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08 abril 2012

Filme: Xingu (2012)

Ontem pela tarde eu deixei os livros de literatura de lado e fui ao cinema conferir, junto com um amigo, a mais recente e comentada produção nacional, Xingu – dirigida pelo gabaritado Cao Hamburger, considerado pela crítica como um dos melhores diretores do país, apesar de sua por enquanto curta carreira.

Em linhas gerais, posso dizer que o filme resume os principais meandros da saga dos três irmãos Villas-Boas no coração da Floresta Amazônica, em sua inusitada missão de estabelecer contato com os povos indígenas espalhados naquela região. O que começa como uma simples "busca por aventura" (nas palavras do próprio Cláudio Villas-Boas) acaba se transformando em um verdadeiro compromisso humanista, já que os três irmãos passam a se identificar plenamente com as culturas indígenas e a buscar uma solução para a questão problemática que, naqueles tempos de expansionismo industrial, foi levantada: o que fazer com os índios brasileiros? Educá-los e torná-los civilizados, livrar-se deles como se sequer existissem ou preservá-los, com toda a sua bagagem cultural?

Os irmãos apostaram nesta última opção, e o filme, de um modo geral, retrata a luta que eles tomaram para si com o objetivo de garantir os direitos aos povos indígenas presentes no território do nosso país, o que culminou na criação do Parque Nacional do Xingu – cujos 50 anos de existência foram comemorados em 2011.

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De início, não há como se deixar enganar: o tom aventuresco do filme – que o próprio pôster claramente se encarrega de exibir – está presente em toda a obra, desde o início até o fim da narrativa. A idéia de uma expedição a lugares exóticos, o contato com civilizações diferentes e desconhecidas, a paixão pela exploração geográfica, os mapas sendo traçados na tela (a la Indiana Jones) e fantásticas tomadas de paisagens da floresta e dos rios dão a Xingu um elemento essencial que caracteriza o filme: o apelo à aventura. E é justamente esse apelo que fisga o telespectador, que o convida à história, que o faz mergulhar no mesmo universo fascinante que os irmãos mergulharam há meio século.

É precisamente nesse ponto que entra a sensibilidade dos produtores do filme. Porque, mesmo com esse elemento aventuresco tão saltado aos olhos do telespectador, o que verdadeiramente subjaz é a carga dramática, não só da missão humanista encabeçada pelos irmãos, mas do contato mesmo com as tribos indígenas que até então eram desconhecidas pelo homem branco. É quando se explora esse drama que o filme ganha força e consistência. A cena da primeira aproximação dos irmãos com os índios, por exemplo, é relevante não pelo caráter da aventura, mas pelo sentido que isso tem para nós, brasileiros; quando vi tal cena, a primeira coisa em que pensei foi "É tão estranho o fato de haver outras pessoas no nosso território que nós, ditos civilizados, consideramos inferiores, por uma mera questão de grau, não de essência".


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Cláudio Villas-Boas dividindo, junto com os índios, os territórios a serem ocupados pelas diferentes tribos no Parque Nacional


Sem soltar nenhum tipo de spoiler, eu gostaria de deixar aqui a minha impressão sobre a última cena do filme. Que cena! Na minha opinião, ela captura todo o cerne do choque entre as civilizações, todo o desentendimento humano que surge desse conflito, numa única tomada sem palavras ou diálogos… Apenas com um olhar que traduz toda a comunicação deficiente entre o homem branco e o indígena. Realmente é uma cena muito bem feita. Quem já assistiu sabe do que estou falando.

Em suma, me alegra muito saber que o cinema nacional possui uma vertente que se preocupa não só com as boas idéias, mas também com a qualidade da produção dos filmes. Xingu é um exemplo dessa vertente. Com uma trilha sonora impecável, roteiro consistente, história relevante, fotografia excelente e atuações marcantes – com destaque para Maiarim Kaiabi, um indígena que dá shows de interpretação –, o filme dirigido por Hamburger dá esperança mesmo aos que mais desacreditavam do cinema nacional, como eu.

É isso, Brasil. Mostre os bons filmes que você sabe fazer.


A seguir, o trailer do filme.

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18 março 2012

A questão do desestímulo à literatura nas escolas

Toda semana da minha vida parece conter em si um episódio que me faz pensar muito sobre como as coisas andam na nossa sociedade. Geralmente são acontecimentos simples, até meio bestas, irrisórios, mas que conseguem me lançar em uma verdadeira consideração sobre alguns aspectos cotidianos. Às vezes estou até distraído; mas quando esses eventos ocorrem, não consigo mais pensar em outra coisa senão no que eles despertaram em mim.

Ontem de manhã, participei de uma aula sobre pesquisa em banco de dados virtual na universidade. Essa é uma aula que, dentre outras coisas, nos ensina a acessar e usar os bancos de informação existentes no meio acadêmico relacionado às mais diversas áreas. Alguns domínios, como o Academic Search Elite, por exemplo, permitem ao aluno da universidade acessar artigos e livros científicos internacionais, publicados em várias revistas e periódicos de outros países. Aquele que domina a língua inglesa tem, praticamente, um mundo de conhecimento à sua frente.


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Quem tem medo de literatura clássica?


Mais ou menos no final da aula, a instrutora (uma jovem e inteligente bibliotecária) admitiu que, como ainda tínhamos algum tempo livre, queria nos mostrar "uma coisa interessante". Acessando o domínio do Portal da Pesquisa, ela começou a listar na nossa frente dezenas de títulos nacionais do campo da literatura clássica: "E isso aqui", ela disse, rolando a tela do computador em que aparecia uma miríade de links, "isso aqui nos permite ter acesso a grandes obras nacionais, aquelas que vocês leram no Ensino Médio, como Iracema, Dom Casmurro e O cortiço". Vi nomes como Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e João do Rio.

Atrás de mim, uma menina resmungou: "Argh!"

Não tive como deixar de pensar que isso resume como a maioria das nossas escolas, ao invés de incentivarem o gosto pela leitura nacional consagrada, só tornam as coisas mais difíceis. Entendo que, quando os tempos mudam, mudam-se os gostos, e é no mínimo ingenuidade querer que os jovens de hoje apreciem e se deleitem com livros que foram escritos há um século, obras românticas que possuem linguagem arrastada, floreada e de difícil compreensão. Não é a idéia certa querer que louvem Machado de Assis ou José de Alencar. Não.

O problema é que nossos colégios de Ensino Médio (ou a maioria, devo frisar, para não cair em generalizações) não estimulam da maneira como deveriam a leitura e, principalmente, o respeito pelos clássicos brasileiros. Eu mesmo vim de um colégio do Ensino Médio cuja única preocupação era resumir as obras em estudos dirigidos e em simulados que sempre castravam nove décimos do valor artístico do livro. Pelo que soube mais tarde, através de colegas que estudaram em outras instituições, a realidade é a mesma nas mais diversas escolas do Brasil: transforma-se grande obras nacionais em apostilas de estudo, que você não deve ler por prazer, mas decorando cada capítulo como se fosse uma questão de vestibular em potencial.


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Edição de Iracema e O cortiço: por que tanta aversão por parte dos jovens?


Como eu disse, a relação dos jovens com os clássicos deve estar para além do gosto pessoal. É o que eu acho. Não penso que os adolescentes brasileiros do século XXI devam idolatrar Castro Alves, por exemplo, ou Visconde de Taunay. Mas eles devem, sim, entender a importância desses autores para a construção da nossa literatura – e da nossa identidade, conseqüentemente. E o respeito aos grandes clássicos é o mínimo que devemos exigir.

