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22 agosto 2011

Ônibus 174

Quando aconteceu, eu tinha apenas oito anos de idade. Naquela época, não me ligava em mais nada no mundo que não fosse meu video-game, minha bola de futebol (com a qual eu brincava com meus amigos de infância do condomínio), minha bicicleta e o filé na chapa que minha mãe fazia nas noites de sábado.

Na infância, o mundo das minhas prioridades era restrito. Nunca fui de ligar a TV para ver o que estava passando nos noticiários ou em qualquer outro tipo de programa que fosse. Mesmo hoje, não lembro de ninguém lá em casa comentando sobre o fato no dia em que ocorreu. Minha memória sempre foi péssima. Ou talvez meus pais e meu irmão não tivessem comentado nada mesmo de propósito, para não me deixar impressionado.

A verdade é que fui tomar conhecimento desse episódio apenas no ano passado ou retrasado, quando um professor da universidade comentou sobre ele para os alunos de Psicologia Social. Aliás, antes disso, se não me engano, um amigo meu já me falara sobre o famoso documentário dirigido por José Padilha (cujo título dá nome a esta postagem), produzido em meados de 2002. De uma maneira ou de outra, fiquei sabendo da história há pouco tempo.


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Documentário dirigido por José Padilha. Recomendado.


No Rio de Janeiro, no dia 12 de junho de 2000, por volta das duas e meia da tarde, o ônibus da linha 174 (Central-Gávea) parou para que um homem de 21 anos subisse. Estavam nas redondezas do bairro do Jardim Botânico, seu nome era Sandro do Nascimento e ele estava armado com um revólver.

Contam as crônicas que o rapaz não deu início ao seqüestro assim que subiu no ônibus. Ao que parece, a escolha do transporte foi totalmente aleatória, uma vez que o crime não era premeditado e deu-se por impulso. Segundo o que dizem as testemunhas, um dos passageiros do ônibus o viu com o revólver preso na cintura do calção, desceu na parada mais próxima e alertou um carro da polícia que estava passando pelo bairro. 

A viatura não hesitou em interditar a passagem do ônibus. Os policiais saíram do veículo e fizeram uma série de gestos para o motorista e os passageiros, o que provocou uma confusão generalizada. Começou aí. Sandro do Nascimento sacou o revólver enquanto as pessoas que podiam fugir saltavam pelas janelas e pela porta traseira. Depois de alguns segundos de gritaria e desespero coletivo, sobraram dentro dez indivíduos, fora o assaltante. Várias delas foram libertadas de imediato ou poucos momentos mais tarde, sendo que os reféns mais conhecidos desse trágico episódio são os que ficaram até o final do seqüestro: um grupo de 4 jovens mulheres.


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Mensagem escrita no vidro do ônibus, a mando do seqüestrador.


Não é a idéia central da postagem descrever detalhe por detalhe tudo o que aconteceu dentro do ônibus seqüestrado – até porque essa é uma tarefa bem difícil, já que não dá para ter uma noção nítida das coisas que aconteceram lá dentro, e que foram muitas, uma vez que o episódio durou mais de quatro horas. Dá para esboçar o básico: Sandro andando de um lado para o outro do ônibus, segurando a arma apontada para a cabeça de uma das quatro jovens (todas tiveram essa infeliz oportunidade), os policiais do lado de fora tentando dialogar com o criminoso, uma multidão irritada e curiosa nas proximidades, repórteres, todo mundo.

O final trágico todos conhecem: no início da noite, Geísa Gonçalves, uma das reféns, é levada para fora do ônibus, carregada pelo seqüestrador. Usando-a como escudo, Sandro se aproxima dos policiais que estão mais perto. Depois de alguns segundos de conversa, um soldado se aproxima furtivamente pelo lado do assaltante e, numa abordagem das mais desastradas do mundo, atira, acertando não o criminoso, mas a refém. Geísa tem  o queixo raspado pela bala, o que a faz cair no chão junto com o criminoso. A confusão que se seguiu é indescritível: a população, que assistia a tudo impassível, invade o cerco e tenta a todo custo pisotear Sandro, que, por sua vez, dispara três tiros nas costas de Geísa, matando-a.

Colocado da maneira que foi possível no camburão da viatura policial pelos soldados, Sandro foi morto por asfixia ali dentro. Enquanto isso, o carro da polícia seguia pelas ruas do Rio de Janeiro. E foi esse o desfecho que a população do Brasil inteiro assistiu ao vivo pela TV.


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Abordagem do policial: mal-sucedido que custou caro.


Logo após esse episódio, discussões acerca da culpa/inocência de Sandro foram levantadas no país inteiro. Pessoas diziam que ele fora absolutamente culpado por tudo o que aconteceu, enquanto outras, por sua vez, defendiam a inocência do assaltante, na medida em que viam que ele era fruto de um sistema doentio de exclusão social.

Me parece uma questão muito delicada e complexa para que eu exponha minha opinião assim, de repente. O que posso dizer é que, é verdade, Sandro foi vítima de uma sociedade que o menosprezou e lhe deu o pão amassado pelo diabo – sua mãe fora degolada à sua frente na infância, seus colegas de rua morreram na Chacina da Candelária, etc. Como diria uma das reféns em depoimento: "Isso não justifica seu ato no ônibus, mas ao menos induz". Quem é capaz de se colocar no lugar de Sandro, durante sua infância e adolescência, compreende um pouco o seu ato no ônibus como uma questão de revolta e vingança contra a sociedade que o massacrou no passado.

Por outro lado, isso não anula o fato de que Sandro teve a oportunidade de escolhas durante a sua vida. Adotado por uma mãe complacente e carente, o rapaz teve a oportunidade de ver que nem tudo estava perdido, e que um ambiente parecido com o familiar o aceitava de modo incondicional. Ele teve a opção de tirar desse ambiente acolhedor o ânimo e a força de vontade de que precisava para mudar de vida. Mesmo assim, Sandro optou pelo crime, pelo tráfico, pela delinqüência. E acabou por fazer o que fez naquele dia no Jardim Botânico, apontando um revólver para a cabeça de vários inocentes. E crime é crime, nem sempre deve ser justificado em termos de histórico de vida do criminoso.


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Todas as imagens desta postagem foram retiradas da internet.


Para finalizar (este post ficou maior do que eu esperava), vejo a questão da culpa nesse episódio inserida num contexto muito mais amplo e histórico. Sandro deve ser responsabilizado pelo que houve? Claro que sim; do contrário, estaríamos caindo em um discurso moralizante evasivo e tendencioso. Mas a culpa também deve ser do Estado, de um modo geral, que nada faz para inibir a existência de mais Sandros na nossa sociedade.

