais forte ia ficando a sensação de que era o livro que me lia, e não o contrário.

O escritor em momento de descanso em seu escritório. Foto: Leonid Streliaev

Percebi como eram pequenos os meus problemas diante do mundo, e também que esses problemas faziam parte do mundo, do mundo gigantesco e complexo das incompreensões humanas. O problema não-resolvido que eu tinha com a minha ex-namorada era somente uma parcela diminuta desse mundo, uma parte que, aos poucos, começou a diminuir até ficar esquecida. Todos os dilemas de Eugênio, todas as reflexões humanísticas de Olívia, tudo, tudo era assimilado por mim como se fizesse parte natural do mundo; como se as frases do livro fossem axiomas, e não apenas frases.

Li os romances de Erico Verissimo em rápida sucessão, e, quanto mais lia os livros desse escritor gaúcho, mais gostava dele – não só como excelente autor de novelas, mas também como a pessoa modesta e exemplar que ele era. Então fiquei totalmente fascinado pelas suas obras. Nunca vi noutro lugar uma gama de sensações humanas tão bem retratada como em Um lugar ao sol, por exemplo. Li o Ciclo dos Romances Urbanos fora de ordem e de maneira esparsa, mas, ainda assim, eu acho que essa foi a mais bela trilogia urbana escrita na literatura mundial. Engraçado: sempre que falo de Erico, o faço em escala mundial, porque para mim ele é medido em termos globais, e não meramente nacionais, tampouco regionais, como ele gostava de fazer referência a si próprio: “Sou o melhor escritor da minha rua”, dizia, sem falsa modéstia.

Curioso: lembro também que, depois de terminar a leitura de todos os seus livros – ou, pelo menos, da grande maioria deles – eu fiquei com raiva do escritor. Fiquei aborrecido porque julgava, então, que eu jamais encontraria outro autor de cujos livros gostasse tanto.

Erico pousando para as lentes de Leonid Streliaev

Em suma, foi devorando os romances desse grandessíssimo escritor que conheci uma outra faceta da vida – a face maior, pode-se dizer, a mais pungente – que é o lado pitoresco e ao mesmo tempo ofensivo do cotidiano. A realidade nua e crua (se bem que Erico tem a habilidade de diluir tudo numa linguagem floreada) saiu das páginas dos seus livros e como que caiu aos meus pés. A hipocrisia veio à tona. A falha no plano das relações humanas. O abismo social. O ritmo frenético de atividades do dia-a-dia que suplanta o amor entre os seres…

De tudo isso eu já tinha conhecimento, naturalmente, mas foi somente ao vê-lo refletido nas obras do autor que eu pude enfim perceber o poder da literatura – e, em particular, o poder da literatura nacional."

08 novembro 2010

A estreita visão da realidade

Uma crítica ao edital da revista Superinteressante

Eu já disse isto em algumas postagens anteriores, mas acho que é sempre conveniente repetir: o blog Gato Branco em Fuligem de Carvão não se propõe a meter o bedelho em questões da vida pública, porque, embora muitos fatos sociais que rolam pelo mundo afora sejam dignos de nota, o único e primordial objetivo deste espaço é resenhar sobre literatura, música e cinema…

Bem. Acontece que, vez por outra, eu me deparo com uma coisa que não consigo deixar passar em branco. Essa "coisa" geralmente se resume a uma notícia ou a um artigo qualquer que outra pessoa escreveu em algum outro lugar. E, como só tenho este blog para publicar as esquisitas idéias que passam pela minha cabeça, minhas opiniões inevitavelmente vêm parar aqui. Só espero que um dia eu não seja perseguido por causa delas.

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Sem mais rodeios, foi hoje que folheei a revista mensal Superinteressante (edição 284, novembro/2010) e me vi lendo o editorial escrito por Sérgio Gwercman. A leitura estava correndo muito bem até surgir, logo no começo, a seguinte idéia fundamentalista que me deixou com a pulga atrás da orelha: "Faça do desenvolvimento de um exército brasileiro de nerds prioridade". Isso é um pedido ao presidente da República, o autor deixa claro.

Segundo o texto, precisamos de milhões de sujeitos-crânio que amam números e tudo mais que pode ser quantificado. Porque, segundo o autor do editorial, é desses sujeitos que o Brasil precisa para se tornar o que "todos nós" queremos: um país industrializado, carnívoro, frenético. Mas… quem disse que isso é sinônimo de qualidade de vida? Não é todo mundo que quer um crescimento econômico não-diferenciado.

Na verdade, o que matou o texto de Gwercman foi a idéia de que as ciências humanas devem, atualmente, estar em segundo plano, e a importância maior deve ser dada às exatas. Isso não é dito explicitamente no texto, mas a insinuação geral é perceptível de longe. Muitas pessoas não entendem que o problema no nosso país deixou de ser técnico há muito tempo: é agora mil vezes mais social e político.

Se um país constrói dezenas de indústrias novas por mês, a população sem privilégios continua em péssimas condições e dependendo de programas assistencialistas (viciosos) como o Bolsa Família. Se a nação constrói prédios e instituições mais modernos, muitas pessoas continuam sem ter onde morar, se o sistema reducionista dessas instituições persistir. E esses problemas não são resolvidos com crescimento econômico; pelo contrário, são aprofundados. Então, é com "um exército de nerds" que resolvemos esses problemas? Não somente.

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Não estou aqui para defender nem criticar ninguém – longe disso. Acho que tanto as áreas de ciências humanas quanto as de exatas merecem o mesmo respeito e importância. Apenas tenho a impressão de que a preferência pelas ciências exatas mostrada nesse editorial da revista está, de um modo geral, muito fanática, como se as elegesse a mais importante das áreas atualmente e afirmasse que as demais merecem menos atenção – incluindo, nessa crítica, o próprio jornalismo. Gwercman mesmo escreveu, em um tom sutil de lamento: "Mas a cada ano forma mais músicos que mecatrônicos, mais psicólogos que engenheiros elétricos". Absurdo.

Por fim, um trecho que me deixou realmente perplexo no editorial: "Há uma questão cultural a resolver: mais brasileiros gostam das ciências humanas do que de exatas". E o autor do texto completa dizendo que reverter essa situação é tarefa do presidente da República. No fundo, acho que foi essa frase que me impulsionou a escrever este post.

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Não sei… Eu estou atualmente vindo de uma instigante leitura de um livro de Fritjof Capra, O Ponto de Mutação, no qual a idéia da obsessão pelo crescimento econômico não é tão bem-vinda assim. Do que adianta, por exemplo, inúmeros engenheiros civis se formando se ainda temos uma grande parte da população mundial sem um teto para morar? Como eu disse, não são os engenheiros que vão resolver esse problema – é mais provável que os psicólogos e os assistentes sociais ajudem a resolvê-lo.

Aliás, alguém já pediu a opinião de um bom músico sobre esse assunto? Talvez ele tenha uma boa idéia também.

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Eu poderia continuar os argumentos falando de correntes yin e yang, crescimento não-diferenciado, visão ecológica e sistêmica, e várias outras coisas que pretendem frear a expansão econômica desenfreada, mas vou deixar isso para a resenha do livro do Capra – que deve sair aqui nas próximas semanas.

A tempo: mais "poesia" e menos ambição. E eu não tenho nada contra os nerds. Pelo contrário, as pessoas até me consideram um. Mas dizer que as ciências humanas merecem estar em segundo plano, atualmente, é demais para mim. Um diretor de redação precisa estar mais atento com o que escreve numa revista de circulação nacional.