O que acontece é que a maioria dos professores não explica a importância do livro, seu contexto histórico, quando foi escrito, por quem foi escrito e, principalmente, com que finalidade foi escrito. A única coisa que dizem é: "Leia e estude, porque isso é questão de vestibular". Às vezes, destilam a biografia do autor de maneira sistemática e seca, transformando-a em dados a memorizar. Não há uma pessoa sequer que se sinta à vontade com isso. Por que reclamar dos jovens, se são as escolas que criam essa lógica, na maioria das vezes?

Aí aparece um suposto entendido do assunto e coloca uma pergunta na avaliação do tipo: "O que Machado de Assis quis dizer com 'olhos de cigana oblíqua e dissimulada'"? A resposta certa, aquela que deveria ser estimulada, é: nada que possa ser resumido em um item de questão objetiva. Mas quem vai se atrever a educar nossos alunos a partir desse princípio?

11 março 2012

O Brasil dos absurdos: a polêmica do Ecad

Depois de terem sido recentemente abalados pelos projetos de lei internacionais do SOPA e do ACTA – que visam censurar meios diversos de compartilhamento de arquivos na web e, inclusive, foram os responsáveis pelo fechamento de alguns sites hospedeiros como o Megaupload –, a Internet e o seu princípio de democracia sofreram mais um ataque legislativo esdrúxulo e sem fundamento. Dessa vez, estamos falando do âmbito do Brasil – o país das pessoas que, pelo visto, tentam ganhar dinheiro de todas as formas possíveis, mesmo que para isso atropelem o bom-senso e cheguem a apelar para uma legislação suspeita.

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No dia 7 de março de 2012, o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) enviou uma cobrança de nada menos que R$ 352,59 para o proprietário do blog de design Caligraffiti, cobrança esta que seria apenas o início de uma taxa mensal do mesmo valor, caso os responsáveis pelo site continuassem a compartilhar vídeos do YouTube e do Vimeo. Naturalmente, o dono do blog argumentou que aquela idéia feria o princípio do trânsito livre de arquivos na Rede, mas o Escritório revidou com o seguinte argumento:

"O direito de execução pública no modo digital se dá através do conceito de transmissão presente no art. 5º inciso II da Lei 9.610/98, em que transmissão ou emissão é a difusão de sons ou imagens, por meio de ondas radioelétricas; sinais de satélite; fio, cabo ou outro condutor; meios ópticos ou qualquer outro processo eletromagnético. Portanto, isso inclui a internet".

Em outras palavras, poderiam dizer que, se o YouTube paga uma taxa pelo fato de permitir o compartilhamento de vídeos na Internet (atuando como transmissor de obras com direitos autorais), os blogs particulares, que divulgam esse mesmo conteúdo, deveriam pagar também. Mensalmente, uma quantia extorsiva de 350 reais. Na visão do Ecad, os blogs atuam como retransmissores, e os vídeos que são divulgados por eles contam como uma nova execução.

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Não demorou muito para que o caso repercutisse na mídia internacional. A revista de finanças Forbes, por exemplo, definiu a legislação brasileira como "absurda" e "extravagante", aplicando leis obsoletas que não se adequam mais aos tempos modernos. Para tornar a situação mais irritante ainda, sabe-se que o Ecad é um órgão privado e que, como todo órgão dessa natureza, almeja o lucro. É impensável que um órgão privado tenha sido eleito o responsável pela fiscalização do compartilhamento de obras com direitos autorais no Brasil.

Para quem ainda não está convencido de que o Ecad abusa da legislação e a interpreta de uma maneira totalmente favorável a ele, basta citar dois casos para lá de ridículos. No primeiro, um casal de jovens do Rio de Janeiro foi notificado por executar músicas em sua cerimônia de casamento. No segundo, uma rede de hotéis do Rio Grande do Sul foi intimada a pagar uma multa porque os hóspedes estavam ouvindo música dentro de seus quartos (!!!). Em ambos os casos, de acordo com a revista online Consultor Jurídico, os respectivos tribunais de justiça dos estados foram contra a decisão do Escritório. Felizmente.

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De qualquer modo, quanto ao caso dos vídeos compartilhados em blogs, o próprio Google Brasil já se pronunciou a respeito. Para a felicidade dos donos dos sites – e para alívio geral, na verdade – o Google diz que o Ecad não tem o direito de cobrar pelos vídeos que são transitados pelos blogs, pelo simples fato de que eles não estão sendo retransmitidos. O vídeo continua hospedado no YouTube, e o blog serve apenas como uma divulgação em potencial – mas quem continua reproduzindo é o YouTube, mesmo que essa reprodução se dê no domínio do blog. Cobrar os blogs por essas transmissões seria como cobrar alguém por estar escutando rádio em um volume alto: você está apenas compartilhando uma música que está no poder de uma emissora.

Mesmo que o problema esteja aparentemente resolvido com a colocação do Google, eu gostaria de finalizar essa crônica com uma observação extremamente pertinente do jornalista Ricardo Geromel, colaborador brasileiro na Forbes, que diz o seguinte:

"São necessários segundos para começar um blog usando o Wordpress ou o Tumblr. Embedar um vídeo em uma página é tão fácil quanto copiar e colar. Uma criança de 10 anos pode fazer isso tranqüilamente. Mas, no Brasil, blogueiros podem ter de pagar US$ 200 por mês por divulgar vídeos do YouTube em seus sites, mesmo que o YouTube do País já pague direitos autorais. E, de acordo com as absurdas leis de direitos autorais do Brasil, isso está surpreendentemente certo".

Portanto, nesse país onde as coisas absurdas são facilitadas pelas mais diversas instituições, é de bom tom tomar cuidado com o seu dinheiro. Porque há pessoas que estão de olho nele e farão de tudo para consegui-lo, mesmo que para isso tenham de se passar por ridículas.

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E aqui vai o vídeo de uma das minhas músicas preferidas, Alegria, Alegria, de Caetano Veloso. Tenham um bom dia!

Álbum: Caetano Veloso (1967)

12 fevereiro 2012

A infância do mago, de Hermann Hesse

"Por muito tempo vivi no paraíso, ainda que meus pais tenham me apresentado bem cedo à serpente."

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Entrei na livraria e lá estava ele, meio abandonado, entre uma edição enorme de um livro de gastronomia e um atlas colorido do corpo humano. Estava na pilha de livros que em breve seriam despachados para as suas respectivas estantes, de onde, cedo ou tarde (ou nunca), os clientes da loja os tirariam e os levariam para casa. Havia outros romances em meio àquele monte de livros aleatórios empilhados – inclusive romances de outros autores consagrados – mas foi A infância do mago (1922) que me chamou mais atenção.

Quem escreveu este conto singelo foi o alemão Hermann Hesse, bem conhecido da comunidade literária mundial, que o considera como um dos melhores autores de todos os tempos. Hesse recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1946, poucos meses depois de ser agraciado com outra prestigiada condecoração, o Prêmio Goethe.

Eu nunca havia lido nada do autor e, por pura curiosidade – que não deixa também de ter algo místico, pois senti como que uma força direcionando minha mão para resgatar o livro daquela pilha – sentei-me numa das poltronas da livraria e comecei a lê-lo. Terminei a leitura meia hora depois, com a sensação premente de que preciso conhecer mais desse escritor tão talentoso.