Verbas públicas destinadas à segurança e à educação são desviadas para o cofre de políticos que não precisam de dinheiro, enquanto a população sofre na pele as conseqüências desse ato mesquinho de roubo. O que deveria ser feito na tentativa de tirar todos os meninos de rua da condição em que vivem e colocá-los em escolas sérias não é feito, pelo simples fato de que a prioridade corresponde a determinados segmentos da população, principalmente os segmentos que possuem maior poder aquisitivo. Medidas paliativas, como colocar esses meninos de rua em creches promovidas por ONGs, é uma boa ação, mas – infelizmente – não resolve o problema como deveria ser resolvido. A raiz é mais funda.

O que nos resta é ter a consciência discriminativa de eleger políticos que contornem esse quadro tão negativo no nosso país. É preciso força de vontade, mais deles que nossa. Nós fazemos nossa parte, tentando encontrar quem faça a sua lá no Palácio do Planalto. É preciso evitar que pessoas como Geísa Gonçalves tenham suas vidas interrompidas – logo ela, uma promissora cidadã que, na condição de professora, apostava no futuro do Brasil.

15 agosto 2011

A volta ao mundo em 80 dias, de Júlio Verne

"A verdade é que havia muitos anos que Fíleas Fogg não saía de Londres." (p. 14)

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A maioria das pessoas ao meu redor sabe que eu não consigo ler um livro de literatura no período em que as aulas da universidade estão recomeçando. Os professores indicam muitas apostilas, livros, textos para ler, trabalhos, e aí acaba ficando difícil encontrar um tempo de sossego para se dedicar à arte das letras.

Mas sou incurável e não aprendo. Faltando dois dias para a volta às aulas, fui à livraria e voltei para casa com A volta ao mundo em 80 dias (Le tour du monde en quatre-vingt jours, 1873), do famosíssimo escritor francês Júlio Verne, clássico autor de aventuras e ficção-científica. Costumo dizer que ele foi o precursor dos romances de techno-thriller.

Na minha opinião, das obras-primas de Verne, o livro que terminei de ler ontem é o de que menos gostei. Isso não significa dizer que ele seja ruim. Apenas foi pouco desenvolvido.


Sinopse: Fíleas Fogg, um cavalheiro britânico, aposta com os colegas do seu clube que fará a volta ao mundo em apenas oitenta dias. Acompanhado do seu criado Fura-Vidas, um parisiense esperto e expedito, Fogg dá início à sua jornada. Para ganhar a aposta, teria de regressar a Londres em 21 de Dezembro de 1872, às vinte horas e quarenta e cinco minutos.

Acusado, porém, de ser um audacioso assaltante do Banco da Inglaterra, Fíleas Fogg será permanentemente perseguido pelo detetive Fix, que, todavia, parece nunca conseguir detê-lo.


Quem já leu no mínimo dois ou três livros de Júlio Verne, sabe que seus romances são verdadeiros libelos científicos, que exaltam a tecnologia e o progresso humano e mostram quão divertidas podem ser algumas incursões baseadas nos campos da ciência. Todo mundo sabe que muitas invenções modernas, como por exemplo o submarino, foram "profetizadas" pelo famoso escritor francês. Verne era um amante da ciência e da tecnologia, e isso fica claro na totalidade de seus livros.

A volta ao mundo em 80 dias, como não poderia deixar de ser, reflete esse tipo de relação entre Júlio Verne e o progresso científico. Neste livro, porém, fica muito mais clara a proposta geral do autor, pelo menos na minha opinião. Verne queria mostrar ao mundo onde a sociedade da época estava se situando no desenvolvimento do transporte inter-urbano. Para tanto, criou uma história na qual o personagem principal se disse capaz de dar a volta ao redor do planeta em apenas 80 dias – um recorde incrível na época – utilizando-se dos meios de transporte vigentes.


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Cartaz do filme produzido em 2004, com Jackie Chan


A idéia do livro é boa. Aliás, é ótima. Muito original e criativa, dá margem a um enredo inesgotável, milhares de situações e vários desfechos. Fazer com que um grupo de personagens tenha que dar a volta ao mundo – uma viagem longuíssima – em um tempo determinado é genial, porque prende a atenção do leitor e dá dinâmica à história. Ainda mais se esse grupo estiver sendo perseguido por um inspetor da polícia.

O problema é que, infelizmente, Verne explorou pouco esse material que tinha nas mãos. Ao invés de destrinchá-lo da maneira mais rica possível, incrementando a história com detalhes mais minuciosos e bem trabalhados, o autor apenas escreveu um thriller raso e despreocupado, cujo único objetivo era o divertimento puro do leitor. Foi essa a sensação que tive. Mesmo os trechos em que ele narra fatos históricos dos países visitados parecem superficiais e deslocados. Fui com muita sede ao pote, como dizem.

Achei pouco 190 páginas, dada a grandiosidade da idéia. Ficou uma sensação de correria e pressa; poucas descrições de lugares, poucas descrições de costumes, quando eu esperava um cuidado maior nesse aspecto. (Talvez tenha sido essa a intenção do autor, a rapidez, já que todos os personagens tinham pressa…)


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Mais edições do livro em português


De um jeito ou de outro, isso não foi o que mais me incomodou no livro. É aceitável o fato de que o autor tenha dado menos atenção aos países e mais aos seus personagens, porque, no final das contas, Fíleas Fogg tinha pressa em dar a volta ao mundo, pulando de transporte em transporte, e Verne quis transmitir essa sensação de correria ao texto. Pelo menos eu faço questão de enxergar as coisas assim.

O que incomoda de verdade é a falta de verossimilhança em algumas (muitas) situações envolvendo os personagens. Júlio Verne era excelente em emular invenções e aparatos científicos, mas, pelo menos nessa sua obra, ele pisou na bola em algumas passagens que envolviam assuntos mais humanos. Aouda é uma personagem que surge ao acaso, permanece na história por acaso e, por acaso, termina o livro de um determinado jeito. É uma personagem totalmente à margem, apagada, e suas ações não têm o menor nexo. Dói vê-la sendo levada de um lado para o outro, absolutamente à mercê dos protagonistas.

O próprio Fíleas Fogg tem qualquer coisa de inverossímil. Sempre inexpressivo, sempre calado, sempre matemático demais, o inglês que protagoniza o romance de Verne não parece demonstrar nada de humano, nem quando um atraso de trem põe em risco boa parte de sua fortuna e sua honra. O personagem mais convincente é sem dúvida Fura-Vidas, expressivo, emotivo… em suma, vivo.


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Rota percorrida pelos aventureiros do romance


Mesmo com esses defeitos, ainda recomendo a leitura de A volta ao mundo em 80 dias. Continuo gostando do modo como Júlio Verne conduz uma história de ação/aventura, continuo gostando da visão que ele tem do progresso da humanidade (iluminista, por que não?) e continuo gostando do final dos seus livros, geralmente pouco previsíveis.

18 julho 2011

Água para elefantes, de Sara Gruen

"Os artistas dão os últimos retoques em suas roupas e os treinadores fazem uma última verificação em seus animais." (p. 137)

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Embora isso não interesse a mais ninguém, passei as últimas duas semanas envolvido em um trabalho árduo que me pareceu interminável, e do qual não consegui me livrar antes de ver tudo dentro da ordem: organizei as 986 músicas do iPod que meu irmão me deu, separando-as nos devidos álbuns e inserindo as devidas capas de CD nas listas de reprodução.

E, paralelamente a esse trabalho de quem não tem o que fazer, consegui ler um livro que a querida Gleici Ketlem me deu de presente. O outro que ela havia me dado, também, foi A garota das laranjas, anteriormente resenhado aqui.

"Não comece a ler o outro livro sem mim. Ouviu?", ela disse. Indiscutivelmente, era uma ordem. De modo que só tive como acabar de lê-lo hoje. Estamos falando de Água para elefantes (Water for elephants, 2006), escrito pela canadense Sara Gruen, autora muito popular nos E.U.A, onde mora com o marido, os filhos e um mundaréu de bichos estranhos.


Sinopse: Aos 23 anos, Jacob era um estudante de veterinária. Mas sua sorte muda quando seus pais morrem num acidente de carro. Órfão, sem dinheiro e sem ter para onde ir, ele deixa a faculdade antes de prestar os exames finais e acaba pulando em um trem em movimento - o Esquadrão Voador do circo Irmãos Benzini, o Maior Espetáculo da Terra.

Admitido para cuidar dos animais, Jacob sofrerá nas mãos do Tio Al, o empresário tirano do circo, e de August, o ora encantador, ora intratável chefe do setor dos animais.

É também sob as lonas dos Irmãos Benzini que Jacob vai se apaixonar duas vezes: primeiro por Marlena, a bela estrela do número dos cavalos e esposa de August, e depois por Rosie, a elefanta aparentemente estúpida que deveria ser a salvação do circo.


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Cena do filme, com Robert Pattinson (Jacob) e a elefanta Rosie


O sucesso de Água para elefantes faz sentido. Digo isso porque gostei muito do livro (nos quesitos enredo e escrita), e quem me conhece de perto sabe que não tenho o costume de soltar muitos elogios aos livros mais vendidos segundo o New York Times. Sara Gruen, no entanto, construiu uma história que, embora tenha algo de clichê em sua essência, desperta certas paixões antigas. Eu mesmo tive vontade de ir a um circo logo após ter acabado a leitura.

A narrativa segue a mesma idéia de À espera de um milagre*, do Stephen King: temos um senhor muito, muito idoso que está em um asilo para inválidos e começa a contar sua história de quando era jovem, de maneira que o livro se torna um imenso flashback. De tempos em tempos, o texto volta para a vida atual do velho e para o que ele está fazendo no asilo. Foi assim com Paul Edgecombe – do livro de King –, e é assim com Jacob Jankowski – do livro de Gruen.

O romance é povoado por alguns personagens extremamente peculiares, como é o caso do palhaço anão Kinko (de longe o melhor personagem) e do velho Camel, um miserável funcionário do circo que não tem onde cair morto e que acolhe Jacob quando este pula no trem em movimento, abandonando de vez a sua vida pregressa e entrando no mundo do espetáculo circense. Os outros personagens que compõem a trama, embora menos peculiares e mais dados ao estereótipo, são também interessantes e possuem uma personalidade própria, o que confere verossimilhança àquilo que estamos lendo.


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Diferente da maioria dos best-sellers românticos que já tive a oportunidade de ler, em Água para elefantes nós temos um texto que não subestima a inteligência do leitor. Em vez de ficar repetindo e explicando várias vezes certas passagens e detalhes de entrelinhas da trama, Gruen diz a coisa uma vez e pronto, o leitor que se vire para entender ou inferir os detalhes. Pelo menos eu fiquei com essa impressão e confesso que, por mais que às vezes você tenha que voltar páginas para conferir algo, é sem dúvida uma característica de mérito e tem seu bom valor.

O grande romantismo do livro está não na relação entre Jacob e Marlena – seu par romântico –, mas na variedade de detalhes presentes no universo que Gruen trouxe de volta: o universo dos circos lendários que se transportavam a trem, cruzando o país em apresentações sucessivas para o público das mais variadas cidades. Sem dúvida esse é o diferencial do livro e seu grande charme. Lendo Água para elefantes, também passamos a ter uma idéia do que havia nos bastidores dos espetáculos daquela época. Aliás, nos bastidores dos espetáculos em geral, de qualquer época.

Embora algumas partes do final não tenham sido muito do meu agrado, por parecerem soluções apressadas e algumas até exageradas, digo que adorei a experiência de ler este único livro de Sara Gruen publicado no Brasil. O pouco da decepção que tive nos momentos finais não estragou, nem um pouco, o prazer da leitura no miolo da história. Portanto, recomendo a quem ele interessar.


Todos os direitos reservados

Como todo mundo já deve saber a essa altura do campeonato, Água para elefantes foi adaptado para o cinema sob o comando de Francis Lawrence, estrelando Robert Pattinson e Reese Witherspoon. Entre os trabalhos anteriores de Lawrence estão Eu sou a lenda e Constantine.

Eu não assisti ao filme e, logicamente, não sei o que os roteiristas fizeram da história, mas já ouvi dizer que mudaram muita coisa do original. Isso despertou mais ainda minha curiosidade.

~~

É isso. Obrigado pelo presente, Gle!

30 maio 2011

Cinema: basear-se em alguma coisa

"Baseado na obra de Fulano de Tal" não significa que o filme será idêntico ao livro. Às vezes é bom ter isso em mente.