Sinopse: 'A infância do mago' conta, em poucas páginas, os primeiros passos de um garoto que nasce e cresce em meio a uma região bucólica, cercada por bosques e animais, onde convive com seu pai – inteligente e correto –, sua mãe – que esconde uma ponta de mistério – e seu avô – figura que encanta ao máximo o menino. O livro é, acima de tudo, uma ode à infância despreocupada e ingênua.


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Seguramente não é à toa que uma editora resolve publicar um único conto em formato de livro, com capa, introdução, posfácio e tudo o mais a que um grande romance tem direito. Em vez de pertencer a uma coletânea, a editora José Olympio decidiu que A infância do mago teria uma edição própria. É difícil encontrar um conto publicado isoladamente, por mais que o autor que o escreveu seja consagrado nos meios literários e tenha a graça da boa recepção do público. De qualquer forma, a edição do conto pertence a uma coleção intitulada Sabor Literário, cujas obras não ultrapassam as 200 páginas.

A verdade é que este conto de Hermann Hesse é apaixonante. O único ponto negativo é que ele não possui mais que 40 páginas, e quando o leitor está se familiarizando com o protagonista, com sua vida e o contexto que o rodeia, a história termina. A única coisa concreta que posso dizer é que a premissa de A infância do mago daria um ótimo romance, se fosse desenvolvida de acordo. Mas a idéia mesma do autor é apenas mostrar ao leitor um alento de vida, um flash da infância de um personagem aleatório (que tem muito do autor, diga-se de passagem) e o paradoxo de se tornar adulto aos poucos.

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A essência do conto gira justamente em torno dessa idéia: a agonia de se tornar adulto, desprender-se das fantasias da infância, ser forçado a aceitar uma realidade com a qual não se concorda. O protagonista, no início da história, narra a sua vida despreocupada de menino que vive em uma cidadezinha rural afastada da metrópole, com seus celeiros, seus bosques, seus rios e seus animais. Uma das belezas do conto está na riqueza dos detalhes da vida infantil do menino, com suas suposições, seus sonhos, suas aspirações e suas vivências. Experiências que são compartilhadas, se não universalmente, pelo menos por boa parte da população mundial.

Aos poucos, o garoto vai crescendo e deixando de lado as experiências infantis, até que adquire a consciência de que está de fato entrando na realidade – ou, como ele mesmo gosta de dizer, no mundo dos adultos, que antes lhe parecia ridículo. Eu diria que a segunda beleza do conto está nesse processo de amadurecimento, que põe lado a lado o mundo das crianças (com sua despreocupação aberta) e o mundo dos adultos (com suas regras "ridículas" e aborrecidas). As reflexões que partem daí são excelentes e, embora rápidas, deixam o leitor pensando no assunto por um bom tempo.

Se os livros no Brasil não fossem absurdamente caros, eu teria levado o volume para casa na mesma hora. Mas, realmente, não deu. De qualquer maneira, fica a dica para quem quer gastar alguns minutos lendo um dos melhores contos que tive a oportunidade de ler esse ano.

15 janeiro 2012

O espetáculo mais triste da Terra, de Mauro Ventura

"Naquele trágico domingo, Niterói era uma cidade doída e confusa." (p. 200)

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Nem uma febre e nem uma gripe das mais desagradáveis foram capazes de impedir que eu terminasse a leitura do livro O espetáculo mais triste da Terra – O incêndio do Gran Circo Norte-Americano (2011), escrito pelo jornalista carioca Mauro Ventura, filho do conhecido Zuenir Ventura. O resfriado consumiu todo o meu estoque de medicamentos, mas não conseguiu me deixar acamado a ponto de me separar da minha estante.

Ando me interessando bastante por obras de autores que lançam mão do chamado "jornalismo investigativo", gênero moderno provavelmente iniciado com Truman Capote, cuja linha principal mistura reportagem e veia crítica usando pinceladas de romance. Sem dúvida, é um gênero que possui um alto grau informativo e uma boa dose de entretenimento, a depender do autor em questão. Jon Krakauer, por exemplo, é um nome bem conceituado nessa área de não-ficção, e seus livros são tão empolgantes quanto críticos e socialmente engajados.

A leitura do livro de Ventura, excelente, me deixou a par de uma das piores tragédias brasileiras de todos os tempos.


Sinopse: Com base num minucioso trabalho de campo e de pesquisa, Mauro Ventura traz à tona um drama sem precedentes na história do Brasil: o incêndio no Gran Circo Norte-Americano, que tem entre seus heróis médicos, escoteiros, religiosos e até uma elefanta, que salvou dezenas de espectadores ao abrir um rasgo na lona. No dia 17 de dezembro de 1961 acontecia, em Niterói, a maior tragédia circense da história e o pior incêndio com vítimas do Brasil. Mais de 3 mil espectadores, a maioria crianças, lotavam a matinê do circo, anunciado como o mais famoso da América Latina, quando a trapezista Antonietta Stevanovich deu o alerta de fogo. Em menos de dez minutos, as chamas devoraram a lona, justamente no momento em que o principal hospital da região se encontrava fechado por falta de condições.


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Cartaz anunciando o espetáculo do Gran Circo Norte-americano em Niterói


"O que eu acho impressionante", diz meu pai, que nasceu uma década antes da tragédia, "é que eu nunca tenha ouvido falar desse episódio. Só fiquei sabendo dele na semana passada, por conta do lançamento desse livro. Como um acontecimento tão dramático e cruel pode ter passado em branco, justamente para mim, que vivia no Rio de Janeiro?". Justamente pelo fato de ter sido dramático e cruel, o incêndio do Gran Circo Norte-Americano foi relegado ao esquecimento voluntário pelo povo da própria cidade.

Para reconstruir a catástrofe de Niterói, Mauro Ventura entrevistou mais de uma centena de pessoas (entre testemunhas, médicos e vítimas) e se valeu de uma miríade de documentos, vídeos e artigos publicados no país sobre o assunto. O resultado dessa pesquisa meticulosa pode ser observado no seu livro: um panorama detalhista que conta dramas familiares particulares (muitas pessoas perderam a família inteira no incêndio), atos de heroísmo e as operações do governo para lidar com a situação (verbas disponibilizadas, pedidos de ajuda a países vizinhos e assim por diante).

De um modo geral, como o próprio Mauro Ventura gosta de dizer, O espetáculo mais triste da Terra se propõe a dar rosto à tragédia, na medida em que oferece ao leitor um mar de histórias das pessoas afetadas pelo incêndio. Enquanto eu estava lendo o livro, não raro me assombrava e me compadecia de certos episódios, de certos personagens que acabam nos tocando, de uma maneira ou de outra. É o caso de Lenir Queiroz, da chefe de escotismo Maria Pérola, da menina Maria José, e de muitos outros.


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O corredor da saída principal do circo, pelo qual centenas de pessoas tentaram passar ao mesmo tempo


A linguagem que Mauro Ventura utiliza para dar voz ao seu texto é a mesma de certas reportagens de revistas informativas. Isso não diminui o valor da obra, naturalmente. É uma narração corriqueira, ágil, sem deixar de lado a minúcia típica do jornalismo. Livre de excessos, Ventura destila os principais acontecimentos para o leitor, as principais informações e os personagens mais destacáveis. Se for para comparar o autor com Jon Krakauer (que é talvez o único que conheço do gênero), eu diria que Mauro Ventura é uma espécie de versão resumida do autor norte-americano, mas com qualidade semelhante. Enquanto Krakauer detalha demais os episódios que reconstrói, Mauro, no livro em questão, dá uma visão mais panorâmica do acontecimento, focando apenas as partes de maior importância.

O livro todo é excelente, e gostei particularmente dos capítulos que narram a crise no Hospital Antonio Pedro (o principal da cidade, que, desgraçadamente, encontrava-se em greve no dia do incidente), o gesto humanitário da escoteira Maria Pérola, as histórias de Marlene e Lenir e as investigações iniciadas depois da tragédia. Aliás, a causa do incêndio do Gran Circo Norte-americano continua um mistério até hoje, visto que há uma rede de informações desencontradas que ora apontam um culpado criminoso (Dequinha), ora apontam falhas no sistema de segurança da casa de espetáculo, e ora apontam fatores naturais. Nunca se chegou a uma conclusão racional baseada em provas, e se na época Dequinha e Bigode foram sentenciados à prisão, foi somente para dar uma satisfação imediata aos cidadãos de Niterói.


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Ao entardecer, bombeiros tentam apagar o fogo que devorou a lona do circo


Recomendo O espetáculo mais triste da Terra para quem quiser conhecer o mais trágico acidente circense da História e o pior incêndio brasileiro. Embora o livro apresente uma grande dose de detalhes assombrosos e trágicos, vale a pela a leitura, não por conta do apelo ao drama, mas pela carga de informação referente ao episódio. Um livro excelente, sem dúvida.

20 dezembro 2011

Vida roubada, de Jaycee Lee Dugard

"Amar é a parte fácil, difícil é viver sem o amor de que você precisa."

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Muitas vezes, a vida é palco de histórias que põem em cheque a afirmação de que a ficção é a única coisa capaz de nos surpreender e causar espanto. Não raro, episódios da realidade nos chocam e impressionam tanto quanto – ou até mesmo mais que – os enredos narrados nas ficções dos autores mais imaginativos. É aí que percebemos o quanto a vida pode ser pitoresca e dramática, em todos os sentidos, e não monótona e enfadonha, como gostamos de pintá-la freqüentemente.

Aconteceu de vir parar nas minhas mãos, por acaso, um livro intitulado Vida roubada (A stolen life, 2011), escrito pela norte-americana Jaycee Dugard. A capa simples da edição me despertou a curiosidade e resolvi ler o que estava escrito na orelha esquerda do volume. Embora não dê detalhes, a orelha é escrita pela própria autora, e de maneira muito objetiva ela expõe superficialmente o que ocorreu na sua infância. Na hora, pensei: este livro vai mexer comigo profundamente, tal como Os sobreviventes mexeu.

Li as memórias de Jaycee Dugard na própria livraria, em quatro dias. No começo, eu havia sentado para folhear aquelas páginas distraidamente e, quando dei por mim, estava passando da metade do livro. Não restava mais alternativa senão terminá-lo. Assim, todos os dias, ia quase religiosamente à livraria e lia mais um pedaço. Foi então que fiquei sabendo o que de fato aconteceu a Jaycee, com maiores detalhes, e não consegui mais largar a leitura.


Sinopse: Em 1991, aos 11 anos de idade, Jaycee Dugard foi raptada enquanto esperava o ônibus da escola. Pelos próximos 18 anos, sua vida se transformaria em um verdadeiro pesadelo. Abusada pelo homem que a seqüestrou, acabou se tornando mãe de duas crianças – e, de certa forma, também irmã, para tentar aplacar o imenso isolamento em que vivia. Encorajada a esquecer sua vida de antes do seqüestro, Jaycee não podia nem mesmo mencionar o seu nome. Este livro é o relato pessoal do que aconteceu durante as quase duas décadas em que a garota esteve mantida no cativeiro.


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Impressionante. Essa é a palavra que uso para qualificar este livro. Algumas passagens do texto soam tão irreais que parecem estar situadas no plano da ficção – mas não deixam de transmitir a sensação sólida de que são, sim, verídicas. Por exemplo, não é fácil assimilar a idéia de que uma garota de 11 anos de idade foi seqüestrada e resgatada somente 18 anos depois, aos 29: mas lá está o relato doloroso e conciso de Jaycee, que nos faz cair em si e pensar: "De fato, isso aconteceu".

Não é uma leitura fácil, tematicamente falando. É preciso estar com a cabeça em dia para, por exemplo, encarar os detalhes com que a autora narra os estupros a que ela mesma foi submetida ao longo de muitos anos. Em contrapartida, o que dá alívio ao leitor é a sensação de superação de Jaycee, pois através de seu livro é possível ver claramente que ela se enxerga acima de tudo o que relata. Esse distanciamento faz com que as páginas escritas não fiquem mais dolorosas do que já são por conta própria. Em muitas passagens (aliás, no livro inteiro) fica clara a vontade insistente da autora de superar esse trágico incidente que aconteceu na sua vida.


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Jaycee Dugard, antes e depois do seqüestro


A escrita de Jaycee Dugard é objetiva e concisa sem, no entanto, deixar de ser literária e até mesmo agradável. Às vezes parece que as pessoas que passam por suplícios assim são compensadas com o dom da escrita, para que então possam contar suas histórias inacreditáveis ao público. De qualquer modo, Jaycee narra suas memórias de cativeiro em um tom que não é nem um pouco afetado, mas que carrega consigo um toque qualquer de lirismo – para começar, boa parte do relato é contado no presente, como se fosse a garota que estivesse a narrar a história em tempo real. O resultado é uma escrita fluída e muito bem-vinda. Além disso, o texto é recheado de frases curtas e diretas (um detalhe que achei interessante).

Esse relato no presente é intercalado por trechos que a autora designou de Reflexões, em que, como o próprio nome sugere, Jaycee Dugard passa a limpo alguns pensamentos acerca daquilo que acabou de escrever. É um exercício bem interessante, que ficou extremamente atraente no seu livro de memórias, porque a autora passa a se valer de uma consciência que ela não tinha na época dos acontecimentos descritos.


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O seqüestrador Phillip Garrido e sua esposa, Nancy, cúmplice no crime


No começo do livro – principalmente nos momentos logo após o seqüestro – é fácil achar Phillip Garrido o maior cretino de todos, um ímpio e asqueroso ser humano. No entanto, esse é um julgamento que parte do próprio leitor, não da autora. Jaycee deixa transparecer um grande ressentimento para com Garrido, o que é perfeitamente lógico, mas não cai na armadilha de transformar seu relato em uma sucessão de trechos em que julga seu seqüestrador. Qualquer pessoa que saiba alguma coisa de psicologia é capaz de perceber quão doentia e congestionada estava a mente de Garrido. Esse estado precário de saúde mental do criminoso está longe de eximi-lo da culpa que teve, mas ao menos explica boa parte de seus atos.

Em suma, recomendo este livro, Vida roubada. É um relato profundo e emocionante sobre esse caso famoso que teve lugar nas manchetes do mundo inteiro em meados de 2009, quando Jaycee foi resgatada do cativeiro. E a obra é também, em última instância, um retrato de nossa sociedade abatida, que sempre gerou muitas tragédias no plano das relações humanas.


A quem estiver interessado, disponibilizo aqui a introdução e o primeiro capítulo do livro. Vale a pena conferir.


Vida roubada (2011)

Jaycee Dugard

304 páginas

Editora Best Seller

Nota: 10/10

06 dezembro 2011

Por uma boa arte de capa

Seria lugar-comum dizer que a capa de um livro é o seu cartão-de-visitas?