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Ontem fui ao cinema com um amigo meu de longa data. Fazia muito tempo que não nos víamos, e era hora de pôr a conversa em dia. Era hora, também, de sair e espairecer a mente, depois de tantos trabalhos exaustivos da faculdade.

Assistimos ao filme Os agentes do destino, com Matt Damon e Emily Blunt. Tirando o fato desagradável de chegar à sala com o filme já sendo exibido, posso dizer que adorei a história. Ela entrou para o grupo seleto de enredos que me fazem pensar nos personagens e na intriga principal muito tempo depois de os créditos finais já terem aparecido. Fiquei filosofando sobre diversas coisas, como livre-arbítrio e destino pré-estabelecido, que são os assuntos que regem o filme de um modo geral.

Mesmo assim, por mais tentador que seja, o objetivo principal deste post não é o de resenhar sobre a obra cinematográfica que vi ontem. A idéia é, antes de tudo, dar a minha opinião sobre uma frase muito importante que aparece no início de alguns filmes: Baseado na obra de Fulano. Embora muita gente preste atenção a essa frase, poucas são as pessoas que se preocupam realmente em aceitar o significado exato da palavra "baseado".

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Philip K. Dick

Os agentes do destino é baseado em um conto do escritor norte-americano Philip K. Dick, conhecido pela espécie de ficção-científica underground que produziu durante a sua vida. Nunca li nada desse autor, mas já assisti a uns dois ou três filmes cujo roteiro pega emprestado as idéias dele. Aquele filme esquisito com Keanu Reeves foi um. Como é mesmo o nome? O homem duplo. Alguém lembra?

Bem, tive a idéia deste post porque, lendo um site de críticas cinematográficas, vi que alguém comentou na resenha do filme Os agentes do destino algo do tipo: "Não gostei nem um pouco. Não tem absolutamente NADA a ver com o conto do K. Dick. Totalmente infiel. Parece outra história." Que eu saiba, o cara que escreveu esse comentário não está sozinho. Muitas pessoas não gostam de certos filmes porque eles simplesmente são infiéis à história original.

É aí que eu tento argumentar: pessoal, tais filmes são apenas baseados na história original. Não têm a pretensão de fazer uma cópia fiel do livro (ou do conto, enfim). Não têm o objetivo de retratar no cinema aquilo que já foi precisamente retratado no livro. O filme apenas se baseia no que a obra original propõe. Por mais que seja doloroso aceitar isso, nós, os fãs da história original, devemos encarar o fato de que as adaptações se baseiam em apenas alguns elementos da obra que lhe deu origem.

Vamos ao dicionário e aos significados da palavra:

Baseado:

1. assente em bases. Algo ou alguém fundamentado, inspirado em evento alheio. Que tem ou a que se deu fundamento.

2. cigarro de maconha.

Quando um filme se diz baseado em um conto ou livro, devemos sempre ter em mente que a intenção do filme é a de mostrar que buscou inspirações na história original – e não a de copiar ou transcrever para as telas a idéia na íntegra. Não faz muito sentido deixar de gostar de uma obra de cinema só porque ela não foi totalmente fiel àquilo que lhe deu origem. Mesmo assim, muitas pessoas gostam de usar esse argumento. "Não gostei. O filme estragou o livro."

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Cena do filme Os agentes do destino

Pelo menos para mim, fica muito mais interessante aceitar a idéia de que os roteiristas estão se inspirando na obra original para escrever o enredo do filme. Estão fazendo uma releitura, uma versão visual de duas horas. Se o filme vai ficar muito parecido ou muito diferente da história que lhe deu origem, pouco importa para mim. O que importa é que o filme traga elementos que me são familiares; e isso todos os filmes baseados em livros fazem.

Em Os agentes do destino, por exemplo, milhares de coisas foram alteradas do conto para o filme. Mas o filme conserva a idéia central, que diz respeito ao grupo de pessoas responsáveis por controlar o destino da humanidade. Isso ficou, e acredito que muitas outras referências tenham ficado também, embora boa parte da trama tenha sido invenção dos roteiristas. Mas é aí que reside a beleza do processo todo: no fato de que os artistas se inspiram entre si, buscam referências e inventam uma nova versão da obra, ampliando os horizontes.

Precisamos tomar cuidado ao criticar um filme usando o simples e errado argumento de que ele foi infiel à obra original. É melhor encarar as coisas de uma outra maneira: a versão cinematográfica é uma adaptação, uma nova perspectiva de analisar a história. Lógico que, se o filme for ruim de qualquer jeito, podemos criticá-lo; mas não se pode usar a falta de semelhança com o livro como argumento.

Com esse modo de encarar os filmes adaptados, podem ter certeza, a experiência de assisti-los fica muito mais agradável e interessante.

22 maio 2011

A carta de Chris para Ron

Na última terça-feira, meu professor de Psicologia Social II resolveu passar para os seus alunos uma exibição do filme Na Natureza Selvagem, dirigido por Sean Penn e estrelado por Emile Hirsch.

O filme conta a história verídica de Christopher McCandless, jovem americano de família rica que abandonou toda a sua vida burguesa de conforto para partir rumo ao Alasca, numa aventura de provação e auto-descobrimento. Ao longo do caminho, ele encontrou várias pessoas dispostas a ajudá-lo em sua jornada; Ron Franz foi uma delas, um velhinho solitário de 70 e poucos anos, que se afeiçoou muito a Chris.

Além de ter uma história muito interessante e instigante, o filme em si é visualmente lindo, e talvez tenha sido por esse motivo que já o assisti 8 vezes. A idéia deste post é mostrar a carta mais famosa que Chris escreveu a Ron, carta que está publicada no livro Na natureza selvagem, de Jon Krakauer. Acho que vale a pena lê-la.


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"(…)

Ron, eu realmente gostei de toda a ajuda que você me deu e do tempo que passamos juntos. Espero que não fique muito deprimido com nossa separação. Pode levar um bom tempo até que a gente se veja de novo. Mas desde que eu saia inteiro desse negócio do Alasca você terá notícias minhas no futuro. Gostaria de repetir o conselho que lhe dei antes: acho que você deveria realmente promover uma mudança radical em seu esti­lo de vida e começar a fazer corajosamente coisas em que talvez nunca tenha pensado, ou que fosse hesitante demais para tentar.