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Antes que eu comece a escrever qualquer coisa neste post, devo esclarecer algo importante: as capas dos livros da coleção de bolso da editora Saraiva (três exemplos acima) são, justamente, o alvo da crítica ambiciosa que eu tenho a fazer hoje. Estou logo afirmando isso porque, se alguém apenas ler o título da postagem e ver as capas que abrem o texto, podem pensar que eu estou elogiando a arte delas – quando, na realidade, minha intenção é contrária.

Curioso: sempre que eu venho criticar alguma coisa aqui no Blog, fica em mim uma desagradável sensação de estar bancando o exasperado, o "do contra", o mau-humorado. Não gosto desse sentimento porque ele não reflete a verdade. Quero, apenas como leitor e, antes, como pessoa, dar minha opinião sobre o universo literário. Esse é um exercício agradável e também importante, e acho que muitas pessoas deveriam praticá-lo, independentemente de estarem certas ou não.

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Quando a editora Saraiva anunciou que estava lançando uma coleção própria*, de bolso, cuja idéia era publicar autores clássicos e suas principais obras, vibrei, porque adoro esse tipo de iniciativa. Preços acessíveis e clássicos indispensáveis é uma das melhores combinações que um leitor pode imaginar, e uma editora que ousa entrar nesse território do empreendedorismo merece parabéns. Nesse caso específico, a primeira coisa que procurei foi um catálogo com os títulos já disponíveis (não sou grande fã de livros clássicos, mas, às vezes, alguns são bastante convenientes).

Porém, assim que vi os livros expostos nas prateleiras da loja, confesso que fiquei absolutamente surpreso e desapontado ao me deparar com a capa da obra A náusea, de Jean-Paul Sartre. Uma caricatura feia e, em suma, desagradável, desenhada sobre um pano de fundo azul. Um livro excelente e sério como esse não pode ter o desígnio infeliz de receber um tratamento tão leviano (admito, nesse ponto sou conservador). Não só na capa d'A náusea, mas em quase todos os outros títulos da coleção, fica uma idéia de sátira, de brincadeira, de infantilidade. Em uma coleção de clássicos, mesmo que de bolso, essa não é uma idéia muito boa. Sinceramente.


Alguns depoimentos de leitores a respeito das capas:

"Eu não gostei. A ilustração não é bonita, nem as cores apropriadas. Simples e mal feita."

"Quando eu penso em Jane Austen e tenho que traduzir isso visualmente, sempre penso em algo sofisticado, elegante e requintado. E estas capas não passam nem um pouco esse aspecto."

"De fato, caricaturas geralmente não me agradam. E pode ser legal pra uma tirinha e tal, mas na capa do livro não gostei. E as cores chamam a atenção, mas, no caso, na minha opinião, não para comprar."


Confesso que estamos em tempos modernos e que algumas coisas devem ser feitas à revelia, num processo de desconstrução dos modelos rígidos, mas existe um certo limite aí estabelecido pelo bom senso, principalmente no que se refere a livros. Não são todas as pessoas (ou todos os leitores, para ser mais específico) que gostam de caricaturas. Eu, pessoalmente, as acho muito desagradáveis de se ver por um longo tempo, e conheço muitas outras pessoas que compartilham disso. O fato de ser uma coleção de bolso, de baixo custo, não dá margem a um cuidado menor com os detalhes, tais como a arte da capa.

Não me entendam mal. Como eu disse antes, incentivo totalmente a idéia de publicarem clássicos da literatura mundial a preços acessíveis. Só acho que deveriam ter tido um palpite melhor para a confecção das capas. A editora Saraiva tem cacife para pensar em algo melhor e mais elaborado, sem dúvida. Acho ruim o fato de dois títulos da autora Jane Austen (Razão e sentimento e Orgulho e preconceito) virem com a mesma ilustração, por exemplo. Isso generaliza as obras e lhes dá um caráter superficial, de coisa distribuída sem pretensão.


Processo de criação das capas

Sei que essa é uma opinião muito específica e que nem todo mundo concorda comigo, mas, como sempre, estou usando este espaço aqui para fazer minhas próprias considerações. Na internet, principalmente em blogs, acho válido escrever o que se pensa e esperar que alguém inicie uma discussão saudável, apresentando o outro lado da moeda.

Sem entrar de modo algum no mérito das editoras envolvidas, deixo a seguir alguns exemplos de capas de livros de bolso que considero de muito bom gosto genérico. A propósito, muitas editoras já perceberam que a padronização das capas de coleções não é uma boa idéia, justamente porque cada obra necessita de um trato diferenciado que lhe dê características próprias.

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*Convém lembrar que, a princípio, o lançamento da coleção é fruto da parceria entre editora Saraiva e editora Nova Fronteira.

20 novembro 2011

Uma música, um estado de espírito; várias músicas, uma vida

Aceitaria de bom grado viver sem matéria, mas não sem música.

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Há quem diga que 90% do nosso gosto musical não é construído através das nossas experiências próprias, mas a partir das tendências que herdamos dos pais, tios, avós, e assim por diante. Como se recebêssemos uma espécie de carga cultural naturalmente transmitida por nossos parentes mais diretos, passamos a admirar as músicas e composições das quais aprendemos a gostar desde muito cedo. Se a tradição de uma família (seus costumes, seus rituais, sua filosofia de vida) é ensinada a uma criança desde a sua mais tenra idade, não há porque não incluir o gosto musical nessa bagagem de elementos perpassados pelas gerações.

Cresci ouvindo músicas clássicas de rock, principalmente as músicas que faziam sucesso nas décadas de 1960 e 1970, incluindo bandas como Dire Straits, Pink Floyd, Creedence Clearwater Revival, The Beatles, Simon & Garfunkel, Bob Dylan, Bee Gees, entre outros. Lembro muitíssimo bem dos finais-de-semana passados na casa da minha avó, para onde convergiam todos os meus tios e tias, que colocavam na vitrola músicas de pop rock para a animação geral. A música da qual me recordo com mais nitidez é Sultans of Swing, do Dire Straits, cuja melodia hoje me traz sentimentos nostálgicos do mais alto grau.


musica (2)


Esse repertório musical montou as bases do que hoje eu chamo de meu gosto por músicas. Aprofundei meus conhecimentos sobre as bandas que ouvia na infância/adolescência, chegando ao ponto de ser mais bem informado sobre elas que os próprios tios e tias que as apresentaram para mim. Enquanto meu pai ainda está na fase Dark Side of the Moon e The Wall, do Pink Floyd, eu já tive há séculos a curiosidade de conhecer toda a discografia da banda – e, nesse processo, encontrei músicas que correspondem a verdadeiros tesouros, como algumas que se encontram nos álbuns Meddle e Animals.

De um modo geral, acredito que as músicas – todas elas, sem distinção de gênero – sejam tão importantes para a vida de uma pessoa quanto o estudo ou a presença de amigos. Este meu pensamento sempre é mal-interpretado, mas apenas porque certas pessoas não compreendem que, quando falo de música, não me refiro a nenhuma específica, mas ao contexto musical, à cultura musical mais abrangente possível. Estou convicto de que alguém que não sabe apreciar músicas – conheço muitos indivíduos assim – não possui um controle estável sobre as próprias emoções. Saber admirar uma boa música, assim como saber admirar um bom quadro, ou um bom livro, está intimamente relacionado ao domínio que eu tenho no âmbito das emoções.


Ferrari


É bem interessante lembrar do valor terapêutico das músicas. Muitas pessoas enxergam apenas diversão e entretenimento onde há, também, "massagem espiritual": as músicas não fornecem contexto apenas para entreter as pessoas, mas, principalmente, para fazê-las ter um contato melhor com a realidade na qual estão inseridas. Nunca me esqueço do dia em que, melancólico pela reprovação em um vestibular, eu disse a uma amiga: "Quero chegar em casa e ouvir música", ao passo que ela retrucou: "Como você consegue?" Minha amiga não percebeu que eu de fato não tinha a menor intenção de me divertir, mas de relaxar, de tentar colocar as coisas de volta nos eixos – com música.

Acredito muito na idéia de que nossa vida é formada por aquilo que nós gostamos de ouvir. Digamos que boa parte da nossa vida só faz sentido quando ela é embalada pela "trilha sonora" que escolhemos ter. Afinal de contas, nosso gosto musical define uma grande fatia do arsenal com o qual nos confrontamos com a realidade. Música é refúgio, é apego à natureza, à arte, é fuga do cotidiano.

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Deixo a seguir o áudio de uma das músicas mais belas que já tive o prazer de ouvir, de um dos melhores álbuns de Mark Knopfler, um dos melhores músicos da atualidade. Knopfler foi o líder guitarrista do Dire Straits, conjunto de rock lendário nos anos 70/80, e começou a sua carreira solo algum tempo depois do término da existência da banda.

A música se chama Before gas and TV e está no álbum Get Lucky, lançado em meados de 2009. Este é um dos poucos discos que escuto do início ao fim sem pular uma única faixa.

Vida longa aos adoradores da arte musical!

Todos os direitos reservados

06 novembro 2011

Ciência e poesia, lado a lado

A verdadeira ciência é aquela que fala não do que os homens fazem da natureza, mas de como eles se relacionam com ela.

O ócio é uma coisa maravilhosa. Ultimamente venho pensando em algumas coisas que, sem dúvida, merecem postagens aqui no Gato Branco em Fuligem de Carvão. É fato que eu estou começando a achar interessante a idéia de usar este espaço não só para publicar minhas impressões sobre os livros que leio, mas, também, para expor o que eu penso sobre determinados assuntos de interesse público. A propósito, algumas postagens dessa natureza crítico-reflexiva foram extremamente bem recebidas pelos meus leitores, como é o caso de Ônibus 174, A tendência do uso de aspas em diálogos e A questão da tecnologia nas escolas, todas muito visitadas e comentadas pelas pessoas que aportam ao acaso por aqui.

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É curioso. Nessa semana meu pai comprou o livro Deus, um delírio, best-seller escrito pelo ateu Richard Dawkins, famoso pelos seus ataques impiedosos às instituições religiosas em geral. E, embora eu esteja pensando muito sobre o debate eterno entre ateus e religiosos fanáticos (e sobre a importância da religião nas diversas áreas do ser humano), hoje tive vontade de escrever sobre outra coisa totalmente diferente. Algo que me chamou a atenção durante a leitura do livro Os devaneios do caminhante solitário, de Jean-Jacques Rousseau. É uma coisa que não tem nada a ver com religião ou com a falta dela, a propósito.

Quem já leu mais de um livro científico escrito no século XVIII pode ter percebido uma coisa curiosa (e interessantíssima) que eu só percebi muito recentemente, através da leitura da já mencionada obra de Rousseau. De maneira sucinta, é isto: naquela época os cientistas misturavam arte e ciência em seus escritos de uma forma tão maciça que se torna impossível dissociá-las. A pessoa que já leu as primeiras partes de O discurso do método, de Descartes, por exemplo, entende o que eu estou querendo dizer. Ou mesmo quem já leu algum manuscrito publicado por Isaac Newton.


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Frontispício de uma obra de Descartes


O que esses livros científicos dos séculos passados têm em comum? Simples: são tratados que dissecam a natureza, mas tratam, fundamentalmente, da relação pessoal entre o Homem e a Natureza. Qualquer leitura cuidadosa desses textos revela isso de modo evidente, e essa característica foi algo que se perdeu no seio da tradição científica. Hoje, qualquer estudo que seja dotado de um valor humano mais profundo e pessoal é considerado de pouco valor científico, porque não atende às exigências de impessoalidade promovidas pelo positivismo de tempos idos.

Para se ter uma idéia, os discursos de Descartes e Newton (por exemplo) não se referem a discursos científicos, mas, antes, a tratados filosóficos. O que as pessoas hoje entendem por ciências exatas era, naquele tempo, cunhado por "meditações", "devaneios" e outras palavras que sugerem pensamento reflexivo emocional, e não meramente racional. O que Rousseau mais fez em seus escritos políticos foi desnudar a condição humana a partir do seu ponto de vista, que ele não cansava de frisar. Descartes, hoje tido como um dos ilustres senhores do pensamento analítico, escreveu no início da Quarta Parte de seu Discurso do método a mais bela tentativa de se livrar dos preconceitos que invadiam sua mente.

Esses autores, diferentemente do que o senso-comum hoje imagina, não se limitavam apenas a elucubrações lógicas e deduções analíticas baseadas em números. Eles tinham um profundo interesse em relacionar seus estudos com a sua visão pessoal de mundo, partindo para o lado emocional mesmo. Basta lembrar que, com sua premissa de dividir o pensamento racional no maior número de partes possíveis, Descartes provou a existência de Deus, que era uma grande paixão sua.


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Um dos primeiros exemplares de Principia, de Newton. Observe o caráter ambivalente da obra trazido no título.


Os estudos científicos daquela época se confundiam mesmo com poesia. Deve ser por isso que sinto um prazer especial em lê-los. Muitos parágrafos dos escritos de Newton ou Rousseau são capazes de fazer inveja aos mais prolíficos romancistas e poetas. Na época em que esses autores vingaram, havia um certo deleite em mostrar o lado artístico da Ciência. Hoje, em prol de um saber mais neutro e definitivo, isso foi posto de lado. Algumas universidades chegaram ao ponto de desencorajar os pesquisadores a utilizarem os verbos em primeira pessoa, tornando as coisas o mais impessoal possível. Não que isso seja algo condenável. Mas é preciso saber alargar os conceitos de Ciência e abrir as possibilidades para estudos que necessitam de um embasamento mais pessoal.

Citei Descartes, Newton e Rousseau por serem os expoentes máximos disso que eu chamo de ciência poética. Se você nunca leu nada desses autores, sugiro que vá atrás de uma obra de pelo menos um deles. Você vai se surpreender ao enxergar não somente deduções analíticas e suposições baseadas na lógica, mas o mais puro pensamento meditativo e filosófico – coisa de que sinto falta nos escritos científicos de hoje.


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A associação da imagem destes pensadores com os números faz supor que eles se preocupavam apenas com a Lógica.


A seguir, para finalizar, deixo com vocês alguns trechos extraídos de O discurso do método, de René Descartes. São trechos bonitos que poderiam figurar em qualquer livro nas estantes de literatura.