Tanta gente vive em circunstâncias infelizes e, contudo, não toma a iniciativa de mudar sua situação porque está condicionada a uma vida de segurança, conformismo e conservadorismo, tudo isso que parece dar paz de espíri­to, mas na realidade nada é mais maléfico para o espírito aventureiro do homem que um futuro seguro. A coisa mais essencial do espírito vivo de um homem é sua paixão pela aventura. A alegria da vida vem de nossos encontros com novas experiências e, portanto, não há alegria maior que ter um horizonte sempre cambiante, cada dia com um novo e diferente Sol.

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Se você quer mais de sua vida, Ron, deve abandonar sua tendência à segurança monótona e adotar um estilo de vida confuso que, de inicio, vai parecer maluco para você. Mas depois que se acostumar a tal vida verá seu sentido pleno e sua beleza incrível.

Em resumo, Ron, saia de Salton City e caia na estrada. Garanto que ficará muito contente em fazer isso. Mas temo que você ignore meu conselho. Você acha que eu sou teimoso, mas você é ainda mais teimoso do que eu. Você tinha uma chance mara­vilhosa quando voltou da visita a uma das maiores vistas da Terra, o Grand Canyon, algo que todo americano deveria apreciar pelo menos uma vez na vida. Mas, por alguma razão incompreensível para mim, você só que­ria voltar correndo para casa, direto para a mesma situação que vê dia após dia. Temo que você seguirá essa mesma tendência no futu­ro e assim deixará de descobrir todas as coisas maravilhosas que Deus colocou em torno de nós para descobrir.

Não se acomode nem fique sen­tado em um único lugar. Mova-se, seja nômade, faça de cada dia um novo horizonte. Você ainda vai viver muito tempo, Ron, e será uma vergonha se não aproveitar a oportunidade para revolucionar sua vida e entrar num reino inteiramente novo de experiências.

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Você está errado se acha que a alegria emana somente ou principal­mente das relações humanas. Deus a distribuiu em toda a nossa volta. Está em tudo e em qualquer coisa que possamos experimentar. Só temos de ter a coragem de dar as costas para nosso estilo de vida habitual e nos comprometer com um modo de viver não convencional.

O que quero dizer é que você não precisa de mim ou de qualquer outra pessoa em volta para pôr esse novo tipo de luz em sua vida. Ele está sim­plesmente esperando que você o pegue e tudo que tem a fazer é estender os braços. A única pessoa com quem você está lutando é você mesmo e sua teimosia em não entrar em novas situações.

(…)

Você verá coisas e conhecerá pessoas e há muito a aprender com elas. Deve fazer isso no estilo econômico, sem motéis, cozinhando sua comida como regra geral, gastando o menos que puder e vai gostar imensamen­te disso. Espero que na próxima vez que o encontrar você seja um homem novo, com uma grande quantidade de novas aventuras e experiências na bagagem. Não hesite nem se permita dar desculpas. Simplesmente saia e faça isso. Simplesmente saia e faça isso. Você ficará muito, muito con­tente por ter feito."

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27 março 2011

Esfera, de Michael Crichton

"Não precisava de lembranças do desastre. Sabia que nunca mais ia se esquecer." (p. 376)

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Eu lembro que passei muitos anos da minha vida procurando por este livro.

Houve uma certa época em que cheguei mesmo a fazer uma espécie de campanha pessoal: ia a livrarias, sebos, bibliotecas cujo acervo pudesse barganhar, vasculhava a Internet – que, naquela época, não ajudava muito – e nunca encontrava Esfera (Sphere, 1987), de Michael Crichton, para vender. Eu já tinha lido o livro muitos anos atrás, e no momento eu ficara fascinado a tal ponto que desejava adquirir o romance a todo custo para compor minha biblioteca particular.

Mas não o achava de jeito algum. Então, há uns dois ou três anos, eu estava sozinho em casa quando meu pai me ligou e disse: "Renan, achei uma edição de Esfera aqui num sebo do centro da cidade. Posso comprar pra você?"


Sinopse: Adormecida no Oceano Pacífico, uma gigantesca nave espacial carrega em seu interior uma esfera impenetrável. Por meio de um estranho código, ela comunica-se com seis cientistas encarregados de investigar sua origem. O misterioso ser pode ser dócil e amistoso, mas também pode tornar-se uma entidade ameaçadora, pondo em risco a vida dos cientistas. Transcendendo o gênero Ficção Científica, no qual Crichton é especialista, "Esfera" traz suspense e emoção do começo ao fim.


Na faculdade, muitas pessoas costumam me perguntar o que me levou a fazer o curso de Psicologia. De minha parte, eu costumo responder que faço Psicologia porque li Esfera, e o protagonista do thriller, Norman Goodman, psicólogo, me arrebatara de um modo tal que minha carreira não poderia ser outra que não a mesma do personagem.

Eu era uma criança impressionável na época em que li o livro pela primeira vez. Mesmo assim, eu tinha certeza de que Norman era realmente um cara fantástico, e o seu raciocínio de psicólogo destilado ao longo do romance só fazia aumentar minha admiração por ele. Todas as suas deduções e suposições eram sempre muito cerebrais (em contraste com as dos outros personagens, em especial Harry e Beth), e o fato de Norman ser uma pessoa modesta e calada fez com que minha identificação com ele fosse total.

Considero Esfera um dos romances mais profundos de Michael Crichton. Profundo no sentido de que os personagens são bem construídos, bem diferenciados, e o fato de terem os seus medos psicológicos manifestados no mundo real dá um caráter mais amplo a esse aprofundamento psicológico. Fora isso, acho a história em si uma coisa brilhante: uma nave desconhecida é encontrada a 300 metros no fundo do mar; seu interior comporta uma esfera reluzente enorme, e quem entra nessa esfera tem o poder de materializar seus pensamentos. 


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Capa do DVD do filme – Edição Especial


O trunfo do livro está nessa idéia de que os cientistas, enviados para o Pacífico para estudar essa nave, podem entrar acidentalmente na Esfera e ficar refém dos próprios pensamentos. Uma coisa que, se você parar para pensar, é assustadora: ser vítima dos próprios medos.

Quando a coisa começa a ficar feia no abrigo submarino em que os personagens estão alojados (algo como falta de ar ou vazamentos), todos começam a pensar nas piores coisas que podem acontecer ali dentro. Paralelamente a isso, fatos absurdos começam a surgir, incluindo a presença misteriosa e aterrorizante de uma lula gigantesca.

É aí que o grupo de pesquisadores começa a ficar dividido, uns culpando os outros pela manifestação dessas bizarrices, e percebendo que alguns dos membros da equipe entraram na Esfera sem permissão. Norman, por conta própria, começa a deduzir quem manifesta o quê, a partir da personalidade de cada um – tudo isso inserido num suspense que deixa o leitor na beira da poltrona.