"(...) a diversidade de nossas opiniões não se origina do fato de serem alguns mais racionais que outros, mas apenas de dirigirmos nossos pensamentos por caminhos diferentes e não considerarmos as mesmas coisas. Pois é insuficiente ter o espírito bom, o mais importante é aplicá-lo bem. As maiores almas são capazes dos maiores vícios, como também das maiores virtudes, e os que só andam muito devagar podem avançar bem mais, se continuarem sempre pelo caminho reto, do que aqueles que correm e dele se afastam." (p. 1)

" (…) percebi que, ao mesmo tempo que eu queria pensar que tudo era falso, fazia-se necessário que eu, que pensava, fosse alguma coisa. E, ao notar que esta verdade "penso, logo existo" era tão sólida e tão correta que as mais extravagantes suposições dos céticos não seriam capazes de lhe causar abalo, julguei que podia considerá-la, sem escrúpulo algum, o primeiro princípio da filosofia que eu procurava." (p. 12)

"Ademais, não pretendo falar aqui a respeito dos progressos que no futuro espero fazer nas ciências, nem me comprometer em relação ao público com qualquer promessa que eu não esteja seguro de cumprir: mas direi unicamente que decidi não empregar o tempo de vida que me resta em outra coisa que não seja tentar adquirir algum conhecimento da natureza, que seja de tal ordem que dele se possam extrair normas mais seguras do que as adotadas até agora." (p. 27)

10 outubro 2011

Os devaneios do caminhante solitário, de Jean-Jacques Rousseau

"A felicidade é um estado permanente que não parece feito para o homem neste mundo." (p. 116)

devaneios rousseau

Às vezes tenho a impressão de que os melhores livros que eu leio são aqueles que compro na total impulsividade. Aqueles nos quais simplesmente bato os olhos, vejo a capa, abro-o, folheio durante dois minutos e penso: "Vou levar este". Pode ser que eu nunca tenha sequer ouvido falar no livro, ou no autor. Mas ele me fisga de tal maneira que me sinto totalmente atraído por ele, a ponto de querer levá-lo para casa.

Foi isso o que aconteceu com Os devaneios do caminhante solitário (Les Revêries du Promeneur Solitaire, 1782), escrito pelo genial filósofo e músico suíço Jean-Jacques Rousseau. Comprei-o mais por impulso do que por qualquer outra coisa; nesse caso, eu obviamente conhecia o autor, mas não sabia da existência desse título de sua autoria. Puxei-o da prateleira da L&PM, abri e comecei a ler algumas páginas aqui e acolá. Caí exatamente no seguinte parágrafo, que me cativou logo de cara:

Vi muitos que filosofavam de maneira muito mais douta que eu, mas sua filosofia lhes era, de certa forma, estranha. Querendo ser mais sábios que outros, estudavam o universo para saber como este estava arranjado, como teriam estudado alguma máquina que tivessem encontrado, por pura curiosidade. Estudavam a natureza humana para dela poder falar com sabedoria, mas não para se conhecerem (…) [p. 29]

Essas e outras poucas linhas foram o suficiente para que eu pensasse: "Este livro será a minha leitura da semana." Finalizei-o ontem e não me arrependi nem um pouco. É interessantíssimo.


Sinopse: Publicado postumamente, este grande testamento inacabado é considerado pelo próprio autor como a conclusão de sua obra. Diferente de seus outros escritos, marcados por discursos políticos, Os devaneios são relatos líricos e serenos, emotivos, que retratam sua sensação de isolamento e estranheza pelas críticas à sua obra e às suas posições humanistas.


View-Surrounding-Paris,-Rousseau

Publicado quatro anos depois de sua morte, Devaneios é uma espécie de diário-testamento de Rousseau, no qual ele escreve todas as suas impressões sobre a própria vida e a condição humana na Terra. Passeando por grandes temas como a mentira, a felicidade, a solidão, a meditação e a hipocrisia, Rousseau transfere para o papel tudo o que sentia e pensava a respeito desses assuntos, utilizando a linguagem cristalina e poética que caracterizou boa parte de suas principais obras. Além disso, a fim de deixar seus testemunhos ainda mais ricos, não raro ele ilustra suas teorias descrevendo pequenos acontecimentos cotidianos no qual esteve presente – caminhadas, visitas de amigos e alguns incidentes esporádicos.

O livro é dividido em dez caminhadas, cada qual abarcando um tema específico, alguns deles aparecendo mais de uma vez. O curioso é notar que o termo "caminhada" não tem sentido literal, mas metafórico, como se correspondesse a uma espécie de trilha filosófica e meditativa. Rousseau adorava passear a pé por campos e bosques floridos, e resolveu estender o conceito de caminhada também aos seus devaneios. O processo criativo de cada capítulo me pareceu interessantíssimo: fiquei com a sensação de que o autor puxava a pena e o papel sem a menor idéia do que escreveria naquele dia, deixando sua mente vagar a esmo dentro de determinados assuntos. A partir daí, sua caneta ia apenas acompanhando a torrente de pensamentos que o acometia – sem, no entanto, perder o foco.

Achei extremamente prazeroso acompanhar esses devaneios de Rousseau. Ele escreve suas impressões íntimas de uma forma tão simples, tão inteligível, tão sincera, que é impossível não sentir um ótimo sabor em suas palavras. Excelente redator, sem dúvida, Rousseau mistura sua filosofia de vida à experiência cotidiana, sem com isso almejar alcançar status de filósofo. Aliás, no início do livro o próprio autor confessa que pouco lhe importa se essas páginas serão lidas por alguma pessoa, ou se serão destruídas ou transmitidas às gerações futuras: o que importa é sentir o prazer imediato que ele tem ao escrevê-las. O puro prazer de redigir suas impressões.


rousseau

"Ao me libertar de todas essas armadilhas, de todas essas vãs esperanças, entreguei-me por completo à despreocupação e ao repouso do espírito que sempre foram meu interesse mais dominante e minha inclinação mais duradoura. Deixei a sociedade e suas pompas, renunciei a todo adereço (...), sem relógio, sem meias brancas, penteados, uma grossa veste de pano, e melhor que tudo isso, extirpei de meu coração os desejos e as cobiças que dão valor a tudo o que eu abandonava." [p. 31]


O tom que sustenta Os devaneios de um caminhante solitário é, de certa forma, bastante amargo, como se Rousseau estivesse profundamente decepcionado com a rejeição de sua pessoa pela sociedade em que vivia. De fato, esse sentimento fica claro em diversas partes do texto (na verdade, durante o livro inteiro), em que ele afirma se manter forçadamente afastado dos demais homens. Isolado em sua solidão contemplativa, Rousseau assume o papel de um telespectador rejeitado pela platéia da qual faz parte. A propósito, a frase que abre o livro é esta: "Eis-me, portanto, sozinho sobre a terra, sem outro irmão, próximo, amigo ou companhia que a mim mesmo."

Como conseqüência disso, dentre outras coisas, ele começa a apontar no seu texto aquilo que o diferencia dos outros indivíduos: qualidades e defeitos que ele sentia perceber apenas nele, e que infelizmente não via em outra pessoa com a qual pudesse compartilhá-los. Convencido de que não estava inserido na sociedade parisiense do século 18, Rousseau se recolhe e se defende das críticas que costumava receber pelas suas teorias filosóficas e políticas.

Para entender melhor isso, é necessário ter conhecimento de um fato curioso que marcou o final da vida deste grande filósofo. Nos seus quatro últimos anos, Rousseau acreditava existir uma espécie de complô contra sua pessoa, um complô invisível que o criticava e tirava de suas mãos os prazeres mais simples da vida, além de afastá-lo do convívio humano. Intuição delirante, sem dúvida, que compõe o estofo dos Devaneios. É sempre se referindo a esse complô onipresente (e culpando-o) que Rousseau se diz traído, abatido e isolado da sociedade.