É por isso que eu digo que Crichton pôde ter a liberdade de arte-finalizar melhor seus personagens. Ou, para ser mais sincero, ele teve a obrigação de aprofundar a subjetividade de cada um, já que o andamento do livro dependia exclusivamente da personalidade de todos os indivíduos ali presentes.


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Cenas do filme, com Sharon Stone e Dustin Hoffman


Esfera é, de longe, um dos meus livros preferidos de Michael Crichton. A narrativa desse autor deixa todos os leitores tensos, omitindo o que quer, revelando o que quer, e assim mantendo sempre um suspense indescritível.

O filme também é digno de nota e merece bons aplausos. Lançado em 1998, com um trio de astros (Dustin Hoffman, Sharon Stone e Samuel L. Jackson), o longa é extremamente fiel ao livro, e nada deixa a desejar, pelo menos para mim. O diretor Barry Levinson teve um bom palpite quando decidiu adaptar a obra.

Item obrigatório na estante de qualquer fã de Michael Crichton, Esfera também é um livro recomendadíssimo para quem quer entrar no universo do autor.

16 janeiro 2011

5 livros que eu li em 2010 e que você gostará de ler em 2011

Agora que eu estou ouvindo Bob Dylan, meu espírito se soltou, se desprendeu de todos os preconceitos e me sinto apto – de corpo e alma – a listar as minhas leituras preferidas do ano passado.

A cada ano, faço aqui no blog uma pequena lista dos melhores livros que li nos últimos 12 meses. É sempre uma tarefa penosa, como podem imaginar, escolher cinco dentre tantas boas leituras; mas, seguindo as antigas conclusões de Darwin, faço questão de que as mais destacadas prevaleçam.

Então, vamos lá. Embora estejam numeradas, as indicações não seguem nenhuma ordem de preferência.


1) À espera de um milagre, de Stephen King

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Envolvente, elegante, belíssimo, misterioso e, como quase todas as obras de King, sobrenatural. Estamos falando de À espera de um milagre, tido pelo Boston Globe como a conjugação de tudo o que existe de melhor nos livros de Stephen King.

Neste romance, acompanhamos o drama de Paul Edgecombe, o chefe dos guardas de uma ala penitenciária onde ficam os condenados à cadeira elétrica. A cruel, mas normal, rotina de Paul e seus colegas de trabalho muda quando chega à ala um gigante negro de nome John Coffey – portador de uma assombrosa habilidade, a de curar doenças irreversíveis somente usando as mãos.

Reflexões sobre morte, velhice, justiça e até mesmo amor são inevitáveis. Um livro emocionante e cativante.


2) Não há silêncio que não termine, de Ingrid Betancourt

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Última ótima leitura de 2010. Não há silêncio que não termine é o relato pessoal de Ingrid Betancourt sobre o seu penoso cativeiro de quase 7 anos nas mãos das Farc – Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia.

Seqüestrada por motivos políticos, Ingrid passou fome e sofreu grandes humilhações, vivendo em condições humanas precárias como prisioneira na selva amazônica. Narrado em forma de thriller de aventura (e aí está o diferencial da obra), o livro é um convite à reflexão sobre as questões sociais que afligem o continente sul-americano.

Com uma linguagem belíssima e poética, clara e contundente, Ingrid mostra aos seus leitores que, mesmo em condições de extrema penúria, a esperança é a última que morre. E, tal como Nando Parrado, nos mostra que o oposto da morte não é a vida, mas o amor.


3) Templo, de Matthew Reilly

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Aqui está um tipo de livro de aventura que eu não via desde a época antiga de Michael Crichton. Aliás, como disse um conceituado jornal americano (que agora esqueci o nome), "Reilly é o Michael Crichton da Austrália".

Pois bem. Templo é um thriller despretensioso que tem como personagem principal um jovem professor de latim, William Race, chamado às pressas para compor uma equipe organizada pelo governo. Missão: seguir as instruções de um manuscrito lendário e, assim, encontrar um ídolo perdido na selva inca, ídolo esse talhado em uma pedra que possui uma substância propícia à construção de uma arma de destruição global, etc. E isso deve ser feito antes que um grupo neo-nazista ponha as mãos no artefato.

No entanto, à medida que a aventura se desenrola, Race percebe que o governo americano está de sacanagem e lhe esconde alguma informação importante.

Mesmo com essa sinopse clichê e tendenciosa, Templo é um livro que vale a pena por causa da história divertidíssima. Entretenimento garantido, cheio de reviravoltas, suspense e surpresas…


4) Quando só restar o mundo, de Mauro Pinheiro

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Desiludido com o trabalho e com as pessoas, deprimido por ter sido abandonado pela namorada que caiu na estrada e foi embora para a Bahia, Pedro Paulo pede demissão do emprego de corretor financeiro e embarca numa jornada de carro através do Brasil.

Seu objetivo, inicialmente, é sair do Rio de Janeiro e reencontrar Dalva, a ex-namorada que fugiu para a Bahia; acontece que, durante o percurso, Pedro Paulo conhece Serena, uma atraente mulher que vaga pelas estradas com o filho pequeno e que tem um passado misterioso. A partir desse encontro com Serena, a história do protagonista toma um novo e surpreendente rumo.

Quando só restar o mundo é a afirmação da maturidade artística de Mauro Pinheiro, autor elogiado por Antônio Houaiss e que traz em seus livros sempre um viés poético e filosófico, além de um vasto panorama do território brasileiro.


5) O Palácio de Espelho, de Amitav Ghosh

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Mestre consumado em evocar épocas e civilizações passadas, Amitav Ghosh escreveu O Palácio de Espelho a fim de contar, em forma de romance, todo o processo que levou a Birmânia, a Índia e a Malásia à modernidade, abarcando um período que vai desde o final do século XIX até meados dos anos 2000.

É difícil traçar uma sinopse precisa desta monumental e ambiciosa obra, porque são várias as histórias que regem o enredo. Mesmo assim, o eixo central parece girar em torno do personagem Rajkumar Raha. O livro tem início com Rajkumar ainda criança, já órfão, trabalhando na casa de uma senhora na Birmânia. É aí nesse país que ele, por acaso, entra em contato com Dolly, uma bela pajem da rainha.

Depois que a Grã-Bretanha ocupa a Birmânia e Dolly é obrigada a acompanhar a Família Real no exílio à Índia, Rajkumar adere ao crescente negócio de exportação de madeira, se torna um homem rico e, nunca tendo esquecido seu amor de infância, parte em busca de Dolly.

Dono de uma linguagem com clareza primorosa, Ghosh consegue transformar um romance épico romântico em algo extremamente interessante e rico, perfeitamente explorado por todos os lados, recheado de detalhes históricos.


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O Cubo de Rubik solucionado, enfim! (Foto tremida, eu sei)


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Cubo de Rubik, estante nacional e o pingüim natalino que perdeu o chapéu


É isso! E que venham ótimas leituras em 2011! Aliás, este é um ano que promete coisas boas… Mar de papoulas, Latitudes piratas e, provavelmente, algum romance de Haruki Murakami traduzido pela Alfaguara.

E um Feliz Ano-Novo atrasado para todos! :P

09 janeiro 2011

Filme: Um olhar do Paraíso

Uma boa história e efeitos visuais fantásticos fazem de Um olhar do Paraíso um filme imperdível

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Entre os meus amigos mais chegados, já virou motivo de piada o fato de eu só gostar de filmes mal-recebidos pela crítica cinematográfica. Foi assim com A vila, de M. Night Shyamalan, Fim dos tempos (do mesmo diretor, diga-se de passagem)… e agora, para completar o quadro, adorei o mais recente filme do neozelandês Peter Jackson, Um olhar do Paraíso (The lovely bones, 2010).

Que, infelizmente, tanto a crítica quanto o público não hesitaram em massacrar.


Sinopse: Susie Salmon é uma garota de 14 anos que vive no subúrbio da Filadélfia, com os pais e dois irmãos – uma pré-adolescente da idade de Susie e um menino menor. A família é mergulhada em uma rotina perfeita e comum, com pais adoráveis e filhos adoráveis; mas tudo muda quando, certa tarde, Susie é estuprada e brutalmente assassinada por um dos vizinhos, o psicopata George Harvey.

Depois de sua morte, Susie passa a habitar um mundo fantástico (o Céu?), em que, na companhia de uma garotinha também pós-morte, poderá acompanhar o drama das pessoas que ela deixou para trás.


Assisti ao filme na semana retrasada, poucas horas depois da primeira meia-noite de 2011, e já posso afirmar, sem medo, que Um olhar do Paraíso foi um dos melhores filmes que vi até hoje. Pode parecer uma afirmação leviana e impulsiva, fanática, mas não é. Mesmo depois de vários dias, continuo dizendo que ele é um dos melhores.

Às vezes é difícil para mim entender por que um longa-metragem tão bom (pelo menos, normal) pode ser tão duramente criticado pela maioria das pessoas, a ponto de o chamarem de "o pior de 2010", "vergonhoso" e "puramente vazio". Por que tamanha aversão por um filme que é, repito, pelo menos normal?

E o pior de tudo é que, de todas as críticas negativas que li, nenhuma me pareceu ter argumentos suficientemente convincentes. Falarei delas mais adiante.

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Para começo de história, os produtores do filme tiveram a felicíssima idéia de não inserir o pós-morte de Susie no mesmo plano clichê daqueles fantasmas que estão circulando entre os vivos, mas que não conseguem interagir com eles porque são invisíveis e não podem mexer nenhum objeto (como o espectro de Patrick Swayze em Ghost, embora Ghost seja um filme excelente).

Em Um olhar do Paraíso, a coisa não é assim, o que torna o filme muito mais original: o mundo fantástico em que a protagonista está inserida interage com o mundo "dos vivos" de uma maneira muito mais simbólica, quase junguiana, e assim o telespectador vai captando pistas interessantes que fazem o elo entre o mundo de lá e o de cá. Por exemplo, a cena das garrafas-caravelas se quebrando na orla da praia, que é impagável. Há também a cena do reflexo da chama da vela no vidro da janela, belíssima, em que o pai "entra em contato" com Susie pela primeira vez.

Idéia semelhante pode ser vista no filme Amor além da vida, com Robin Williams. Aliás, paralelos entre esses dois filmes são quase que obrigatórios. Um olhar do Paraíso pega emprestado muitos cenários do filme de Williams, incluindo a evidente sugestão das cores vivas. Até mesmo algumas cenas são parecidíssimas, como a da árvore se desfolhando ou da protagonista sendo tragada por uma espécie de grama aquática.


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Pela seleção de fotos que eu estou colocando aqui, acho que dá para ter uma idéia da qualidade visual do longa. E me refiro não só ao tocante aos efeitos especiais, mas à fotografia de um modo geral: à imagem do filme. Movimentações de câmera agradáveis, iluminação fora de série, paisagens de tirar o fôlego, seqüências de prender a atenção de qualquer um.

Na minha opinião, uma das características mais marcantes do filme é a coexistência de elementos chocantes e belos ao mesmo tempo, em um mesmo plano narrativo. Embora Um olhar do Paraíso seja por demais açucarado (e essa foi uma das maiores críticas a ele), os elementos violentos continuam lá, assombrando o telespectador – pelo menos, assombraram a mim.

A questão do estupro, mesmo não tendo sido mostrada de maneira explícita, é óbvia, e isso mexeu comigo. Além do mais, a garota foi esquartejada, que é outra coisa que salta aos olhos durante o filme. Então, o que mais queriam? Sexo explícito? Violência gratuita? (Diga-se de passagem, uma das cenas é banhada em sangue.)

Achei de muito bom gosto – e é algo que evidencia a habilidade de Jackson – apenas sugerir as coisas, poupando tomadas violentas desnecessárias, que em nada acrescentariam à história. E, ainda assim, chocar o telespectador.

Outra crítica muito freqüente e pouco convincente afirma que o filme é desprovido de propósito e muito confuso. Falando com franqueza, não consegui achar nada de confuso em Um olhar do Paraíso (e não me considero nenhum expert em filmes), até porque a trama toda é encaixada e arrumada de um jeito que o telespectador sempre consegue acompanhar. No mais, a história despertou em mim reflexões sobre a inesgotável questão da vida após a morte (se existe, como será), de modo que taxá-lo de "vazio" também não me pareceu cabível.


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Por fim, é preciso confessar que não acho o filme totalmente desprovido de defeitos. Algumas coisas no roteiro (especificamente no roteiro) poderiam ser aparadas e modificadas, claro. Isso eu não nego. E só não menciono aqui o que eu queria que mudasse porque estaria revelando informações do enredo – em outras palavras, spoilers. Portanto, fica só a menção: uma ou duas cenas finais poderiam ser mudadas.