The-Waterfall,-Rousseau,-1910

"(...) sejamos sempre verdadeiros, mesmo com todos os riscos. A justiça está na verdade das coisas; a mentira é sempre iniqüidade, e o erro é sempre impostura quando provocamos algo que não segue a regra do que devemos fazer ou crer: e seja qual for o efeito resultante da verdade, sempre somos inocentes quando a dissemos, pois nada lhe acrescentamos de puramente nosso." [p. 48]


Os devaneios do caminhante solitário possui uma qualidade literária indiscutível. A obra (que é pequena, mal chegando às 150 páginas) pode ser lida como uma espécie de relato intimista, ou algo do gênero. A idéia do complô inimigo que Rousseau cultivava dá a seu texto um lirismo qualquer, um toque poético quase ficcional (muito embora essa sensação fosse verídica). Contribuem para esse lirismo a visão humanista e a serenidade característica do autor – que nos fornece, especialmente neste livro em questão, um panorama especial do que um homem que se sente rejeitado pela sociedade pode apresentar.

Recomendadíssimo para quem quer uma dose pequena e rápida de boa literatura e de boas reflexões sobre a vida e os homens.

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Para ilustrar esta postagem, colei ao longo do texto alguns quadros do pintor francês Henri Rousseau [1844-1910], cuja temática, a vida natural, muito coincide com as ideologias de Jean-Jacques Rousseau.


Os devaneios de um caminhante solitário (1782)

Jean-Jacques Rousseau

Editora L&PM

Nota: 10/10

19 setembro 2011

O Senhor das Moscas, de William Golding

"A verdade é que o medo não pode machucar vocês mais do que um sonho." (p. 92)
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Durante a madrugada deste dia, finalizei a leitura do livro O Senhor das Moscas (The Lord of the Flies, 1953), escrito pelo britânico William Golding, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1983, dado pelo conjunto de sua obra. Numa incrível coincidência, acabo de descobrir que Golding completaria 100 anos de idade hoje, caso não tivesse morrido de insuficiência cardíaca há quase duas décadas.

Ele deixou para trás uma obra famosíssima: O Senhor das Moscas. Às vezes, o glamour de um clássico se dá mais pelo mito que se criou em volta dele do que pela qualidade da obra em si. É o que eu percebo em alguns livros que são tidos como "imortais" e "um dos melhores de todos os tempos": pouca qualidade artística e muito confete jogado em cima deles, tanto pela crítica quanto pelo público.

O Senhor das Moscas se situa numa espécie de meio-termo entre os clássicos que são bons pela qualidade que possuem e os clássicos que são lembrados apenas por sua excentricidade. No balanço geral, entretanto, considero a obra-prima de Golding de fato um ótimo romance, que deve ser lido por todos aqueles que se interessam por análises sociais fornecidas pela literatura.


Sinopse: Um avião lotado de crianças e adolescentes cai numa ilha deserta. Os jovens sobrevivem e, aos poucos, vão se reunindo num grande grupo. Em assembléia, os meninos designam um líder. Longe dos códigos que regulam a sociedade dos adultos, esses jovens terão de inventar uma nova civilização, alicerçada exclusivamente nos recursos naturais da ilha e em suas próprias fantasias.

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Edição de 1983 da Nova Fronteira e edição no original inglês


Quando o livro foi lançado pela primeira vez, na metade do século passado, não tardou muito para que a crítica o rotulasse como uma parábola moderna sobre as relações primitivas entre seres humanos, ou como uma fábula política que retratava as várias facetas (ou máscaras) que o Homem pode assumir quando em contato com seus semelhantes.

De fato, vários elementos da história fazem referência a elementos da nossa sociedade: é o caso da fogueira dos meninos, que simboliza a civilização e o bom-senso; da concha, que faz referência à ordem e à democracia; do Bicho, que, nos dias atuais, bem que poderia ser relacionado ao medo que as pessoas têm do terrorismo invisível que está em todas as partes. Diversos detalhes que Golding pôs em sua trama seguem o exemplo de leis específicas que regem o comportamento humano em grupo, e, nesse caso, O Senhor das Moscas é um estudo perfeito para os interessados no tema.

É interessante acompanhar os personagens com cuidado, já que todos eles têm uma personalidade bem própria de cada um, e essa personalidade varia de acordo com os contatos que são feitos entre os garotos. O líder Ralph, por exemplo, vai amadurecendo ao longo dos capítulos, e sua postura é alterada dependendo do grupo ao qual ele se dirige – se se dirige aos "pequenos", Ralph fala tal qual um político querido ao seu povo; se está com Jack, suas palavras tornam-se mais cautelosas e breves.


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Cena da primeira adaptação cinematográfica do livro (1963)

Os diálogos entre os personagens são pra lá de excelentes, responsáveis pela maior parte da qualidade do livro. Eu sempre achava interessantíssimo quando Ralph convocava uma reunião de emergência entre os meninos, adotando uma postura séria e às vezes demagoga que pode ser percebida hoje em dia em muitos líderes de Estado. Nessas horas, Porquinho (personagem mais notável do livro) servia como uma espécie de conselheiro e braço direito de Ralph. Não dá para deixar de fazer um paralelo com o nosso distorcido sistema democrático.

Por mais que o leitor não simpatize com nenhum personagem logo no início do livro, uma hora ou outra ele vai tomar o partido de alguém. É extremamente difícil ficar neutro durante os debates entre os garotos; sempre aparece aquele do qual você discorda e com o qual você concorda. A frase que abre esta resenha, de longe a melhor frase do romance, foi tirada do diálogo de um desses debates entre os personagens.

A parte mais interessante da história acontece quando o grupo de selvagens é criado, em resposta ao grupo civilizado e organizado. Não vou falar muito sobre isso para não estragar a surpresa de quem vai ler o livro. Mas, sem dúvida, posso garantir que é a parte que ilumina a obra e, de quebra, cria toda a ação dos três últimos capítulos.

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Cena do remake do primeiro filme baseado no livro (1990)

O único fato relativamente negativo de O Senhor das Moscas é que ele é um romance descritivo demais. Várias páginas no decorrer do livro procuram pintar um quadro exato da natureza claustrofóbica da ilha, e isso toma o lugar das descrições psicológicas dos personagens, muitas vezes. Não que seja algo totalmente ruim; definir o cenário da trama é, aliás, imprescindível. Mas fiquei com a sensação de que ele poderia ter feito a mesma coisa com os personagens. Não raro eu sentia falta de um aprofundamento psicológico, de um parágrafo intimista, de um diálogo mais extenso.

E é aí que entra a minha colocação de que o livro é, em parte, dotado de uma certa aura mística que ajuda a consumar sua fama. Há uma espécie de lacuna na obra que é preenchida pela boa vontade e entusiasmo antecipado do leitor, sem dúvida. Não quero, com isso, dizer que o romance é ruim. Não mesmo! Adorei tê-lo lido. Apenas prefiro classificá-lo como uma aventura dotada de muitos elementos sociológicos, e não como um estudo social digno de figurar nos compêndios do tema.

Mesmo assim, a qualidade literária da obra não é prejudicada nem um pouco. O romance continua sendo uma referência no campo ficcional dos livros de naufrágios, com mérito. De acordo com o prefaciador Santiago Nazarian, quando William Golding escreveu O Senhor das Moscas, livros que retratavam pessoas perdidas em ilhas não eram nenhuma novidade. No entanto, o que fez com que a obra do inglês se destacasse das demais foi a maneira com que ele abordou o tema – até então, inédita – na qual podemos vislumbrar um estudo tímido sobre a invenção da selvageria.


O Senhor das Moscas (1953)

William Golding

220 páginas

Editora Nova Fronteira

Nota: 8,5 / 10