Além disso, a interpretação de um determinado ator poderia ser mil vezes melhorada e mais convincente. Estou falando dele mesmo, Mark Wahlberg (pai de Susie), cujas atuações são sempre muito criticadas por todos – e com razão. Desde muito tempo eu acho que Wahlberg força a barra em querer continuar sendo ator de cinema.

Porém, mesmo levando em conta essas pequenas falhas, incluindo cenas que certamente poderiam ser modificadas, o filme não perde seu brilho, e é, pelo menos para mim, uma das notáveis produções de 2010.


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22 novembro 2010

O Ponto de Mutação, de Fritjof Capra

"Uma das coisas mais difíceis de serem entendidas pelas pessoas em nossa cultura é o fato de que se fazemos algo que é bom, continuar a fazê-lo não será necessariamente melhor." (p. 38)

O Ponto de Mutação Fritjof Capra

Na semana passada, depois de voltar do sufoco do centro comercial da cidade, sentei na minha poltrona predileta e finalizei a leitura do livro O Ponto de Mutação (The Turning Point, 1982), ensaio bastante famoso escrito pelo físico austríaco Fritjof Capra, autor do também best-seller O tao da Física.

Capra é muito conhecido no mundo todo por sua visão holística da realidade, visão essa que condena todos os paradigmas fragmentados da Ciência e abraça uma concepção inter-dependente dos fenômenos que a própria Ciência estuda.


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Sinopse: Neste livro, Capra compara o pensamento cartesiano ao paradigma emergente no século XX. O primeiro é reducionista e modelo para o método científico desenvolvido nos últimos séculos. O segundo, holístico ou sistêmico, vê o todo como indissociável; o estudo das partes não permite conhecer o funcionamento do organismo. As comparações são feitas em vários campos da cultura ocidental atual, como a medicina, a biologia, a psicologia e a economia.


O Ponto de Mutação foi um dos melhores livros de não-ficção – provavelmente, o melhor – que li até hoje. Até então, nunca vira a Ciência tão unida, tão compenetrada, tão veiculada a um único objetivo comum. Depois de tê-lo lido, larguei de vez a idéia de que possam existir ao menos duas áreas da Ciência que não se complementam ou, pior, que se rivalizam. Isso realmente não pode existir. A natureza manifesta-se de uma forma surpreendentemente harmônica, e a Ciência, que a estuda, não pode ser diferente.

O livro é dividido em quatro grandes unidades, a saber: "Crise e transformação", "Os dois paradigmas", "A influência do pensamento cartesiano-newtoniano" e "A nova visão da realidade". No início, Capra nos alerta para a crise planetária na qual a sociedade humana, no final do século XX, está inserida. E tal crise é multifacetada, abrangendo desde problemas como a corrida armamentista  (lembrando que o livro foi escrito na década de 80) até a fome mundial e a concepção de saúde em Medicina.

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O tao da Física e A teia da vida

Na unidade seguinte, o autor traça um corte histórico da sociedade humana nos séculos passados e mostra como os pensamentos de René Descartes e, depois, Isaac Newton modelaram a concepção de mundo que até hoje nós insistimos em ter: fragmentada, causal e independente. Tal concepção cartesiana-newtoniana pode ter se mostrado muitíssimo frutífera no tempo de Descartes e Newton, mas, na nossa sociedade atual, tal visão de realidade é extremamente limitada e pouco elucidativa – portanto, ultrapassada.

E este é o principal objetivo do ensaio: mostrar como essa visão ultrapassada agora se manifesta perigosa, na medida em que aplica conceitos obsoletos a aspectos vitais de nossa existência, como por exemplo à Medicina, à Psicologia, à Economia ou à Biologia. Partindo da famosa divisão cartesiana mecanicista entre mente e corpo, os médicos negaram que processos psicológicos podem influenciar o organismo biológico, e, também, os psicólogos passaram a negar a influência do organismo biológico no nível mental.

Passeando por áreas tão diversas com uma propriedade inabalável, o autor se mostra ele mesmo holístico, interligando conceitos de uma área à outra na mesma frase ou parágrafo. Além disso, convém dizer que Fritjof Capra é um pesquisador extremamente inteligente e minucioso – o que dá gosto em sua escrita –, embora ele afirme modestamente no prefácio: "(…) estou perfeitamente cônscio de que a apresentação (…) será fatalmente superficial, dadas as limitações de (…) meus conhecimentos".

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Pôsters do filme baseado no livro

Depois de evidenciar como a concepção mecanicista de Descartes e Newton influencia negativamente a Ciência de nossa sociedade atual, Capra não abandona o leitor: pelo contrário, ele passa a explanar em detalhes aquilo que julga ser o caminho certo. Na última unidade, ele explica como a abordagem holística (também chamada de sistêmica) pode ajudar as ciências a unificar seus conhecimentos em prol de uma melhor qualidade de vida geral.

Como exemplo disso, podemos citar a forte ênfase que o autor dá ao planejamento de uma nova fonte de energia sustentável – a energia solar.

A linguagem de Capra é nitidamente acessível, e o livro O Ponto de Mutação, nas palavras do próprio, "destina-se ao leitor comum", muito embora seja necessário um grande interesse por parte do leitor para continuar com o livro nas mãos.

Posso concluir esta resenha transcrevendo alguns dos elogios feitos por alguns jornais:


"Um livro cheio de força… Informativo, provocante e radical. Com clareza devastadora, Capra mostra como, em todos os campos da Ciência, nossas teorias estão nos levando para nossa própria destruição." Carl Rodgers, Ph. D.

"O Ponto de Mutação é uma explicação bem-escrita e convincente do motivo pelo qual tantas coisas parecem erradas no mundo." The Washington Post.

"De vez em quando publica-se um livro com o poder de mudar radicalmente as nossas vidas. O Ponto de Mutação é o mais recente deles." West Coast Review of Books.


Conclusão: sem dúvida, um livro indispensável para quem deseja ampliar sua visão de mundo. Fico triste por apresentar uma resenha tão pobre sobre um livro tão rico de idéias. Vale conferir.

P.S.: O Ponto de Mutação foi, de algum modo, adaptado para o cinema. No original inglês, o longa levou o título de Mindwalk, mas aqui no Brasil o nome permaneceu o mesmo do livro. Abaixo, uma parte do filme bem interessante:

Trecho do filme "O Ponto de Mutação"